Glifosato: ciência em disputa, exposição massiva e os limites da regulação

Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea

O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.

Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.

A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.

Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.

Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.

A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.

Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.

Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.

O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.


Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui! ].

A terceirização do pensamento: IA, ensino superior e o futuro da ciência

O uso descontrolado de IA ameaça a formação crítica de estudantes e o futuro da produção científica

Nos últimos dois anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar presença constante no cotidiano universitário. Hoje, uma quantidade significativa de estudantes consegue gerar resumos, resolver exercícios, escrever relatórios, montar apresentações e até produzir artigos científicos completos em questão de minutos. À primeira vista, isso parece apenas mais uma revolução tecnológica inevitável. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que estamos diante de um problema muito mais profundo, e potencialmente devastador para a formação universitária, a ética acadêmica e o próprio futuro da ciência. O ponto central é simples: o uso descontrolado da IA está corroendo silenciosamente o próprio processo de formação universitária.

A universidade nunca teve como missão apenas entregar diplomas.  O papel histórico das universidades sempre foi formar profissionais capazes de pensar, analisar, argumentar, duvidar e tomar decisões em contextos complexos. Em outras palavras, formar autonomia intelectual. E isso não se constrói com respostas prontas, pois toda a experiência acumulada mostra que isso se constrói com esforço cognitivo, erro, tentativa, leitura difícil e escrita trabalhosa. É justamente esse processo que a IA começa a substituir, e rapidamente assimilada em nome da formação mais veloz de profissionais que estariam sendo ansiosamente esperados pelo mercado.

O problema é que disciplinas obrigatórias existem por uma razão. Elas definem o perfil profissional que a sociedade espera de um engenheiro, de um médico, de um advogado, de um cientista. Anatomia, fisiologia, farmacologia e epidemiologia não são obstáculos burocráticos na formação médica; são a base que sustenta decisões clínicas que podem salvar ou perder vidas. Quando um estudante terceiriza a resolução de exercícios, a escrita de relatórios ou a síntese de textos para uma IA, ele pode até entregar um trabalho perfeito, mas sem ter trilhado o caminho cognitivo necessário para, de fato, aprender.  O fato é que estamos criando, silenciosamente, a figura do profissional diplomado sem domínio real das competências fundamentais.

E aqui o risco deixa de ser educacional e passa a ser social. Imaginemos médicos excessivamente dependentes de sistemas automatizados para interpretar exames ou propor diagnósticos. Imagine engenheiros incapazes de avaliar criticamente um cálculo gerado por software. Imaginemos cientistas que nunca desenvolveram plenamente a capacidade de formular perguntas originais. Esse cenário não é ficção científica, pois ele está começando a ser construído agora, dentro das universidades em todo o mundo.

Um dos efeitos mais preocupantes desse processo é a terceirização do esforço cognitivo. Pensar exige treino constante. Leitura profunda exige prática. Escrever exige sofrimento intelectual. Quando a IA passa a realizar essas tarefas com rapidez e fluidez, muitos estudantes deixam simplesmente de exercitar essas habilidades. Aos poucos, a tolerância à complexidade diminui, a capacidade de concentração se reduz e a autonomia intelectual se fragiliza. A tecnologia criada para ampliar capacidades humanas começa, paradoxalmente, a atrofiá-las. 

O impacto ético também é gigantesco. A fraude acadêmica entrou em uma nova fase. Durante décadas, plagiar significava copiar textos existentes. Hoje, tornou-se possível produzir trabalhos inteiros sem dominar o conteúdo e com baixíssima probabilidade de detecção. As universidades estão enfrentando uma crise silenciosa: trabalhos deixaram de ser evidência confiável de aprendizagem. Se professores não conseguem distinguir autoria humana de produção automatizada, as notas deixam de refletir competência real e os diplomas passam a sinalizar muito menos do que deveriam. Isso ameaça a credibilidade institucional do ensino superior. Mas talvez o impacto mais grave esteja acontecendo na própria ciência. A escrita acadêmica sempre foi parte essencial da formação de pesquisadores. Dissertações e teses não são apenas produtos finais; são rituais de passagem intelectual, mas um momento em que o estudante aprende a formular problemas, estruturar argumentos, lidar com incertezas e construir pensamento original. Quando a IA entra como autora invisível, esse processo formativo se enfraquece. 

Já começamos a ver sinais de uma possível “industrialização” da escrita científica: revisões de literatura produzidas em massa, artigos inflacionados, textos plausíveis mas superficiais. Existe o risco real de uma poluição textual da ciência — mais artigos publicados, mas menos pensamento crítico por trás deles. Em um cenário extremo, poderemos ter IA escrevendo artigos e IA ajudando a revisá-los, enquanto a participação humana se torna cada vez mais periférica. A ciência perderia sua função mais importante: o escrutínio crítico humano. Mas tudo indica que este cenário extremo já está entre nós, representando uma grave ameaça para o futuro da ciência enquanto um empreendimento que deveria servir para melhorar a vida da maioria da Humanidade.

Diante desse quadro, a resposta não pode ser fingir que nada está acontecendo. Tampouco é realista imaginar a proibição total da IA. O que precisamos urgentemente é de regulação pedagógica séria.  Primeiro, é inevitável reformular os sistemas de avaliação. Provas presenciais, avaliações orais, defesas públicas e atividades realizadas em tempo real precisam voltar ao centro do processo educativo. Não como nostalgia do passado, mas como estratégia para garantir que o estudante realmente pense no que e sobre o que está fazendo. Na medicina, isso significa reforçar simulações clínicas presenciais e avaliações de raciocínio diagnóstico ao vivo. Segundo, o uso de IA precisa ser declarado de forma obrigatória em qualquer produção acadêmica. Transparência deve se tornar regra básica. Terceiro, universidades precisam ensinar IA de forma crítica. Não basta permitir o seu uso, pois é preciso formar usuários capazes de compreender limites, vieses e riscos epistemológicos dessas ferramentas. E, acima de tudo, precisamos reafirmar um princípio simples: aprender não é produzir textos; aprender é desenvolver pensamento crítico e autônomo.

A IA não é apenas mais uma ferramenta já que ela redefine o que significa estudar, pesquisar e produzir conhecimento. Se continuarmos ignorando os riscos do uso descontrolado da IA, poderemos formar uma geração altamente certificada, mas intelectualmente frágil , e uma ciência que se tornará cada vez mais volumosa, porém menos crítica e, consequentemente, avessa às reais necessidades que a atual conjuntura histórica de um planeta em colapso climático impõe.

Finalmente, há que se reconhecer que a IA não é apenas mais uma ferramenta tecnológica incorporada ao cotidiano universitário dado que ela redefine silenciosamente o próprio significado de estudar, pesquisar, ensinar e produzir conhecimento. Se continuarmos tratando seu uso irrestrito como um fenômeno neutro ou inevitável, corremos o risco de formar uma geração altamente certificada, porém intelectualmente frágil; uma ciência cada vez mais volumosa, mas progressivamente menos crítica; e universidades que preservam rituais formais de avaliação enquanto perdem sua função substantiva de formação. O que está em jogo não é apenas a integridade acadêmica ou a qualidade dos diplomas, mas a própria capacidade da sociedade humana de produzir profissionais capazes de lidar com problemas complexos, tomar decisões responsáveis e sustentar práticas científicas confiáveis. Em última instância, se trata de preservar a credibilidade social da universidade e o papel civilizatório da ciência. Desta forma, o verdadeiro desafio não é impedir a IA, algo impossível a estas alturas do campeonato, mas impedir que ela substitua aquilo que constitui a essência da educação superior: o desenvolvimento paciente, exigente e insubstituível de mentes autônomas, críticas, criativas e responsáveis. Sem essa reação por parte das universidades e da comunidade científica, o risco é que a automação intelectual avance mais rápido do que nossa capacidade coletiva de compreender suas consequências, deixando para o futuro o custo de uma formação que parece moderna, eficiente e produtiva, mas que poderá se revelar profundamente vazia e antissocial.

Preprints e a Ciência sob Pressão: a Ilusão da Verdade Imediata

Como a circulação acelerada de resultados preliminares amplia a desinformação científica e produz novas formas de autoridade sem validação

É possível debater o fenônomeno dos chamados “preprints” sem cair em alarmismo — mas também sem ingenuidade. Eles são uma ferramenta poderosa de circulação rápida do conhecimento, mas carregam um risco estrutural: a possibilidade de amplificar ciência frágil antes que ela seja devidamente testada.

Nos últimos anos, plataformas como arXiv, bioRxiv, earthAXiv e medRxiv se consolidaram como espaços legítimos de divulgação científica preliminar. A lógica é simples: compartilhar resultados rapidamente, abrir espaço para críticas e acelerar o debate acadêmico. Em áreas como física e matemática, isso já é prática consolidada há décadas. O problema começa quando esse modelo é transplantado, sem mediações, para campos altamente sensíveis — como saúde pública, epidemiologia ou políticas sociais.

O ponto central é que preprints não passam por revisão por pares. Isso não é um detalhe técnico; é a espinha dorsal do problema. A revisão por pares, apesar de imperfeita, funciona como um filtro mínimo de qualidade, coerência metodológica e integridade dos dados. Ao contornar essa etapa, os preprints se tornam, por definição, trabalhos em aberto — hipóteses em teste, não conclusões validadas.

O risco se agrava quando esses estudos escapam do circuito acadêmico e ganham circulação pública. Durante a pandemia de COVID-19, vimos um volume sem precedentes de preprints sendo citados por jornalistas, influenciadores e até gestores públicos como se fossem evidência consolidada. Resultados preliminares, muitas vezes baseados em amostras pequenas ou metodologias frágeis, foram transformados em manchetes. Em alguns casos, estudos foram posteriormente retratados ou profundamente revisados — mas o dano informacional já estava feito.

Há ainda um efeito colateral menos discutido, mas igualmente preocupante: a emergência de “celebridades científicas” construídas sobre evidências precárias. Em um ambiente que recompensa visibilidade e afirmações contundentes, alguns autores passam a acumular seguidores e capital simbólico a partir de preprints chamativos, ainda não validados. Essas figuras frequentemente ocupam espaços na mídia e nas redes sociais como vozes de autoridade, mesmo quando suas conclusões não resistem ao escrutínio posterior. O problema não é apenas individual, mas sistêmico: cria-se um atalho entre produção preliminar e prestígio público, contornando os mecanismos tradicionais de validação científica. Quando esses preprints são contestados ou refutados, a reputação construída tende a persistir — e, com ela, a circulação de interpretações equivocadas.

Esse fenômeno revela um descompasso entre o tempo da ciência e o tempo da comunicação. A ciência avança por tentativa, erro, revisão e correção. Já o ecossistema informacional contemporâneo — marcado por redes sociais e ciclos rápidos de notícias — privilegia o impacto imediato. Nesse ambiente, um preprint com conclusões “fortes” tem muito mais chance de viralizar do que um artigo revisado com resultados mais cautelosos.

Outro problema sério é a instrumentalização política e ideológica dos preprints. Grupos com agendas específicas podem selecionar estudos preliminares que reforcem suas posições, ignorando o caráter provisório desses trabalhos. O resultado é a fabricação de uma aparência de legitimidade científica para ideias que, na prática, ainda não resistiram ao escrutínio básico da comunidade acadêmica.

Nada disso significa que preprints devam ser descartados. Pelo contrário: eles são úteis e, em alguns casos, indispensáveis. Permitem transparência, circulação rápida de ideias e até correções mais ágeis do que o sistema tradicional de publicação. O problema não está na ferramenta em si, mas no uso social que se faz dela.

O desafio, portanto, é construir uma cultura de leitura crítica. Isso passa por alguns pontos fundamentais: deixar claro, sempre, que se trata de um estudo não revisado; evitar sua utilização como base para decisões políticas ou recomendações clínicas; e, sobretudo, reforçar o papel da mediação científica qualificada — seja por pares, seja por divulgação científica responsável.

Em última instância, a questão dos preprints expõe algo maior: a fragilidade das fronteiras entre produção de conhecimento e circulação de informação. Em um mundo onde qualquer resultado pode ganhar alcance global em minutos, a responsabilidade não é apenas dos cientistas, mas também de jornalistas, gestores e do público em geral.

A ciência não se fortalece com velocidade, mas com rigor. Quando a pressa substitui o escrutínio, o que se dissemina não é conhecimento — é ruído com aparência de verdade.

Ciências Brasil – Inglaterra: Cartas entre Charles Darwin e Fritz Müller são tema de livro

A publicação da coleção completa da correspondência entre Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, e seu principal colaborador no Brasil, Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller), será o destaque das comemorações do aniversário de nascimento do naturalista catarinense, em 31 de março. Após oito anos de intensa pesquisa, a historiadora e escritora Ana Maria Ludwig Moraes lança a obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”. O material, organizado originalmente pelo Darwin Correspondence Project (DCP), da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), reúne 110 cartas, muitas das quais nunca haviam sido traduzidas para o português. O projeto contou com o apoio do Instituto Histórico de Blumenau (IHB) e do Cônsul Honorário do Reino Unido em Santa Catarina, Michael Delaney. 

Riqueza de detalhes e rigor científico

Com 400 páginas, o livro apresenta os textos originais em inglês e suas respectivas traduções. A troca de mensagens entre os dois naturalistas estendeu-se por 17 anos, de 1865 até a morte de Darwin, em 1882.

O prefácio, assinado pela Universidade de Cambridge, ressalta a importância de Müller entre as mais de 15 mil cartas catalogadas pelo projeto britânico em meio século de buscas. A correspondência com o brasileiro é considerada uma das mais ricas para a compreensão do pensamento evolucionista.

Um dos destaques da obra é a comprovação documental do título Príncipe dos Observadores”, como Darwin carinhosamente se referia a Müller. Ana Maria localizou uma carta endereçada ao botânico alemão Ernst Krause, em 1880, conservada na Biblioteca Huntington, na Califórnia (EUA). Cópia dessa carta foi adquirida pelo IHB e doada ao Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

Um inventário da biodiversidade brasileira

Além do valor histórico, o livro funciona como um catálogo científico. A pesquisa identificou cerca de 900 espécies citadas ou descritas nas cartas. Uma equipe de especialistas elaborou um inventário detalhado, dividido em:

  • Fauna marinha: revisão de Harry Boos Júnior;
  • Botânica: revisão de Juliana Paula-Souza;
  • Entomologia e Aracnídeos: revisão de Isabelli Grothe Mees.

“O conteúdo das cartas é uma fonte primária fundamental para o estudo da história da ciência no século XIX. Elas mostram os caminhos, as dificuldades e os avanços que fundamentam o que conhecemos hoje”, explica a autora. Ana Maria ressalta ainda que os dados sobre a Mata Atlântica fornecem elementos preciosos para as ações contemporâneas de preservação do bioma.

Programação de Lançamento

Os lançamentos estão previstos para o mês de março em três universidades, além de eventos promovidos pela Biblioteca Municipal Fritz Müller e pelo IHB.

O início da colaboração entre Fritz e Darwin:

Em 24 de novembro de 1859, Charles Darwin publicava a primeira edição do livro A Origem das Espécies (On the Origin of Species), uma obra que revolucionaria a ciência a partir do pensamento evolucionista e da teoria da seleção natural.

Um exemplar da obra foi recebido por Fritz Müller em 1861. A publicação do pensador inglês impulsionou as investigações de Fritz a partir dos crustáceos coletados na Praia de Fora, em Florianópolis (Desterro à época) resultando no seu primeiro e único livro  Für Darwin (Para Darwin) – em 1864. Historiadores afirmam que Darwin remunerou uma governanta alemã para que lesse a obra, traduzida para o inglês, já que esta estava escrita em alemão, o que teria acontecido na primavera e verão de 1865, no hemisfério norte.

Assim que terminou a leitura do livro, Darwin escreveu a primeira carta a Fritz Müller, datada de agosto de 1865, elogiando seu trabalho e iniciando um rico intercâmbio de informações científicas que durou 17 anos (1865 a 1882). A teoria, agora, tinha evidência sólida, graças às experiências de campo relatadas no livro de Fritz. Por iniciativa de Darwin, a obra foi traduzida para o inglês em 1869, com o título “Fatos e Argumentos para Darwin”. Esta obra, com a aprovação de Darwin, posicionou Fritz Müller como pesquisador no meio científico alemão, muito embora já possuísse um considerável leque de correspondentes. A discussão entre Müller e Darwin sobre os bastidores da publicação, custos e seu impacto nos meios científicos europeus, constam nas cartas e, é curiosa a observação do cientista inglês de que “essas obras de cunho científico” não despertam muito interesse no público leitor da Inglaterra, àquela época.

As 110 cartas em poder da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), foram coletadas ao longo de 50 anos pelo Darwin Correspondence Project (DCP), instituição responsável pelo prefácio do livro de Ana Maria Ludwig Moraes, assinado pelos coordenadores do projeto encerrado em 2022, Shelley Innes e Alison Pearn.

Linha do Tempo: A Conexão Darwin-Müller

  • 1859 (24 de novembro): Charles Darwin publica em Londres a primeira edição de A Origem das Espécies.
  • 1861: O naturalista alemão Fritz Müller, vivendo em Santa Catarina, recebe um exemplar da obra e compara a teoria às suas observações de campo no litoral catarinense.
  • 1864: Como resposta e defesa das teses de Darwin, Müller publica na Alemanha o livro Für Darwin (Para Darwin).  
  • 1865 (Junho/Julho): Darwin, que não falava alemão, contrata a governanta de seus filhos para ler e traduzir para ele, a obra de Müller. O conteúdo apresenta evidências biológicas encontradas no Brasil, o que comprova a teoria da seleção natural.
  • 1865 (Agosto): Darwin escreve a primeira carta para Fritz Müller. Inicia-se um intercâmbio científico que transformaria a colaboração em uma amizade intelectual profunda.
  • 1869: Por influência direta de Darwin, o livro de Fritz Müller é traduzido para o inglês como Facts and Arguments for Darwin (Fatos e Argumentos para Darwin). 
  • 1865 – 1882: Durante 17 anos, os dois cientistas trocam informações, amostras e observações. Müller envia dados cruciais sobre crustáceos e a flora da Mata Atlântica que validam a Seleção Natural.
  • 1882 (19 de abril): Morte de Charles Darwin.
  • Século XX/XXI: O Darwin Correspondence Project (Universidade de Cambridge) dedica mais de 50 anos para localizar e catalogar as mais de 15 mil cartas de Darwin ao redor do mundo.
  • 2018 – 2026: A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes dedica oito anos à pesquisa, tradução e atualização da nomenclatura científica da totalidade das 110 cartas trocadas entre os dois naturalistas, contando com uma equipe de tradutores, revisores e especialistas nas áreas de botânica, fauna marinha e entomologia, no Brasil e exterior, que resultou em importante inventário das espécies mencionadas nas cartas.  
  • 2026 (Março): Lançamento oficial da obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”, revelando segredos e detalhes inéditos desse diálogo histórico.

Sobre a autora:

Ana Maria Ludwig Moraes

Historiadora e Pesquisadora Membro do Instituto Histórico de Blumenau (IHB)

Pesquisadora Independente e Colaboradora Institucional: Atuação em projetos de salvaguarda e difusão para instituições tais como Arquivo Histórico José Ferreira da Silva (Blumenau SC), Museu Koenig da Universidade de Bonn (Alemanha), Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Institutos Federais de SC, Ministério Público de SC.

A Fábrica de Artigos: produtividade, poder e crise na avaliação científica

Por Carlos Eduardo de Rezende*

Há temas que, embora essenciais, raramente são tratados com a franqueza que exigem. Entre eles, está o modo como avaliamos nossos pares, pois este exercício que revela não apenas critérios técnicos, mas também nossos compromissos mais profundos com a integridade, a justiça e o futuro daquilo que construímos coletivamente. Recentemente, li um texto sobre as Fronteiras da Avaliação e achei que este é o momento oportuno, pois estamos renovando os Comitês de Área do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Neste ano, em que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) promove a renovação de diversos comitês assessores nas diferentes áreas do conhecimento, torna-se imprescindível repensar quem deve nos representar junto a essa importante agência de fomento à ciência e à tecnologia. A avaliação por pares precisa estar ancorada em princípios orientadores sólidos e, sobretudo, em diretrizes capazes de assegurar a integridade na atividade científica. Trata-se, aliás, de uma preocupação que não deve se restringir ao CNPq, mas se estender a todas as instituições que desenvolvem atividades de pesquisa. Não por acaso, intensificam-se os debates acerca dos limites éticos no uso de ferramentas de inteligência artificial, cujo avanço recente tensiona noções tradicionais de autoria, originalidade e responsabilidade intelectual.

Com a proposta de analisar e qualificar sistemas de avaliação da pesquisa, o Research on Research Institute, sediado no Reino Unido, desenvolveu o observatório on-line Atlas da Avaliação, uma plataforma lançada em maio de 2025 que reúne e compara modelos nacionais de 17 países, incluindo o Brasil. Os dados evidenciam a diversidade de abordagens e há sistemas centralizados, modelos híbridos e arranjos institucionais com diferentes níveis de autonomia e indução estatal. Em alguns países, como a China, existe mais de um modelo de avaliação que impactam diretamente o financiamento das instituições. Parte desses sistemas avalia o desempenho individual de pesquisadores, que resultam em incentivos como remuneração diferenciada e suporte institucional ampliado para aqueles com produção científica de destaque. Paralelamente, há mecanismos de adesão voluntária que avaliam o desempenho institucional e orientam a distribuição de recursos.

No Reino Unido, por sua vez, possui um modelo voluntário, mas com adesão praticamente universal, dada sua influência decisiva na reputação acadêmica e no financiamento anual das instituições que ultrapassa 2 bilhões de libras e estabelece a distribuição dos recursos com base nos resultados. A robustez e o impacto, acabou servindo de referência para iniciativas semelhantes em outros países. Esse panorama comparado revela que os sistemas de avaliação não apenas mensuram desempenho, mas também induzem comportamentos, prioridades e até culturas institucionais. Por isso, discutir quem avalia, como avalia e com quais critérios deixa de ser uma questão meramente técnica e passa a ocupar um lugar central no debate sobre os rumos da ciência.

O CNPq mantém as Bolsas de Produtividade em Pesquisa por muitos anos e em 2025 cerca de 17.080 pesquisadores estavam recebendo estas bolsas. Esta bolsa, de certa forma, serve para diferenciar os profissionais, mas ainda não atende a todos que poderiam estar recebendo e, portanto, ainda existe uma demanda reprimida. Uma situação que me chama atenão é que não são raras as críticas ao que se convencionou chamar de “produtivismo”, termo que, por vezes, reduz de forma simplista a complexidade da atividade científica.

Essa tensão revela uma dicotomia importante: de um lado, a necessidade de reconhecer e valorizar a produção científica como motor do desenvolvimento assim como a necessidade de enfrentar distorções e práticas questionáveis que podem emergir quando métricas quantitativas são sobrevalorizadas. Recentemente uma instituição enfrentou um sério problema onde docentes em início de carreira apresentam mais de uma publicação por semana entre artigos e capítulos de livros. O que chamou atenção na instituição foi a extensa rede de coautoria internacional e situações como essa não devem ser tomadas como regra, mas não podem ser ignoradas. Ao contrário, reforçam a necessidade de mecanismos institucionais robustos e a consolidação de Comitês de Integridade em Pesquisa.

Caminhando para o final, entendo que este tema possui muitas outras dimensões, preocupa a recorrência de discursos sobre excelência institucional dissociados da explicitação de critérios consistentes de avaliação e da adoção de parâmetros mínimos que orientem a alocação de recursos com base nas atividades fim das instituições. Em tais circunstâncias, a noção de excelência corre o risco de se tornar mais retórica para a plateia. Acredito ainda que parte dessas distorções pode ser atribuída à crescente influência de dinâmicas políticas nos processos decisórios das Instituições de Ensino Superior e a perda da perspectiva puramente acadêmica. Este é um aspecto sensível, que demanda ser enfrentado com maior franqueza e rigor analítico, evitando simplificações quanto a abordagens demagógicas que fragilizam os fundamentos da avaliação acadêmica e comprometem a integridade do sistema científico.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).  Ele também é bolsista de produtividade 1A do CNPq.

Ciência Latino-Americana 2026, entre os freios e o desmantelamento

Ciência latina 1A estagnação dos orçamentos para a ciência em diversos países da América Latina pode prejudicar a pesquisa para o desenvolvimento. Crédito da imagem: Carmen Victoria Inojosa.

Embora o Uruguai, a Bolívia e o Chile não alterem seus orçamentos para cientistas em 2026, o Peru e o Brasil estão passando por um leve declínio, com diferentes motivações subjacentes, visto que o Brasil destina uma alta porcentagem do seu PIB para essa área.

Entretanto, a Argentina está registrando mínimas históricas, o que prenuncia um novo êxodo científico desse país do Cone Sul.

“As classes políticas da maioria dos países latino-americanos não desenvolveram uma visão estratégica que incorpore necessariamente a ciência, a tecnologia e a inovação como fatores de desenvolvimento humano integral.”

Benjamín Marticorena, gestor público e presidente do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CONCYTEC) do Peru em duas ocasiões.

A exceção

Contrariando a tendência regional, o México registrará um aumento de 11% no setor de ciência e tecnologia, especificamente na Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação (SECIHTI ), criada há um ano pela presidente Claudia Sheinbaum.

O orçamento total, que inclui os diversos centros públicos de pesquisa do país, aumenta de 33 bilhões de pesos (US$ 1,84 bilhão) em 2025 para 37,36 bilhões de pesos (US$ 2 bilhões).

Embora possa parecer um aumento mínimo, existem diferenças significativas na sua distribuição interna, uma vez que o orçamento exclusivo para a SECIHTI passa de US$ 16 milhões em 2025 para US$ 148 milhões em 2026. Ou seja, um aumento de mais de 800%.

A ideia de Sheinbaum é que o país produza protótipos de carros elétricos compactos; semicondutores; supercomputadores para análises climáticas, de saúde e de segurança ; bem como satélites de observação em órbita baixa para melhorar a conectividade em áreas rurais e monitorar riscos.

Apesar do aumento, o orçamento para ciência e tecnologia no México permanece estagnado em aproximadamente 0,2% do PIB, muito aquém do 1% que a comunidade científica vem exigindo há décadas.

E a regra

Embora o Brasil seja o país que mais investe na região em relação ao seu PIB (1% em média), neste ano consolida um cenário de restrição de verbas públicas para ciência, tecnologia e inovação (CTI).

No caso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência mais antiga e tradicional de fomento à pesquisa científica no governo brasileiro, o orçamento aprovado para 2026 é de 1,738 bilhão de reais (cerca de US$ 322,5 milhões), uma redução de US$ 17,1 milhões em relação à proposta inicial e de US$ 24,6 milhões em comparação com o orçamento de 2025.

Para Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os números “revelam claramente as verdadeiras prioridades do governo brasileiro”.

“Estamos falando de um orçamento geral de 6,34 trilhões de reais [aproximadamente US$ 1,18 trilhão], no qual a educação representa cerca de 3,35% e a ciência apenas 0,35%”, disse ele ao SciDev.Net .

O Brasil é o país que mais investe em ciência e tecnologia na região, o que lhe permite realizar pesquisas e inovações para o desenvolvimento, como este complexo tecnológico de vacinas. Crédito da imagem: Raquel Portugal/Fundação Oswaldo Cruz. Imagem em domínio público.

Peru e o Cone Sul

No Peru, o orçamento para o setor de ciência, tecnologia e inovação (CTI) sofrerá redução em 2026, interrompendo a recuperação lenta, porém constante, observada desde 2013. Por ora, o Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Concytec) terá uma redução de 10,1% em seu orçamento inicial em comparação com 2025. Se for considerada a diminuição dos orçamentos públicos explicitamente destinados à CTI como percentual do PIB projetado para 2026, esse investimento poderá cair ainda mais.

Benjamín Marticorena, especialista em políticas de ciência e tecnologia na América Latina e presidente da Concytec de 2001 a 2006 e de dezembro de 2020 a junho de 2024, destaca que, historicamente, o orçamento do Peru para ciência, tecnologia e inovação (CTI) representa um terço da média latino-americana. Segundo o Banco Mundial e outras fontes internacionais, o país historicamente destinou entre 0,12% e 0,18% do seu PIB para pesquisa e desenvolvimento.

A Bolívia, sob a presidência de Rodrigo Paz desde novembro de 2025, ainda não divulgou os números oficiais destinados às CTI (Ciência, Tecnologia e Inovação) em 2026, mas, segundo diversas fontes, o valor permanecerá em aproximadamente 0,06% do PIB, percentual que se mantém inalterado desde 2021 e é o mais baixo da América do Sul.

Mauricio Céspedes, ex-vice-ministro de Ciência e Tecnologia da Bolívia e especialista em formulação de políticas públicas para o setor, disse à SciDev.Net que o país “precisa gerar um círculo virtuoso entre políticas públicas, ciência, inovação e desenvolvimento produtivo que fortaleça estruturalmente o sistema nacional de CTI (Ciência, Tecnologia e Inovação)”.

A formação de jovens cientistas é sempre afetada por cortes no orçamento de pesquisa. Crédito da imagem: Tecsup, Peru. Imagem em domínio público.

Entretanto, nos três países do Cone Sul, a situação é bem diferente. O Uruguai está passando por uma mudança positiva na hierarquia da ciência dentro do Poder Executivo, deixando de ser uma Diretoria vinculada ao Ministério da Educação e Cultura para se tornar uma Secretaria, que responde diretamente à Presidência.

Alguns cientistas uruguaios pediam que a ciência fosse transformada em ministério, o ponto mais alto da hierarquia, segundo Anabel Fernández, presidente da Investiga Uy, associação que reúne cerca de 1.200 cientistas de todas as áreas e que entrou em diálogo com o governo de Yamandú Orsi.

“Estamos buscando uma lei da ciência e tentando garantir um investimento de 1% do PIB em pesquisa, aumentando 0,1% ao ano”, disse Fernández à SciDev.Net . Hoje, esse valor equivale a aproximadamente 0,4% do PIB.

No Chile, a ascensão ao poder em março do governo de extrema-direita de José Antonio Kast gera incertezas quanto à sobrevivência do orçamento nesta área, que, no entanto, deverá ser mantido pelo menos neste ano. Atualmente, o investimento representa 0,4% do PIB.

Durante o governo cessante de Gabriel Boric, houve tentativas frustradas de atingir 1% do PIB.

“No entanto, não houve aumento no investimento em ciência e tecnologia. Isso está na retórica, o que é importante, mas não na prática”, afirmou Cristina Dorador, professora da Universidade de Antofagasta, que aponta que o setor apresenta falhas estruturais, como o centralismo: “Os recursos estão concentrados em uma ou duas universidades, e muito pouco chega às regiões”, enfatizou.

O caso da Argentina

Os protestos de cientistas argentinos contra os cortes orçamentários se intensificaram ao longo de 2025, mas as reduções continuarão neste ano. Crédito da imagem: Agência CTyS-UNLaM .

A situação mais crítica para a pesquisa é na Argentina, liderada por Javier Milei. Lá, a porcentagem do PIB destinada à ciência caiu para um mínimo histórico de 0,14% do PIB. Há apenas alguns anos, era o dobro disso, e existe uma lei — que o governo está violando — que estipula que esse valor deve se aproximar gradualmente de 1% do PIB até 2032.

Nesse contexto, “os salários (dos cientistas) caíram aproximadamente 35% e o investimento muito mais”, afirma Jorge Aliaga, Secretário de Planejamento e Avaliação Institucional da Universidade Nacional de Hurlingham e membro do conselho do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet).

“É um desastre. As equipes de trabalho vão se desfazer. Isso não é ruim apenas em relação à Europa ou aos Estados Unidos. É ruim em relação ao Brasil, Chile ou Uruguai”, disse Aliaga.

Além disso, surge a questão de para onde vai essa porcentagem do PIB, levanta Lidia Szczupak, neurocientista e pesquisadora do CONICET. “Faz diferença se esses 0,15% forem usados ​​para sustentar a estrutura existente ou o que restou, ou se forem destinados à Secretaria de Ciência para lidar com a segurança cibernética, como foi proposto”, lamenta ela.

Para Marticorena, esse desprezo pela ciência e pelo conhecimento na região se explica pelo fato de que “as classes políticas da maioria dos países latino-americanos não desenvolveram uma visão estratégica que incorpore necessariamente a CTI como um fator de desenvolvimento humano integral”.

“São classes desconectadas das histórias nacionais, ignorantes dos territórios de seus países e, sobretudo, desinteressadas pelas culturas de suas populações”, conclui ele.


Fonte: SciDev.Net.

Traição acadêmica, explorando o absurdo: os melhores ensaios pessoais da Science em 2025

Ilustração de pessoas ao redor de computadores de diferentes tamanhos.

Robert Neubecker 

Por Katie Langin para “Science”

“Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas.”

Esse foi o título de um impactante ensaio que publicamos em fevereiro, algumas semanas depois do início do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump. O ensaio foi escrito por uma professora em início de carreira que compartilhou a dificuldade de observar as mudanças que estavam ocorrendo nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), sem saber como elas afetariam seu laboratório, suas pesquisas e sua carreira. “Será que meus pedidos de financiamento serão avaliados algum dia? O que poderei pesquisar?”, questionou ela.

Ao longo do ano, publicamos outros ensaios angustiantes de pesquisadores que enfrentavam as mudanças no cenário político e de financiamento dos EUA, bem como questões que podem ser aplicadas independentemente do tempo ou lugar — incluindo ensaios que exploraram as vantagens de ser você mesmo no trabalho, as semelhanças entre andar de bicicleta e a pós-graduação e a desvantagem de se concentrar demais no prestígio.

Todos os artigos foram publicados como parte da série Working Life da revista Science , que explora as principais lições aprendidas por cientistas ao longo de suas carreiras. Aqui estão, em ordem cronológica, os ensaios mais lidos da série Working Life do ano.

Como encontrei satisfação profissional ao ajustar minha definição de sucesso

Como professor em uma universidade focada no ensino, Salahuddin Mohammed percebeu que o sucesso não se resume apenas a publicações de alto impacto ou bolsas de pesquisa prestigiosas.

Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas

Violeta J. Rodriguez escreveu que continuaria “fazendo o que pudesse para levar minha pesquisa adiante. Mas eu, e muitos outros, não podemos fazer isso indefinidamente.”

A ciência costumava ser meu refúgio. Mas quando entrei em depressão, abandonei meu doutorado

Em meio a desafios significativos de saúde mental, Eric Martiné escreve que “fracassar na vida acadêmica foi o maior alívio que já experimentei”.

Após ser demitida do cargo de pós-doutoranda, recorri a um trabalho paralelo e encontrei uma nova carreira

Para complementar seu salário de pós-doutorado, Gertrude Nonterah começou a escrever como freelancer. Isso se tornou sua tábua de salvação.

Eu achava que a síndrome do impostor era a causa das minhas dificuldades no doutorado. Estava enganada

Quando Andrea Lius descobriu sua verdadeira paixão, finalmente entendeu por que se sentia como um peixe fora d’água no mundo acadêmico.

Minha oferta de emprego acadêmico foi rescindida. Vou continuar tentando, mas os pesquisadores americanos estão ficando sem opções

Apesar de um futuro incerto, a pós-doutoranda Na Zhao planeja “continuar fazendo a ciência que amo enquanto ainda tiver um espaço para trabalhar”.

Como um doutorado se compara a andar de bicicleta

Ehsan Hamzehpoor teve dificuldades na pós-graduação até que a encarou como um período de aprendizado.

Como uma traição acadêmica me levou a mudar minhas práticas de autoria

“Cada conjunto de dados limpo, script depurado e figura refinada merece reconhecimento”, argumentou o pós-doutorando Hari Ram CR Nair.

Como confrontei meu crescente cinismo em relação ao meio acadêmico — e reacendei meu senso de propósito

O professor Easton R. White ingressou na vida acadêmica com esperança e otimismo, mas esses sentimentos se dissiparam com o tempo.

Eu pensava que a ciência dependia do prestígio. Mudar-me para o exterior fez-me reavaliar as minhas prioridades

Após se mudar para a Dinamarca, o estudante de doutorado Henry C. Henson se apaixonou por uma sociedade igualitária que valoriza o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.


Fonte: Science

Ano da Ciência 2025: O sol nasce em outro lugar

O Ano da Ciência de 2025 foi marcado por cortes financeiros e censura por parte da nova administração dos EUA

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022.

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022. Foto: imago/Pond5 Images 
Por Jutta Blume para o “Neues Deutschland”

Here Comes the Sun” – esse é o título da edição deste ano da renomada revista “Science”, que destaca as descobertas científicas do ano. Mas, apesar do tom otimista, a matéria gira em torno da ascensão de uma nova política anticientífica nos EUA e de uma indiferença sem precedentes à saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.

A revista publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) celebra o fato de que as energias renováveis, principalmente a eólica e a solar, geraram mais eletricidade do que o carvão pela primeira vez em 2025. No entanto, isso ainda não significa que os combustíveis fósseis como um todo tenham sido ultrapassados. “A situação chegou muito perto do ‘pico do carbono’, o ponto em que as emissões de combustíveis fósseis em todo o mundo atingem seu pico e então começam a declinar”, escreve o editor-chefe da Science, H. Holden Thorp, em seu editorial. Para atingir as metas climáticas do Acordo de Paris , porém, esse pico teria que ter sido atingido há muito tempo, e não apenas estar ao alcance – de uma perspectiva de proteção climática, o otimismo da Science não é totalmente compreensível.

A tão celebrada “ascensão das energias renováveis” pouco tem a ver com o conhecimento científico atual. Como escreve Thorp, as bases foram lançadas décadas atrás, incluindo as células solares desenvolvidas em 1954 nos Laboratórios Bell, nos EUA, e as baterias de lítio desenvolvidas por empresas como a corporação americana Exxon. Atualmente, os principais beneficiários da ascensão das energias renováveis ​​são as empresas chinesas , que produzem 80% das células solares do mundo, 70% das turbinas eólicas e 70% das baterias de lítio. Portanto, reconhecer as energias renováveis ​​agora é, principalmente, uma declaração política contra a redução do uso de combustíveis fósseis promovida pelo governo dos EUA.

Contra a pesquisa climática e a diversidade

A revista “Science” posicionou-se desde o início contra as políticas retrógradas e anticientíficas do governo Trump. Com razão, pois, desde o princípio, o governo Trump confrontou as instituições científicas do país com cortes orçamentários e censura sempre que a diversidade, a igualdade e a inclusão (DEI) surgiam nos programas de pesquisa. Isso foi agravado pelo fato de Donald Trump negar as mudanças climáticas causadas pelo homem. Assim, uma das primeiras vítimas do recém-criado e agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) foi a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), que demitiu mais de 800 funcionários em março.

Pouco antes do Natal, Russell Vought, chefe do Escritório de Orçamento da Casa Branca, anunciou em uma publicação no serviço online X que o Centro Nacional de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas (NCAR, na sigla em inglês) também seria fechado, o qual Vought chamou de “uma das maiores fontes de alarmismo climático no país”. Tarefas essenciais seriam transferidas para outras instituições. Vought e Trump operam sob a falsa premissa de que previsões meteorológicas podem ser feitas sem pesquisas sobre mudanças climáticas de longo prazo. No entanto, o fechamento do NCAR não afetaria apenas pesquisadores nos EUA, mas também representaria uma grande perda para a pesquisa climática internacional, que também utiliza conjuntos de dados e modelos climáticos desenvolvidos no NCAR.

Os ataques da administração Trump à pesquisa climática ocorrem em paralelo aos ataques aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, responsáveis ​​pela pesquisa em saúde. Conforme relatado na revista médica “The Lancet”, um em cada 30 estudos médicos do NIH foi descontinuado em 2025, e cortes orçamentários de até 40% são esperados em 2026. O CDC teria reduzido seu monitoramento da segurança alimentar e de doenças.

A renomada revista “Nature” destaca Susan Monarez, diretora do CDC por um curto período , entre as dez pessoas que moldaram a ciência no ano passado. Isso porque ela se recusou a deixar que a direção científica — ou melhor, não científica — da agência fosse ditada de cima para baixo. No entanto, a microbiologista e imunologista Monarez foi forçada a deixar o cargo após apenas um mês. “Fui demitida porque defendi a integridade científica”, disse Monarez em uma audiência no Congresso em setembro.

Céticos em relação às vacinas na comissão de vacinação

O Secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., nomeou céticos em relação às vacinas para a comissão de vacinação, que já retirou recomendações de vacinação — por exemplo, contra hepatite B para recém-nascidos. O site do CDC afirma falsamente: “A alegação de que ‘vacinas não causam autismo’ não é baseada em evidências”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) rejeita a afirmação do CDC. Enquanto isso, os EUA enfrentam a pior epidemia de sarampo em 30 anos. A revista The Lancet acredita que os EUA podem perder novamente seu status de país livre de sarampo em 2026.

Mais significativos do que o “avanço” do ano são provavelmente os eventos descritos pela revista “Science” como “colapsos”. Estes incluem os ataques do DOGE à pesquisa, os ataques do governo às universidades e a revogação de vistos para estudantes e pesquisadores estrangeiros. O risco de perder repentinamente as autorizações de residência leva a uma maior incerteza no cenário da educação e da pesquisa, resultando em perdas de receita para as universidades. Assim como no campo das energias renováveis, a China pode emergir como a vencedora nesse cenário — suas universidades estão atraindo um número crescente de estudantes internacionais.

Mas 2025 não foi apenas um ano de graves contratempos para a comunidade científica; foi também um ano de retrocessos significativos para a saúde pública global, em grande parte atribuíveis aos Estados Unidos. De acordo com a revista “Science”, dez bilhões de dólares americanos desapareceram depois que o governo dos EUA congelou a ajuda ao desenvolvimento em janeiro e, posteriormente, dissolveu a agência de desenvolvimento USAID .

Mas, no geral, as doações para a saúde global diminuíram em cerca de 21%. Tudo isso tem consequências para a luta contra doenças disseminadas e potencialmente mortais como o HIV/AIDS e a malária, mesmo que, teoricamente, medidas preventivas estivessem disponíveis. No ano passado, a revista Science celebrou uma nova forma de profilaxia pré-exposição (PrEP) para proteção contra a infecção pelo HIV como a descoberta de 2024. Mas, se faltar financiamento para o uso generalizado, mesmo o desenvolvimento dos melhores medicamentos será inútil.

Um novo medicamento contra a gonorreia está na lista de descobertas científicas da revista Science para 2025. O desenvolvimento de novos medicamentos tornou-se urgentemente necessário após o último antibiótico eficaz contra a infecção sexualmente transmissível ter apresentado crescente ineficácia. Esta é uma boa notícia para os 80 milhões de pessoas que contraem gonorreia anualmente, especialmente porque a doença também aumenta o risco de infecção pelo HIV. No entanto, como acontece com muitas outras, essa boa notícia só será verdadeiramente benéfica se todos os afetados tiverem acesso ao tratamento.

A edição genômica amplia os limites

Outros dois avanços médicos que a revista “Science” destaca como revolucionários ainda não são acessíveis ao público em geral: a primeira edição genômica bem-sucedida em um bebê e o aumento do transplante de órgãos de porcos geneticamente modificados em pacientes humanos.

Um bebê nascido na Filadélfia com uma doença rara foi tratado pela primeira vez com edição genética personalizada. O bebê, que de outra forma poderia ter precisado de um transplante de fígado ou não ter sobrevivido por muito tempo, recebeu alta do hospital após pouco mais de 300 dias. O tratamento teve como alvo um defeito genético que impede a produção de uma enzima hepática específica, o que, por sua vez, leva ao envenenamento por amônia no organismo.

Para pessoas com doenças raras causadas por um defeito em um único gene, a história do bebê KJ Muldoon oferece esperança – no entanto, o tratamento personalizado custa milhões. Mesmo que se espere que essas terapias se tornem mais baratas com o uso mais frequente, a questão ética no futuro será quem terá que pagar por elas e quem não terá.

“Fui demitido porque defendi a integridade científica.”

Susan Monarez, 
ex-diretora do CDC

Embora ainda longe de ser um padrão médico, os chamados xenotransplantes, nos quais órgãos de animais – geralmente porcos geneticamente modificados – são transplantados para humanos, estão se mostrando cada vez mais promissores. Os porcos são geneticamente modificados para tornar menos provável a rejeição de seus órgãos pelo corpo humano. A esperança é que os órgãos de porco possam um dia suprir a escassez de órgãos humanos para transplante.

Este ano, dois pacientes, um nos EUA e outro na China, sobreviveram graças a um rim de um porco geneticamente modificado. Este é um novo recorde para “órgãos doados” desta espécie em humanos. Em comparação, após um transplante renal em humanos, 90% dos pacientes sobrevivem ao primeiro ano. Mas o progresso na área de xenotransplantes é enorme.

Diversas empresas estão trabalhando para alcançar o objetivo de, um dia, produzir comercialmente órgãos geneticamente modificados para transplante em humanos. Duas dessas empresas receberam aprovação da Food and Drug Administration (FDA) em 2025 para realizar ensaios clínicos com tais órgãos. Assim como ocorre com os órgãos humanos, espera-se que as taxas de sobrevida aumentem no futuro. No entanto, permanece a questão de saber se a criação e o manejo de porcos como doadores de órgãos humanos são eticamente justificáveis. Os animais provavelmente teriam que ser mantidos em condições estéreis – ou seja, em isolamento, o que está longe de ser apropriado para a espécie.

A ciência, e especificamente a edição genômica nos casos mencionados, está ultrapassando limites, e as consequências continuarão sendo debatidas publicamente; regulamentações eticamente aceitáveis ​​precisam ser encontradas.

O escândalo do Ano da Ciência 2025 é e continua sendo a campanha contra descobertas já consolidadas, como as da pesquisa climática, bem como a falha na assistência médica e na prevenção de doenças para os mais pobres.


Fonte:  Neues Deustchland

Balanço anual do Blog do Pedlowski e as perspectivas para 2026

Este espaço existe há 15 anos e, desde então, o Blog do Pedlowski busca oferecer informações sobre uma gama de temas para os quais inexiste cobertura abrangente nas mídias tradicionais. Entre os tópicos abordados estão as questões relacionadas ao colapso climático, ao processo de alteração da cobertura vegetal na Amazônia, aos impactos do uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos e às transformações que têm afetado a capacidade de se produzir ciência de qualidade.

O blog também tem servido como espaço de disseminação de informações sobre os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre o ambiente e sobre as populações que vivem nas áreas escolhidas para sua implantação. Um dos focos permanentes de atenção — e uma das razões centrais para a criação do Blog do Pedlowski — é o Porto do Açu. Implantado em terras que outrora abrigavam formas singulares de relação entre sociedade e natureza, esse empreendimento tem produzido alterações profundas. No momento, o impacto mais visível é a destruição associada ao avanço da erosão na Praia do Açu.

Posso adiantar que todos esses temas continuarão a ser tratados em 2026. Apesar das pressões que se buscam impor para que o Blog do Pedlowski deixe de existir, sigo convicto de que este espaço mantém sua relevância e cumpre plenamente o propósito para o qual foi criado.

Aproveito para agradecer aos milhares de leitores espalhados por diferentes regiões do mundo, cuja atenção e acompanhamento têm garantido ao Blog do Pedlowski a visibilidade necessária para a continuidade de seu trabalho. Agradeço ainda os colaboradores do blog que enriqueceram este espaço com suas ideias e informações, tornando-o mais plural e abrangente.

Ao longo de seus 15 anos de existência, o Blog do Pedlowski se consolidou como um espaço crítico e independente de produção e circulação de informações sobre temas socioambientais negligenciados pela grande mídia. Ao articular ciência, política e território, o blog reafirma seu compromisso com a denúncia dos impactos de modelos predatórios do Capitalismo, com a defesa das populações afetadas e com a valorização do conhecimento científico como ferramenta essencial para a compreensão e a transformação da realidade.

Quão fácil é manipular sua posição no ranking científico? Conheça Larry, o gato mais citado do mundo

“Exercício de absurdo” revela falhas nas métricas de produtividade do Google Acadêmico.

Michael Richardson segurando Larry, o gato.

Larry, aqui retratado com Michael Richardson (pai de Reese Richardson), ostentou o título de gato mais citado do mundo por uma semana. Kelly Richardson 

Por Christie Wilcox para a “Science”

Larry Richardson parecia ser um matemático promissor em início de carreira. Segundo o Google Acadêmico, ele havia escrito uma dúzia de artigos sobre temas que variavam de álgebras complexas à estrutura de objetos matemáticos, acumulando mais de 130 citações em 4 anos. Tudo seria bastante notável — se os estudos não fossem um completo disparate. E Larry não era um gato.

“Foi um exercício de absurdo”, diz Reese Richardson, estudante de pós-graduação em metaciência e biologia computacional na Universidade Northwestern. No início deste mês, ele e seu colega Nick Wise, da Universidade de Cambridge, que também investiga má conduta em pesquisas, criaram o perfil de Larry e arquitetaram a ascensão científica do felino. O objetivo: torná-lo o gato mais citado do mundo , imitando uma tática aparentemente usada por um serviço de aumento de citações anunciado no Facebook. Em apenas duas semanas, a dupla cumpriu sua missão.

A ação visa, espera-se, chamar a atenção para o crescente problema da manipulação de métricas de pesquisa, afirma Peter Lange, consultor de ensino superior e professor emérito de ciência política da Universidade Duke. “Acredito que a maioria dos professores das instituições que conheço sequer tem conhecimento dessas fábricas de citações.”

De maneira geral, quanto mais um artigo científico é citado por outros estudos, mais importante ele e seus autores são em uma área de pesquisa. Uma forma abreviada de medir isso é o popular “ índice h “: um índice h de 10 significa que uma pessoa tem 10 artigos com pelo menos 10 citações cada, por exemplo.

Inflar o número de citações e o índice h de um pesquisador lhe confere “uma enorme vantagem” em contratações e decisões de titularidade, afirma Jennifer Byrne, pesquisadora de câncer da Universidade de Sydney. Isso também alimenta o modelo de negócios de organizações obscuras que prometem aumentar suas citações em troca de dinheiro . “Se você pode simplesmente comprar citações”, diz Byrne, “você está comprando influência”.

Eis que surge Larry, o gato. Sua história começou algumas semanas atrás, quando Wise viu um anúncio no Facebook oferecendo “aumento de citações e índice h”. Não era a primeira vez que ele e Richardson viam uma promoção desse tipo. (O preço médio parece ser de cerca de US$ 10 por citação.) Mas este anúncio incluía capturas de tela de perfis do Google Acadêmico de cientistas reais. Isso significava que a dupla podia ver exatamente quais citações estavam elevando os números.

Descobriu-se que as citações frequentemente pertenciam a artigos repletos de textos sem sentido, escritos por matemáticos há muito falecidos, como Pitágoras. Os estudos haviam sido carregados como PDFs na plataforma acadêmica ResearchGate e, posteriormente, excluídos, obscurecendo sua natureza. (Wise e Richardson tiveram que vasculhar o cache do Google para ler os documentos.) “Pensamos: ‘Nossa, esse procedimento é incrivelmente fácil'”, lembra Richardson. “Basta publicar alguns artigos falsos no ResearchGate.”

Wise observou na época que era tão fácil que um roteiro escrito às pressas para produzir artigos com aparência plausível poderia tornar qualquer pessoa altamente citada — até mesmo um gato. “Não sei se ele estava falando sério”, diz Richardson. “Mas certamente encarei isso como um desafio.” E ele sabia exatamente qual gato superar: FDC Willard . Em 1975, o físico teórico Jack Hetherington adicionou seu gato siamês a um de seus artigos de autoria única para que as referências a “nós” fizessem mais sentido. Até este ano , “Felis Domesticus Chester Willard” tem 107 citações.

Para quebrar esse recorde, Richardson recorreu a Larry, o gato de sua avó. Em cerca de uma hora, ele criou 12 artigos falsos, um atribuído a Larry e o outro a outros 12 autores, cada um citando um dos trabalhos de Larry. Isso resultaria em 12 artigos com 12 citações cada, totalizando 144 citações e um índice h de 12. Richardson carregou os manuscritos em um perfil do ResearchGate que criou para o felino. Então, ele e Wise esperaram que o Google Acadêmico extraísse automaticamente os dados falsos.

Em 17 de julho, os artigos de Larry e 132 citações apareceram no site. (O Google Acadêmico não conseguiu detectar um estudo espúrio, observa Wise.) E, assim, Larry se tornou o gato mais citado do mundo. “Perguntei a Larry qual foi sua reação por telefone”, disse Richardson à Science . “Só posso presumir que ele ficou tão atônito que não conseguiu falar.”

aspas

Se você pode simplesmente comprar citações, está comprando influência.

Jennifer ByrneUniversidade de Sydney

Embora o perfil de Larry possa parecer obviamente falso, encontrar perfis manipulados geralmente não é fácil, afirma Talal Rahwan, cientista da computação da Universidade de Nova York em Abu Dhabi. No início deste ano, ele, Yasir Zaki, também cientista da computação da mesma instituição, e seus colegas analisaram mais de 1 milhão de perfis do Google Acadêmico em busca de contagens de citações anômalas. Eles encontraram pelo menos 114 perfis com “padrões de citação altamente irregulares”, de acordo com um artigo publicado em fevereiro no servidor de pré-impressões arXiv. “A grande maioria tinha pelo menos algumas de suas citações duvidosas provenientes do ResearchGate”, diz Zaki.

A ResearchGate está “claro que ciente dos crescentes problemas de integridade na pesquisa na comunidade científica global”, afirma o CEO da empresa, Ijad Madisch. “[Nós] estamos continuamente revisando nossas políticas e processos para garantir a melhor experiência para nossos milhões de usuários pesquisadores.” Nesse caso, ele diz, a empresa desconhecia que sites de citação ilegal excluem conteúdo após a indexação, aparentemente para encobrir seus rastros — informação que pode ajudar a ResearchGate a desenvolver sistemas de monitoramento mais eficazes. “Agradecemos à revista Science por nos relatar essa situação específica e usaremos este relatório para revisar e adaptar nossos processos conforme necessário.”

O Google Acadêmico removeu as citações de Larry cerca de uma semana depois de terem sido publicadas, fazendo com que ele perdesse seu título não oficial. No entanto, seu perfil ainda existe , e as citações duvidosas presentes no anúncio permanecem. Portanto, “Eles não resolveram o problema”, afirma Wise. O Google Acadêmico não respondeu aos pedidos de comentários.

Não é a primeira vez que alguém manipula o Google Acadêmico publicando artigos falsos. Em 2010, Cyril Labbé, um cientista da computação da Universidade Grenoble Alpes, inventou um pesquisador chamado Ike Antkare (“Não me importo”) e o tornou o sexto cientista da computação mais citado no serviço, publicando artigos falsos no site institucional de Labbé. “Imitando um cientista falso em um gato é muito fofo”, diz Labbé. “Se isso pode ser feito com um gato, pode ser facilmente feito com uma pessoa de verdade.”

Por essa razão, muitos pesquisadores gostariam de ver menos ênfase no índice h e em outras métricas que têm “o brilho indevido da quantificação”, como Lange coloca. Enquanto os benefícios de manipular esses sistemas superarem os riscos e custos, diz Wise, as pessoas continuarão tentando burlá-los. “Como criar uma métrica que não possa ser manipulada? Tenho certeza de que a resposta é: Não dá.”


Fonte: Science