Em livro de “acesso aberto”, Markus Kröger expande conhecimento sobre os impactos das monoculturas e da mineração na Amazônia e no Cerrado

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A editora Routledge acaba de lançar o livro “Extractivisms, Existences, and Extinctions: Monoculture Plantations and Amazon Deforestation “, do pesquisador finlandês Markus Kröger, da Universidade Helsinki,  explora as redistribuições existenciais que as fronteiras extrativistas criam, indo além dos estudos existentes, trazendo para a discussão em inglês muito da sabedoria do entendimento das comunidades rurais e florestais latino-americanas sobre os fenômenos extrativistas e a destruição e mudanças em vidas e ambientes vividos que eles criam.

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Markus Kröger explora os diversos tipos de extrativismo, desde monoculturas agroextrativistas até a extração mineral, e analisa as diferenças entre eles. As transformações existenciais da Amazônia e do Cerrado no Brasil, antes habitadas por indígenas, mas agora desmatadas por grandes proprietários rurais que expandem as plantações de soja, são analisadas em detalhes. Kröger também compara os extrativismos com as mudanças existenciais locais e mais amplas por meio das redes globais de produção e seus deslocamentos, produzidos por operações extrativistas baseadas em monoculturas. Ancorados nos próprios dados etnográficos produzidos por ele mesmo, Kröger faz yna comparação de lições através de múltiplas fronteiras extrativistas. Desta forma, os capítulos do livro servem para integrar os muitos relatos de violência e mudanças  epistêmicas e morais em enclaves extrativistas, olhando para eles com a ajuda da ontologia política.  Desta forma, o livro oferece detalhes sobre como caracterizar e comparar diferentes tipos e graus de extrativismos e anti-extrativismos.

Este livro, de natureza transdisciplinar, fornece novos conceitos de organização e estruturas teóricas para começar a analisar a política de recursos naturais em desenvolvimento da era pós-coronavírus, bem como o avanço da emergência climática em um mundo multipolar cada vez mais caótico.

Esta obra certamente será será de interesse para estudantes e acadêmicos nas áreas de desenvolvimento internacional, cadeias de valor globais, economia política, estudos latino-americanos, ecologia política e comércio internacional, bem como qualquer pessoa envolvida com questões práticas e políticas relacionadas à globalização.

Finalmente, quem tiver interesse em baixar este livro na íntegra, e de forma gratuita, pode fazê-lo clicando [Aqui!].

Livro de Yamê Reis revela como o agronegócio do algodão se apropriou do discurso da sustentabilidade para se esverdejar

Acabo de receber de forma de um gentil presente de sua autora, Yamê Reis, o livro intitulado “O agronegócio do algodão” que foi publicado pela editora “Livros Ilimitados”. O trabalho aborda de forma meticulosa a produção do algodão em grandes áreas de monocultura no Brasil, e as implicações socioambientais que cercam o avanço desta cultura sobre áreas anteriormente ocupados pelo Cerrado, incluindo o uso intensivo de agrotóxicos.

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Um aspecto que merece atenção do trabalho de Yamê Reis tem a ver com a análise que ela faz sobre a apropriação do discurso da sustentabilidade pelo agronegócio cotonicultor para, em que pesem todas as agressões ambientais que acompanharam a transformação do Brasil em um dos maiores produtores mundiais de algodão, formar uma imagem relativamente benigna. Essa imagem supostamente benigna seria então utilizada para isentar as grandes marcas de vestuário para também se apropriar do discurso da sustentabilidade.

Entretanto, com dados empíricos e com uma análise teórica bem definida, o que Yamê Reis demonstra é que a supostamente adesão ao conceito de sustentabilidade por parte do setor cotonicultor não resiste a um exame mínimo das práticas que poderiam ser consideradas como sustentáveis, a começar pelo compromisso de que o monocultivo de algodão não seja causador de desmatamento de vegetação nativa, como no caso do Cerrado.

É interessante notar que este livro é fruto do trabalho que Yamê Reis desenvolveu no âmbito de Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), onde a autora concluiu sua dissertação de mestrado. Yamê Reis também é uma das fundadoras do “Rio Ethical Fashion que, inclusive, terá sua terceira edição em 2022, para discutir o estabelecimento de formas mais éticas de convívio com a Terra e as pessoas.

Quem desejar adquirir uma cópia do “Agronegócio do algodão”, basta clicar [Aqui!].

 

Desmatamento Recorde e Enfraquecimento do Marco Legal no Brasil Destacam a Necessidade de Nova Lei de Importação da UE

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Os dados recentemente divulgados do PRODES para 2021 mostram um desmatamento de 13.235 km 2 (1.323.500 hectares) na Amazônia Legal, o maior número desde 2008 e um aumento de 22 por cento em relação ao ano anterior (as taxas anuais cobrem um período de agosto do ano anterior a julho do ano em curso). Desde o início de 2019, quando o atual presidente, Jair Bolsonaro, assumiu o cargo, os dados mostram um aumento acumulado de 56,9% na taxa anual de desmatamento no bioma Amazônia. Para o bioma Cerrado, os números ainda não foram divulgados.

As taxas anuais de desmatamento do PRODES para a Amazônia Legal são normalmente divulgadas a cada ano no início de novembro. Em anos anteriores, os números do PRODES foram divulgados antes ou durante a conferência climática COP para fornecer transparência sobre as emissões de carbono do desmatamento no Brasil. Segundo o sindicato do INPE, a análise do PRODES para este ano foi concluída dentro do prazo, em meados de outubro. No entanto, a imprensa brasileira diz que o governo atrasou intencionalmente o lançamento para evitar que o Brasil recebesse críticas durante a COP26, que terminou em 12 de novembro. Durante a COP26, o sistema de rastreamento mensal do desmatamento do DETERrelataram 87.700 ha desmatados em outubro de 2021 no bioma Amazônia. Este número representa um aumento de 5% em relação a outubro de 2020, atingindo o nível mais alto de desmatamento para qualquer outubro desde 2016. Outubro geralmente tem taxas mais baixas em comparação com outros meses, já que o período de desmatamento na Amazônia se concentra principalmente entre março e julho.

Figura 1. Alertas de desmatamento do DETER no bioma Amazônia outubro

O aumento significativo do desmatamento na Amazônia brasileira reflete o enfraquecimento do arcabouço legal e os fracos esforços de monitoramento e controle promovidos pelo atual governo nos últimos anos. Mesmo com altos índices de desmatamento, as multas ambientais na Amazônia caíram 93% desde o início de 2019, quando o atual governo assumiu. O alto desmatamento detectado pelo PRODES também lança dúvidas sobre as duas recentes promessas assinadas pelo Brasil durante a COP26: o Global Methane Pledge , que visa reduzir as emissões globais de metano em 30 por cento até 2030, e a Declaração de Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra , que visa “deter e reverter a perda florestal e a degradação da terra até 2030”.

A menos que haja uma mudança radical em relação à tendência atual, o recente acordo global para deter e reverter a perda de floresta até 2030, assinado por 141 países, pode ter o mesmo destino de outros acordos relativos ao desmatamento na Amazônia Legal Brasileira:

  • A Declaração de Aichi de 1993 prometeu reduzir pela metade a taxa de perda de floresta até 2020. Na Amazônia Legal, a taxa média de desmatamento entre 1994 e 2020 foi de 13.517 km 2 – uma redução de apenas 9 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 1993. A perda total de vegetação nativa nesse período foi de 364.975 km 2 , incluindo o recorde histórico de 29.059 km 2 em 1995, seguido pelo segundo ano com maior taxa de desmatamento em 2004, com 27.772 km 2 .
  • A Declaração de Nova York sobre Florestas de 2014 se comprometeu a reverter o desmatamento até 2030. A taxa de desmatamento anual da Amazônia Legal entre 2015-2021 foi em média de 8.971 km 2 , um aumento de 79 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 2014. A perda de vegetação nativa na Amazônia Legal nesse período totalizou 54.575 km 2 .
  • Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de 2015 se comprometeram a deter o desmatamento até 2020. A taxa média de desmatamento entre 2016-2020 foi de 8.671 km 2 , um aumento de 40 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 2015. No mesmo período, a perda acumulada de vegetação nativa totalizou 49.563 km 2 .

Em 17 de novembro de 2021, o parlamento da UE publicou um projeto de regulamentação da devida diligência de desmatamento zero da UE. As empresas que compram soja, carne bovina, café, cacau, madeira e óleo de palma e produtos derivados como couro, chocolate e móveis precisarão provar que os produtos não vêm de áreas desmatadas após dezembro de 2020. A implementação de tal regulamento seria um desafio a falta de rastreabilidade e transparência nas cadeias de suprimentos de commodities e aumenta a pressão, especialmente sobre o Brasil, para tomar ações concretas para combater o desmatamento. A produção de commodities no Brasil aumentou recentemente o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado após um período de declínio entre 2005-2012. Atualmente,

Empresas e financiadores podem enfrentar riscos financeiros por não se alinharem com o ambiente regulatório fora do Brasil ou quando continuarem a “se beneficiar” e acomodar a erosão da regulação e supervisão da Amazônia e do Cerrado no Brasil. Os planos de devida diligência da cadeia de abastecimento da UE também incluem as atividades globais de atividades baseadas na UE, como o abastecimento local de carne bovina brasileira do Carrefour. O não cumprimento por parte das empresas pode resultar em processos judiciais, multas, risco de acesso ao mercado, risco de ativos perdidos, risco de financiamento e risco de reputação. Os financiadores (bancos e investidores) vinculados a essas empresas podem perder um valor significativo de suas participações e enfrentar problemas no reembolso de empréstimos e títulos.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Semeando conflitos: ADM, Bunge e Cargill alimentam conflitos fundiários para manter controle da soja brasileira

Nova investigação revela que grandes empresas globais de commodities alimentam conflitos fundiários e abusos de direitos humanos com o comércio de soja brasileira

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Investigação da Global Witness revela que ADM, Bunge e Cargill – gigantes comerciais com um papel central no sistema agroalimentar mundial – estão ligadas a abusos de direitos humanos causados por fornecedores de soja em conflito com comunidades tradicionais no estado da Bahia.

A comunidade de fecho de pasto de Capão do Modesto, que cuida de suas terras ancestrais no Cerrado de forma sustentável há centenas de anos, acusa seguranças contratados por um grupo de grandes produtores de soja de atos de violência, destruição de bens e ameaças de morte.

Esses produtores estão movendo um processo judicial para impedir o acesso da comunidade às suas terras, suprimindo assim o exercício de direitos expressamente protegidos pelas constituições do Brasil e da Bahia.

Os abusos e litígios estão documentados em boletins de ocorrência, processos judiciais e poderosos depoimentos individuais. As relações dos produtores com as multinacionais de comércio de soja foram reveladas por meio de documentos comerciais e legais, depoimentos de representantes comerciais locais e informações divulgadas pelas próprias empresas.

O conflito é um exemplo de ‘grilagem verde’, com os fazendeiros reivindicando a área contestada como ‘reserva legal’ – área de vegetação nativa que a legislação brasileira exige que seja preservada para compensar o desmatamento provocado pela lavoura da soja.

Um dos produtores de soja em questão fez um acordo com a Archer Daniels Midland (ADM) para aumentar seu acesso aos mercados europeus por meio de auditorias da Certificação Internacional em Sustentabilidade e Carbono (ISCC) – um esquema reconhecido pela Diretiva de Energia Renovável da União Europeia.

A União Europeia importou 7 milhões de toneladas de soja brasileira no ano passado, e ADM, Bunge e Cargill foram as maiores exportadoras desse produto a partir do Brasil. Os grandes carregamentos de soja para a UE que saem das instalações dessas multinacionais na região de Capão do Modesto apresentam um claro risco de que as importações de soja da Europa estejam contaminadas pelo conflito.

Marina Comandulli, assessora de campanhas da Global Witness, disse: “Esta investigação comprova mais uma vez que os compromissos voluntários de sustentabilidade dessas grandes empresas do agronegócio não são capazes de proteger as pessoas e o planeta. A contribuição das multinacionais para esse conflito justifica claramente que a Comissão Europeia tome medidas enérgicas conforme avança com um novo projeto de legislação para responsabilizar as empresas por violações aos direitos humanos e danos ambientais em suas cadeias produtivas.”

Embora afirmem que a soja brasileira seja quase totalmente rastreável, nenhuma dessas multinacionais revela quais são seus fornecedores. Assim, o setor continua pouco transparente e sem prestar contas a ninguém. Apesar de haver políticas que supostamente comprometem essas empresas a defender os direitos humanos e fundiários em suas cadeias produtivas, a pesquisa da Global Witness revela deficiências estruturais e negligência na implementação dessas políticas.

Ao comprar soja de fazendas diretamente envolvidas nesse conflito, que se arrasta há anos, as multinacionais deixam de cumprir suas responsabilidades para com as normas internacionais relevantes, incluindo os Princípios Orientadores das Nações Unidas para Empresas e Direitos Humanos e as Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais.

Recomendações
A Global Witness faz um apelo ao governo brasileiro para que priorize a concessão de títulos de terras às comunidades tradicionais, para que elas possam viver em paz.

Na ausência de proteção estatal suficiente, as multinacionais de comércio de commodities que atuam em áreas propensas a conflitos, como o Cerrado baiano, devem priorizar os direitos humanos e fundiários das comunidades em suas cadeias de suprimento de soja, oferecendo reparação dos danos sempre que eles ocorrerem.

Na ausência de ações efetivas por parte das empresas, a União Europeia deve garantir que a legislação de Governança Corporativa Sustentável prometida para 2021 exija a devida diligência obrigatória e executável de direitos humanos, fundiários e questões ambientais por parte dos atores do agronegócio e preveja penalidades suficientes para os casos de não cumprimento das obrigações de devida diligência e danos reais. A legislação específica da UE sobre commodities de risco florestal deve igualmente garantir que os mercados europeus não sejam contaminados por abusos de direitos humanos e violações de direitos fundiários comunitários.

Leia a íntegra do relatório divulgado pela Global Witness nesta terça-feira (23).

Proposta da UE sobre produtos vinculados ao desmatamento cria riscos para empresas e investidores

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Apenas duas semanas após o anúncio de um divisor de águas por mais de 100 países na COP-26 sobre a eliminação do desmatamento, a União Europeia (UE)lançou um projeto de lei no dia 17 de novembro, isso exigiria que as empresas mostrassem que seus produtos não estão vinculados ao desmatamento. Essencialmente, a legislação proibiria commodities ligadas ao desmatamento, sejam legais ou ilegais, e são importadas de países que possuem grandes quantidades de florestas tropicais. Essas commodities incluem itens como carne bovina, óleo de palma, soja, cacau, madeira e café. Alguns produtos derivados, como couro, chocolate e bolo de soja, foram incluídos no escopo inicial da nova legislação. Esta lei marcaria a primeira vez que a UE procura proibir produtos que são produzidos em áreas legalmente desmatadas, e ocorre em um momento em que países produtores como Brasil e Indonésia revogaram as regulamentações e fiscalizações ambientais. “O desmatamento e a degradação florestal estão ocorrendo em um ritmo alarmante, agravando as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, diz a UE. “O principal motor do desmatamento e da degradação florestal é a expansão das terras agrícolas para a produção de commodities como gado, madeira, óleo de palma, soja, cacau ou café.”

A UE anunciou a proposta pela primeira vez em 2019 , e o compromisso foi incluído no Acordo Verde Europeu, na Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e na Estratégia de cultivo para alimentação. As empresas que compram soja, óleo de palma, carne bovina, café, cacau e madeira precisam mostrar que suas fontes não contribuem para o desmatamento. Como resultado, eles teriam que investir em melhor execução e 100% de monitoramento e verificação das políticas de desmatamento zero. O Comissário da Comissão Europeia diz que os custos pagos pelas empresas são muito mais baixos do que os benefícios gerais, o que está de acordo com uma análise da Chain Reaction Research que mostra que os benefícios são 9-45 vezes maiores do que os custos.

Vários países europeus também introduziram ou aprovaram regulamentações nos últimos anos para conter o desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Enquanto isso, nos Estados Unidos, um projeto de lei apresentado pelo senador democrata Brian Schatz visa eliminar a entrada de produtos vinculados ao desmatamento ilegal nos Estados Unidos.

Importações de commodities agrícolas na UE dispararam nas últimas duas décadas. De 2002 a 2020, o comércio agrícola da UE dobrou e agora representa 9% do comércio internacional total da UE. Os movimentos em direção ao desmatamento zero estão alterando o comércio de commodities agrícolas e refletem ainda mais como o desmatamento é um risco material para os atores dessas cadeias de abastecimento. Produtores, comerciantes e varejistas enfrentam riscos, como risco de acesso ao mercado, risco de reputação, risco legal e risco de reputação. Esses riscos também se estendem aos seus financiadores. No mercado brasileiro de soja,  empresas como Cargill, Bunge e LDC provavelmente verão uma pressão crescente porque seus compromissos de desmatamento zero não eliminaram suas ligações com o desmatamento. No entanto, o foco da proposta atual nas florestas significa que um ecossistema como o Cerrado ou o Pantanal não se enquadraria na definição de “livre de desmatamento”, uma lacuna importante. Os frigoríficos brasileiros, como o JBS, poderiam ficar sob mais escrutínio por meio de suas exportações para a UE, assim como seus compradores. No mercado de óleo de palma, exportadores do Sudeste Asiático, África e América Latina enfrentarão pressão para conter as ligações com o desmatamento a fim de continuar a vender para a Europa. Empresas de bens de consumo de alta velocidade (FMCGs) na Europa e seus financiadores, enquanto isso, podem enfrentar riscos de reputaçãopor estarem vinculados a cadeias de abastecimento que não eliminaram o desmatamento.

Com esta proposta, a UE continua a ser líder global na tomada de medidas para enfrentar o desmatamento como parte de sua ampla agenda de combate ao aquecimento global. Em 2008, a Comunicação da CE sobre Desmatamento endossou políticas da UE para impedir a perda de florestas, e a UE tem aumentado a consciência ao longo dos anos sobre o assunto com os consumidores, incentivando-os a alterar seus hábitos de consumo para reduzir a demanda por produtos sem desmatamento. Apesar desses esforços, o desmatamento tem permanecido em níveis elevados nos principais países, o que motivou o grande anúncio na COP-26 e a nova proposta da UE.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Ao lado de gigantes do agronegócio, Harvard está em esquema ilegal de aquisição de terras no Piauí

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A SLC Agrícola e Radar S/A, que figuram como uma das maiores empresas do agronegócio no país, e o Fundo Patrimonial dos Professores Norte-americanos da Harvard Management Company (HMC) são um dos principais responsáveis pela crescente do desmatamento no cerrado piauiense nos últimos 20 anos.

É o que aponta o estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba“, publicado na última quinta (11/11) pela Associação dos Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais da Bahia (AATR) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença/BA). A pesquisa faz a análise de quatro casos da fronteira agrícola do Matopiba, composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que ilustram a relação entre desmatamento e grilagem (apropriação ilegal de terras) e violações contra povos e comunidades tradicionais.

Segundo as informações apresentadas, essas empresas passaram a vislumbrar na região, com terras outrora desvalorizadas, a oportunidade de ganhos com “abertura” e instalação de fazendas para produção de soja. Com a especulação imobiliária, uma intensa onda de grilagem foi fomentada próxima às nascentes do Rio Parnaíba, na divisa entre o Maranhão e o Piauí.

Nesta região, no limite entre os municípios de Bom Jesus, Santa Filomena, Gilbués, Baixa Grande do Ribeiro e Monte Alegre do Piauí, estão localizadas as comunidades do território de Melancias (22.583 hectares) que enfrentam graves conflitos na luta pela demarcação e titulação do seu território tradicionalmente ocupado, que formalmente consistem em terras devolutas estaduais. Em depoimento ao Ministério Público, em 2019, o morador Juraci Selestino afirma que esses empreendimentos estão encurralando as comunidades.

“Os fazendeiros pegaram os baixões e nós ficamos encurralados na beira do rio. E mesmo nessas áreas que a gente tá, hoje tem gente que diz que é dono. É muita fazenda. É muito dono! Tem as fazendas de Passaginha, Roda de Ferrovia, Riachão, Serra Alta, Santo Isidório, Alvorada, Galileia, Celeiro, São Pedro e Cosmo, que está arrendando para o Grupo Produzir. O Riachão, que é afluente do Rio Uruçuí Preto, foi cercado pela Alvorada. Outros afluentes, como Riacho dos Cavalos, que a Alvorada diz que é a dona, já cercaram também”, explica.

Encurraladas nos vales ou “baixões”, as famílias brejeiras e ribeirinhas sofrem com os danos causados pela apropriação ilegal das chapadas do entorno, com o desmatamento acelerado, contaminação das águas por agrotóxicos e a grilagem verde. Segundo moradores, houve a diminuição de 50% do fluxo do Rio Uruçuí-Preto, fato que atribuem ao desmatamento, que resultou em erosão e assoreamento do leito do rio e seus tributários – a exemplo do Riacho dos Cavalos e Riachão.

“As empresas instalam as lavouras no alto das chapadas e, com as chuvas ou demais processos antrópicos, as águas escorrem para os baixões, chegando aos rios. Nas épocas das chuvas, o uso do rio provoca alergia nas pessoas. O uso excessivo de agrotóxicos nas fazendas também trouxe pragas para a lavoura das comunidades, bem como a extinção de aves que ao comer a soja, morrem por envenenamento”, diz trecho do estudo.

Nas chapadas, no entorno do território atualmente reivindicado, foram concedidos títulos para empresas de forma irregular pelo órgão estadual de terras. Há sobreposição ao território reivindicado de 11 imóveis cadastrados no SNCI, entre 2009 e 2013, totalizando 9.978 ha; e 23 sobreposições de imóveis cadastrados no sistema Sigef entre 2014 e 2020, totalizando uma área de 9.945 ha. Considerando os dois cadastros, são 19.923 hectares sobrepostos, correspondendo a 87% do território reivindicado.

As áreas sobrepostas ao território reivindicado de Melancias são em sua maioria tentativas de grilagem verde, especialmente pelo grupo Bom Jardim (família Golin), Cosmos Agropecuária (Ricardo Tombini e Eduardo Dall’Magro) e conjunto Riachão (irmãos Fritzen). As áreas de Reserva legal sobrepostas (CAR) alcançam 17.989 hectares e correspondem a 80% do território reivindicado.

Contexto

Historicamente, o principal operador da apropriação ilegal das chapadas e vales da região do alto Uruçuí-Preto é o próprio Estado do Piauí, especialmente por meio do Poder Executivo e Judiciário. O processo de entrega do valioso patrimônio constituído pelas terras públicas tem início no começo dos anos 70, e visou a transferência massiva de terras devolutas tradicionalmente ocupadas por comunidades para indivíduos e empresas privadas, especialmente do Sul do país, a preços irrisórios e com critérios pouco transparentes. Outra forma comum foi a demarcação fraudulenta de “datas” (concessões) antigas de terras, que foram posteriormente apropriadas com uso de titulos inválidos de ações de inventário, seguidas de desmatamento ilegal.

Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba” aponta recomendações de enfrentamento deste cenário , que serão enviadas para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.

A pesquisa está disponível na íntegra Aqui!

Líderes da indústria do Reino Unido se unem para cortar das cadeias de abastecimento a soja ligada ao desmatamento e à conversão até 2025

  • Marcas líderes, incluindo Tesco, Nestlé Reino Unido e Irlanda, Sainsbury’s, Nando’s, KFC Reino Unido e Irlanda, Morrisons e McDonald’s Reino Unido e Irlanda, assinaram o Manifesto de Soja do Reino Unido
  • Compromisso significa que os signatários do Reino Unido se comprometem a comprar soja livre de desmatamento, protegendo florestas e valiosa vegetação nativa
  • Os signatários representam cerca de 60% de toda a soja comprada no Reino Unido a cada ano

Veterinarian giving granules to piglets

Hoje (9 de novembro de 2021), líderes da indústria do Reino Unido de 27 grandes empresas – todos os maiores varejistas de alimentos do Reino Unido (incluindo Tesco, Asda, Sainsbury’s, Waitrose, Marks & Spencer e Islândia), alguns dos maiores produtores de carne (incluindo Avara Foods, 2 Sisters Food Group, Cranswick, Pilgrim’s UK) e empresas e marcas de serviços alimentícios (como Danone UK e Irlanda, Nestlé UK e Irlanda, Nando’s, KFC UK e Irlanda e McDonald’s UK e Irlanda) uniram-se para assinar o Manifesto da Soja do Reino Unido. Isso os compromete a cortar o desmatamento e a destruição ambiental das cadeias de suprimento de soja do Reino Unido o mais rápido possível e até 2025, o mais tardar.

A fim de garantir um progresso rápido em direção a este objetivo, todos os signatários concordam em:
1. Estabelecer um compromisso robusto de desmatamento e livre de conversão – de modo que nenhuma soja que chegue ao Reino Unido seja responsável pelo desmatamento ambiental para a agricultura após janeiro de 2020

2. Pedir aos fornecedores diretos que adotem o mesmo compromisso – e exigir que os seus fornecedores também

3. Escrever os compromissos do Manifesto em contratos e apoiar os fornecedores para garantir que as metas sejam cumpridas

4. Compartilhar publicamente os detalhes de seu progresso

5. Apoiar relatórios aprimorados, a fim de verificar se a soja que chega ao Reino Unido não é responsável pelo desmatamento ou destruição de outros ecossistemas.

Os signatários incluem 27 marcas, varejistas, empresas de serviços de alimentação e produtores de gado que operam no Reino Unido, representando quase 2 milhões de toneladas de compras de soja a cada ano e mais da metade (quase 60%) do consumo total do Reino Unido.

A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja, palma, carne bovina e madeira – é um dos principais contribuintes para as mudanças climáticas, além de impulsionar a perda de biodiversidade. Quase um quarto (23%) das emissões globais de gases de efeito estufa causadas pelo homem vêm da agricultura, silvicultura e outros usos da terra, e a maioria dessas emissões se deve ao desmatamento . Não precisa ser assim: commodities agrícolas e florestais podem ser cultivadas sem destruir ainda mais a vegetação nativa.

O consumo de soja do Reino Unido – 3,5 milhões de toneladas em 2020 – embora pequeno em termos globais, está contribuindo para a pressão sobre paisagens biodiversas como o Cerrado, a Mata Atlântica, o Gran Chaco e a Chiquitânia na América do Sul. O consumo de soja no Reino Unido em 2017 levou a um desmatamento estimado em 3.081 hectares, uma área duas vezes maior que a cidade de Londres. A soja é um dos principais contribuintes para o desmatamento e a pegada de conversão do Reino Unido hoje. A maior parte dessa soja é usada na forma de ração animal.

A indústria do Reino Unido já começou a tomar medidas para proteger as florestas e outros ecossistemas naturais, melhorando a transparência e o compartilhamento de informações em todas as cadeias de abastecimento de soja do Reino Unido e aumentando o uso de certificação para apoiar a produção de soja sustentável na América do Sul. Mas há um reconhecimento compartilhado da necessidade de tomar ações mais ambiciosas, mais rápidas e em grande escala. A transformação em escala não pode ser alcançada por empresas que trabalham apenas em suas cadeias de suprimentos individuais. As empresas em todas as cadeias de abastecimento, assim como os produtores de soja, devem assumir a responsabilidade e agir em conjunto.

Os mercados globais precisam fornecer incentivos financeiros e suporte técnico para impulsionar a produção sustentável. Os governos em países e regiões produtores e consumidores também têm um papel importante a desempenhar.

A indústria do Reino Unido dá as boas-vindas aos compromissos anunciados na COP 26 pelos governos produtores e consumidores de promover o desenvolvimento sustentável e o comércio, protegendo as florestas e outros ecossistemas críticos, por meio da Declaração dos Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra e a declaração conjunta e roteiro de ação do Diálogo sobre Florestas, Agricultura e Comércio de Commodities (FATO ).

O Manifesto da Soja do Reino Unido se alinha e se baseia em iniciativas semelhantes em outros mercados, como o Manifesto da Soja da França, para mostrar a crescente demanda e planos de ação da indústria para remover todo o desmatamento e destruição do ecossistema das cadeias de abastecimento da soja.

O CEO da Tesco, Ken Murphy, e a CEO do WWF-UK Tanya Steele, falarão no lançamento virtual formal do Manifesto de Soja do Reino Unido hoje, terça-feira, 9 de novembro, onde se juntarão a eles signatários, representantes da indústria e especialistas.

Ken Murphy, CEO da Tesco disse:

“A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja – é um grande contribuinte para as mudanças climáticas, além de levar à perda de biodiversidade. A soja é a commodity de risco florestal de maior impacto da cadeia de suprimentos da Tesco. É por isso que já assumimos o compromisso de que até 2025 só compraremos soja de áreas inteiras verificadas como livres de desmatamento. Mas não podemos resolver esse problema por conta própria.

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é um marco crítico para a nossa indústria, reunindo marcas, varejistas, empresas de serviços alimentícios e produtores de gado que operam no Reino Unido e estabelecendo um compromisso claro para que todos os embarques físicos de soja para o Reino Unido sejam livres de desmatamento e conversão até 2025. “

Tanya Steele, Executiva Chefe do WWF, disse:

“Devemos acabar com o desmatamento e a destruição ambiental resultante da produção de soja com urgência se quisermos ter qualquer chance de limitar o aquecimento global a 1,5 ° C e reverter a perda da natureza. A indústria agora precisa intensificar sua ação e ambição para combater a devastação dos ecossistemas. O Manifesto da Soja do Reino Unido apresenta a chance de uma mudança real e todos os usuários de soja devem se comprometer com isso. Não esqueceremos aqueles que falharam em proteger nosso planeta. “

Marija Rompani, Diretora de Ética e Sustentabilidade, John Lewis Partnership disse:

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é uma conquista verdadeiramente histórica e uma clara declaração de intenções em toda a indústria do Reino Unido que a Waitrose tem o orgulho de apoiar. Proteger a natureza em regiões onde os produtos agrícolas são cultivados é fundamental se quisermos deter as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Mas a escala do desafio e da complexidade das cadeias globais de abastecimento da soja está além do que qualquer empresa sozinha pode resolver. Agindo em conjunto, as empresas no Reino Unido e mais amplamente podem atingir a massa crítica necessária para ajudar a transformar a maneira como a soja é cultivada e comercializada e permitir o fornecimento em escala de soja sem desmatamento.

Juntamente com outras iniciativas nacionais, legislação de due diligence e os compromissos sobre florestas anunciados por governos nacionais, o setor financeiro e traders de commodities agrícolas na COP26, temos esperança de que isso criará um verdadeiro ponto de virada para a natureza em ecossistemas preciosos como o Cerrado. Esperamos desempenhar um papel ativo na implementação do Manifesto da Soja do Reino Unido e cumprir sua meta de desmatamento e soja livre de conversão antes de 2025 “.

Paula MacKenzie, Diretora Administrativa, KFC UK&I disse:

“Temos que lidar com o desmatamento. É nossa responsabilidade gerenciar nossa cadeia de suprimentos, mas com a complexidade de distribuição e escala, será necessário mais do que apenas nossa influência para fazer a transição para a soja sustentável. É necessária a ação coletiva de toda a indústria alimentícia. É por isso que temos orgulho de ser signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido e de colaborar para fazer um progresso real em conter e reverter o desmatamento. “

Paul Willgoss, Diretor de Tecnologia da Marks & Spencer Food, disse:

“A indústria global de alimentos se tornou excessivamente dependente da soja rica em proteínas e isso continua a impactar negativamente a natureza em lugares como a Amazônia brasileira. Na M&S, nossa prioridade é eliminar o desmatamento da produção de nossos produtos e nos comprometemos com 100% de nossa soja ser livre de conversão e proveniente de regiões verificadas livres de desmatamento até 2025.

“Queremos fazer nossa parte no apoio a uma ampla transição da indústria para um modelo mais sustentável de produção de soja que proteja a saúde de nosso planeta e esperamos trabalhar em estreita colaboração com outros signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido para alcançar isso.”

Hannah Cornick, Chefe de Sustentabilidade e Inovação Social da Danone Reino Unido e Irlanda, disse:

“Acabar com o desmatamento impulsionado por commodities é vital para enfrentar a crise climática e preservar a biodiversidade, bem como proteger as comunidades em todo o mundo. Na Danone, temos o compromisso de garantir que toda a soja que compramos seja totalmente rastreável e não venha de zonas com risco de desmatamento. Nossos esforços para combater o desmatamento foram reconhecidos pelo CDP com uma classificação AAA.

A colaboração é essencial para impulsionar a ação necessária em todo o setor – e é por isso que compromissos coletivos como o anúncio de hoje são tão importantes. Relatórios abertos e transparentes também são essenciais à medida que continuamos a nos esforçar para ir mais longe e fazer mais pelas pessoas e pelo planeta. “

James McCulloch, chefe de alimentação da Agricultural Industries Confederation (AIC), disse:

“A Agricultural Industries Confederation (AIC), como representante da cadeia de fornecimento de ração animal do Reino Unido, apóia o Manifesto de Soja do Reino Unido em seu objetivo de promover uma transição para a produção e consumo sustentável de soja.

A cadeia de suprimentos de ração animal continuará desempenhando seu papel, ajudando a cumprir os objetivos do Manifesto. Continuamos convencidos de que a colaboração entre o mercado, o governo e outras partes interessadas pode garantir a proteção das florestas que são um recurso global vital. “

O governo do Reino Unido disse:

“O governo do Reino Unido dá as boas-vindas ao papel de liderança que as empresas britânicas estão assumindo para conduzir a transição para cadeias de abastecimento de soja sem desmatamento por meio do Manifesto de Soja do Reino Unido. Iniciativas como o manifesto podem complementar os esforços do governo para cumprir nossos objetivos climáticos e ambientais. “

Até o momento (9 de novembro de 2021), a lista completa de signatários do Manifesto do Reino Unido inclui:

• Sisters Food Group

• ABP UK

• Aldi GB

• Asda

• Avara Foods

• Co-op

• Cranswick Plc

• Danish Crown

• Danone UK and Ireland

• Dunbia

• Greencore Group Plc

• Hilton Food Group Plc

• Iceland Foods Ltd

• Kepak Group

• KFC UK & Ireland

• Lidl GB

• Marks and Spencer

• McDonald’s UK & Ireland

• Wm Morrison Supermarkets Plc

• Nando’s UK & Ireland

• Nestlé UK and Ireland

• Ocado

• Oscar Mayer

• Pilgrim’s UK

• Sainsburys

• Tesco Stores Ltd

• Waitrose & Partners

Para saber mais sobre a ação existente da indústria do Reino Unido sobre soja sustentável, visite:

     

Estudo mostra que soja embutida em produtos consumidos no Reino Unido pela abordagem florestal da Cargill

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Uma investigação realizada pelo Bureau of Investigative Journalism, Greenpeace Unearthed, ITV News e Daily Mirror encontrou ligações entre o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil e produtos lácteos britânicos. A trader de soja Cargill, a empresa europeia líder em nutrição animal ForFarmers e várias empresas de bens de consumo estão conectadas à cadeia de suprimentos do Grupo Scheffer, um agronegócio brasileiro com 224.000 hectares (ha) de terras aráveis. O Grupo Scheffer tem sido repetidamente vinculado a incidentes de danos ambientais em fazendas, incluindo a derrubada de faixas de vegetação do Cerrado e o uso de fogo para limpeza de terras.

A investigação revelou que fazendas do Reino Unido que fornecem leite e laticínios Saputo (proprietária da Dairy Crest com marcas de queijos bem conhecidas como Davidstow e Cathedral City Cheddar), Arla UK (parte de uma cooperativa multinacional dinamarquesa) e Cadbury UK (de propriedade da Mondelez International ) obtêm uma parte de sua ração para gado dos produtores de rações ForFarmers e Mole Valley Feeds. Esses produtores, por sua vez, compram soja brasileira exportada pela Cargill, que adquire soja do Grupo Scheffer.

A Cargill está ligada a eventos de desmatamento e incêndios em sua cadeia de suprimentos brasileira há algum tempo. Em março de 2021, a Chain Reaction Research informou que a Cargill tinha a segunda maior exposição ao risco de desmatamento no Cerrado em 2020 (depois da Bunge), totalizando 44.644 ha. Uma pesquisa anterior de CRR descobriu que a Cargill tinha um alto risco de sofrer incêndios dentro de suas zonas de compra potenciais. Como membro do Soft Commodities Forum (SCF), a Cargill e outros comerciantes se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso na transparência e rastreabilidade de suas cadeias de suprimento de soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade, inclusive em relação à conversão legal. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise do CRR apoia o Manifesto do Cerrado, que prevê a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no bioma. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento em suas cadeias de abastecimento.

A Arla e a Saputo apontam as suas compras de créditos de certificação para apoiar a produção de soja responsável. No entanto, os créditos adquiridos com a certificação da Mesa Redonda para a Soja Responsável (RTRS) ou do próprio esquema Triple S da Cargill não estão vinculados a suprimentos físicos. Também permitem a mistura de soja com produto de origem não certificada, o que pode estar vinculado ao desmatamento.

A Arla admitiu que “não monitora os fornecedores escolhidos por nossos proprietários agrícolas para seus negócios”. Portanto, não sabe de onde vem a soja em sua cadeia de abastecimento. Arla, Saputo e Mondelez International são empresas de bens de consumo (FMCGs) de rápido movimento. Este setor é um dos principais beneficiários dos lucros gerados na cadeia produtiva da soja. Esse padrão é muito semelhante à cadeia de lucro do óleo de palma . Na cadeia do óleo de palma, o FMCG e os setores de varejo (incluindo supermercados, serviços de alimentação e restaurantes fast-food) obtêm 66% dos lucros brutos e 52% dos lucros operacionais do óleo de palma incorporado. Essas empresas e seus financiadores enfrentam altos riscos financeiros pela não implementação e execução de políticas de desmatamento. Em particular, financiamento e risco de reputação pode custar-lhes até 30% do valor de sua empresa ou de mercado. Estabelecer a melhor política e execução de desmatamento zero da categoria, incluindo monitoramento / verificação, exigiria que essas empresas aumentassem os preços ao consumidor em menos de 2%.

A Cargill é uma empresa privada não listada, mas muitas instituições financeiras estão envolvidas no financiamento de dívidas e emissão de títulos para suas atividades de soja na América Latina. Os principais credores em seu financiamento à soja são BNP Paribas, Itaú Unibanco, JP Morgan Chase, Bank of America e Deutsche Bank. Entre os principais investidores em títulos da Cargill estão Prudential Financial (EUA), Metlife, AIG, Nationwide Mutual Insurance e Wellington Management. Vários deles adotaram políticas de desmatamento zero e têm amplos motivos para se envolver com a Cargill. Dos produtos de dívida identificados e ajustados, 27% vieram de instituições financeiras da União Europeia (UE). As instituições da UE estão cada vez mais expostas a regulamentações financeiras sustentáveis ​​(como o SFDR) e também terão que enfrentar a regulamentação da UE sobre a devida diligência na cadeia de abastecimento (2022).

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Financiamento para desmatar: organizações pedem veto a empréstimo milionário do BID para Marfrig

Em carta enviada ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mais de 200 entidades questionam políticas ambientais e de direitos humanos da empresa

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Por Isabel Harari para a Repórter Brasil

Cerca de 200 organizações da sociedade civil exigem que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) não aprove um empréstimo para a Marfrig, segunda maior empresa produtora de carne do mundo. O aporte financeiro tem como objetivo declarado apoiar investimentos em sustentabilidade feitos pela multinacional brasileira.

A Marfrig, segundo as entidades signatárias, acumula uma série de violações aos direitos humanos e ao meio ambiente em sua cadeia produtiva, o que seria “incompatível com o recebimento de investimento de uma instituição comprometida com a responsabilidade social e ambiental e com a obrigação de respeitar os direitos humanos na destinação de recursos públicos”, diz a carta enviada hoje (19) para os diretores do banco.

Em junho, a própria Marfrig admitiu que não possui controle sobre a origem de 40% do gado que compra (Foto: Christiano Antonucci/Secom-MT)

O frigorífico brasileiro espera conseguir um empréstimo de US$ 43 milhões com o BID – o equivalente a R$ 237 milhões, segundo cifras atuais. O valor seria usado na implementação do “Plano Verde +”, programa anunciado pela Marfrig em julho do ano passado, e que prevê melhorias no monitoramento da origem dos animais abatidos pela empresa. 

Mais de 800 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica já foram desmatados para a implantação de lavouras e pastagens, sendo a criação de gado responsável por 70% do desmatamento em países da América Latina e Caribe, segundo o BID. Na carta, as organizações alertam que  o empréstimo à Marfrig viola o compromisso do próprio banco com os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e com acordos internacionais sobre o clima.

“O banco falhou em sua análise ao aceitar a proposta da Marfrig. Esse é um exemplo de como os bancos podem facilitar a continuação de violações de direitos humanos e desmatamento por parte de empresas”,  afirma Merel van der Mark, da Sinergia Animal, uma das organizações signatárias da carta.

A Marfrig registrou uma receita líquida de R$ 67,5 bilhões em 2020, mesmo ano em que anunciou o investimento de R$ 500 milhões em sustentabilidade no “Plano Verde +”. Recentemente a empresa comprou quase um terço das ações da BRF, uma das maiores produtoras de frangos do mundo. Além disso, gastou US$ 969 milhões para adquirir 81% das ações da National Beef Packing Co, uma das maiores indústrias processadoras de carnes dos Estados Unidos. “Isso deveria ser considerado como evidência de que a Marfrig pode facilmente financiar seus projetos de sustentabilidade sem depender de fundos de investimento públicos”, diz a carta

“Poderíamos usar esse recurso para alimentar a população, e não para financiar a pecuária intensiva. Não é apenas sobre desmatamento, é sobre fome, é sobre entender as necessidades da população. Essa mobilização mostra que a sociedade civil não acredita que essa é a forma correta de gastar dinheiro público”, afirma Kari Hamerschlag, da Friends of the Earth’s.

O BID espera anunciar sua decisão sobre o empréstimo em dezembro deste ano.

Promessa nova, dívida antiga

Em 2009 a Marfrig se comprometeu a implementar mecanismos para monitorar a origem do gado abatido, evitando assim a compra de animais associados ao desmatamento ilegal, ao trabalho escravo e à invasão de Terras Indígenas.  A meta era que, até o final de 2011, houvesse mecanismos para controlar não só os fornecedores diretos – ou seja, as propriedades rurais que encaminham animais para o abate – mas também os chamados “fornecedores indiretos”, como são conhecidos os pecuaristas que vendem bezerros e gado jovem para as fazendas que negociam os animais diretamente com os frigoríficos. O plano, no entanto, nunca saiu do papel.

Uma década depois, a empresa renovou a promessa e esticou o prazo por mais dez anos: a previsão é ter o monitoramento dos animais abatidos, desde o nascimento até o abate, até 2025 na Amazônia e até 2030 no Cerrado.

A própria empresa admitiu, em junho deste ano, que existe um “ponto cego” de quase 40% do rebanho processado – ou seja, faltam garantias que o boi que chega no frigorífico pastou em áreas livres de desmatamento ou trabalho escravo. No Cerrado a taxa é ainda mais alarmante: 53% do rebanho não tem identificação de origem do gênero. 

“A Marfrig não se responsabiliza pelo descumprimento de sua promessa. Se o projeto for aprovado é como se o BID passasse um recado que tudo bem desmatar por mais dez anos. E nada garante que em 2030 a empresa vai ter cumprido a meta. Isso é totalmente inaceitável”, comenta Merel van der Mark.

Empréstimo e ‘greenwashing’

No ano passado a Repórter Brasil revelou que um frigorífico da Marfrig abateu animais de fazendeiros com propriedades localizadas ilegalmente dentro da Terra Indígena Apyterewa, a segunda mais desmatada na Amazônia em 2020. Em 2019, outra investigação mostrou que a empresa comprou gado de fazendeiros na APA Triunfo do Xingu, epicentro das queimadas na Amazônia. Mesmo após as denúncias, a empresa continuou comprando de fornecedores diretamente ligados a grandes violações de direitos humanos e trabalhistas na região.

Já uma investigação feito pela Global Witness apontou que entre 2017 e 2019, a Marfrig comprou gado de 89 fazendas responsáveis ​​por mais de 3,3 mil hectares de desmatamento ilegal. Esses são alguns exemplos levantados na carta que colocam em xeque a viabilidade do empréstimo. 

As organizações temem que o eventual empréstimo do BID abra brechas para novos investimentos à revelia do passivo socioambiental da Marfrig. “É um empréstimo ‘greenwashing’, que permite que a Marfrig capte mais recursos como se fosse uma empresa sustentável. Sabemos que suas práticas são tudo menos sustentáveis e o BID não deveria fazer parte disso”, aponta Hamerschlag.

A mobilização para que o BID não aprove o empréstimo a Marfrig faz parte da campanha Divest Factory Farm (Desenvistam da Pecuária Industrial, em tradução livre).

Contatada pela Repórter Brasil, a Marfrig não se posicionou sobre a carta até o fechamento da matéria. Após a publicação, a empresa encaminhou uma nota refutando as denúncias de problemas socioambientais em sua cadeia produtiva e que disse que é preciso “esclarecer os supostos casos de falha de compliance descritos no documento enviado ao BID”.

A Marfrig reiterou que está 100% em conformidade com os requisitos auditados de seus fornecedores diretos e que recentemente adotou uma nova ferramenta para identificação de fornecedores indiretos. “A maior parte dos casos apontados foram respondidos pela companhia e exaustivamente investigados pelas autoridades competentes, sem que a Marfrig jamais tenha sido condenada”, afirma a nota, que pode ser lida na íntegra aqui.

*Matéria atualizada às 17h15 do dia 20 de outubro de 2021 para acrescentar o posicionamento da Marfrig.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Investigação revela que queijo vendido em supermercados britânicos está ligado a desmatamento catastrófico no Brasil

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Por Andrew Wasley , Elisangela Mendonca , Lucy Jordan , Zach Boren , Alice Ross , Anna Turns , Rupert Evelyn , Philip Sime para o “The Bureau of Investigative Journalism

Fazendas do Reino Unido que fornecem leite e produtos lácteos para o Cathedral City Cheddar, manteiga Anchor e chocolate Cadbury estão alimentando seu gado com soja de um polêmico agronegócio acusado de contribuir para o desmatamento generalizado no Brasil, revelou uma investigação.

As fazendas, que vendem leite para Saputo, Arla e Cadbury, fornecem parte de sua ração animal de empresas que compram soja brasileira exportada pela gigante americana de grãos Cargill.

A investigação do Bureau, do Greenpeace Unearthed, do ITV News e do Daily Mirror revelou as complexas cadeias de abastecimento da soja que ligam os laticínios britânicos à devastação ambiental a milhares de quilômetros de distância nas regiões da Amazônia e do Cerrado no Brasil.

Ambos são críticos para a biodiversidade e para lidar com a degradação climática. A região do Cerrado, onde a maior parte da soja do Brasil é cultivada, abriga 5% das espécies vegetais e animais do mundo.

O desmatamento continua

O Grupo Scheffer, um dos fornecedores brasileiros da Cargill, tem sido associado a vários incidentes de danos ambientais, incluindo o desmatamento de áreas de floresta tropical, revelam novas evidências. Uma equipe de reportagem no Cerrado encontrou desmatamento recente relacionado a um agricultor de soja vendendo para o império do agronegócio brasileiro.

A investigação também levanta questões sobre a certificação de soja sustentável da Cargill. O esquema Triple S é saudado por algumas empresas de alimentos como uma opção ambientalmente correta, embora permita que soja sem desmatamento seja misturada com grãos de fontes não certificadas, o que pode incluir fazendas envolvidas na destruição da floresta.

Além disso, imagens de satélite e imagens de drones sugerem que a floresta pode ter sido desmatada em pelo menos uma fazenda brasileira Triple S, a fazenda Rafaela, em 2010 – uma aparente violação das regras do esquema. Tanto a Cargill quanto o Grupo Scheffer, dono da fazenda, contestam, afirmando que as coordenadas fornecidas pelo Bureau não estão na fazenda.

O Grupo Scheffer, um dos maiores produtores de soja do Brasil, que processou mais de 560.000 toneladas de soja, milho e algodão no ano passado, foi considerado responsável por uma série de infrações ambientais. Em 2019, a empresa foi multada em mais de US $ 450.000 por desmatar ilegalmente mais de 5 quilômetros quadrados de floresta protegida na fazenda Iracema, que faz divisa com o território indígena Utiariti. Um gerente de fazenda disse a repórteres do Bureau que a propriedade fornecia soja à Cargill.

O Grupo Scheffer também foi associado a um fazendeiro que desmatou mais de 10 quilômetros quadrados em 2019 e 2020 e, posteriormente, usou fogo para limpar o restolho este ano. Respondendo a esta alegação, a empresa confirmou que tinha um contrato de arrendamento com o proprietário da fazenda, mas disse: “Os pontos críticos detectados na propriedade estão localizados fora dos perímetros administrados pela Scheffer.”

O proprietário da Fazenda Natureza Feliz, Carlos Roberto Simonetti, disse que o desmatamento foi licenciado legalmente. Ele confirmou que havia trabalhado com o Grupo Scheffer para produzir soja para a Cargill, mas em uma fazenda adjacente.

Um silo de soja de propriedade da Cargill em Sapezal, Brasil, um município que exporta grandes quantidades de soja para o Reino UnidoMárcio Neves / ITV

Desde 2008, o Grupo Scheffer está vinculado ao desmatamento de pelo menos 24 quilômetros quadrados de floresta para expandir suas operações, revelou uma análise exclusiva da ONG Aidenvironment. A organização usou imagens de satélite para quantificar a atividade de corte e queima dentro dos limites de pelo menos 21 fazendas alugadas pelo Grupo Scheffer ou registradas para a empresa e seus acionistas.

A Cargill, o maior conglomerado de alimentos do mundo, já havia enfrentado acusações de que sua soja estava ligada ao desmatamento. No ano passado, uma investigação revelou 800 quilômetros quadrados de desmatamento e mais de 12.000 incêndios registrados em terras usadas ou pertencentes a um punhado de fornecedores de soja da Cargill no Cerrado desde 2015.

O Grupo Scheffer disse que cultiva soja há 30 anos no estado de Mato Grosso, a potência do agronegócio brasileiro, que é composto por três biomas principais: a savana tropical do Cerrado, a floresta amazônica e o Pantanal, a maior área úmida do mundo. “Ao longo desse período, crescemos e evoluímos de forma responsável, sempre respeitando práticas que garantem a longevidade do solo e do meio ambiente”, afirma a empresa.

Unidade de laticínios intensivos da Arla na Cornualha, onde o gado é alimentado com soja. O fornecedor de ração da fazenda compra da Cargill Notícias TBIJ / ITV

MPs britânicos e ativistas dizem que as descobertas da investigação reforçam a necessidade de novas leis duras para forçar as empresas a combater o desmatamento em suas cadeias de abastecimento.

Anna Jones, chefe das florestas do Greenpeace no Reino Unido, disse: “Muitas pessoas ficarão chocadas ao saber que seu queijo e manteiga estão ligados à destruição da floresta do outro lado do Atlântico. E ainda assim, enormes pedaços de florestas brasileiras e outros ecossistemas vitais ainda estão sendo cortados para o cultivo de toneladas e toneladas de soja que é então usada para alimentar galinhas, porcos e vacas leiteiras no Reino Unido. A indústria global de carnes e laticínios está alimentando a emergência climática e natural, e isso precisa parar. ”

O governo britânico “deve aproveitar a oportunidade para acabar com o desmatamento nas cadeias de abastecimento do Reino Unido”, introduzindo uma forte lei de desmatamento e uma estratégia de redução de carne e laticínios em linha com a ciência do clima, disse Jones. “Isso estabeleceria uma referência clara a ser seguida pelos líderes mundiais”.

Kerry McCarthy, ministro da sombra e membro do parlamento de Bristol East, disse: “Essas revelações são mais uma prova de que o desmatamento no exterior está profundamente enraizado nas cadeias de abastecimento do Reino Unido e nos produtos de supermercado do dia-a-dia.

“Ainda mais chocante é que grande parte desse desmatamento era legal de acordo com as leis locais. O governo sabe que este é um grande problema, mas suas próprias propostas sobre a eliminação do desmatamento das cadeias de abastecimento só se aplicarão se o desmatamento for ilegal ”. O governo brasileiro não se opõe ao desmatamento legal, apesar de seus efeitos sobre o clima. Marta Giannichi, autoridade ambiental brasileira, disse ao ITV News que os proprietários rurais têm o direito de “suprimir uma certa quantidade de vegetação”.

Além dos danos ambientais, a expansão da soja e da pecuária no Brasil teve um custo mortal. No ano passado, 20 brasileiros foram assassinados enquanto defendiam o meio ambiente, tornando-o o quarto país mais letal do mundo para os defensores verdes, de acordo com a Global Witness.

“Se parte do Cerrado ainda está de pé, é porque as comunidades tradicionais ainda existem”, disse Valéria Santos, coordenadora da coalizão de campanha Agro é Fogo, criada para combater o desmatamento e incêndio criminoso de grandes latifundiários, além do Nacional. Campanha em Defesa do Cerrado. “Conservar campos e florestas e resistir à expansão do agronegócio faz parte de seu sustento, de sua sobrevivência.”

Do Cerrado à Cornualha

No interior ondulante da Cornualha, em grande parte escondido da vista do público, um vasto complexo semelhante a uma fábrica se espalha pela encosta, seus telhados cinza contrastam com o verde dos campos circundantes.

A unidade não é uma fábrica; é uma fazenda leiteira gigante com mais de 20 celeiros interligados. O leite da fazenda é vendido para a multinacional de alimentos Arla, que fabrica a manteiga Anchor e fornece leite para supermercados no Reino Unido, inclusive para a Asda.

As vacas aqui, ao contrário de muitas, ficam alojadas permanentemente durante todo o ano. A fazenda é uma das maiores fazendas de leite intensivo da Grã-Bretanha – ou “megadairies” – baseadas nos sistemas de produção industrial de leite dos Estados Unidos, que surgiram nos últimos anos. Centenas de minúsculos cubículos se aglomeram ao lado dos prédios principais; são “cabanas para bezerros”, projetadas para conter animais jovens criados para entrar no rebanho de ordenha.

Os críticos da agricultura intensiva dizem que, nas últimas décadas, as dietas dos animais mudaram de grama e desperdício de alimentos, cada vez mais para grãos e proteínas, incluindo soja. Embora algumas fazendas leiteiras convencionais usem soja para suplementar outras rações, a escala das unidades de laticínios intensivos – onde o gado não pasta – e a necessidade de certezas quanto à ração significam que a soja é preferida, dizem especialistas da indústria.

O Bureau soube que a ração para gado usada no megafarm da Cornualha contém soja, fornecida pela Mole Valley Feeds, um grande fornecedor de ração animal para o setor de laticínios do Reino Unido.

A investigação do Bureau estabeleceu que Mole Valley também transporta ração para gado à base de soja para fazendas de leite que vendem leite para a Saputo, a empresa-mãe da Dairy Crest.

A Saputo fabrica a marca de queijos caseiros Cathedral City, bem como Davidstow Cheddar, na sua cremosa da Cornualha.

As fazendas da Saputo também são abastecidas por uma segunda empresa que oferece rações à base de soja, a NWF Agri, que afirma alimentar “um em cada seis” gado leiteiro britânico.

Outra empresa de rações, a ForFarmers, foi identificada como vendendo rações de soja para fazendas de abastecimento da Arla, junto com uma fazenda que vende produtos lácteos para a Cadbury. A Cadbury é totalmente controlada pela multinacional de lanches Mondelez.

O Bureau estabeleceu que tanto a Mole Valley Feeds quanto a NWF oferecem soja Cargill Triple S para venda no Reino Unido. O Vale Mole não quis comentar e a NWF não respondeu às nossas solicitações.

ForFarmers disse: “No Reino Unido, a ForFarmers adquire sua soja de três países, dos quais apenas 14% é do Brasil” e que nesse mercado “100% da farinha de soja usada na alimentação de todos os ruminantes é coberta por certificados de sistemas de soja responsáveis” .

A Arla disse não reconhecer o Triple S da Cargill como “uma certificação que atende aos nossos requisitos de produção responsável”. Um porta-voz disse: “Tanto a Arla quanto os produtores de leite proprietários de nossa cooperativa estão tomando medidas para gerenciar o uso da soja de forma responsável”. Mas eles admitiram: “Não monitoramos os fornecedores escolhidos pelos nossos proprietários agrícolas para seus negócios”.

A empresa de laticínios acrescentou que, desde 2014, comprou créditos que apóiam o cultivo responsável da soja. Arla descreveu a soja como uma parte “pequena, mas importante” da dieta das vacas e disse que alguns de seus agricultores estavam procurando alternativas caseiras, como a proteína da ervilha.

A Saputo disse em um comunicado: “A partir do início de 2022,  os padrões da Davidstow Farm  determinarão que todas as fazendas que fornecem para a produção de leite da Davidstow Saputo Dairy do Reino Unido devem obter ração de fornecedores com uma política de compra de soja sustentável”. A empresa disse que há dois anos comprou créditos usados ​​para apoiar produtores que cultivam soja de forma responsável.

Um porta-voz da Mondelez disse: “Como parte do nosso compromisso de combater o desmatamento, deixamos claro que esperamos que todos os nossos fornecedores de laticínios do Reino Unido trabalhem conosco e se comprometam contratualmente a garantir que eles estejam adquirindo 100% de ração livre de desmatamento até 2023”.

Andrew Opie, diretor de alimentos e sustentabilidade do British Retail Consortium, disse: “Os varejistas estão trabalhando juntos para combater o desmatamento e promover uma maior absorção de soja sustentável certificada em suas cadeias de abastecimento”.

Um porta-voz da Asda disse: “Entendemos a importância da soja sustentável para nossos clientes e estamos comprometidos com a redução da produção de alimentos associada ao desmatamento”. A empresa disse que está trabalhando com os fornecedores em um plano para garantir que toda a sua soja seja “certificada fisicamente” até 2025. 

Um incêndio em uma fazenda de soja em Mato Grosso, BrasilCarl de Souza / AFP via Getty

A indústria de laticínios britânica usou cerca de 360.000 toneladas de soja de países como Brasil, Argentina e Estados Unidos como ração animal em 2019. Esse volume é ofuscado apenas pelo uso de soja pelo setor avícola e torna as fazendas de laticínios o segundo maior consumidor de soja do Reino Unido feed baseado em

A Cargill domina o comércio de soja no Reino Unido, controlando cerca de 70% do mercado. A empresa embarca mais de 100.000 toneladas de grãos de soja para o Reino Unido todos os anos, somente da região do Cerrado do Brasil.

A maior parte da soja exportada do Brasil é produzida no Cerrado, que antes cobria cerca de 2.000.000 de quilômetros quadrados. O que resta do bioma está cada vez mais fragmentado e degradado, e desaparecendo rapidamente, à medida que grandes interesses agrícolas no Brasil se apressam para acompanhar a demanda global.

Pessoas x lucro

A concentração de vastas extensões de terra nas mãos de alguns indivíduos ricos também traz problemas sociais. Edson Ferreira Lima faz parte de uma comunidade de trabalhadores rurais sem terra que recentemente se instalou em um projeto de desenvolvimento sustentável no Novo Mundo, no norte de Mato Grosso. Aqui, dezenas de famílias compartilham um terreno de 20 km2, onde vivem e cultivam vegetais orgânicos. “São 96 famílias que tinham uma vida muito precária e hoje, graças a Deus, estão bem; eles são pacíficos ”, disse ele.

Teoricamente, o assentamento também deveria incluir uma reserva florestal de 50 km2, onde a comunidade pode pescar e coletar frutas nativas. Mas um agricultor local de soja está disputando o direito da comunidade à terra, e eles estão esperando um juiz para decidir sobre o caso.

Lima disse que os sem-terra normalmente encontram oposição, ameaças e violência ao defender a reforma agrária e por um espaço para os agricultores familiares produzirem alimentos de forma sustentável.

As famílias se preocupam, disse ele, com o câncer e outros problemas de saúde de longo prazo devido ao uso intenso de pesticidas nas megafarmas ao seu redor. “Na época das chuvas, os resíduos vão todos para os rios e isso diminui a quantidade de peixes”, disse. “Nessas regiões que agora plantam soja, consumimos um veneno muito perigoso … ele acaba matando humanos.”

Proprietários de terras ricos não levam esses danos em consideração de maneira adequada, disse Lima. Muitas vezes, eles nem moram na região. “O pensamento deles é apenas sobre o lucro.”

Repórteres: Andrew Wasley, Elisângela Mendonça, Lucy Jordan, Zach Boren, Alice Ross, Anna Turns, Rupert Evelyn e Philip Sime Editor de Meio Ambiente: Jeevan Vasagar Editor de Investigações: Meirion Jones Editor global: James Ball Editores de produção: Alex Hess, Frankie Goodway e Emily Goddard Impact Produtor: Grace Murray Verificador de fatos: Alice Milliken Equipe jurídica: Stephen Shotnes (Simons Muirhead Burton)

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Bureau of Investigative Journalism” [Aqui!].