Miguel Nicolelis debate ciência, Covid-19 e comunicação

Um dos neurocientistas mais renomados do mundo participa nesta quinta-feira (29) de webinar transmitido pela In Press Oficina

Miguel Nicolelis

O médico neurocientista Miguel Nicolelis. (Foto: Leticia Moreira/Folhapress)

Considerado pela Scientific American um dos 20 cientistas mais influentes do mundo em sua área, o neurocientista Miguel Nicolelis participa nesta quinta-feira (29) do webinar Arena de Ideias, com o tema “Cérebro, o criador do universo e a Comunicação”. Nicolelis vai abordar a importância da ciência para a Humanidade, incluindo a discussão sobre a vacina da Covid-19 e a possível segunda onda da doença.

Professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Nicolelis é autor do livro “O Verdadeiro Criador de Tudo – Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos”, no qual propõe que o cérebro humano é o verdadeiro criador do universo. O neurocientista também defende que a inteligência artificial jamais será capaz de superar o cérebro humano e compara as fake news a uma “batalha da informação”.

Participam da roda de entrevista a sócia-diretora da In Press Oficina, Patrícia Marins, especialista em gestão de crise; a diretora de Curadoria e Novos Produtos, Míriam Moura; e a Diretora de Relacionamento com o Poder Público, Fernanda Lambach.

O bate-papo será transmitido às 10h30, pelo canal da In Press Oficina no youtube. Faça sua inscrição pelo link http://bit.ly/31KiMC8

Prazo para se candidatar a prêmio de educação no valor R$ 250 mil acaba dia 31

Interessados podem concorrer ao Prêmio Péter Murányi, cujo objetivo é reconhecer trabalhos que melhorem a qualidade da vida da população

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O prazo para inscrição na 20ª edição do Prêmio Péter Murányi está chegando ao fim. Focada em “Educação” este ano, a iniciativa distribuirá R$ 250 mil, sendo R$ 200 mil para o trabalho vencedor, R$ 30 mil e R$ 20 mil para o segundo e terceiro colocados, respectivamente. Os interessados podem enviar seus trabalhos até o dia 31 de outubro de 2020.

Para a inscrição, o trabalho precisa ser indicado por uma instituição, sediada no Brasil, cadastrada junto à Fundação e atender a três critérios fundamentais: ser inovador, ter aplicabilidade prática e resultados comprovados sobre seu impacto positivo para as populações de regiões em desenvolvimento. Importante destacar que a participação é gratuita e o prêmio é entregue ao autor ou autores dos projetos.

Entidade privada e sem fins lucrativos, a Fundação já investiu, ao longo de suas 19 edições, R$ 3,1 milhões e avaliou 1.704 trabalhos, desde o primeiro Prêmio Péter Murányi, em 2002. Sua periodicidade é anual, sendo que se alternam os temas “Alimentação”, “Saúde”, “Ciência & Tecnologia” e “Educação”, de modo que cada área seja revisitada a cada quatro anos.

O edital e o formulário para participação estão disponíveis no site www.fundacaopetermuranyi.org.br. Os trabalhos inscritos passam por algumas etapas de avaliação, sendo submetidos a uma Comissão Técnica e Científica, especialistas da área e a um Júri. Os autores dos 3 trabalhos finalistas serão conhecidos e receberão seu prêmio em abril de 2021.

A premiação conta com o apoio das seguintes entidades: ABC (Academia Brasileira de Ciências), Aconbras (Associação dos Cônsules no Brasil); Aciesp (Academia de Ciências do Estado de São Paulo); Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras); Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior); CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola); CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico); Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

SERVIÇO:

20º Prêmio Péter Murányi – edição Educação

Envio dos trabalhos indicados: até 31 de outubro de 2020

Definição dos 3 finalistas: 1º trimestre de 2021

Cerimônia de entrega: 1º quadrimestre de 2021

Cadastro de instituição/empresa: premio2021@fundacaopetermuranyi.org.br

Edital e Regulamento: www.fundacaopetermuranyi.org.br

Sobre o Prêmio Péter Murányi

Direcionado a iniciativas que melhorem a qualidade de vida da sociedade brasileira, o Prêmio Péter Murányi acontece anualmente, alternando os temas “Educação”, “Saúde”, “Ciência & Tecnologia” e “Alimentação”, com entrega de R$ 250 mil, sendo R$ 200 mil ao trabalho vencedor, R$ 30 mil e R$ 20 mil para o segundo e terceiro colocados.

A premiação conta com o apoio da ABC (Academia Brasileira de Ciências), Aciesp (Academia de Ciências do Estado de São Paulo), Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras), Aconbras (Associação dos Cônsules no Brasil), CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Enade 2019 explicita o fosso que separa as universidades públicas das privadas

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Aula em anfiteatro da Universidade de Brasília (UnB) — Foto: Isa Lima/UnB

Para começo de conversa informo que não sou um grande entusiasta dos grandes exames de avaliação que se tornaram a forma de medir a qualidade do ensino no Brasil. É que sendo avaliador de cursos do Ministério de Educação e Cultura (MEC) sei que as diferenças existentes entre a qualidade de ensino em instituições de ensino superior públicas e privadas são imensamente maiores do que os instrumentos oficiais de avaliação permitem avaliar. Dito isso, tenho que observar que mesmo em um contexto em que o instrumento usado é limitado, no caso o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), as diferenças de qualidade são, digamos, exuberantes.

Quem desejar saber mais sobre essas diferenças e não quiser ter que mergulhar no site do próprio Enade, sugiro a leitura do artigo assinado pelo jornalista Paulo Saldaña intitulado “Faculdades particulares têm 1% de cursos com nota máxima no Enade 2019 e que foi publicado hoje pelo jornal “Folha de São Paulo” (ver imagem abaixo).

Enade 2019

A realidade é dura: apenas 1% das instituições particulares possuem cursos com a nota máxima (i.e., cinco), enquanto que a maioria dos cursos em instituições privadas com fins lucrativos obteve conceito 2, ou seja, “abaixo da média”, 40,9%.  Em suma, além de cobrarem caro, a maioria das instituições privadas oferece ensino de péssima qualidade.

Já nas instituições federais, 46% dos cursos ofertados conseguiram conceito 4 e 24,1%, conceito 5, que é o mais alto. Há ainda que se lembrar que as instituições federais contribuem para parte significativa da produção científica nacional. Se somarmos o que fazem as universidades estaduais em termos de qualidade e produção científica, o fosso que separa o segmento público de ensino superior torna-se ainda mais explícito.

Desse pequeno raio-X fica claro o crime que está sendo cometido pelo governo Bolsonaro contra a educação e ciência brasileira quando se conduz a orçamentos cada vez menores que terminarão por inviabilizar os nossos melhores centros de formação de mão de obra altamente qualificada.

Além disso, este resultado também explica porque quando alguns candidatos a prefeito falam em procurar o apoio para o desenvolvimento de políticas públicas apenas em universidades públicas há tanto alvoroço entre os gestores de instituições privadas de ensino e seus áulicos na mídia corporativa. É que ao reconhecer a superioridade das instituições públicas de ensino naquilo que elas têm que oferecer à sociedade, esses candidatos revelam o óbvio que é a cobrança abusiva por serviços de péssima qualidade por parte da maioria das instituições privadas de ensino.

Finalmente, há que se lembrar que o Brasil é um dos poucos países do mundo onde as instituições públicas de ensino superior abrigam menos de 30% do total de estudantes, graças a uma sobredominância das instituições privadas que representam em torno de 2/3 do total (ver gráfico abaixo com números da PNAD Contínua para a Educação de 2017).

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Por um retorno ao debate científico e à inteligência coletiva

Sob pressão da publicação e, portanto, da competição, a ciência está passando por uma grande crise de credibilidade. A troca entre pesquisadores e os consensos que daí emergem são a garantia das verdades científicas, lembra um coletivo em fórum no “Mundo”

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Por Michaël Bon,  Henri Orland,  Konrad Hinsen,  Bernard Rentier, Jacques Lafait, Tembine Hamidou,   Jamal Atif, Alexandre Coutte,  Nicolas Morgado, Patrice Koehl, Stéphane Vautier, Jean-Paul Allouche, Gilles Niel,  Christine Fleury, e Clément Stahl para o Le Monde

A epidemia de COVID-19 lançou luz sobre disfunções profundas na ciência. Esperávamos um conhecimento confiável para fundamentar medidas eficazes e razoáveis ​​para encerrar a crise. Eventualmente, todos terão encontrado algo que confirme seus preconceitos em meio a um caos de mais de 50.000 artigos humanamente impossíveis de analisar, nos quais o circuito de publicação e os providenciais homens falharam em indicar uma direção certa. Como a ciência fala hoje?

A voz da ciência é coletiva em essência: é a do consenso que emerge do debate dentro da comunidade científica. Por quanto tempo e apaixonadamente for necessário, os pesquisadores trocam argumentos e experiências até convergirem em afirmações livres dos preconceitos uns dos outros, de acordo com os fatos observados e que constituem a verdade científica do momento. No entanto, essa prática fundamental de debate em grande parte desapareceu do mundo acadêmico, em favor de um substituto profundamente diferente, a “revista com revisão por pares  ”. Esta “revisão por pares” é um processo local, interno a uma publicação, governado por um editor, onde um pesquisador deve cumprir as liminares de alguns pareceristas anônimos durante trocas confidenciais por e-mail cujo objetivo é obter uma decisão favorável da Imprimatur em curto espaço de tempo. Assim, as verdades científicas não são mais fatos coletivos emergentes, mas são decretadas por um processo análogo a um julgamento fechado. Sob o efeito deletério desse processo de validação aleatória, limitado, conservador, inverificável e permeável a conflitos de interesses, a ciência como um todo entrou em uma grande crise existencial, chamada reprodutibilidade  : na maioria dos campos e em uma proporção alarmante, muitos resultados experimentais publicados não podem ser replicados, mesmo por seus autores.

Como chegamos lá ? Nossa tese é que o debate foi desaparecendo gradativamente porque a lógica da avaliação administrativa dos pesquisadores os dissuade. A partir da década de 1960, com o crescimento da pesquisa pública, as instituições científicas queriam se munir de indicadores quantitativos de desempenho para orientar sua atividade. Isso resultou em um sistema, que se tornou global, onde o objetivo do pesquisador, para obter financiamento ou promoção, é justificar as publicações em revistas de “prestígio”. Os méritos e métodos de cálculo do indicador de prestígio (o  fator de impacto ”) são problemas bem conhecidos. Porém, em nossa opinião, seu defeito mais prejudicial ainda é mal definido: quando o valor de uma produção é condicionado pela reputação do jornal que a publica, não é mais o pesquisador que cria valor, mas sim aquele que decide. da publicação: o editor.

Essa reversão gera duas disfunções principais. Por um lado, uma minoria de editores pode forçar a maioria a se alinhar com sua visão e padrões (e por exemplo impor um imperativo permanente de novidade, contornando a verificação de resultados já publicados ou no compartilhamento resultados experimentais negativos). Por outro lado, o valor científico está se tornando uma mercadoria rara, que os pesquisadores desejam se atribuir publicando nas revistas que a fornecem. Um cientista que se destaca nesse sistema inevitavelmente o faz em detrimento de seus pares. A troca entre pares, essencial para a ciência, torna-se contrária aos interesses pessoais de seus agentes, doravante artificialmente em competição. A inteligência coletiva é, portanto, inibida pela governança vertical,

Para encontrar um desenvolvimento vertical da ciência, é essencial promover uma governança horizontal, comunitária, onde o objetivo principal do pesquisador é debater com seus pares e convencê-los. Ao contrário da competição sem sentido induzida pelas regras atuais, a governança horizontal induz a “coopetição”, onde a troca é do interesse de todos e naturalmente produz abertura, transparência e inteligência coletiva. Em outros escritos , detalhamos suas modalidades concretas, agora tecnicamente possíveis graças à Internet. Em resumo, argumentamos que os valores certos pelos quais se aprecia uma produção científica são sua validade e importância .A validade de uma produção é estabelecida qualitativamente pelo debate científico e pode ser razoavelmente quantificada pelo grau de consenso que atinge em um determinado momento. Sugerimos também que cada cientista faça gratuitamente uma revisão da literatura na imprensa, expressando sua visão e hierarquias pessoais. A importância de uma determinada produção pode ser vista e medida por seu grau de difusão em tal ecossistema.

Esses dois mecanismos devolvem à comunidade científica a gestão integral da ciência e podem oferecer indicadores que atendam às necessidades administrativas das instituições. Assim, a transição para um tal método de avaliação, que também é muito econômico porque sem intermediários, é principalmente uma questão de vontade política. Esperamos que a França adote essas idéias em breve e seja uma força motriz na regeneração geral dos processos científicos coletivos.

Michaël Bon, pesquisador e consultor; Henri Orland, pesquisador (CEA); Konrad Hinsen, pesquisador (CNRS, CBM); Bernard Rentier, reitor emérito da Universidade de Liège; Jacques Lafait, diretor emérito de pesquisa (CNRS, Sorbonne University); Tembine Hamidou, professor assistente (New York University); Jamal Atif, professor (Universidade Paris-Dauphine-PSL); Alexandre Coutte, professor (Universidade Paris-Nanterre); Nicolas Morgado, professor sênior (Universidade Paris-Nanterre); Patrice Koehl, professor (University of California, Davis);Stéphane Vautier, professor (Universidade de Toulouse-Jean-Jaurès); Jean-Paul Allouche, diretor emérito de pesquisa (CNRS); Gilles Niel, pesquisador (CNRS, ICGM); Christine Fleury, curadora da biblioteca (ABES); Clément Stahl, pesquisador (Universidade de Paris)

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Para quê e a quem serve a ciência que se faz?

Pesquisa realizada na Universidade Estadual do Norte Fluminense é citada em relatório produzido pela ONU sobre a situação dos direitos humanos no Brasil

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Muitas vezes há quem questione o papel da ciência no entendimento e modificação da realidade. Por outro lado, tomados pela lógica do produtivismo acadêmico há quem dentro da comunidade científica se exima de fazer ciência que incomode quem os financia, especialmente se eles estão abraçados com as corporações privadas.

De minha parte, tenho sempre tentado ser um pesquisador que busca investigar elementos que possam ser efetivamente úteis para o entendimento e modificação da realidade.  Por esse motivo, não me considero um indivíduo de passagem fácil dentro até da universidade onde escolhi trabalhar, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

O fato é que procuro sempre seguir o vaticínio de que “a prática é o critério da verdade”, e ainda que isto não me torne exatamente uma pessoa popular, eu consigo sempre repousar a cabeça no travesseiro e dormir imediatamente.  Faço porque dispenso os elogios fáceis e as amizades traiçoeiras, pois acho que já tive a dose suficiente dessas coisas ao longo da vida. 

Mas por que estou oferecendo essa reflexão? É que, de tempos em tempos, vejo que o caminho que optei por seguir como pesquisador tem suas recompensas. É que hoje encontrei no relatório intitulado “Visit to Brazil – Report of the Special Rapporteur on the implications for human rights of the environmentally sound management and disposal of hazardous substances and wastes”  que acaba de ser submetido à 45th Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, uma referência a um artigo intitulado “Modes of pesticides utilization by Brazilian smallholders and their implications for human health and the environment” que publiquei com colegas da Uenf sobre o uso de agrotóxicos em um assentamento de reforma agrária em Campos dos Goytacazes na revista Crop Protection em 2012 (ver imagem abaixo).

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Esse artigo já vinha sendo um motivo de alegria, pois desde sua publicação já foi citado em dezenas de outros estudos científicos e em relatórios de agências multilaterais, começando pela FAO. Mas me arrisco a dizer que ao ser incluído neste relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU, especificamente na seção que trata dos malefícios causados pelo uso intenso e abusivo de agrotóxicos no Brasil, este artigo alcançou um outro nível de contribuição ao conhecimento e aos esforços para modificação da realidade.

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Agricultor trabalha com agrotóxicos em um plantio de abacaxi sem qualquer tipo de proteção

E esse é o tipo de ciência que só universidades públicas podem produzir, pois, em que pesem todas as limitações impostas pelas restrições de financiamento e de perseguições políticas, é nelas que se produz mais de 90% da ciência brasileira. Por isso, os ataques recentes contra a sustentação econômico e à liberdade de cátedra que estão sendo realizados de fore e dentro das universidades brasileiras.

Finalmente, existem muitos pesquisadores que hoje se medem apenas pelo que dizem as famosas “métricas”, a começar pelo decantado Fator H. Eu diria que não obstante as métricas serem os indicadores da vez sobre a potencial contribuição da ciência que se produz, há muito mais coisa para além dos muros.  Entender isso, sem abrir mão da qualidade da ciência que se almeja produzir, será fundamental para a sobrevivência da ciência brasileira e das universidades públicas onde ela é produzida.

Parlamento alemão discute sustentabilidade: Alemanha é um tigre desdentado na hora de agir

Os ecologistas estão pedindo uma política de sustentabilidade diferente. A interação entre ciência e política precisa mudar

Nachhaltigkeit

“Temos de tratar a crise com uma crise”.  Imagem: DPA

BERLIN taz | Segundo importantes pesquisadores ambientais, a política de sustentabilidade alemã precisa mudar urgentemente para ter um impacto maior na natureza e na sociedade. Metade de todas as metas da “Estratégia de Sustentabilidade Alemã” estão sendo implementadas “na faixa do amarelo profundo ao vermelho” – o que significa: paralisação ou deterioração, explicou Adolf Kloke-Lesch, Diretor Executivo da Rede Alemã de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN). Também cientistas do Conselho para o Desenvolvimento Sustentável (RNE) e da Plataforma de Sustentabilidade Científica 2030 (wpn) expressaram-se por ocasião da “Semana da Sustentabilidade” no Bundestag, na qual vários temas de transformação – desde a reviravolta agrícola ao transporte – serão debatidos pela primeira vez até sexta-feira.

A interação entre ciência e política, a interface da transferência de conhecimento, tem que mudar, disse Patrizia Nanz, que dirige a plataforma científica Sustentabilidade 2030, que foi fundada especialmente para esse fim no Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade Transformativa (IASS) de Potsdam. “O registro de nossos artigos científicos não funciona mais como antes”, disse Nanz. Outros países, como a França, são mais eficazes com os seus “Conselhos de Cidadãos do Clima”.

Wolfgang Lucht do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), como membro do Conselho Consultivo para Questões Ambientais (SRU), fez a experiência de que a “Estratégia de Sustentabilidade Alemã”, que é coordenada pela Chancelaria e, portanto, politicamente bem colocada, é em última análise “um tigre desdentado” na hora de agir. As recomendações do Conselho de Sustentabilidade iriam “perder-se na votação interministerial”, queixou-se Lucht. Para ele, é necessária uma “nova arquitetura” para o debate da sustentabilidade na política e na sociedade. Lucht: “Para colocá-lo como Greta Thunberg  faz: temos que finalmente tratar a crise como uma crise.”

Os eco-pesquisadores elogiaram o debate geral sobre sustentabilidade no Bundestag como uma abordagem positiva. É necessário um “novo diálogo com a população” sobre os caminhos para o desenvolvimento sustentável, principalmente após os cortes causados ​​pela crise da coroa. Por exemplo, um “Conselho de Justiça Intergeracional” poderia ser estabelecido. Essas novas pedras angulares também devem ser incluídas nos programas partidários para as eleições federais de 2021. Em sua agenda de sustentabilidade na quinta-feira, o Bundestag debateu 16 moções sobre o tema do crescimento sustentável e uma economia de mercado ecológico-social. Posteriormente, o foco educacional foi em “mais educação para o desenvolvimento sustentável”.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo TAZ.de [Aqui!].

A ciência está ficando mais difícil de ler

De siglas obscuras a jargões desnecessários, os trabalhos de pesquisa são cada vez mais impenetráveis ​​- até mesmo para cientistas

linguaggio

 Por Dalmeet Singh Chawla

A ciência está se tornando mais difícil de entender devido ao grande número de siglas, frases longas e jargão impenetrável na escrita acadêmica.

Essa linguagem complicada não apenas afasta os não-cientistas e a mídia, mas também pode dificultar a vida dos pesquisadores juniores e daqueles que estão em transição para novos campos.

Adrian Barnett, estatístico da Queensland University of Technology, na Austrália, descreve a quantidade de siglas novas e obscuras usadas em artigos científicos hoje como “exaustivos” – e está apenas piorando.

Embora algumas siglas sejam úteis porque são amplamente conhecidas (AIDS, HIV, DNA), muitas dificultam a legibilidade porque são mais difíceis de absorver do que se o termo fosse escrito por extenso.

Pegue esta frase de um artigo de 2002 que estudou a resistência óssea de jovens atletas, por exemplo: ” RUN teve significativamente (p <0,05) maior CSMI e BSI com tamanho ajustado do que C, SWIM e CYC; e maior tamanho, idade e YST -ajustado CSMI e BSI do que SWIM e CYC . “

“Os cientistas adoram escrever essas siglas”, diz Barnett, “mas outros cientistas não necessariamente as escolhem, e elas acabam perdendo o tempo e causando muita confusão”.

Barnett e seus colegas analisaram o uso de siglas em mais de 24 milhões de títulos de artigos e 18 milhões de resumos indexados pela base de dados biomédica PubMed entre 1950 e 2019.

O estudo, publicado na eLife , descobriu que 19% dos títulos de artigos e 73% dos resumos incluíam pelo menos uma sigla. Dos cerca de 1,1 milhão de siglas identificadas, a grande maioria (79%) foi usada menos de 10 vezes na literatura científica.

O estudo também descobriu que a frequência de acrônimos usados ​​em resumos aumentou dez vezes desde 1956, de 0,4 acrônimos por 100 palavras para 4 acrônimos por 100 palavras.

Barnett diz que é “bastante condenatório” que a grande maioria das siglas sejam usadas tão poucas vezes. Ele incentiva os pesquisadores a pensar duas vezes antes de introduzir novas siglas em seus artigos. Se um resumo é difícil de entender, diz ele, é menos provável que o artigo incentive as pessoas a ler o manuscrito inteiro.

Títulos longos, resumos mais longos

Não só o uso de novas siglas aumentou dramaticamente em artigos recentes, mas também o tamanho geral dos títulos e resumos, descobriu o estudo da eLife .

Isso lembra os resultados de uma análise de 2017 de mais de 700.000 resumos em artigos publicados em revistas biomédicas e de ciências da vida entre 1881 e 2015. Também publicado na eLife , este estudo descobriu que o número médio de sílabas em cada palavra, a porcentagem de palavras difíceis , e a extensão das sentenças aumentou constantemente nos estudos publicados desde 1960.

As frases muito prolixas e as palavras difíceis não só tornam os artigos menos legíveis, mas também podem prejudicar a probabilidade de serem citados. Uma análise realizada no ano passado em características de artigos altamente citados descobriu que os títulos com maior impacto tinham apenas 10 palavras.

William Hedley Thompson, neurocientista do Instituto Karolinska em Estocolmo, Suécia, coautor da análise de 2017, diz que a ciência não deve se limitar a escrever para seus colegas.

“Se o seu público-alvo é apenas o seu subcampo científico, isso é ótimo, mas espero que a ciência não se limite a escrever para a sua bolha”, diz ele.

Jargão em alta

artigo eLife de 2017 também mostrou um rápido aumento no uso de linguagem complexa em artigos acadêmicos, o que sugere que os cientistas estão optando por termos de jargão onde palavras mais simples seriam suficientes.

“Embora a ciência seja complexa e alguns jargões sejam inevitáveis, isso não justifica a tendência contínua que mostramos”, escrevem Thompson e colegas .

“Também vale a pena considerar a importância da compreensibilidade dos textos científicos à luz da polêmica recente sobre a reprodutibilidade da ciência ”, acrescentam. “A reprodutibilidade requer que os resultados possam ser verificados de forma independente. Para conseguir isso, o relato de métodos e resultados deve ser suficientemente compreensível. ”

Um estudo pré-impresso publicado no início deste ano analisou a relação entre o uso de jargão e citações em 21.486 artigos. Os autores concluíram que o jargão do título e do resumo reduz significativamente o número de citações que um artigo recebe.

Kipling Williams, psicólogo da Purdue University em West Lafayette, Indiana, que escreveu sobre jargões e siglas que dificultam a comunicação científica , diz que o aumento da linguagem técnica apenas isola leitores não especializados.

Ele acrescenta que os artigos acadêmicos devem ser escritos de uma forma mais confortável para leitores informados que não são pesquisadores, como formuladores de políticas, jornalistas e pacientes.

“O público está pagando por muitas dessas pesquisas e, portanto, eles devem ser capazes de pelo menos ter um controle razoável sobre o que está sendo dito.”

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Nature [Aqui! ].

Os argumentos a favor dos” OGM “estão sujeitos a muito pouco pensamento crítico

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Por  Stéphane Foucart para o Le Monde

 É uma história que tem quase duas décadas, mas ainda hoje lança luz sobre a natureza dos debates sobre biotecnologia. Em 2001, Ignacio Chapela e David Quist, dois pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley (Estados Unidos) publicaram resultados inconvenientes na revista Nature : os dois cientistas alegaram ter detectado traços em certas variedades de milho tradicional mexicano, vestígios de contaminação genética das culturas americanas de milho transgênico, várias centenas de quilômetros ao norte.

No exato momento em que o artigo foi publicado – e quando ninguém ainda havia sido capaz de examiná-lo – um dilúvio de indignação caiu sobre os editores da revisão: os autores eram ativistas ambientais disfarçados, seu método era defeituosos, seus resultados foram podres etc.

Alguns meses depois, a Nature publicou um aviso, lamentando a publicação do estudo – sem, no entanto, ter o menor elemento para uma retirada adequada. Nunca vi. Esses trabalhos eram certamente imperfeitos, mas provavelmente não mais do que a grande maioria dos publicados todos os dias. No entanto, Chapela sofreu, durante meses a fio, uma retribuição tão grosseira de cientistas convencidos dos benefícios das biotecnologias, que seu emprego em Berkeley já foi ameaçado.

Essa bronca era tão espontânea? Em novembro de 2002, em uma coluna do The Guardian , George Monbiot apresentou provas irrefutáveis ​​de como uma campanha de difamação havia sido lançada contra Chapela e Quist por um escritório cujos um dos clientes era  uma conhecida empresa do setor agroquímico. Anos depois, em 12 de novembro de 2008, a Nature retornou ao caso em um breve artigo informativo: os resultados que havia repudiado haviam sido reproduzidos por outros pesquisadores.

Do lado da “ciência”

Este exemplo – entre muitos outros – mostra a extraordinária capacidade da indústria de influenciar o debate sobre “OGM” (mesmo que esse termo não cubra nada preciso). Para defender as biotecnologias, seria sempre assim ficar do lado da “ciência”, apesar de cético em relação a eles, estaria sempre do lado da irracionalidade, ideologia, ativismo verde etc. O resultado dessa engenharia do debate público é que os argumentos a favor dos OGM estão sujeitos a muito pouco pensamento crítico. Essa falta de espírito crítico em relação às biotecnologias vegetais – como são usadas atualmente – é geral e não poupa pessoal científico em sentido amplo, muito pelo contrário. Além disso, não mais do que o autor dessas linhas.

No espaço desta crônica, já foi afirmado que, na Índia, o algodão transgênico Bt (secretando uma toxina inseticida) teve resultados positivos em termos de uso reduzido de pesticidas e aumento de produtividade. Esta afirmação é provavelmente falsa e nunca é tarde para comer o seu chapéu.

Em março, no meio da crise da COVID-19, a revista Nature Plants publicou o estudo mais exaustivo sobre os efeitos de duas décadas de cultivo de algodão transgênico Bt na escala de um país grande. Passou completamente despercebido. Para aqueles que acreditaram no milagre do algodão indiano Bt, suas conclusões são cruéis.

Certamente, explicam seus autores, Keshav Kranthi (Comitê Consultivo Internacional de Algodão, em Washington) e Glenn Davis Stone (Universidade de Washington, em Saint Louis), o algodão Bt não pode ser responsabilizado por nenhuma epidemia de suicídios entre agricultores indianos – de acordo com uma idéia comum entre detratores de biotecnologias.

Surgimento de resistências

Mas nenhum dos grandes benefícios atribuídos a ele por seus apoiadores é real ou é mantido ao longo do tempo. Após dissecar vinte anos de dados, Kranthi e Stone indicam que a introdução do algodão Bt na Índia foi bem acompanhada por uma redução no uso de agrotóxicos, mas isso foi apenas ‘ Efêmero’ . Com o surgimento da resistência à toxina Bt em certos insetos e a proliferação de pragas secundárias não visadas, “os agricultores agora estão gastando mais em agrotóxicos do que antes da introdução da Bt” , escrevem os dois autores. “Tudo indica que a situação continuará se deteriorando” , acrescentam.

Não está terminado. Certas curvas orgulhosamente exibidas por promotores de biotecnologia parecem mostrar uma ligação entre a chegada do algodão transgênico Bt e o aumento da produção. Sério ? Não apenas a correlação não apresenta causalidade, mas quando examinada mais de perto, na escala de cada região indiana, a correlação em si parece questionável. “A adoção do algodão Bt acaba sendo um mau indicador da evolução da produção” , explicam os dois pesquisadores. “Os aumentos no rendimento correspondem mais a mudanças no uso de fertilizantes e outros insumos” , disseram eles.

Na década de 1990, quando as primeiras culturas transgênicas foram lançadas, a autoridade da opinião científica foi amplamente solicitada pela opinião pública para educar as pessoas: essas novas plantas – tolerantes a herbicidas ou resistentes a certas pragas – aumentaria os rendimentos, reduziria o uso de insumos e beneficiaria a sociedade como um todo. Com duas a três décadas de retrospectiva, tudo isso provou ser improvável, na melhor das hipóteses, e na pior das hipóteses, completamente falso. A transgênese ou edição de genoma pode trazer inovações úteis em muitas áreas, e talvez elas o façam. Mas é uma aposta segura que, em seus principais usos agrícolas, eles até agora não cumpriram suas promessas.

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Este artigo foi originalmente escrito em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

“Ciência do desespero” retarda a busca por drogas contra o coronavírus

ap imageDoris Kelly, 57 anos, senta-se em sua casa na segunda-feira, 29 de junho de 2020 em Ruffs Dale, Pensilvânia. Kelly foi um dos primeiros pacientes em um estudo do COVID-19 na Universidade de Pittsburgh Medical Center. “Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre a doença. (Foto AP / Justin Merriman)

Marilynn Marchione para a Associated Press

Desesperado para resolver o dilema mortal da COVID-19, o mundo clama por respostas rápidas e soluções de um sistema de pesquisa não construído para a pressa.

O resultado irônico, e talvez trágico: os atalhos científicos diminuíram a compreensão da doença e atrasaram a capacidade de descobrir quais medicamentos ajudam, prejudicam ou não têm efeito algum.

À medida que as mortes pelo coronavírus aumentavam incessantemente nas centenas de milhares, dezenas de milhares de médicos e pacientes corriam para usar drogas antes que pudessem se provar seguros ou eficazes. Uma série de estudos de baixa qualidade obscureceu ainda mais o cenário.

“As pessoas tinham uma epidemia na frente delas e não estavam preparadas para esperar”, disse o Dr. Derek Angus, chefe de tratamento intensivo do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Nós fizemos a pesquisa clínica tradicional parecer tão lenta e complicada”.

Não foi até meados de junho – quase seis meses depois – quando surgiram as primeiras evidências de que um medicamento poderia melhorar a sobrevivência. Pesquisadores no Reino Unido conseguiram inscrever um em cada seis pacientes hospitalizados com COVID-19 em um grande estudo que descobriu que um esteróide barato chamado dexametasona ajuda e que um medicamento contra a malária amplamente usado não ajuda. O estudo mudou a prática da noite para o dia, apesar de os resultados não terem sido publicados ou revisados ​​por outros cientistas.

Nos Estados Unidos, um estudo menor, porém rigoroso , descobriu que um medicamento diferente pode reduzir o tempo de recuperação de pacientes gravemente enfermos, mas muitas questões permanecem sobre seu melhor uso.

Os médicos ainda estão buscando freneticamente qualquer outra coisa que possa combater as várias maneiras pelas quais o vírus pode causar danos, experimentando medicamentos para derrame, azia, coágulos sanguíneos, gota, depressão, inflamação, AIDS, hepatite, câncer, artrite e até células-tronco e radiação .

“Todo mundo tem buscado algo que possa funcionar. E não é assim que você desenvolve boas práticas médicas ”, disse Steven Nissen, pesquisador da Cleveland Clinic e consultor frequente da Food and Drug Administration dos EUA. “O desespero não é uma estratégia. Bons ensaios clínicos representam uma estratégia sólida. ”

Poucos estudos definitivos foram realizados nos EUA, com alguns prejudicados por pessoas que consomem drogas por conta própria ou métodos relaxados de empresas farmacêuticas que patrocinam o trabalho.

E a política ampliou o problema. Dezenas de milhares de pessoas experimentaram um remédio contra a malária depois que o presidente Donald Trump o promoveu implacavelmente, dizendo: “O que você tem a perder?” Enquanto isso, o principal especialista em doenças infecciosas do país, Dr. Anthony Fauci, alertou “eu gosto de provar as coisas primeiro”. Por três meses, estudos fracos polarizaram as vistas da hidroxicloroquina até que várias mais confiáveis ​​a consideraram ineficaz.

“O problema com o ‘remédio para pistoleiros’ ou o remédio praticado onde há um palpite é que levou a sociedade como um todo a se atrasar em aprender coisas”, disse o Dr. Otis Brawley, da Universidade Johns Hopkins. “Não temos boas evidências porque não apreciamos e respeitamos a ciência.”

Ele observou que, se os estudos tivessem sido realizados corretamente em janeiro e fevereiro, os cientistas já sabiam até março se muitos desses medicamentos funcionassem.

Até pesquisadores que valorizam a ciência estão adotando atalhos e regras de flexão para tentar obter respostas mais rapidamente. E os jornais estão correndo para publicar resultados, às vezes pagando um preço pela sua pressa com retratações.

A pesquisa ainda é caótica – mais de 2.000 estudos estão testando tratamentos com COVID-19, da azitromicina ao zinco. O volume pode não surpreender diante de uma pandemia e de um novo vírus, mas alguns especialistas dizem que é preocupante o fato de muitos estudos serem duplicados e carecerem do rigor científico para resultar em respostas claras.

“Tudo sobre isso parece muito estranho”, disse Angus, que lidera um estudo inovador usando inteligência artificial para ajudar a escolher tratamentos. “Tudo está sendo feito no horário da COVID. É como esse novo relógio estranho em que estamos correndo.

Aqui está uma olhada em alguns dos principais exemplos de “ciência do desespero” em andamento.

Uma droga contra a malária se torna viral

Para os cientistas, foi uma receita para o desastre: em uma crise médica sem tratamento conhecido e uma população em pânico, uma figura pública influente empurra uma droga com efeitos colaterais potencialmente graves, citando depoimentos e um relatório rapidamente desacreditado de seu uso em 20 pacientes.

Trump divulgou a hidroxicloroquina em dezenas de apresentações a partir de meados de março. A Administração de Alimentos e Medicamentos permitiu seu uso emergencial, apesar de estudos não terem demonstrado segurança ou eficácia para pacientes com coronavírus, e o governo adquiriu dezenas de milhões de doses.

Trump pediu pela primeira vez que tome azitromicina, um antibiótico que, como a hidroxicloroquina, pode causar problemas no ritmo cardíaco. Depois das críticas, ele se limitou a dar conselhos médicos, pedindo “Você deve adicionar zinco agora, eu quero jogar isso lá fora”. Em maio, ele disse que estava tomando os remédios para prevenir a infecção depois que um assessor deu positivo.

Muitas pessoas seguiram seu conselho.

Rais Vohra, diretor médico de um centro de controle de venenos da Califórnia, contou sobre um paciente de 52 anos de idade, COVID-19, que desenvolveu um batimento cardíaco irregular após três dias em hidroxicloroquina – do medicamento, não do vírus.

“Parece que a cura foi mais perigosa do que os efeitos da doença”, disse Vohra.

Estudos sugeriram que a droga não estava ajudando, mas eram fracos. E o mais influente , publicado na revista Lancet, foi retirado depois que grandes preocupações surgiram sobre os dados.

Almejando melhores informações, um médico da Universidade de Minnesota que havia sido recusado por financiamento federal gastou US $ 5.000 do seu próprio dinheiro para comprar hidroxicloroquina para um teste rigoroso usando pílulas placebo como comparação. No início de junho, os resultados do Dr. David Boulware mostraram que a hidroxicloroquina não impediu o COVID-19 em pessoas intimamente expostas a alguém com ele.

Um estudo do Reino Unido considerou o medicamento ineficaz para o tratamento, assim como outros estudos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e da Organização Mundial de Saúde.

O colega de Boulware, Dr. Rahda Rajasingham, pretendia matricular 3.000 profissionais de saúde em um estudo para verificar se a hidroxicloroquina poderia prevenir infecções, mas recentemente decidiu parar às 1.500.

Quando o estudo começou, “havia a crença de que a hidroxicloroquina era essa droga maravilhosa”, disse Rajasingham. Mais de 1.200 pessoas se inscreveram em apenas duas semanas, mas isso diminuiu depois de alguns relatórios negativos.

“A conversa nacional sobre este medicamento mudou de todo mundo quer esse medicamento … para ninguém quer nada com ele”, disse ela. “Isso meio que se tornou político, onde as pessoas que apoiam o presidente são pró-hidroxicloroquina”.

Os pesquisadores só querem saber se funciona.

Aprenda como a coisa vai

Em Pittsburgh, Angus está buscando algo entre a abordagem “just try it” de Trump e Fauci “faça o estudo ideal”.

Em uma pandemia, “deve haver um caminho do meio, de outra maneira”, disse Angus. “Não temos o luxo do tempo. Nós devemos tentar aprender enquanto fazemos. ”

Os 40 hospitais do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh na Pensilvânia, Nova York, Maryland e Ohio ingressaram em um estudo em andamento no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia que atribui aleatoriamente pacientes a um dos vários tratamentos possíveis e usa inteligência artificial para adaptar os tratamentos, nos resultados. Se um medicamento parece um vencedor, o computador designa mais pessoas para obtê-lo. Os perdedores são rapidamente abandonados.

O sistema “aprende rapidamente, então nossos médicos estão sempre apostando no cavalo vencedor”, disse Angus.

Um pequeno número de pacientes que recebem os cuidados habituais serve como um grupo de comparação para todos os tratamentos sendo testados, para que mais participantes acabem tentando experimentar alguma coisa.

Mark Shannon, um caixa bancário aposentado de 61 anos de Pittsburgh, foi o primeiro a entrar.

“Eu sabia que não havia cura conhecida. Eu sabia que eles estavam aprendendo à medida que avançavam em muitos casos. Eu apenas confio neles ”, ele disse.

Shannon, que passou 11 dias em uma máquina de respiração, recebeu o esteróide hidrocortisona e se recuperou.

Doris Kelley, professora de pré-escola de 57 anos em Ruffs Dale, sudeste de Pittsburgh, ingressou no estudo em abril.

“Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre o COVID-19.

Ela tem asma e outros problemas de saúde e ficou feliz em deixar o computador escolher entre os muitos tratamentos possíveis. Ele a designou para receber hidroxicloroquina e ela voltou para casa alguns dias depois.

É muito cedo para saber se o medicamento de um paciente ajudou ou se ele teria se recuperado por conta própria.

O caminho turbulento para o Remdesivir 

Quando o novo coronavírus foi identificado, a atenção voltou-se rapidamente para o remdesivir, um medicamento experimental administrado por meio intravenoso que se mostrou promissor contra outros coronavírus no passado, restringindo sua capacidade de copiar seu material genético.

Médicos na China lançaram dois estudos comparando o remdesivir com o tratamento usual de pacientes hospitalizados graves e moderadamente doentes. O fabricante do medicamento, Gilead Sciences, também iniciou seus próprios estudos, mas eles eram fracos – um não tinha um grupo de comparação e, no outro, pacientes e médicos sabiam quem estava recebendo o medicamento, o que compromete qualquer julgamento sobre se ele funciona.

O NIH lançou o teste mais rigoroso, comparando o remdesivir aos tratamentos com placebo intravenoso. Enquanto esses estudos estavam em andamento, Gilead também distribuiu o medicamento caso a caso a milhares de pacientes.

Em abril, os pesquisadores chineses encerraram seus estudos mais cedo, dizendo que não podiam mais registrar pacientes suficientes porque o surto diminuiu lá. Em um podcast com um editor de periódico, Fauci deu outra explicação possível: muitos pacientes já acreditavam que o remdesivir funcionava e não estavam dispostos a ingressar em um estudo em que pudessem terminar em um grupo de comparação. Isso pode ter sido especialmente verdadeiro se eles pudessem obter o medicamento diretamente de Gileade.

No final de abril, Fauci revelou resultados preliminares do estudo NIH, mostrando que o remdesivir reduziu o tempo de recuperação em 31% – 11 dias em média, contra 15 dias para aqueles que receberam os cuidados usuais.

Alguns criticaram a divulgação desses resultados, em vez de continuar o estudo para ver se o medicamento poderia melhorar a sobrevivência e aprender mais sobre quando e como usá-lo, mas monitores independentes haviam aconselhado que não era mais ético continuar com um grupo de placebo assim que um benefício era aparente.

Até esse estudo, o único outro grande e rigoroso teste de tratamento com coronavírus era da China. Enquanto o país corria para construir hospitais de campanha para lidar com a crise médica, os médicos designaram aleatoriamente pacientes do COVID-19 para receber dois medicamentos antivirais usados para o tratamento do HIV ou os cuidados usuais e publicaram rapidamente os resultados no New England Journal of Medicine.

“Esses pesquisadores foram capazes de fazer isso em circunstâncias inacreditáveis”, disse o principal editor da revista, Dr. Eric Rubin, em um podcast. “Tem sido decepcionante que o ritmo da pesquisa tenha sido bastante lento desde então.”

Por que a ciência importa

Por não testar adequadamente os medicamentos antes de permitir o uso em larga escala, “repetidamente na história médica, as pessoas se machucam mais frequentemente do que ajudaram”, disse Brawley.

Durante décadas, a lidocaína foi usada rotineiramente para evitar problemas no ritmo cardíaco em pessoas suspeitas de ataques cardíacos até que um estudo em meados da década de 1980 mostrou que a droga realmente causou o problema que deveria prevenir, disse ele.

Alta Charo, advogado e bioeticista da Universidade de Wisconsin, lembrou o clamor dos anos 90 de conseguir que as seguradoras cobrissem transplantes de medula óssea para câncer de mama até que um estudo sólido demonstrasse que “simplesmente deixavam as pessoas mais miseráveis ​​e doentes” sem melhorar a sobrevivência.

Escrevendo no Journal of American Medical Association, os ex-cientistas da FDA drs. Jesse Goodman e Luciana Borio criticaram o incentivo ao uso de hidroxicloroquina durante esta pandemia e citaram pressão semelhante para usar uma combinação de anticorpos chamada ZMapp durante o surto de Ebola de 2014, que diminuiu antes que a eficácia desse medicamento pudesse ser determinada. Foram necessários quatro anos e outro surto para descobrir que o ZMapp ajudou menos de dois tratamentos semelhantes.

Durante o surto de gripe suína 2009-2010, o medicamento experimental peramivir foi amplamente utilizado sem estudo formal, os drs. Benjamin Rome e Jerry Avorn, do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, anotaram no New England Journal. Mais tarde, a droga deu resultados decepcionantes em um estudo rigoroso e, finalmente, foi aprovada apenas para casos menos graves de gripe e para pacientes não hospitalizados gravemente enfermos.

Os pacientes são melhor atendidos quando nos apegamos à ciência, em vez de “cortar custos e recorrer a soluções rápidas atraentes e arriscadas”, escreveram eles. A pandemia causará danos suficientes e os danos ao sistema para testar e aprovar medicamentos “não devem fazer parte do seu legado”.

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Marilynn Marchione pode ser seguida no Twitter: @MMarchioneAP

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

Por que a ciência e as universidades públicas incomodam tanto o governo Bolsonaro? Fatos e previsões

No dia 11 de dezembro de 2018, 19 dias antes da posse do presidente Jair Bolsonaro, dei uma palestra em Helsinki (Finlândia) a convite do meu colega Markus Kroger, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Helsinki sob o título “The Brazilian Amazon and the prospects o explosive deforestation after the 2018 presidential elections” (ou em português “A Amazônia brasileira e as perspectivas de desmatamento explosivo após as eleições presidenciais de 2018”  (ver imagem abaixo).

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Naquele dia coloquei para a plateia presente, as minhas projeções do que deveria acontecer na Amazônia brasileira em termos de avanço do desmatamento, degradação via extração ilegal de madeira e garimpos clandestinos, bem como sobre os inevitáveis riscos que estariam colocados sobre as populações tradicionais, principalmente os povos indígenas. Obviamente as projeções deixaram a plateia formada por professores, estudantes e intelectuais de fora da universidade um tanto chocados com o que eu apresentei.

Passados 18 meses daquela palestra na fria capital finlandesa, estamos diante de uma situação catastrófica na Amazônia em função de todo o desmanche que foi feito em tempo recorde pelo governo Bolsonaro, sob a batuta inconfundível do improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

A situação criada pelo ataque sistemático aos mecanismos de governança ambiental e às estruturas de comando e controle que antes continham, ainda que precariamente, o ataque desenfreado de atores que agem ilegalmente para retirar das florestas amazônicos o máximo que puderem no menor tempo possível, nem que para isso tenham que causar o maior dano possível.

Mas é importante notar que nada disso acontece sem que possa medir e prever até onde chegaremos em termos de destruição ambiental e genocídio dos povos indígenas, pois o conhecimento científico sobre medir os processos que causam esses processos continua avançando, permitindo que previsões como as que eu fiz em Helsinki, sejam posteriormente confirmadas por dados científicos irrefutáveis.

E é justamente por isso que a ciência e, por extensão, as universidades públicas brasileiras incomodam tanto o governo Bolsonaro.  Esses ataques não são porque a ciência e as universidades brasileiras não geram conhecimento robusto. É justamente pelo contrário!

Voltando à palestra em Helsinki, me foi perguntado como é que seria possível impedir o cenário devastador que eu acabara de prever. Dividi minha resposta em 3 componentes: a) a ciência deveria continuar ocupada em gerar dados robustos sobre a destruição que viria, b) haveria que se organizar a resistência política interna à destruição que estava planejada pelos vencedores das eleições presidenciais de 2018, e 3) a solidariedade internacional ativa aos que resistiriam dentro do Brasil seria fundamental para que a resistência tivesse a mínima chance de ser vitoriosa. 

Pensando bem, aquele meu receituário simples parece mais necessário do que nunca. E os amplos sinais de que há uma solidariedade internacional em prol da preservação da Amazônia e dos seus povos originários,  demandam que continuemos trabalhando internamente nos outros dois itens.