Países fecham acordo sobre recursos genéticos, patentes e biopirataria

Como o tratado só entra em vigor após os 15 integrantes o ratificarem em lei nacional, os bancos genéticos, como a Amazônia, seguem na mira de interesses internacionais. China e EUA têm mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no INPI

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10% dos pedidos ou depósitos de patentes de bioinsumos referem-se ao açaí

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A comunidade internacional finalmente chegou a um acordo para regular o uso de recursos genéticos, o registro de patentes e combater a biopirataria. O tratado firmado após 25 anos de negociações estabelece regras para utilização de plantas medicinais, produtos das florestas e conhecimentos tradicionais ao serem patenteados por grandes empresas.

Segundo comunicado da Organização Mundial de Propriedade Intectual, o acordo é o primeiro a tratar de recursos genéticos. Com ele, empresas interessadas em apresentar um pedido de patente terá de revelar a origem dos recursos genéticos usados. O inventor ou a empresa terá de fornecer também dados sobre os povos indígenas que forneceram o conhecimento tradicional para tal patente.

“Estávamos esperando por esse momento por 25 anos”, disse o embaixador brasileiro Guilherme Patriota, que conduziu o processo no âmbito da organização. Segundo ele, o texto final, que resultou de um calhamaço de 5 mil páginas, foi “cuidadosamente equilibrado”. “Trata-se do melhor compromisso possível e uma solução cuidadosamente calibrada, que busca unir e equilibrar uma variedade de interesses. Alguns muito apaixonados e assiduamente expressos e defendidos ao longo de décadas”, disse.

Ao longo desses 25 anos de discussões, os países emergentes e os ricos evidentemente ficaram em lados opostos. De um lado, países como o Brasil, a Colômbia, nações africanas e asiáticas. Todos têm seus recursos genéticos e conhecimentos ancestrais utilizados na fabricação de cosméticos, medicamentos, biotecnologia e suplementos alimentares para lucro de outros.

China e EUA dominam pedidos de patente

Nesses anos todos de discussões, os países emergentes insistiam na revogação de uma patente caso o inventor não informasse a origem dos recursos. Mas os países ricos, onde estão as indústrias farmacêuticas, argumentam impacto na capacidade de inovação.

Com o acordo, que tem entre as metas principais o combate à biopirataria, as comunidades locais terão de concordar com o uso de seu conhecimento tradicional.E também de seus recursos genéticos. E o inovador que não apresentar as informações sobre a origem dos recursos utilizados terão chance para isso antes de sofrer penalidades. O tratado entrará em vigor, porém, somente quando os 15 países ratificarem o texto em suas legislações nacionais.

Enquanto isso, bancos de recursos biológicos seguem na mira de interesses internacionais, que se aproveitam da falta de regulamentação. No caso da Amazônia brasileira, empresas dos Estados Unidos e da China estão por trás de mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI). Desse total, as empresas chinesas respondem por 44%. e as dos Estados Unidos, por 9%.

Direito de propriedade intelectual

Segundo o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Marcos Pedlowski, dos pedidos ou depósitos de patentes de maior número com bionsumos estão relacionados ao Açaí (10,1%), Cupuaçu (5,6%) e Babaçu (4,9%). “Como se sabe que empresas chinesas estão produzindo até peixes amazônicos em cativeiro, não será surpresa nenhuma descobrirmos que há mais recursos amazônicos que chineses e estadunidenses já patentearam”, ponderou em publicação recente em seu blog.

À RBA, Pedlowski considerou que as patentes envolvem direito de propriedade intelectual, com implicações diretas no comércio, especialmente internacional. Com isso, o Brasil e os estados amazônicos perdem as melhores condições de usufruir dos benefícios dos produtos gerados a partir da biodiversidade amazônica.

“Além disso, tenho que lembrar que a China está hoje com uma forte penetração econômica na Amazônia para projetos de infraestrutura e de controle das monoculturas da soja. Ao deter mais patentes que o Brasil no tocante a produtos naturais amazônicos, o que estamos vendo é a repetição de um modelo desigual de obtenção de divisas, na qual o Brasil será mantido em uma condição de economia dependente”, disse.


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Fonte: Rede Brasil Atual

Amazônia e as patentes requeridas para uso de sua flora, divulgando relatório do INPI

floresta pasto

Blog que tem leitor nunca morre pagão, esse é o meu mote desde que criei este espaço em 2009. É que muitas das informações e sugestões que me possibilitam divulgar questões interessantes sempre aparecem pelas mãos de um leitor. 

Esse é o caso do relatório produzido pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) sobre as patentes requeridas para a produção de produtos a partir da flora existente na Amazônia brasileira. Eu que inicialmente não consegui acessar o documento, recebi o link de acesso correto e pude baixar esse interessantíssimo relatório que contém informações que eu considero muito relevantes.

Um exemplo é de que das 47.467 requeridas no mundo, apenas 4.068 foram produzidas no Brasil, um valor que é cerca de 4.7 menor do que alcançado por empresas sediadas na China. Em relação aos EUA (4.480), o Brasil perde em exatas 412 patentes.

Um detalhe que mostra quão vazio é o discurso de que é possível ter desenvolvimento tecnológico fora das universidades públicas é que estas produziram 83% das patentes brasileiras, enquanto empresas requereram meros 13%.

bioinsumos amazonia

Quem desejar acessar o relatório completo, basta clicar [Aqui!].

Amazônia é da China e dos EUA, se as patentes requeridas forem consideradas

desmatamento

A Amazônia é um daqueles mitos fundacionais sobre os quais os militares e a extrema-direita brasileira gostam de depositar suas justificativas de destino manifesto. Mas se examinarmos melhor a situação sob o ponto de vista de algo que controla o comércio global, a Amazônia já deixou de ser brasileira para ser chinesa e estadunidense.

Falo aqui da requisição de patentes para explorar comercialmente uma série de produtos naturais que são obtidos a partir da flora amazônica, vemos que até 2022, o Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) identificou a requisição de aproximadamente 44 mil patentes, sendo que deste total, 44% foram requeridas por empresas chinesas, e 9% por empresas estadunidenses. Em outras palavras, mais de 50% das patentes concentradas nesses dois países.

Uma postagem no site oficial do INPI, mostra queos pedidos ou depósitos de patentes de maior número com bionsumos foram relacionados ao Açaí (10,1%), Cupuaçu (5,6%) e Babaçu (4,9%).  Como se sabe que empresas chinesas estão produzindo até peixes amazônicos em cativeiro, não será surpresa nenhuma descobrirmos que há mais recursos amazônicos que chineses e estadunidenses já patentearam.

Tentei acessar o relatório completo do INPI, mas o mesmo parece estar sob algum tipo de sigilo, o que pode ser mais um indicador do tamanho do problema que é causado pelo atraso tecnológico e pela falta de investimentos nas universidades públicas que lideram estudos com potencial de serem patenteados pelo Brasil.

A China está de olho no Brasil – mas será que esta crescente parceria BRICS será prejudicial para a Amazônia?

xi lula

Por Mônica Piccinini para o The Canary 

Nas últimas décadas, o investimento da China na região amazônica do Brasil cresceu e se ampliou significativamente , especialmente em setores como agricultura, mineração, infraestrutura e energia. No entanto, este influxo suscitou preocupações sobre as suas consequências ambientais e sociais. À medida que os debates se intensificam, o delicado equilíbrio entre o desenvolvimento económico e a preservação ecológica permanece incerto.

Este ano marcou o 50º aniversário das relações diplomáticas sino-brasileiras, mas a sua ligação inicial remonta a 1881, com o estabelecimento da primeira missão diplomática.

A relação do Brasil com a China intensificou-se com a formação do BRICS em 2009, uma organização intergovernamental composta por Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul. Além disso, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos também passaram a fazer parte do grupo.

China-Brasil: uma parceria lucrativa

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2023, o comércio bilateral entre as duas nações totalizou US$ 157 bilhões, com as exportações do Brasil para a China atingindo US$ 104 bilhões.

Um estudo publicado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) em 2023 destacou o considerável potencial de exportação da região Norte do Brasil para a China, com projeções superiores a US$ 11 bilhões.

Assim como muitas outras colaborações que o Brasil estabeleceu com outras nações, sua parceria com a China parece se destacar como uma das mais lucrativas. Isto deve-se principalmente à extensa população da China e ao seu impulso crucial para a expansão e o progresso industrial para satisfazer as necessidades significativas do seu povo.

Embora os projetos e investimentos chineses no Brasil pareçam benéficos para ambas as partes, surgem preocupações quanto ao seu alinhamento com os padrões de desenvolvimento sustentável, particularmente na região Amazónica.

Há apreensão de que estas iniciativas possam contribuir para o desmatamento generalizado, a degradação florestal e as alterações climáticas, minando o papel da região como sumidouro de carbono. Essa degradação aumenta o risco de surgimento e propagação de doenças zoonóticas , representando uma ameaça substancial à saúde pública tanto para o Brasil quanto para a comunidade global.

João Cumarú, investigador da Plataforma CIPÓ (um instituto de investigação independente sem fins lucrativos) e estudante de mestrado em política e diplomacia chinesa na SIRPA (复旦大学, Fudan University, China), explicou ao The Canary :

Existem exemplos notáveis ​​e práticas louváveis ​​no território chinês. No entanto, é essencial realizar uma análise minuciosa para determinar se estas práticas serão replicadas em territórios além das fronteiras da China.

Pecuária

Em 2023, a China importou 2,2 milhões de toneladas de carne do Brasil, totalizando mais de US$ 8,2 bilhões.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de bovinos abatidos no país atingiu 29,8 milhões em 2022, um aumento de 7,5% em relação ao ano anterior. Em 2023, a produção de carne bovina aumentou para 8,91 toneladas em 2023, refletindo um aumento de 11,2% em relação a 2022.

A China é o principal destino das exportações brasileiras de carne bovina, suína e de frango. Há um total de 144 frigoríficos autorizados no Brasil para exportação para a China, sendo a maioria de propriedade da brasileira JBS, maior produtora de carne do mundo. No entanto, a JBS tem sido associada a questões como desmatamento, conflitos e degradação ambiental na floresta amazônica e nas regiões do Cerrado.

João Gonçalves, diretor sênior para o Brasil da Mighty Earth, disse ao The Canary:

Através do nosso monitoramento por satélite, ainda encontramos uma destruição desenfreada impulsionada pelas indústrias de carne e soja no Brasil. A gigante brasileira de carne bovina JBS está comprando de fornecedores que estão destruindo a natureza impunemente. Nossa última pesquisa identificou um total de 105 casos de desmatamento vinculados à JBS, abrangendo mais de 185 mil hectares de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Os planos da JBS de aumentar as exportações de carne bovina para a China significarão mais gado e mais apropriação de terras, com todo o impacto negativo que isso traz para as florestas, para as comunidades indígenas e para a vida selvagem que delas dependem. A JBS tem grandes planos de expansão, incluindo listagem na  Bolsa de Valores de Nova York . O acesso a mais fundos levará a mais destruição da natureza. Instamos a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA a bloquear a proposta de listagem da JBS na  NYSE devido ao seu impacto contínuo e descomunal nas mudanças climáticas e nos preciosos biomas do Brasil.

Em março, Carlos Fávaro, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), anunciou que mais 38 frigoríficos brasileiros foram aprovados para exportar carne e derivados para a China:

Este é um momento significativo para ambos os lados. A China receberá carnes de alta qualidade a preços competitivos, garantindo produtos agrícolas para sua população, enquanto o Brasil ganha a certeza da criação de empregos, de oportunidades e do crescimento da economia brasileira. É um dia histórico na relação comercial Brasil-China, um dia histórico para a nossa agricultura.

Em 2023, a JBS fez parte de uma delegação enviada pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, à China, com o objetivo de negociar um novo acordo de exportação entre as duas nações.

Lula não parece hesitar em mostrar seu apoio inabalável à JBS e ao crescimento da pecuária no país, independentemente das consequências ambientais, como o desmatamento, as emissões de gases de efeito estufa e a violação dos direitos das comunidades tradicionais e indígenas.

A pecuária contribui para cerca de 80% do desmatamento na região amazônica. Os principais estados para a produção de gado na Amazônia brasileira são Mato Grosso, Pará e Rondônia.

processo de conversão de florestas em pastagens resulta em temperaturas elevadas, padrões de precipitação alterados e na escalada de eventos climáticos extremos. Essas condições perturbam a regulação climática e o ciclo da água, essencial para a produção agrícola no Brasil, resultando em perdas consideráveis.

Dr. Peter Alexander, professor sênior em sistemas alimentares globais e segurança na Universidade de Edimburgo, disse ao The Canary :

Devemos consumir menos carne, reduzir o desperdício alimentar, estabelecer um sistema mais eficiente e equitativo e abordar preocupações prementes de saúde humana, como a subnutrição e a obesidade. Como podemos enfrentar estes desafios em um sistema que atualmente não consegue promover tais resultados? Além disso, como transformamos este sistema para priorizar estes objetivos? Estas questões perduram, uma vez que estas questões são frequentemente consideradas politicamente arriscadas e potencialmente prejudiciais para o sucesso eleitoral.

Soja

O apetite voraz da China por produtos agrícolas estende-se à soja, que continua a ser o principal importador mundial , sendo o Brasil o maior produtor mundial.

Na safra 2022/2023, o Brasil alcançou mais um marco , estabelecendo um recorde ao colher cerca de 154,6 milhões de toneladas de soja, refletindo um notável aumento de 23% em comparação com a produção do ano anterior de 125,5 milhões de toneladas. Em 2023, as importações chinesas de soja do Brasil atingiram 69,95 milhões de toneladas, um aumento de 29% em relação ao ano anterior.

O Brasil implementou um acordo de moratória da soja, onde as empresas participantes se comprometem a não comprar soja de fazendas onde o cultivo de soja tenha levado ao desmatamento de terras no bioma Amazônia após 22 de julho de 2008. Esta iniciativa visa erradicar o desmatamento do processo de produção de soja.

Apesar das inúmeras promessas da China National Cereals, Oil and Foodstuffs Co (Cofco) para combater o desmatamento e melhorar suas cadeias de abastecimento, uma investigação da Repórter Brasil revelou que, em 2021, a empresa adquiriu soja de regiões desmatadas no estado de Mato Grosso, situadas tanto no Regiões Cerrado e Amazônica, por meio de fornecedores indiretos.

As empresas chinesas expandiram substancialmente a sua presença no Brasil através de fusões e aquisições. Por exemplo, Hunan Dakang, do grupo Shanghai Pengxin, detém uma participação de 57% na Fiagril, uma empresa brasileira especializada no fornecimento de insumos agrícolas, como soja, milho, fertilizantes, e na prestação de apoio técnico aos agricultores.

Questionado sobre o volume de comércio entre o Brasil e a China e a dependência do Brasil daí resultante, Cumarú disse ao The Canary:

Atualmente, a China pode ver o Brasil como um mercado significativo e um exportador de commodities. Contudo, as tendências históricas sugerem que não dependerão apenas de um fornecedor para satisfazer as suas necessidades. Há uma tendência para a diversificação das fontes de energia e o avanço das tecnologias para o desenvolvimento e restauração de terras na China. O governo brasileiro deveria monitorar de perto esta tendência.

Além disso, o nosso foco não deve ser apenas nas expectativas de investimento; devemos também aumentar e integrar os ganhos destes investimentos. Um aspecto crucial em que falhamos é a transferência de tecnologia, que poderia potencialmente diminuir a dependência do Brasil da China.

À medida que a produção de soja se expande, torna-se necessário o desenvolvimento de corredores logísticos para facilitar o escoamento dos grãos para os portos, reduzindo assim os custos de frete. Isto motivou numerosos investimentos em infra-estruturas, incluindo projectos rodoviários e ferroviários.

A infraestrutura

Os investimentos chineses na infra-estrutura amazónica concentram-se principalmente na construção de barragens, estradas, portos e sistemas ferroviários. Estas iniciativas visam melhorar as rotas de transporte e reduzir os custos associados à exportação de mercadorias para a China.

A China Communications Construction Company (CCCC) detém uma participação de 80% na construtora brasileira Concremat e participa de diversos projetos na região amazônica.

Os logotipos da CCCC e da Concremat são apresentados no site do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em conexão com a pavimentação da rodovia BR-319 na Amazônia. Essa rodovia tem 885,9 km de extensão e liga a capital central da Amazônia, Manaus, a Porto Velho, situada no extremo sul da floresta.

A pavimentação da rodovia BR-319 tem o potencial de desencadear desmatamento generalizado, degradação ambiental, declínio da biodiversidade, deslocamento de comunidades indígenas, aumento da disseminação de doenças infecciosas, aumento da mineração e extração ilegal de madeira e escalada do crime organizado.

No ano passado, o governador do Pará, Helder Barbalho, assinou um acordo em Pequim, na China, na presença do vice-presidente da China Communications Construction Company (CCCC), abrindo caminho para a construção da Ferrovia do Pará. Esta ferrovia ligará Marabá ao porto de Vila do Conde, em Barcarena.

Outro projeto significativo é o Ferrogrão (EF-170), um empreendimento ferroviário greenfield de 933 km projetado para ligar Sinop, no estado de Mato Grosso, a Itaituba, no estado do Pará. Essa ferrovia passa por áreas de proteção ambiental e territórios indígenas na região amazônica.

Em 2022, os empreendimentos greenfield caracterizaram predominantemente a entrada de investimentos chineses no Brasil, respondendo por 59% do total de projetos.

A Ferrogrão tem recebido apoio de grandes players do agronegócio, como Cargill, Bunge, Louis Dreyfus e Amaggi, motivados pelo seu objetivo principal de exportar commodities para a China e a Europa com custos reduzidos. No entanto, este projeto levanta preocupações sobre o aumento do desmatamento, degradação e violações ambientais. Ela deverá impactar inúmeras comunidades indígenas, incluindo os povos Kayapó, Mundukuri e Panará, que denunciam a ferrovia como os “trilhos da destruição”.

Minerais preciosos

A Amazônia brasileira é um ponto focal para a extração de matérias-primas como parte das agendas nacionais e estaduais de desenvolvimento econômico. Consequentemente, a região está a testemunhar vários desafios socioeconómicos e ambientais.

O Brasil é uma potência na indústria de mineração global, com capacidade significativa de produção e exportação de minerais brutos e processados. Isto inclui recursos vitais como ferro, ouro, minério de cobre e bauxita – a principal fonte de alumina e alumínio.

Bacarena, localizada no estado do Pará, é um pólo crucial para essas atividades. A região abriga substanciais depósitos de bauxita, concentrados principalmente em três distritos principais: Trombetas, Almeirim e Paragominas-Tiracambú. Isso posiciona o Brasil como um dos maiores detentores mundiais de potencial de bauxita .

Em webinar organizado pelo CEBC em fevereiro, Ricardo Biscassi, chefe de relações externas da mineradora brasileira Vale e diretor do CEBC, revelou :

As exportações totais de minério de ferro do Brasil em 2023 para todos os países foram de 380 milhões de toneladas. Desse total, 64%, ou seja, 242 milhões de toneladas, foram enviadas para a China, mostrando a relevância que a China tem no mercado de minério de ferro, e obviamente no mercado de aço, estes 242 milhões de toneladas que foram exportadas para a China, 76 % veio da Vale.

Em fevereiro, uma delegação chinesa composta por representantes da Zhuhai Sino-Lac Chain Co., Guangdon Nonfengbao e Hohai University visitou o estado do Pará, declarando sua intenção de investir em diversos setores da região, inclusive colaborando em um projeto de biofertilizante com Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).

Um dos principais atrativos para os investidores chineses no estado do Pará é o município de Bacarena, que faz parte da Zona de Processamento de Exportações (ZPE) do Brasil . Esta zona oferece uma variedade de incentivos, tais como isenções fiscais, tornando-a altamente atrativa para investidores estrangeiros.

Aproximadamente 60% do que é produzido no Pará, segundo maior estado da região amazônica, é exportado para a China. Em 2023, o setor mineral representou 84% das vendas externas do Pará. O ferro responde por 80% dessas exportações, sendo um material indispensável para o mercado de construção civil da China.

Cumarú disse ao The Canary:

Há uma questão persistente que permanece sem solução. Embora se entenda que o governo chinês tenha implementado políticas de crédito verde para empresas que operam internacionalmente, tais como directrizes para empreendimentos mineiros no estrangeiro, há incerteza quanto ao nível de cumprimento destas políticas. Parece que não há um compromisso significativo por parte da China. Considerando os volumes substanciais de investimento e comércio da China, isto suscita inegavelmente preocupações.

Em abril, a Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex) decidiu aumentar em até 25% o imposto de importação de 11 produtos siderúrgicos, com o objetivo de reduzir as importações de aço da China. Esta ação foi tomada em resposta ao influxo substancial de aço chinês que inunda o mercado brasileiro com taxas de desconto.

O lítio representa outro recurso incrivelmente valioso. A China está de olho em uma potencial joint venture ou aquisição da mineradora canadense Sigma, situada no estado de Minas Gerais. O objetivo é aprimorar as operações de produção de baterias da empresa chinesa BYD em Manaus, capital do Amazonas. A BYD começou a construir uma fábrica de automóveis em Camaçari, na Bahia, um investimento de aproximadamente US$ 3 bilhões.

Devemos permanecer conscientes da escassez de água como um desafio global adicional. As projecções indicam que, já em 2030, a procura global de água doce deverá exceder a oferta disponível em 40 a 50%, afectando tanto os sectores industriais castanhos como os verdes. Existe a possibilidade de que a indústria chinesa, actualmente concentrada na Ásia, se desloque para países abundantes em recursos hídricos, como o Brasil, incluindo a região Amazónica.

Energia

A China fez investimentos significativos no setor energético do Brasil. A State Grid Brazil Holding SA, uma empresa estatal chinesa de energia, detém o controle de 24 empresas nacionais de transmissão de energia no Brasil, incluindo aquelas que operam na região amazônica.

A State Grid anunciou planos de investir US$ 3,6 bilhões para atualizar as linhas de transmissão de energia no Brasil, juntamente com US$ 38 bilhões extras no setor energético brasileiro. Eles garantiram uma licitação para construir 1.500 km de linhas nos estados do Maranhão, Tocantins e Goiás, o que inclui a construção de subestações. Além disso, a empresa já gerencia o projeto de transmissão UHVDC de Belo Monte, com 2.500 km de extensão.

Em dezembro de 2023, a State Grid garantiu o maior leilão de transmissão de energia do Brasil, ganhando direitos para construir mais de 4.471 km de novas linhas de transmissão nos estados de Goiás, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins.

Outra empresa estatal chinesa, a Three Gorges Corporation, administra 12 usinas hidrelétricas, três das quais estão situadas na região amazônica. Estas incluem Cachoeira Caldeirão, no estado do Amapá, Santo Antonio do Jari, na divisa entre os estados do Pará e Amapá, e a usina hidrelétrica de São Manoel, situada no rio Teles Pires, na divisa com os estados de Mato Grosso e Pará.

Numerosas iniciativas de desenvolvimento de infra-estruturas na região Amazónica suscitaram controvérsia devido ao seu potencial para aumentar a desflorestação, a degradação, a urbanização, o trânsito e os conflitos em áreas remotas de floresta tropical. Esses projetos afetam diretamente as comunidades tradicionais e indígenas, além do meio ambiente.

A hidrelétrica e o reservatório de Belo Monte, localizados ao longo do rio Xingu, na região amazônica do Pará, servem como exemplo do impacto negativo que projetos de infraestrutura de grande escala podem ter em áreas de biodiversidade, incluindo o deslocamento de comunidades, o aumento do desmatamento e o degradação do ecossistema aquático do Rio Xingu.

Propriedade intelectual

A floresta amazónica está emergindo como um mercado-chave para bioprodutos, chamando a atenção tanto a nível nacional como internacional pela sua riqueza de oportunidades na promoção de uma bioeconomia.

Até 2022, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) do Brasil identificou 43.400 patentes de inovações envolvendo a flora amazônica registradas globalmente. A China liderou a contagem com 18.965 pedidos, seguida pelos EUA com 3.778.

O patenteamento de produtos derivados de recursos genéticos amazônicos sem repartição justa dos benefícios com as comunidades locais e sem respeitar seus direitos levanta preocupações significativas. Dada a vasta riqueza de material genético da Amazônia, esta situação poderia potencialmente alimentar o tráfico ilícito de produtos florestais (biopirataria).

Relações China-Brasil: em alerta máximo

Existem inúmeras incertezas em relação às consequências socioambientais de alguns investimentos chineses na região amazônica e no Brasil, bem como sobre como a população local ganhará com a exploração extensiva de recursos naturais e o desenvolvimento de infraestrutura em zonas ambientalmente delicadas como a Amazônia. .

O aumento da procura de mercadorias por parte da China poderá levar a uma exploração desenfreada dos recursos naturais do Brasil e da Amazónia e ao aprofundamento da dependência do país em relação à China.

Cumarú contou ao The Canary sobre a dinâmica da política externa chinesa:

Um dos princípios que norteiam a política externa chinesa é a não interferência nos assuntos internos de outras nações. Aderem às regras de envolvimento nos países onde investem, absolvendo-se efectivamente de questões em que possam estar directa ou indirectamente envolvidos.

O apelo por uma abordagem mais proativa por parte do governo chinês só poderá ganhar força se partir do governo brasileiro, liderado pelo presidente e pelos ministérios relevantes.

Em abril, a China e o Brasil firmaram um acordo bilateral que inclui a colaboração em televisão entre a Agência de Notícias Xinhua do China Media Group e a Brasil Communications Company ( EBC ). Em 2019, o Grupo Bandeirantes no Brasil também assinou um acordo com o China Media Group, com foco em produções conjuntas e compartilhamento de conteúdo.

Os ministérios da cultura do Brasil e da China reuniram-se no dia 25 de abril para explorar oportunidades de intercâmbio cultural entre os dois países, abrangendo cinema, publicações, bibliotecas, museus, patrimônio e direitos autorais.

Existem preocupações crescentes sobre potenciais esforços para influenciar, regular e limitar a disseminação de informações no Brasil, uma vez que há dúvidas sobre se a China poderá procurar promover as suas ideologias políticas, económicas e sociais. Tais ações poderiam potencialmente representar riscos tanto para o meio ambiente, incluindo a região amazônica, quanto para os interesses soberanos da população brasileira.

O futuro da Amazônia, do Brasil e da sustentabilidade ambiental global é fortemente influenciado pela relação entre o Brasil e a China. Com o seu poder considerável, estes dois intervenientes principais têm o potencial para enfrentar a destruição ambiental em curso e proteger os direitos indígenas na região. O mundo estará acompanhando de perto os desenvolvimentos desta parceria.

O BRICS Policy Center não respondeu a um pedido de entrevista.


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Fonte: The Canary

Contrabando de produtos falsos ou adulterados agrava riscos ambientais e sanitários causados por agrotóxicos no Brasil

China é a principal fonte de agrotóxicos ilegais que inundam a agricultura brasileira com produtos falsos ou adulterados

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Embalagens, lacres e rótulos apreendidos poderiam produzir 120 toneladas de defensivos agrícolas fraudulentos. Foto: MAPA/Divulgação

Por Aline Merladete para o Agrolink

O contrabando de agrotóxicos ilegais para serem usados na produção agrícola brasileira tornou-se um crime de grandes proporções. O Brasil, que tem uma legislação rigorosa para regular a compra e o uso desses produtos, está enfrentando um aumento preocupante no contrabando de agrotóxicos de países vizinhos com leis menos restritivas, como o Uruguai. A prática ilegal tem consequências para a saúde pública, o meio ambiente e a economia do país.

Aproximadamente 20% do mercado de agrotóxicos no Brasil é composto por produtos contrabandeados. Essa prática ilegal não apenas representa um risco para a saúde humana e o meio ambiente, mas também prejudica a reputação dos produtos agrícolas brasileiros no mercado global. No Uruguai, apenas os produtos mais perigosos requerem receita agronômica, ao contrário do Brasil, onde todas as compras exigem prescrição. Essa diferença na legislação e preço tem levado muitos produtores brasileiros a optarem por adquirir agrotóxicos no país vizinho, mesmo que isso constitua um crime. 

Problemas do uso de agrotóxicos / defensivos falsos ou contrabandeados

Um estudo baseado em laudos periciais da Polícia Federal destacou que os ingredientes ativos mais apreendidos incluem substâncias como Imidacloprido, Metsulfurom-metílico e Fipronil. A China é apontada como o principal país de origem dos agrotóxicos contrabandeados, seguida pelo Paraguai e Uruguai. Embora muitos desses produtos contrabandeados possuam o ingrediente ativo e a concentração informados nos rótulos, há casos de falsificação ou concentrações diferentes, representando um sério risco para a saúde e a agricultura.

O uso desses agrotóxicos ilegais pode levar a consequências desastrosas na lavoura e representar sérios riscos à saúde dos produtores e consumidores. Produtos adulterados podem conter concentrações tóxicas prejudiciais, enquanto aqueles proibidos no Brasil podem causar danos irreversíveis.

Apesar dos esforços das autoridades brasileiras para combater o contrabando de agrotóxicos, a prática persiste, muitas vezes associada à corrupção e à violência. A diferença de preços em relação a outros países continua a impulsionar esse comércio ilegal, alimentando uma cadeia de eventos prejudiciais para a sociedade e a economia.

O contrabando de agrotóxicos é uma realidade preocupante que afeta negativamente diversos aspectos da sociedade brasileira e além disso, o uso desses produtos pelo produtor é considerado crime. 


Fonte: Agrolink

China promete aumentar investimentos em ciência em 2024

A ciência e a inovação são fundamentais para a agenda nacional da China e para os esforços do país para estimular o crescimento económico

CHINA SCIENCE

Por Smriti Mallapaty para a Nature

Os gastos da China em ciência e tecnologia deverão aumentar em 2024, apesar do lento crescimento económico do país.

O governo gastará 371 bilhões de yuans (algo em torno R$ 310 bilhões) em ciência e tecnologia em 2024 – um aumento de 10% em comparação com o ano anterior – de acordo com um projeto de relatório orçamental do Ministério das Finanças da China. O relatório foi apresentado na reunião anual do órgão legislativo do país, a Assembleia Popular Nacional, esta semana. Do total dos gastos do governo, R$ 82 bilhões  serão destinados à pesquisa básica, um aumento de 13%, segundo o relatório.

“O governo está mostrando que está empenhado em dar aos cientistas mais recursos para apoiar a sua investigação”, afirma Albert Hu, economista da China Europe International Business School, em Xangai.

O aumento dos gastos governamentais em ciência e tecnologia é o maior em cinco anos, diz Jing Qian, que dirige o Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, na cidade de Nova Iorque. Com uma queda de 9% em 2020, seguida de dois anos de crescimento estagnado, o governo aumentou os seus gastos em 2% no ano passado.

Impulso econômico

O aumento do dinheiro para a ciência ocorre num momento em que a economia luta para cumprir as metas de crescimento. “A China está no meio de uma transição estrutural”, diz Hu. O país está a passar de uma economia baseada em sectores tradicionais, como o imobiliário, para uma maior ênfase no desenvolvimento de alta tecnologia, diz ele.

A corrida pela supremacia tecnológica com os Estados Unidos é outro factor motivador, dizem os investigadores. Os Estados Unidos restringiram o acesso da China a tecnologias essenciais em áreas como inteligência artificial, semicondutores e computação quântica. Isto estimulou o país a investir na autossuficiência tecnológica, diz Marina Zhang, que estuda inovação com foco na China na Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália. “Para vencer este jogo, a China tem de investir em ciência e tecnologia, especialmente em investigação básica.” diz Zhang.

Mas embora o aumento da despesa “representa um maior compromisso do governo para com a ciência e a tecnologia”, ainda representa apenas uma pequena fracção da despesa total em investigação e desenvolvimento do país, diz Hu. Os gastos do governo representam cerca de 11% dos 3,3 trilhões de yuans gastos em P&D na China, segundo dados oficiais. Os gastos em P&D representam atualmente cerca de 2,6% do produto interno bruto total da China, em comparação com 3,6% nos EUA em 2020.

A sessão do congresso termina no dia 11 de março e será seguida por uma reunião do órgão consultivo político da China, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, na próxima semana.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista “Nature” [Aqui!].

A China tem uma lista de periódicos suspeitos de serem predatórios, e ela acaba de ser atualizada

A Nature conversou com a bibliotecária responsável pela Lista de Periódicos de Alerta Precoce da China sobre como ela é compilada anualmente

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A Biblioteca Nacional de Ciências da Academia Chinesa de Ciências em Pequim. Crédito: Yang Qing/Imago via Alamy

Por Smriti Mallapaty para a “Nature”

A China atualizou a sua lista de revistas consideradas não confiáveis, predatórias ou que não atendem aos interesses da comunidade científica chinesa. Chamada de Early Warning Journal List, a última edição , publicada no mês passado, inclui 24 periódicos de cerca de uma dúzia de editoras. Pela primeira vez, sinaliza periódicos que apresentam má conduta chamada manipulação de citações, na qual os autores tentam aumentar suas contagens de citações.

Yang Liying estuda literatura acadêmica na Biblioteca Nacional de Ciências da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. Ela lidera uma equipe de cerca de 20 pesquisadores que produz a lista anual, que foi lançada em 2020 e se baseia em insights da comunidade global de pesquisa e na análise de dados bibliométricos.

A lista está se tornando cada vez mais influente. É referenciado em avisos enviados pelos ministérios chineses para abordar a má conduta académica e é amplamente partilhado em websites institucionais em todo o país. Os periódicos incluídos na lista normalmente veem as submissões de autores chineses caírem. Este é o primeiro ano em que a equipe reviu o seu método de desenvolvimento da lista; Yang fala com a Nature sobre o processo e o que mudou.

Como você cria a lista todos os anos?

Começamos coletando feedback de pesquisadores e administradores chineses e acompanhamos as discussões globais sobre novas formas de má conduta para determinar os problemas nos quais devemos nos concentrar. Em janeiro, analisamos dados brutos da base de dados de citações científicas Web of Science, fornecida pela empresa de análise editorial Clarivate, com sede em Londres, e preparamos uma lista preliminar de periódicos. Compartilhamos isso com editoras relevantes e explicamos por que seus periódicos podem acabar na lista.

Às vezes, os editores nos dão feedback e argumentam contra a inclusão de seu periódico. Se a resposta deles for razoável, iremos removê-la. Agradecemos sugestões para melhorar nosso trabalho. Nunca vemos a lista de diários como perfeita. Este ano, as discussões com as editoras reduziram a lista de cerca de 50 revistas para 24.

Retrato de Liying Yang.

Yang Liying estuda literatura acadêmica na Biblioteca Nacional de Ciências e gerencia uma equipe de 20 pessoas para montar a Lista de Periódicos de Alerta Precoce. Crédito: Yang Liying

Que mudanças você fez este ano?

Nos anos anteriores, os periódicos eram categorizados como de alto, médio ou baixo risco. Este ano, não reportamos os níveis de risco porque removemos a categoria de baixo risco, e também percebemos que os investigadores chineses ignoram as categorias de risco e simplesmente evitam completamente as revistas da lista. Em vez disso, fornecemos uma explicação de por que o periódico está na lista.

Nos anos anteriores, incluímos periódicos com números de publicações que aumentaram muito rapidamente. Por exemplo, se uma revista publicasse 1.000 artigos num ano e depois 5.000 no ano seguinte, a nossa lógica inicial era que seria difícil para estas revistas manter os seus procedimentos de controlo de qualidade. Removemos esse critério este ano. A mudança para o acesso aberto significou que é possível que os periódicos recebam um grande número de manuscritos e, portanto, aumentem rapidamente o seu número de artigos. Não queremos atrapalhar esse processo natural decidido pelo mercado.

Você também introduziu periódicos com padrões anormais de citação. Por que?

Percebemos que tem havido muita discussão sobre o assunto entre pesquisadores de todo o mundo. É difícil dizer se o problema vem dos periódicos ou dos próprios autores. Às vezes, grupos de autores concordam mutuamente com essa manipulação de citações ou usam fábricas de papel, que produzem artigos de pesquisa falsos. Identificamos esses periódicos procurando tendências nos dados de citações fornecidos pela Clarivate — por exemplo, periódicos em que as referências de manuscritos são altamente distorcidas para uma edição de periódico ou artigos de autoria de alguns pesquisadores. No próximo ano, planejamos investigar novas formas de manipulação de citações.

Nosso trabalho parece ter impacto nos editores. Muitos editores nos agradeceram por alertá-los sobre os problemas em seus periódicos, e alguns iniciaram suas próprias investigações. Um exemplo deste ano é a editora de acesso aberto MDPI, com sede em Basileia, na Suíça, a quem informamos que quatro de seus periódicos seriam incluídos em nossa lista devido à manipulação de citações. Talvez não esteja relacionado, mas em 13 de fevereiro, o MDPI enviou um aviso informando que estava investigando uma possível má conduta dos revisores envolvendo práticas antiéticas de citação em 23 de seus periódicos.

Você também sinaliza periódicos que publicam uma grande proporção de artigos de pesquisadores chineses. Por que isso é uma preocupação?

Este não é um critério que usamos por si só. Estas revistas publicam — por vezes quase exclusivamente — artigos de investigadores chineses, cobram taxas de processamento de artigos excessivamente elevadas e têm um baixo impacto de citações. Do ponto de vista chinês, isto é uma preocupação porque somos um país em desenvolvimento e queremos fazer bom uso do nosso financiamento de investigação para publicar o nosso trabalho em revistas verdadeiramente internacionais, a fim de contribuir para a ciência global. Se os cientistas publicarem em revistas onde quase todos os manuscritos provêm de investigadores chineses, os nossos administradores sugerirão que, em vez disso, o trabalho seja submetido a uma revista local. Dessa forma, os pesquisadores chineses podem lê-lo e aprender com ele rapidamente e não precisam pagar tanto para publicá-lo. Este é um desafio que a comunidade científica chinesa tem enfrentado nos últimos anos.

Como você determina se um periódico tem problemas com a fábrica de papel?

Minha equipe coleta informações postadas nas redes sociais, bem como em sites como o PubPeer, onde os usuários discutem artigos publicados, e o blog de integridade de pesquisa For Better Science. Atualmente, não fazemos as verificações de imagem ou texto, mas poderemos começar a fazê-lo mais tarde.

Minha equipe também criou um banco de dados online de artigos questionáveis ​​chamado Amend , que os pesquisadores podem acessar. Coletamos informações sobre retratações de artigos, avisos de preocupação, correções e artigos que foram sinalizados nas redes sociais.

Marcado para baixo: Gráfico que mostra a queda nos artigos publicados em periódicos de médio e alto risco no ano seguinte ao lançamento da Lista de Periódicos de Alerta Precoce.

Fonte: Lista de Diários de Alerta Precoce

Que impacto a lista teve na pesquisa na China?

Esta lista beneficiou a comunidade científica chinesa. A maioria dos institutos de investigação e universidades chineses fazem referência à nossa lista, mas também podem desenvolver as suas próprias versões. Todos os anos, recebemos críticas de alguns investigadores por incluírem revistas nas quais publicam. Mas também recebemos muito apoio daqueles que concordam que as revistas incluídas na lista são de baixa qualidade, o que prejudica o ecossistema de investigação chinês.

Houve muitas retratações da China nos periódicos da nossa lista. E quando um periódico entra na lista, as submissões de pesquisadores chineses normalmente caem (veja “Marcados para baixo”). Isso explica por que muitos periódicos da nossa lista são excluídos no ano seguinte — esta não é uma lista cumulativa.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00629-0

Esta entrevista foi editada para maior extensão e clareza.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “Nature” [Aqui!].

Os idiotas da objetividade em face da guerra em Gaza

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Por Douglas Barreto da Mata

Não sou fã de Nelson Rodrigues, a quem considero um plagiador desbocado de Freud, e que assim construiu uma psicanálise de botequim (não que eu ache isso ruim) que só chamava atenção pela obscenidade…

Mais ou menos como os jargões freudianos, sempre mal entendidos, e mediados por uma lascívia barata.

Aviso que também não comungo das ideias do vienense, mas é preciso respeito à obra, coisa que Rodrigues e outros enrustidos da brigada conservadora brasileira não terão nunca.

Nelson Rodrigues é tão obsceno quanto Jair Bolsonaro comendo farofa de boca aberta, ou aparecendo em Angra dos Reis com aquela camisa branca e de sunga.

São o mesmo fenômeno, eu creio.

Mas há frases de Rodrigues que são muito boas, isso não pode negar, como “só o inimigo não trai nunca” ou “invejo a burrice, porque é eterna”.

Nestes tempos bicudos de 140 letras (chamadas de “caracteres”) é preciso cuidado com os idiotas da objetividade…

Rodrigues combatia com todas as forças o pensamento raso, superficial, que sempre que desmascarado se apresenta como “objetivo”, como de “fácil leitura”.

Ora, essa noção carrega um duplo desrespeito, que se retroalimentam para eternizar a burrice:

– O ato de pensar com profundidade, para além das unanimidades (outra categoria atacada por Rodrigues) seria uma afronta ao leitor médio, uma desfeita soberba, já que o leitor médio é sempre incapaz de ir além do óbvio.

Bem, eu discordo, e aqui ombreio Rodrigues para dizer, é preciso ir além da obviedade.

É preciso pensar!

Vamos à vaca fria então…

A mídia por completo, e toda a fauna das redes sociais, está em “transe espumante”…

Lula comparou Netanyahu a Hitler…

“Antissemita”, “louco”, “comunista”…

Arf, dá até pena (de alguns, porque outros são cínicos mesmo)…

Em 1948, ninguém menos que o judeu Albert Einstein, aquele físico da língua de fora, escreveu a Menachem Begin sobre o fascismo do movimento sionista israelense.

Está aqui (Aqui!) para quem tiver interesse.

Os idiotas são incapazes de enxergar que cada ato de diplomacia, cada frase ou discurso, cada movimenta de geopolítica entre países são cuidadosamente estudados, outros nem tanto, é verdade, mas sempre há um nexo causal entre o que acontece e o que houve algum tempo atrás, algo chamado de História, ou processo histórico.

Sabem quem armou e financiou secretamente o Estado Islâmico, aquele grupo que ficou famoso pelas decapitações pela internet, para derrubar o regime sírio?

Pois é, os CIA/EUA

Osama Bin Laden?

Sim, a CIA para que ele agisse contra a então ex-URSS na guerra de ocupação do Afeganistão.

Sabe quem armou o Hamas?

Israel, para que esse grupo pudesse desestabilizar a Autoridade Palestina na Cisjordânia, no processo de negociação do estado palestino.

Lula tem vários defeitos, é verdade, e eu mesmo os sei, e os recito de cor a salteado.

Porém, a burrice não é um deles.

Um dos melhores setores da burocracia lulista é a política exterior, desde Celso Amorim e Garcia (Marco Aurélio).

Lula sabe o que está por trás dos ataques dos EUA aos Houthis (e vice-versa) no Mar Vermelho.

É a necessidade de o governo Biden conferir a ele alguma virilidade, em um conflito-palanque, já que, recentemente, o tema de sua senilidade veio à tona.

Nos EUA pode-se impedir o presidente por senilidade.

Na Ucrânia os EUA (e a Europa) levaram uma surra de Vladmir Putin, que se prepara para deslocar seu interesse em retomar suas posições na Síria, e para ajudar o Irã, os EUA partem para transformar o conflito Israel/Hamas/Iêmen em algo maior.

O cálculo é sempre parecido, já que guerras dão popularidade e grana às petrolíferas.

Então, como não são capazes de “vencer guerras” (na verdade, desde 1945, ninguém foi, de fato), as grandes potências agem para pulverizar e ampliar os estragos da instabilidade, em outras palavras, quanto maior a bagunça, melhor.

Lula e seu time já perceberam que a atual ordem ocidental está em frangalhos, e como o Brasil não tem peso para apitar nada mesmo, resta a ele a retórica (e isso ele é ótimo) para se alinhar e buscar um lugarzinho na janela no ônibus da nova ordem mundial, que falará chinês, é claro.

Por exemplo, o débil mental argentino, que vociferou impropérios ao dragão, está entalado até a medula com moeda chinesa que vem sendo aceita pelos “hermanos” para pagar soja e carne.

Em troca, os chineses lhes “vendem” manufaturas de todo tipo, em moeda, moeda, moeda?

Chinesa.

Lula sabe que Netanyahu é cachorro quase morto, pois o papel que ele cumpre naquela região está quase no fim, e é por isso que Lula bateu com força no Hitler que trocou a suástica pela Estrela de David.

Então, minha gente, problemas complexos requerem reflexão e não objetividade…

China conduz primeira revisão nacional de retratações e má conduta em pesquisa

As universidades devem declarar todas as suas retratações e iniciar investigações sobre casos de má conduta; uma análise da Nature revela que desde 2021 houve mais de 17 mil retratações com coautores chineses

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A reputação da ciência chinesa foi “adversamente afetada” pelo número de retratações nos últimos anos, segundo um comunicado do governo. Crédito: Qilai Shen/Bloomberg/Getty

Por Smriti Mallapaty para a Nature 

As universidades chinesas estão a poucos dias do prazo para concluir uma auditoria nacional de artigos de pesquisa retratados e uma investigação de má conduta em pesquisa. Até 15 de Fevereiro, as universidades devem apresentar ao governo uma lista abrangente de todos os artigos académicos retirados de revistas em língua inglesa e chinesa nos últimos três anos. Eles precisam esclarecer por que os artigos foram retratados e investigar casos envolvendo má conduta, de acordo com um aviso de 20 de novembro do Departamento de Ciência, Tecnologia e Informatização do Ministério da Educação.

O governo lançou a auto-revisão a nível nacional em resposta à Hindawi, uma subsidiária da editora Wiley com sede em Londres, que retirou um grande número de artigos de autores chineses. Estas retratações, juntamente com as de outras editoras, “afetaram negativamente a reputação acadêmica e o ambiente acadêmico de nosso país”, afirma o aviso.

Uma análise da Nature mostra que no ano passado, a Hindawi publicou mais de 9.600 retratações, das quais a grande maioria – cerca de 8.200 – teve um coautor na China. Quase 14.000 avisos de retratação, dos quais cerca de três quartos envolviam um coautor chinês, foram emitidos por todas as editoras em 2023.

Esta é “a primeira vez que vemos uma operação nacional deste tipo em investigações de retratação”, diz Xiaotian Chen, bibliotecário e cientista da informação na Universidade Bradley em Peoria, Illinois, que estudou retratações e má conduta em investigação na China. As investigações anteriores foram em grande parte realizadas caso a caso – mas desta vez, todas as instituições têm de conduzir as suas investigações simultaneamente, diz Chen.

The fight against fake-paper factories that churn out sham science

Prazo apertado

O aviso do ministério desencadeou uma cadeia de alertas, que se estendeu aos departamentos universitários individuais. Boletins publicados em sites de universidades exigiam que os pesquisadores enviassem suas retratações em diversas datas, principalmente em janeiro – dando tempo para as universidades compilarem e apresentarem os dados.

Embora os alertas incluíssem listas de retratações de que o ministério ou as universidades tinham conhecimento, também apelavam à adição de retratações não listadas.

De acordo com a análise da Nature , que inclui apenas revistas de língua inglesa, mais de 17.000 avisos de retratação de artigos publicados por coautores chineses foram emitidos desde 1 de janeiro de 2021, que é o início do período de revisão especificado no aviso. A análise, uma atualização de uma realizada em dezembro , utilizou o banco de dados Retraction Watch, complementado com avisos de retratação coletados do banco de dados Dimensions, e envolveu a assistência de Guillaume Cabanac, cientista da computação da Universidade de Toulouse, na França. Não está claro se as listas oficiais contêm o mesmo número de artigos retratados.

Independentemente disso, o momento para enviar as informações será apertado, diz Shu Fei, cientista bibliométrico da Universidade Hangzhou Dianzi, na China. O ministério deu às universidades menos de três meses para completarem a sua auto-avaliação – e este tempo foi encurtado pelas férias académicas de Inverno, que normalmente começam em meados de Janeiro e terminam após o Ano Novo Chinês, que este ano caiu a 10 de Fevereiro.

“O momento não é bom”, diz ele. Shu espera que as universidades provavelmente apresentem apenas um relatório preliminar dos artigos retratados de seus pesquisadores incluídos nas listas oficiais.

Mas Wang Fei, que estuda política de integridade da investigação na Universidade de Tecnologia de Dalian, na China, diz que, como o ministério estabeleceu um prazo, as universidades trabalharão arduamente para apresentar as suas conclusões atempadamente.

Pesquisadores com artigos retratados terão que explicar se a retratação se deveu a má conduta, como manipulação de imagem, ou a um erro honesto, como autores que identificaram erros em seus próprios trabalhos, diz Chen: “Em outras palavras, eles podem ter que se defender .” As universidades devem então investigar e penalizar a má conduta. Caso o pesquisador não declare o trabalho retratado e este seja descoberto posteriormente, será punido, conforme nota do ministério. O custo de não reportar é elevado, diz Chen. “Esta é uma medida muito séria.”

Não se sabe que forma a punição poderá assumir, mas em 2021, a Comissão Nacional de Saúde da China publicou os resultados das suas investigações num lote de documentos retirados. As punições incluíram cortes salariais, retirada de bônus, rebaixamentos e suspensões temporárias de solicitações de bolsas e recompensas de pesquisa.

O aviso afirma explicitamente que o primeiro autor correspondente de um artigo é responsável pelo envio da resposta. Este requisito resolverá em grande parte o problema dos investigadores que se esquivam à responsabilidade pelo trabalho colaborativo, afirma Li Tang, investigador de política científica e de inovação na Universidade Fudan, em Xangai, China. O aviso também enfatiza o devido processo, diz Tang. Os pesquisadores acusados ​​de terem cometido má conduta têm o direito de recorrer durante a investigação.

A notificação é uma boa abordagem para abordar a má conduta, diz Wang. Os esforços anteriores do governo chinês limitaram-se à emissão de novas directrizes de integridade da investigação que foram mal implementadas, diz ela. E quando os órgãos governamentais lançaram autoinvestigações da literatura publicada, o seu âmbito era mais restrito e careciam de objectivos claros. Desta vez, o objetivo é claro – retratações – e o escopo é amplo, envolvendo toda a comunidade de pesquisa universitária, afirma.

“Cultivar a integridade da investigação leva tempo, mas a China está no caminho certo”, afirma Tang.

Qual o próximo?

Não está claro o que o ministério fará com a enxurrada de propostas. Wang diz que, como os avisos de retratação já estão disponíveis gratuitamente, a divulgação das listas compiladas e dos motivos subjacentes à retratação poderia ser útil. Ela espera que uma revisão semelhante seja realizada todos os anos “para colocar mais pressão” sobre autores e universidades para monitorarem a integridade da pesquisa.

O que acontecerá a seguir revelará a seriedade com que o ministério encara a má conduta na investigação, diz Shu. Ele sugere que, se o ministério não tomar outras medidas após o Ano Novo Chinês, o aviso poderá ser uma tentativa de responder aos danos à reputação causados ​​pelas retratações em massa do ano passado.

O ministério não respondeu às perguntas da Nature sobre a investigação de má conduta.

Chen diz que, independentemente do que o ministério faça com a informação, o próprio processo de denúncia ajudará a coibir a má conduta porque é “embaraçoso para as pessoas no relatório”.

Mas poderá afectar principalmente os investigadores que publicam em revistas de língua inglesa. Avisos de retratação em periódicos de língua chinesa são raros.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00397-x

Análise de dados por Richard Van Noorden.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Com dívidas bilionárias, Porto do Açu pode ser vendido para petroleira estatal chinesa

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Eike Batista e Sérgio Cabral em visita na China já tentavam tornar o Porto do Açu uma espécie de autoestrada chinesa encravada no Norte Fluminense. A hora para isso pode estar chegando

Acompanho as idas e vindas do Porto do Açu desde de antes de sua construção ter sido iniciada, e uma das minhas orientandas no Programa de Políticas Sociais da Uenf, Beatriz Oliveira Pires, realizou um dos primeiros estudos sobre as expectativas e temores gerados pelo empreendimento na população do V Distrito de São João da Barra. 

Nas muitas entrevistas que concedi quando jornalistas vinham cumprir pautas sobre o empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista, sempre disse que o Porto do Açu era mais espuma do que chopp, pois as muitas promessas e anúncios grandiosos feitos para angariar apoios acabavam não se cumprindo ou ficavam muito aquém do prometido.

Pois, neste domingo (14/01) o jornalista Lauro Jardim publicou em sua coluna dominical duas informações que podem alterar, mais uma vez os rumos do Porto do Açu. Segundo Jardim, o Porto do Açu está em vias de rolar uma dívida bilionária com dois dos seus credores (Bradesco e Santander), enquanto tratativas iniciais estariam sendo feitas com a petroleira estatal chinesa Sinopec para, digamos, passar o ponto (ver imagem abaixo).

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Eu particularmente não me surpreendo com a informação, pois o montante de empréstimos tomados desde que o Porto do Açu começou a ser construído é gigantesco, enquanto o empreendimento tem parte de sua estrutura ociosa. Além disso, desde os tempos de Eike Batista, um dos sonhos dos controladores é ter a China como principal destino das mercadorias exportadas via o Porto do Açu. Dai para passar o porto para controle direto dos chineses é um pulo. 

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As diferentes tentativas de tornar o Porto do Açu em uma espécie de rodovia para a China estão descritas no capítulo que eu escrevi para o livro “The Tropical Silk Road: The Future of China in South America” que foi publicado pela Stanford University Press em 2022.  Essa obra traz ainda outros casos de portos que estavam sendo ou foram adquiridos por empresas chinesas, o que demonstra que diferente dos EUA, os chineses preferem controlar portos do que instalar bases militares.

No caso do Porto do Açu, me preocupa o fato de que passada mais de uma década desde que o governo do Rio de Janeiro expropriou milhares de hectares que pertenciam centenas de propriedades de agricultores familiares (que até hoje esperam pelo devido ressarcimento financeiro), agora possamos ter esse estoque de terra (algo em torno de 7.500 ha) transferido para uma petroleira estatal chinesa, replicando o que ocorreu quando Eike Batista vendeu o Porto do Açu para o fundo de private equity EIG Global Partners. É que com isso, a chance dos agricultores do V Distrito serem finalmente ressarcidos vai diminuir ainda mais. Isto sem falar no aprofundamento da condição de enclave que já é uma das principais características do Porto do Açu.