Artigo na Science denuncia aumento de hostilidades a cientistas brasileiros pelo governo Bolsonaro

Um ambiente hostil.’ Cientistas brasileiros enfrentam crescentes ataques do regime de Bolsonaro

Brazil_academics_1280x720

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (ao centro), cumprimentando seus apoiadores sem usar máscara, tem uma relação gelada com a comunidade científica do país. ALAN SANTOS / PR

Por Herton Escobar para a Science

Na semana passada, cientistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), principal agência brasileira para estudar e administrar as vastas áreas protegidas do país, tiveram que começar a obedecer a uma nova regra indesejável. Dá a um dos principais funcionários do ICMBio a autoridade para revisar todos os “manuscritos, textos e compilações científicas” antes de serem publicados.

Os pesquisadores temem que o governo do presidente Jair Bolsonaro, que tem uma relação marcadamente hostil com a comunidade científica brasileira, use as análises para censurar estudos que conflitam com seus esforços contínuos para enfraquecer as proteções ambientais. O governo diz que essa não é a intenção. Mas a mudança se soma aos desenvolvimentos recentes que abalaram muitos cientistas brasileiros e deixaram aqueles que criticam as políticas do Bolsonaro temendo por seus empregos e até mesmo por sua segurança física.

“A ciência está sendo atacada em várias frentes”, diz Philip Fearnside, ecologista veterano do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). “Há negação da pandemia, negação das mudanças climáticas, negação do desmatamento; para não mencionar os cortes no orçamento. ”

As queixas de Bolsonaro com cientistas remontam ao início de seu governo em 2019. Em seguida, acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de “mentir” sobre dados de satélite que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia e demitiu seu diretor, o físico Ricardo Galvão, após defender os números. Desde então, Bolsonaro tem entrado em confronto com pesquisadores por questões que incluem sua rejeição persistente de estratégias baseadas na ciência para combater a pandemia COVID-19, que matou pelo menos 330.000 brasileiros. Mas o relacionamento parece ter entrado em uma fase ainda mais tensa nos últimos meses.

Um exemplo veio em fevereiro, quando a principal agência anticorrupção do Brasil, a Controladoria-Geral da União, informou ao epidemiologista Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, que ele poderia perder o emprego por causa das críticas que fez ao Bolsonaro em janeiro durante um evento online. Hallal, que coordena o maior projeto de pesquisa em epidemiologia COVID-19 do Brasil, chamou o Bolsonaro de “desprezível”, citando a retórica antivacinação do presidente e sua interferência política na seleção dos reitores das universidades.

Poucas semanas antes, o Ministério da Educação de Bolsonaro ordenou aos reitores de todas as 69 universidades federais, que empregam a maioria dos cientistas brasileiros, que “previnam e punam atos político-partidários” de funcionários. Depois de protestos, o ministério retirou a ordem no mês passado e Hallal finalmente chegou a um acordo com o escritório do controlador, prometendo não “promover a expressão de apreço ou desaprovação no local de trabalho” por 2 anos.

Hallal permanece desafiador. “Se a ideia era me silenciar, tenho que dizer que saiu pela culatra”, diz ele. “Isso está me motivando a ser ainda mais crítico e dizer o que precisa ser dito.” Mas ele teme que o clima político esteja silenciando alguns de seus colegas. “Muitas pessoas estão dizendo menos do que gostariam, por medo de retaliação”.

Os cientistas também estão reconsiderando o que estudam e publicam, diz Marcus Lacerda, especialista em doenças infecciosas da Fundação Oswaldo Cruz. No ano passado, ele enfrentou intensas investigações do Ministério Público Federal – e recebeu ameaças de morte – depois de publicar um trabalho destacando os riscos à saúde de se administrar a droga cloroquina a pacientes com COVID-19 . (Bolsonaro promoveu fortemente a cloroquina, apesar dos estudos concluírem que ela é ineficaz contra o COVID-19.) “Muitas pessoas têm medo de publicar depois do que aconteceu comigo”, diz Lacerda. Colegas abandonaram a pesquisa do coronavírus, acrescenta ele, para evitar o assédio online pelo que é conhecido como “milícia digital” de Bolsonaro.

Em um caso, o assédio online parece ter escalado para um ataque físico. Depois que o biólogo Lucas Ferrante, candidato a doutorado do INPA, publicou artigos em periódicos de destaque (incluindo  Science ) criticando as políticas ambientais e de saúde de Bolsonaro, suas contas de celular e redes sociais se iluminaram com mensagens ameaçadoras. Então, em novembro de 2020, ele diz que foi atacado por um homem que dirigia o que ele pensava ser um veículo Uber que ele havia saudado; o homem disse a Ferrante que ele “precisava calar a boca” e deu um soco nele. Desde então, Ferrante diz que tem medo de sair de casa e leva um celular que não tem ligação com seu nome.

Nesta semana, um grupo de pesquisadores brasileiros citou preocupações com a segurança ao explicar por que eles não assinaram seus nomes em  um white paper,  publicado pela Climate Social Science Network da Brown University, que descreve os esforços de Bolsonaro para desmantelar as proteções ambientais. Eles decidiram permanecer anônimos “por razões de segurança e considerando o atual cenário político no Brasil”, escreveram.

No ICMBio, a nova regra de supervisão dá autoridade de revisão ao diretor de pesquisa em biodiversidade do instituto, um dos quatro diretores do ICMBio que atuam sob o presidente do instituto. Em um comunicado, funcionários do instituto retrataram a ordem simplesmente como uma mudança burocrática, observando que o presidente do ICMBio anteriormente tinha autoridade de revisão. “Não há censura”, afirma. Mas os pesquisadores observam que nenhum dos principais funcionários do ICMBio é um cientista treinado para conduzir revisões técnicas; todos são ex-policiais militares ou bombeiros.

Uma regra semelhante foi emitida no mês passado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Brasil, uma importante instituição federal de pesquisa.

Os cientistas brasileiros também enfrentam uma crise de financiamento cada vez mais profunda. Os gastos do governo em pesquisa diminuíram em mais de 70% desde o pico de 2014, e o governo Bolsonaro cortou recentemente 34% do orçamento de investimento do ministério da ciência para este ano. A principal agência de financiamento federal do país, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, deve ter menos de US $ 4 milhões disponíveis para bolsas de pesquisa este ano.

Os problemas de financiamento e os conflitos constantes estão desgastando os pesquisadores brasileiros, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e cofundadora da Coalizão Ciência e Sociedade, grupo criado em 2019 para promover políticas baseadas na ciência. “Estou tão cansada de ter que me defender o tempo todo”, diz ela. “Enquanto isso, todas as questões importantes que realmente deveríamos enfrentar estão sendo deixadas para trás.”

A maioria dos cientistas brasileiros “não está acostumada a funcionar em ambientes hostis”, acrescenta Atila Iamarino, microbiologista e proeminente comunicador científico. “Eles são treinados para argumentar contra os fatos, mas isso não é o que mais importa nessas situações.”

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Science [Aqui!].

De qual ciência e de que cientista precisamos para vencer esta e as pandemias que virão?

Why the huge growth in AI spells a big opportunity for ...

Em meio ao crescimento do número de infectados e mortos pelo coronavírus, os cientistas e o tipo de conhecimento que eles geram voltaram subitamente ao centro das atenções, como se ambos representassem a possibilidade de algum tipo de salvação mágica para acabar com um vírus que se mostra altamente letal, e capaz de cruzar fronteiras geográficas como incrível letalidade. 

Curiosamente quando a maioria dos analistas se reporta à importância do conhecimento científico há a tendência clara de se privilegiar aqueles cientistas que se ocupam de estudar o vírus e seus mecanismos de proliferação e, obviamente, com uma preferência ainda maior com aqueles que estão buscando o desenvolvimento de drogas que consigam, senão eliminar o vírus, mas pelo menos minimizar seus impactos.

Essa preferência é obviamente míope, pois se nesta equação não forem incluídos outros ramos das ciências, especialmente o das ciências sociais, ficaremos como um cachorro rodando atrás do próprio rabo. É que o novo coronavírus é, acima de tudo, uma expressão objetiva de como as formas dominantes de exploração dos sistemas naturais são indutoras dessa pandemia e de outras que ainda virão, caso não haja uma forte correção de rumos.

Tomemos o  caso do Brasil que no meio desta pandemia é palco do aprofundamento do “business as usual” com a aprovação de dezenas de agrotóxicos altamente perigosos, o avanço do desmatamento na Amazônia, e também a ameaça de rompimento de barragens de rejeito de mineração. Todos esses desdobramentos são indutores de mais degradação ambiental e de fragilização do sistema imunológico da população brasileira. Mas centrados apenas na COVID-19, esses agravantes socioambientais passam despercebidos, facilitando a disseminação da pandemia. Em outras palavras, o conhecimento que se precisa é do tipo “dialético”, pois estamos imersos em uma totalidade que se mostra de forma avassaladora. 

Por outro lado, o tipo de cientista que melhor responderá ao conjunto de necessidades que essa totalidade em que o coronavírus está posto acaba gerando. Obviamente precisamos entender os mecanismos de funcionamento e dispersão do coronavírus, mas só isso não nos oferecerá os caminhos para superar a pandemia que ele gerou. Nesse sentido,  o cientista que precisamos é um que entenda para além do ambiente dos laboratórios, e que possa ser capaz de entender as condições do mundo em que  a pandemia está se disseminando.

Um problema para que esse cientista totalizante apareça é a profunda domesticação do pensamento científico dentro de uma ordem em que métricas e fatores de indexação se tornaram mais importante do que o próprio método científico.  A verdade é que neste exato momento existem aqueles que acreditam que o seu papel como cientista é apenas se preparar para publicar um artigo em alguma revista com grande fator de impacto, sem que se saiba se alguém estará vivo para poder ler a publicação. Certamente não é desse cientista “paper driven” que o mundo precisa neste momento. O duro será convencer aqueles que se proclamam como “ratos de laboratório” para fugir de suas responsabilidades societárias de que ciência e cientista não são necessariamente demonstrados pela quantidade de artigos que se publica nesta ou naquela revista científica.

wp-1587049896753.jpg

Mas vejo motivos para pensar que existe luz no fim do túnel quando me lembro que há poucos dias a Academia Brasileira de Ciências (ABC)  iniciou a realização de uma série de “webminários” cuja tônica é justamente o da necessidade urgente de uma modelo totalizante de produção científica que olhe a pandemia da COVID-19 sob os múltiplos ângulos que seu enfrentamento demanda.  O importante é que como no caso da ABC, outras instituições e pesquisadores estão realizando debates online seguindo essa via de reflexão sobre o papel da ciência e dos cientistas.  Se esse caminho for mantido, é bem provável que estaremos abrindo um novo e importante caminho para posicionar a ciência e os cientistas brasileiros a uma posição em que suas contribuições não poderão ser ignoradas.