As razões do atual ataque ideológico e financeiro às universidades públicas

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No último debate presidencial transmitido pela Rede Globo coube ao senhor Kelmon Luis da Silva Souza (a.k.a., “Padre Kelmon”) realizar um forte ataque ideológico às universidades públicas brasileiras. Dentre os muitos absurdos assacados por um cidadão cuja ligação a algum tipo de clero é, no mínimo, questionável sobressaiu-se a repetição da cantilena de que as universidades públicas, muitas deles reconhecidas internacionalmente como centros de divulgação de pesquisas inovadoras e de formação de recursos humanos qualificados, de que não passamos de núcleos esquerdistas que nada dão de volta para o país.

O problema aqui é que o “Padre Kelmon”  (que em sua vida terrena é o feliz proprietário de uma loja de artigos religiosos e bijuterias em um prédio comercial em Brasília) serviu-se do local onde estava para ser o porta-voz dos esgoto in natura que prolifera nas redes de comunicação da extrema-direita brasileira.  Quem tem um mínimo de conhecimento sobre o cotidiano das universidades sabe que nem somos um centro avançado do pensamento de esquerda (aliás, o inverso é que realmente ocorre), nem nossos estudantes vivem em orgias diárias, pois a maioria tem mesmo é que se virar para sobreviver ao rigor de uma vida universitária que muitas vezes não dá as devidas oportunidades para quem nela entra.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, mas principalmente como filho de um trabalhador metalúrgico, sei que as universidades públicas são a principal oportunidade para que muitos jovens saiam de situações de grande dificuldade social para se tornarem os primeiros de famílias inteiras a terem o grau universitário. Foi assim comigo, e assim como muitos dos jovens com quem tive a oportunidade de interagir desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Ao contrário do que se propala, a maioria deles se origina de famílias da classe trabalhadora que chegam até nós com imensas lacunas de formação, já que a degradação da rede pública de educação vem avançando de forma impiedosa. Entretanto, com as oportunidades oferecidas pela Uenf, tenho o orgulho de dizer que a imensa maioria dos meus alunos aproveitou a oportunidade para se elevar intelectualmente, tendo muitos deles alcançado níveis de formação que provavalmente ninguém em suas próprias famílias esperava.

Mas há que se olhar as reais razões dos ataques contra as universidades públicas para melhor desenhar formas de defendê-las do projeto de destruição que paira sobre elas neste momento.  Uma das primeiras razões é que a produção científica nacional sai majoritariamente das universidades públicas, já que a maioria das instituições privadas não só oferece ensino de baixíssima qualidade, mas como também nelas não se gera qualquer tipo de conhecimento científico.  Como vivemos em uma conjuntura onde conhecimento científico é equiparado como ameaça ao projeto político que é expresso por Jair Bolsonaro e seus filhos, temos essa campanha de difamação.

Por outro lado, há uma razão econômica para que se tenta desacreditar o potencial transformador que está depositado dentro das universidades públicas. É que desde que entrei na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1980 se sabe que há um projeto para privatiza-las para quem sejam transformadas em novas fábricas de diplomas que gerariam fortunas para seus proprietários.  Não é à toa que o governo Bolsonaro está seguindo a receita usual para quando se quer privatizar uma empresa pública: primeiro se desacredita, depois se privatiza.

Finalmente há a questão do acesso dos pobres às universidades públicas, pois mesmo com as oportunidades limitadas oferecidas pelas políticas afirmativas, hoje há uma maioria afluência de jovens pobres. Como a maioria desses jovens são afro-descendentes, aparece o incomodo que uma sociedade fraturada por diferenças raciais não tolera. Por isso, os ataques de natureza racista que volta e meia aparecem até dentro das próprias universidades.

Mas se sabemos as causas desse ataque visceral às universidades públicas, por que então tanto silêncio das comunidades universitárias que assistem caladas a todos essas alegações caluniosas? Salvo engano não houve qualquer manifestação pública contra o auto denominado “Padre Kelmon” por parte de reitorias ou sindicatos universitários e, tampouco, de associações representativas da ciência brasileira como a Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). 

Aliás, desde o golpe de 2016 contra a presidente Dilma que me pergunto o porquê de tamanha covardia por parte da comunidade acadêmica e científica brasileira contra essa campanha de difamação. Provavelmente é porque não devido valor ao risco que estamos sofrendo, ou porque se preferem a atitude escapista de que se o risco for ignorado, ele vai desaparecer por um passe de mágica.

Na minha opinião, é passada a hora de uma ampla campanha de defesa das universidades públicas que deveria começar justamente por quem está dentro dela. Não vai ser com a atual atitude de avestruz com a cabeça enterrada na areia que vamos responder ao ataque incessante que nos é promovido pela extrema-direita, muitas vezes com ajuda interna.  A hora de reagir é agora, pois se esperarmos mais tempo, o que acontecerá já está escrito nas estrelas e não é preciso ser astrônomo para saber do que se trata.

A degradação da educação, da ciência e do meio ambiente no Brasil

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(crédito: Caio Gomez)

Por Mercedes Bustamante- Professor titular do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília, membro da Academia Brasileira de Ciências

“Cupinização silenciosa e invisível.” Assim descreveu a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, o processo de degradação sistemática dos órgãos de fiscalização e controle do meio ambiente. A destruição por dentro, conduzida nos meandros das instituições, está claramente expressa nas taxas crescentes de desmatamento e conversão agrícola em vários biomas, na violação da legislação ambiental e de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais e comprometimento de recursos naturais e da estabilidade climática.

A cupinização também é aparente no Ministério da Educação e seus órgãos associados, como Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Capes, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), afetando um componente crucial para a redução das desigualdades sociais e econômicas ainda tão agudas no Brasil e que foi extremamente prejudicado durante a pandemia de covid-19. Escolas e universidades públicas atravessaram dois anos sem uma condução efetiva do Ministério da Educação (MEC) para lidar com os desafios impostos por esse choque global. Tal realidade, aparentemente, passou desapercebida no balcão (ou púlpito) de negócios que se instalou nas entranhas no ministério.

Igualmente crucial, a área de ciência e tecnologia é vítima de outra estratégia — a destruição por inanição. A redução drástica de recursos de custeio, bolsas e investimentos mina décadas de políticas que determinaram avanços científicos importantes e a formação de recursos com competências para abrir os caminhos do país diante dos significativos desafios que nos aguardam.

Tais desafios estão, precisamente, na convergência das políticas de educação, ciência e meio ambiente. Em 4 abril, foi lançada a terceira parte do 6o ciclo de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudança do Clima (IPCC). Para nos recolocar na rota de atingir a meta de manter o aquecimento global em 1,5oC, estabelecida globalmente pelo Acordo de Paris, precisaremos reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa até 2030.

Enquanto o mundo como um todo reduziu as emissões em 2020 em função da pandemia de covid-19, o Brasil aumentava suas emissões impulsionadas pelo desmatamento que seguiu impunemente mesmo diante de grave crise sanitária. Em 2021, o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) registrou a maior taxa de desmatamento da Amazônia desde 2006. A conservação de ecossistemas naturais e sua restauração ecológica são precisamente alternativas com grande potencial de mitigação das emissões, custos acessíveis de implementação e inúmeros benefícios como conservação da biodiversidade, segurança hídrica e alimentar.

Igualmente, a mensagem clara sobre a necessidade de abandonar combustíveis fósseis, em especial o carvão, não encontrou eco no governo federal. Recentemente, foi sancionada uma lei que obriga a compra de eletricidade gerada por termelétricas a carvão mineral, localizadas em Santa Catarina. A lei determina a contratação da energia produzida a partir de fonte extremamente poluente até 2040, uma década após o prazo em que deveríamos estar contribuindo para o esforço global de redução das emissões.

O relatório destaca como ciência e tecnologia foram fundamentais para reduzir o custo de energias renováveis como solar e eólica e de baterias, e traz ainda um novo capítulo sobre inovação, desenvolvimento e transferência de tecnologia. Um sistema de inovação bem estabelecido, orientado por políticas bem projetadas, pode contribuir para a mitigação, adaptação e alcance das metas de desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, evitar consequências indesejadas. No entanto, mais uma vez, caminhamos na direção contrária. Vamos a um futuro incerto, menos preparados e mais dependentes de alternativas desenvolvidas por outros países em função do estrangulamento de nossa ciência.

A transição para economias de baixo carbono implica em profundas mudanças na estrutura econômica e consequências distributivas dentro e entre países. A equidade e justiça social continuam sendo elementos centrais para a solução da crise climática. Transições justas devem abrir oportunidades de empregos adequados a essa nova realidade, mas demandam novas habilidades e a capacitação de recursos humanos e instituições. A educação em um mundo sob aquecimento global deve contribuir para o debate da sustentabilidade e a justiça ambiental. A antecipação de novas necessidades demanda a identificação das questões certas, bons dados e estatísticas e uma visão de política pública educacional que preconize a construção desse futuro e não as cartilhas do passado.

Entre as lições da pandemia que o IPCC elencou para a mudança climática estão: o valor do gerenciamento de risco prospectivo, o papel da avaliação científica, ações preparatórias e a importância de instituições. Exatamente o oposto que os três últimos anos trouxeram para a educação, ciência e meio ambiente no Brasil.

(Artigo endossado pela Coalizão Ciência e Sociedade que reúne pesquisadores de todas as regiões brasileira)


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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Correio Braziliense [Aqui!].

Estudos mostram lado nefasto do produtivismo acadêmico

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Por Evanildo da Silveira para a “Questão de Ciência”

Ninguém do mundo acadêmico desconhece a expressão – ou princípio, ou mandamento – “publish or perish”, em português “publique ou pereça”. Significa que um cientista que não publica artigos em periódicos especializados, relatando suas descobertas, não é produtivo, é irrelevante ou, no limite, não existe para a comunidade acadêmica. Ele terá dificuldades para progredir na carreira, conseguir financiamento para suas pesquisas e formar novos pesquisadores, pois não terá bolsas de mestrado ou doutorado a oferecer.

Aos poucos, no entanto, esse mantra draconiano começa a ser questionado. Ou pelo menos estudado. “O número de artigos científicos com o tópico ‘publish or perish’ tem aumentado nos últimos anos, publicados em revistas de diferentes áreas do conhecimento e não apenas em revistas dedicadas à cientometria, por exemplo”, diz o físico Peter Alexander Bleinroth Schulz, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Limeira. “A percepção é de que a cultura associada ao mandamento precisa ser mudada”.

De acordo com ele, é o que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionado no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos, em diferentes áreas, sobre este tema vem crescendo notavelmente nos últimos anos. Schulz cita um estudo realizado na área de Economia em universidades holandesas pelo pesquisador Henrik van Dalen.

O autor do trabalho explica que escolheu estudar as faculdades de Economia da Holanda porque elas alcançaram uma posição de destaque na Europa e vêm se internacionalizando rapidamente. Quarenta e três por cento dos estudantes delas são estrangeiros e a maioria das aulas nos departamentos de economia é ministrada em inglês.

Van Dalen detectou uma clara divisão entre os economistas. Aproximadamente dois terços dizem que a pressão para publicar tem mais pontos negativos do que positivos, e um terço vê apenas pontos positivos e não negativos. Essa divisão não ocorre por causa da pressão em si, pois todos a sofrem igualmente. De acordo com o autor, o posicionamento em relação ao princípio de publicar ou perecer está mais ligado ao lugar que se ocupa na hierarquia. Professores titulares têm uma atitude muito mais positiva quanto ao princípio.

Para o médico Guilherme Werneck, doutor em saúde pública e epidemiologia pela Universidade de Harvard e professor das universidades Federal (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o impacto do “publique ou pereça” é perceptível em várias áreas do conhecimento e gera preocupações sobre suas consequências na formação de pesquisadores e, ao final, na própria credibilidade da ciência. “Por isso, muitos grupos de pesquisa têm se dedicado a estudar este processo em diferentes áreas e contextos, enfatizando os seus efeitos em vários aspectos da vida acadêmica”, diz.

Entre esses aspectos, estão ética na pesquisa; credibilidade da ciência; redução do interesse pela carreira acadêmica; qualidade de vida e saúde mental de pesquisadores; desperdício de recursos com pesquisas e artigos pouco relevantes ou não inovadores; custos crescentes do uso de recursos de pesquisa para publicação; explosão de editoras e revistas científicas de má qualidade (popularmente conhecidas como revistas e editoras “predatórias”).

Segundo Werneck, existem muitos dados na literatura sobre esses temas. Como exemplo, cita um estudo feito na França que mostrou que os critérios de autoria do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) muitas vezes não foram seguidos, e que a “autoria concedida”, quando o nome de um pesquisador que não colaborou de modo significativo com o trabalho aparece na lista de autores,  era uma prática frequente. “O sistema ‘publicar ou perecer’ foi apontado como a principal causa desses abusos”, diz.

Outra pesquisa, realizada na Holanda, identificou que uma atitude negativa em relação ao sistema de publicação está presente em todos os níveis acadêmicos e campos disciplinares. Nesse estudo, pós-doutorandos e professores assistentes perceberam o maior estresse em relação à publicação, e os doutorandos notaram falta de recursos para enfrentar situações de estresse relacionado à demanda por publicação.

Werneck cita um terceiro exemplo. Um inquérito nacional entre pesquisadores biomédicos na Bélgica mostrou que 15% dos entrevistados admitiram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados nos últimos três anos. “A pressão da publicação foi frequentemente relatada (72%) e significativamente associada com maior gravidade de má conduta científica”, diz.

Os pesquisadores brasileiros não estão alheios ao assunto. “Existe uma iniciativa em andamento no país para replicar experimentos biomédicos realizados ao longo dos últimos 20 anos”, conta Werneck. “O trabalho poderá jogar luz sobre a confiabilidade da pesquisa publicada nessa área”.

Para o biólogo Demétrio Luís Guadagnin, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essas iniciativas e estudos que vêm sendo realizados mostram que a ciência é capaz de ser cética consigo mesma. “É uma autocrítica que está sendo feita”, diz. “Isso é bom, é o caminho para melhorar”. Mas enquanto a melhora não vem, as consequências do “publique ou pereça” vão continuar existindo.

Guadagnin vê dois lados na questão. “Há consequências boas e ruins (lembrando que o que é bom ou ruim depende de quem julga)”, explica. “Pelo lado bom, conforme o julgamento ortodoxo, a seleção dos melhores e os consequentes ganhos de eficiência e produtividade na academia. Pelo lado ruim, a deturpação dos valores superiores da ciência em favor de caminhos que facilitem a permanência e ascensão no sistema”.

Schulz é mais incisivo. Para ele, a principal consequência do princípio do “publique ou pereça” é que a publicação deixa de ser uma consequência natural da pesquisa para ser um fim em si mesmo. Em outras palavras, deixa-se de avaliar a ciência em si para, simplesmente, considerar o número de artigos e seus indicadores associados. “Em uma analogia econômica, deixa-se de lado a economia real para só olhar o mercado financeiro”, compara.

A química Teresa Dib Zambon Atvars, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acrescenta outras consequências, entre elas o surgimento de revistas com pouca qualificação e que publicam artigos com pouco ou nenhum critério de qualidade. “Na sequência, surge um comércio com as chamadas revistas predatórias, nas quais se paga para publicar”, diz. “Todos os dias os pesquisadores recebem convites para publicar ou para organizar números especiais, convidando colegas. Algumas dessas são sérias, têm impacto, são lidas, outras são apenas depósitos de papers impublicáveis em revistas mais sérias”.

Por isso, considera, o sistema precisa mudar. Caso contrário, a ciência corre risco de estagnação. No Brasil, ela diz que a alternativa é medir o potencial de inovação da pesquisa, não no sentido de gerar tecnologia, mas no de avaliar corretamente o que o trabalho traz de novidade em relação ao que vem sendo feito, no mesmo campo, pelos melhores grupos do mundo. “Isto significa mudar a cultura de avaliar resultado (o número de papers) para medir impacto (no que o trabalho feito muda a ciência)”, defende. “Não é fácil, mas é necessário. Exige uma mudança de paradigmas, uma cultura de avaliação e preparo para fazê-la”.

Segundo o biólogo Victor Jose Mendes Cardoso, professor aposentado do Instituto de Biociências do campus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para que ocorram mudanças deve ficar claro que publicar faz parte da vida de todo cientista. Quem não publica não divulga suas ideias e sua contribuição às ciências e à sociedade em geral. “A questão é que ‘publicar’ deve ser entendido num conceito amplo, não necessariamente a produção de papers, mas também outros meios de divulgação e de interação com o público alvo das pesquisas”, explica. “Atualmente, a produção de artigos científicos assume uma importância desmesurada. Isso precisa mudar”.

Evanildo da Silveira é jornalista

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Este texto foi originalmente publicado pela revista “Questão de Ciência” [Aqui!].

Revelado: Elsevier, a principal editora de pesquisa climática, ajuda a perfuração de petróleo e gás

O trabalho da Elsevier com empresas de combustíveis fósseis ‘nos arrasta para o desastre’, diz pesquisador climático

elsevierA Elsevier é uma das poucas empresas que publicam pesquisas climáticas revisadas por pares, mas também consulta a indústria para encontrar reservas de petróleo e gás. Fotografia: Kristoffer Tripplaar/Alamy

Por Amy Westervelt para  o “The Guardian”

Cientistas que trabalham com uma das maiores editoras de pesquisa climática do mundo dizem que estão cada vez mais alarmados com o fato de a empresa trabalhar com a indústria de combustíveis fósseis para ajudar a aumentar a perfuração de petróleo e gás, pode revelar o Guardian.

A Elsevier, uma empresa holandesa por trás de muitas revistas científicas de renome, revisadas por pares, incluindo Lancet e Global Environmental Change, também é uma das principais editoras de livros destinados a expandir a produção de combustíveis fósseis.

Por mais de uma década, a empresa apoiou os esforços do setor de energia para otimizar a extração de petróleo e gás. Ele contrata autores, editores e membros do conselho consultivo de periódicos que são funcionários das principais empresas petrolíferas. A Elsevier também comercializa alguns de seus portais de pesquisa e serviços de dados diretamente para a indústria de petróleo e gás para ajudar a “aumentar as chances de sucesso na exploração” .

Vários ex-funcionários e atuais funcionários dizem que, no ano passado, dezenas de trabalhadores se manifestaram internamente e nas prefeituras de toda a empresa para instar a Elsevier a reconsiderar seu relacionamento com a indústria de combustíveis fósseis .

“Quando comecei, ouvi muito sobre os compromissos climáticos da empresa”, disse um ex-editor da revista Elsevier que concordou em falar sob condição de anonimato. “Eventualmente, percebi que era tudo marketing, o que é realmente perturbador porque a Elsevier publicou todas as pesquisas necessárias para saber exatamente o que fazer se quiser fazer uma diferença significativa.”

O que torna os laços da Elsevier com a indústria de combustíveis fósseis particularmente alarmantes para seus críticos é que ela é uma das poucas empresas que publicam pesquisas climáticas revisadas por pares. Cientistas e acadêmicos dizem estar preocupados que os interesses comerciais conflitantes da Elsevier arrisquem prejudicar seu trabalho.

Julia Steinberger, ecologista social e economista ecológica da Université de Lausanne, que publicou estudos em várias revistas da Elsevier, disse que ficou chocada ao saber que a empresa teve um papel ativo na expansão da extração de combustíveis fósseis.

“A Elsevier é a editora de alguns dos periódicos mais importantes na área ambiental”, disse ela. “Eles não podem alegar ignorância dos fatos da mudança climática e da necessidade urgente de se afastar dos combustíveis fósseis.”

Ela acrescentou: “O modelo de negócios deles parece lucrar com a publicação de ciência climática e energética, ignorando o fato mais básico da ação climática: a necessidade urgente de se afastar dos combustíveis fósseis”.

A Elsevier e sua controladora, RELX, dizem que estão comprometidas em apoiar a indústria de combustíveis fósseis à medida que ela transita para a energia limpa. E embora a Elsevier tenha emergido como líder do setor com suas próprias promessas climáticas, um porta-voz da empresa disse que eles não estão preparados para traçar uma linha entre a transição dos combustíveis fósseis e a expansão da extração de petróleo e gás. Ela expressou preocupação com editores boicotando ou “cancelando” empresas de petróleo e gás.

“Reconhecemos que somos imperfeitos e temos que fazer mais, mas isso não deve negar todo o trabalho incrível que fizemos nos últimos 15 anos”, disse Márcia Balisciano, chefe global de responsabilidade corporativa da RELX, ao Guardian. .

Das mais de 2.000 revistas acadêmicas que a Elsevier publica, apenas sete são específicas para extração de combustíveis fósseis (14 se você contar publicações especiais e subsidiárias). Esses periódicos incluem Upstream Oil and Gas Technology, cujo editor-chefe trabalha para a Shell, e Unconventional Resources, que é editado por um pesquisador da Chevron. Também administra uma editora de livros subsidiária, a Gulf Publishing, que inclui títulos como The Shale Oil and Gas Handbook e Strategies for Optimizing Petroleum Exploration .

Duas imagens de capa de livro são mostradas lado a lado.  O da esquerda mostra uma ilustração de uma plataforma de petróleo em um campo com o título “Shale Oil and Gas Handbook: Theory, Technologies and Challenges”.  O da direita tem o texto do título “Estratégias para Otimização da Exploração de Petróleo” em uma caixa marrom em um fundo verde sálvia.
Dois livros publicados pela subsidiária da Elsevier, Gulf Publishing, totalmente focada na indústria de combustíveis fósseis. Composto: Elsevier

A Elsevier também presta serviços de consultoria para clientes corporativos. Nos últimos 12 anos, tem comercializado uma ferramenta chamada Geofacets para empresas de combustíveis fósseis. O Geofacets combina milhares de mapas e estudos para facilitar a localização e o acesso às reservas de petróleo e gás, além de locais para parques eólicos ou instalações de armazenamento de carbono.

A empresa afirma que a ferramenta reduz o tempo de pesquisa em 50% e ajuda a identificar “áreas mais arriscadas e remotas que antes eram inacessíveis”.

Os principais cientistas climáticos, incluindo aqueles publicados nos próprios periódicos da Elsevier, no entanto, dizem que exatamente o oposto deve acontecer para evitar uma catástrofe climática. Limitar o aquecimento a 1,5°C ou menos requer uma diminuição mundial na produção de combustíveis fósseis com mais de 80% de todas as reservas comprovadas deixadas no solo.

“Não comentaremos as práticas de empresas individuais, mas quaisquer ações que apoiem ativamente a expansão do desenvolvimento de combustíveis fósseis são de fato inconsistentes” com as metas de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, disse Sherri Aldis, vice-diretora interina do departamento de comunicações globais da ONU. .

A RELX é uma empresa surpreendentemente lucrativa , com receitas anuais de US$ 9,8 bilhões, cerca de um terço dos quais são trazidos pela Elsevier. Balisciano enfatiza que o conteúdo de combustível fóssil representa menos de 1% da receita editorial da Elsevier e menos da metade da receita da Geofacets, que por si só representa apenas cerca de 2% dos ganhos da Elsevier.

A RELX e a Elsevier dizem que a maior parte de seu trabalho apoia e permite uma transição energética por meio de publicações centradas em energia limpa. “Não queremos desenhar um binário e não achamos que você possa simplesmente apertar um botão, mas estamos reduzindo nosso envolvimento com atividades de combustíveis fósseis enquanto aumentamos a quantidade de pesquisas que publicamos sobre clima e energia limpa”, disse Esra Erkal, vice-presidente executiva de comunicações da Elsevier.


A Elsevier não está sozinha no relacionamento com pesquisadores climáticos e executivos de combustíveis fósseis. Vários outros editores de pesquisas climáticas revisadas por pares assinaram o Pacto de Editores de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, ao mesmo tempo em que fazem parceria com a indústria de petróleo e gás de várias maneiras.

Uma imagem mostra a capa de uma edição do The Lancet, com o título “The 2020 report of the Lancet Countdown on health and Climate Change”.  A imagem da capa é uma silhueta de uma criança parada em um caminho escuro em uma área arborizada.
The Lancet, um dos principais periódicos da Elsevier, publica um relatório anual sobre como o aquecimento climático afeta a saúde humana. Fotografia: The Lancet

A editora com sede no Reino Unido Taylor & Francis, por exemplo, assinou o compromisso da ONU e divulgou seus próprios compromissos de zero líquido, ao mesmo tempo em que divulga sua parceria de publicação com a “líder da indústria” ExxonMobil, a empresa petrolífera mais ligada ao obstrucionismo climático na consciência pública. . Outra importante editora climática, a Wiley, também assinou o pacto de sustentabilidade ao publicar vários livros e periódicos destinados a ajudar a indústria a encontrar e perfurar mais petróleo e gás.

“É problemático”, disse Kimberly Nicholas, professora associada de ciência da sustentabilidade na Universidade de Lund, na Suécia, observando que, embora a lavagem verde corporativa seja desenfreada em vários setores, os editores de pesquisas climáticas revisadas por pares têm uma responsabilidade única.

“Se a mesma editora que publica os artigos que mostram definitivamente que não podemos queimar mais combustíveis fósseis e permanecer dentro desse orçamento de carbono também está ajudando a indústria de combustíveis fósseis a fazer exatamente isso, o que isso faz com toda a premissa de validade em torno do pesquisa de clima? Isso é o que é profundamente preocupante nesses conflitos”, disse ela.

Ben Franta, pesquisador da Universidade de Stanford que também publicou estudos em periódicos da Elsevier, observa que o relacionamento da editora com as empresas petrolíferas é indicativo de quão entrelaçada essa indústria está com tantos outros aspectos da sociedade.

“Tudo isso acontece sem que o público em geral saiba e opera para consolidar a indústria”, disse ele. “Para efetuar uma rápida substituição dos combustíveis fósseis, acredito que esses emaranhados precisarão ser expostos e reformados”.

A Elsevier, por sua vez, enfatiza o papel da independência editorial. “Nós não gostaríamos de dizer aos editores de periódicos o que eles podem e não podem publicar”, disse Balisciano. No entanto, esses conflitos geralmente colocam os pesquisadores em uma posição difícil de navegar.

James Dyke, diretor assistente do Global Systems Institute da Universidade de Exeter, ficou surpreso com o fato de a Elsevier estar trabalhando para contradizer os pesquisadores climáticos dessa maneira.

“É difícil acreditar que uma empresa que publica pesquisas sobre os perigos das crises climáticas e ecológicas seja a mesma empresa que trabalha ativamente com empresas de petróleo e gás para extrair mais combustíveis fósseis, o que nos arrasta para o desastre”, disse ele.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

Ciência: um crescente mal-estar e a necessidade das mudanças, por Peter Schulz

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Por Peter Schulz para o “Jornal da Unicamp”

O mal-estar, para deixar claro de início, é em relação ao desmesurado universo da produção científica, bem como às práticas medir esta produção por meio do número de artigos publicados e de citações – que, ao serem adotadas, desmesuram ainda mais esse universo. Já escrevi vários textos neste espaço relacionados, direta ou indiretamente, a este tema. Mesmo instigado por novas fontes e acontecimentos, também sinto um mal-estar em retomar o assunto, afinal, já não falei sobre isso? Porém, pensando melhor e com essa advertência de possível autoplágio, a partir do que eu tenho observado, considero necessário retomar dois textos anteriores: o primeiro que também traz a palavra mal-estar no título[I] e o segundo sobre algumas reações a esse mal-estar e a percepção de que mudanças são necessárias[II]. O que mudou nos poucos anos entre esses textos e o que escrevo agora é que há tanto sinais de mudanças como de preservação da situação (ou seja, reações contra as mudanças). Então, no balanço, talvez valha mesmo a pena retomar a questão.

O adágio “publique ou pereça”, vulgo “publish or perish” é amplamente conhecido no mundo acadêmico e, aos poucos, fora dele. A expressão é antiga: já em 1951, Marshall MacLuhan teria escrito a Ezra Pound que “publicar ou perecer é o lema da espelunca”, sendo que o poeta chamara anteriormente as universidades de espeluncas. Ou seja, o lema é longevo, sobrevivendo e ganhando importância com o passar do tempo no mundo da pesquisa científica. Como exemplo, recolho das buscas um artigo de 1986, de uma médica, Marcia Angel: “Publish or perish: a proposal”[III]. O resumo do artigo, sintetiza a percepção da autora há 35 anos:

“Devido ao fato de que promoções e financiamento de médicos na medicina acadêmica estão estreitamente ligados ao número de publicações, pesquisadores sentem-se impelidos a publicar tão frequentemente quanto possível. Essa pressão leva a um número de práticas desafortunadas na publicação médica, incluindo realizar estudos triviais porque estes rendem resultados rápidos, o desnecessário relato do mesmo estudo em diferentes apresentações, relatar o estudo mais de uma vez e listar como autores pessoas com envolvimento marginal no trabalho. E pode ser também motivação para fraude. Uma maneira efetiva de reduzir essas ofensas e afirmar a supremacia do essencial sobre o volume […] é colocar um teto no número de publicações a serem consideras para fins de promoção ou financiamento. Cada publicação [considerada mais relevante] receberia assim mais atenção…”.

É exatamente a mesma discussão de hoje, passadas essas três décadas e meia! No meio tempo surgiram os rankings globais de universidades (começo do século XXI) que, como um vírus e suas variantes, infectaram o mundo acadêmico. Não é preciso dizer que os rankings são fortemente ligados aos indicadores. Assim, apesar dos diagnósticos bem anteriores à propagação desses novos vírus, até agora poucas medidas de distanciamento à ilusão e ao delírio foram tomadas. Essa frase remete a um artigo recente do jornalista Carlos Orsi: “Medo e delírio na comunicação da ciência”[IV]. O jornalista é atento e arguto observador do mundo da ciência e, 35 anos depois da médica norte-americana, dispara algo similar sobre uma plausível grande parcela dos trabalhos e o cenário em que se inserem:

“São trabalhos que existem porque é preciso cumprir alguma meta burocrática de publicações para conquistar este ou aquele índice neste ou naquele ranking, não porque havia uma questão legítima a ser respondida, um aspecto relevante da natureza a ser explorado, uma hipótese viável a ser testada; e que são conduzidos no limite inferior da qualidade metodológica, às vezes representando pouco mais do que pobres arremedos”.

E causticamente, sem o compromisso da médica com alguma solução, afinal, cabe à academia mesmo cuidar disso, finaliza: “esperamos que os cientistas se resolvam com suas ilusões (aparecer nas listas de mais influentes, por exemplo) e as universidades despertem de seus delírios de grandeza (querer subir nos rankings para emparelhar com Oxford, outro exemplo).

Mas isso tudo pode parecer apenas ressentimento de alguns muitos, afinal o tal “publique ou pereça” tem lá seus méritos e, de fato, em um estudo de caso (economia nas universidades holandesas), Henrik van Dalen aponta para uma comunidade acadêmica dividida[V]: “professores titulares enxergam, mais do que outros membros do corpo docente, lados positivos do princípio “publish or perish” e virtualmente nenhuma desvantagem”. Esse artigo acadêmico de 2021 mostra que nos últimos anos, publicar ou perecer, deixou os espaços de ensaio e opinião para virar objeto de pesquisa científica. É que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionada em artigos no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos em diferentes áreas sobre este tema vêm crescendo notavelmente nos últimos anos. Voltando à percepção dos professores titulares na Holanda, o recado dado aos pesquisadores mais jovens neste ano (2021) é claro no sítio de assessoria à publicação voltada e esse público (Proof-Reading-Service.com): “Como publicar 50 papers por ano”[VI]. Ao ler o texto, notei que as dicas já são seguidas como um mantra por alguns colegas, segundo confissões ou profissões de fé. A isso somam-se as fábricas de artigos, por meio das quais seu nome pode ser incluído como autor em um artigo pronto, frente a uma “módica” contribuição. Sobre isso, também há um texto na revista Questão de Ciência[VII].

Novamente, a minha história de pesquisador, que sempre valorizou a publicação de artigos em periódicos de seletiva política editorial, etc., etc., (sempre obedecendo ao princípio atribuído a César Lattes: “é muito bom publicar um artigo, desde que se tenha algo a dizer primeiro”), pede que vieses (no caso contra o produtivismo burro para atender às métricas, ainda que muitos dos seus praticantes acreditem que tudo isso é pelo bem da ciência) sejam considerados com cuidado. Assim, nada melhor do que um estudo quantitativo cuidadoso para guiar um pouco a discussão. Um extenso levantamento bibliográfico de artigos e citações de várias décadas e uma acurada análise, realizados por Johan Chu e James Evans[VIII], publicado em outubro de 2021, sugere uma crescente desigualdade nas citações de artigos: cada vez mais são sempre os mesmos citados ao passo que possíveis contribuições importantes passam despercebidas no “dilúvio de artigos” (o corolário é que cresce diluvianamente o número de artigos sem relevância, cumpridores de metas e que também não são citados). Apresento pequenos excertos do texto sobre o cenário delineado (os aspectos metodológicos, dados e resultados podem ser apreciados no link logo acima):

“O dilúvio de novos artigos pode privar revisores e leitores da abertura cognitiva necessária para reconhecer e entender novas ideias […] A atual natureza do empreendimento científico, calcada na métrica de ‘mais é melhor’ pode retardar, ironicamente, o progresso nos campos científicos maiores”.

E atenção para uma das conclusões!

“Sistemas de promoção e reconhecimento que evitem medidas quantitativas e valorizem um número menor de contribuições, mais robustas e inovadoras, poderiam reduzir o dilúvio de artigos competindo por atenção em seu campo”. Chegamos em 2021 a uma proposta já enunciada em 1986, caso alguém se lembre da citação no começo desse texto.

Se “publicar ou perecer” está virando um campo quantitativo de pesquisa, as reações às maneiras automatizadas de avaliação começam a ser qualitativamente revistas mundo afora. Três cientometristas conhecidos e influentes escreveram uma carta, também publicada agora em 2021: “Um apelo por uma mudança radical na avaliação de pesquisa na Espanha”[IX]. O cenário espanhol descrito é muito parecido com o brasileiro: o fetiche em relação ao uso das métricas e suas consequências negativas, enumerando movimentos iniciados na década passada, cujos princípios deveriam ser considerados nas mudanças radicais pedidas. E novos movimentos e mudanças, ainda que não tão radicais, são implementadas. Enumero apenas três delas. A iniciativa é mais antiga, mas segue: é o movimento pela “des-execelência”, iniciado por um grupo de pesquisadores da Universidade Livre de Bruxelas[X]. O site todo é em francês, mas o slogan é autoexplicativo, ainda que misturando francês e inglês: “esqueça seu fator de impacto (que é uma dessas métricas, a mais fajuta delas, na verdade, ainda que amplamente utilizada), aqui temos a des-excelência”.

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De novo aquele muro entre um possível ressentimento(?) e um diagnóstico preciso? Pois a carta do movimento é um diagnóstico acurado. E, como anunciei, mudanças acontecem. Em meados de 2021, saiu o anúncio de que a Universidade de Utrecht na Holanda deixará de lado, pelo menos parcialmente, as métricas[XI]. O autor do projeto da mudança de avaliação declarou para a revista Nature: “fatores de impacto – bem como métricas relacionadas, como o índice H – contribuem para a ‘produtificação’ da ciência, que valoriza volume em vez de boa pesquisa […] Isso se tornou um modelo muito doentio, que vai além do que é realmente relevante na ciência”.

Nas últimas semanas, uma pequena nota no jornal francês, Le Monde[XII], trouxe comentários sobre estas mudanças em vários países, inclusive na França, com avaliações se distanciando das métricas: ‘se não é uma revolução, é uma mudança cultural, de paradigma’. Por que a mudança? Segundo comentário de Chérifa Boukacem, professora da Universidade Claude Bernard-I em Lyon, “passamos a pensar em ‘publicação’ e não mais em ‘pesquisa’. Não tentamos mais produzir conhecimento, mas nos perguntamos que tipo de artigo seria interessante fazer”. Fica no ar a pergunta: interessante para que ou para quem? Resposta possível: um fim em si mesmo.

É hora de discutirmos mais detidamente intramuros acadêmicos o que estamos fazendo por aqui, com os medos, ilusões e delírios. As ideias e ações surgem em vários lugares! Precisamos de novas cenouras e novos rumos.

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Observação: Os artigos publicados não traduzem a opinião do Jornal da Unicamp. Sua publicação tem como objetivo estimular o debate de ideias no âmbito científico, cultural e social.


[I]https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/malaises-da-ciencia

[II]https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/artigos/peter-schulz/um-manifesto-pela-universidade-publica

[III]https://www.acpjournals.org/doi/pdf/10.7326/0003-4819-104-2-261

[IV]https://revistaquestaodeciencia.com.br/apocalipse-now/2021/11/21/medo-e-delirio-na-comunicacao-da-ciencia

[V]https://www.researchgate.net/publication/344025747_How_the_Publish-or-Perish_Principle_Divides_a_Science_The_Case_of_Academic_Economists

[VI]https://www.proof-reading-service.com/en/blog/publish-50-papers-year/

[VII]https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2021/11/23/fabricas-de-artigos-falsos-expoem-fragilidade-da-publicacao-academica

[VIII]https://www.pnas.org/content/118/41/e2021636118

[IX]https://revista.profesionaldelainformacion.com/index.php/EPI/article/view/86526/62971

[X]https://lac.ulb.ac.be/LAC/home.html

[XI]https://www.nature.com/articles/d41586-021-01759-5

[XII]https://www.lemonde.fr/sciences/article/2021/11/23/chambardements-dans-l-evaluation-des-scientifiques_6103279_1650684.html

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da Unicamp” [Aqui! ].

A ciência moderna tem nas métricas a sua Guantánamo

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Recentemente publiquei neste blog um texto publicado pela revista Nature acerca da difusão de práticas de captura de material científico por editoras predatórias que estão cada vez mais sofisticada em atrair pesquisadores ansiosos por melhorar sua performance em um amplo mercado de índices de mensuração (as chamadas métricas). Um colega que reputo ser da mais alta capacidade científica apontou que a discussão em torno dos métricas não é novo, mas que falta apontar um caminho que não fique apenas na crítica pela crítica, pois, suponho, há que se medir para conferir algum nível de chancela de qualidade que nos permita olhar para além da quantidade de artigos publicados, pois a imensa maioria não será lida uma mísera vez sequer.

Após refletir sobre esse chamado à produção de respostas práticas para sairmos da armadilha criada pelos operadores do mercado editorial para nos meter em uma espiral interminável de publicações que estão mais para lixo científico do que para conhecimento que mereça ser classificado como ciência, penso que não haverá saída para o atual imbróglio da quantidade sobre a qualidade se ficarmos tentando colocar o gato de volta dentro do saco. Em minha modesta opinião há que se jogar o saco fora, para voltarmos a nos preocupar com o que deveria ser essencial na produção do conhecimento científico, qual seja, que o produto das pesquisas realizadas sejam de fato baseadas no uso apurado da análise crítica, de forma a privilegiar não as necessidades de obtenção de recursos financeiros, seja para executar projetos de pesquisa ou, simplesmente, atender as necessidades econômicas pessoais dos pesquisadores.

O problema é que como toda qualquer outra coisa, o Capitalismo transformou a ciência, e principalmente os artefatos que são usados para demonstrar a sua realização em um tipo específico de commodity (para os interessados no processo de comodificação da ciência sugiro a leitura do livro “The Commodification of Academic Research: Science and the Modern University” de Hans Radder) que, como qualquer outra, é objeto de opções mercadológicas que privilegiam o chamado “valor de troca” em detrimento do “valor de uso”. Em outras palavras, em situações corriqueiras, o interesse de quem financia  e de quem produz ciência não tem nada a ver com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da evolução das formas de relação com os sistemas naturais da Terra, mas simplesmente com a acumulação de riquezas.

Alguém que estiver lendo este texto poderá apontar que até aqui, a única coisa que propus de concreto foi rasgar o saco em vez de tentar colocar o gato de volta dentro dele.  E se alguém notou isso, não me resta dizer que rasgar o saco (entendido aqui como uma metáfora do processo de comodificação da ciência) será muito mais difícil do que parece em princípio. É que depois de décadas de ações para  premiar os bem comportados que estão plenamente satisfeitos em viver aprisionados no labirinto das métricas (a qual equivale a uma espécie de Guatánamo que aprisiona a produção de ciência com revestimento crítico), pois isto traz recompensas palpáveis, sejam eles materiais ou apenas de reafirmação de uma cultura acadêmica hedonística.

Agência Bori e Embaixada Britânica realizam webinários sobre cobertura das mudanças climáticas

Voltadas a jornalistas, as atividades integram os preparativos para a COP26

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A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), o maior evento internacional deste ano e o encontro mais importante na área do meio ambiente desde o Acordo de Paris, se aproxima. O principal objetivo do governo britânico é tirar do papel o que foi acordado há seis anos em Paris.

Para dar visibilidade à COP26 e ampliar o debate público sobre o impacto das mudanças do clima em nossa sociedade, a Embaixada Britânica e a Agência Bori realizarão dois webinários, nos dias 7 e 13 de outubro, voltados a apoiar jornalistas na cobertura da Conferência. A participação é gratuita, mediante inscrição prévia.

O primeiro encontro, a ser realizado em 7 de outubro, discutirá os impactos das mudanças climáticas no Brasil. Liana Anderson, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), abordará os impactos socioambientais da degradação florestal, e Marcelo Galdos, da Universidade de Leeds, falará sobre estratégias de mitigação e adaptação da agricultura.

Já o segundo webinário, que ocorrerá no dia 13 de outubro, abordará o papel da ciência nas discussões de clima e conta com a participação do diretor do Hadley Center, Dr. Albert Klein Tank, e da Diretora de Engajamento em Ciência da COP26, Helen Adams.

Além da oportunidade de conversar com os especialistas sobre mudanças climáticas, os participantes dos webinários receberão material de apoio preparado especialmente para o evento.

Sobre a COP26

A COP26 será sediada pelo Reino Unido e acontecerá de 31 de outubro a 12 de novembro deste ano em Glasgow, na Escócia. A Conferência será considerada bem-sucedida pelo governo britânico se as negociações dos trechos finais do Acordo de Paris forem concluídas, mas, principalmente, se for iniciada a implementação e as ações no mundo real, tirando o Acordo de Paris do papel. Um dos principais objetivos é o de se firmar compromissos mais ambiciosos para limitar o aquecimento global a 1.5 ºC.

O Reino Unido tem demonstrado que é possível alcançar isso com metas ambiciosas. Nos últimos 30 anos, a economia britânica cresceu 78%, ao passo em que suas emissões foram cortadas em 44%. A meta do governo britânico, a mais ambiciosa entre as grandes economias do mundo, é reduzir suas emissões de carbono em 78% até 2035 e alcançar neutralidade de carbono até 2050. Para isso, o governo eliminará gradualmente a energia a carvão até 2024 e encerrará a venda de novos veículos movidos a gasolina e diesel até 2030.

O quê? Webinários Impactos das Mudanças Climáticas no Brasil COP26 e a ciência

Quando? 7 de outubro (quinta-feira), das 9h30min às 10h30min; e 13 de outubro (quarta-feira), das 9 às 10 horas

Onde? Encontro no Zoom – link a ser disponibilizado posteriormente aos inscritos

Para quem? Jornalistas interessados na cobertura de ambiente e clima.  As inscrições para o webinário do dia 7 podem ser realizadas até 4 de outubro neste formulário. As inscrições para webinário do dia 13 podem ser realizadas até 11 de outubro neste formulário. O único pré-requisito para efetuar a inscrição é ter cadastro na comunidade de jornalistas Agência Bori – que pode ser realizado gratuitamente a partideste link. O segundo webinar terá tradução simultânea.

Bio dos Palestrantes

Dra Liana Anderson é pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Antecipado de Desastres Naturais (CEMADEN) no Brasil e membro do corpo docente da pós-graduação em Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Liana é bióloga cujos interesses de pesquisa incluem o monitoramento de florestas e gestão dos riscos e impactos associados a incêndios florestais e extremos climáticos nos ecossistemas e nas comunidades.

Dr Marcelo Galdos é um pesquisador brasileiro que atua na Universidade de Leeds (Reino Unido), investiga estratégias de mitigação e adaptação da agricultura e de resiliência dos ecossistemas diante das projeções de modelos climáticos. Em 2020, o cientista foi selecionado como Líder Emergente no Reino Unido pela organização do Oxford Farming Conference, um importante evento do agronegócio britânico. Também é membro da Sociedade Britânica de Ciência do Solo.

Dra Helen Adams é professora na área de redução de riscos e adaptação às mudanças climáticas na King’s College, em Londres, e Diretora de Engajamento em Ciência da COP26.

Dr Albert Klein Tank é diretor do Met Office Hadley Centre para Estudos e Serviços Climáticos, instituição de referência na pesquisa sobre mudanças climáticas sediada no Reino Unido. O cientista trabalha com pesquisa em bases de dados para entender diferentes cenários de futuras tendências climáticas.

IPCC: a hora de agir é agora

Política negacionista de Jair Bolsonaro pode minar esforços climáticos globais e isolar o Brasil ainda mais no cenário econômico e político global

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2021 poderá ser lembrado no futuro como o ano em que a natureza e os cientistas se uniram para dar o alerta: a janela de oportunidade para manter o aquecimento global em níveis minimamente seguros para a humanidade está se fechando. Eventos climáticos extremos simultaneamente nos dois hemisférios do planeta ocorreram justamente nas semanas que antecederam o lançamento do primeiro relatório da nova série de avaliações do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ocorrido nesta segunda-feira (09/08).

A ciência do clima nunca foi tão precisa e tão clara: a influência humana sobre o clima é um fato estabelecido e indiscutível e a hora de agir é agora. Embora alguns impactos climáticos não sejam mais reversíveis, como no caso do derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos, o cenário geral ainda não está definido e essa é a grande mensagem deste relatório: as escolhas que fizermos agora determinarão nosso futuro. Limitar o aumento da temperatura em níveis relativamente seguros ainda é cientificamente possível. O que fizermos agora, o que empresas e políticos fizerem agora definirá nosso futuro.

Estamos no início da década mais decisiva da História para a ação climática. Com o novo relatório do IPCC, temos a mais abrangente e certeira avaliação do estado do clima no mundo e do que está por vir, dependendo do curso que escolhermos agora. Nos cenários de menor ação climática, as perspectivas são desastrosas: cada meio grau adicional de aquecimento global causa um aumento estatisticamente significativo nos extremos de temperatura.

O que o mundo está vivendo em 2021 já é afetado por um aumento médio de 1°C na temperatura e as perspectivas de curto prazo não são animadoras: o novo relatório do IPCC mostra que o mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, antes do previsto pelo relatório anterior. Isso não significa que a meta de 1,5°C no longo prazo esteja comprometida. Embora os níveis de aquecimento global de 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais sejam excedidos até o final do século 21 em todos os cenários projetados pelo IPCC, o cenário de menor emissões mostra que no longo prazo o limite de 1,5°C ainda é possível – e essa é a boa notícia e também o principal alerta que este relatório traz: não podemos abrir mão dessa meta. Não podemos permitir que interesses pessoais, eleitorais e setoriais se sobreponham aos interesses da humanidade presente e futura.

Todos os cenários analisados pelo IPCC apontam para uma mesma conclusão: é preciso cortar emissões e cortá-las o mais rápido possível. Para isso, é preciso que todos se empenhem para alcançar a neutralidade de carbono antes de 2050: governos nacionais, subnacionais e empresas devem estabelecer planos consistentes, com ações concretas imediatas e metas intermediárias.

Para o Brasil e demais países da bacia amazônica, o conteúdo do relatório do IPCC traz alertas adicionais: ele confirma que já não basta zerar as emissões – é preciso remover o carbono já existente na atmosfera. Como a floresta amazônica é um dos grandes sumidouros naturais de carbono do planeta, sua preservação é mais importante que nunca. Estudos indicam que partes da floresta já estão emitindo mais carbono do que capturando, em função de sua degradação que, se persistir nos níveis atuais, poderá pressionar todo o bioma além de seu ponto de equilíbrio, afetando o clima em todo o planeta, mas mais especialmente na América do Sul, colocando em risco a segurança alimentar, hídrica e energética do Brasil. Infelizmente, esse é o cenário para o qual o presidente Jair Bolsonaro está conduzindo nosso país.

Outro alerta do IPCC que tem relação direta com o Brasil diz respeito ao melhor entendimento dos gases não-carbono que também têm efeito estufa, como o metano. As emissões diretas da agropecuária representaram 28% do total brasileiro em 2019 segundo o 8º relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima. Desse total, 61,1% vieram da fermentação entérica. Ou seja, além de ser um fator de pressão sobre a floresta, a pecuária é também emissora de gases para os quais o IPCC pede mais atenção.

Em um ano em que a conta da luz e o preço da comida subiram vertiginosamente por conta de fatores climáticos, o relatório do IPCC adverte: o aquecimento global intensificará ainda mais as mudanças nos ciclos da água, incluindo a variabilidade ano a ano e a severidade dos ciclos úmidos e secos.

“Certamente não precisamos de um novo relatório para nos dizer que estamos em uma emergência climática: ela já afeta milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já pagamos mais caro pela energia elétrica, por nossa comida e estamos em sério risco hídrico por causa do clima. O que o novo relatório do IPCC sinaliza são as opções que podemos fazer hoje para que o amanhã seja seguro para todos. Em todo o mundo, o desafio é mudar a matriz energética. No Brasil, onde boa parte de nossa energia já é limpa, o desafio é zerar todo o desmatamento, que é o que nos coloca como sexto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo. A melhor ciência do planeta está nos mostrando que o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho da catástrofe e é isso que não podemos aceitar: interesses eleitorais e setoriais não podem prevalecer sobre o bem comum da nação.”
Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

Exemplo de como somos afetados pelas mudanças climáticas

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Geada afeta áreas de restauração florestal na região da Serra da Mantiqueira
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Mudas nativas plantadas em novembro e abril foram as mais atingidas

As geadas e temperaturas negativas registradas em julho na região da serra da Mantiqueira (divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais) afetaram diretamente até 80% das áreas em restauração do projeto Raízes do Mogi Guaçu, o equivalente à 47 hectares, em apenas uma das 18 áreas atingidas a estimativa é de que mais de 20.000 mudas já plantadas tenham sido afetadas. As geadas poderão atrasar os trabalhos de restauração em até um ano na região.

De acordo com Ana Balderi, co-fundadora e coordenadora de restauração florestal da Associação Ambientalista Copaíba, o fenômeno foi inédito na região. “Por meio da rede do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica , aplicamos técnicas e compartilhamos experiências com produtores da região sul do país, normalmente mais habituados com geadas. Infelizmente, ainda assim mais de 68.000 mudas foram atingidas ainda no viveiro e ainda não sabemos exatamente a extensão dos danos causados”, explica Balderi.

Das mais de 100 espécies nativas utilizadas para a restauração na região poucas apresentaram resiliência para eventos extremos. O Raízes do Mogi Guaçu é uma iniciativa do WWF-Brasil e da International Paper com apoio da HP, e prevê restaurar até 200 hectares nas áreas de nascentes do rio Mogi-Guaçu.

O que é o WG1 do AR6

O IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas. O IPCC não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos para embasar políticas mundiais globais e nacionais.

Desde sua fundação o IPCC produziu cinco grandes relatórios – o que começa a ser divulgado em 2021 é o sexto, daí a sigla AR6 (de Assessment Report, em inglês). Dada a amplitude e complexidade desses relatórios, eles são produzidos e divulgados em partes. O AR6 é composto por quatro partes: em 2021, é divulgada a parte de ciência física, resultado dos esforços de cientistas de todo o mundo, incluindo Brasil, reunidos no Grupo de Trabalho 1 (WG1, de working group, em inglês).Em 2022, virão as seções sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação, mitigação, e uma síntese geral será lançada em 2022).

O Grupo de Trabalho I é formado por especialistas que combinam coisas como observações de concentrações de gases de efeito estufa, medições de temperatura e precipitação, degelo e medidores do nível do mar. Eles executam modelos sofisticados em supercomputadores para obter uma imagem do sistema climático e como e por que ele está mudando. É aqui que obtemos nossa compreensão das mudanças climáticas passadas, presentes e futuras. No caso de projeções, os cientistas apresentam perspectivas para vários cenários de emissões: desde uma redução drástica e rápida das emissões até a continuidade do padrão atual.

Sobre o WWF-Brasil
O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 25 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Saiba mais em wwf.org.br

Ciência e coronavírus: a verdade não é relativa

As evidências científicas desempenham um papel importante na pandemia? Bem, Francis Bacon já sabia: você conquista a natureza obedecendo às suas leis

virusA filosofia tem pouco a dizer no laboratório. © Testalize.me/ unsplash.com

Por Ralf Bönt para o Die Zeit

Já faz bem mais de 2.000 anos que Epicuro formulou uma reserva contra a era moderna que ainda hoje é comum em uma carta a um amigo. Era muito melhor, pensou o filósofo, seguir o mito dos deuses do que estar sujeito, como um escravo, à necessidade natural do destino dos filósofos. O mito, em última análise, afastou a esperança de que os deuses se permitiriam ser chamados pela adoração, enquanto o destino mostra apenas uma necessidade inexorável. Ore e tenha esperança: esse era o programa de rejeição do progresso do anti-conhecimento, mesmo naquela época, enquanto os filósofos naturais queriam entender o mundo, tentando decifrar suas instruções de operação, por assim dizer.

Infelizmente, é preciso perguntar hoje por que os cientistas ainda são recebidos com tanto ceticismo e desconfiança. Afinal, séculos de sucessos esmagadores por trás deles. No momento, eles quase não estão fazendo nada com que sonham e estão disponibilizando vacinas contra uma epidemia em muito pouco tempo. Ainda assim, os negadores do vírus estão nas ruas para demonstrar contra uma política projetada para protegê-los da infecção por coronavírus. A política é subserviente aos cientistas, daí a acusação de que os cientistas exageram em sua ciência. Ou eles estão até sujeitos a uma política que persegue objetivos obscuros e usa a autoridade da ciência. Pode-se facilmente dizer que muitos simplesmente não sabiam nada melhor, uma falha na educação deles. Mas também há uma discussão entre as elites sobre a alegada crença na ciência.

Tudo isso é baseado em um mal-entendido de longa data tanto da ciência quanto da sociedade moderna que precisa desesperadamente ser esclarecido. Os exageros dos cientistas certamente ocorrem na vida profissional cotidiana, especialmente quando isso ocorre em grande parte em programas de entrevistas. Por exemplo, há virologistas e médicos que querem impor severas restrições à sua liberdade de movimento, máscaras e proibições profissionais às pessoas vacinadas porque algumas porcentagens restantes permanecem sob risco de infecção. Isso é comumente chamado de déformation professionnelle, popularmente: doença ocupacional. Assim como um jogador de tênis sonha com o mundo como uma bola de feltro amarela em algum momento sem perceber nada, tudo o que vê são vírus. Os exageros e piscadelas dos cientistas são, segundo seus oponentes, apenas a razão do caos econômico e da desmoralização, por todos os danos colaterais causados ​​pelo não diagnóstico de câncer, depressão e suicídios, falências privadas e perda de escolaridade. Agora você pode até ler que eles são responsáveis ​​pelas mortes de pacientes ventilados incorretamente que nunca teriam morrido de coronavírus. Provavelmente não é por acaso que muitas vezes são grandes pensadores de outras disciplinas, de preferência filósofos e historiadores, que relativizam e acabam por desacreditar as conquistas das chamadas ciências exatas. Ironicamente, eles fingem ser algo que dificilmente podem ser: especialistas em proteção contra infecções.

Ao fazer isso, eles reproduzem o antigo e extremamente vivo mal-entendido a que Epicuro já estava sujeito: os cientistas naturais não são os novos deuses em que estão sendo transformados. Você não se submete a ninguém. Ao contrário, eles estão simplesmente tentando realmente ler o mundo, as escrituras de Deus, Johannes Kepler diria, e também não soa muito diferente com Einstein. No entanto, eles próprios são apenas bons sujeitos da única inevitabilidade, a natureza. Nesse caso, é sobre a natureza do vírus, especialmente quando e como ele encontra o hospedeiro mais próximo e como eliminá-lo. A suposição de Epicuro – ler e entender escravizado – é absurda. Em última análise, compreender o mundo amplia o campo de ação e, portanto, também a soberania individual. Você também pode chamar isso de liberdade. Insistir que todo conhecimento é relativo é inútil: uma lei da natureza é algo diferente do decreto arbitrário de um deus ou de seu patriarca secular substituto, que só é válido até ser revogado. Uma lei da natureza é confiável. Não foi feito por um homem ou por um deus como o homem. É por isso que a visão freqüentemente ouvida de que não existe apenas uma ciência, de que se deve ouvir todas as opiniões, é pelo menos extremamente imprecisa, mas completamente errada.

Visto que não existem duas verdades lado a lado na mesma coisa, há sempre apenas uma ciência como uma doutrina da verdade no final. Isso não significa que as descobertas científicas não criem problemas de conexão em outras disciplinas. Uma falácia clássica, entretanto, é relativizar as descobertas com referência aos problemas de conexão e assumir uma crença na ciência onde apenas alguém diz: algo é assim – e essas são as consequências prováveis. A natureza da transmissão do vírus é até agora apenas parcialmente conhecida e deve ser pesquisada novamente a cada mutação, mas a filosofia, por exemplo, tem muito pouco a contribuir. Ao contrário do que afirma a cultura popular, nem tudo é relativo. Em qualquer caso, a teoria da relatividade, para dar um exemplo, não é. Em vez disso, sabe-se exatamente onde se aplica, como usá-los e quão grande são suas correções à mecânica clássica. Portanto, você também sabe quando negligenciá-lo. E basicamente sempre é assim.

A alegada relatividade de todos os argumentos é necessária como uma porta para infiltrar intenções injustas e uma agenda política secreta em um debate puramente objetivo sobre a proteção contra infecções. Gostaríamos de forçar o que é conhecido na lógica como a falácia do meio-termo. Em termos da dinâmica da conversa, isso equivale a uma guerra de cansaço.

Claro, agora há muito o que discutir entre os cientistas naturais. O aberto é, no entanto, de uma categoria completamente diferente: Aberto é o nível de conhecimento que se tem, primeiro de uma lei natural e, em segundo lugar, da situação especial em que ela é aplicada. Trata-se das leis pelas quais o novo coronavírus se espalha. Os aerossóis são perigosos ou maçanetas? A que temperaturas, com que umidade e com que luz é necessário ter um cuidado especial? E quais serão esses tamanhos se uma medida previamente decidida para proteger contra o vírus entrar em vigor? Por que uma ilha foi gravemente atingida, Inglaterra, e outra, Taiwan, nãoA maioria dos argumentos usados ​​no debate são simples, mas errados. Você precisa de dados para avaliar e avaliações que deve aplicar novamente. Só então vem a discussão crucial sobre os objetivos da política: você quer salvar o maior número possível de pessoas da morte por vírus ou apenas outras morrem? Se você não sabe do que está falando e sempre muda de assunto quando algo não lhe convém, você não pode decidir nada.

Infelizmente, as críticas à expertise das disciplinas responsáveis ​​por  explicar uma pandemia viral não ajudaram a esclarecer isso. É preciso concordar que, inicialmente, apenas virologistas foram ouvidos. Foi só lentamente que surgiram epidemiologistas que não sabem exatamente o que os vírus fazem na garganta, circulação e linfa, mas podem dizer melhor como se movem nas sociedades. São principalmente os físicos que podem calcular grandes sistemas com muitas variáveis. Como de costume, eles rapidamente desencadeiam alergias em qualquer pessoa acostumada a encobrir sua aversão à matemática com certo orgulho. Onde deveria haver confiança, o complexo de inferioridade triunfa. Mesmo antes do surgimento de sociólogos, psicólogos e economistas, o poço foi envenenado e as discussões no nível meta foram transformadas em conversas vãs.

Enquanto isso, nenhum virologista ou epidemiologista jamais emitiu um toque de recolher. Como se sabe, é isso que a política faz. E se optarem pela ciência, é um processo político, mas não uma expertocracia. Respeitável – também pode ser completamente diferente: para provar que a popularidade de um regente não é uma garantia contra julgamentos errados, mas, pelo contrário, pode retroalimentar diretamente com a negação científica dos pseudo-especialistas, devemos lembrá-lo de Rainha Vitória. Ela achava que devia haver algo na parte de trás da mesa dos mesmeristas, se tantos acreditavam nisso. Quando Michael Faraday veio e destruiu a fé dos mesmeristas, eles alegremente acenaram com a mão, referindo-se à rainha. A liberdade é mais trabalho do que ilusão, e obscurantismo e idiotice andavam de mãos dadas já no final do século XIX.

Toda criança sabe que conhecimento é poder desde que Wilhelm Liebknecht fez seu discurso em fevereiro de 1872 para as associações de trabalhadores em Dresden e Leipzig. Mas esse poder também deve ser capaz de se desenvolver contra a ignorância e as mentiras. Os especialistas têm que se defender contra o uso indevido de seus conhecimentos, mas também contra a ignorância. Afinal, os virologistas dizem há anos que uma pandemia certamente virá. A única questão era quando. Se basta publicar em periódico especializado ou se a ciência também é uma força social, se o conhecimento obriga, é uma das questões mais importantes. A resposta só pode ser sim em um mundo livre e burguês. E o trabalho da política seria ouvi-los e tomar precauções razoáveis, mesmo que tudo do lado de fora esteja gritando que temos problemas completamente diferentes no momento, e que o zero preto está tremendo como resultado. Um pouco mais de expertocracia teria nos salvado dessa catástrofe.

Adiar esse insight seria fatal. Porque agora, enquanto as igrejas estão se esvaziando rapidamente, o desenvolvimento científico está se acelerando enormemente novamente. Em experimentos com múons, os irmãos mais pesados ​​dos elétrons, os cientistas descobriram contradições espetaculares à teoria que o mundo vinha descrevendo com mais detalhes há décadas: o modelo padrão que sabe tudo sobre forças e matériaVocê se depara com a observação de novas áreas da natureza nas quais se aplicam leis até então desconhecidas. A semelhança de nossos dias com a época da gripe negra, exatamente um século atrás, já é impressionante. Naquela época, havia mais vítimas da gripe do que mortes na guerra, a teoria da relatividade foi confirmada e derrubou todas as ideias sobre o mundo. Seguiu-se uma renovação quase desenfreada na ciência, arte e política.

Portanto, pode muito bem ser que agora, quando todos querem a velha normalidade de volta, uma grande revolução esteja ocorrendo. Certamente não se limitará à digitalização e diversificação. Em vez disso, as hierarquias como as conhecemos da história cultural há muito se tornaram insustentáveis. Não só a engenharia genética na campanha de vacinação, que salva inúmeras vidas, fez com que todos os argumentos dos céticos parecessem velhos. Os desafios humanos colocados pelas novas técnicas de inteligência artificial e transumanismo, reprodução e memória digital também colocam questões que não podem ser respondidas com uma crença pré-moderna na negociabilidade de tudo e de todos. Há tão pouca formação política nessas questões quanto nas questões da pandemia.

A prática epicurista de fazer tudo para não chegar à modernidade finalmente falhou. Francis Bacon , o grande empiricista, formulou sua primeira lei antes que Liebknecht a confiasse. Para os amigos do conceito de liberdade banalizado e correntemente comum, que nem mesmo quer reconhecer a factualidade do mundo, soa estimulantemente provocativo: “Você conquista a natureza obedecendo às suas leis. Conhecimento é poder.” O fato de o poder ser sempre lutado não é novidade, mas na situação atual isso só é bom para o próprio ditador: o vírus.

 
 
fecho
 
Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Die Zeit [Aqui!].

Jornal Nacional mostra a ciência sob ataque no Brasil

ciencia sob ataque

As situações de assédio e coação contra cientistas brasileiros que têm sido relatadas aqui  e aqui neste blog finalmente chegaram na mídia corporativa brasileira, ocupando o chamado “prime time”, no caso uma matéria de cerca de 3 minutos que foi veiculada pelo Jornal Nacional da Rede Globo (ver vídeo abaixo).

É importante que se diga que esses ataques contra determinados pesquisadores são apenas uma faceta de um ataque frontal que está sendo realizado pelo governo Bolsonaro contra produção do conhecimento científico e contra a ciência nacional como um todo.

Esses ataques contra a ciência brasileira, como bem lembrou a professora Mercedes Bustamante da Universidade Nacional de Brasília (UNB), também estão se dando na forma de cortes drásticos no financiamento das pesquisas realizadas, principalmente, nas instituições de ensino superior públicas, sejam elas federais ou estaduais. E como Mercedes Bustamante tão bem colocou, sem conhecimento científico não haverá um futuro para o Brasil.

Assim, defender não apenas a liberdade dos cientistas brasileiras, mas a obrigatoriedade do correto financiamento das pesquisas é algo que extrapola a comunidade científica, e deveria ser objeto de uma decisão decisiva de todas as instituições que se pretendem democráticas no Brasil. Aceitar tanto os ataques aos cientistas, como o corte de recursos para as pesquisas que eles realizam, implicará em um atraso substancial no desenvolvimento econômico do nosso país.