A trágica opção de Rafael Diniz: propaganda sim, produção de alimentos não

Resultado de imagem para propaganda enganosa

Em meio à discussão sobre o modelo de reabertura do Restaurante Popular, encontrei a belíssima análise feita pelo economista José Alves Neto,  meu colega de Universidade Estadual do Norte Fluminense, sobre a execução orçamentária da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, mostrando que houve um aumento de 240% nos gastos com a comunicação, num montante absoluto que é 11 vezes maior do que os investimentos em agricultura (ver postagem logo abaixo). 

Em outras palavras, o governo de Rafael Diniz prefere realizar gastos em auto imagem em vez de apoiar, como aliás prometeu em sua campanha eleitoral,  a agricultura familiar que hoje representa o principal vetor de geração de renda e alimentos em escala local. 

Como alguém que conhece relativamente bem os assentamentos de reforma agrária existentes no município de Campos dos Goytacazes, vejo com algum pasmo o desprezo institucional pela agricultura familiar que tem mostrado uma forte capacidade de produzir alimentos sem qualquer apoio do poder público municipal.

É que se já produzem sem apoio nenhum, imaginemos o que poderia ser feito se Rafael Diniz gastasse os quase R$ 2,5 milhões que gastou em propaganda oficial com a estruturação de unidades de beneficiamento e distribuição da produção dos assentamentos de reforma agrária!

Se fizesse isso com certeza não teria que ir buscar produção agrícola vendida por empresas situadas no Espírito Santo para oferecer alimentação escolar. De quebra, além de economizar comprando localmente, o provável que oferecesse comida de maior qualidade e em quantidade mais associadas às necessidades nutricionais dos estudantes da rede municipal.

Mas não é isso que tem sido feito e aqui aparece a lógica nefasta que tem guiado este governo: mais vale manter a pose do que colocar a mão na massa. E para manter a pose, há que se irrigar as contas bancárias dos proprietários da mídia corporativa. Enquanto isso, a produção da agricultura familiar cai nas mãos dos atravessadores e o restaurante popular continua fechado.  E eu só posso dizer: que opção trágica e pouco inteligente!

Enquanto isso, a cidade do Rio de Janeiro irá acolher a 10a. edição da Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes nos dias 10, 11 e 12 de Dezembro, com a expectativa de que sejam comercializadas mais de 150 toneladas de alimentos agroecológicos durante os três dias do evento, que promete ser ainda maior que os anos anteriores [1]. E, pasmem, com uma quantidade significativa desses alimentos saindo aqui mesmo de Campos dos Goytacazes, onde Cícero viveu e conduziu sua luta pela reforma agrária antes de ser covardemente assassinado.

Em dez meses de execução orçamentário do ano de 2018 em relação ao mesmo período de 2017, o Governo Diniz, reduz os gastos em 34,19% na Assistência Social e aumenta em 240,35% os gastos na Comunicação Social

grafico ze alves

Fonte: PMCG

Em dez meses de execução orçamentário do ano de 2018 em relação ao mesmo período de 2017, o Governo Diniz, reduz os gastos em 34,19% na Assistência Social e aumenta em 240,35% os gastos na Comunicação Social

De acordo com o Balanço de Execução Orçamentária da Prefeitura Municipal de Campos, de janeiro a outubro do ano de 2018, comparado ao mesmo período do ano de 2017, os gastos realizados efetivamente pelo Governo Rafael Diniz, nas principais áreas representadas, no gráfico e na tabela, foram os seguintes.

No ano de 2018, o governo gastou na Saúde R$ 612,488 milhões, contra o valor de R$ 570,853 milhões no ano de 2017. Os gastos de janeiro a outubro aumentaram no ano de 2018, 7,29% em relação ao ano de 2017.

No setor da Educação, foram gastos de janeiro a outubro de 2018, o quantitativo financeiro de 255,524. Em 2017 os gastos atingiram o valor de 239,341 milhões. O aumento de 2018 em relação ao ano de 2017 foi de 6,76%.

Na Agricultura, segmento desprestigiado pelo governo municipal, em 2018 se gastou R$ 200,522 mil, enquanto, de janeiro a outubro do ano de 2017 se executou financeiramente do orçamento, apenas, R$ 66,00 mil.

Em relação a política social do governo, a cargo da Assistência Social. Os gastos sofreram significativa redução. No ano de 2018, os valores executados financeiramente, atingiram o patamar de R$ 28,052 milhões. No ano de 2017, este quantitativo ficou em R$ 42,624 milhões. Os recursos destinados pelo Governo Diniz, na área social de janeiro a outubro do ano de 2018, reduziram 34,19%.

O Poder Legislativo campista, aumentou os seus gastos em 2018 em relação ao ano de 2017 em 10,18%, conforme registrado no gráfico e na tabela. E a Comunicação Social, os gastos, também, se elevaram no exercício fiscal de 2018, em relação ao ano de 2017 em 240,35%.

Por fim, acima estão os valores referentes a execução financeira de dez meses do orçamento aprovado pela Câmara Municipal, para viger no ano fiscal de 2018.

FONTE: http://blogdojosealvesneto.blogspot.com/2018/12/em-dez-meses-de-execucao-orcamentario.html


[1] https://www.brasildefato.com.br/2018/12/05/caminhos-da-producao-agroecologica-se-encontram-na-feira-cicero-guedes-no-rio/

Começa hoje a IX Feira Estadual da Reforma Agrária

Em meio a uma conjuntura marcada pelos seguidos ataques aos direitos dos trabalhadores começa hoje na cidade do Rio de Janeiro a IX Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes. Essa feira além de mostrar a capacidade de organização dos assentamentos de reforma agrária existentes no Rio de Janeiro é também um testemunho do legado político deixado pelo líder do MST na região Norte Fluminense, Cícero Guedes.

Resultado de imagem para cicero guedes mst

É que a realização dessa feira e sua difusão em diferentes partes do estado era um dos objetivos mais acalentados por Cícero. 

A minha expectativa é que um dia possamos ter a versão local dessa feira, já que no município de Campos dos Goytacazes existem 9 assentamentos de onde sai uma boa parte da produção que abastece a feira estadual da reforma agrária.

Cícero Guedes vive!

feira cicero guedes

Quatro anos sem Cícero Guedes

cicero

O dia de hoje marca um daqueles aniversários tristes que todo ser humano e também comunidades inteiras precisam ter que relembrar em sua marcha histórica. É que hoje se completa o quarto ano do assassinato de Cícero Guedes, importante liderança da luta camponesa não apenas no Norte Fluminense, mas em todo o Brasil.

Cícero era um grande personagem sob todos os aspectos que se possa lembrar dele. Depois de se libertar da condição de trabalhador escravo, Cícero Guedes se encontrou com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por meio da luta pela reforma agrária no Norte Fluminense.  A sua figura gerava respeito não apenas pelo porte físico avantajado e pelo vozeirão que ele hesitava em usar para entoar cânticos de guerra que animavam os acampamentos e reuniões políticos em que ele comparecia para dar seu testemunho político.

Mas o seu assassinato não nos privou apenas de um líder político, mas de uma pessoa generosa que era dotada das qualidades que todos almejamos ter para podermos ser considerados seres humanos dignos.  Nunca vi Cícero negar ajuda a ninguém que lhe pedisse qualquer apoio que fosse. Em um dos muitos movimentos realizados pelos estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para demandar a conclusão da obra do Restaurante Universitário, ele não apenas participou da preparação da comida que foi distribuída naquele dia, como também ajudou a servir, e ainda teve energia para participar da parte cultural do ato. 

Esse tipo de energia e despojamento era também acompanhada por um comportamento franco e direto, pois Cícero não tolerava fraqueza de caráter e descompromisso com as causas coletivas. 

Por isso tudo é que Cícero Guedes faz tanta falta , especialmente num contexto histórico onde enfrentamos tentativas claras de retrocessos nos direitos coletivos que pessoas como ele deram suas vidas para garantir que pudéssemos ter uma sociedade mais justa e fraterna.

Para mim a melhor forma de celebrar a memória deste grande brasileira é manter a chama dos seus ideias e compromissos.  Afinal de contas, podem ter matado Cícero, mas não vão conseguir matar os sonhos e ideais que ele nos deixou como legado.

Cícero Guedes, presente!

Feira Estadual da Reforma Agrária acontece a partir de segunda no Largo da Carioca

feira

Entre os dias 05, 06 e 07 de dezembro será realizada a VIII Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro. Este é um evento de exposição e comercialização de produtos da Agricultura Familiar Camponesa dos Assentamentos da Reforma Agrária, realizado pelo Movimento Sem Terra – MST.

Serão comercializados em torno de 150 toneladas de alimentos, com variedades de produtos vindos de vários assentamentos da Reforma Agrária. Cerca de 130 agricultores do Rio de Janeiro e 20 representações dos demais estados do Sudeste do Brasil estarão presentes na feira divulgando suas produções in natura e industrializadas das cooperativas de Reforma Agrária de diversos estados do Brasil.

A feira trará diversidade de produtos como variedades de arroz, suco de uva integral, frutas, polpas de frutas, feijão vermelho e de corda, legumes, verduras, produtos derivados de cana-de-açúcar (açúcar mascavo, melado, rapadura), ervas medicinal,  fitoterápicos e fitocosméticos. A agroecologia é um dos princípios, por isso, parte da produção que vem dos assentamentos são agroecológicos ou estão em transição.  

Na programação encontramos Shows, Intervenções Culturais, Seminários e Oficinas com temas como: Agrotóxicos e Impactos na Saúde Humana e Soberania Alimentar, Oficina produção de Fitoterápicos e Fitocosméticos entre outros.

História da Feira

A Feira foi batizada com o nome ” Cícero Guedes” em 2013, em homenagem ao agricultor e militante do MST assassinado por pistoleiros no dia 25 de janeiro de 2013, nas proximidades da Usina Cambahyba, no Município de Campos dos Goytacazes (RJ).

Além de uma grande liderança na luta pela Reforma Agrária, Cícero Guedes era considerado uma referência em conhecimento agroecológico, por conta das técnicas agrícolas sustentáveis que utilizava no Assentamento Zumbi dos Palmares,  tendo sido também um importante colaborador de vários projetos de pesquisa e de extensão da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes vira Lei

A partir do ano passado a feira se tornou evento oficial do município RJ. A lei 5.999/2015 de iniciativa do deputado Renato Cinco, “Reconhece como de interesse Cultural e Social para o Rio de Janeiro a Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes.

Contatos: Assessoria de imprensa: Pablo Vergara (21) 980948624 e Nivia da Silva (21) 999160659

Dois anos sem Cícero Guedes

b_350_0_16777215_00___.._es_images_stories_derechoshumanos_2013-01-30-otra-Guedes.jpg

Há exatos dois anos foi assassinado covardemente o agricultor e líder regional do MST no Norte Fluminense, Cícero Guedes. Tive a honra de conhecer Cícero, e com ele aprendi o real significado do compromisso com aquilo que se acredita, vive, trabalhe, e se arrisca até a própria vida.

A morte de Cícero para mim nunca foi  bem explicada, e continuo aguardando que seja feita a justiça que um caso como esse demanda em nome da construção de uma sociedade que se pretende minimamente democrática.

E enquanto houver latifúndio, há que se continuar lutando pela reforma agrária para que o sacrifício de Cícero e tantos outros não tenha sido em vão.

Abaixo posto um vídeo com uma das músicas favoritas do Cícero. Acho que não haveria outro jeito melhor de homenageá-lo. 

Cícero Guedes, presente!

Movimento estudantil se antecipa e coloca nome de líder sem terra assassinado no restaurante universitário da UENF

A tarde desta sexta-feira (19/12/2014) está servindo para que o movimento estudantil da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) dê um prova de maturidade política ao se antecipar à cerimônia oficial de inauguração do restaurante universitário e colocar uma placa simbólica dando o nome do líder sem terra Cícero Guedes.  Cícero Guedes foi covardemente assassinado em janeiro de 2013 enquanto organizava a luta pela desapropriação das terras da Usina Cambaíba em Campos dos Goytacazes.. 

Essa é um justo reconhecimento à memória de Cícero Guedes que participou de forma solidária de várias mobilizações realizadas pelos estudantes da UENF visando a conclusão da obra que permitisse o início do funcionamento do restaurante universitário que foi iniciada em novembro de 2008. Eu só espero que o Conselho Universitário da UENF siga esse excelente sugestão em sua próxima reunião, mas certamente o movimento estudantil da UENF vai trabalhar para que sua sugestão prevaleça.

Abaixo imagens dos estudantes em torno da placa que o Diretório Central dos Estudantes da UENF confeccionou para homenagear Cícero Guedes. Ele com certeza estaria muito feliz ao ver a luta frutificando na forma de refeições para os estudantes da universidade a que tanto admirou e serviu com sua sabedoria e capacidade de liderança.

IMG_1421 IMG_1411 IMG_1418 IMG_1443

Cícero Guedes, presente!

mst2

Começa nesta segunda (8) a Feira da Reforma Agrária, no centro do Rio de Janeiro

De 8 a 10 de dezembro, o Largo da Carioca recebe a VI Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes. Moradores da cidade poderão ter acesso a produtos vindos dos assentamentos de reforma agrária do RJ e de vários outros estados

V Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes. Foto: Alan Tygel

Mais uma vez, o Largo da Carioca será palco da maior feira do Rio de Janeiro com produtos oriundos de assentamentosde reforma agrária. De 8 a 10 de dezembro, cerca de 130 agricultores/as vão participar da VI Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes. Nessa edição, uma novidade: três dias de evento, onde a sociedade terá a oportunidade de conhecer a produção dos assentamentos, das cooperativas e de coletivos por meio da compra de produtos direto das mãos das camponesas e camponeses.

A diversidade de produção expostas durante a feira sempre surpreende os participantes. Agricultoras e agricultores de 17 assentamentos do MST do estado vão levar cerca de 30 toneladas de diferentes produtos como frutas, hortaliças, verduras, doces, geleias, compotas, feijão, arroz, derivados de leite, derivados da cana-de-açúcar, fitoterápicos, café, mel, pimenta, própolis e artesanatos. Além dos produtos in natura, a feira ira oferecer agroindustrializados de diferentes cooperativas, dentre elas: COOPSCAMP e COOPATERRA (RJ); ASFAPSUL (MG); COOPAVA e COAPRI (SP).

Quem passar pela feira também vai ser embalado por ritmos de diferentes regiões do país. Já confirmaram participação Geraldo Júnior, Us Neguin Q Ñ C Kala, Bloco Apafunk, Mano Teko e MC Pingo.

O principal objetivo da feira é ser um espaço de conscientização a respeito da Reforma Agrária. A aproximação entre assentados e moradores da cidade possibilitar a divulgação da realidade social, cultural e organizativa dos assentamentos de reforma agrária, da luta por justiça social, e do esforço para produzir alimentos saudáveis e agroecológicos. O projeto da Reforma Agrária Popular tem como princípio básico o diálogo entre campo e a cidade, e a produção de alimentos saudáveis para a população.

O nome da feira é uma homenagem ao líder Sem Terra Cícero Guedes, assassinado em Campos dos Goytacazes, em 2013. Cícero foi um dos idealizadores da feira, e uma referência em agroecologia.

O evento é uma realização do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em parceria com o INCRA, e tem o apoio do SINDIPETRO, da COOPSCAMP, da COOPATERRA e da COOPERAR.

Programação:

8/12 (Segunda)
7h – Abertura da Feira
10h – Formação: Conjuntura, luta e conquistas no Rio de Janeiro
11h as 12:30h – Geraldo Junior
12:30h as 14h – Us Neguin Q Ñ C Kala
15:00 – Formação: Oficina Saúde Pela Terra
16:30h – Ato Político e Mística de Abertura da VI Feira
18h as 20h – Bloco da Apafunk

9/12 (Terça)
9:30h – Oficina: Mulheres e Agroecologia, a arte da boneca Abayomi
11h as 12:30h – Maracutaia
12:30h as 14:00h – Mano Teko e Mc Pingo
15:00 – Oficina: Agricultura Urbana

10/12 (Quarta)
11h as 12:30h – Apresentação Cultural
14h – Encerramento

Serviço
Evento: VI Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes.

Dias: De 8 a 10 de dezembro.
Hora: Entre 8h e 18h.
Local: Largo da Carioca.

Mais informações:
Vanessa Ramos

(21) 993723219

Alan Tygel
(21) 980858340

Um ano sem Cícero Guedes e Regina dos Santos

IMG_1221regina-dos-santos-1

Participei na sexta-feira do “Encontro de amigos e amigas do MST no Norte Fluminense” e um dos pontos altos do evento foi a celebração da vida dos militantes Cícero Guedes e Regina dos Santos Pinho que foram assassinados no início de 2013. Soube da morte do Cícero quando voltava de uma visita a Itaocara, e o baque da notícia foi forte. Não posso dizer que era amigo dele, mas éramos parceiros de jornada, cada um na sua lida. Já Regina, eu somente a encontrei em poucas ocasiões, mas ela esteve sempre presente nas pesquisas que meus orientandos vem fazendo no Assentamento Zumbi dos Palmares desde sua criação em 1998. Mas sei que de um jeito muito diferente do Cícero, Regina era igualmente firme e decidida na luta pela reforma agrária. Somada a perda dos dois, digo que tivemos foi uma profunda lacuna de liderança que só agora começa a ser coletivamente preenchida.

Por outro lado, quem conhecesse a vida desses dois não poderia deixar de considerá-los como pessoas notáveis. Afinal, viverem sempre em meio às dificuldades que marcam a vida da maioria dos brasileiros, combatendo a própria pobreza mas, mais importante do que isso, combatendo a pobreza alheia. Cada um dos seu jeito, Cícero e Regina eram pessoas que se preocupavam com os seus camaradas. Tanto isto é verdade que foram mortos porque continuaram defendendo o direito de outros pobres terem o seu pedaço de terra para cultivar. Se tivessem se acomodado dentro de seus lotes é provável que ainda estivessem vivos. Entretanto, viveram e morreram por manter suas idéias coladas às suas práticas, e isto é muito mais do que muitos doutores e mestres podem fazer. Para compromisso e firmeza de propósito, a melhor escola ainda é a vida, e, nestes quesitos, esses dois bravos brasileiros não foram apenas estudantes, mas profundos educadores de todos nós.

Não obstante meu entendimento de que os dois seguiram o caminho que escolheram, a ausência deles é sentida. Não porque suas mortes acabaram com o MST no Norte Fluminense. Aliás, neste aspecto é bem provável que o martírio dos dois tenha reforçado a chama da indignação e da disposição para aprofundar a luta pela reforma agrária nos militantes que continuam vivos e lutando, muitos inspirados no que Cícero e Regina significaram e significam para eles. A perda que não se resolve é a da presença física dessas duas pessoas firmes e enérgicas em suas idéias, mas igualmente generosas e dedicadas à Humanidade. Esse tipo de pessoa é singular dentro de um sistema econômico que nos empurra todos ao consumismo fútil e ao individualismo mais grosseiro. São pessoas do quilate de Cícero e Regina que nos lembram que é possível manter as melhores características que um ser humano pode ter, mesmo que tendo sido a eles negados alguns dos direitos básicos que nossa precária sociedade já adotou.

Por tudo o que significaram, Cícero e Regina sempre vão me inspirar. Espero que inspirem a muitos outros mais, mesmo aqueles que não tiveram como eu, o privilégio de conhecê-los em vida.