Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Restauração ecológica com sistemas agroflorestais

Como conciliar conservação com produção: opções para Cerrado e Caatinga

cipa

Esta publicação tem como principal objetivo orientar a adoção de sistemas agroflorestais (SAFs) para restauração de áreas degradadas (ou alteradas), de maneira a conciliar conservação ambiental com benefícios sociais e econômicos.

Fruto de uma construção coletiva que alia conhecimento técnico e científico com saberes locais e experiências inovadoras, o livro traz uma série de orientações para técnicos, agricultores e formuladores de políticas a respeito de como SAFs podem e devem ser utilizados para restaurar as diversas funções ambientais previstas para áreas de conservação ambiental (Área de Preservação Permanente – APP e Reserva Legal) na nova Lei Florestal.

Quem desejar baixar esta obra gratuitamente, basta clicar [Aqui!].

Desmantelamento de leis e caos ambiental sob Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina

Na imagem os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) se “vestem de índios” ao visitar uma monocultura de soja plantada ilegalmente em terra indígena no Mato Grosso.

O site “Direto da Ciência” divulgou hoje a publicação de um artigo publicado pela revista Nature Ecology & Evolution dando conta dos efeitos dramáticos que a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da república poderá em termos da aceleração do processo de erosão de medidas de proteção ambiental no Brasil.

Como alguém que tem estado envolvido em estudos sobre a dinâmica de desmatamento da Amazônia brasileira desde o início da década de 1990 e nas repercussões do uso de agrotóxicos sobre a saúde humana e ecossistemas naturais, só posso ficar ainda mais preocupado com os elementos levantados por Denis Abessa, Ana Famá e Lucas Buruaem.

É que todas as ações que já foram tomadas no âmbito dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente sinalizam para um aprofundamento do processo de desmantelamento do frágil sistema de proteção ambiental que foi implantado a duras penas no Brasil a partir de 1973 com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente que ficou sob o comando do recentemente falecido João Paulo Nogueira Neto.

Os efeitos deste desmantelamento serão sentidos por gerações inteiras, na medida em que se contribuirá para a ampliação da degradação ambiental em todo o território, mas especialmente na Amazônia e no Cerrado, justamente num momento em que as primeiras manifestações de eventos atmosféricos extremos que estão associadas às mudanças climáticas globais estão se manifestando em diversas partes do planeta, como foi o caso do ciclone Idai que arrasou cidades inteiras em Moçambique e no Zimbábuae.

Para ler mais sobre este artigo, sugiro a leitura da matéria publicada no Direto da Ciência que pode ser acessada [Aqui!]

Cientistas brasileiros sugerem redefinição dos limites da Amazônia

Floresta de Transição
Zona de transição cerrado e floresta.
Pesquisadores de três universidades brasileiras realizaram um extenso trabalho de mapeamento por satélite e chegaram à conclusão de que a Amazônia é maior e mais ao sul do que indicam os limites oficiais. O líder dos estudos, professor Ben Hur Marimon Junior, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), revela que a fronteira entre a Amazônia e o Cerrado não está adequadamente posicionada e também não é uma simples linha divisória, conforme consta no mapeamento oficial. O pesquisador destaca que a transição entre a Amazônia e o Cerrado deve ser considerada como uma extensa faixa, com larguras que chegam até 250 km. “É preciso reposicionar a Amazônia e o Cerrado nos mapas oficiais para melhor adequar os dois maiores biomas brasileiros às leis e politicas públicas de proteção à biodiversidade”, conclui o professor.
Segundo Eduardo Queiroz Marques, primeiro autor dos estudos, existem falhas nos mapas oficiais, que eram baseados na antiga tecnologia de imagens de radar nos anos 1970. “Estas antigas técnicas de mapeamento não permitiam o mesmo nível de detalhamento que temos hoje”, revela o especialista em mapeamento por satélite, prof. Eraldo Matricardi (UnB), um dos coautores do estudo. “Esta tecnologia não foi eficaz na delimitação das florestas que fazem a conexão entre os biomas e não conferem com a realidade dos limites da Amazônia com o Cerrado”, conclui Matricardi.

rainforest cerrado amazon
Mapeamento feito com novas técnicas de sensoriamento mostra que a Amazônia é maior e mais ao sul do que tradicionalmente mostrado.
Para a professora da UNEMAT Beatriz Marimon, também coautora dos estudos, uma das consequências da imprecisão dos antigos mapas é que alguns tipos de florestas que eram comuns no sul da Amazônia foram confundidos com cerrado denso, que são menos protegidos pela legislação brasileira, tanto pelo novo quanto o antigo Código Florestal. Junto com a vegetação perdemos também espécies de animais nesta região única de biodiversidade, revela o especialista em fauna da UnB, professor Guarino Colli, outro coautor do estudo.
Os cientistas revelaram que algumas imprecisões no mapeamento oficial dos limites da Amazônia meridional permitiram que o desmatamento atingisse níveis próximos ao colapso em muitas áreas de intenso uso agropecuário. “Nosso trabalho não só redefiniu pela primeira vez uma parte importante dos limites entre a Amazônia e o Cerrado, mas revelou a necessidade urgente da criação de uma zona especial de amortecimento ao sul e sudeste da Amazônia para conservar as florestas remanescentes na região e evitar novos desfechos do erro na delimitação dos biomas”, conclui Ben Hur.
Quem desejar acessar o artigo que apresenta os resultado da pesquisa e que foi publicado na revista “Biodiversity and Conservation”, basta clicar [Aqui!].

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

soja

A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

ft soybean

A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts

Desmatamento aumenta no cerrado brasileiro

O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil, proclamam os ambientalistas

cerrado queimado

Por Jeff Tollefson para a Nature [1]

O desmatamento no Cerrado, uma vasta savana arborizada na fronteira com o sul e leste da Amazônia brasileira, aumentou 9% em 2017 em comparação com 2016, segundo dados de satélite divulgados no mês passado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos.

cerrado queimado 1

O desmatamento do Cerrado, deve-se em parte às fracas proteções ambientais. Crédito: Roberto Jayme / Reuters

No total, estima-se que 7.408 km2 de terra foram desmatados para dar lugar a pastagens e plantações de gado. Embora a taxa de desmatamento no Cerrado permaneça bem abaixo dos níveis anuais documentados de 2013 a 2015, cientistas e ambientalistas, no entanto, alertam que a savana continua sendo o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente. Em comparação, o INPE registrou 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017, uma queda de 12% em relação ao ano anterior .

cerrado nature

“No Cerrado, estamos falando de um bioma com metade do tamanho da Amazônia e que já perdeu metade de sua vegetação nativa”, diz Ane Alencar, diretor de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que tem como base em Brasília. Uma série de fatores está por trás das tendências atuais de desmatamento, incluindo regras ambientais mais fracas no Cerrado do que na Amazônia.

Enquanto os proprietários de terras podem liberar apenas 20% de suas propriedades na floresta amazônica, eles podem reduzir até 80% da floresta no Cerrado. Cientistas e ambientalistas também alertam que a fiscalização ambiental na região continua fraca. A maior parte do desmatamento atual provém da expansão agrícola maciça nos estados do nordeste do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Grande parte da terra está sendo convertida em pastagens para gado, mas os cientistas dizem que a poderosa indústria de soja do Brasil se tornou uma importante protagonista no desmatamento no Cerrado. “O que estamos vendo agora é um padrão diferente de ocupação”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília. “As fronteiras de desmatamento estão sendo conduzidas agora por grãos de soja em uma região completamente nova”.

Proteger as florestas, a biodiversidade e os recursos hídricos na região exigirá ações adicionais dos governos estadual e federal no Brasil, bem como das corporações que compram e vendem commodities agrícolas, diz Alencar.


Publicado originalmente em inglês [1]

Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado

Desmatamento do Cerrado foi mais intenso que o da Amazônia entre 200 e 2015 (236 mil contra 208 mil quilômetros quadrados)

cerradoecossistema-bioma-destruicao-05062018112714589

Alto Paraíso de Goiás (GO) – Área de cerrado desmatada para plantio no município de Alto Paraíso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Débora Brito – Repórter da Agência Brasil

Com mais da metade de sua área degradada, o Cerrado ainda aguarda o título de Patrimônio Nacional pela Constituição Federal, como já obtido por outros ecossistemas do Brasil. Depois da Amazônia, o Cerrado é o maior bioma da América do Sul. No Dia Mundial do Meio Ambiente, especialistas alertam para os danos irreversíveis que o intenso processo de degradação pode trazer não só para o bioma, mas também para a sociedade, ao pôr em risco a disponibilidade de água e a regulação do clima.

O Cerrado se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados (Km2) do território brasileiro, o que equivale a quase 24% do país. Contudo, a área com vegetação íntegra do bioma já foi reduzida a cerca de 20% de sua cobertura original.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que em 15 anos o desmatamento no Cerrado foi mais intenso que na Amazônia. De 2000 a 2015, o Cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados, enquanto a perda na Amazônia, bioma duas vezes maior, foi de 208 mil quilômetros quadrados. Só no ano de 2015, o volume desmatado do Cerrado correspondeu a mais da metade da área devastada da floresta amazônica.

“A gente vê a expansão do agronegócio de maneira desenfreada no Cerrado, como se isso fosse totalmente natural. Esse é um dos motivos de tentar chamar a atenção para essa situação do Cerrado, que é um bioma que está se esvaindo rapidamente, sendo convertido em pastagens e áreas agrícolas de uma maneira desordenada”, alerta a bióloga Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Políticas e Direitos do Instituto Socioambiental (ISA).

Brasília - Incêndio destrói cerrado na região do Lago Oeste, no Distrito Federal (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas e pela produção de culturas como a soja e a cana-de-açúcar. O processo de expansão da fronteira agrícola, com a exploração predatória, como a produção de carvão vegetal e a pecuária, vem reduzindo gradativamente a extensão do bioma nas últimas décadas.

Patrimônio nacional

Para especialistas, o reconhecimento do Cerrado como Patrimônio Nacional é fundamental para a conservação do bioma. A Constituição de 1988 concedeu o título à Floresta Amazônica brasileira, Mata Atlântica, Serra do Mar, ao Pantanal Mato-Grossense e à Zona Costeira e estabelece que essas áreas e seus recursos naturais devem ser usados “dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente”.

Tramita desde 2003 no Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga ente os biomas considerados patrimônio nacional. A PEC já foi aprovada no Senado e aguarda, desde 2010, apreciação do plenário da Câmara dos Deputados.

“Não faltam elementos para reconhecer a importância do Cerrado como um ambiente fundamental para garantir a qualidade de vida dos brasileiros, por outro lado, ele está sempre em desvantagem, as políticas de conservação do Cerrado não são implementadas ou faltam políticas”, avalia a bióloga Nurit.

“Ainda há um grande desconhecimento por parte da população brasileira do que é a realidade de ocupação do Cerrado e como este processo nos afeta. O reconhecimento como patrimônio nacional tem um peso importante para sua proteção, não é uma questão local. A conservação do Cerrado tem repercussões e benefícios para o Brasil inteiro”, completou a professora Mercedes, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

Fragmentos

As consequências da degradação poderão, no futuro, inviabilizar o próprio agronegócio. A mudança no ambiente alterou o regime de chuvas e de produção de alimentos no ecossistema que tem a maior produção agrícola e pecuária do país.

“Metade do Cerrado foi destruída, mas o que sobra dos outros 50% não são áreas inteiras, são áreas fragmentadas, pequenas ilhazinhas de cerrado. E as áreas fragmentadas não conservam aquela diversidade biológica, a mesma flora e fauna das áreas inteiras, mesmo que essa área esteja protegida por uma unidade de conservação”, explica a bióloga Nurit.

“Essas áreas muito fragmentadas não tem condições de sustentabilidade ou de continuar mantendo as funções ecológicas que geram serviços importantes para o ser humano, como a disponibilidade de água e regulação do clima”, completou a professora Mercedes.

As áreas desmatadas do Cerrado são responsáveis ainda pela elevada emissão de gases de efeito estufa. Segundo estudo recente do Observatório do Clima, em 2016, o desmatamento do Cerrado emitiu 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa, volume que corresponde a mais que o dobro da emissão da indústria e equivale a 11% de todo o carbono que o Brasil lançou no ar no mesmo ano.

Meta de redução

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a área desmatada no Cerrado entre 2013 e 2015 foi de quase 19 mil quilômetros quadrados, uma média atual de 9,4 mil quilômetros quadrados por ano. Antes de 2008, essa média era de 15,7 quilômetros quadrados. Segundo o Ministério das Cidades, que coordena o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros, o resultado mostra redução de 37% no ritmo de desmatamento.

O ministério ressaltou que o percentual se aproxima da meta de redução em 40% do desmatamento do Cerrado estabelecida pela Política Nacional de Mudança do Clima até 2020. Mesmo com a redução, a pasta informou que “o governo continuará atuando até conter todo o desmatamento ilegal no bioma”.

Diferentemente da Amazônia, o monitoramento da degradação do Cerrado não é avaliado anualmente, mas, segundo o Ministério do Meio Ambiente, ainda este ano serão lançados os dados referentes a 2016 e 2017, e o Cerrado passará a contar com dados anuais. Também está em fase de testes o chamado Deter Cerrado, que fará monitoramento em tempo quase real do desmatamento, além de auxiliar nas ações de fiscalização.

O governo federal aprovou, em dezembro de 2016, a 3ª fase do chamado PPCerrado, plano de prevenção e controle do desmatamento. O programa, que será implementado até 2020, prevê o ordenamento fundiário e territorial, monitoramento e controle, promoção de cadeias produtivas sustentáveis e instrumentos normativos e econômicos.

No âmbito da fiscalização, o Ministério do Meio Ambiente informou que nos últimos 5 anos foram instaurados cerca de 2,3 mil processos de infração contra a flora. Foram feitas ainda ações de prevenção e controle de incêndios florestais e foi implantado um sistema de monitoramento da cobertura vegetal e outro de alerta de detecção do desmatamento.

Sobre a captação de recursos, o ministério esclarece que em breve o Brasil poderá pleitear pagamento por resultados alcançados na redução do desmatamento no Cerrado, assim como já é feito para a Amazônia. O Fundo Amazônia dispõe de R$ 2,5 bilhões em pagamentos e já investiu cerca de R$ 1,7 bilhão em projetos de combate ao desmatamento.

Alta biodiversidade

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado abriga 5% da biodiversidade do mundo. É a savana com a maior diversidade de árvores e onde vivem 12 mil espécies de plantas nativas, além de mais de 2,5 mil espécies de animais, entre mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis, e cerca de 67 mil espécies de invertebrados. No entanto, 20% das espécies nativas e endêmicas já não são encontradas nas áreas protegidas do Cerrado, onde pelo menos 137 espécies de animas estão ameaçadas de extinção.

O ecossistema tem cerca de 60 unidades de conservação, que protegem cerca de 8% da área total do bioma. Ele também é considerado o berço das águas, pois concentra as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul e a cabeceira de importantes rios, lagos e córregos responsáveis pela distribuição de água no Brasil.

Apesar do grande volume de água, alguns estados e o Distrito Federal estão enfrentando grave crise hídrica. “Se não tiver de fato uma política de conservação voltada para manutenção de recursos hídricos, a gente vai sofrer. Não se trata de inventar a roda, tem soluções que poderiam ser feitas a curto prazo e com efeitos positivos. Uma delas é evitar desperdício, pensar num uso mais sustentável da água na agricultura, em outro modelo de agronegócio que combine conservação e produção, além de usar menos agrotóxicos que poluem a água”, explica a especialista Bensusan.

Importância social

A vegetação do Cerrado está presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo, Distrito Federal, além de ocorrências no Amapá, Roraima e Amazonas. Na área de Cerrado, vive cerca de 40% da população brasileira e diferentes comunidades tradicionais, como indígenas, ribeirinhos, os chamados geraizeiros (do Cerrado do norte de Minas Gerais), quebradores de babaçu e quilombolas.

“Os povos do Cerrado são muito importantes, porque têm formas de vida tradicionais ligadas à natureza e que mantêm essa vegetação e essa fauna. À medida que os modos de vida dessas populações colapsam, a ameaça ao Cerrado duplica, porque essas pessoas têm que migrar para outras formas de uso da terra e dos recursos naturais que são mais predatórias, além da própria ameaça ao modo de vida dessas pessoas”, analisa a bióloga Bensusan.

Políticas de conservação

Um grupo de ativistas e pesquisadores socioambientais está elaborando um conjunto de recomendações de conservação do Cerrado para ser entregue aos candidatos à Presidência da República. As medidas serão definidas na próxima quarta-feira (7) em reunião prevista para listar os principais pontos abordados no Seminário Estratégia Nacional para o Cerrado, que ocorre nesta terça-feira na Câmara dos Deputados.

As medidas são reunidas em três eixos: conservação da vegetação e dos recursos hídricos, defesa dos direitos das comunidades e povos tradicionais e o desenvolvimento de um modelo de agronegócio sustentável. Entre as recomendações, estão a revisão das metas do Plano de Mitigação das Mudanças Climáticas e a criação de fundo de captação de recursos para o Cerrado.

Estudos

Os pesquisadores também estão trabalhando em conjunto com a Universidade de Brasília (UnB), que começou a desenvolver este ano um projeto de sensoreamento remoto para estabelecer conexões entre informações de segurança hídrica, energética e alimentar e as comunidades tradicionais que vivem no Cerrado.

O projeto vai consolidar na forma de mapas diferentes informações do bioma, por exemplo a variabilidade do clima nos últimos anos e as projeções futuras de mudanças climáticas com os possíveis impactos sobre a cadeia produtiva. Os primeiros resultados devem sair até o fim deste ano e serão levados pelos cientistas aos gestores públicos para basear as decisões sobre o tema.

“Hoje, a questão central do Cerrado é fazer uma boa gestão territorial que permita você ter o desenvolvimento da agricultura sem ocupar novos espaços e ao mesmo tempo garantir a segurança de fornecimento de água, alimentos e a utilização racional dos recursos energéticos nessa ocupação”, explica a professora Mercedes Bustamante, coordenadora do projeto.

Edição: Talita Cavalcante

FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-06/desmatamento-e-ocupacao-desordenada-ameacam-conservacao-do-cerrado