A ciência moderna tem nas métricas a sua Guantánamo

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Recentemente publiquei neste blog um texto publicado pela revista Nature acerca da difusão de práticas de captura de material científico por editoras predatórias que estão cada vez mais sofisticada em atrair pesquisadores ansiosos por melhorar sua performance em um amplo mercado de índices de mensuração (as chamadas métricas). Um colega que reputo ser da mais alta capacidade científica apontou que a discussão em torno dos métricas não é novo, mas que falta apontar um caminho que não fique apenas na crítica pela crítica, pois, suponho, há que se medir para conferir algum nível de chancela de qualidade que nos permita olhar para além da quantidade de artigos publicados, pois a imensa maioria não será lida uma mísera vez sequer.

Após refletir sobre esse chamado à produção de respostas práticas para sairmos da armadilha criada pelos operadores do mercado editorial para nos meter em uma espiral interminável de publicações que estão mais para lixo científico do que para conhecimento que mereça ser classificado como ciência, penso que não haverá saída para o atual imbróglio da quantidade sobre a qualidade se ficarmos tentando colocar o gato de volta dentro do saco. Em minha modesta opinião há que se jogar o saco fora, para voltarmos a nos preocupar com o que deveria ser essencial na produção do conhecimento científico, qual seja, que o produto das pesquisas realizadas sejam de fato baseadas no uso apurado da análise crítica, de forma a privilegiar não as necessidades de obtenção de recursos financeiros, seja para executar projetos de pesquisa ou, simplesmente, atender as necessidades econômicas pessoais dos pesquisadores.

O problema é que como toda qualquer outra coisa, o Capitalismo transformou a ciência, e principalmente os artefatos que são usados para demonstrar a sua realização em um tipo específico de commodity (para os interessados no processo de comodificação da ciência sugiro a leitura do livro “The Commodification of Academic Research: Science and the Modern University” de Hans Radder) que, como qualquer outra, é objeto de opções mercadológicas que privilegiam o chamado “valor de troca” em detrimento do “valor de uso”. Em outras palavras, em situações corriqueiras, o interesse de quem financia  e de quem produz ciência não tem nada a ver com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da evolução das formas de relação com os sistemas naturais da Terra, mas simplesmente com a acumulação de riquezas.

Alguém que estiver lendo este texto poderá apontar que até aqui, a única coisa que propus de concreto foi rasgar o saco em vez de tentar colocar o gato de volta dentro dele.  E se alguém notou isso, não me resta dizer que rasgar o saco (entendido aqui como uma metáfora do processo de comodificação da ciência) será muito mais difícil do que parece em princípio. É que depois de décadas de ações para  premiar os bem comportados que estão plenamente satisfeitos em viver aprisionados no labirinto das métricas (a qual equivale a uma espécie de Guatánamo que aprisiona a produção de ciência com revestimento crítico), pois isto traz recompensas palpáveis, sejam eles materiais ou apenas de reafirmação de uma cultura acadêmica hedonística.

Agência Bori e Embaixada Britânica realizam webinários sobre cobertura das mudanças climáticas

Voltadas a jornalistas, as atividades integram os preparativos para a COP26

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A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), o maior evento internacional deste ano e o encontro mais importante na área do meio ambiente desde o Acordo de Paris, se aproxima. O principal objetivo do governo britânico é tirar do papel o que foi acordado há seis anos em Paris.

Para dar visibilidade à COP26 e ampliar o debate público sobre o impacto das mudanças do clima em nossa sociedade, a Embaixada Britânica e a Agência Bori realizarão dois webinários, nos dias 7 e 13 de outubro, voltados a apoiar jornalistas na cobertura da Conferência. A participação é gratuita, mediante inscrição prévia.

O primeiro encontro, a ser realizado em 7 de outubro, discutirá os impactos das mudanças climáticas no Brasil. Liana Anderson, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), abordará os impactos socioambientais da degradação florestal, e Marcelo Galdos, da Universidade de Leeds, falará sobre estratégias de mitigação e adaptação da agricultura.

Já o segundo webinário, que ocorrerá no dia 13 de outubro, abordará o papel da ciência nas discussões de clima e conta com a participação do diretor do Hadley Center, Dr. Albert Klein Tank, e da Diretora de Engajamento em Ciência da COP26, Helen Adams.

Além da oportunidade de conversar com os especialistas sobre mudanças climáticas, os participantes dos webinários receberão material de apoio preparado especialmente para o evento.

Sobre a COP26

A COP26 será sediada pelo Reino Unido e acontecerá de 31 de outubro a 12 de novembro deste ano em Glasgow, na Escócia. A Conferência será considerada bem-sucedida pelo governo britânico se as negociações dos trechos finais do Acordo de Paris forem concluídas, mas, principalmente, se for iniciada a implementação e as ações no mundo real, tirando o Acordo de Paris do papel. Um dos principais objetivos é o de se firmar compromissos mais ambiciosos para limitar o aquecimento global a 1.5 ºC.

O Reino Unido tem demonstrado que é possível alcançar isso com metas ambiciosas. Nos últimos 30 anos, a economia britânica cresceu 78%, ao passo em que suas emissões foram cortadas em 44%. A meta do governo britânico, a mais ambiciosa entre as grandes economias do mundo, é reduzir suas emissões de carbono em 78% até 2035 e alcançar neutralidade de carbono até 2050. Para isso, o governo eliminará gradualmente a energia a carvão até 2024 e encerrará a venda de novos veículos movidos a gasolina e diesel até 2030.

O quê? Webinários Impactos das Mudanças Climáticas no Brasil COP26 e a ciência

Quando? 7 de outubro (quinta-feira), das 9h30min às 10h30min; e 13 de outubro (quarta-feira), das 9 às 10 horas

Onde? Encontro no Zoom – link a ser disponibilizado posteriormente aos inscritos

Para quem? Jornalistas interessados na cobertura de ambiente e clima.  As inscrições para o webinário do dia 7 podem ser realizadas até 4 de outubro neste formulário. As inscrições para webinário do dia 13 podem ser realizadas até 11 de outubro neste formulário. O único pré-requisito para efetuar a inscrição é ter cadastro na comunidade de jornalistas Agência Bori – que pode ser realizado gratuitamente a partideste link. O segundo webinar terá tradução simultânea.

Bio dos Palestrantes

Dra Liana Anderson é pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Antecipado de Desastres Naturais (CEMADEN) no Brasil e membro do corpo docente da pós-graduação em Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Liana é bióloga cujos interesses de pesquisa incluem o monitoramento de florestas e gestão dos riscos e impactos associados a incêndios florestais e extremos climáticos nos ecossistemas e nas comunidades.

Dr Marcelo Galdos é um pesquisador brasileiro que atua na Universidade de Leeds (Reino Unido), investiga estratégias de mitigação e adaptação da agricultura e de resiliência dos ecossistemas diante das projeções de modelos climáticos. Em 2020, o cientista foi selecionado como Líder Emergente no Reino Unido pela organização do Oxford Farming Conference, um importante evento do agronegócio britânico. Também é membro da Sociedade Britânica de Ciência do Solo.

Dra Helen Adams é professora na área de redução de riscos e adaptação às mudanças climáticas na King’s College, em Londres, e Diretora de Engajamento em Ciência da COP26.

Dr Albert Klein Tank é diretor do Met Office Hadley Centre para Estudos e Serviços Climáticos, instituição de referência na pesquisa sobre mudanças climáticas sediada no Reino Unido. O cientista trabalha com pesquisa em bases de dados para entender diferentes cenários de futuras tendências climáticas.

IPCC: a hora de agir é agora

Política negacionista de Jair Bolsonaro pode minar esforços climáticos globais e isolar o Brasil ainda mais no cenário econômico e político global

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2021 poderá ser lembrado no futuro como o ano em que a natureza e os cientistas se uniram para dar o alerta: a janela de oportunidade para manter o aquecimento global em níveis minimamente seguros para a humanidade está se fechando. Eventos climáticos extremos simultaneamente nos dois hemisférios do planeta ocorreram justamente nas semanas que antecederam o lançamento do primeiro relatório da nova série de avaliações do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ocorrido nesta segunda-feira (09/08).

A ciência do clima nunca foi tão precisa e tão clara: a influência humana sobre o clima é um fato estabelecido e indiscutível e a hora de agir é agora. Embora alguns impactos climáticos não sejam mais reversíveis, como no caso do derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos, o cenário geral ainda não está definido e essa é a grande mensagem deste relatório: as escolhas que fizermos agora determinarão nosso futuro. Limitar o aumento da temperatura em níveis relativamente seguros ainda é cientificamente possível. O que fizermos agora, o que empresas e políticos fizerem agora definirá nosso futuro.

Estamos no início da década mais decisiva da História para a ação climática. Com o novo relatório do IPCC, temos a mais abrangente e certeira avaliação do estado do clima no mundo e do que está por vir, dependendo do curso que escolhermos agora. Nos cenários de menor ação climática, as perspectivas são desastrosas: cada meio grau adicional de aquecimento global causa um aumento estatisticamente significativo nos extremos de temperatura.

O que o mundo está vivendo em 2021 já é afetado por um aumento médio de 1°C na temperatura e as perspectivas de curto prazo não são animadoras: o novo relatório do IPCC mostra que o mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, antes do previsto pelo relatório anterior. Isso não significa que a meta de 1,5°C no longo prazo esteja comprometida. Embora os níveis de aquecimento global de 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais sejam excedidos até o final do século 21 em todos os cenários projetados pelo IPCC, o cenário de menor emissões mostra que no longo prazo o limite de 1,5°C ainda é possível – e essa é a boa notícia e também o principal alerta que este relatório traz: não podemos abrir mão dessa meta. Não podemos permitir que interesses pessoais, eleitorais e setoriais se sobreponham aos interesses da humanidade presente e futura.

Todos os cenários analisados pelo IPCC apontam para uma mesma conclusão: é preciso cortar emissões e cortá-las o mais rápido possível. Para isso, é preciso que todos se empenhem para alcançar a neutralidade de carbono antes de 2050: governos nacionais, subnacionais e empresas devem estabelecer planos consistentes, com ações concretas imediatas e metas intermediárias.

Para o Brasil e demais países da bacia amazônica, o conteúdo do relatório do IPCC traz alertas adicionais: ele confirma que já não basta zerar as emissões – é preciso remover o carbono já existente na atmosfera. Como a floresta amazônica é um dos grandes sumidouros naturais de carbono do planeta, sua preservação é mais importante que nunca. Estudos indicam que partes da floresta já estão emitindo mais carbono do que capturando, em função de sua degradação que, se persistir nos níveis atuais, poderá pressionar todo o bioma além de seu ponto de equilíbrio, afetando o clima em todo o planeta, mas mais especialmente na América do Sul, colocando em risco a segurança alimentar, hídrica e energética do Brasil. Infelizmente, esse é o cenário para o qual o presidente Jair Bolsonaro está conduzindo nosso país.

Outro alerta do IPCC que tem relação direta com o Brasil diz respeito ao melhor entendimento dos gases não-carbono que também têm efeito estufa, como o metano. As emissões diretas da agropecuária representaram 28% do total brasileiro em 2019 segundo o 8º relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima. Desse total, 61,1% vieram da fermentação entérica. Ou seja, além de ser um fator de pressão sobre a floresta, a pecuária é também emissora de gases para os quais o IPCC pede mais atenção.

Em um ano em que a conta da luz e o preço da comida subiram vertiginosamente por conta de fatores climáticos, o relatório do IPCC adverte: o aquecimento global intensificará ainda mais as mudanças nos ciclos da água, incluindo a variabilidade ano a ano e a severidade dos ciclos úmidos e secos.

“Certamente não precisamos de um novo relatório para nos dizer que estamos em uma emergência climática: ela já afeta milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já pagamos mais caro pela energia elétrica, por nossa comida e estamos em sério risco hídrico por causa do clima. O que o novo relatório do IPCC sinaliza são as opções que podemos fazer hoje para que o amanhã seja seguro para todos. Em todo o mundo, o desafio é mudar a matriz energética. No Brasil, onde boa parte de nossa energia já é limpa, o desafio é zerar todo o desmatamento, que é o que nos coloca como sexto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo. A melhor ciência do planeta está nos mostrando que o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho da catástrofe e é isso que não podemos aceitar: interesses eleitorais e setoriais não podem prevalecer sobre o bem comum da nação.”
Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

Exemplo de como somos afetados pelas mudanças climáticas

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Geada afeta áreas de restauração florestal na região da Serra da Mantiqueira
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Mudas nativas plantadas em novembro e abril foram as mais atingidas

As geadas e temperaturas negativas registradas em julho na região da serra da Mantiqueira (divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais) afetaram diretamente até 80% das áreas em restauração do projeto Raízes do Mogi Guaçu, o equivalente à 47 hectares, em apenas uma das 18 áreas atingidas a estimativa é de que mais de 20.000 mudas já plantadas tenham sido afetadas. As geadas poderão atrasar os trabalhos de restauração em até um ano na região.

De acordo com Ana Balderi, co-fundadora e coordenadora de restauração florestal da Associação Ambientalista Copaíba, o fenômeno foi inédito na região. “Por meio da rede do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica , aplicamos técnicas e compartilhamos experiências com produtores da região sul do país, normalmente mais habituados com geadas. Infelizmente, ainda assim mais de 68.000 mudas foram atingidas ainda no viveiro e ainda não sabemos exatamente a extensão dos danos causados”, explica Balderi.

Das mais de 100 espécies nativas utilizadas para a restauração na região poucas apresentaram resiliência para eventos extremos. O Raízes do Mogi Guaçu é uma iniciativa do WWF-Brasil e da International Paper com apoio da HP, e prevê restaurar até 200 hectares nas áreas de nascentes do rio Mogi-Guaçu.

O que é o WG1 do AR6

O IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas. O IPCC não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos para embasar políticas mundiais globais e nacionais.

Desde sua fundação o IPCC produziu cinco grandes relatórios – o que começa a ser divulgado em 2021 é o sexto, daí a sigla AR6 (de Assessment Report, em inglês). Dada a amplitude e complexidade desses relatórios, eles são produzidos e divulgados em partes. O AR6 é composto por quatro partes: em 2021, é divulgada a parte de ciência física, resultado dos esforços de cientistas de todo o mundo, incluindo Brasil, reunidos no Grupo de Trabalho 1 (WG1, de working group, em inglês).Em 2022, virão as seções sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação, mitigação, e uma síntese geral será lançada em 2022).

O Grupo de Trabalho I é formado por especialistas que combinam coisas como observações de concentrações de gases de efeito estufa, medições de temperatura e precipitação, degelo e medidores do nível do mar. Eles executam modelos sofisticados em supercomputadores para obter uma imagem do sistema climático e como e por que ele está mudando. É aqui que obtemos nossa compreensão das mudanças climáticas passadas, presentes e futuras. No caso de projeções, os cientistas apresentam perspectivas para vários cenários de emissões: desde uma redução drástica e rápida das emissões até a continuidade do padrão atual.

Sobre o WWF-Brasil
O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 25 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Saiba mais em wwf.org.br

Ciência e coronavírus: a verdade não é relativa

As evidências científicas desempenham um papel importante na pandemia? Bem, Francis Bacon já sabia: você conquista a natureza obedecendo às suas leis

virusA filosofia tem pouco a dizer no laboratório. © Testalize.me/ unsplash.com

Por Ralf Bönt para o Die Zeit

Já faz bem mais de 2.000 anos que Epicuro formulou uma reserva contra a era moderna que ainda hoje é comum em uma carta a um amigo. Era muito melhor, pensou o filósofo, seguir o mito dos deuses do que estar sujeito, como um escravo, à necessidade natural do destino dos filósofos. O mito, em última análise, afastou a esperança de que os deuses se permitiriam ser chamados pela adoração, enquanto o destino mostra apenas uma necessidade inexorável. Ore e tenha esperança: esse era o programa de rejeição do progresso do anti-conhecimento, mesmo naquela época, enquanto os filósofos naturais queriam entender o mundo, tentando decifrar suas instruções de operação, por assim dizer.

Infelizmente, é preciso perguntar hoje por que os cientistas ainda são recebidos com tanto ceticismo e desconfiança. Afinal, séculos de sucessos esmagadores por trás deles. No momento, eles quase não estão fazendo nada com que sonham e estão disponibilizando vacinas contra uma epidemia em muito pouco tempo. Ainda assim, os negadores do vírus estão nas ruas para demonstrar contra uma política projetada para protegê-los da infecção por coronavírus. A política é subserviente aos cientistas, daí a acusação de que os cientistas exageram em sua ciência. Ou eles estão até sujeitos a uma política que persegue objetivos obscuros e usa a autoridade da ciência. Pode-se facilmente dizer que muitos simplesmente não sabiam nada melhor, uma falha na educação deles. Mas também há uma discussão entre as elites sobre a alegada crença na ciência.

Tudo isso é baseado em um mal-entendido de longa data tanto da ciência quanto da sociedade moderna que precisa desesperadamente ser esclarecido. Os exageros dos cientistas certamente ocorrem na vida profissional cotidiana, especialmente quando isso ocorre em grande parte em programas de entrevistas. Por exemplo, há virologistas e médicos que querem impor severas restrições à sua liberdade de movimento, máscaras e proibições profissionais às pessoas vacinadas porque algumas porcentagens restantes permanecem sob risco de infecção. Isso é comumente chamado de déformation professionnelle, popularmente: doença ocupacional. Assim como um jogador de tênis sonha com o mundo como uma bola de feltro amarela em algum momento sem perceber nada, tudo o que vê são vírus. Os exageros e piscadelas dos cientistas são, segundo seus oponentes, apenas a razão do caos econômico e da desmoralização, por todos os danos colaterais causados ​​pelo não diagnóstico de câncer, depressão e suicídios, falências privadas e perda de escolaridade. Agora você pode até ler que eles são responsáveis ​​pelas mortes de pacientes ventilados incorretamente que nunca teriam morrido de coronavírus. Provavelmente não é por acaso que muitas vezes são grandes pensadores de outras disciplinas, de preferência filósofos e historiadores, que relativizam e acabam por desacreditar as conquistas das chamadas ciências exatas. Ironicamente, eles fingem ser algo que dificilmente podem ser: especialistas em proteção contra infecções.

Ao fazer isso, eles reproduzem o antigo e extremamente vivo mal-entendido a que Epicuro já estava sujeito: os cientistas naturais não são os novos deuses em que estão sendo transformados. Você não se submete a ninguém. Ao contrário, eles estão simplesmente tentando realmente ler o mundo, as escrituras de Deus, Johannes Kepler diria, e também não soa muito diferente com Einstein. No entanto, eles próprios são apenas bons sujeitos da única inevitabilidade, a natureza. Nesse caso, é sobre a natureza do vírus, especialmente quando e como ele encontra o hospedeiro mais próximo e como eliminá-lo. A suposição de Epicuro – ler e entender escravizado – é absurda. Em última análise, compreender o mundo amplia o campo de ação e, portanto, também a soberania individual. Você também pode chamar isso de liberdade. Insistir que todo conhecimento é relativo é inútil: uma lei da natureza é algo diferente do decreto arbitrário de um deus ou de seu patriarca secular substituto, que só é válido até ser revogado. Uma lei da natureza é confiável. Não foi feito por um homem ou por um deus como o homem. É por isso que a visão freqüentemente ouvida de que não existe apenas uma ciência, de que se deve ouvir todas as opiniões, é pelo menos extremamente imprecisa, mas completamente errada.

Visto que não existem duas verdades lado a lado na mesma coisa, há sempre apenas uma ciência como uma doutrina da verdade no final. Isso não significa que as descobertas científicas não criem problemas de conexão em outras disciplinas. Uma falácia clássica, entretanto, é relativizar as descobertas com referência aos problemas de conexão e assumir uma crença na ciência onde apenas alguém diz: algo é assim – e essas são as consequências prováveis. A natureza da transmissão do vírus é até agora apenas parcialmente conhecida e deve ser pesquisada novamente a cada mutação, mas a filosofia, por exemplo, tem muito pouco a contribuir. Ao contrário do que afirma a cultura popular, nem tudo é relativo. Em qualquer caso, a teoria da relatividade, para dar um exemplo, não é. Em vez disso, sabe-se exatamente onde se aplica, como usá-los e quão grande são suas correções à mecânica clássica. Portanto, você também sabe quando negligenciá-lo. E basicamente sempre é assim.

A alegada relatividade de todos os argumentos é necessária como uma porta para infiltrar intenções injustas e uma agenda política secreta em um debate puramente objetivo sobre a proteção contra infecções. Gostaríamos de forçar o que é conhecido na lógica como a falácia do meio-termo. Em termos da dinâmica da conversa, isso equivale a uma guerra de cansaço.

Claro, agora há muito o que discutir entre os cientistas naturais. O aberto é, no entanto, de uma categoria completamente diferente: Aberto é o nível de conhecimento que se tem, primeiro de uma lei natural e, em segundo lugar, da situação especial em que ela é aplicada. Trata-se das leis pelas quais o novo coronavírus se espalha. Os aerossóis são perigosos ou maçanetas? A que temperaturas, com que umidade e com que luz é necessário ter um cuidado especial? E quais serão esses tamanhos se uma medida previamente decidida para proteger contra o vírus entrar em vigor? Por que uma ilha foi gravemente atingida, Inglaterra, e outra, Taiwan, nãoA maioria dos argumentos usados ​​no debate são simples, mas errados. Você precisa de dados para avaliar e avaliações que deve aplicar novamente. Só então vem a discussão crucial sobre os objetivos da política: você quer salvar o maior número possível de pessoas da morte por vírus ou apenas outras morrem? Se você não sabe do que está falando e sempre muda de assunto quando algo não lhe convém, você não pode decidir nada.

Infelizmente, as críticas à expertise das disciplinas responsáveis ​​por  explicar uma pandemia viral não ajudaram a esclarecer isso. É preciso concordar que, inicialmente, apenas virologistas foram ouvidos. Foi só lentamente que surgiram epidemiologistas que não sabem exatamente o que os vírus fazem na garganta, circulação e linfa, mas podem dizer melhor como se movem nas sociedades. São principalmente os físicos que podem calcular grandes sistemas com muitas variáveis. Como de costume, eles rapidamente desencadeiam alergias em qualquer pessoa acostumada a encobrir sua aversão à matemática com certo orgulho. Onde deveria haver confiança, o complexo de inferioridade triunfa. Mesmo antes do surgimento de sociólogos, psicólogos e economistas, o poço foi envenenado e as discussões no nível meta foram transformadas em conversas vãs.

Enquanto isso, nenhum virologista ou epidemiologista jamais emitiu um toque de recolher. Como se sabe, é isso que a política faz. E se optarem pela ciência, é um processo político, mas não uma expertocracia. Respeitável – também pode ser completamente diferente: para provar que a popularidade de um regente não é uma garantia contra julgamentos errados, mas, pelo contrário, pode retroalimentar diretamente com a negação científica dos pseudo-especialistas, devemos lembrá-lo de Rainha Vitória. Ela achava que devia haver algo na parte de trás da mesa dos mesmeristas, se tantos acreditavam nisso. Quando Michael Faraday veio e destruiu a fé dos mesmeristas, eles alegremente acenaram com a mão, referindo-se à rainha. A liberdade é mais trabalho do que ilusão, e obscurantismo e idiotice andavam de mãos dadas já no final do século XIX.

Toda criança sabe que conhecimento é poder desde que Wilhelm Liebknecht fez seu discurso em fevereiro de 1872 para as associações de trabalhadores em Dresden e Leipzig. Mas esse poder também deve ser capaz de se desenvolver contra a ignorância e as mentiras. Os especialistas têm que se defender contra o uso indevido de seus conhecimentos, mas também contra a ignorância. Afinal, os virologistas dizem há anos que uma pandemia certamente virá. A única questão era quando. Se basta publicar em periódico especializado ou se a ciência também é uma força social, se o conhecimento obriga, é uma das questões mais importantes. A resposta só pode ser sim em um mundo livre e burguês. E o trabalho da política seria ouvi-los e tomar precauções razoáveis, mesmo que tudo do lado de fora esteja gritando que temos problemas completamente diferentes no momento, e que o zero preto está tremendo como resultado. Um pouco mais de expertocracia teria nos salvado dessa catástrofe.

Adiar esse insight seria fatal. Porque agora, enquanto as igrejas estão se esvaziando rapidamente, o desenvolvimento científico está se acelerando enormemente novamente. Em experimentos com múons, os irmãos mais pesados ​​dos elétrons, os cientistas descobriram contradições espetaculares à teoria que o mundo vinha descrevendo com mais detalhes há décadas: o modelo padrão que sabe tudo sobre forças e matériaVocê se depara com a observação de novas áreas da natureza nas quais se aplicam leis até então desconhecidas. A semelhança de nossos dias com a época da gripe negra, exatamente um século atrás, já é impressionante. Naquela época, havia mais vítimas da gripe do que mortes na guerra, a teoria da relatividade foi confirmada e derrubou todas as ideias sobre o mundo. Seguiu-se uma renovação quase desenfreada na ciência, arte e política.

Portanto, pode muito bem ser que agora, quando todos querem a velha normalidade de volta, uma grande revolução esteja ocorrendo. Certamente não se limitará à digitalização e diversificação. Em vez disso, as hierarquias como as conhecemos da história cultural há muito se tornaram insustentáveis. Não só a engenharia genética na campanha de vacinação, que salva inúmeras vidas, fez com que todos os argumentos dos céticos parecessem velhos. Os desafios humanos colocados pelas novas técnicas de inteligência artificial e transumanismo, reprodução e memória digital também colocam questões que não podem ser respondidas com uma crença pré-moderna na negociabilidade de tudo e de todos. Há tão pouca formação política nessas questões quanto nas questões da pandemia.

A prática epicurista de fazer tudo para não chegar à modernidade finalmente falhou. Francis Bacon , o grande empiricista, formulou sua primeira lei antes que Liebknecht a confiasse. Para os amigos do conceito de liberdade banalizado e correntemente comum, que nem mesmo quer reconhecer a factualidade do mundo, soa estimulantemente provocativo: “Você conquista a natureza obedecendo às suas leis. Conhecimento é poder.” O fato de o poder ser sempre lutado não é novidade, mas na situação atual isso só é bom para o próprio ditador: o vírus.

 
 
fecho
 
Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Die Zeit [Aqui!].

Jornal Nacional mostra a ciência sob ataque no Brasil

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As situações de assédio e coação contra cientistas brasileiros que têm sido relatadas aqui  e aqui neste blog finalmente chegaram na mídia corporativa brasileira, ocupando o chamado “prime time”, no caso uma matéria de cerca de 3 minutos que foi veiculada pelo Jornal Nacional da Rede Globo (ver vídeo abaixo).

É importante que se diga que esses ataques contra determinados pesquisadores são apenas uma faceta de um ataque frontal que está sendo realizado pelo governo Bolsonaro contra produção do conhecimento científico e contra a ciência nacional como um todo.

Esses ataques contra a ciência brasileira, como bem lembrou a professora Mercedes Bustamante da Universidade Nacional de Brasília (UNB), também estão se dando na forma de cortes drásticos no financiamento das pesquisas realizadas, principalmente, nas instituições de ensino superior públicas, sejam elas federais ou estaduais. E como Mercedes Bustamante tão bem colocou, sem conhecimento científico não haverá um futuro para o Brasil.

Assim, defender não apenas a liberdade dos cientistas brasileiras, mas a obrigatoriedade do correto financiamento das pesquisas é algo que extrapola a comunidade científica, e deveria ser objeto de uma decisão decisiva de todas as instituições que se pretendem democráticas no Brasil. Aceitar tanto os ataques aos cientistas, como o corte de recursos para as pesquisas que eles realizam, implicará em um atraso substancial no desenvolvimento econômico do nosso país.

Defendendo a ciência em tempos difíceis

Retirado da edição de março de 2021 da Physics World, onde o artigo apareceu sob o título “Apoiando a ciência em tempos difíceis”. Membros do Instituto de Física podem ler a edição completa por meio do aplicativo Physics World .

Com o COVID-19 fomentando conspirações anticientíficas, Caitlin Duffy diz que os cientistas têm o dever de falar abertamente e desafiar a desinformação 

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Questão de identidade Podemos combater a ideologia anticientífica diretamente ou quebrando publicamente os estereótipos que significam que os cientistas são “alheios” e desconfiados. (Cortesia: Shutterstock / Yeti studio)

Por Caitlin Duffy para a Physics World

A cada minuto, todos os dias, cerca de 300 horas de vídeo são carregadas no YouTube e milhões de discussões estimulantes, mas não regulamentadas, ocorrem diariamente em sites de fóruns. Enquanto a Internet permite o acesso instantâneo às informações e entre si, o viés dos algoritmos favorece sugestões que atraem o usuário. Junto com o sensacionalismo da mídia e a corrupção política, a Internet cultivou uma insurgência de ideologia anticientífica, alimentada pela desinformação, sub-representação e paixão enraivecida. Em um mundo onde quase 60% da população tem acesso à Internet, os cientistas são necessários mais do que nunca para salvaguardar os fatos, a confiabilidade, a paz global e a saúde. 

A retórica anticientífica tem nucleado na última década, especialmente quando se trata do clima. Apesar do pior cenário, mostrando um aumento da temperatura global de 8°C e um aumento do nível do mar de 1 m até 2100 – bem durante a vida de nossa geração mais jovem – muitos optam por ignorá-lo ou desafiar as evidências subjacentes. Na esteira do COVID-19, a ignorância e a incapacidade de ouvir os cientistas agravaram o problema. Os espectadores assistem enquanto os países guiados pela ciência lentamente voltam a uma normalidade cautelosa, enquanto outros países sofrem taxas de mortalidade dolorosas, bloqueios de longo prazo e frustração com reviravoltas nas políticas. 

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson inicialmente apertou a mão de pacientes COVID-19 hospitalizados, em seguida, priorizou a economia sobre a saúde, ignorou os membros de seu governo que violavam as leis do COVID e mudou de ideia a esmo em relação à educação, merenda escolar gratuita e celebrações de Natal. Quando os cientistas modelaram extensivamente os resultados do COVID e detalharam as etapas necessárias para prevenir o pior, um governo complacente deveria ter ouvido. Bater potes e panelas para o NHS subfinanciado e sobrecarregado e outros trabalhadores-chave estressados ​​não é a resposta. E nos Estados Unidos vimos uma rebelião semelhante no COVID, com seu ex-presidente Donald Trump pedindo protestos contra o uso de máscaras e lockdowns, bem como promovendo a ingestão de alvejante e hidroxicloroquina, fornecendo estatísticas falsas e destacando o cinismo da vacina. Agradecidamente, 

Quando pessoas influentes mostram tanto desprezo, desrespeito e desconfiança em relação à ciência, é fácil entender como as conspirações são formadas e cultivadas nas comunidades, dando origem à perigosa cruzada anticientífica. O papel de um cientista é ser a voz eletiva da razão contra o absurdo e as proclamações da visão de túnel. É vital, então, que as figuras de autoridade confiem no julgamento científico e ajam de acordo. A confiança dos políticos e da mídia pode ajudar a combater a retórica anticientífica e algumas das questões mais urgentes enfrentadas pela humanidade. Com a necessidade óbvia de cientistas visíveis, deveria ser nosso dever falar sobre nossas preocupações sobre certas políticas. 

Colocando-se lá fora

Os cientistas são treinados ao longo de muitos anos para vasculhar jargões e dados para estabelecer fatos, detectar falhas e – principalmente – deixar de lado suas convicções pessoais caso as evidências as considerem improváveis. Afinal, nem mesmo Einstein poderia culpar a mecânica quântica, apesar de seu profundo problema filosófico com a teoria. Os cientistas são abordados com situações complexas e detalhadas, às vezes que estão além do escopo de seu campo. À medida que as pessoas procuram encontrar uma visão equilibrada das notícias hiperbolizadas, os cientistas parecem um bom primeiro ponto de contato para seu pensamento crítico treinado. 

Embora gratificante, sendo a pedra da razão que apura fatos e faz malabarismo com o jargão, muitas vezes é desgastante, pois requer não apenas tempo e esforço, mas também ginástica mental para produzir uma resposta satisfatória. Ser a referência para questões factuais pode adicionar uma complexidade diferente, às vezes indesejada. Como alternativa, a estimulação mental constante e a resolução de problemas são um ponto de prosperidade para alguns cientistas que usam essas conversas interessantes como uma pausa – ou mesmo para procrastinação – de seu trabalho diário.

A demanda por e de cientistas é alta. Mas sabemos que para cada cientista que escolhe ser vocal, há outro que detesta preencher um papel tão aberto, até porque não tem tempo. Na verdade, falar e se expor nem sempre é fácil. A resposta de quem está fora da comunidade às vezes é ostracizante e ofensiva: repleta de misoginia para as mulheres, crítica em relação às pessoas de cor e cheia do conceito equivocado de que os cientistas acreditam que são melhores do que o público em geral. 

Isso, em combinação com um trabalho diário muitas vezes não relatável, pode levar os cientistas a reduzir seus laços sociais com os não-cientistas, acabando por remover uma conexão indispensável com a maioria da população. Parte de ser vocal é quebrar estereótipos e desafiar o estigma. Isso demonstra a “normalidade” que está por trás dos gráficos, nitrogênio líquido e estatísticas sérias; por trás de cada cientista está uma pessoa única com interesses, famílias e histórias distintas. Isso é crucial para retratar se os jovens de hoje querem crescer com confiança e paixão na ciência e se as minorias vão se sentir bem-vindas na comunidade científica. 

As pessoas costumam ficar surpresas quando um cientista tem hobbies inesperados – seja fisiculturista, chef profissional, sommelier, artista ou músico. Quando o mundo exterior vê apenas “cientista” como a identidade de alguém, inadvertidamente menospreza talentos e hobbies que levaram décadas para dominar. Um cientista pode, a seus olhos, se transformar de uma pessoa chata que fica atrás de um computador o dia todo em alguém que faz ciência, mas também corre ultramaratonas ou produz sua própria música. 

Demonstrar que a ciência está ao alcance de qualquer pessoa não se trata apenas de melhorar a imagem dos cientistas. É também um passo fundamental para apagar o fogo anticientífico e abafar as conspirações – ambas vitais se quisermos continuar o avanço global em direção a um futuro mais pacífico, seguro e saudável.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela “Physics World” [Aqui!].

Precarização e desumanização do trabalho docente durante a pandemia, o caso da UENF

pandemia

 Ilustração por César Berje

Por Luciane Soares da Silva*

Neste texto vou adotar um olhar mais distanciado e trabalhar em uma escala que parte do governo federal e chega até a administração das Universidades, em especial a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Este método é possível ao observarmos discursos cotidianos sobre alinhamentos em diferentes esferas do poder quanto as suas formas de atuação. Devemos começar pelo óbvio: a constatação do custo de milhares de vidas pela incompetência do governo federal, pelo negacionismo científico e principalmente, pela perseguição aos cientistas. Seguem tentando interferir na autonomia das Universidades Federais, desqualificam o trabalho de institutos sérios, contingenciam verbas para pesquisas. O caso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nos servirá como exemplo. O constrangimento de Ricardo Galvão, a frente do INPE, é parte das arbitrariedades constantes de um governo sem qualquer plano eficaz para o Brasil no combate ao desmatamento na Amazônia. Mas também sem qualquer eficácia nas ações de combate a pandemia de COVID 19. Se foram desenvolvidos respiradores na Paraíba e em São Paulo, se as Universidades, Fundações e Institutos trabalharam constantemente em pesquisas na tentativa de conhecer e desenvolver formas de combate ao Coronavírus, tudo isto foi feito na contramão das ações do governo federal.

Descendo na escala, chegamos em março de 2021 testemunhando governos estaduais e municipais pressionando professores e comunidade pela volta às aulas presenciais. Sabemos que as crianças podem transmitir o vírus para familiares e mesmo aos educadores com este retorno, mesmo que a escola tente assegurar as condições ideais de imunização, o risco é alto e os resultados já são públicos:

  • “Professora da rede estadual é a primeira vítima da COVID-19 na volta às aulas em São Paulo”
  • “Professores denunciam 209 casos de COVID-19 na volta às aulas. Doria fecha sete escolas”
  • “ Com nove professores do IFAM mortos pela COVID, docentes querem aula só após a vacina”
  • “ Após 12 dias internado, professor morre em decorrência da COVID-19”.
  • “Vocês vão mandar suas crianças de volta para as aulas?”
  • “No Amazonas 64 professores morreram de COVID-19 desde janeiro, diz Sinteam”.

No caso de São Paulo, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), responsabiliza a gestão de Doria e o secretário de Educação pela morte da professora Maria Tereza Miguel de 32 anos. Mesmo com denúncia de salas pouco ventiladas, álcool gel vencido e outras irregularidades, as aulas foram iniciadas. Observação importante: a presença dos alunos não é obrigatória. Mas a obrigatoriedade está posta para os professores.

Chegamos ao terceiro momento deste texto. Nas palavras do ex secretário municipal da educação de São Paulo, Alexandre Schneider, “é preciso haver diálogo entre os governantes e quem está no chão da escola”. Esta recomendação poderia ser útil para a definição dos calendários acadêmicos em cada instituição de ensino superior no país, observando singularidades e recursos. A maioria delas adotou o ensino remoto, com disciplinas e equipamentos. Mesmo existindo um consenso sobre as dificuldades de acesso, avaliação e questões pedagógicas específicas desta modalidade remota, também existem muitas críticas. Dentre elas, as condições de trabalho docente.

Temos visto docentes adoecendo pelo excesso de trabalho, pelas reuniões de planejamento, pelas pressões para seguir produzindo durante a pandemia. No caso da Uenf, vivemos um caso exemplar das formas de precarização e desumanização que atingem a Ciência e Educação no Rio de Janeiro. Depois de um ano experimental, docentes decidiram em seus colegiados, adotar medidas já em vigor nas demais Universidades. Avaliação por nota e frequência. O que poderia ser um tema de exercício de diálogo e fortalecimento dos laços internos, se transformou em uma arena de “cancelamentos” e insultos públicos. O resultado disto é uma exposição lamentável da Universidade nas redes sociais como se a tragédia envolvendo uma pandemia não fosse o suficiente.

Observamos em vários momento que o descumprimento dos ritos internos de autonomia dos colegiados (a não nomeação de reitores é só um exemplo), fere de morte a democracia interna das Universidades. O discurso populista que nega o que todos já sabem, torna-se uma forma perigosa de construção da realidade pois o voto perde qualquer efeito jurídico real. Nós já vimos isto na história. Nós sabemos como inicia. E sem dúvida a tragédia consiste nesta repetição meias verdades ad nauseam em redes sociais. É uma forma de rebaixamento de toda comunidade acadêmica. O placar só tem perdedores. O ideal de uma formação crítica e de excelência fica em um horizonte distante.

Um cotidiano exageradamente atribulado

 Docentes nas redes públicas e privadas de ensino tem vivido infortúnios simultâneos: a busca das condições para o domínio de uma modalidade de ensino para a qual não foram preparados, a perda de colegas e familiares, um cansaço constante que gera quadros de ansiedade e depressão e por fim, a total desumanização de seu ofício. No caso da Uenf, a animosidade exposta nas redes sociais como se estivéssemos em uma “vendeta”, explicita os resultados cognitivos acumulados após as jornadas de junho de 2013 e do golpe de 2016. Temos uma geração (ou uma boa parte dela) tomada pelo imediatismo, fascinada por uma forma de comunicação pelas redes e que abre mão das formas de construção participativa (as Assembleias). O mais grave é pensar neste processo de desumanização do docente como parte das formas de administração em voga nos governos Federais (intervenção e destruição da ciência), Estaduais (cortes de salários e ataque aos docentes, lembremos da Bahia) municipais (pressão pela volta presencial das aulas).

Mas que debate deveríamos fazer?

 Para aqueles que sonhavam com a Petrobras no Norte Fluminense ou mesmo com a carreira docente, o debate deveria ser outro. Defender o servidor público é, em minha avaliação como docente com uma década de trabalho na Uenf, a única saída realmente vitoriosa neste momento. Vejam aí os efeitos da propaganda em uma era pós verdade. O que realmente deveria importar é exatamente o que está sob ataque daqueles que são o foco da política pública de educação.

Estas formas de ataque, de insulto, feitas aos docentes seguem a lógica em vigência na era Bolsonaro. A da declaração de Paulo Guedes “o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”. Fomos chamados de algo parecido recentemente. Mas o que esperam nossos alunos em um futuro próximo?

Aprofundando esta análise, e concluindo, é o próprio ideal de Ciência que sai ferido de morte quando seus instrumentos são destruídos. Nós, no ensino Fundamental, Médio e Superior vivemos a sala de aula. Trabalhamos utilizando nossos recursos, recebemos alunos que precisam de cestas básicas, acesso a tratamentos diversos, atenção e acolhimento. Em que momento fomos demonizados e em que bases este processo de demonização se sustenta?

Em meio a tantas mortes diárias, projetos contínuos de privatização (como o da Eletrobras), volta do país ao mapa da fome, violência contínua contra as mulheres, desmatamento da Amazônia e morte de indígenas, as instituições de ensino poderiam ter como vitória a construção do Brasil que queremos. No caso da Uenf, fundada por Darcy Ribeiro, não é uma opção, é uma obrigação. Do contrário, o que vemos são apenas pequenas vitórias na derrota. Nós professores, já vimos tempos piores e melhores. E por isto, a despeito das tentativas de destruição da nossa categoria, seguimos fortes. E lutaremos pela manutenção de vidas, aguardando a derrota do projeto destes governos em todas as suas escalas. Todas.

Dedico este texto ao professor de Geografia Celso Roth, 40 anos, vítima da COVID-19, professor da Escola Municipal Camilo Alves, Esteio, Rio Grande do Sul. Assim como ele, professores que não possuíam comorbidades, pressionados ao retorno para sala de aula, vieram à óbito nestas semanas.

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Miguel Nicolelis debate ciência, Covid-19 e comunicação

Um dos neurocientistas mais renomados do mundo participa nesta quinta-feira (29) de webinar transmitido pela In Press Oficina

Miguel Nicolelis

O médico neurocientista Miguel Nicolelis. (Foto: Leticia Moreira/Folhapress)

Considerado pela Scientific American um dos 20 cientistas mais influentes do mundo em sua área, o neurocientista Miguel Nicolelis participa nesta quinta-feira (29) do webinar Arena de Ideias, com o tema “Cérebro, o criador do universo e a Comunicação”. Nicolelis vai abordar a importância da ciência para a Humanidade, incluindo a discussão sobre a vacina da Covid-19 e a possível segunda onda da doença.

Professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Nicolelis é autor do livro “O Verdadeiro Criador de Tudo – Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos”, no qual propõe que o cérebro humano é o verdadeiro criador do universo. O neurocientista também defende que a inteligência artificial jamais será capaz de superar o cérebro humano e compara as fake news a uma “batalha da informação”.

Participam da roda de entrevista a sócia-diretora da In Press Oficina, Patrícia Marins, especialista em gestão de crise; a diretora de Curadoria e Novos Produtos, Míriam Moura; e a Diretora de Relacionamento com o Poder Público, Fernanda Lambach.

O bate-papo será transmitido às 10h30, pelo canal da In Press Oficina no youtube. Faça sua inscrição pelo link http://bit.ly/31KiMC8

Prazo para se candidatar a prêmio de educação no valor R$ 250 mil acaba dia 31

Interessados podem concorrer ao Prêmio Péter Murányi, cujo objetivo é reconhecer trabalhos que melhorem a qualidade da vida da população

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O prazo para inscrição na 20ª edição do Prêmio Péter Murányi está chegando ao fim. Focada em “Educação” este ano, a iniciativa distribuirá R$ 250 mil, sendo R$ 200 mil para o trabalho vencedor, R$ 30 mil e R$ 20 mil para o segundo e terceiro colocados, respectivamente. Os interessados podem enviar seus trabalhos até o dia 31 de outubro de 2020.

Para a inscrição, o trabalho precisa ser indicado por uma instituição, sediada no Brasil, cadastrada junto à Fundação e atender a três critérios fundamentais: ser inovador, ter aplicabilidade prática e resultados comprovados sobre seu impacto positivo para as populações de regiões em desenvolvimento. Importante destacar que a participação é gratuita e o prêmio é entregue ao autor ou autores dos projetos.

Entidade privada e sem fins lucrativos, a Fundação já investiu, ao longo de suas 19 edições, R$ 3,1 milhões e avaliou 1.704 trabalhos, desde o primeiro Prêmio Péter Murányi, em 2002. Sua periodicidade é anual, sendo que se alternam os temas “Alimentação”, “Saúde”, “Ciência & Tecnologia” e “Educação”, de modo que cada área seja revisitada a cada quatro anos.

O edital e o formulário para participação estão disponíveis no site www.fundacaopetermuranyi.org.br. Os trabalhos inscritos passam por algumas etapas de avaliação, sendo submetidos a uma Comissão Técnica e Científica, especialistas da área e a um Júri. Os autores dos 3 trabalhos finalistas serão conhecidos e receberão seu prêmio em abril de 2021.

A premiação conta com o apoio das seguintes entidades: ABC (Academia Brasileira de Ciências), Aconbras (Associação dos Cônsules no Brasil); Aciesp (Academia de Ciências do Estado de São Paulo); Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras); Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior); CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola); CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico); Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

SERVIÇO:

20º Prêmio Péter Murányi – edição Educação

Envio dos trabalhos indicados: até 31 de outubro de 2020

Definição dos 3 finalistas: 1º trimestre de 2021

Cerimônia de entrega: 1º quadrimestre de 2021

Cadastro de instituição/empresa: premio2021@fundacaopetermuranyi.org.br

Edital e Regulamento: www.fundacaopetermuranyi.org.br

Sobre o Prêmio Péter Murányi

Direcionado a iniciativas que melhorem a qualidade de vida da sociedade brasileira, o Prêmio Péter Murányi acontece anualmente, alternando os temas “Educação”, “Saúde”, “Ciência & Tecnologia” e “Alimentação”, com entrega de R$ 250 mil, sendo R$ 200 mil ao trabalho vencedor, R$ 30 mil e R$ 20 mil para o segundo e terceiro colocados.

A premiação conta com o apoio da ABC (Academia Brasileira de Ciências), Aciesp (Academia de Ciências do Estado de São Paulo), Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras), Aconbras (Associação dos Cônsules no Brasil), CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Enade 2019 explicita o fosso que separa as universidades públicas das privadas

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Aula em anfiteatro da Universidade de Brasília (UnB) — Foto: Isa Lima/UnB

Para começo de conversa informo que não sou um grande entusiasta dos grandes exames de avaliação que se tornaram a forma de medir a qualidade do ensino no Brasil. É que sendo avaliador de cursos do Ministério de Educação e Cultura (MEC) sei que as diferenças existentes entre a qualidade de ensino em instituições de ensino superior públicas e privadas são imensamente maiores do que os instrumentos oficiais de avaliação permitem avaliar. Dito isso, tenho que observar que mesmo em um contexto em que o instrumento usado é limitado, no caso o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), as diferenças de qualidade são, digamos, exuberantes.

Quem desejar saber mais sobre essas diferenças e não quiser ter que mergulhar no site do próprio Enade, sugiro a leitura do artigo assinado pelo jornalista Paulo Saldaña intitulado “Faculdades particulares têm 1% de cursos com nota máxima no Enade 2019 e que foi publicado hoje pelo jornal “Folha de São Paulo” (ver imagem abaixo).

Enade 2019

A realidade é dura: apenas 1% das instituições particulares possuem cursos com a nota máxima (i.e., cinco), enquanto que a maioria dos cursos em instituições privadas com fins lucrativos obteve conceito 2, ou seja, “abaixo da média”, 40,9%.  Em suma, além de cobrarem caro, a maioria das instituições privadas oferece ensino de péssima qualidade.

Já nas instituições federais, 46% dos cursos ofertados conseguiram conceito 4 e 24,1%, conceito 5, que é o mais alto. Há ainda que se lembrar que as instituições federais contribuem para parte significativa da produção científica nacional. Se somarmos o que fazem as universidades estaduais em termos de qualidade e produção científica, o fosso que separa o segmento público de ensino superior torna-se ainda mais explícito.

Desse pequeno raio-X fica claro o crime que está sendo cometido pelo governo Bolsonaro contra a educação e ciência brasileira quando se conduz a orçamentos cada vez menores que terminarão por inviabilizar os nossos melhores centros de formação de mão de obra altamente qualificada.

Além disso, este resultado também explica porque quando alguns candidatos a prefeito falam em procurar o apoio para o desenvolvimento de políticas públicas apenas em universidades públicas há tanto alvoroço entre os gestores de instituições privadas de ensino e seus áulicos na mídia corporativa. É que ao reconhecer a superioridade das instituições públicas de ensino naquilo que elas têm que oferecer à sociedade, esses candidatos revelam o óbvio que é a cobrança abusiva por serviços de péssima qualidade por parte da maioria das instituições privadas de ensino.

Finalmente, há que se lembrar que o Brasil é um dos poucos países do mundo onde as instituições públicas de ensino superior abrigam menos de 30% do total de estudantes, graças a uma sobredominância das instituições privadas que representam em torno de 2/3 do total (ver gráfico abaixo com números da PNAD Contínua para a Educação de 2017).

proporções