O ataque dos EUA à Venezuela e suas repercussões

Sequestro de Maduro foi na mesma data de captura de Noriega e assassinato  de Soleimani - Opera Mundi

Tenho lido várias declarações de pessoas ainda impactadas pelo ataque estadunidense à Venezuela. Além das análises já publicadas aqui no Blog do Pedlowski por distintos comentadores que destrincharam as razões das ações do governo Trump na Venezuela, quero me deter em um aspecto menos óbvio que é a razão pela qual muitos se surpreenderam com mais uma expressão de uso de força direta dos EUA.

Como já assinalei brevemente em postagem anterior, o ataque à Venezuela é a primeira vez em que os EUA usam força militar direta e sem rodeios contra um país da América do Sul.  Antes o que havia basicamente era o uso de forças para ações combinadas com governos locais contra grupos específicos ou ainda o emprego de táticas para minar e derrubar governos. O exemplo de Cuba é o mais longevo no sentido do emprego de medidas de bloqueio econômico em combinação com tentativas de desestabilização política.

Assim, as pessoas estão se chocando porque viram mais perto o emprego de força militar que países como Vietnã, Iraque, Irã, Líbia e Síria (apenas para começar) já sentiram, com o saldo de milhões de mortos.  Em outras palavras, as pessoas se chocam porque finalmente viram a coisa acontecer mais de perto, e não apenas por meio da cobertura superficial da mídia corporativa brasileira que, aliás, repetiu o papelão no dia de ontem.

Mas as pessoas estão certas quando dizem que o ataque e o sequestro do casal Maduro representam uma espécie de virada de maré. É que se fizeram isso na Venezuela, o que vai deter os estadunidenses de repetirem o ato em outros países sul americanos? Aparentemente nada, a não ser suas próprias divisões internas.

Um detalhe que é precisa que se ressalte é que, ao contrário do que fizeram em outros países, os estadunidenses se acomodaram inicialmente com uma sucessão chavista na presidência da Venezuela, além do fato de Donald Trump ter desacreditado a líder da extrema-direita venezuelana, Maria Corina Machado, como alguém apto a assumir o poder.  Esses movimentos indicam que o governo Trump sabe perfeitamente dos riscos envolvidos nessa ação em uma região em que a desigualdade social profunda entre ricos e pobres é mantida por meio de processos que nada tem de democrático. Assim, ao se acomodar, ao menos momentaneamente com segmentos ideologicamente duros do chavismo, o que Donald Trump parece estar tentando fazer é não produzir um processo de desestabilização regional. O problema é saber se as ações de ontem já não serviram como um estopim de desestabilização.

Por outro lado, a situação criada pelo ataque à Venezuela, me fez lembrar a frase “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” foi dita por Karl Marx em sua obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. Marx usou originalmente essa ideia para analisar o golpe de Estado de Napoleão III, comparando-o com a revolução de seu tio, Napoleão Bonaparte, mostrando como os eventos históricos podem se repetir, mas de forma menos grandiosa e mais cômica ou ridícula na segunda vez.  Por que lembrei dessa frase? É que por mais que o presidente Donald Trump e seus ministros queiram, a ideia de que se pode reestabelecer uma hegemonia que se constituiu em um momento histórico que já se esgotou, principalmente em função das opções feitas pelo burguesia dos EUA de ampliar sua extração de mais valia em países como a China via investimentos que alteraram o balanço geopolítico em prol dos chineses de forma extrema e irreversível. Ou seja, esse ataque está mais para farsa do que para tragédia.

Finalmente, me parece importante notar que no caso brasileiro não apenas a corrida eleitoral de 2026 foi colocada em outro patamar pela invasão estadunidense, mas também o debate que ocorrerá dentro da esquerda brasileiro sobre o receituário que teremos de adotar para enfrentar a conjuntura histórica que ele criou.

Pecuária brasileira sob pressão: China impõe tarifas adicionais às importações de carne para proteger produção interna

Bifes de carne são preparados na cozinha do restaurante Wolfgang's Steakhouse, em Pequim.

Bifes de carne sendo preparados em um restaurante em Pequim, China, em 8 de setembro de 2021. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins.

Por Daphne Zhang Ella Cao Liz Lee para “Reuters”

Pequim/São Paulo, 31 de dezembro (Reuters) – A China imporá uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem as cotas de fornecedores importantes, incluindo Brasil, Austrália e Estados Unidos, em uma medida para proteger sua indústria pecuária nacional.

O Ministério do Comércio da China afirmou na quarta-feira que a cota total de importação para 2026 para os países abrangidos pelas suas novas “medidas de salvaguarda” é de 2,7 milhões de toneladas métricas, valor praticamente em linha com o recorde de 2,87 milhões de toneladas importadas no total em 2024.

Os novos níveis de quotas anuais são inferiores aos níveis de importação para os primeiros 11 meses de 2025 para o Brasil, o principal fornecedor, e para a Austrália.

“O aumento na quantidade de carne bovina importada prejudicou seriamente a indústria nacional da China”, disse o ministério ao anunciar a medida após uma investigação iniciada em dezembro passado.

A medida entra em vigor em 1º de janeiro por um período de três anos, com a quota total prevista para aumentar anualmente.

As importações de carne bovina pela China caíram 0,3% nos primeiros 11 meses de 2025, para 2,59 milhões de toneladas.

As importações chinesas de carne bovina diminuirão em 2026 como resultado das medidas, afirmou Hongzhi Xu, analista sênior da Beijing Orient Agribusiness Consultants.

“A pecuária bovina na China não é competitiva em comparação com países como o Brasil e a Argentina. Isso não pode ser revertido a curto prazo por meio de avanços tecnológicos ou reformas institucionais”, disse Xu.

Volume da quota (1.000 toneladas) 2026 2027 2028 Importações reais de janeiro a novembro de 2025
Brasil 1.106 1.128 1.151 1.329
Argentina 511 521 532 436
Uruguai 324 331 337 188
Nova Zelândia 206 210 214 110
Austrália 205 209 213 295
Estados Unidos 164 168 171 55
Outros países/regiões 172 175 179
Total 2.688 2.742 2.797
Tarifa adicional 55% 55% 55%

Em 2024, a China importou 1,34 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil, 594.567 toneladas da Argentina, 243.662 toneladas do Uruguai, 216.050 toneladas da Austrália, 150.514 toneladas da Nova Zelândia e 138.112 toneladas dos Estados Unidos.

Nos primeiros 11 meses deste ano, o Brasil exportou 1,33 milhão de toneladas de carne bovina para a China, de acordo com dados da alfândega chinesa, número superior às 1,1 milhão de toneladas estabelecidas pelas novas medidas de Pequim.

Este ano, as exportações australianas para a China aumentaram consideravelmente, ganhando participação de mercado em detrimento da carne bovina americana, após Pequim ter permitido, em março, o vencimento das licenças de centenas de frigoríficos americanos e com o presidente Donald Trump tendo iniciado uma guerra tarifária de retaliação. As exportações americanas totalizaram apenas 55.172 toneladas até novembro, menos da metade dos níveis de 2024.

As exportações australianas de carne bovina para a China atingiram 294.957 toneladas nos primeiros 11 meses de 2025.

“Deixamos claro para a China que a carne bovina australiana não representa um risco para o setor deles e que esperamos que nosso status como um parceiro valioso do Acordo de Livre Comércio seja respeitado”, disse o ministro do Comércio australiano, Don Farrell, à Reuters na quinta-feira, classificando a decisão da China como “decepcionante”.

O governo australiano e a indústria da carne bovina estavam trabalhando em estreita colaboração para determinar todas as implicações da medida, disse a ministra da Agricultura, Julie Collins, em resposta por e-mail à Reuters.

Escassez de carne bovina

A medida da China surge em um momento em que a escassez global de carne bovina eleva os preços em muitas partes do mundo, inclusive a níveis recordes nos EUA.

Em resposta ao anúncio de Pequim, Mark Thomas, presidente da Western Beef Association na Austrália, disse: “Há muitos outros países que comprarão nosso produto.”

Luis Rua, secretário do Ministério da Agricultura do Brasil, afirmou que não há motivo para pânico, dizendo à Reuters que o governo pode negociar medidas compensatórias com a China para atenuar o impacto das novas tarifas.

Em entrevista por telefone, Rua também mencionou a capacidade do Brasil de redirecionar as exportações de carne bovina para outros países.

Por outro lado, grupos industriais brasileiros manifestaram preocupação.

Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira totalizaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a cerca de 48% do volume exportado pelo Brasil em geral, afirmou a Abiec, associação que representa o setor de carne bovina, em comunicado.

“Diante desse cenário, ajustes serão necessários em toda a cadeia de suprimentos, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”, observou Abiec.

Outro importante grupo de lobby da carne bovina brasileira, o Abrafrigo, afirmou que o impacto potencial das medidas de salvaguarda da China pode significar uma perda de até US$ 3 bilhões em receita de exportação para o Brasil em 2026.

A Abrafrigo afirmou que, neste ano, a receita total das exportações de carne bovina do Brasil está estimada em US$ 18 bilhões.

Proteção Doméstica

A China fez o anúncio após duas prorrogações de sua investigação sobre a importação de carne bovina, que, segundo autoridades, não tem como alvo nenhum país em particular.

As tarifas ajudarão a conter o declínio no rebanho bovino da China e darão tempo para que as empresas nacionais de carne bovina façam ajustes e melhorias, disse Zengyong Zhu, pesquisador do Instituto de Ciência Animal da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas.

Pequim intensificou o apoio político ao setor de carne bovina este ano e afirmou, no final de novembro, que a pecuária tem sido lucrativa por sete meses consecutivos.

Reportagem de Liz Lee, Shi Bu, Daphne Zhang e Ella Cao; reportagem adicional de Helen Clark em Perth e Christine Chen em Sydney, Gabriel Araujo e Ana Mano em São Paulo e Rodrigo Viga Gaier no Rio de Janeiro. Edição de Tony Munroe, Gareth Jones e Jan Harvey.


Fonte: Reuters

Milhares de agricultores nos EUA têm Parkinson. Eles culpam o Paraquat

O paraquat, um herbicida altamente regulamentado, é proibido em mais de 70 países, mas ainda é legal nos Estados Unidos. É alvo de milhares de processos judiciais que alegam sua ligação com a doença de Parkinson.  Ramsey Archibald | rarchibald@al.com

Por Rose White para “MLive”

Em 2025, o MLive, em Michigan, e o AL.com, no Alabama, investigaram o uso atual do paraquat, um herbicida altamente regulado e alvo de milhares de processos judiciais que alegam sua ligação com a doença de Parkinson.

Paul Friday se lembra de quando sua mão começou a ficar mole no frio – o primeiro sinal de que as células nervosas em seu cérebro estavam morrendo.

Ele acabou sendo diagnosticado com Parkinson, uma doença cerebral que piora com o tempo. Seus membros ficaram mais rígidos. Ele tinha dificuldade para andar. Não conseguia mais viver na fazenda da família. Pouco tempo depois, Friday passou a acreditar que décadas de pulverização de um pesticida chamado paraquat em seu pomar de pêssegos no sudoeste de Michigan poderiam ser a causa.

“Isso me explicou por que tenho doença de Parkinson”, disse Friday, que agora tem 83 anos e faz essa afirmação em um processo judicial pendente.

O Paraquat, um herbicida, é extremamente tóxico.

Com as evidências de seus malefícios se acumulando, o paraquat já foi proibido em dezenas de países ao redor do mundo, incluindo o Reino Unido e a China, onde é produzido . No entanto, no ano passado, a Syngenta, fabricante do produto e subsidiária de uma empresa estatal chinesa, continuou vendendo paraquat nos Estados Unidos e em outros países que não o proibiram.

As estatísticas de saúde são limitadas. Os críticos apontam para pesquisas que associam a exposição ao paraquat ao Parkinson, enquanto o fabricante contesta, afirmando que nenhuma delas foi revisada por pares. Mas os processos judiciais estão aumentando nos Estados Unidos, à medida que agricultores enfrentam o Parkinson após uma vida inteira de uso da substância, e grande parte do mundo está abandonando o paraquat.

Isso tem levado muitos críticos a debater a seguinte questão: O que será necessário para proibir o paraquat nos Estados Unidos?

“O que temos visto ao longo de décadas é uma falha sistêmica na proteção dos trabalhadores rurais e da comunidade agrícola contra os agrotóxicos”, disse Jonathan Kalmuss-Katz, advogado sênior da Earthjustice, uma organização de direito ambiental que se opõe ao paraquat.

Paul Friday foi um produtor de pêssegos em Coloma, Michigan, durante toda a sua vida, até ser diagnosticado com a doença de Parkinson em 2017.  Foto cedida por Luiba Friday.

Milhares de processos judiciais se acumulam

Para Ruth Anne Krause, foi difícil ver seu marido, com quem era casada há 58 anos, lutando para mover as mãos. Ele era um ávido entalhador de madeira, esculpindo detalhes intrincados em suas criações, até que se tornou muito difícil para ele segurar as ferramentas.

Jim Krause foi diagnosticado com doença de Parkinson em 2019, após décadas administrando uma fazenda de frutas de caroço de 8 hectares no centro da Califórnia. Sua esposa conta que ele frequentemente usava máscara e botas de borracha amarelas para pulverizar paraquat nos campos.

Krause, que não tinha histórico familiar de doenças neurológicas, como é típico, faleceu em 2024.

“Quero que as pessoas saibam o que aconteceu”, disse Ruth Anne Krause, que está preocupada com o fato de o paraquat ainda estar sendo vendido a agricultores americanos.

Krause é uma das milhares de pessoas que processaram a Syngenta, fabricante do produto, e a Chevron USA, vendedora, devido à exposição ao paraquat. Elas alegam que as empresas químicas não alertaram sobre os perigos do paraquat, apesar de saberem que ele poderia danificar as células nervosas humanas e de estudos mostrarem sua ligação com a doença de Parkinson.

Entre 11 e 17 milhões de libras de paraquat são pulverizadas anualmente em fazendas americanas, de acordo com os dados mais recentes do Serviço Geológico dos Estados Unidos. O agrotóxico é usado para dessecação, ou seja, os agricultores o pulverizam para limpar rapidamente um campo ou matar ervas daninhas. É eficaz, mas altamente tóxico.  Julie Bennett | preps@al.com

“E apesar de centenas de estudos realizados nos últimos 60 anos, o consenso científico é que não há comprovação de que o paraquat seja uma causa da doença de Parkinson”, afirmou a empresa em comunicado.

A Syngenta enfatizou que não há evidências de que o paraquat cause a doença de Parkinson.

“Temos grande compaixão por aqueles que sofrem com os efeitos debilitantes da doença de Parkinson”, disse um porta-voz da Syngenta em um comunicado. “No entanto, é importante ressaltar que as evidências científicas simplesmente não comprovam uma relação causal entre o paraquat e a doença de Parkinson, e que o paraquat é seguro quando usado conforme as instruções.”

Mais de 6.400 ações judiciais contra a Syngenta e a Chevron, que alegam uma ligação entre o paraquat e a doença de Parkinson, estão pendentes no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Illinois. Outros 1.300 casos foram instaurados na Pensilvânia, 450 na Califórnia e muitos outros estão espalhados por tribunais estaduais.

“Acho importante deixar claro que esse número provavelmente não representa nem de perto quantas pessoas foram afetadas por isso”, disse Christian Simmons, especialista jurídico da Drugwatch .

Em março, a Syngenta informou seus acionistas que outros 1.600 casos foram arquivados ou resolvidos voluntariamente. Em 2021, a empresa firmou acordos em um número não especificado de casos na Califórnia e em Illinois, totalizando US$ 187,5 milhões, segundo um relatório financeiro da empresa . Alguns outros casos foram arquivados por descumprimento de prazos judiciais. Nenhum deles chegou a julgamento ainda.

Por trás desses milhares de processos judiciais, uma lista que cresce quase diariamente, está uma pessoa que sofre da doença de Parkinson.

Em Ohio, Dave Jilbert, um vinicultor, pulverizou o agrotóxico em seu vinhedo ao sul de Cleveland . Ele foi diagnosticado com Parkinson em 2020 e agora está processando e trabalhando para que o paraquat seja proibido. Terri McGrath acredita que anos de exposição ao paraquat na fazenda de sua família, na zona rural do sudoeste de Michigan, provavelmente contribuíram para o seu Parkinson. Outros seis membros da família também têm a doença. E no sul do Alabama, Mac Barlow está processando após receber um diagnóstico semelhante depois de anos utilizando paraquat.

“Usei esse produto intermitentemente por cerca de 40 anos”, disse Barlow. “Para ser sincero, se eu soubesse que seria tão ruim, teria tentado encontrar outra solução.”

No Alabama, o agricultor Mac Barlow foi diagnosticado com Parkinson após anos pulverizando paraquat. Teri McGrath acredita que anos de exposição ao paraquat na fazenda de sua família, na zona rural do sudoeste de Michigan, contribuíram para o desenvolvimento de seu Parkinson. Em Ohio, Dave Jilbert, um vinicultor que pulverizou o agrotóxico em seu vinhedo, foi diagnosticado com Parkinson em 2020. Assim como Barlow, Jilbert agora está processando a empresa.  Fotos de Julie Bennett, Isaac Ritchey e David Petkiewicz.

Paraquat nos Estados Unidos

Desde que chegou ao mercado na década de 1960, o paraquat tem sido usado na agricultura para “queimar” rapidamente as ervas daninhas antes do plantio das culturas. O agrotóxico, originalmente desenvolvido pela Syngenta e vendido pela Chevron, rompe o tecido vegetal, destruindo as plantas em nível molecular em poucas horas.

“Ele é usado porque é eficaz naquilo que faz. É altamente tóxico. É muito bom para matar coisas”, disse Geoff Horsfield, diretor de políticas do Environmental Working Group. “E, infelizmente, quando um agrotóxico como este é tão eficaz, isso geralmente também significa que há impactos na saúde humana.”

Na década de 1970, tornou-se uma ferramenta na guerra contra as drogas, pulverizado para matar plantações de maconha no México. Em 1998, essa história o levou a Hollywood quando o Dude, em “O Grande Lebowski”, chama alguém de “paraquat humano”, um estraga-prazeres.Atualmente, entre 11 e 17 milhões de libras de paraquat são pulverizadas anualmente para auxiliar no cultivo de algodão, soja e milho, entre outras culturas, em todo o país, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). E apesar dos supostos riscos conhecidos, seu uso está aumentando, de acordo com os dados federais mais recentes, tendo mais que dobrado entre 2012 e 2018.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) afirma em seu site que novos dados sobre o uso de pesticidas serão divulgados em 2025. Esses dados ainda não foram publicados.

Uso de paraquat aumentou em todos os EUA

Como o paraquat mata qualquer vegetação com a qual entre em contato, ele é normalmente usado para limpar um terreno antes do plantio de qualquer cultura. Baixos níveis de resíduos de paraquat podem permanecer em plantações, mas a principal ameaça é a exposição direta.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde , os agrotóxicos estão entre os métodos mais comuns de suicídio em todo o mundo, e o paraquat é frequentemente utilizado devido à sua letalidade. Pesquisas mostram que, após a proibição do agrotóxico em alguns países, como a Coreia do Sul e o Sri Lanka, houve uma queda significativa nos índices de suicídio .

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) já restringe o uso do paraquat, classificando-o como de “uso registrado”, com um símbolo de caveira e ossos cruzados, o que significa que só pode ser usado por pessoas licenciadas. Devido à sua toxicidade, o governo federal exige que o produto contenha corante azul, odor forte e um agente emético, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) . Os aplicadores também são orientados a usar equipamentos de proteção individual.

Apesar dessas medidas de segurança, os centros de controle de intoxicações dos EUA receberam centenas de ligações relacionadas ao paraquat na última década, conforme mostram seus relatórios anuais.

A ingestão é a forma mais provável de envenenamento por paraquat, de acordo com o CDC , mas o contato com a pele também pode ser fatal. Aliás, se o produto entrar em contato com alguém, as autoridades de saúde recomendam que a pessoa lave imediatamente e retire as roupas o mais rápido possível. Dessa forma, evita-se o risco de espalhar mais pesticida tóxico pelo corpo ao vestir a camisa.

Em um caso de 2023 documentado pelos Centros de Controle de Intoxicações dos Estados Unidos , um homem de 50 anos ingeriu acidentalmente um líquido azul de uma garrafa de Gatorade, que se revelou ser paraquat. Após tentar vomitar, ele foi ao pronto-socorro com dificuldade para respirar, náuseas e vômitos.

Os médicos correram para socorrer o homem, mas ele ficou roxo devido à falta de oxigênio e seus órgãos falharam. Ele morreu em três dias.

Em outro relato de um centro de controle de intoxicações, um homem de 65 anos derramou paraquat em suas roupas e continuou trabalhando. Dez dias depois, ele foi ao pronto-socorro com queimaduras de segundo grau no estômago. Com tontura e náuseas, ele ficou internado por dois dias antes de receber alta.

Uma semana depois, ele voltou para a UTI, pois seus rins, pulmões e coração pararam de funcionar. Ele morreu 34 dias após o acidente.

Esses resumos anuais de casos dos centros de controle de intoxicações fornecem informações sobre a toxicidade do paraquat, mas não está claro exatamente quantas pessoas nos EUA foram feridas ou mortas pelo herbicida, porque há apenas um conjunto fragmentado de dados, criando um quadro desigual e incompleto.

O último relatório anual do Sistema Nacional de Dados sobre Intoxicações registrou 114 notificações e uma morte causadas pelo paraquat em 2023. Ao longo de uma década, de 2014 a 2023, esse sistema documentou 1.151 chamadas relacionadas ao paraquat. E um banco de dados separado mostra que a EPA investigou 82 casos de exposição humana desde 2014.

Mesmo a exposição secundária pode ser perigosa. Um caso publicado no Rhode Island Medical Journal descreveu uma situação em que um homem de 50 anos ingeriu paraquat acidentalmente, e a enfermeira que o atendia sofreu queimaduras devido à urina que respingou em seus antebraços. Em um dia, sua pele formou bolhas e descamou.

Uma ex- aluna de horticultura da Universidade Estadual de Michigan está processando a instituição em US$ 100 milhões, alegando ter desenvolvido câncer de tireoide devido à exposição a agrotóxicos como paraquat, glifosato e oxifluorfeno.

Entretanto, uma ameaça muito mais disseminada paira no ar: a exposição prolongada a baixos níveis de poluentes.

Parkinson em ascensão

A doença de Parkinson é a doença neurológica que mais cresce no mundo, com projeções de que os casos dobrem até 2050, em parte devido ao envelhecimento da população, segundo um estudo publicado no The BMJ, um periódico médico com revisão por pares . Ela ocorre quando as células cerebrais que produzem dopamina, uma substância química que controla o movimento, param de funcionar ou morrem.

A causa exata é desconhecida, provavelmente uma combinação de fatores genéticos e, principalmente, ambientais.

Um estudo da Fundação Parkinson revelou que 87% das pessoas com a doença não apresentam fatores de risco genéticos. Isso significa que, “para a grande maioria dos americanos, a causa da doença de Parkinson não está dentro de nós, mas fora de nós, em nosso ambiente”, afirmou o neurologista e pesquisador Ray Dorsey.

É por isso que Dorsey, que literalmente escreveu o livro sobre Parkinson, afirma que a doença é “em grande parte evitável”.

Existe uma longa lista de fatores ambientais associados à doença de Parkinson, mas os pesticidas são uma das maiores ameaças, de acordo com Dorsey

“Se limparmos o nosso ambiente, nos livramos da doença de Parkinson”, disse ele.

Paul Friday dedicou sua vida ao cultivo de pêssegos em sua fazenda de 20 hectares em Coloma, Michigan. Depois de comprar 20 hectares de terra em 1962, ele começou a experimentar com cruzamentos para desenvolver o pêssego perfeito. Ele agora é um dos milhares de agricultores que entraram com processos alegando que um pesticida tóxico chamado paraquat é o culpado por seu Mal de Parkinson, uma doença neurológica.  Foto cedida por Paul Friday.

Pesquisas que remontam a décadas têm explorado essa ligação

Um relato de caso publicado no início de 1987 na revista Neurology discute o caso de um agricultor de citrinos de 32 anos que começou a apresentar tremores, rigidez e falta de coordenação motora após 15 anos de pulverização com paraquat. Mas “uma relação de causa e efeito é difícil de estabelecer”, escreveu um médico na época.

Uma década depois, um estudo com animais conduzido pela pesquisadora de Parkinson Deborah Cory-Slechta descobriu que o paraquat absorvido por camundongos destrói o tipo específico de neurônio dopaminérgico que morre na doença de Parkinson. Mais recentemente, sua pesquisa descobriu que o paraquat inalado também pode ultrapassar a barreira hematoencefálica, ameaçando os neurônios.

“É bastante claro que a substância chega ao cérebro por meio de modelos de inalação”, disse Cory-Slechta.

Os críticos apontam para outros estudos epidemiológicos que seriam mais conclusivos.

Em 2011, pesquisadores estudaram trabalhadores rurais expostos a dois pesticidas, rotenona e paraquat, e determinaram que essas exposições aumentavam o risco de desenvolver Parkinson em 150%. Outro estudo, publicado no ano passado , analisou 829 pacientes com Parkinson na região central da Califórnia. Ele descobriu que pessoas que vivem ou trabalham perto de terras agrícolas onde o paraquat é utilizado têm um risco maior de desenvolver a doença.

“É como fumar em segunda mão”, disse Dorsey. “Basta morar ou trabalhar perto de onde o produto é pulverizado para estar em risco.”

Essa é uma preocupação crescente nos subúrbios americanos, onde novas casas se aproximam de campos de golfe bem cuidados. Um estudo publicado no JAMA este ano descobriu que morar a menos de 1,6 km de um campo de golfe aumenta o risco de doença de Parkinson em 126%. O estudo não citou substâncias químicas específicas, mas mencionou pesticidas.

Em 2021, a EPA proibiu o uso de paraquat em campos de golfe “para evitar lesões graves e/ou morte” por ingestão.

Apesar disso, é difícil provar se o paraquat causa diretamente a doença de Parkinson, pois ela se desenvolve anos após a exposição.

“A doença se desenvolve ao longo de décadas, e as sementes da doença de Parkinson são plantadas cedo”, disse Dorsey.

Qual é o andamento dos processos judiciais?

O processo judicial relativo ao paraquat caminhou lentamente para um acordo no início deste ano.

A maioria dos processos judiciais foi movida em Illinois sob o que é conhecido como litígio multidistrital. Diferentemente de uma ação coletiva, esse sistema coloca casos individuais perante um único juiz federal. Alguns casos emblemáticos são então escolhidos para representar a maioria e agilizar o processo legal.

A Syngenta, a Chevron e os demandantes concordaram em chegar a um acordo em abril, o que encerraria milhares de casos, mas um acordo ainda está sendo finalizado, conforme mostram os registros judiciais. Se os detalhes não puderem ser concluídos, o caso irá a julgamento.

“É como fumar em segunda mão. Você pode simplesmente morar ou trabalhar perto de onde o produto é pulverizado e estar em risco.”
Ray Dorsey, um pesquisador da doença de Parkinson

A Syngenta negou veementemente as alegações dos processos judiciais, afirmando que apoia o paraquat como “ seguro e eficaz ” quando usado corretamente e enfatizando que não houve nenhuma análise científica revisada por pares que mostre que o paraquat causa a doença de Parkinson.

“A Syngenta acredita que as alegações não têm fundamento, mas litígios podem ser desgastantes e dispendiosos”, disse um porta-voz. “A celebração do acordo não implica, de forma alguma, que o paraquat cause a doença de Parkinson ou que a Syngenta tenha feito algo de errado. Mantemos nossa posição quanto à segurança do paraquat.”

A Chevron também negou as alegações, afirmando que “o consenso científico é de que não há comprovação de que o paraquat cause a doença de Parkinson”.

O que os arquivos da empresa mostram

Uma série de documentos internos divulgados durante o litígio, conforme noticiado pelo The Guardian e pelo New Lede , parece mostrar que os fabricantes tinham conhecimento de evidências de que o paraquat poderia se acumular no cérebro.

No entanto, o jornal The New Lede reconheceu que os documentos não demonstram que os cientistas da empresa acreditavam que o paraquat causava a doença de Parkinson, conforme salientaram os representantes da Syngenta.

O rastro de pistas começou já em 1958, quando um cientista da empresa escreveu sobre um estudo do 2,2-dipiridil, um componente químico do paraquat, afirmando que ele parece ter toxicidade moderada, “principalmente por afetar o sistema nervoso central, e pode ser absorvido pela pele”, segundo documentos internos.

A Imperial Chemical Industries, que mais tarde se tornou a Syngenta, começou a vender paraquat sob a marca Gramoxone em 1962, de acordo com pesquisas . O Gramoxone contém quase 44% de paraquat.

A Syngenta comercializa o paraquat sob a marca Gramaxone, como um pesticida de uso registrado. O rótulo traz uma caveira com ossos cruzados e o aviso “um gole pode matar”. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) também inclui as normas e regulamentações de uso no rótulo. A cor azul e o odor forte são mecanismos de segurança.  Rose White | rwhite@MLive.com

Os documentos internos mostram que, em 1974, a empresa atualizou as precauções de segurança, recomendando que qualquer pessoa que pulverizasse o agrotóxico usasse máscara, pois surgiram os primeiros relatos de envenenamento em humanos e as preocupações com os efeitos do paraquat começaram a aumentar.

Um ano depois, Ken Fletcher, da Imperial Chemical, escreveu uma carta ao cientista da Chevron, Dr. Richard Cavelli, dizendo que a empresa química tinha conhecimento de “relatos esporádicos de efeitos no SNC (sistema nervoso central) em casos de envenenamento por paraquat”, que ele acreditava serem coincidência.

Poucos meses depois, Fletcher também indicou “possíveis efeitos crônicos” da exposição ao paraquat, chamando-a de “um problema bastante grave” que deveria ser mais estudado, segundo os documentos.

“Possivelmente devido à boa publicidade que fizemos, pouquíssimas pessoas aqui acreditam que o paraquat cause qualquer tipo de problema no campo”, escreveu ele em meados da década de 1970. “Consequentemente, qualquer alegação de doença causada pela pulverização nunca atinge proporções sérias.”

Na década de 1980, pesquisas externas começaram a abordar a questão do paraquat e da doença  de  Parkinson.

“À medida que mais pesquisadores se aprofundaram no assunto, essa conclusão foi se consolidando ainda mais”, disse Horsfield, do Grupo de Trabalho Ambiental.

A Syngenta, no entanto, contesta essa afirmação, dizendo que dois relatórios recentes lançam dúvidas sobre essas alegações.

Um relatório científico de 2024 dos reguladores de agrotóxicos da Califórnia concluiu que as evidências recentes eram “insuficientes para demonstrar uma associação causal direta entre a exposição ao paraquat e o aumento do risco de desenvolver a doença de Parkinson”. E uma análise de setembro de Douglas Weed, epidemiologista e consultor independente, chegou a uma conclusão semelhante.

A Syngenta também afirma em seu site ser alvo de uma “máquina de ações coletivas” que atua por trás de litígios multidistritais.

Por que a EPA ainda não o proibiu?

Em 1981, a Noruega tornou-se o primeiro país a proibir o paraquat devido ao risco de envenenamento. Um a um, mais países seguiram o exemplo. Em 2007, a União Europeia aprovou uma proibição geral para todos os seus 27 países membros, de acordo com relatos da mídia.

Apesar disso, a Syngenta ainda tem permissão para fabricar paraquat em países que proibiram seu uso. Ele está proibido no Reino Unido há 18 anos e a China proibiu o paraquat em 2012 para “salvaguardar a vida, a segurança e a saúde das pessoas”, de acordo com um anúncio do governo .

No entanto, cerca de dois terços do paraquat importado pelos EUA entre 2022 e 2024 vieram de empresas pertencentes ao governo chinês, a SinoChem e o Red Sun Group, de acordo com um relatório conjunto publicado por três organizações de defesa em outubro.

O estudo constatou que a maior parte dos 40 milhões e 156 milhões de libras importadas anualmente nos últimos oito anos provém de instalações de produção chinesas, seja na China ou na grande fábrica da Syngenta no norte da Inglaterra.

Embora centenas de empresas vendam paraquat, a Syngenta afirma que ele representa um quarto das vendas globais.

De acordo com reportagens anteriores , a SinoChem, um conglomerado estatal chinês, adquiriu a Syngenta em uma fusão em 2020. A SinoChem registrou lucros de US$ 3,4 bilhões no ano passado, mas não está claro quanto desse valor veio das vendas de paraquat, pois a empresa não divulga seus relatórios de resultados. A Syngenta reportou vendas de US$ 803 milhões de seus “herbicidas não seletivos”, classe que inclui o Gramoxone, que contém paraquat, segundo seu relatório financeiro de 2024.

Embora empresas chinesas forneçam paraquat a agricultores americanos, o relatório destaca que a China também é uma grande compradora de produtos agrícolas, como a soja, cultivados com o auxílio desse pesticida.

“Dessas duas maneiras, a China se beneficia economicamente da aplicação do paraquat nos EUA, onde terceiriza muitos dos riscos à saúde associados a ele”, diz o relatório.

O paraquat, agora proibido em mais de 70 países, segundo o Environmental Working Group , foi reautorizado pela EPA em 2021, após passar por uma revisão periódica de 15 anos — uma medida contestada por críticos.

“A EPA possui as mesmas informações que esses países”, disse Kalmuss-Katz, advogada da EarthJustice. “A EPA simplesmente chegou a uma posição fundamentalmente diferente, e que acreditamos ser legal e cientificamente infundada, que é: grandes quantidades de paraquat podem continuar sendo pulverizadas sem risco excessivo.”

A agência federal determinou que o paraquat continua sendo “um método eficaz, barato, versátil e amplamente utilizado para o controle de ervas daninhas”, e que quaisquer riscos para os trabalhadores são “superados pelos benefícios” das fazendas que utilizam o herbicida.

“É um dos agrotóxicos mais rigorosamente regulamentados disponíveis nos Estados Unidos”, afirmou a agência em comunicado.

Essa decisão permitiu seu uso com “novas medidas de segurança mais rigorosas para reduzir a exposição”, como a exigência de zonas de amortecimento onde os pesticidas não podem ser pulverizados.

Para plantas como algodão, alfafa, soja e amendoim, a EPA escreveu em sua decisão que “os produtores podem precisar mudar para herbicidas alternativos, o que pode ter impactos financeiros”. Ao contrário de outros agrotóxicos, o paraquat funciona bem em baixas temperaturas e no início da estação, de acordo com a agência.

“O que temos visto ao longo de décadas é uma falha sistêmica na proteção dos trabalhadores rurais e da comunidade agrícola contra os pesticidas.” Jonathan Kalmuss-Katz da EarthJustice

 
Mais de 200.000 comentários públicos foram submetidos ao processo da EPA sobre o paraquat ao longo dos anos. Grupos industriais, agricultores, organizações de defesa e outros se manifestaram, argumentando a favor ou contra o herbicida.

Uma denúncia enviada por Trey Fischbach, um agricultor do Dakota do Norte, instou a EPA a continuar permitindo o uso do paraquat no combate a ervas daninhas resistentes, como a kochia, escrevendo que é a “última ferramenta na caixa de ferramentas”.

A EPA também observou que não havia muitas outras opções. “As características químicas do paraquat também são benéficas como ferramenta de controle da resistência, onde existem poucas alternativas disponíveis.”

Mas os agricultores podem ficar presos no que os críticos chamam de “ ciclo vicioso dos agrotóxicos “, em que o uso indiscriminado dessas substâncias leva ao surgimento de “superervas daninhas” que exigem agrotóxicos cada vez mais fortes para serem combatidas.

Um comentário enviado por Kay O’Laughlin, de Massachusetts, instava: “Façam o seu trabalho e proíbam o paraquat, porque ele está matando pessoas. Falo como alguém que perdeu um irmão para o Parkinson. As pessoas não devem ser descartáveis ​​para que o agronegócio possa obter lucros cada vez maiores!”

A decisão da EPA de 2021 foi contestada em menos de dois meses por grupos ambientalistas e de trabalhadores rurais que processaram a agência. Kalmuss-Katz afirmou que os grupos contestaram a decisão da EPA de reaprovar o paraquat sem “realmente analisar” a relação com a doença de Parkinson.

“A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) falhou em proteger adequadamente os trabalhadores rurais”, disse ele.

Depois disso, a agência ambiental passou por mudanças sob a presidência de Joe Biden.

A EPA decidiu analisar as questões levantadas nos processos judiciais e começou a buscar informações adicionais no ano passado. No início de 2025, solicitou aos tribunais mais tempo para avaliar os riscos do paraquat para a saúde humana.

Mas a EPA não estava focada na doença de Parkinson, afirmando em sua decisão que o “peso das evidências era insuficiente” para ligar a exposição ao paraquat à doença neurológica. Em vez disso, a questão federal era como o herbicida se transforma em um vapor que poderia prejudicar as pessoas quando inalado ou em contato com a pele. “A doença de Parkinson não é uma consequência esperada do uso do paraquat como pesticida”, afirmou a EPA em sua análise.

O estudo poderá levar até quatro anos, segundo a EPA, que o descreve como “complexo, de grande escala e conduzido em condições reais”, enquanto o paraquat permanece no mercado. Em outubro, a agência atualizou a revisão, afirmando que agora busca informações adicionais da Syngenta.

Entretanto, a EPA passou por mais uma mudança. Este ano, o governo Trump colocou quatro ex-lobistas ou executivos da indústria, dos setores agrícola, químico e de limpeza, no comando da regulamentação de pesticidas na EPA.

Embora não esteja claro qual é a posição da agência em relação ao paraquat, houve um sinal inicial de recuo na oposição a agrotóxicos controversos. Pouco depois de Kyle Kunkler, um ex-lobista da Associação Americana de Soja, ter sido escolhido para liderar a política de pesticidas, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) tomou medidas para reaprovar o uso de um herbicida diferente e controverso que havia sido proibido anteriormente por tribunais federais.

Cresce a pressão para o banimento do Paraquat

Mas a pressão popular para proibir o paraquat continua a aumentar.

“Este é um momento crucial para determinar se o paraquat continuará ativo nos Estados Unidos”, disse Simmons, especialista jurídico da Drugwatch.

No ano passado, mais de 50 legisladores democratas, expressando “grave preocupação” em cartas, instaram a EPA a proibir o paraquat.

“Devido à sua maior exposição ao paraquat, os trabalhadores agrícolas e os residentes rurais são os mais afetados pelos efeitos nocivos do paraquat à saúde, como o Mal de Parkinson”, dizia uma carta de 7 de outubro de 2024 assinada por representantes dos EUA. Uma carta separada foi assinada por um pequeno grupo de senadores.

A Califórnia, grande usuária de paraquat por ser o principal estado agrícola dos EUA, foi o primeiro estado a se mobilizar para proibir o paraquat no ano passado. Mas o projeto de lei acabou sendo atenuado depois que o governador Gavin Newsom sancionou uma lei para acelerar a reavaliação da segurança do paraquat, segundo informações .

Os legisladores da Pensilvânia também estão considerando proibi-lo por meio de projetos de lei estaduais apresentados este ano .

“Existem alternativas melhores e mais saudáveis”, disse a deputada estadual Natalie Mihalek, republicana que apresentou o projeto de lei na Pensilvânia.

Em nível federal, fora da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), os pesticidas parecem estar na mira.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., criticou o uso de produtos químicos na agricultura. No entanto, um novo relatório da iniciativa Make America Healthy Again mostra que Kennedy recuou na ideia de restringir agrotóxicos após grupos agrícolas contestarem a “narrativa imprecisa sobre a agricultura americana e nosso sistema alimentar”.

Ao mesmo tempo, houve relatos de um esforço da indústria para aprovar leis estaduais que protejam os fabricantes de pesticidas de responsabilidade civil. Dois estados, Dakota do Norte e Geórgia, já aprovaram essas leis, de acordo com o Centro Nacional de Direito Agrícola . Mas um projeto de lei federal apresentado este ano garantiria que os fabricantes não possam ser responsabilizados por danos causados ​​a agricultores em nenhum estado.

“Este é um momento crucial para determinar se o paraquat continuará sendo uma opção viável nos Estados Unidos.”
Christian Simmons, especialista jurídico da DrugWatch.

Enquanto essa disputa continua, o paraquat segue sendo pulverizado em campos agrícolas por todos os Estados Unidos. A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) ainda está avaliando seus riscos. E quase 90.000 americanos são diagnosticados com doença de Parkinson todos os anos.


Fonte: MLive

China barra 69 toneladas de soja brasileira por contaminação com agrotóxicos proibidos

China bans 69 tons of soybeans from Brazil, finds wheat contaminated with a  banned pesticide, and

O jornal Folha de São Paulo está noticiando que a China bloqueou a entrada de 69 mil toneladas de soja brasileira após encontrar trigo contaminado com agrotóxicos no porão do navio onde parte da carga estava sendo transportada.

Segundo reportagem da Folha, as exportações de duas fábricas da Cargill, bem como de outras controladas pela Louis Dreyfus, CHS Agronegocio e 3Tentos serão suspensas a partir de hoje em decorrência do incidente.

Segundo o relatório da agência sanitária chinesa teriam encontradas aproximadamente dez toneladas de trigo com agrotóxicos proibidos no mercado chinês dentro do navio que transportava a carga de soja.

A avaliação chinesa concluiu que o revestimento químico utilizado no grão é tóxico e destinado exclusivamente ao plantio, não ao consumo humano ou animal. Por isso, foi classificado como um risco sanitário inaceitável. Além disso, o trigo brasileiro não está habilitado para exportação à China, o que reforçou a violação das regras comerciais e sanitárias locais.

Em carta enviada à Embaixada do Brasil em Pequim, a qual a reportagem da Folha de São Paulo teve acesso, a GACC afirma que sua decisão tem “o objetivo de proteger a saúde dos consumidores chineses e garantir a segurança da soja importada” pelo país asiático.

A Folha informou ainda que a Administração Geral de Alfândegas da China comunicou às autoridades brasileiras que o ocorrido representa uma “violação grave” das normas chinesas de segurança alimentar.

Nessa situação uma curiosidade: o Brasil é o maior exportador de soja para a China, e o país asiático é o principal fornecedor de agrotóxicos para o mercado brasileiro, inclusive de muitas substâncias que são proibidas por lá em função de sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.

Desta forma, aqueles que ficam passando o pano e autorizando a comercialização dessas substâncias altamente perigosas deveriam se perguntar o porquê da China ter agido tão firmemente em um caso que reflete bem a postura de governantes que zelam pelos interesses de seus cidadãos, enquanto por aqui tudo é permitido em nome do sucesso da balança comercial.

Estudo mostra relação entre exportações de carne bovina brasileira e desmatamento

O Trase mapeia as cadeias globais de suprimentos de commodities agrícolas, fornecendo insights sobre como os mercados consumidores estão vinculados ao desmatamento e outros impactos ambientais por meio de suas importações. Este guia explicativo sobre a carne bovina brasileira apresenta os resultados da nossa análise dos dados mais recentes de 2021, 2022 e 2023  

Desmatamento da carne bovina brasileira

Área desmatada dentro da Floresta Nacional do Jamaxin em Novo Progresso, Pará (Foto: Bernardo Camara/((o))eco)

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para “Trase”

O Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial de carne bovina. Em 2023, produziu 12,9 milhões de toneladas (Mt) de carne bovina, representando cerca de 20% das exportações globais . O setor de carne bovina do Brasil é um dos principais contribuintes para a economia do país, sendo responsável por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e cerca de 8,9 milhões de empregos em 2024. A criação de gado ocorre em todas as regiões do Brasil, mas a capacidade e a produção dos frigoríficos estão concentradas nas regiões Centro-Oeste e Norte do país.

A produção de gado bovino concentra-se nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.
Mapa da produção de gado bovino (toneladas de peso de carcaça) no Brasil por município em 2023.

Desmatamento e produção de carne bovina

A análise da Trase mostra que o desmatamento e a conversão anual de vegetação nativa associados à expansão de pastagens aumentaram de 5,5 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 7,5 Mha em 2023, um aumento de mais de 36% em quatro anos. A produção de carne bovina aumentou 15% no mesmo período, aproximadamente metade da taxa de aumento do desmatamento e da conversão. Juntos, esses números implicam uma maior intensidade de desmatamento (hectares de desmatamento por 1.000 toneladas de produção) em 2023 do que em 2020, especialmente na Amazônia. Por exemplo, em 2020, 893 ha de vegetação nativa foram convertidos para cada 1.000 toneladas de gado produzido. Esse número aumentou para 1.300 ha em 2023, um aumento de 50% na intensidade de desmatamento em menos de 10 anos.

O desmatamento por tonelada de produção de gado aumentou, especialmente na região amazônica brasileira.
Intensidade anual de desmatamento (hectares de desmatamento por mil toneladas de produção) no Brasil e seus principais biomas produtores de gado.

Uma grande proporção do desmatamento e da conversão de pastagens ocorreu na Amazônia. Entre 2018-20 e 2021-23, o desmatamento médio anual no bioma aumentou 54% (300.000 ha). O desmatamento no Pantanal também aumentou, embora partindo de uma base mais baixa, enquanto o Cerrado diminuiu ligeiramente. Desde 2017, o desmatamento brasileiro para a pecuária tem se deslocado acentuadamente para a Amazônia (62% da participação nacional em 2023 contra 40% em 2017). Pontos críticos recentes de desmatamento concentram-se ao longo das rodovias BR-163 e Transamazônica (sudoeste do Pará, norte do Mato Grosso, Rondônia).

A maior parte do desmatamento tende a se concentrar em um número relativamente pequeno de municípios. Apenas 61 municípios no Brasil foram responsáveis ​​por 50% do desmatamento para pastagem de gado em 2023. Juntos, esses municípios são responsáveis ​​por apenas 11% da produção de gado naquele ano. Apenas quatro municípios, Altamira (Pará), Porto Velho (Rondônia), São Félix do Xingu (Pará) e Lábrea (Amazonas), foram responsáveis ​​por 12% do desmatamento e conversão de pastagens no Brasil em 2023. Isso sugere que concentrar ações em pontos críticos poderia reduzir significativamente o desmatamento e a conversão, com impacto relativamente baixo na produção de gado.

Os dados da Trase utilizados nesta análise abrangem o período de 2020 a 2023. Dados de monitoramento por satélite de 2024 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (PRODES) mostram que o desmatamento caiu 31% na Amazônia e 26% no Cerrado. A redução é atribuída às medidas de controle da perda florestal adotadas pelo governo federal desde 2023, em contraste com a política de enfraquecimento da proteção florestal do governo anterior. Esses resultados serão registrados em futuras atualizações dos dados da Trase.

Principais focos de aumento do desmatamento vinculados à produção de carne bovina no Brasil
Taxa de variação anual (%) do desmatamento e conversão para pastagem (2015–2023) nos municípios que responderam por 95% da produção de carne bovina em 2023. Quanto maior o valor, maior o aumento do desmatamento recente.

Mercados e comerciantes

Embora cerca de 70% da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a participação das exportações cresceu na última década. A China é o principal mercado exportador da carne bovina brasileira, respondendo por 59% em 2023, seguida pelos Estados Unidos (8%) e pela União Europeia (5%). A China também é o mercado exportador com maior exposição ao desmatamento, aumentando de 124.000 ha em 2015 para 564.000 ha em 2023.

As importações de carne bovina brasileira pelos EUA têm aumentado de forma constante desde 2019 devido ao aumento da demanda. Os volumes aumentaram de 74.500 (2015) para 264.000 toneladas (2023), e a exposição associada ao desmatamento aumentou de 1.700 ha para 52.900 ha.

A participação da UE nas exportações de carne bovina do Brasil caiu nos últimos anos para 3% em 2023. Sua exposição média ao desmatamento entre 2015 e 2023 foi de cerca de 28.000 ha por ano, com uma participação média global de 5%. Em termos absolutos, a exposição da UE ao desmatamento foi de 25.000 ha em 2015 e 27.000 ha em 2023.

As importações chinesas de carne bovina brasileira apresentam a maior exposição ao desmatamento
Participação global anual (%) da exposição ao desmatamento (2015-2023) dos cinco maiores importadores de carne bovina brasileira em 2023.

As três maiores tradings, JBS, Marfrig e Minerva, aumentaram suas exportações em cerca de 43% entre 2015 e 2023, enquanto sua exposição combinada ao desmatamento aumentou 44%. Juntas, elas representam 67% das exportações em 2023 e 54% da exposição ao desmatamento e conversão. De acordo com seus próprios relatórios, as exportações representam 24%, 39% e 57% da carne bovina fornecida pela JBS , Marfrig e Minerva , respectivamente. O volume restante foi consumido internamente. Os resultados mostram que essas três tradings de carne bovina têm considerável influência na redução do desmatamento associado às exportações de carne bovina.

A participação da JBS na exposição total ao desmatamento caiu de mais de 37% em 2015 para 29% em 2023. A participação da Minerva permaneceu praticamente estável no período, enquanto a da Marfrig aumentou de 10% para 12%. Embora sua participação coletiva na exposição tenha diminuído, a exposição absoluta atribuída a esses traders ainda aumentou, refletindo a expansão geral das exportações, especialmente para a China.

JBS é a empresa mais exposta ao desmatamento devido às suas exportações de carne bovina brasileira
Participação global anual (%) de exposição ao desmatamento (2015-2023) das três maiores empresas exportadoras de carne bovina brasileira em 2023.

Compromissos da empresa com desmatamento e conversão zero (ZDCs)

As ZDCs no setor bovino compreendem o Compromisso Público da Pecuária firmado pelos maiores frigoríficos que operam na Amazônia, também conhecido como acordo G4, e o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para carne bovina, que abrange outros frigoríficos na Amazônia. Segundo ambos os acordos, os frigoríficos não podem comprar gado de fazendas com desmatamento na Amazônia após 2009. No entanto, enquanto o acordo G4 compromete as empresas a prevenir qualquer desmatamento, o TAC exige apenas a prevenção do desmatamento ilegal. Há também um número crescente de compromissos corporativos individuais abrangendo o Cerrado e outros estados da Amazônia onde os TACs não estão disponíveis, como Maranhão e Tocantins.

A partir de 2015, a cobertura das ZDCs expandiu-se substancialmente. Em 2015, a maior parte da carne bovina (70%; 1,42 Mt) não foi produzida e exportada sob qualquer compromisso, enquanto o TAC cobriu 25% (0,51 Mt) e o G4, 4% (0,09 Mt) dos volumes de carne bovina. Em 2023, ocorreu o oposto: cerca de 70% da carne bovina foi coberta pelas ZDCs, com os compromissos das empresas aumentando para 40% (1,26 Mt) e o TAC para 29% (0,91 Mt).

Os compromissos de desmatamento zero aumentaram para cobrir a maior parte das exportações de carne bovina brasileira.
Volume de carne bovina exportada por empresas com ou sem compromissos de desmatamento zero e conversão, 2015–2022.

Emissões de gases de efeito estufa

As emissões brutas de gases de efeito estufa associadas às exportações de carne bovina brasileira aumentaram na última década de 168 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015 para 380 Mt CO₂-eq em 2023 – um aumento de cerca de 46%.

A maior parte das emissões provém do desmatamento e da conversão na Amazônia. Em 2023, a Amazônia foi responsável por 73% do desmatamento relacionado a pastagens no Brasil (138 Mt CO₂-eq), enquanto o Cerrado contribuiu com 22% (41 Mt CO₂-eq) e o Pantanal com 3,6% (6,7 Mt CO₂e). As emissões do Cerrado permaneceram praticamente estáveis ​​entre 2015 e 2023, enquanto as emissões do Pantanal praticamente dobraram a partir de uma pequena base em 2015 (2,8 Mt CO₂-eq).

As três maiores comerciantes de carne bovina, JBS, Marfrig e Minerva, têm a maior exposição a emissões. Juntas, elas respondem por 52% das emissões em 2023 (JBS 28%, Minerva 13%, Marfrig 11%). As tendências variam ao longo do tempo: as emissões da JBS são cerca de 10% menores entre 2015 e 2023, a Minerva caiu 13%, enquanto a Marfrig se mantém estável em 10% ao longo dos anos. Embora a participação combinada das três grandes permaneça substancial, essas mudanças sugerem que parte do crescimento das emissões desde 2015 foi contabilizado por outros exportadores. A maioria dos novos contribuintes está no estado do Pará, onde comerciantes como Mercurio Alimentos e Frigol, juntas, responderam por 12% das emissões atribuídas exportadas em 2023, em comparação com apenas 6% em 2015.

JBS, Minerva e Marfrig respondem pela maior parcela das emissões de gases de efeito estufa provenientes da comercialização de carne bovina brasileira.
Participação da empresa nas emissões brutas de gases de efeito estufa (2015-2023) das cinco maiores comercializadoras de carne bovina brasileira em 2023 (inclui apenas a comercializadora conhecida).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Nicolás Martín, Carina Mueller e Jailson Soares.

Explore e baixe os dados da carne bovina brasileira em trase.earth

Para referenciar o conjunto de dados, utilize a citação: zu Ermgassen, EKHJ, Suavet, C., Biddle, H., Su, N., Prada Moro, Y., Ribeiro, V., Carvalho, T., & Lathuilliere, M. (2025). Cadeia de suprimentos de carne bovina do Brasil 2010–2017 e 2019–2023 (Versão 2.2) [Conjunto de dados]. Trase. https://doi.org/10.48650/AYAA-HH56

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). Mapa da cadeia de suprimentos da carne bovina brasileira SEI-PCS v2.2: Fontes de dados e métodos. Trase. https://doi.org/10.48650/CP2S-SP59

Para consultar este artigo, utilize a citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de carne bovina e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/6VK3-2S18


Fonte: Trase

EUA miram controle da China sobre portos globais em missão marítima abrangente

Contêineres de transporte chineses ficam nos trilhos da ferrovia no Porto de One Beach, Califórnia

Por Jonathan Saul para a “Reuters”

Autoridades do governo Trump acreditam que a frota de navios comerciais dos EUA não está equipada para fornecer suporte logístico aos militares em tempos de guerra e que a dependência de Washington de navios e portos estrangeiros é excessiva, disseram as pessoas.

As opções que a Casa Branca está considerando incluem apoiar empresas privadas americanas ou ocidentais na compra de participações chinesas em portos, disseram as três pessoas. Elas não mencionaram nenhuma empresa específica, exceto o acordo proposto pela BlackRock (BLK.N)., para comprar os ativos portuários da CK Hutchison de Hong Kong (0001.HK), em 23 países, incluindo o Canal do Panamá, como um bom exemplo.

As fontes pediram para não serem identificadas porque não estão autorizadas a discutir o assunto publicamente.

A Casa Branca e o Tesouro dos EUA não responderam aos pedidos de comentários.

Além do Panamá, autoridades e legisladores dos EUA estão preocupados com as posses de infraestrutura marítima chinesa em lugares como Grécia e Espanha, Caribe e portos da Costa Oeste dos EUA, de acordo com as fontes.

A China conduz uma cooperação normal com outros países dentro da estrutura do direito internacional, disse um porta-voz da missão diplomática da China em Washington.

“A China sempre se opôs firmemente a sanções unilaterais ilegais e injustificáveis ​​e à chamada jurisdição de braço longo, além de medidas que infringem e prejudicam os direitos e interesses legítimos de outros países por meio de coerção econômica, hegemonismo e intimidação”, disse o porta-voz.

Autoridades em Pequim não responderam a um pedido de comentário.

“O governo dos EUA vê os investimentos chineses em portos globais como uma grande ameaça à sua segurança nacional”, disse Stuart Poole-Robb, fundador da KCS Group, empresa de consultoria de risco e inteligência.

“A preocupação é que a China possa usar seu controle sobre esses ativos para espionagem, vantagem militar ou para interromper cadeias de suprimentos durante crises geopolíticas”, disse ele, citando conversas com colegas de segurança dos EUA.

Porto grego em foco

Os EUA pretendem analisar os interesses chineses no porto grego de Pireu, disseram as três fontes. Situado em Atenas, no Mediterrâneo oriental, o Pireu é um centro fundamental na rota comercial que liga a Europa, a África e a Ásia.

A COSCO, um dos maiores grupos portuários e de transporte marítimo da China, detém uma participação de 67% na empresa Piraeus Port Authority.


Fonte: Reuters

Observatório dos Agrotóxicos: tsunami de venenos avança no governo Lula com a liberação de 43 registros adicionais

O leitor deste blog poderá até achar que é notícia velha, mas não é.  Vinte e quatro horas depois de liberar 42 registros de agrotóxicos do tipo Produto Técnico (a forma concentrada dos produtos), eis que o Diário Oficial da União desta 3a. feira (09/09) trouxe a liberação de mais 43 agrotóxicos, agora na modalidade formulada que é aquela pronta para uso.

O Ato nº 43, de 5 de setembro de 2025 traz um museu de velhas novidades, já que a maioria dos registros liberados serão usados nas culturas de soja e cana de açúcar, que já concentram o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira. 

Além disso, outro padrão mantida é a hegemonia das fabricantes chinesas que respondem pela maior da produção dos produtos que tiveram seus registros liberados.  Com isso, temos um aprofundamento da processo de trocas desiguais, já que o preço das commodities agrícolas, a soja por exemplo, tende a ser menor do que a dos agrotóxicos. Como a China é o principal comprador da soja brasileira, e o principal fornecedor de venenos agrícolas usados nessa cultura no Brasil, temos aí um padrão de perdas contínuas para a economia brasileira.

Quanto ao presidente Lula, a manutenção dessa enxurrada de agrotóxicos representa uma quebra do compromisso de que seu governo começaria um giro em prol de um modelo agroecológico e de eliminação da dependência de agrotóxicos para a produção agrícola.

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais 42 agrotóxicos e mantém marcha do envenenamento

Nesta segunda-feira (08/9), o governo Lula liberou o registro de mais 42 agrotóxicos por meio do Ato No. 41 de 05 de setembro de 2025, mantendo firme a marcha do veneno como ferramenta de primeira hora para a manutenção de um modelo de agricultora fortemente dependente de venenos agrícolas. Todos esses produtos na condição de produto técnico que são a forma concentrada que depois é transformada em produtos formulados que são os que são aplicados nos campos agrícolas.

Como já tem sido acompanhado desde janeiro de 2019, este ato mantém as características de liberar registros de produtos pertencentes a empresas chinesas, confirmando a China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil. Essa não é um característica que ocorre ao acaso, na medida em que a China é hoje a principal compradora dos principais produtos da agricultura de exportação brasileira. Além disso, fica patente o padrão de troca desigual entre os produtos brasileiros e chineses, já que os preços das commodities brasileiras estão sujeitas a momentos de queda, enquanto os preços dos agrotóxicos possuem perfil de alta constante.

Por outro lado, está confirmada a opção por agrotóxicos genéricos, muitos proibidos nos países cujas empresas possuem as patentes dos produtos originais. Com isso, aumenta a exposição ambiental e humana a produtos conhecidos por serem causadores de danos sobre a cadeia biótica, alcançando os seres humanos. Um destaque negativo é a aprovação de registros do herbicida Diquat, desenvolvido originalmente pela sino-chinesa Syngenta, que tem sido associado a problemas neurológicos por ser neurotóxico.

Mais essa rodada de aprovações de registros apenas confirmam que o governo Lula não tem feito o esforço necessário para diminuir o uso de agrotóxicos pela agricultura brasileira, o que representa um abandono das promessas eleitorais em prol de um modelo de agricultura menos dependente de venenos.

O mundo já está acabando: uma resposta a Elias Jabbour

Mina de carvão perto do distrito de Hailar, China. Imagem: Wikimedia Commons 

Por Eduardo Sá Barreto para “Blog da Boitempo”

Seria mais prudente não escrever um texto como este. Por um lado, caso o texto não tenha tração alguma, terei gastado um tempo precioso reprisando coisas que já disse de maneira mais sistemática em outros lugares. Por outro lado, caso tenha tração, posso ser tragado numa polêmica com um dos intelectuais comunistas mais prestigiados do país na atualidade. A verdade é que, contra meu melhor juízo, senti-me obrigado a responder algumas observações críticas que Elias Jabbour muito cordialmente apresentou a mim, em conversa pessoal, e depois repetiu em sua participação na mesa “Anticolonialismo e marxismo, durante a primeira Festa de Aniversário do Marx no Rio de Janeiro, promovida pela Boitempo em 28 de junho de 2025.

Apesar de Jabbour, em alguma medida, reproduzir objeções que não mereceriam ser revisitadas pela enésima vez, a relevância que ele tem, a importância do evento e a pertinência de parte de suas observações cobram uma manifestação. Dando o benefício da dúvida que o camarada merece, podemos admitir que um tempo de fala que dura entre 5 e 10 minutos não é suficiente para desdobrar de modo satisfatório qualquer tipo de raciocínio compatível com o nível de complexidade dos assuntos sendo ali discutidos. Creio que, havendo mais tempo, Jabbour poderia ter desenvolvido mais adequadamente seus comentários, que acabaram soando irresponsavelmente taxativos e superficiais. De qualquer forma, é o que temos para começar.

Antes de mais nada, é importante reconhecer que uma das críticas feitas por Jabbour deve simplesmente ser acolhida. Realmente, é perturbador (inaceitável mesmo) que numa discussão sobre a questão climática e sobre transição energética a China não seja sequer mencionada. Como o próprio Jabbour evidencia em seu trabalho, a China é um fenômeno de relevância central em boa parte das questões decisivas de nosso tempo. Não é perdoável desconhecer os fundamentos e os traços mais marcantes dessa experiência em curso (embora, convenhamos, em uma fala de 5 a 10 minutos, pouco mais se poderia fazer do que mencioná-la).  

Suponho, pelo teor de sua fala, que ele esperava ouvir algo a respeito dos aspectos virtuosos dessa experiência, no que tange à questão climática e energética. De fato, há coisas que impressionam. Entre 2008 e 2023, a participação da energia solar na matriz energética chinesa saltou de menos de 0,01% para 3,20%.1 Em termos absolutos, essa expansão representa um crescimento alucinante de 352.791%. Outro resultado expressivo é a ampliação da participação da energia eólica de 0,14% em 2008 para 4,85% em 2023, representando um crescimento da oferta primária por essa fonte de 6.152,38%. Ainda olhando para as fontes de baixa intensidade de emissões (em comparação com os combustíveis fósseis), nesse período de 15 anos a China ampliou a oferta primária de energia nuclear em 487,5%, e de energia a partir de hidroelétricas em 78%.  

É seguro afirmar que nenhum país do mundo vem se movendo tão rapidamente quanto a China nesse domínio. Isso certamente é fruto de uma capacidade indiscutivelmente singular que o Estado chinês tem de conceber e levar a cabo políticas públicas orientadas pelo horizonte de uma sociedade ecológica. Também é seguro afirmar que nenhum desses resultados seria viável na ausência dos investimentos massivos que o governo vem fazendo para este fim. Talvez por isso Jabbour tenha sido levado a afirmar que o país vem “enfrentando e vencendo essa batalha pela reversão da crise climática”. Aqui começam nossos desacordos e acabam as boas notícias. 

Em primeiro lugar, a “reversão da crise climática” sequer é algo que está em jogo. Há pelo menos três décadas, o esforço global tem se voltado para a meta de limitar o aquecimento do planeta a 2ºC acima do período-base (equivocadamente chamado de pré-industrial). Na última década, a meta de limitar o aquecimento a 1,5ºC foi muito ventilada, mas mesmo nos Acordos de Paris a meta de fato continua sendo um aquecimento máximo de 2ºC. Todo o debate existente, bem como a elaboração e implementação de políticas climáticas, estão modulados por essa meta. E nela não há nada que remeta à possibilidade de reversão em um prazo previsível. Na verdade, não há nada que remeta nem mesmo à estabilidade das condições climáticas. Um planeta 2ºC mais quente é um planeta consideravelmente mais convulsivo. Segundo relatório mais recente do IPCC, “para qualquer nível de aquecimento futuro, […] os impactos de longo prazo previstos são múltiplas vezes maiores daquilo que é atualmente observado”2. Se todo o esforço em marcha fosse aderente ao que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento a 2ºC (ou a 1,5ºC) — e se, além disso, esse esforço fosse plenamente exitoso —, teríamos interrompido o aquecimento, mas não a multiplicação dos impactos. 

Mas o que, exatamente, a ciência vem dizendo ser necessário fazer?

Suspeito, pela afirmação taxativa do camarada a respeito da “reversão” vitoriosa, que Jabbour estaria tentado a responder que o necessário é ampliar rapidamente a participação de fontes renováveis na matriz energética nacional. De imediato, é preciso ter clareza que “vencer a batalha climática” não é algo que está ao alcance de uma única nação (por mais relevante que ela seja). Mesmo se admitíssemos que o necessário é simplesmente a reconfiguração da matriz energética, a escala em que isso deveria ocorrer para ter relevância é global (ainda que a busca por isso seja nacionalmente determinada). Se apenas um país vencer a batalha, todos perdem a guerra. No entanto, é um equívoco se restringir à matriz energética, que apenas nos informa as participações relativas de cada fonte, não os níveis absolutos em que elas são usadas. Isso nos leva ao segundo ponto. 

O que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento dentro dos limites acordados é o zeramento líquido das emissões oriundas de atividades humanas, o que exige, pelos prazos preconizados, uma descarbonização fulminante. Mesmo se deixarmos momentaneamente de lado o ritmo em que isso deveria acontecer, uma coisa é certa: no plano energético, a direção da mudança é a contração da escala em que consumimos combustíveis fósseis. Ao sairmos do domínio das grandezas relativas para o domínio das grandezas absolutas, a incomparável transição energética chinesa revela determinações que o otimismo de Jabbour não tem como contemplar.

É verdade que entre 2008 e 2023 a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética chinesa caiu de 92,02% para 81,56%. Contudo, também é verdade que, no mesmo período, a oferta primária de energia a partir do carvão cresceu 36%, do petróleo cresceu 106% e do gás natural cresceu 394%. Combinadas as três fontes, a expansão foi de 61,5%. Numa leitura muito generosa, podemos chamar isso de transição energética, mas não de descarbonização.  

É comum aludir a todos os efeitos virtuosos que são viabilizados por essas trajetórias. Fazendo uma rápida colagem de trechos da fala de Jabbour, poderíamos mencionar que nesse caminho a China retirou “800 milhões de pessoas da linha da pobreza”, “entregou independência nacional”, “investiu mais que o dobro do resto do mundo” em energias limpas. Nenhum desses resultados é desprezível ou indesejável. Mas aqui temos uma amostra do preço de obtê-los.

Apenas para reforçar, o preço é: continuar acelerando rumo ao colapso das condições materiais, ecológicas de suporte à vida no planeta e, obviamente, às sociedades humanas. Não há exercício de poder político que possa perseguir emancipação num planeta em vias de se tornar inabitável. Não há exercício de poder político que possa suspender a operação de leis de funcionamento da natureza. Então me desculpe, Elias, mas o raciocínio “minha corrente exerce poder político em vários países, então o mundo não vai acabar, pessoal” é uma falácia grosseira que se explica apenas pela circunstância de um deslize numa fala improvisada. Custo a crer que num contexto mais formal você estaria disposto a afastar com um politicismo tão pobre os riscos de um colapso iminente. 

A pertinência da afirmação de que “é impossível haver uma reconexão do ser humano com a natureza fora da elevação da técnica” é discutível. Porém, mesmo que a admitamos, seria incorreto tratar o “desenvolvimento das forças produtivas” como uma espécie de elevação neutra da nossa capacidade de intervir, que poderia ser mobilizada para o “bem” ou para o “mal”, dependendo de quem exerça o poder político. No mundo em que vivemos, as forças produtivas não são apenas colocadas a serviço da acumulação de capital; elas são paridas pela lógica do capital e só se viabilizam economicamente se proporcionarem, além de maior produtividade, expansão da produção, do giro da produção, do consumo; enfim, das condições mais básicas da acumulação. Ainda que, numa hipótese ousada, supuséssemos que o Partido Comunista Chinês exerce poder político de tal forma que consegue impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas nacionais imunes à racionalidade do capital, pergunta-se: dada a inserção chinesa no mercado mundial, os resultados proporcionados por essas forças produtivas não estarão condenados a satisfazer os mesmos critérios de viabilidade? 

Voltando à linha anterior de raciocínio, chegamos ao terceiro ponto. No trecho anterior, contrapus os resultados chineses e a reivindicação de vitória na batalha climática ao que a ciência vem preconizando como medidas/resultados necessários para evitar o pior. Na realidade, até esse exercício demonstra-se excessivamente otimista, porque supõe que as metas tradicionalmente perseguidas de limitação do aquecimento são exequíveis. No capitalismo, nunca foram. Todavia, mesmo abstraindo do metabolismo ingovernável do capital, se um dia já foram, já não são mais. O limiar de aquecimento de 1,5ºC já vem sendo rompido sistematicamente desde meados de 2023 (em medidas diárias, mensais, anuais e de 12 meses) e não há indicações consistentes que retornaremos para níveis abaixo desse patamar.3 Além disso, já é possível projetar um aquecimento superior a 2ºC para o início dos anos 30.4 Se acrescentarmos a esse entendimento os impactos previsíveis que viriam com tal aquecimento, a conclusão de que o “mundo já está acabando” se apresenta muito mais lúcida e cientificamente embasada do que a garantia motivacional de que o “mundo não vai acabar”.  

Como isso não imporia limites a aspirações diversas de desenvolvimento? É claro que o Brasil não é uma Dinamarca. É claro que há nações em circunstâncias ainda piores que as do Brasil. Evidentemente, é absolutamente defensável a ambição de ascensão material de nações pobres e periféricas. Não seria exagero dizer que tal ascensão é justa e necessária. Daí a consternação de Jabbour com o que ele denomina de “militância contra o desenvolvimento”. Ela de fato existe, ainda que tenha muito menos enraizamento e circulação do que ele dá a entender. Ademais, na medida em que ela existe, Jabbour parece supor que ela é motivada por algum tipo de divergência no plano moral, por concepções éticas que eventualmente colocam a natureza (em abstrato) acima das satisfações de necessidades humanas.  

Em meu juízo, não é esse o caso. Na medida em que há realmente posicionamentos contrários ao assim chamado desenvolvimento econômico, eles são motivados por um entendimento de que não há base material para a universalização desse tipo de processo. Já é um clichê admitirmos que a afluência material de um estadunidense médio não é generalizável. Tornou-se clichê justamente porque é um consenso fácil. Por outro lado, talvez surpreenda que, pela mesma métrica em que se enuncia a afirmação anterior, seria necessário afirmar também que a afluência material de um brasileiro médio tampouco é generalizável. Ao invés de simplesmente apelar para o senso comum, porém, também seria adequado dizer: é perfeitamente possível reconhecer que a elevação da afluência material das periferias do mundo é necessáriajusta e, ao mesmo tempo, biogeofisicamente inviável.

Assim como é o caso da interação entre meio ambiente e a dinâmica das forças produtivas,5 tenho um número já grande de textos publicados que exploram teoricamente a tensão entre desenvolvimento e meio ambiente.6 Em geral, Marx é a principal referência, mas aqui posso inclusive utilizar o trabalho do próprio Jabbour para expor meu ponto principal.  

Em seu best-seller com Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI, é dito, logo no início: “O núcleo central do nosso argumento é que as limitações ao mercado no metamodo de produção não podem ser superadas na atual fase histórica, mas apenas paulatinamente, e no longo prazo”.7 Há motivos para concordar e há motivos para discordar, mas isso não vem ao caso agora. Importante é ter em vista que os autores projetam a transformação substantiva num horizonte de longa duração. Surpreendentemente, na página seguinte, asseveram: “a menos que encontremos um caminho para além do modo de produção atualmente dominante, que ainda é capitalista em nível global, o Antropoceno pode ser o período do fim da humanidade e de muitas outras espécies”.8 Se juntarmos as duas afirmações com os horizontes de tempo veiculados tanto pela ciência quanto pela diplomacia climática nas grandes convenções globais, seremos surpreendidos com o corolário de que “o mundo vai acabar”. Nem precisamos recorrer a material externo, contudo. Os próprios autores nos informam, repetindo a ideia, mas acrescentando a urgência, que “a menos que a humanidade supere urgentemente o saque capitalista dos recursos limitados do planeta, o período do Antropoceno pode marcar o fim da humanidade e de muitas outras espécies”.9 Apesar dessa ironia do destino, isso tampouco vem ao caso agora. Queremos conectar esse entendimento nuclear central com outro entendimento apresentado que é relevante para o tema do desenvolvimento. 

Jabbour é um ardoroso proponente e defensor do desenvolvimento que, insiste ele, transcorre ao longo de um tempo consideravelmente distendido. Suponho que, mesmo concedendo para variantes burguesas do significado de desenvolvimento, o que ele tem no centro de sua defesa é uma concepção de desenvolvimento socialista. Uma caracterização exaustiva do que seria essa concepção não cabe num texto como esse, mas em alguns momentos da obra, Jabbour e Gabriele proporcionam aproximações sintéticas de seu significado. Na página 109, por exemplo, dizem que a “estratégia socialista, tanto quanto a capitalista, deve procurar aumentar progressivamente o tamanho relativo do setor improdutivo [grosso modo: público]. […] Em ambos os modos de produção, a única maneira de permitir o funcionamento das atividades improdutivas é atribuir-lhes financiamento (direta ou indiretamente) através de parte do excedente gerado no setor produtivo [grosso modo: privado, orientado para o lucro]. Portanto, a viabilidade do macrossetor improdutivo depende da transferência de fundos do produtivo e, portanto, está restrita à capacidade de geração de excedentes deste último”.10

Ora, mesmo que não entendamos excedente como mais-valor11, como mais-trabalho objetivado, a conclusão incontornável é que a estratégia de desenvolvimento socialista vislumbrada por Jabbour é estruturalmente dependente daquilo que ele denomina de macrossetor produtivo, que continuaria operando ainda por muito tempo pela lógica da acumulação desmedida12 de excedente. No núcleo dinâmico da estratégia de desenvolvimento preconizada pelos autores, portanto, continua prevalecendo o mesmo tipo de vetor dinâmico que lança a humanidade à destruição suicidária. Em outras palavras, mais simples, numa leitura generosa da noção jabbouriana de desenvolvimento, o desenvolvimento especificamente socialista não escapa do mesmo tipo de inviabilidade ecológica do desenvolvimento capitalista. Admitindo o que dizem Jabbour e seu coautor, haveria mais motivos para argumentar pela inviabilidade do desenvolvimento, não menos.  

O quadro é sem dúvidas desalentador, desesperador. Futuros que consideramos necessários, desejáveis e justos estão sendo concretamente destruídos em ritmo acelerado. Reconhecer isso não implica nenhum tipo de fatalismo niilista, como sugere Jabbour. Ao contrário, o que se depreende do mapeamento intransigentemente sóbrio da situação é a urgência de um processo de ruptura revolucionária, é a erosão completa de qualquer condição de sustentação de perspectivas gradualistas. A implicação é muito impactante mesmo, mas não é exagerada: só a revolução serve e talvez nem ela sirva. Só é possível enxergar niilismo nisso se nos desfizermos de nossas pretensões revolucionárias ou se desconhecermos quase por completo o processo de colapso climático em curso.  

Notas

  1. Todos os dados sobre energia apresentados a seguir estão disponíveis em https://ourworldindata.org/energy-mix ↩︎
  2. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023, p. 15; ênfase adicionada.  ↩︎
  3. HANSEN, J.; KHARECHA, P. 2025 Global Temperature, 2025. Disponível aqui.  ↩︎
  4. HANSEN, J.; KHARECHA, P.; LOEB, N.; SATO, M.; SIMONS, L.; TSELIOUDIS, G.; von SCHUCKMANN, K. How we know that global warming is accelerating and that the goal of the Paris Agreement is dead, 2023. Disponível aqui.  ↩︎
  5. Cf. p.ex. Sá Barreto, O capital na estufa, Rio de Janeiro: Consequência, 2018.  ↩︎
  6. Cf. p.ex. Sá Barreto, Ecologia marxista para pessoas sem tempo, São Paulo: Usina, 2022.  ↩︎
  7. Jabbour; Gabriele, China: o socialismo do século XXI, São Paulo: Boitempo, 2021, p. 31.  ↩︎
  8. Ibidem, p. https://blogdaboitempo.com.br/2025/08/04/o-mundo-ja-esta-acabando/32; grifo meu.  ↩︎
  9. Ibidem, p. 65; grifo meu.  ↩︎
  10. Ibidem, p. 109; grifo meu.  ↩︎
  11. Entendimento que os autores curiosamente rejeitam de maneira insistente. ↩︎
  12. i.e., que não apresenta um limite imanente e que tampouco deveria ser contida, dada a função estratégica que os autores atribuem a ela. ↩︎

***
Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

Editora da UFRJ lança versão em português do “The Tropical Silk Road. The Future of China in South America”

Lançando originalmente em inglês pela Stanford University Press em 2022 , o livro “The Tropical Silk Road. The Future of China in South America” agora tem seu lançamento em português via a Editora da UFRJ com o título “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul”

Esta obra é uma coletânea de ensaios que analisa a crescente influência da China na América do Sul, especialmente no contexto dos megaprojetos de mineração, infraestrutura, energia e agronegócio nos biomas tropicais da região, como a Amazônia, o Cerrado e os Andes. A obra destaca a interseção entre dois processos transformadores globais: a rápida expansão da esfera de influência chinesa no Sul Global e a degradação ambiental dos principais biomas sul-americanos.

Além disso, “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul” oferece um panorama crítico e detalhado da nova ordem mundial pós-hegemônica centrada nos EUA, evidenciando os riscos e oportunidades que a expansão chinesa traz para a América do Sul.

Finalmente, este livro é uma referência essencial para compreender as transformações geopolíticas, ambientais e sociais em curso na região, combinando rigor acadêmico com relatos de campo e perspectivas de atores locais e globais.

Tem desejar aquirir uma cópia deste livro, basta clicar [Aqui!].