Água subterrânea do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital mostra sinais de tensão. Um novo estudo indica que os níveis de água subterrânea em partes do país estão caindo em taxas comparáveis às observadas em alguns dos sistemas de aquíferos mais explorados do mundo.

Parintins, Brasil, setembro de 2023. Barcos ficam à beira de um rio cujo nível de água caiu devido à seca. Crédito: Aguilar Abecassis/dpa/Alamy Live News

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A água sempre foi central para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. Dos rios do Amazonas às enchentes sazonais que transformam o Pantanal em um dos maiores pântanos do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas de dinâmica do lençol freático no Brasil usando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um cenário misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam quedas persistentes ligadas à expansão agrícola, atividade mineradora, variabilidade climática e crescente demanda por água.

Segundo os pesquisadores, o declínio da água subterrânea observado em alguns aquíferos brasileiros se assemelha a padrões documentados em sistemas de água subterrânea fortemente estressados em Bangladesh, Índia, Irã e EUA, revelam pesquisadores.

estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis.

A água subterrânea fornece aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e sustenta mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, ela fornece um amortecedor crítico durante secas e ajuda a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais diminuem.

Apesar de sua importância, o monitoramento das águas subterrâneas continua limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

Sobre a questão de saber se a abundância histórica de água do Brasil pode ter incentivado a complacência, Getirana disse:

Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança. O que mudou é que as suposições que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro.

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou uma série de grandes crises de água, incluindo a crise do racionamento de eletricidade em 2001, as severas secas de 2014–2015 e a escassez de água que afetaram várias regiões em 2021. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água.

A água subterrânea tem se tornado cada vez mais parte da solução. O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água aumentou o suficiente para deixar uma pegada detectável no armazenamento de água subterrânea.

O Brasil não enfrenta insegurança hídrica em todo o país atualmente, mas esses achados sugerem que a confiança tradicional do país em recursos hídricos abundantes pode precisar ser reconsiderada em um clima em mudança e sob demanda crescente.

Pressão sob o Cerrado

Alguns dos sinais mais fortes de declínio da água subterrânea ocorrem no centro do Brasil, especialmente em partes do Cerrado e nas bacias de São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por extensa expansão agrícola.

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado por hidrólogos como uma das paisagens mais importantes produtoras de água da América do Sul. Grandes sistemas fluviais têm origem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias da Amazônia, Paraná e São Francisco.

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada.

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos passaram por anos em que pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea ocorria. Naqueles anos, a chuva não conseguiu repor as reservas subterrâneas em taxas históricas. Pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea muito utilizados.

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a enfraquecer, a extração de água subterrânea pode se tornar cada vez mais difícil de sustentar durante secas prolongadas.

A bacia de São Francisco emergiu como uma das regiões que experimentaram as maiores perdas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo de água, seca, mudanças na cobertura do solo e mudanças nos padrões de chuva.

Como observado por Getirana, a água subterrânea pode mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões:

Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são tipicamente as primeiras fontes de água a diminuir. As florestas ajudam a sustentar os recursos hídricos promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciar a circulação atmosférica regional e os padrões de chuva. Aquíferos frequentemente servem como reserva de longo prazo, a conta de poupança do sistema hidrológico.

Nossos resultados sugerem que os sistemas de água subterrânea estão se tornando menos confiáveis em regiões onde a demanda por água é maior. As quedas mais fortes no armazenamento ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes naturais de segurança estão sendo pressionadas por um aumento crescente.

A Amazônia

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora os pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis, as mudanças não são uniformes em toda a bacia.

Getirana e colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até experimentaram ganhos no armazenamento de água subterrânea. Esses achados sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes sob condições ambientais favoráveis.

Perto de Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais.

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em várias áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis para declínios mais persistentes.

Secas recentes levaram os rios Amazonas a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando os ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu inundações severas. Os pesquisadores observam que as condições da água subterrânea podem influenciar o risco de enchentes porque sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuva adicional, aumentando o escoamento.

Em conjunto, esses achados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Refletindo sobre a importância mais ampla das descobertas, Getirana disse:

Acho que uma das lições mais amplas é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do mundo, mas nossos resultados mostram que os sistemas de água subterrânea ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, a mudança no uso do solo e o aumento da demanda por água atuam juntos.

Muitas sociedades historicamente trataram os recursos naturais como efetivamente inesgotáveis porque pareciam abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.

A água subterrânea é particularmente importante porque é em grande parte invisível. Ao contrário de rios ou reservatórios, mudanças no subsolo podem passar despercebidas por anos ou até décadas. Estudos como este ajudam a tornar essas mudanças ocultas visíveis antes que se tornem problemas maiores.

Incêndio, mineração e extração de água subterrânea

O Pantanal, o maior pântano tropical do mundo, também está enfrentando pressão crescente.

Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso do solo e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos secos.

A atividade de mineração também contribui para pressão adicional em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para apoiar as operações de mineração. Isso pode reduzir o nível da água subterrânea, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em grande escala alterou os sistemas de água.

Ao redor do Mar Morto, décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração do lençol freático contribuíram para uma queda dramática nos níveis da água, acelerando o recuo da linha costeira e formando milhares de dolinas.

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil levantou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nos lençóis freáticos, áreas úmidas e sistemas conectados de água doce.

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao Rio Madeira, uma das vias navegáveis mais importantes da Bacia Amazônica. Embora as consequências de longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

Um desafio emergente

O Brasil não está ficando sem água, mas recursos abundantes não eliminam vulnerabilidades.

O estudo constatou que apenas uma fração da chuva chega, em última análise, alcança e repõe as reservas de água subterrânea. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar enfraquecendo.

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos muitas vezes são vistos principalmente como escassez de chuva.

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas aceleram e a pressão sobre os recursos de terra e água aumenta, é provável que a água subterrânea se torne um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil.

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto ao crescente conscientização pública sobre questões de segurança hídrica:

Estudos sobre disponibilidade de água, seca, água subterrânea e impactos climáticos estão cada vez mais alcançando a grande mídia e o debate público. O conhecimento científico sozinho não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.

O fato de que a segurança das águas subterrâneas e da água estão se tornando temas de conversa nacional no Brasil é animador. Quando a ciência alcança o público e informa a tomada de decisões, cria oportunidades para melhorar o monitoramento, o planejamento e a gestão da água a longo prazo.

Quando questionado sobre o que as pessoas poderiam ver, daqui a décadas, como a primeira indicação de que os sistemas de água subterrânea do Brasil estavam sob pressão, Getirana disse:

O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essas informações façam parte do processo de tomada de decisão. Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta vieram da combinação de observações de satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.

Por décadas, o Brasil baseou-se na suposição de que recursos hídricos abundantes compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. As evidências apresentadas neste estudo sugerem que proteger as águas subterrâneas pode se tornar tão importante quanto proteger rios, florestas e áreas úmidas nas próximas décadas.


Fonte: YourVoiz

Agrotóxicos, desmatamento e crise hídrica: como o agronegócio aprofunda as mudanças climáticas no Brasil

A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática

Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.

Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.

Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.

Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.

A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.

Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.

O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.

As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.

Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.

Fim da moratória da soja ameaça aumentar o desmatamento no Brasil

Os comerciantes de soja veem a moratória como um obstáculo ao crescimento. Organizações ambientais estão protestando. As relações com a Europa e a China podem ser tensas

O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira
O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira. Fonte:Conselho Unido de Soja.  Licença:CC BY 2.0
 Por Ulricke Bickel para “Amerika21” 

 A Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE), que inclui os principais comerciantes de soja do mundo ADM, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus, retirou-se da moratória da soja em 15 de fevereiro. Isso pode aumentar o desmatamento na Amazônia em até 30% até 2045 e emitir milhões de toneladas de carbono, além disso, colocar em risco o alcance das metas climáticas do Brasil.

Em 2006, quase todos os grandes produtores e exportadores brasileiros haviam se comprometido a parar o comércio de soja cultivada nas áreas recém-desmatadas da floresta tropical. Essa chamada moratória da soja da Amazon veio após uma intensa campanha internacional do Greenpeace e de outras organizações ambientais apoiadas por compradores europeus.

A ABIOVE justificou a medida dizendo que a moratória não está sendo aplicada com a mesma severidade em outros biomas, como a savana do Cerrado, onde a expansão do cultivo de soja também está destruindo milhões de hectares. Os controles aumentaram os custos e limitaram a expansão da competição global.

As organizações ambientais Greenpeace, WWF e Imaflora, por outro lado, descreveram a retirada das empresas em uma declaração conjunta como um “passo sério para trás para o meio ambiente” e apontaram que isso poderia levar à destruição de 9,2 milhões de hectares de floresta.

O cultivo de soja é um dos setores econômicos mais importantes do Brasil, representando 15% de todas as exportações. As grandes empresas comerciais, por sua vez, controlam cerca de 70% do comércio global de grãos. A decisão deles de abandonar os compromissos ambientais é um sinal para os mercados financeiros, fundos de investimento e produtores agrícolas.

Além de milhões de hectares de floresta tropical, bilhões de dólares americanos em comércio exterior, investimentos e financiamentos de acordo com os chamados critérios ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) para a consideração de questões ambientais, de sustentabilidade e sociais na governança corporativa e investimentos públicos também estão em risco.

A moratória mostrou que as condições podem levar a melhorias na proteção ambiental. Em 2004, o Brasil viveu um pico de destruição florestal; a Amazônia perdeu quase 27.700 km². Como resultado dos controles governamentais e da pressão do mercado, o desmatamento caiu drasticamente nos dez anos seguintes, atingindo um nível historicamente baixo de cerca de 4.500 km² por ano. O monitoramento da região amazônica com a ajuda de satélites desempenhou um papel fundamental nisso. Segundo o Greenpeace, a destruição florestal nas regiões monitoradas caiu quase 70%.

Nos últimos 20 anos, entretanto, a área de cultivo de soja no Brasil aumentou de cerca de 22 milhões para mais de 44 milhões de hectares. Isso se deve, por um lado, à conversão de áreas já desmatadas na floresta tropical, por exemplo pastagens, e por outro lado à expansão das áreas de cultivo fora da floresta amazônica, em detrimento de savanas biodiversas como o Cerrado. Cada hectare de soja produz entre $1.000 e $1.500 por ciclo; O incentivo econômico é enorme. A soja é particularmente procurada como ração para a indústria da carne.

A Amazônia brasileira cobre mais de quatro milhões de km² e (ainda) armazena cerca de 100 bilhões de toneladas de carbono. Cada área desmatada não só destrói a biodiversidade, como também libera enormes quantidades de CO₂. A Amazon funciona como uma bomba que recicla a umidade. O aumento do desmatamento também piora o regime de precipitação na América do Sul. O cultivo de soja, que impulsiona o desmatamento, depende paradoxalmente do equilíbrio climático que a floresta garante.

A Amazônia está em um “ponto crítico sem retorno” (relatado pelo amerika21). Segundo a ciência, o ecossistema pode se transformar em uma savana degradada se o desmatamento ultrapassar 20 a 25% do bioma. Cerca de 17% da área florestal original já foi perdida.


Fonte: Amerika21

A crescente crise hídrica do Brasil

Cientistas alertam o Brasil entrando em uma crise oculta da água com consequências globais

Em frente ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa está o Rio Negro, que é o maior afluente esquerdo do rio Amazonas, que por sua vez é o maior rio de águas negras do mundo. Imagem: Dennis Jarvis / Creative Commons 2.0. 

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Ao nascer do sol ao longo do Rio Negro, os pescadores frequentemente falam da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo pelos níveis e marcam as estações pelas correntes.

Por gerações, os cursos d’água em toda a Amazônia moldaram a vida cotidiana. Agora, esses ritmos familiares estão se tornando mais difíceis de ler e confiar.

As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono, elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.

Alimentação

À medida que o desmatamento e a degradação aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise oculta da água com consequências globais.

O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ela possui cerca de 12% das reservas mundiais de água doce, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce do planeta.

O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e agricultura por toda a América do Sul.

No papel, o Brasil parece seguro em termos de água. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente dos ecossistemas que estão gradualmente perdendo a capacidade de regular a precipitação e o fluxo dos rios.

Augusto Getirana, pesquisador do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, falando em caráter pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o fornecimento global de alimentos.

Riqueza

“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities dependentes de água”, disse ele ao The Ecologist.

“Uma crise da água no Brasil que resulta em interrupção na produção doméstica de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação na Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola impulsionada pelas exportações do Brasil, estão diretamente ligados à crise hídrica.

“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias.

“Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com consequências severas para os ecossistemas e a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder entre grandes proprietários de terras.”

Uma rede de água

O sistema hídrico do Brasil depende de uma parceria delicada entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, formam uma vasta rede hidrológica que move a umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidroelétricas em grande parte da América do Sul.

Reduzir o tamanho do rebanho de gado ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica. 

A insegurança hídrica no Brasil não é apenas sobre a queda das chuvas. Pesquisadores descrevem isso como o enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance.

Pesquisas da Universidade de São Paulo estimam que o desmatamento amazônico representa cerca de 74,5% da redução das precipitações e aumento de 16,5% da temperatura durante a estação seca.

A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água da América do Sul. As árvores extraem umidade do solo e a liberam para a atmosfera, gerando correntes de ar úmido frequentemente descritas como “rios voadores”.

Essas correntes de ar invisíveis transportam a chuva muito além da floresta, sustentando regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem das chuvas que abastecem o sistema hídrico de Cantareira em São Paulo depende da umidade originária da Amazônia.

Para muitos brasileiros, essas correntes de água atmosférica são invisíveis, mas seus efeitos influenciam quando as culturas crescem, os reservatórios se enchem e se os rios permanecem navegáveis.

Segundo a Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) do Brasil, em 30 de janeiro, o sistema Cantareira estava em operação com 22%.

À medida que as florestas encolhem, os cientistas alertam que esse processo de reciclagem de umidade enfraquece. A redução da cobertura arbórea significa menos umidade no ar, a precipitação se torna mais irregular e os fluxos dos rios se tornam cada vez mais instáveis. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras apresentam chuvas intensas em períodos mais curtos.

Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. Solos mais secos reduzem a recarga do lençol freático, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.

Eventos climáticos em grande escala, como El Niño, La Niña e condições quentes no Atlântico Tropical Norte (NTA), só aumentam a pressão, desencadeando enchentes ou secas que se espalham por sistemas fluviais e aquíferos.

Ao longo das vias navegáveis da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável é menos instável e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando vilarejos e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais.

A fonte de água negligenciada do Brasil

Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, os cientistas enfatizam que o Cerrado desempenha um papel igualmente crítico na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Cobrindo aproximadamente um quarto do país, o bioma alimenta grandes sistemas fluviais, incluindo São Francisco, Paraná e Tocantins.

Gatti ressaltou que o bioma do Cerrado é fundamental para a sustentação dos sistemas hídricos e bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a chuva se infiltre gradualmente e recarregue as reservas de água subterrânea.

“Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida corretamente. O solo fica exposto e a água escorre em vez de penetrar o solo.”

Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependem desses riachos alimentados por águas subterrâneas para agricultura, pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.

Mas o Cerrado está desaparecendo rápido. O cultivo de soja, a criação de gado e a monocultura em grande escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas de raízes rasas captam menos água, reduzem a recarga de água subterrânea e aceleram a erosão do solo. Os riachos que antes sustentavam comunidades rurais agrícolas estão diminuindo ou desaparecendo completamente.

Expansão da pressão industrial

O setor agrícola do Brasil tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressão sobre os recursos hídricos.

A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escorrem para sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio no Brasil.

Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities no sustento do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento, enquanto países como os Estados Unidos, a Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam a comprar produtos ligados ao desmatamento.

“Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”

Incêndios introduzem outra camada de risco. Paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de enchentes durante períodos chuvosos e piorando as condições de seca durante meses secos. Incêndios recorrentes estão alterando a composição das florestas em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.

Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono já registradas, principalmente devido a incêndios. O ministério da ciência, tecnologia e inovação (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios da Amazônia como zero líquidas em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”

Em 2024, incêndios atingiram 3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando cerca de 791 milhões de toneladas de CO₂, aproximadamente o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios foi superada pelo desmatamento como principal responsável por carbono na Amazônia.

As operações de mineração sobrecarregam ainda mais os sistemas de água. Os cursos dos rios às vezes são desviados, florestas desmatadas e cursos d’água contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce segura disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.

Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, os fluxos de rios e os padrões de chuva podem se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbana.

O Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) descreve esse desafio emergente como “falência de água”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza pode reabastecê-la.

Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, impulsionar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.

Política

Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.

Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto de 2025, o Decreto 12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao gasoduto de privatização do Brasil para expandir o transporte marítimo ao longo do Arco Norte.

Hidrólogos e comunidades ribeirinhas alertam que dragar leitos de rios e remover rochas para manter essas rotas abertas para navios cargueiros maiores pode interromper o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de enchentes.

Em uma bacia já sobrecarregada por secas crescentes, essas mudanças podem enfraquecer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas que dependem deles.

Getirana destacou que a emergente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil se basearam na ideia de que é um país rico em água.

“Decisões políticas ruins que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade de água não têm relação com partidos ou ideologias. É a cultura do país. Isso vem acontecendo há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.

“Uma mudança política precisa, primeiro, de uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma forma de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e finanças.”

Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. Promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais porque partes da Amazônia já podem estar se aproximando de pontos de inflexão ecológica.

“Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram em grande parte inalteradas.”

Recuperação

Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.

Gatti explicou que várias medidas podem fazer uma diferença considerável na segurança hídrica do Brasil: “Zero desmatamento em todo o país até 2027, não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.

“Reduzir o tamanho do rebanho de gado, estabelecer limites para a agricultura em monocultura em grande escala e exigir restauração florestal em paisagens agrícolas ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.

“Expandir os sistemas agroflorestais em grande escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico enquanto mantém a produtividade agrícola.”

Getirana argumentou que reformar a governança hídrica deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que reformar a governança hídrica seria a base para outras medidas, como restaurar terras degradadas e enfrentar a mitigação climática. Além disso, políticas que previnam a poluição da água podem ter impactos quase imediatos.”

Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como seres vivos poderia proporcionar uma proteção ambiental mais forte. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds está explorando como tais estruturas legais podem ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.

Para as comunidades ao longo do Rio Negro e por todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios são menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está em declínio. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.

Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país, mas também a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente.

Esta Autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Grilagem, desmatamento e roubo das águas no Cerrado

Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina

Grilagem: Demora da Justiça em disputa ameaça famílias no PI

Por Bruno Santiago para “Lemonde Diplomatique”

Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas? 

Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós. 

Essa é a realidade vivida neste mês pela Comunidade Tradicional Grinalda do Ouro, no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina. 

Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas. 

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança. 

Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora. 

“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda. 

O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água. 

Ilegalidade da ação 

Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção. 

Em requerimento enviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.  

Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis. 

“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 

A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade. 

Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil. 

Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda. 

“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio. 

Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado. 

Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.  

Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado. 

Roubo das águas 

Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.  

Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício. 

A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.  

Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”. 

“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.  

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

Vidas envenenadas 

Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja. 

“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade. 

Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária. 

Reivindicações 

A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno. 

Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.  

Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.  

Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.  

Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.  

Até o momento da publicação deste texto as máquinas seguem trabalhando na comunidade, derrubando árvores, perfurando a terra e devastando vidas. 

Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


Fonte: LeMonde Diplomatique

Do Brasil à Grã-Bretanha: o custo oculto da soja e da carne bovina na destruição do Cerrado

Frequentemente negligenciado nos debates globais sobre conservação, o Cerrado brasileiro está sendo rapidamente transformado pela agricultura industrial, com o comércio com o Reino Unido desempenhando um papel direto na perda de sistemas hídricos, biodiversidade e estabilidade climática

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Com o aumento da demanda global por commodities, o Cerrado brasileiro está desaparecendo em um ritmo alarmante, com consequências que vão muito além da América do Sul. Essa extensa área mista de campos, savanas e florestas desempenha um papel fundamental nos sistemas hídricos e no clima da América do Sul, mas é um dos ecossistemas mais ameaçados do continente

A destruição do Cerrado chega ao Reino Unido através dos alimentos que consumimos, transformando uma crise regional em uma responsabilidade compartilhada com consequências globais.

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation constatou que mais da metade da vegetação nativa do Cerrado desapareceu, principalmente nas últimas cinco décadas. Isso corresponde a aproximadamente 1.000.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, agora substituída por terras agrícolas, pastagens e cidades em expansão.

Frequentemente descrito como o motor hidrológico do Brasil, o Cerrado alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do país. Sua contínua degradação ameaça a segurança hídrica muito além de suas fronteiras, com consequências sentidas em grande parte da América do Sul.

Segundo Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e principal autor da revisão, os danos ecológicos vão muito além da perda de habitat:

A consequência mais urgente é a ruptura do papel do Cerrado como regulador hídrico continental.

A perda da vegetação nativa reduz a recarga dos aquíferos, seca rios que abastecem importantes bacias hidrográficas na América do Sul e agrava secas e ondas de calor extremas.

Ao mesmo tempo, estamos perdendo biodiversidade única e enormes reservas subterrâneas de carbono, o que torna essa destruição uma ameaça direta tanto para as espécies quanto para a estabilidade climática.

O Cerrado é o segundo maior ecossistema da América do Sul, depois da Amazônia, ocupando 23% da superfície do Brasil.

Os autores da revisão usam o termo “Ecodomínio” para se referir a grandes áreas ecológicas que incluem múltiplos ecossistemas, biomas e ecorregiões. O termo descreve essas regiões como existiam em sua extensão original, independentemente de seu estado atual de conservação.

Soja e carne bovina

A destruição do Cerrado não é impulsionada apenas pelo Brasil; está intimamente ligada à demanda global por soja e carne bovina, commodities que vinculam essa paisagem diretamente ao sistema alimentar e à pegada climática do Reino Unido.

A agricultura industrial é responsável por grande parte dessa perda. Desde o início do monitoramento por satélite em 2001, mais de 326.000 quilômetros quadrados do Cerrado foram desmatados, às vezes em ritmo mais acelerado do que até mesmo na Amazônia.

As plantações de soja e as fazendas de gado dominam hoje grandes áreas que antes abrigavam uma biodiversidade extraordinária. Essas paisagens, em sua maioria monoculturas, dependem de máquinas pesadas, fertilizantes e agrotóxicos, deixando pouco espaço para a recuperação dos ecossistemas.

O estudo destaca a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como um ponto focal das recentes mudanças no uso da terra, onde a expansão agrícola continua a avançar sobre a vegetação nativa remanescente.

O desmatamento está remodelando o clima do Cerrado: a estação chuvosa agora chega cerca de um mês mais tarde, a precipitação total diminuiu e as temperaturas diurnas subiram aproximadamente 1,5 ° C.

Com a chuva cada vez menos previsível, a agricultura torna-se cada vez mais dependente da irrigação. Isso cria um ciclo vicioso perigoso, acelerando o esgotamento dos recursos hídricos e aprofundando a degradação ecológica em toda a região.

Grande parte do carbono do Cerrado está armazenado no subsolo, aprisionado em raízes que podem atingir mais de 15 metros de profundidade. Essa “floresta invertida” ajuda as plantas a suportarem longos períodos de seca, enquanto silenciosamente reabastece os aquíferos.

Quando a vegetação nativa é desmatada, o carbono armazenado por longos períodos é liberado. Paisagens que antes absorviam emissões se transformam em fontes de gases de efeito estufa, intensificando as pressões climáticas que já afetam a região.

Colapso ecológico

O Cerrado desempenha um papel central no sistema hídrico brasileiro. Ele dá origem a oito bacias hidrográficas e se situa sobre três imensos aquíferos que armazenam vastas reservas de água doce. A crescente demanda da agricultura industrial, da geração de energia hidrelétrica e da expansão urbana está submetendo esses sistemas a uma pressão implacável.

A extração de água em larga escala, combinada com o uso generalizado de agrotóxicos, está contaminando solos e cursos d’água, além de esgotar as reservas subterrâneas. Os rios estão diminuindo, os ecossistemas estão se desestabilizando e a biodiversidade está declinando à medida que os sistemas hídricos perdem sua resiliência.

O desenvolvimento da energia hidrelétrica acelerou os danos. As barragens fragmentam os rios, interrompem os fluxos naturais e bloqueiam as rotas de migração dos peixes, das quais dependem tanto a vida selvagem quanto as comunidades locais. Com o tempo, essas mudanças estão remodelando fundamentalmente sistemas fluviais inteiros.

O estudo também documenta a extensa degradação causada pelo fogo, que muitas vezes não é contabilizada nos números oficiais de desmatamento. Incêndios naturais no Cerrado são raros, geralmente provocados por raios, mas estima-se que 99% dos incêndios no Brasil sejam causados ​​por atividades humanas ligadas ao desmatamento e à expansão agrícola.

Entre 1985 e 2022, cerca de 40% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez. Quase dois terços dessa área queimaram repetidamente, matando espécies sensíveis ao fogo e favorecendo o crescimento de gramíneas invasoras que aprisionam as paisagens em ciclos de degradação.

O Ecodomínio abriga cerca de 13.000 espécies de plantas, mais de 3.200 vertebrados e dezenas de milhares de invertebrados. Aproximadamente um terço de sua flora é endêmica, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar da Terra.

No entanto, apenas uma pequena parte do Cerrado está estritamente protegida. Muitas espécies ameaçadas, particularmente plantas e insetos, permanecem mal avaliadas e politicamente negligenciadas. Ecossistemas com menor cobertura arbórea, como os campos, continuam sendo subvalorizados apesar de sua imensa importância ecológica.

Não se trata apenas de proteger espécies ameaçadas. Cerca de 80 povos indígenas vivem em mais de 200 territórios reconhecidos no Cerrado, muitos deles salvaguardando os últimos trechos de vegetação intacta da região.

Por gerações, essas comunidades cuidaram da terra, guiando rios, protegendo a vida selvagem e mantendo as paisagens resilientes. Muitos territórios permanecem apenas parcialmente reconhecidos pela lei, deixando tanto as pessoas quanto os ecossistemas expostos às crescentes pressões da agricultura e do desmatamento.

Rodolfo Salm, ecologista, ativista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos autores da revisão, afirma que as lacunas legais atuais têm raízes em uma longa história de desapropriação, agora reforçada por novas leis:

Durante grande parte da história do Cerrado, os povos indígenas foram progressivamente expulsos de seus territórios, primeiro pela pecuária, depois pela produção de grãos em larga escala. Esse processo se acelerou com a mudança da capital do Brasil para Brasília e se intensificou sob a ditadura militar das décadas de 1960 e 70.

Hoje, a recém-aprovada Lei do Marco Temporal , que restringe o direito ao reconhecimento legal de um território indígena às áreas que eram efetivamente ocupadas por povos indígenas na época da Constituição de 1988, combinada com complexas barreiras legais e burocráticas, tornou o reconhecimento de novas terras indígenas no Cerrado praticamente impossível.

Isso representa um duro golpe para a biodiversidade, pois os territórios indígenas estão entre as áreas mais eficazes e confiáveis ​​para a proteção dos ecossistemas.

A participação do Reino Unido no Cerrado

Muitas pessoas no Reino Unido ficariam surpresas ao saber o quão intimamente suas dietas estão ligadas a essa paisagem distante.

A Grã-Bretanha importa milhões de toneladas de soja por ano, a maior parte destinada à alimentação animal. Cerca de 90% é direcionada à pecuária, principalmente aves e suínos, o que liga diretamente a destruição do Cerrado à cadeia de abastecimento de carne.

Somos profundamente dependentes do resto do mundo, importando cerca de 40 a 50% dos nossos alimentos. E grande parte disso provém de regiões que também estão sendo duramente atingidas pelos impactos climáticos de que temos falado, disse o Professor Paul Behrens na Reunião Informativa Nacional de Emergência em Londres, em novembro passado.

Investigações da ONG Mighty Earth mostram que os principais comerciantes globais que abastecem os mercados do Reino Unido e da Europa continuam a obter soja de áreas ligadas à destruição do Cerrado, apesar dos repetidos compromissos públicos com a sustentabilidade.

A Mighty Earth também alertou que as regras de due diligence pouco rigorosas do Reino Unido podem transformar a Grã-Bretanha em um depósito de soja e carne bovina ligadas ao desmatamento, à medida que as empresas desviam o fornecimento de alto risco de mercados mais rigorosamente regulamentados.

Apesar das promessas do governo, as importações britânicas de soja e carne bovina continuam a impulsionar a destruição do Cerrado por meio das cadeias de suprimento de ração animal.

Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos autores da revisão, explica por que os compromissos voluntários e os códigos de sustentabilidade não atingiram seus objetivos, destacando os impactos indiretos negligenciados da produção de commodities:

A maior parte da expansão da soja na Amazônia e no Cerrado ocorre não por meio do desmatamento direto, mas pela conversão de pastagens de gado em plantações de soja. Essa transformação geralmente resulta da venda de terras por pecuaristas para plantadores de soja, em vez da conversão deles próprios para o cultivo da soja.

Como as terras adequadas para o cultivo de soja têm preços elevados, os pecuaristas frequentemente usam o dinheiro para comprar extensões muito maiores e mais baratas de floresta tropical no interior da Amazônia, o que indiretamente impulsiona ainda mais o desmatamento. Esses impactos indiretos escaparam, em grande parte, de todos os sistemas de monitoramento e certificação existentes.

O Reino Unido pode estabelecer regras juridicamente vinculativas para empresas fornecedoras de produtos como a soja, exigindo que elas prestem contas dos impactos ambientais diretos e indiretos. Ao monitorar esses efeitos combinados, o Reino Unido poderia evitar o fornecimento de soja associada ao desmatamento generalizado tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

O Regulamento de Produtos Florestais de Risco do Reino Unido (UKFRC, na sigla em inglês), previsto na Lei Ambiental de 2021, ainda não entrou em vigor. E como a lei visa apenas o desmatamento ilegal, vastas áreas de terra que foram legalmente convertidas, mas que ainda assim estão destruindo habitats únicos, permanecem desprotegidas.

Grande parte desses danos permanece invisível. A soja necessária para a alimentação animal é uma “pegada fantasma”, invisível nos rótulos, mas muito real em termos climáticos e ecológicos.

Pereira afirma que os responsáveis ​​pela destruição do Cerrado são bem conhecidos e, em grande parte, tolerados:

A rápida destruição do Cerrado é impulsionada principalmente pela expansão do agronegócio, especialmente o cultivo de soja e a pecuária, facilitada por políticas permissivas de uso da terra e fiscalização deficiente.

Diferentemente da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege corporações e cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.

Um aviso e uma escolha

Segundo o relatório da Nature Conservation, o Cerrado está sendo levado ao colapso.

Fearnside alerta que a destruição contínua do Cerrado não é apenas uma crise regional, mas um risco global, que acelera as alterações climáticas e prejudica os sistemas hídricos, a biodiversidade e as comunidades que deles dependem:

A perda do Cerrado contribui diretamente para o aquecimento global e para a interrupção do ciclo da água, assim como o desmatamento da Amazônia. Juntos, esses processos destroem a biodiversidade e as sociedades humanas que dependem da vegetação nativa.

As práticas atuais estão levando o clima global a pontos de inflexão que, se ultrapassados, seriam devastadores não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Evitar esse desfecho exige mais do que apenas proteger as florestas: significa acabar com o desmatamento do Cerrado e da Amazônia e interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Para o Reino Unido, o Cerrado não é um problema distante. Seu destino está diretamente ligado às nossas importações, dietas e escolhas diárias. A responsabilidade climática começa muito antes da linha costeira, em nossas cozinhas, em nossos pratos e por meio das escolhas que fazemos todos os dias.

Imagem em destaque: O primeiro-ministro Sir Keir Starmer (à esquerda) reunindo-se com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para um encontro bilateral em Nova York, antes de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Alamy/Leon Neal


Fonte: Your Voiz

Crise hídrica espalha efeitos pelo Brasil: combinação de desmatamento e mudanças climáticas agrava problema

Bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Cemaden é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível

Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica  espalha efeitos pelo país

Reservatório Paulo de Paiva Castro, que faz parte do Sistema Cantareira: ele regula o fluxo de água que, no fim da linha, abastece a Grande São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025

Por Ana Lucia Azevedo para “O GLOBO”

Choveu, mas não resolveu. A água que caiu nos últimos dias, no maior volume da estação chuvosa iniciada em outubro, trouxe alívio temporário para o calor e provocou transtornos, mas não tirou do nível crítico os rios dos quais depende a maior parte da população do Brasil. As bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível.

— Não choverá o bastante para recuperar reservatórios, sobretudo no Sudeste. A estação seca começa em março e irá até outubro, quando as chuvas deveriam voltar. A situação está crítica e pode piorar. Será preciso planejar muito bem — destaca o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden.

A crise não brotou de hora para outra. É fruto de anos seguidos de pouca precipitação e menor umidade. Esses problemas, por sua vez, decorrem de mudanças climáticas e, em especial, do desmatamento, frisam cientistas. Menos cobertura vegetal, menos evaporação e, consequentemente, menos vapor d’água e umidade no ar para fazer chover.

As florestas e a vegetação nativa de Cerrado também captam e fixam a água no subsolo, formando nascentes e evitando a erosão que assoreia rios. A evaporação de uma área de pastagem é, em média, de quatro a cinco vezes menor do que à de uma com cobertura vegetal nativa (o valor varia com o bioma), já indicaram estudos.

Sem chuva nas cabeceiras

Temporais como o da noite de domingo no Rio de Janeiro podem alagar a cidade e até interromper um Fla-Flu, mas não têm impacto na recuperação de reservatórios. Primeiro, porque são pontuais. Além disso, localizados — segue sem chover nas cabeceiras. E o nível dos lençóis freáticos está tão baixo que os rios absorvem a chuva como se fossem ralos.

A crise afeta quase todo o Brasil, enfatiza Adriana Cuartas, especialista em recursos hídricos e também do Cemaden. Sudeste e Centro-Oeste estão em pior situação. Exceções são o Sul, parte da Amazônia e o Rio São Francisco até a Hidroelétrica de Três Marias (MG), beneficiado por chuvas mais intensas nas cabeceiras.

Chama a atenção a situação ruim da Bacia do Rio Grande (MG/SP), na qual o reservatório de Furnas está um pouco acima de 30%. Panorama também bastante crítico para as bacias do Sistema Cantareira (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e do Rio Paraíba do Sul. Todas estão em condição de seca excepcional, e volumes em torno de 21% para o Cantareira e 34% para o reservatório do Jaguary, que faz a interligação com o Cantareira.

O esperado seriam aproximadamente 70%, no mínimo 60%, para essa época do ano. No Centro-Oeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia passaram janeiro em situação de seca extrema. Já as bacias do Sudeste começaram a ficar críticas lá em 2014, diz Cuartas:

— A situação é ruim e com tendência de piora. A conta de luz vai continuar cara, e o risco de problemas no abastecimento, presente. A energia até pode ser trazida do Norte, mas a água, não. As pessoas olham a chuva, cidades alagadas, e pensam que está resolvido. Mas estamos longe disso, com chuva abaixo da média, muito irregulares e localizadas.

O Sistema Cantareira exemplifica a consequência de chover pouco e no lugar “errado”. Ele abastece São Paulo, mas as cabeceiras de suas três bacias ficam em Minas Gerais. A capital paulista penou com uma semana de enchentes, mas nas nascentes dos rios formadores do sistema a seca imperou.

No Brasil tem chovido não só pouco e no lugar errado, mas literalmente no molhado. Uma pesquisa de Cuartas com outros cientistas brasileiros e estrangeiros, publicada em 2025 na revista “Frontiers of environmental sciences”, revela que neste século as chuvas estão reduzindo nos continentes e crescendo nos oceanos.

Secas mais longas

Ninguém se atreve a dizer como será a próxima estação chuvosa, que começa em outubro. A atual já é considerada perdida. Fenômenos como El Niño e La Niña não influenciam o regime de chuvas do Sudeste e do Centro-Oeste. A estação das chuvas termina em março e não há previsão de que haverá precipitação razoável. E, ainda que caísse muita água, o que é altamente improvável, não seria possível recuperar o cenário.

Marcus Suassuna, hidrólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que grandes reservatórios levam de dois a três anos, em média, para se recuperar após períodos de escassez. Ele ressalta ainda a situação ruim de bacias naturais, como no Rio Paraguai, que dá vida ao Pantanal.

Nas últimas seis décadas, ano a ano chove menos no Brasil, à exceção do Sul, pontua Seluchi. E, nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, mostrou outro estudo do Cemaden. Isso quer dizer que a estação seca também está quase um mês maior.

Mesmo a chuva da semana passada, associada a uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), despejou bem menos água do que o esperado. Segundo Seluchi, possivelmente, os modelos de previsão do tempo superestimaram o volume de precipitação previsto porque não consideraram a umidade tão baixa:

— Isso tem relação com mudanças climáticas, mas também com desmatamento. O Brasil tem desmatado cumulativamente Mata Atlântica e Cerrado, onde estão as cabeceiras dos principais rios do Centro-Sul. Com isso, as nascentes secam, os lençóis freáticos não são repostos.

Uma pesquisa apoiada pelo Movimento Viva a Água, lançado pela Fundação Grupo Boticário, evidenciou o impacto do desmatamento nas reservas de água. Cientistas compararam o comportamento de microbacias do Alto Iguaçu, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), sob situação de seca severa. Naquelas com mais de 50% de floresta preservada, a redução de volume d’água de rios não passava de 10%. Já nas desmatadas a diminuição chegava a 50%.

— Manter a cobertura vegetação e restaurar áreas desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e precisa do envolvimento de toda a sociedade — salienta Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação.

A crise deste ano também insere-se em um cenário global. A ONU declarou oficialmente esta semana que o planeta está em falência hídrica, com 75% da Humanidade vivendo em países classificados como criticamente inseguros e metade tendo que enfrentar pelo menos um mês por ano de escassez severa.


FONTE: O GLOBO

Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Representação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

incêndios no cerradoAvanço na representação do Cerrado contribui para planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática

Bori - Soluções para um conhecimento cieníftico acessível

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e um dos mais ameaçados do planeta, ganhou um retrato mais fiel nos modelos climáticos e ecológicos utilizados internacionalmente. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e do Potsdam Institute for Climate Impact Research (Alemanha) desenvolveram um novo tipo funcional de planta, chamado Tropical Broadleaved Savanna Tree (TrBS). Essa representação virtual de uma árvore típica do Cerrado aprimora simulações sobre o impacto do fogo e de outros cenários climáticos na vegetação de savana. 

Publicado em 6 de janeiro na revista Biogeosciences, o trabalho considera características marcantes da vegetação do Cerrado, como as raízes profundas, que podem ultrapassar os 15 metros, e a casca mais espessa. Esses traços, definidos com base em dados de campo e extensa revisão da literatura, conferem às plantas uma notável resiliência ao fogo e à seca — e explicam a estrutura típica da “floresta de cabeça-para-baixo”, com grande parte da biomassa concentrada no subsolo.

Os resultados das simulações mostram que o novo modelo melhora a representação das dinâmicas ecológicas, do ciclo de carbono e das interações entre clima e vegetação. Além disso, passou a refletir com mais precisão a sazonalidade e a extensão das queimadas. A iniciativa foi conduzida por Jéssica Schüler, doutoranda em ecologia pela UnB, com colaboração de Mercedes Bustamante, professora titular da UnB, sua orientadora.

De acordo com Bustamante, a motivação para desenvolver um modelo específico para o Cerrado veio de uma lacuna histórica nos modelos globais. “Apesar da importância das savanas para o ciclo do carbono e da biodiversidade mundial, elas ainda são sub-representadas nas grandes ferramentas de modelagem”, conta. “O Cerrado é um hotspot ameaçado e compreender como ele responde às pressões ambientais é essencial para prever cenários futuros e apoiar a conservação”, afirma a pesquisadora.

Ao reunir informações de campo em larga escala, o modelo ganhou maior capacidade de representar a dinâmica natural da vegetação e a resposta das plantas a fatores ambientais críticos. A profundidade das raízes, por exemplo, se mostrou determinante não apenas para melhorar as simulações no Brasil, mas também em testes globais — sinalizando que estruturas subterrâneas têm papel essencial na organização de savanas em diferentes continentes.

Embora o estudo não tenha incluído simulações específicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na frequência ou intensidade das queimadas, ele estabelece a base para que essa análise seja realizada nas próximas etapas. Com o avanço obtido, já estão sendo desenvolvidos modelos que combinam o TrBS com ferramentas mais detalhadas, o que permitirá avaliar a variação de atributos funcionais das plantas e sua resposta a eventos extremos, como seca prolongada e incêndios severos.

Além da relevância científica, modelos mais realistas permitem prever como a vegetação responde ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às pressões climáticas, auxiliando na formulação de planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática. “Compreender a resposta da vegetação a diferentes pressões ambientais nos ajuda a desenhar políticas públicas mais sólidas e alinhadas à realidade brasileira”, destaca Bustamante.

A pesquisa teve financiamento do CNPq, CAPES, INCT–Mudança do Clima e da Conservation International Foundation, além de apoio da União Europeia pelo programa Horizon 2020. A nova fase do estudo já está em andamento, com foco em expandir o entendimento sobre como mudanças climáticas e pressões humanas podem moldar o futuro do Cerrado.


Fonte: Agência Bori

Comunidades tradicionais denunciam destruição causada pelo agronegócio no Cerrado do Piauí

O Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí denunciou violações de direitos por empresas do agronegócio e demanda medidas urgentes por parte dos órgãos públicos

A Secretaria do Meio Ambiente do Piauí concedeu licença para o agronegócio se apropriar da água no brejo da comunidade Grinalda do Ouro. Esse é um ataque direto aos territórios tradicionais e significa a morte dos rios no Cerrado.

Na mesma região, a empresa do agronegócio Insolo destruiu a estrada de acesso às comunidades rurais no município de Santa Filomena. Essas comunidades tradicionais habitam a região há gerações e sofrem violência por parte do agronegócio. 

Apoie as comunidades

Escreva para os órgãos estaduais abaixo para apoiar os direitos das comunidades tradicionais do Cerrado e denunciar a destruição do agronegócio:

Ministério Público do Piauí

Defensoria Pública do Piauí

Instituto de Terras do Piauí

Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos

As comunidades demandam ações urgentes do Estado para a proteção de suas vidas e do seu território.