Ciência brasileira na encruzilhada: grandes desafios, orçamentos dilapidados

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Algo que vem passando despercebido na cobertura caolha que a mídia corporativa faz da crise econômica e política que grassa nos diferentes níveis da federação brasileira é o profundo corte de verbas públicas para as universidades e centros de pesquisas nacionais.  Se a coisa já foi tenebrosa em 2015, os cortes orçamentários projetados pelo governo federal e por governos estaduais colocam a maioria dos grupos de pesquisas em um estado de comatose profunda. É que sem recursos mínimos, a maioria das pesquisas que requerem um mínimo de insumos para fluírem são efetivamente inviabilizadas.

O mais impressionante é que neste momento a sociedade brasileira está sendo assolada por um grande número de problemas que demandam respostas científicas precisas que impulsionem a adoção de soluções. Vejamos, por exemplo, a recente disseminação do vírus zika e e a febre chikungunya (lê-se chicungunha), cujos efeitos sobre a saúde humana deixam pálidos aqueles causados pela dengue (Aqui!). A ausência de recursos para pesquisar essas doenças certamente causará mortes e deformações e, de quebra, aumentará ainda mais a sobrecarga da rede pública de saúde, a qual já se encontra totalmente sobrecarregada.

Eu poderia ainda mencionar a falta de qualquer resposta institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) à hecatombe socioambiental iniciada pelo rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco em Mariana (MG). Em um país minimamente organizado para atender as demandas reais que emergem na sociedade, uma agência como o CNPq já teria convocado pesquisadores a se associarem em redes para pesquisarem os diferentes compartimentos ambientais que foram devastados pelo TsuLama. Mas até agora a única iniciativa de que se tem é da Fundação de Amparo  à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) que lançou um edital para pesquisadores interessados em investigar o TsuLama da Samarco e as medidas necessárias para sua mitigação no âmbito do Rio Doce (Aqui!). O problema é que premida pelo encurtamento de recursos, a capacidade de financiamento da Fapemig é consideravelmente menor, e não deverá aportar os recursos minimamente necessários para que pesquisas de grande fôlego sejam realizadas, de modo a estabelecer os limiares de ações de mitigação para este incidente ambiental de proporções apocalípticas.  Tanto isto é verdade que o edital para a recuperação do Rio Doce é de magros R$ 4 milhões, o que se mostra claramente insuficiente para pesquisar uma tragédia de dimensões ainda incalculáveis. 

Mas o que me incomoda mesmo é notar que apesar da magreza do aporte financeiro, continuamos imersos numa cultura institucional que obriga a comunidade científica brasileira a continuar sua rotina de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade.  E isto se traduz na pressão para continuarmos a publicar em quantidades que justifiquem ranqueamentos e premiações. E como já abordei de forma repetida aqui neste blog, tal pressão cria um terreno fértil para a legitimação do “trash science” como forma de qualificar a comunidade científica nacional.  O fato é que não se ouve no plano da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) qualquer ajuste na forma de se avaliar os programas de pós-graduação, em que pesem as evidências de que estamos profundamente contaminados com a cultura do “trash science” onde quantidade é o que importa.

A somatória desses problemas acaba colocando a comunidade científica brasileira diante de um grande dilema. Como evoluir a ciência e atender as demandas emergentes num ambiente de cobertor curta e critérios que privilegiam a quantidade? Algumas respostas estão surgindo e apontam não apenas para formas alternativas de financiamento (como é o caso do mecanismo do “crowdfunding”), mas também para o estabelecimento de redes de cooperação que ultrapassem os limiares do personalismo imposto pelo “trash science”. Ainda que embrionárias, muitas iniciativas no caso do TsuLama da Samarco apontam para a adoção de uma tomada de posição que privilegia a cooperação científica em detrimento do egotismo que grassa atualmente na maioria da comunidade cientifica brasileira.

Essas redes de cooperação são para mim a principal esperança de que possamos superar a encruzilhada em que se encontra a ciência brasileira neste momento. É que formas genuínas de cooperação em rede poderá se mostrar como a única forma de vencermos ao mesmo tempo a falta de recursos e a pressão para que nos submetamos todos à lógica do “trash science”. E como nenhum país se desenvolveu até hoje sem comunidades científicas efetivamente qualificadas, a superação dessa encruzilhada tem tudo a ver com o destino do Brasil enquanto nação independente.

Ciência fluminense a caminho das trevas. Uma obra de Pezão e Albertassi!

Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images

Crédito: Wellcome Library, London. Wellcome 

Numa rara manifestação pública, o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj), Jerson Lima Silva, traça uma perspectiva sombria para o futuro do desenvolvimento científico do Rio de Janeiro caso seja aprovada a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pelo deputado Edson Albertassi, líder do PMDB na Alerj, que propõe reduzir o investimento em educação, cortar pela metade o repasse atualmente feita para investimentos em ciência, bem como extinguir a transferência nunca realizada de um repasse de 6% da receita líquida estadual para a UERJ.

Afora os argumentos apresentados pelo diretor da Faperj, eu poderia adicionar que esses cortes representam um golpe mortal para o sistema universitário fluminense, abrindo espaço para uma profunda precarização do que já se encontra precário. E os ganhadores dessa destruição do amanhã da ciência fluminense certamente serão as empresas privadas para as quais o (des) governo Pezão continua dirigindo bilhões de reais em diferentes formas de investimento, sem que haja qualquer retorno à população.

E que ninguém se engane. Todos esses cortes propostos por Edson Albertassi, certamente a mando de Pezão, causarão uma regressão extremamente danosa à capacidade científica e educacional do Rio de Janeiro. Essa proposta é a sinalização de que as trevas são a opção para Pezão. Diante dessa situação será preciso, mais do que nunca, resistir.

Entrevista: Jerson Lima Silva. Sem verba para desvendar o zika

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Aedes aegypti, o transmissor de zika, chicungunha e dengue – Divulgação/Alexandre Carvalho / Divulgação/Alexandre Carvalho

RIO — Diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj), Jerson Lima Silva diz que a instituição pode estar com os dias contados. Isso porque, na quarta-feira, deverá ser votada na Assembleia Legislativa (Alerj) uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que, se aprovada, reduzirá de 35% para 25% o percentual de recursos para a educação provenientes da receita obtida com impostos. Autor do projeto, o deputado Edson Albertassi (PMDB), líder do governo na Casa, sugeriu cortar à metade o repasse de 2% à Faperj e acabar com a transferência de 6% para a Uerj. Lima Silva, que também é professor de bioquímica médica da UFRJ, afirma ainda que a eventual aprovação da PEC vai inviabilizar pesquisas sobre doenças como zika, dengue e chicungunha.

O que representaria para a Faperj uma redução de 2% para 1% no volume de repasses?

Terá um efeito devastador para a ciência, a tecnologia e os trabalhos de inovação do estado e do país. Em 2007, o então governador Sérgio Cabral decidiu não só cumprir os repasses de 2% como não alterar esse índice. Em 2014, seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, reafirmou o compromisso. Desde então, a produção científica do Rio aumentou 80% em oito anos. O estado passou a concentrar 22% dos programas de excelência do Brasil. Começamos a fomentar parcerias entre o setor empresarial, universidades e institutos de pesquisa. Atraímos centros de pesquisa de companhias internacionais como a L’Oréal e a GE. A Faperj mantém programas de interesse para o Rio, como o de estudo de doenças emergentes. Reduzir nosso orçamento à metade paralisará trabalhos sobre energias renováveis, doenças degenerativas, câncer, células-tronco e dependência química, entre outros. Na melhor das hipóteses, teremos uma fuga de cérebros para São Paulo, e na pior, para países desenvolvidos.

Como o orçamento é usado?

O atual orçamento é de 2% da receita líquida do estado, o que corresponde a cerca de R$ 420 milhões. Metade dos recursos é destinada a bolsas e cotas de auxílio financeiro de pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação das redes estadual, federal e privada. Vale lembrar, por exemplo, que Artur Avila, primeiro brasileiro laureado com a Medalha Fields (uma espécie de Prêmio Nobel da Matemática), foi bolsista, com doutorado nota dez, da Faperj. A outra metade dos recursos banca os gastos com a realização de pesquisas. Também temos trabalhos sobre transporte urbano, mudanças climáticas, desastres naturais, violência, agricultura, exploração de óleo e gás, entre outros.

Há pesquisas sobre zika, chicungunha e dengue?

Se a PEC for aprovada, imobilizará o programa para esse setor, levando a Faperj a cancelar um edital lançado recentemente. A Faperj apoia, em parceria com o CNPq e o Ministério da Saúde, institutos nacionais de ciência e tecnologia que estudam os vírus e seu principal vetor, o Aedes Aegypti. Foi graças a um programa nosso que se criou o “10 minutos contra a dengue”. Lançado na semana passada, o edital visa a constituir até oito redes de pesquisa para apresentar resultados em curto e médio prazos para a prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças transmitidas pelo mosquito.

Quais poderão ser as consequências da aprovação da PEC para a ciência do estado?

Na semana seguinte à inauguração do Museu do Amanhã, temos o risco de perder o futuro da inovação do Rio. O estado voltaria a ficar em uma posição acanhada em termos de investimentos, como ocorreu na década de 1990, quando somente São Paulo tinha protagonismo. Se a PEC for aprovada, haverá perda de cérebros. Perder a capacidade de pesquisa e inovação trará consequências irreversíveis a longo prazo. A manutenção da infraestrutura sem financiamento será muito difícil, o que provavelmente levará à redução de instalações e equipamentos. Estamos sob risco de destruição permanente do que foi conquistado em uma década.

FONTE:  http://oglobo.globo.com/rio/entrevista-jerson-lima-silva-sem-verba-para-desvendar-zika-18340672#ixzz3uxEX77yx 

Plágio acadêmico e o surgimento dos antídotos, pagos, é claro

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Em meio ao avanço dos casos de plágios dos mais variados que estão sendo cometidos em diferentes níveis de formação acadêmica no Brasil, um colega que é também professor na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) me chamou a atenção para a existência de um software que pode ser usado online, o qual possui diferentes serviços que ajudam na detecção, mas também nas formas de se cometer plágio de forma não intencional. A ferramenta no caso é a Turnitin (Aqui!).  

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Visitando a página do Turnitin cheguei a uma matéria produzida pela Ciência Hoje já em 2012, onde as diversas facetas do uso deste software são abordadas (Aqui!).O que mais me chamou atenção na matéria, e esse é um aspecto que me colega da Uenf também me apontou pessoalmente, é que a questão do plágio não decorre necessariamente apenas da decisão individual de alguém de violar as regras acadêmicas, mas também por falta de conhecimento de como proceder em termos de reconhecer de forma própria a autoria intelectual de um dado documento científico.

Como um das características dos tempos que vivemos é da “fastfoodização” de todas as esferas de vida, e que na ciência se manifesta também na forma do “trash science“, o que deveria estar sendo tratado nas universidades brasileiras, e aparentemente isto está acontecendo em um número ainda reduzido, é de como a pressão por resultados rápidos (e não necessariamente qualificados e devidamente reconhecidos) contribui para a disseminação de casos de plágio, como venho abordando aqui no blog.

De toda forma, como existem ferramenta como o Turnitin para serem utilizadas para prevenir a disseminação e naturalização do plágio, este desvio de conduta não pode ser mais ignorado sob a alegação que inexistem as formas para identificar, corrigir ou, ainda, punir quem for flagrado usando o trabalho alheio para se autobeneficiar. 

Maurício Tuffani disseca o crescimento exponencial do “trash science”. E eu pergunto: por que tanto silêncio em torno do problema?

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O jornalista Maurício Tuffani aborda novamente em seu blog hospedado na Folha de São Paulo a questão da produção de “trash science“, onde mostra que o número de revistas “trash” vem tendo um crescimento exponencial nos últimos anos. Essa produção de ciência “trash” é provavelmente um sinal perverso dos efeitos da transformação da ciência em mais uma “commodity”. 

Além disso, no caso brasileiro, a produção de “trash science” tem tido um papel ainda mais danoso, já que não apenas o sistema de ranqueamento dos programas de pós-graduação tem sido afetado pelo engordamento da produção científica por artigos publicados em revistas “predatórias”.  E de forma adicional, o trânsito livre que foi dado para que pesquisadores sejam premiados por engordar seus CVs com “trash science” resultou numa espécie  de “vale tudo” ,cujo resultado final tem sido o crescimento também exponencial de ruído científico.

Um aspecto que julgo especialmente importante na postagem que vai abaixo é o quase absoluto silêncio que reinava na comunidade científica brasileira acerca da contaminação causada pelas publicações “trash” no desenvolvimento da ciência brasileira. E também considero que as medidas recentes tomadas pela Capes para rebaixar ou até excluir publicações do chamado Qualis Capes são claramente insuficientes.

É que enquanto ficarmos no paliativo, os que mais se beneficiam com o engordamento de CVs por artigos produzidos via “trash science” vão continuar fingindo que continua tudo como dantes no quartel de Abrantes. Para isso, há que se ter a coragem de mexer nos mecanismos de concessão de premiações, seja no plano dos programas de pós-graduação, mas também no plano individual dos pesquisadores.

Eu apontaria que se toda a gritaria que ocorreu em relação à postagem do Prof. Jeffrey Beall se repetisse em relação ao núcleo duro da sua contribuição ao debate em relação aos problemas que cercam a disseminação de revistas predatórias, talvez não estivéssemos tendo que nos defrontar com os impactos do “trash science” em tantas áreas chaves da ciência brasileira. Mas, lamentavelmente, a gritaria parece ter sido apenas contra o mensageiro da má notícia que a maioria prefere ignorar.

Mas uma coisa positiva que está acontecendo é que mais pessoas estão começando a falar abertamente sobre os problemas causados pelo “trash science”, e da necessidade de combater as deformações que estão ocorrendo na produção científica brasileira por causa da permissividade com que essa questão foi tratada até recentemente. Pode não parecer pouco, mas já é muita coisa.

Abaixo segue a postagem do Maurício Tuffani que merece ser lida de forma cuidadosa por todos os que querem produzir ciência de qualidade no Brasil. Boa leitura!

 

Produção de periódicos predatórios aumentou 7 vezes em 4 anos

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto as autoridades das universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento no Brasil evitam a todo custo tratar publicamente da praga que são as chamadas editoras acadêmicas predatórias e as revistas científicas por elas publicadas na base do “pagou, publicou”, no exterior o problema se torna cada vez mais escancarado.

Desta vez não foi mais uma novidade do biblioteconomista Jeffrey Beall, dos EUA, com sua lista dos  “publishers predatórios”. Um estudo publicado hoje pela revista “BMC Medicine” revela que cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 o número de artigos dos periódicos despejados na literatura científica por essas editoras que exploram sem rigor acadêmico o modelo de publicação em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

PREVISÕES

Esse crescimento corresponde a 692% em apenas quatro anos, ou seja, a cerca de 7 vezes. A partir da lista de Beall, os pesquisadores da área de ciência da informação Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, identificaram cerca de 8 mil periódicos ativos responsáveis por esse aumento. Segundo os autores, cerca de 75% dessas revistas estão na África e Ásia.

Shen e Björk, no entanto, afirmaram que os problemas provocados ​​por essas revistas são muito limitados e regionais. A acrescentaram que acreditam que o número de artigos publicados por elas “vai parar de crescer em um futuro próximo”.

CONTESTAÇÃO

Em entrevista ao blog “Retraction Watch”, dos EUA, Beall discordou dos dois autores, afirmando que os dados por eles apresentados não dão suporte a essa previsão. E acrescentou:

“Além disso, é enganosa sua tentativa de minimizar os problemas causados ​​pelos publishers predatórios como ‘regionais’. A Índia tem 1,2 bilhões de pessoas, e a China tem 1,3 bilhão. Há dezenas de milhões de pesquisadores na região.”

Beall foi alvo no Brasil de moções de repúdio por parte de lideranças na área de publicações acadêmicas por ter publicado em julho em seu blog o post “O SciELO é uma favela de publicações?, afirmando que essa plataforma on-line brasileira de periódicos mantida por meio de recursos públicos não consegue dar visibilidade aos trabalhos científicos.

NO BRASIL

Critiquei esse texto de Beall, não só por equívocos em suas afirmações, mas também por ele ter dado razões de sobra às acusações contra ele de preconceito ideológico contra o modelo do acesso aberto e de ele ter uma visão de mundo capitalista na qual só se justifica o modelo de publicação acadêmica baseado no mercado da cobrança pelo acesso aos conteúdos dos periódicos (“Um alívio para os periódicos predatórios”, 6.ago).

O efeito desse problema em nosso país já teve amostras suficientes, desde o impacto na produção acadêmica (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”, ) ao comprometimento de conferências científicas ( “Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, 3.mar, e “Promotoria questiona Unicamp por evento com editora ‘predatória’”, 15.ago).

Felizmente, já existe uma pequena reação contra esse quadro (“Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade”, 23.set). Mas ainda é pouco. Por mais que tenham razão algumas das suas críticas a Beall, torna-se cada vez mais imoral e indecente a atitude de indiferença de muitas autoridades e lideranças acadêmicas brasileiras com o problema dos periódicos predatórios.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/10/01/producao-de-periodicos-predatorios-aumentou-7-vezes-em-4-anos/

Ciência brasileira em crise: o buraco é definitivamente mais embaixo

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Alertado pelo jornalista Maurício Tuffani em sua página no Facebook, me deparei com dois artigos que discutem a raiz da crise que assola atualmente a comunidade brasileira (Aqui! e Aqui!). Apesar de achar as duas análises interessantes, creio que perdem o essencial da questão.

Mas vamos por partes. Como passei algum tempo vivenciando o sistema universitário estadunidense, creio que relacionar os problemas de gestão que temos nas universidades brasileira à crise quantitativa e qualitativa que temos no nosso sistema universitário à uma suposta falta de profissionalização dos dirigentes é equivocado. É que as universidades estadunidenses passam por problemas sérios nas suas relações internas por uma distância objetiva que existe entre gestores e geridos. Além disso, a superposição de uma lógica mercadológica sobre as questões acadêmicas tem servido para reprimir o pleno desenvolvimento de novas gerações de pesquisadores, além de criar um sistema ainda mais injusto nas relações de trabalho. 

Assim, se olharmos de perto e sem olhos colonizados, veremos que o sistema estadunidense enfrenta uma crise que nasce justamente da negação da autonomia para a produção de conhecimento científico que não esteja sendo produzido apenas para encher ainda mais a empada das corporações. Desta forma, apesar de ainda lideraram os diferentes rankings de universidades no mundo, a pressão pró-mercado tem sido apontado como um poderoso elemento de asfixia na capacidade de gerar conhecimento científico, e até mesmo de gerar bons quadros para a iniciativa privada. 

Ainda nesse tópico, há que se lembrar que muitos dos problemas vividos pelas universidades brasileiras ainda decorrem da herança maldita que foi deixada pela ditadura militar de 1964, que privou nosso jovem sistema universitário de lideranças capazes de apoiar o desenvolvimento de um modelo universitário que estivesse atento aos problemas reais da nossa sociedade.  E isso foi feito não apenas pelas aposentadorias forçadas e exílio de muitos intelectuais, mas também pela ascensão de uma classe de dirigentes totalmente servis ao regime de exceção. Desta forma, essas lideranças institucionais acabaram atrelando as nossas universidades às vontades políticas dos ocupantes de plantão dos diferentes palácios de governo, um fato que se mantém até hoje. Em suma, em minha opinião, o problema que enfrentamos nas universidades brasileiras não é de capacidade de gerir sob o ponto de vista administrativo, mas político.

O segundo aspecto abordado nas reflexões que o jornalista Maurício Tuffani divulgou é que a falta de conhecimento da população sobre a importância da ciência e das instituições que a produzem acabaria fragilizando a posição que as mesmas ocupam na sociedade e, por extensão, nas disputas que eventualmente ocorrem por orçamentos encolhidos. Creio que a primeira questão aqui é relacionada ao que eu disse no item anterior. É que se não produzimos uma ciência antenada com as necessidades mais estratégicas do país, e nos contentamos em produzir ciência de segunda mão, dificilmente teremos o devido reconhecimento de nossa importância para o desenvolvimento nacional. E olha que eu acho que as universidades, a Universidade Estadual do Norte Fluminense é um bom exemplo disso, ainda recebem muito crédito da população, muito mais pelo que poderiam ser, e não que efetivamente são.

Em suma, o nosso problema não é falta de divulgação, mas ausência de um entendimento de que ciência, especialmente aquela produzida num país de economia periférica como o Brasil, não pode ser algo que sirva apenas para o engrandecimento de currículos pessoais.  O buraco é muito mais embaixo, pois não apenas persistem problemas básicos e profundamente graves, mas porque abrir caminho para um efetivo processo de desenvolvimento deveria ser encarado como uma tarefa coletiva de todos os que militam profissionalmente em nosso ainda jovem sistema universitário. Mas não é o que se vê, aliás, muito pelo contrário, já que estamos vivendo um período de grande obscurantismo, onde um mínimo de aceno para reflexões críticas sobre a universidade são rotuladas com adjetivos perversos, seja pela esquerda ou pela direita.

Outro aspecto que deveria servir como elemento de discussão se refere à verdadeira bagunça que foi criada pela implantação de uma visão de quantidade sem qualidade, e que resultou numa euforia inebriante por muitos dirigentes de nossas agências de fomento e das próprias universidades. Em função disso, por quase uma década, vivemos uma espécie de “milagre brasileiro” onde se difundiu a idéia de que havíamos nos tornado uma potência científica mundial.

Agora que a cortina de fumaça está baixando e a dura realidade do “trash science” como “modus operandi” de turbinamento de CVs Lattes aparece nos horizonte, podemos ver que no quesito da produção científica estamos deparados com um verdadeiro tigre de papel, pois, em nome de uma súbita aceleração no número de mestres e doutores, acabamos criando um sistema sórdido de confecção em massa de dissertações e teses baseadas em pesquisas pouco rigorosas que, além de não resistir a uma análise minimamente rigorosa, ainda estão servindo para a erupção de um número incrível de fraudes acadêmicas.

Por último, é preciso ressaltar que a política de financiamento adotada pela maioria dos governos civis que sucederam ao regime de 1964 tem sido na direção das instituições privadas de ensino, onde efetivamente não há qualquer produção científica que merece essa nome. No caso do governo de Dilma Rousseff temos assistido, até de forma inaceitável, a aplicação de bilhões de reais em políticas que servem apenas para robustecer a produção de vagas de graduação, enquanto turbinam as contas bancárias dos donos das empresas de ensino.  Essa decisão do governo federal evidencia não apenas a opção preferencial pelas corporações privadas de ensino, mas também, e principalmente, o abandono das instituições públicas, onde se concentra a produção científica.

Essa opção preferencial pelo ensino privado é revelador de algo ainda mais crucial, o do abandono de um projeto nacional para a ciência. E frente a esse fato é que deveríamos estar nos posicionando, o que não está ocorrendo, pois a maioria das análises se concentra em elementos, me desculpem, periféricos e secundários. 

Plágio em monografias, dissertações e teses: a face emergente do “trash science” no Brasil

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No dia 07 de junho de 2015 postei aqui no blog uma postagem que atraiu grande atenção ao abordar a cassação de um título de mestre na Universidade Federal de Viçosa por graves violações contra a ética acadêmica por parte de seu autor (Aqui!). 

Pois bem, pouco mais de 90 dias depois a caixa de correio eletrônico do blog está sendo alimentada com diferentes casos de supostos plágios que estariam sendo flagrados em diferentes instituições federais de ensino superior, em algo que parece estar se constituindo numa verdadeira epidemia do “trash science”.

Confesso que, apesar de estar acompanhando o fenômeno do que eu chamo de “trash science”, o número de casos de plágio de monografias de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutoramento chega a me espantar. Ainda que eu estivesse ciente do papel nefasto que a internet cumpriu na disseminação da prática do plágio, o número crescente de casos de pessoas flagradas praticando plágios em níveis variados é realmente de espantar.

Uma das explicações para essa situação foi a dinâmica produtivista que se apossou de muitos professores/pesquisadores que, sob pressão de publicar, deixarem de cumprir alguns requisitos básicos no processo de acompanhamento de seus orientandos, o que facilitou a difusão das práticas antiéticas que comprometem a lisura do processo de produção científica.

Mas essa pode ser apenas uma explicação parcial, já que existem outros ingredientes importantes como é o processo de distribuição de fomento científico, seja na forma de projetos ou bolsas de produtividade. Além disso, o fato de que a produção de artigos acabou se tornando um elemento primário para valorização salarial, ficamos defrontados com a disseminação de práticas e costumes que podem até assegurar a melhoria salarial, mas que acabam bastardizando a produção científica.

De toda forma, se as evidências que estão surgindo em torno da multiplicação dos casos de plágio se confirmarem, o problema será como adotar práticas que controlem e revertam a predominância do trash science como fonte de obtenção de mérito. E baseado na minha parca experiência, conseguir isso não será tarefa nada fácil. Até porque mesmo o reconhecimento de que o problema existe está limitado, e a maioria prefere fingir que está tudo bem no Quartel de Abrantes.  

Fiocruz: evento discute qualidade na avaliação do ensino e da produção científica

Amanda de Sá e Renata Moehlecke

Na tarde de quarta-feira (26/8), o debate no Seminário Educação, Saúde e Sociedade do Futuro, promovido pela Fiocruz, girou em torno da questão da avaliação da qualidade no ensino e na produção científica. Mediada pela pesquisadora Tatiane Wargas, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), a mesa-redonda Como formar profissionais para a ciência comprometidos com a qualidade, o pensamento crítico e a inovação contou com a participação de dois especialistas: Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Kenneth Rochel de Camargo Jr., professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Confira vídeo das conferências do segundo dia.

“Muitos professores se baseiam somente em teorias, mas essas teorias podem ser iluminadas por dados científicos.”, observou Lent (foto: Peter Ilicciev)

Na primeira palestra, Lent falou sobre sua experiência no campo da educação em ciências. Com o objetivo de aplicar descobertas científicas em prol da educação, o professor formulou a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), formada por um grupo de cientistas interessados em promover esforços de forma interdisciplinar a favor da educação. A rede, criada em novembro de 2014, possui parceria com o Instituto D’or, a Unesco, o Instituto Ayrton Senna e a National Science Foundation.

Entre os exemplos citados por Lent, a implantação de inovações científicas e tecnológicas aplicada à educação, pode ser feita a partir do uso de videogames, estimulando a capacidade cognitiva; a observação da relação entre sono, aprendizagem e memória; e a importância da música como estímulo à atenção e criatividade. Neste caso, Roberto destaca um exemplo inusitado com o uso de música em aulas de matemática fortalecendo o sistema atencional do cérebro.

A partir destes estímulos, conforme explicou o professor, deu-se início a linha de investigação neural conhecida como neuroplasticidade. A experiência é feita com estímulos de elementos do foco atencional para o aprendizado. “Muitos professores se baseiam somente em teorias, mas essas teorias podem ser iluminadas por dados científicos.”, observou Lent.

Para o professor, atualmente, a pauta de discussão sobre educação se baseia na ampliação de escolas, aumento da jornada escolar com turno integral e melhores salários. Porém, de acordo com Lent, somente isso não basta. “Precisamos incluir a ciência aplicada à educação. Nossa educação no século 21 se equipara a do século 19 nos Estados Unidos. A politica educacional do Brasil é conservadora, então essa diferença vai aumentando. Os EUA atualmente têm outro grau de tecnologia implantada nas salas de aula. Se aplicarmos a ciência e a tecnologia nesse panorama, nós podemos reduzir essa distância”, apontou.

Qualidade na avaliação científica

O professor Kenneth Camargo deu seguimento ao debate abordando o tema Produção científica: avaliação de qualidade?. Ele alertou que, atualmente, no âmbito científico, devido a um processo de avaliação que enfatiza quantidade, tem sido mais importante para os pesquisadores contabilizar o número de artigos publicados em revistas consideradas de alto impacto, e não o destaque às descobertas científicas em si, o que traz diversos problemas para o processo de produção científico, a curto e a longo prazo.

Para Camargo, é necessário reestruturar o processo de análise da qualidade da produção científica o mais rápido possível (foto: Peter Ilicciev)

“É importante pensarmos nos pressupostos ocultos que estão por trás desta discussão que estamos levando. Hoje, é comum associarmos a chamada metafísica da avaliação, que é a ideia de que o enunciado expresso numericamente seria mais confiável, objetivo e preciso, a uma hermenêutica da suspeição, que é a noção de que se discutirmos dados sem números algo de muito ruim e persecutório pode ocorrer. Essa associação torna o processo avaliativo muito complicado”, explicou Camargo. “Soma-se a isso a ideia errônea de que é possível medir a produção científica por citações. Um estudo de análise de conteúdo das citações muito interessante revelou, por exemplo, que um quarto dessas são irrisórias, 40% são relativas a capítulos de livros e não artigos, e 10% são auto referências, ou seja, o indivíduo citando a si próprio”.

O professor ainda aponta que existem uma série de fatores que não tem relação com qualidade que predeterminam a possibilidade de aumento do número de citações de um artigo, como múltipla autoria, a língua em que o artigo foi escrito e o escopo disciplinar. “Esses fatores influenciam diretamente os índices: normalmente, 20% ou menos dos artigos publicados em uma revista respondem por 80% ou mais de seu fator de impacto”, esclareceu. “Nesse sentido, é um equívoco achar que um artigo publicado em uma revista de alto impacto automaticamente é um artigo muito citado”.

Para Camargo, é necessário reestruturar o processo de análise da qualidade da produção científica o mais rápido possível. “Avaliar ciência e impacto não é simples e muitas vezes não é imediato. Em alguns casos, seriam necessários mais de 100 anos para se percebermos a relevância de uma pesquisa, que só terá utilidade prática no futuro; mas não podemos esperar esse tempo para decidir financiar ou não um projeto”, destacou. “Minha intervenção é um chamado às armas. Espero que cada vez mais pessoas se sintam irritadas tanto quanto eu me sinto e queiram mudar esse sistema avaliativo que simplesmente enfatiza números”.

O palestrante ainda chamou a atenção para a ingenuidade atual do debate, que não tem passado pela filosofia da ciência. “Se não pararmos de fato para discutir e pensar, esse processo avaliativo se tornará extremamente danoso para o fazer científico. Atualmente, da forma como as coisas são feitas, ninguém tem tempo para a reflexão, que é indispensável para a produção da verdadeira ciência”, concluiu Camargo.   

Confira aqui como foi a mesa-redonda da manhã de quarta-feira (26/8).

http://www.agencia.fiocruz.br/evento-discute-qualidade-na-avalia%C3%A7%C3%A3o-do-ensino-e-da-produ%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica

Maurício Barreto: Se mudarmos a forma de avaliar a ciência, mudamos a forma de entender e valorar a publicação científica

Um dos cientistas brasileiros mais renomados no cenário internacional fala da importância de mudar os pesos da avaliação científica

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Membro da The World Academy of Sciences (TWAS), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e um dos mais profícuos pesquisadores da Saúde Coletiva, Maurício Barreto tem acompanhado de perto o debate sobre o papel da produção científica no mundo e alerta: se universidades e centros de fomento não abandonarem o atual modelo de avaliação, baseado unicamente na quantidade de publicações e citações, a própria ciência tende a ampliar o fosso que a aparta do resto da sociedade. “Cada vez mais, a consciência de que esse modelo baseado em índices e fatores de impacto não demonstram a importância do desenvolvimento científico e dos efeitos da ciência, o que exige esforços de propor e apresentar alternativas”.

Para ele, é fundamental que a academia tome para si o compromisso social da produção do conhecimento. Barreto não fica apenas nas palavras. A partir de seu estudo pioneiro sobre os impactos do Bolsa Família sobre a mortalidade infantil e demais aspectos do ciclo vital e de desenvolvimento, o governo federal, na figura do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) assinaram ano passado um acordo de cooperação técnica que possibilitará a realização de um estudo de corte baseado nos dados de cerca de 100 milhões de brasileiros que se beneficiam dos programas sociais e compõem a base de dados do Cadastro Único (CadÚnico).

Para o Portal Abrasco, ele fala do desafio da avaliação, da crise que já se abate sobre o custeio dos programas de pós-graduação, do debate sobre o produtivismo e do papel da ciência, temas que abordará em palestras e mesas redondas durante o Abrascão 2015,  que acontece entre 27 de julho e 1 de agosto, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

“O Abrascão é uma caixa de ressonância, por isso é vital falarmos de avaliação. Temos a oportunidade de pensar sobre a avaliação numa visão múltipla”, afirma Barreto. Leia a entrevista e confira ao final a programação.

Abrasco: Em sua conferência no 9º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, o Epivixo senhor abordou como a epidemiologia vive um processo de atração e distanciamento dos demais campos científicos, sendo fundamental ter como centro os grandes projetos que afetam a saúde das populações. Isso é possível dentro do atual cenário da produção científica?

Maurício Barreto: O campo da Saúde Coletiva tem uma serie de desafios internos entre os quais inclui a articulação de conhecimento produzido em várias áreas científicas. Estamos dentro do campo geral das ciências da saúde, e vivemos os dilemas complexos inerentes a esse setor, gerador de expectativas e cujos resultados, de diversas formas, têm grande de interferir no cotidiano das pessoas e das populações. Mesmo com todas as nossas características específicas e tendo de seguir as regras universais da produção científica, temos que refletir sobre nossas especificidades e em especial os efeitos que nosso conhecimento gera sobre as sociedades humanas.

Abrasco: Quais são as deficiências da avaliação das ciências?

Maurício Barreto: A tradição da avaliação da ciência vem de uma disciplina chamada cienciometria. Ela parte da ideia central de aferir todos os campos do conhecimento científico por uma única métrica de uso universal baseada em índices do que se publica e do que se cita na produção científica mundial. Para isso, utiliza medidas, como o Fator de Impacto, o Índice H, medidas que têm pretensão de métricas universais, que sirvam para qualquer campo científico. Só que esta opção gera muitos dilemas e desafios. O mais importante é que as ciências são muito diferentes entre si. Veja a Cosmologia, que agora está na mídia discutindo sobre as condições de Plutão, por conta da aproximação da sonda da NASA a este planeta. Como comparar a Cosmologia com a Saúde Coletiva, que tem o potencial de gerar efeitos mais concretos no cotidiano da vida das pessoas? Os seja, como comparar estas duas ciências que geram efeitos tão diferentes?

Deve-se enfatizar que estas duas ciências não são tão diferentes na forma de publicar e de citar (os novos resultados obtidos sobre Plutão com certeza serão publicados em revistas científicas e certamente serão citados) – a maior diferença é nos efeitos que estas duas ciências geram sobre a sociedade. Porém, até o momento as avaliações científicas não levam (ou leva muito pouco) isso em consideração. Nesta perspectiva, eu partilho o ponto de vista de que a avaliação do conhecimento não pode ser somente baseada em parâmetros blibliométricos (publicar e citar). Nosso objetivo como pesquisadores deve ser o de modificar a realidade que vivemos e a avaliação científica de ajudar a entender como os efeitos do conhecimento cientifico por nós produzidos afetam a sociedade. A produção de uma nova vacina, contribuir para a organização de novos programas na saúde devem ser objetivos finais de nossos programas científicos, e não apenas as publicações que tratam desse tema. As publicações são estágios desses empreendimentos, não o seu fim.


Abrasco: No mundo atual, grandes grupos econômicos, como o Elsevier, dominam a publicação científica, o que vem gerado vários protestos da comunidade acadêmica internacional. O que é possível fazer para reverter esse quadro?

Maurício Barreto: De fato, quem domina o campo e formula as regras são, em boa parte, as grandes editoras internacionais. Quando falamos que o Fator de Impacto de uma publicação é alto, podemos também dizer que alto também é o valor econômico das empresas que detêm os direitos editoriais desta revista. Mas temos alternativas, como revistas online e de acesso aberto. Aqui no Brasil ainda temos a cultura das revistas e periódicos ligados às associações, sem objetivos empresariais por trás. O SciELO tem sido um bom exemplo de iniciativa que se contrapõe a lógica de como o capitalismo vem moldando o empresariamento editorial das ciências.

Nos países desenvolvidos é mais claro o campo de disputa econômica que se tornou a publicação científica. Como modificar este quadro tem sido tema de debates internacionais. Entretanto, não é uma tarefa simples, não há fórmulas prontas. O consenso é que o modelo atual é insuficiente e não transparece as aspirações do conhecimento científico como algo que pertence ao bem comum. O aparecimento de outro modelo exige grande consenso em torno desse reconhecimento. Introduzir outros elementos avaliativos, como qualidade, efeitos e impactos da produção científica geraria outros focos de debate, hoje tão centrado na publicação científica. Isso é fundamental para o campo da saúde, que precisa criar condições ou mesmo liderar e desenvolver alternativas em torno de como perceber e mesmo mensurar os efeitos da sua produção científica.

Abrasco: Os cientistas que lideram essas críticas centram fogo também na crítica ao produtivismo que impera nas academias. A crítica que o senhor faz à avaliação das ciências parte dos mesmos pressupostos?

Maurício Barreto: Historicamente, o conhecimento científico é apresentado em forma de publicações, isso faz parte do fazer científico. O modo de se publicar e a influência das publicações sobre a avaliação é que têm mudado. Acredito que o debate do produtivismo tem suas razões e não razões. O discurso contra o produtivismo acerta quando critica a obrigação do volume de produção, quando aponta a excessiva valorização de quantidades e métricas derivados do número de publicações e de citações. O erro advém de colocar todo o peso da avaliação – seja individual, seja coletiva – nas publicações. Se colocarmos no centro da avaliação os efeitos que tal conhecimento possa ter ou vir a ter na vida das pessoas e das sociedades, teríamos condições de produzir um novo debate e mudar o foco da avaliação centrado quase exclusivamente na publicação. Publicar com qualidade é importante e todos concordamos, faz parte do processo da ciência e de uma ciência feita de forma rigorosa – dessa lógica não escapamos, nem podemos escapar. O central é mudar a lógica do que queremos, o que é feito e o que podemos fazemos com a ciência que produzimos. Acredito que seja a forma de mudar o sentido do debate sobre o produtivismo e transformá-lo em um debate útil sobre os sentidos do labor científico.

Abrasco: Como o senhor vê o processo de avaliação das ciências na academia brasileira e o anúncio de cortes da Capes em importantes programas de custeio das Pós-Graduações? 

Maurício Barreto: A produção científica brasileira e nós, pesquisadores, continuamos presos a esse modelo sobre o qual existe certo consenso de que está superado, mas por razões nem sempre compreensíveis, continuamos utilizando-o. Continuamos destacando apenas como melhor aquele que mais publica, que é mais citado, esquecendo de que precisamos também destacar aqueles conhecimentos que afetam as nossas vidas. Mudanças na forma de avaliar o conhecimento produzido poderiam vir a ser uma valiosa contribuição na busca de sentido e mesmo utilidades para o conhecimento que produzimos. Porém, deve-se enfatizar que esta não é uma tarefa simples e que já está pronta, faz-se necessário o desenvolvimento de novos modos e mesmo de novas métricas de avaliação.

A atual crise só agrava e mostra as insuficiências do modelo de avaliação que usamos. Todo o nosso sistema nacional de pós-graduação é mal financiado, mesmo nos momentos de calmaria econômica. Espero que os cortes atuais sejam apenas momentâneos, pois sua manutenção, com certeza, será uma pá de cal em cima desse sistema, que exigiu imensos esforços da sociedade brasileira para a sua construção.

O debate sobre a avaliação é central nesse momento, pois pode propiciar um redirecionamento e alternativas, e mostrar que nossa missão é maior do que produzir artigos científicos. Não fomos criados para ser uma comunidade de produtores de artigos, mas sim de conhecimentos que contribuam para a compreensão abrangente dos problemas de saúde, para o fortalecimento do SUS e para as transformações necessárias nas condições de saúde da população brasileira. Esse deveria ser o norte do nosso sistema de avaliação. Porém, para que isso possa acontecer, os programas precisam continuar existindo e produzindo. À medida que se reduz cada vez mais o financiamento, a luta passa a ser apenas pela misera sobrevivência, perdendo o sentido de debates em torno da avaliação.

Abrasco: A defesa do SUS universal é o tema do Abrascão 2015. Qual é a importância desse debate no cenário brasileiro?

Maurício Barreto: Ao colocar a universalidade dos sistemas de saúde como tema central deste Congresso, a Abrasco reafirma-se como uma organização criada para defender o sistema de saúde brasileiro e contribuir para o desenvolvimento do SUS. Como parte da turbulência que vive a sociedade brasileira, o nosso sistema de saúde também atravessa momentos críticos. Muita coisa boa está acontecendo, por exemplo, a expansão da Rede de Atenção Primária e o nível de equidade que está se alcançando neste nível de atenção, porém e ao mesmo tempo, vários outros de problemas existem e precisam de soluções. Em todos os problemas a questão da universalidade é relevante. Na perspectiva da nossa comunidade científica, tudo isto implica em desafios de continuar contribuindo para o SUS integral, resolutivo, universal que almejamos. Esse debate é de grande relevância para nós, como parte da comunidade de produção científica e, certamente, de onde poderão sair os conhecimentos necessários para a emergência de soluções compatíveis com a grandeza dos problemas e desafios que é a construção de um SUS almejado pela sociedade brasileira.

(Abrasco)

FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/2-mauricio-barreto-se-mudarmos-a-forma-de-avaliar-a-ciencia-mudamos-a-forma-de-entender-e-valorar-a-publicacao-cientifica/

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

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O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
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A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

UFRGS disponibiliza ferramentas para detectar plágio em trabalhos acadêmicos

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Um dos aspectos mais comentados em relação às repercussões da postagem que fiz aqui neste blog sobre a cassação de um título de mestre e da retratação de um artigo científico é a preocupação com a disseminação das práticas que levaram a este desfecho tão lamentável.

O fato é que graças à internet e a disseminação da “Lei de Gerson” nos diferentes aspectos que compõe a produção de documentos acadêmicos não apenas no Brasil, mas no mundo, uma série de ferramentas estão sendo desenvolvidas para detectar as práticas variadas de plágio.  E muitas instituições, como mostra o material abaixo, estão tentando se prevenir contra os mais variados tipos de fraude que estão sendo cometidas nos vários níveis de formação. No caso específico, o núcleo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) reuniu e disponibilizou uma série de endereços onde se pode verificar o grau de comprometimento frente ao plágio que determinados documentos podem possuir. 

Mas é preciso que se diga que não há programa mais eficiente do que o orientador, pois se esse fizer seu trabalho com o devido cuidado, o plágio nem ocorrerá já que, em minha opinião, uma das causas fundamentais do problema é justamente a permissividade que está instalada nas relações entre orientandos e orientadores. E ressalto que não se trata apenas de problemas pessoais, mas de toda uma lógica produtivista que degrada aspectos da formação acadêmica a níveis completamente surreais. E  o pior é que retomar o caminho da qualidade não será fácil, pois, como já tentei demonstrar aqui nesse blog, o problema está ocorrendo desde os pontos mais altos até os níveis mais iniciais da comunidade científica brasileira e, sim, mundial.

Mas existem caminhos para reverter o problema. Resta saber se os que dirigem a ciência nacional estão dispostos a fazer um “mea culpa“.

 

Os seguintes links de ferramentas servem para detecção de plágio, tendo utilidade principalmente para as equipes de produção de material didático e professores/tutores.

 

Plágio de textos: Serviços online

* Turnitin – http://turnitin.com/pt_br

* Plagiarism.org. – http://www.plagiarism.or

* Glatt Self-Detection Test – http://www.plagiarism.com/self.detect.ht

* iThenticate – www.ithenticate.com

* Approbo – http://approbo.citilab.eu/

 

Plágio de textos: Software

* ephorus – www.ephorus.pt

* Safe Assign – www.mydropbox.com/

* JPlag – www.jplag.de

* Essay Verification Engine – www.canexus.com/eve

* WCopyfind – www.plagiarism.phys.virginia.edu/Wsoftware.htm

* DOC Cop – www.doccop.co

* Etblast – http://etest.vbi.vt.edu/etblast3

* Ferret – http://homepages.feis.herts.ac.uk/~pdgroup

* Farejador de plágio – www.farejadordeplagio.com.b

FONTE: http://www.ufrgs.br/uab/ferramentas-para-detectar-plagio-em-trabalhos-academicos