De qual ciência e de que cientista precisamos para vencer esta e as pandemias que virão?

Why the huge growth in AI spells a big opportunity for ...

Em meio ao crescimento do número de infectados e mortos pelo coronavírus, os cientistas e o tipo de conhecimento que eles geram voltaram subitamente ao centro das atenções, como se ambos representassem a possibilidade de algum tipo de salvação mágica para acabar com um vírus que se mostra altamente letal, e capaz de cruzar fronteiras geográficas como incrível letalidade. 

Curiosamente quando a maioria dos analistas se reporta à importância do conhecimento científico há a tendência clara de se privilegiar aqueles cientistas que se ocupam de estudar o vírus e seus mecanismos de proliferação e, obviamente, com uma preferência ainda maior com aqueles que estão buscando o desenvolvimento de drogas que consigam, senão eliminar o vírus, mas pelo menos minimizar seus impactos.

Essa preferência é obviamente míope, pois se nesta equação não forem incluídos outros ramos das ciências, especialmente o das ciências sociais, ficaremos como um cachorro rodando atrás do próprio rabo. É que o novo coronavírus é, acima de tudo, uma expressão objetiva de como as formas dominantes de exploração dos sistemas naturais são indutoras dessa pandemia e de outras que ainda virão, caso não haja uma forte correção de rumos.

Tomemos o  caso do Brasil que no meio desta pandemia é palco do aprofundamento do “business as usual” com a aprovação de dezenas de agrotóxicos altamente perigosos, o avanço do desmatamento na Amazônia, e também a ameaça de rompimento de barragens de rejeito de mineração. Todos esses desdobramentos são indutores de mais degradação ambiental e de fragilização do sistema imunológico da população brasileira. Mas centrados apenas na COVID-19, esses agravantes socioambientais passam despercebidos, facilitando a disseminação da pandemia. Em outras palavras, o conhecimento que se precisa é do tipo “dialético”, pois estamos imersos em uma totalidade que se mostra de forma avassaladora. 

Por outro lado, o tipo de cientista que melhor responderá ao conjunto de necessidades que essa totalidade em que o coronavírus está posto acaba gerando. Obviamente precisamos entender os mecanismos de funcionamento e dispersão do coronavírus, mas só isso não nos oferecerá os caminhos para superar a pandemia que ele gerou. Nesse sentido,  o cientista que precisamos é um que entenda para além do ambiente dos laboratórios, e que possa ser capaz de entender as condições do mundo em que  a pandemia está se disseminando.

Um problema para que esse cientista totalizante apareça é a profunda domesticação do pensamento científico dentro de uma ordem em que métricas e fatores de indexação se tornaram mais importante do que o próprio método científico.  A verdade é que neste exato momento existem aqueles que acreditam que o seu papel como cientista é apenas se preparar para publicar um artigo em alguma revista com grande fator de impacto, sem que se saiba se alguém estará vivo para poder ler a publicação. Certamente não é desse cientista “paper driven” que o mundo precisa neste momento. O duro será convencer aqueles que se proclamam como “ratos de laboratório” para fugir de suas responsabilidades societárias de que ciência e cientista não são necessariamente demonstrados pela quantidade de artigos que se publica nesta ou naquela revista científica.

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Mas vejo motivos para pensar que existe luz no fim do túnel quando me lembro que há poucos dias a Academia Brasileira de Ciências (ABC)  iniciou a realização de uma série de “webminários” cuja tônica é justamente o da necessidade urgente de uma modelo totalizante de produção científica que olhe a pandemia da COVID-19 sob os múltiplos ângulos que seu enfrentamento demanda.  O importante é que como no caso da ABC, outras instituições e pesquisadores estão realizando debates online seguindo essa via de reflexão sobre o papel da ciência e dos cientistas.  Se esse caminho for mantido, é bem provável que estaremos abrindo um novo e importante caminho para posicionar a ciência e os cientistas brasileiros a uma posição em que suas contribuições não poderão ser ignoradas.

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