Por que a ciência e as universidades públicas incomodam tanto o governo Bolsonaro? Fatos e previsões

No dia 11 de dezembro de 2018, 19 dias antes da posse do presidente Jair Bolsonaro, dei uma palestra em Helsinki (Finlândia) a convite do meu colega Markus Kroger, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Helsinki sob o título “The Brazilian Amazon and the prospects o explosive deforestation after the 2018 presidential elections” (ou em português “A Amazônia brasileira e as perspectivas de desmatamento explosivo após as eleições presidenciais de 2018”  (ver imagem abaixo).

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Naquele dia coloquei para a plateia presente, as minhas projeções do que deveria acontecer na Amazônia brasileira em termos de avanço do desmatamento, degradação via extração ilegal de madeira e garimpos clandestinos, bem como sobre os inevitáveis riscos que estariam colocados sobre as populações tradicionais, principalmente os povos indígenas. Obviamente as projeções deixaram a plateia formada por professores, estudantes e intelectuais de fora da universidade um tanto chocados com o que eu apresentei.

Passados 18 meses daquela palestra na fria capital finlandesa, estamos diante de uma situação catastrófica na Amazônia em função de todo o desmanche que foi feito em tempo recorde pelo governo Bolsonaro, sob a batuta inconfundível do improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

A situação criada pelo ataque sistemático aos mecanismos de governança ambiental e às estruturas de comando e controle que antes continham, ainda que precariamente, o ataque desenfreado de atores que agem ilegalmente para retirar das florestas amazônicos o máximo que puderem no menor tempo possível, nem que para isso tenham que causar o maior dano possível.

Mas é importante notar que nada disso acontece sem que possa medir e prever até onde chegaremos em termos de destruição ambiental e genocídio dos povos indígenas, pois o conhecimento científico sobre medir os processos que causam esses processos continua avançando, permitindo que previsões como as que eu fiz em Helsinki, sejam posteriormente confirmadas por dados científicos irrefutáveis.

E é justamente por isso que a ciência e, por extensão, as universidades públicas brasileiras incomodam tanto o governo Bolsonaro.  Esses ataques não são porque a ciência e as universidades brasileiras não geram conhecimento robusto. É justamente pelo contrário!

Voltando à palestra em Helsinki, me foi perguntado como é que seria possível impedir o cenário devastador que eu acabara de prever. Dividi minha resposta em 3 componentes: a) a ciência deveria continuar ocupada em gerar dados robustos sobre a destruição que viria, b) haveria que se organizar a resistência política interna à destruição que estava planejada pelos vencedores das eleições presidenciais de 2018, e 3) a solidariedade internacional ativa aos que resistiriam dentro do Brasil seria fundamental para que a resistência tivesse a mínima chance de ser vitoriosa. 

Pensando bem, aquele meu receituário simples parece mais necessário do que nunca. E os amplos sinais de que há uma solidariedade internacional em prol da preservação da Amazônia e dos seus povos originários,  demandam que continuemos trabalhando internamente nos outros dois itens.

SBPC lança Frente pela Vida e convoca Marcha Virtual

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No dia 29 de maio último, a SBPC e outras entidades – como a ABRASCO, Conselho Nacional de Saúde, CNBB, ABI, ANDIFES – lançaram a Frente pela Vida, com o objetivo de gerar uma mobilização de todos os setores da sociedade em torno da defesa da vida, principalmente em relação à gravíssima pandemia que nos assola. Sabemos que a ciência é uma ferramenta indispensável para o enfrentamento da pandemia e para a defesa da vida, sendo a vida tomada em seu sentido mais amplo. É nosso dever compartilhar isto com a sociedade brasileira e tentar convencer disto os governos nos seus diferentes níveis.

A SBPC convida todas as sociedades científicas a se engajarem e participarem dessa Frente, aderindo à Marcha Virtual pela Vida, a ser realizada no dia 9 de junho de 2020. A proposta da Marcha pela Vida, feita pela SBPC e acolhida pelas demais entidades, decorreu de nossa exitosa Marcha Virtual pela Ciência, da qual muitos de vocês participaram ativamente, e que atingiu mais de um milhão de pessoas nas redes sociais. Os objetivos da Frente e os pontos essenciais que ela defende estão sintetizados em um documento-base (em anexo).

A Marcha pela Vida terá a seguinte grade de programação geral e comum a todos os participantes:

  1. 12h-13h: Tuitaço com a hashtag #MarchaPelaVida e uma Manifestação Virtual em Brasília, por meio do Manif.app
  2. 13h-15h: Painel de depoimentos de pessoas de todos os setores sociais em torno dos 6 eixos do documento-base da Frente pela Vida;
  3. 16h: Ato político de apresentação pública (e, também, possivelmente no Congresso Nacional) dos pontos essenciais da Marcha pela Vida contidos no documento-base.
  4. 18h-19h: Programação cultural

Na manhã do dia 09/06 todas as sociedades, associações, organizações e entidades da sociedade civil, bem como todos os setores e movimentos sociais, estão convidadas a promover atividades as mais diversas associadas ao tema VIDA e em conexão com os pontos centrais do documento-base. Na ausência de programação própria, a entidade poderá se integrar à programação da SBPC (ou nas de outras entidades), que será realizada no período da manhã do dia 9 de junho.

A participação da sua sociedade científica pode ocorrer da seguinte forma:

  1. Divulgação da Marcha pela Vida  nos seus canais de comunicação (em anexo: cartazes de divulgação e logo) e participação nas atividades nacionais do período da tarde do dia 9 de junho;
  2. Realização de alguma atividade na manhã do dia 09/06 com opção aberta (painéis, lives, vídeos, palestras, etc), em torno dos 6 eixos da Frente pela Vida. As programações que tiverem essa característica serão divulgadas pela SBPC e pela Frente pela Vida.
  3. Gravação e divulgação de vídeos curtos de convocação para participação na Marcha e de vídeos/depoimentos sobre os temas da Marcha. Esses vídeos deverão se divulgados nos próprios canais e mídias de suas entidades, usando a hashtag #MarchapelaVida e, se desejarem, marcando @SBPCnet para que possamos também promovê-los.

As sociedades ou entidades que quiserem aderir à Marcha, solicitar informações ou enviar materiais deverão utilizar o email: marchapelavida@sbpcnet.org.br

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Se marchamos pela ciência e tivemos tanto sucesso, com mais razão ainda, nesse momento da grave crise em que vive o Brasil, poderemos marchar juntos em defesa da vida e da democracia!

Abraços e obrigado,

Ildeu de Castro Moreira,  Presidente da SBPC

Sociólogo formado pela Uenf é o novo secretário provincial da Educação, Ciência e Tecnologia de Cabinda, Angola

O sociólogo e mestre em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Miguel Raúl Mazissa Zinga, foi empossado no dia 29 de maio no cargo de secretário provincial da Educação, Ciência e Tecnologia do Governo da Província (o equivalente a um estado no Brasil) de Cabinda, Angola.

wp-1591053510607.jpgO sociólogo e mestre em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Miguel Raúl Mazissa Zinga, assinando seu termo de posse no cargo de secretário provincial da Educação, Ciência e  Tecnologia de Cabinda, Angola.

No discurso que deu posse ao novo secretário da , o vice-governador Joaquim Dumba Malichi, felicitou os novos secretários provinciais e recomendou aos mesmos a pautarem pelo rigor, criatividade, comunicação, transparência e apresentação regular dos relatórios de atividades.

Como tive a oportunidade de ser o orientador do agora secretário provincial da Educação, Ciência e  Tecnologia de Cabinda entre os anos de 1998 e 2004, tenho certeza que ele saberá usar o seu treinamento acadêmico nos termos esperados pelo vice-governador Malichi.  Além disso, o Miguel Zinga, como nós o chamávamos no nosso grupo pesquisa, possui o nível de disciplina e ética que este tipo de cargo requer dos seus ocupantes. 

wp-1590965069059.jpgO secretário provincial da Educação, Ciência e Tecnologia de Cabinda, Miguel  Raúl Mazissa Zinga fala à imprensa após sua posse.

Como ex-orientador do agora secretário provincial da Educação, Ciência e Tecnologia de Cabinda,  sinto especial gratificação em ver que um cidadão angolano que esteve na Uenf pode voltar ao seu país para transmitir o que de melhor pudemos lhe entregar em termos de formação acadêmica.

Em tempo: o secretário provincial Miguel Zinga possui ainda um título de doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Isso demonstra ainda mais explicitamente o papel que a universidade pública brasileira possui na formação de quadros de excelência. 

O manifesto da “Coalizão do Evangelho” e os riscos da sugestão de “endeusamento da Ciência” em tempos de pandemia

popeMais de 11 milhões de pessoas assistiram ao papa Francisco entregar uma bênção em uma Praça de São Pedro durante a celebração da Missa da Páscoa de 2020 por causa da pandemia da COVID-19.

Enquanto o espectro mortal da COVID-19 avança por todos os lados no Brasil, e nosso país já ocupa o sexto lugar no número de mortos em nível mundial, as placas tectônicas da relação entre religião e ciência começam a se mover de forma mais clara. Um exemplo disso é o manifesto intitulado “Pela Pacificação da Nação em Meio à Pandemia” que acaba de ser lançado pela chamada “Coalizão do Evangelho“, onde são tecidas considerações sobre o que seriam desencontros e confusões que decorreriam de um suposto endeusamento da ciência (ver imagem abaixo).

endeusamento da ciência

Uma coisa que precisa ser dita inicialmente sobre essa assertiva é que se há uma esfera do conhecimento humano onde não há espaço para endeusamento, esse é o da ciência, em que pesem alguns pesquisadores se acharem “deuses”. É que o método científico em suas múltiplas formulações parte do pressuposto da “falibilidade”, o que, convenhamos, não é conducivo ao endeusamento, pois para os deuses (ou no caso do grupo em questão, de Deus) não há sequer a  possibilidade de que sejam falíveis.

Outro aspecto levantado no mesmo parágrafo é de que existe dentro da comunidade científica conflitos acerca dos dados e interpretações sobre como tratar a pandemia. Aqui há uma inverdade objetiva, pois não dentro da comunidade científica qualquer diferença significativa sobre a natureza do novo coronavírus ou, tampouco, sobre a sua letalidade.  O que de fato existe são lacunas que estão sendo preenchidas dentro do furor da batalha sobre como o coronavírus se difunde e de como evolui dentro de seus hospedeiros humanos, o que leva a variações de concepções sobre quais medicamentos podem amenizar a evolução da COVID-19, de modo a salvar vidas. Além disso, há uma corrida frenética, por exemplo, para a produção de uma vacina que possa preparar os organismos infectados para impedir que o coronavírus produza os efeitos que já estão em processo de identificação em meio a esta pandemia.

Desta forma, os líderes religiosos que assinam o manifesto “Pela Pacificação da Nação em Meio à Pandemia” estão incorrendo em um pecado que, reconheço, pode ser compreensível: criticam a Ciência e seus limites epistemológicos,  mas se esquecem de criticar os que têm efetivamente inviabilizado a aplicação do conhecimento científico já existente sobre o novo coronavírus para impedir o avanço da pandemia. É que afora a crítica a um inexistente endeusamento da ciência, a única crítica é feita para a mídia que está cobrindo a pandemia, por não possuir a “credibilidade que outrora desfrutava”. 

Por outro lado, a única menção ao sistema política  é sobre uma suposta “infindável luta ideológica e de poder” que tornaria difícil para o brasileiro comum viver “vida tranquila e mansa”.  A primeira coisa aqui é que a dificuldade para o brasileiro comum viver “vida tranquila e mansa” já estava posta há muito tempo, a começar pela falta de empregos e pelo encurtamento das proteções sociais.  Além disso, falar de infindável luta ideológica e de poder sem falar como os governantes estão agindo para combater ou não o avanço da pandemia serve apenas para aprofundar a polarização. Sem colocar o dedo na ferida e com essa vagueza de sentido, fica bem evidente para qual lado essas lideranças estão apontando o dedo. E isso,  é preciso que se informe aos signatários do manifesto, dificilmente nos levará à vida tranquila e mansa que eles parecem desejar.

Sugiro para quem desejar conhecer um pouco dos meandros com que os fundadores da Ciência moderna tiveram para percorrer para nos oferecer o caminho das luzes que leiam a obra do filósofo italiano Paolo Rossi intitulada “A ciência e a filosofia dos modernos“. Com essa leitura poderão ver que quando se acusa a ciência de endeusamento, está se apontando para o questionamento da própria existência do pensamento científico, que nos moveu para além da chamada “Idade das Trevas”.

Finalmente, quero lembrar que o Papa Francisco, na missa da segunda-feira de Páscoa, pediu orações para que governos, cientistas e políticos pudessem encontrar soluções justas para a crise de COVID-19, a favor do povo. Essa tarefa, disse ele em sua homilia, dependerá da escolha entre a vida das pessoas e o “Deus dinheiro”.  Pensando bem, nesse caso, apesar de não ser católico, fico com o Papa Francisco.

De qual ciência e de que cientista precisamos para vencer esta e as pandemias que virão?

Why the huge growth in AI spells a big opportunity for ...

Em meio ao crescimento do número de infectados e mortos pelo coronavírus, os cientistas e o tipo de conhecimento que eles geram voltaram subitamente ao centro das atenções, como se ambos representassem a possibilidade de algum tipo de salvação mágica para acabar com um vírus que se mostra altamente letal, e capaz de cruzar fronteiras geográficas como incrível letalidade. 

Curiosamente quando a maioria dos analistas se reporta à importância do conhecimento científico há a tendência clara de se privilegiar aqueles cientistas que se ocupam de estudar o vírus e seus mecanismos de proliferação e, obviamente, com uma preferência ainda maior com aqueles que estão buscando o desenvolvimento de drogas que consigam, senão eliminar o vírus, mas pelo menos minimizar seus impactos.

Essa preferência é obviamente míope, pois se nesta equação não forem incluídos outros ramos das ciências, especialmente o das ciências sociais, ficaremos como um cachorro rodando atrás do próprio rabo. É que o novo coronavírus é, acima de tudo, uma expressão objetiva de como as formas dominantes de exploração dos sistemas naturais são indutoras dessa pandemia e de outras que ainda virão, caso não haja uma forte correção de rumos.

Tomemos o  caso do Brasil que no meio desta pandemia é palco do aprofundamento do “business as usual” com a aprovação de dezenas de agrotóxicos altamente perigosos, o avanço do desmatamento na Amazônia, e também a ameaça de rompimento de barragens de rejeito de mineração. Todos esses desdobramentos são indutores de mais degradação ambiental e de fragilização do sistema imunológico da população brasileira. Mas centrados apenas na COVID-19, esses agravantes socioambientais passam despercebidos, facilitando a disseminação da pandemia. Em outras palavras, o conhecimento que se precisa é do tipo “dialético”, pois estamos imersos em uma totalidade que se mostra de forma avassaladora. 

Por outro lado, o tipo de cientista que melhor responderá ao conjunto de necessidades que essa totalidade em que o coronavírus está posto acaba gerando. Obviamente precisamos entender os mecanismos de funcionamento e dispersão do coronavírus, mas só isso não nos oferecerá os caminhos para superar a pandemia que ele gerou. Nesse sentido,  o cientista que precisamos é um que entenda para além do ambiente dos laboratórios, e que possa ser capaz de entender as condições do mundo em que  a pandemia está se disseminando.

Um problema para que esse cientista totalizante apareça é a profunda domesticação do pensamento científico dentro de uma ordem em que métricas e fatores de indexação se tornaram mais importante do que o próprio método científico.  A verdade é que neste exato momento existem aqueles que acreditam que o seu papel como cientista é apenas se preparar para publicar um artigo em alguma revista com grande fator de impacto, sem que se saiba se alguém estará vivo para poder ler a publicação. Certamente não é desse cientista “paper driven” que o mundo precisa neste momento. O duro será convencer aqueles que se proclamam como “ratos de laboratório” para fugir de suas responsabilidades societárias de que ciência e cientista não são necessariamente demonstrados pela quantidade de artigos que se publica nesta ou naquela revista científica.

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Mas vejo motivos para pensar que existe luz no fim do túnel quando me lembro que há poucos dias a Academia Brasileira de Ciências (ABC)  iniciou a realização de uma série de “webminários” cuja tônica é justamente o da necessidade urgente de uma modelo totalizante de produção científica que olhe a pandemia da COVID-19 sob os múltiplos ângulos que seu enfrentamento demanda.  O importante é que como no caso da ABC, outras instituições e pesquisadores estão realizando debates online seguindo essa via de reflexão sobre o papel da ciência e dos cientistas.  Se esse caminho for mantido, é bem provável que estaremos abrindo um novo e importante caminho para posicionar a ciência e os cientistas brasileiros a uma posição em que suas contribuições não poderão ser ignoradas.

Com grupo de oração na Capes, governo Bolsonaro testa os limites da laicidade do Estado brasileiro

Quando o ex-reitor da Universidade Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, foi nomeado para presidir a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), uma das principais agências de fomento à pesquisa do Brasil houve uma clara e manifesta preocupação de muitos membros da comunidade científica brasileira sobre os rumos que a ciência brasileira tomaria. Afinal de contas, Aguiar Neto é um conhecido defensor  do chamado “desenho inteligente“, uma vertente mais velada  do Criacionismo que se opõe a partir de elementos religiosos  à Teoria da Evolução de Charles Darwin.

No momento de sua nomeação, Guimarães Neto apontou que iria “aprofundar o diálogo com a academia e defender a liberdade de pesquisa“.  Com isso, Aguiar Neto procurava aparentemente botar panos nos quentes na repercussão negativa que sua indicação para presidir a Capes acabou tendo não apenas entre os cientistas brasileiros, mas também em outros setores que defendem o caráter laico do Estado brasileiro.

Pois bem, quem se preocupou com a possível interferência de elementos religiosos dentro da segunda principal agência de fomento à pesquisa no Brasil certamente não ficará feliz ao se deparar com a fotografia mostrada abaixo de um cartaz que faz um convite para participação de um grupo de oração nas dependências da Capes no dia de hoje (03/03) extensivo aos servidores e colaboradores da agência.

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A questão aqui é dupla: ao realizar um grupo de oração no espaço de um ente governamental, os organizadores estão objetivamente colocando em xeque o Artigo  19 da Constituição Federal de 1988 que veda  à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvenciona-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. Em outras palavras, o Artigo da CFB estabelece que o Estado brasileiro é laico. Em segunda lugar é que ao colocar um grupo de oração dentro de uma agência de fomento à pesquisa, queiram seus organizadores ou não, o embaraço à liberdade de pesquisa fica óbvio.

Eu realmente fico curioso como reagirão os dirigentes da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) ao tomarem conhecimento da realização desse grupo de oração dentro da Capes.  É que gostando ou não, não reagir a essa violação da laicidade e da liberdade de pesquisa seria aquiescer a uma regressão óbvia na separação entre Estado e religião no Brasil. 

Finalmente, nada mais emblemático do que o objeto de leitura do grupo de oração da Capes: o Livro do Apocalipse (também conhecido como o Livro das Revelações) parece muito apropriado para os tempos que estamos atravessando no Brasil.

A evolução não é acaso e o criacionismo não é ciência

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Por Leonardo Blogiato

Muitos não entendem o processo evolutivo, como criacionistas que fazem espantalho sobre a evolução dizendo que é impossível de ser verdadeira por ser obra do “acaso”, mas essa afirmação é incorreta já que a evolução não é um fruto totalmente do acaso.

A evolução depende de fatores para acontecer, como variabilidade, pressão do ambiente, seleção e hereditariedade. De fato, as mutações ocorrem de forma aleatória e elas geram variabilidade, essas mutações que ocorrem nas células germinativas serão passadas adiante e o meio ambiente seleciona essas mutações. Se um ser vivo tiver uma característica que lhe dê vantagem em um determinado ambiente, ele estará mais adaptado e terá maior chance de sobrevivência e passará seus genes adiante. Por isso, certamente, sabemos que a seleção não é uma obra do acaso. Ela tem causas, porém não tem intencionalidade.

A evolução é um fato. Por isso, também é aceita na comunidade científica. Ela é ensinada nas escolas e universidades porque a Teoria da Evolução é a única que consegue explicar a biodiversidade.

Outro argumento fraco que os criacionistas utilizam é que ninguém estava no passado para observar se houve evolução ou criação, como se ambas fossem questões de fé. Esse argumento é fácil de refutar e vou usar até uma analogia: imagine que ocorra um crime sem nenhuma testemunha, a polícia investiga e soluciona o caso através de investigação, procurando por evidências, como, por exemplo, vestígios que o assassino deixou, coletando amostras de DNA, como acontece em áreas forenses, etc. É mais o menos assim com a evolução.

Existe uma investigação dos vestígios deixados na natureza, como fósseis, comparações no DNA entre os seres vivos dando graus de parentesco entre os grupos de animais, plantas e bactérias. Um exemplo fácil de explicar é que o homo sapiens e o chimpanzé possuem uma similaridade de 98% em relação ao DNA. Com base na genética, podemos observar que somos muito próximos dos chimpanzés, porque fazemos parte da linhagem dos primatas, e isso era previsto pela Teoria da Evolução.

Darwin e Wallace não tinham o conhecimento sobre genética e todas as evidências corroboram que eles estavam corretos na maioria das coisas. Todas as formas descendem de um ancestral em comum. Por isso, compartilhamos genes em comum com todos os seres vivos. Por exemplo, nós, os homo sapiens, temos 98% do DNA idêntico com chimpanzé porque compartilhamos um ancestral em comum que deu origem a nossa linhagem, mas certamente compartilhamos genes em comum com as aves. Porém, somos parentes mais distantes das aves e mais próximo dos primatas.

A evolução é um processo ramificado, imagine uma árvore com um tronco e vários galhos — é basicamente isso. A evolução não depende de fé como o criacionismo, porque ela é baseada em evidências. Se o criacionismo fosse verdadeiro e o mundo tivesse sido criação em 6 dias, não se encontrariam fósseis em camadas diferentes, que evidencia períodos geológicos diferentes, e isso é outra evidência para evolução. Não convivemos com dinossauros, como alguns religiosos acreditam, porque são tempos geológicos diferentes, e isso é comprovado pelos métodos de datação, e, sim, a evolução pode ser observada, como em bactérias.

Referências:

  1. PRÜFER, Kay et al. “The bonobo genome compared with the chimpanzee and human genomes”; Nature, 2012. Acesso em: 14 fev. 2017.
  2. PAGE, Michael Le. “Evolution myths: Evolution is random”; New Scientist. Acesso em: 14 fev. 2017.
Este texto foi originalmente publicado no site Ciencianautas [Aqui!].

A destruição da ciência e educação superior no Brasil

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta?

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Por Luis Felipe Miguel

Qual é a melhor maneira de resistir à destruição da ciência e da educação superior no Brasil?

Não sei a resposta. Mas creio que não é prosseguir no piloto automático, fazendo tudo o que sempre fazíamos como se nada estivesse acontecendo.

Preenchendo o Lattes, pontuando as publicações com Qualis, preparando o relatório Capes…

Já era mesmo necessário repensar essas métricas, discutir para que tipo de produção científica elas nos empurravam. Mas, no imediato, fazia sentido seguí-las, já que elas definiam nossas possibilidades de financiamento.

E agora? Vamos continuar no mesmo passo, mas para quê? Para disputar as migalhas que sobram?

E serão premiados aqueles que mais conseguirem fingir que está tudo bem…

Pensemos nos eventos científicos. As agências governamentais estão retirando todo o apoio que era dado a eles.

Será que vale a pena tentar mantê-los no padrão de sempre – medalhão estrangeiro na conferência de abertura, sacolinha ecológica com livro de resumo e canetinha, coffee break com pão de queijo para que a fome não acirre os ânimos e faça as discussões desandarem?

Sem apoio, o “padrão de sempre” significa taxas de inscrição batendo nos mil reais.

O financiamento não vem pelo outro lado, já que os programas de pós-graduação também estão com suas verbas estranguladas. De qualquer jeito, mesmo que eles financiassem as participações, a taxa de inscrição estratosférica significaria mais uma vantagem para os programas consolidados e portanto melhor financiados, em geral no Sudeste do país, em detrimento das periferias.

E agora, aliás, nem isso: a inacreditável portaria do ministro da Educassão proíbe a participação de múltiplos docentes da mesma instituição num mesmo evento.

Ingênuo, pensei no começo que era uma demonstração de ignorância sobre o sentido de um evento científico – que não é para discutir com os pares, mas para fazer representação institucional. Ou, no máximo, uma feira de ciências.

Claro que não é isso. É que no projeto de país de Guedes e Bolsonaro a pesquisa é inútil (pois nosso papel no mundo é subordinado mesmo), quando não perigosa.

Não seria melhor adaptar os eventos à nova realidade – abraçar a precariedade, em vez de escamoteá-la, e usá-la como estímulo para nosso debate e nossa resistência?

Ou mesmo cancelar, como manifestação de protesto, aquilo que não tem como ser mantido?

Com as revistas científicas, o movimento de acomodação é pior ainda. Com o corte profundo no financiamento, que aliás sempre foi insuficiente, começa um movimento para cobrar dos autores pela publicação.

Alguns periódicos já estão implantando a medida. Outro dia recebi um pedido de parecer. Fui olhar as regras de submissão, como sempre faço antes de emitir um parecer, e estava lá: caso o artigo seja aprovado, há taxa de mil reais para a publicação.

Sei de outros periódicos que estão discutindo a cobrança.

Quem vai publicar, então? O pesquisador vinculado a um programa forte, que ainda tenha recursos para bancar a taxa de publicação, reforçando as disparidades regionais. O pesquisador sênior que ainda consiga alavancar um dos poucos financiamentos de pesquisa disponíveis. E, claro, um ou outro filhinho de papai, que pague do próprio bolso.

Essa é a ciência que nos queremos?

Seria melhor aproveitar para mandar as exigências do Qualis e do Scielo praquele lugar e buscar formas alternativas de publicização das pesquisas.

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta, neste pacote, para que se assuma de vez que não, não está tudo bem?

* Luis Felipe Miguel é  professor do Instituto de Ciência Política da UnB, coordenador do Demodê – Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.

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Este texto foi retirado da página oficial do professor Luis Felipe Miguel na rede social Facebook [Aqui!].

SBPC-RJ realiza o “Domingo com ciência na Quinta”

No próximo dia 7 de julho, a Quinta da Boa Vista vai receber uma série de atividades culturais, educacionais e de ciências

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Por  FLEISHMANN

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Rio de Janeiro realiza neste domingo, dia 7 de julho, das 10h às 15h, o “Domingo com ciência na Quinta”. Com uma série de atividades, o evento vai celebrar o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador. Além de comemorar as datas, a ação tem como objetivo chamar a atenção da população e dos governantes para a importância da ciência no dia a dia e no desenvolvimento sustentável do País. Nesta data, representantes da comunidade científica vão debater sobre a realidade da ciência e da educação no Brasil e como, com o apoio da população, será possível reverter o quadro negativo.

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Com entrada gratuita, o evento terá uma feira de ciências com mais de 150 experimentos e exposições que mostram como o tema é parte importante do cotidiano da sociedade. Haverá também atividades como rodas de conversas, jogos interativos ilustrando os princípios básicos da física e biologia, brincadeiras sobre bactérias presentes na chamada microbiota humana, desafios de matemática e química, e muito mais.

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No Piquenique Científico, crianças e adultos poderão conhecer a qualidade dos alimentos que consomem, como evitar o desperdício e como aproveitar integralmente os alimentos entre outros ensinamentos. Para participar desta atividade, basta levar uma canga ou toalha para sentar e alimentos.

O público também vai poder se divertir com apresentações musicais de diferentes estilos e ritmos como chorinho, samba e outros.

Este é o segundo ano de realização do evento. Na primeira edição, organizada pelo Museu Nacional, cerca de 2,6 mil pessoas puderam participar das mais de 130 atividades científicas e culturais disponíveis. A expectativa para 2019 é que esse número seja ainda maior.

O “Domingo com ciência na Quinta” é um evento promovido pela SBPC em parceria com a ADUFF, ADUFRJ, ADUNIRIO, ANPESQ, ASCON, ASDUERJ, ASFOC-SN, FACC, INCTNIM e INCT Proprietas.

Serviço:

“Domingo com ciência na Quinta”

Local: Quinta da Boa Vista (acesso pelo portão da estação do Metrô de São Cristóvão, ao lado do rio e perto do Horto Botânico MN)

Data: 7/07/2019

Horário: 10h às 15h

Entrada franca

 

Miguel Nicolelis debate destruição da soberania e da ciência no Brasil

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Neurocientista mundialmente reconhecido, Miguel Nicolelis visita o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, na próxima terça-feira (25). Em debate, a destruição da soberania nacional e do futuro dos brasileiros. A atividade ocorre no auditório da entidade, situado na Rua Rego Freitas, 454, sala 83, próximo ao metrô República. Nicolelis contará com a companhia de Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Professor titular da Duke University (EUA), Nicolelis foi considerado um dos 20 maiores cientistas em sua área pela revista Scientific American e pela revista Época. Também foi o primeiro cientista a receber dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) no mesmo ano, além de ser o primeiro brasileiro a ter um artigo de capa na revista Science. Na Duke University, atua como pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond & Lilly Safra (IIN-ELS). Nicolelis lidera o consagrado projeto Walk Again – “Andar de novo”.

Apesar do eixo “Ciência e Tecnologia”, o bate-papo com Nicolelis e Calé deve abranger não somente os ataques ao setor, mas também ao desmonte institucional, a destruição e o entreguismo praticados pelo governo Bolsonaro. A entrada é livre, bastando preencher o formulário através deste link: clique aqui.

Para quem não puder comparecer, haverá transmissão online na página do Barão de Itararé (clique aqui).

Com informações da assessoria de imprensa do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo [Aqui!].