Rio de Janeiro em chamas: a política como método de colapso

A inelegibilidade de Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral não encerra um ciclo. Ao contrário: ela o confirma. O Rio de Janeiro não vive uma crise política — vive um padrão político. A tentativa de renúncia de Castro, às vésperas do julgamento, foi menos uma estratégia jurídica do que um gesto revelador: a crença de que o poder ainda pode negociar com as regras, contorná-las, suspender suas consequências. Não pôde. A decisão do TSE não apenas o tornou inelegível, como reafirmou um diagnóstico incômodo — o de que o uso da máquina pública como instrumento eleitoral permanece não como exceção, mas como prática.

O dado mais grave, no entanto, não está na queda de um governador.  Está no fato de que ela não veio sozinha. A inelegibilidade também alcança Rodrigo Bacellar, figura central do Legislativo fluminense. Executivo e Legislativo, simultaneamente atingidos por uma mesma lógica de poder. Não se trata mais de desvios individuais, mas de um arranjo institucional que parece operar segundo uma racionalidade própria — uma racionalidade que dissolve as fronteiras entre governar e capturar o Estado. O resultado é uma cena quase alegórica: um governo que desmorona por dentro, deixando como herança não um vazio de poder, mas um excesso de crise. A sucessão improvisada, a instabilidade institucional e a incerteza política não são efeitos colaterais — são sintomas. E talvez seja esse o ponto central que o episódio expõe. 

O Rio de Janeiro tornou-se um laboratório extremo de um fenômeno mais amplo: a normalização da exceção. Governadores que caem, assembleias comprometidas, alianças que operam na fronteira da legalidade — tudo isso deixou de ser ruptura para se tornar rotina. A crise, nesse sentido, não interrompe o sistema. Ela é o sistema.

Não por acaso, o discurso público tende a individualizar responsabilidades. Fala-se em erros, abusos, ilegalidades. Tudo certo — e, ao mesmo tempo, insuficiente. Porque o problema não é apenas o que os atores fazem, mas o tipo de estrutura que continuamente os produz e os recompensa, até que se tornem descartáveis.

A trajetória recente do estado é eloquente. O Rio de Janeiro não acumula apenas escândalos; acumula padrões. E padrões, ao contrário dos escândalos, não desaparecem com julgamentos. A decisão do TSE pode afastar nomes. Mas não altera, por si só, o modo de funcionamento que os tornou possíveis. Por isso, a pergunta que permanece não é quem será o próximo a cair. Mas o que, de fato, ainda está de pé.

Salários corroídos, dívida elevada e risco de cassação: a crise do governo Castro

O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), enfrenta o claro risco de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão de um processo que investiga irregularidades ocorridas durante a campanha eleitoral de 2022, na qual foi reeleito. A ação examina a hipótese de que tenha havido abuso de poder político e econômico por meio do uso da estrutura administrativa do governo estadual para favorecer sua candidatura.

O ponto central das acusações envolve contratações em grande escala realizadas por órgãos vinculados ao governo do estado, especialmente a Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro). Segundo as investigações, programas administrados pela fundação teriam promovido a contratação de um número muito elevado de pessoas durante o período eleitoral. Parte dessas admissões teria ocorrido por meio de procedimentos pouco transparentes e, em alguns casos, com pagamentos realizados em espécie, circunstância que levantou suspeitas de que os recursos públicos estariam sendo utilizados para sustentar uma rede informal de apoiadores políticos e cabos eleitorais.

A acusação sustenta que essas contratações teriam servido não apenas para executar projetos administrativos, mas também para mobilizar apoio eleitoral à candidatura do governador, configurando uma utilização indevida da máquina pública. Na legislação eleitoral brasileira, o uso de recursos estatais ou da estrutura administrativa para beneficiar candidatos constitui uma forma de abuso de poder, capaz de comprometer a igualdade de condições entre os concorrentes e, por isso, pode levar à cassação do mandato obtido nas urnas.

A ação judicial que levou o caso ao TSE foi proposta por adversários políticos, entre eles o então candidato ao governo do estado Marcelo Freixo. O processo já havia sido analisado pela Justiça Eleitoral regional, mas acabou chegando ao tribunal superior por meio de recursos. No TSE, o julgamento ganhou grande repercussão política, pois envolve o chefe do Executivo de um dos principais estados do país.

Durante a análise do caso, a relatora do processo, Maria Isabel Gallotti, apresentou voto no sentido de reconhecer a ocorrência de abuso de poder político e econômico, defendendo a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade do governador por oito anos. Outros ministros começaram a apresentar seus votos, e o julgamento passou a ser acompanhado com atenção por observadores políticos e jurídicos, uma vez que sua conclusão poderá produzir efeitos relevantes na política fluminense.

Caso o tribunal forme maioria pela condenação, o governador poderá perder o mandato e ficar impedido de disputar eleições por um período determinado pela legislação. Dependendo da interpretação jurídica aplicada ao caso e do momento em que a decisão se tornar definitiva, o resultado também poderá implicar a realização de novas eleições para o governo do estado. Dessa forma, o processo em curso no Tribunal Superior Eleitoral tornou-se um dos episódios judiciais mais relevantes da política recente do Rio de Janeiro, ao colocar sob exame a legalidade das práticas administrativas adotadas durante o período eleitoral.

A situação política enfrentada por Cláudio Castro ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade fiscal do estado do Rio de Janeiro, cuja dívida pública continua entre as mais elevadas do país. Nas últimas décadas, o estado acumulou um pesado passivo financeiro, resultado de sucessivas crises fiscais, queda de receitas em determinados períodos e compromissos estruturais de gasto. A gestão atual frequentemente justifica a contenção de despesas com pessoal como parte de uma estratégia de ajuste fiscal e de cumprimento de compromissos assumidos em acordos de recuperação das contas públicas firmados com a União.  

Essa postura, porém, é alvo de críticas cada vez mais duras por parte de servidores e analistas das finanças públicas. Para esses setores, a recusa em conceder sequer a reposição inflacionária equivale, na prática, a impor uma política deliberada de corrosão salarial ao funcionalismo estadual, transferindo para os trabalhadores do serviço público o custo do ajuste fiscal. Na visão desses críticos, o argumento da austeridade perde força quando confrontado com episódios que sugerem uso pouco criterioso de recursos públicos e expansão de estruturas administrativas marcadas por baixa transparência. Nesse contexto, o processo que envolve o governador no Tribunal Superior Eleitoral acaba reforçando a percepção de um contraste incômodo: enquanto o governo invoca limites fiscais para negar recomposição salarial a professores, policiais e outros servidores, a gestão pública permanece cercada por controvérsias que colocam em dúvida as prioridades efetivas da administração estadual liderada por Cláudio Castro. e que, em última instância, poderão resultar em sua cassação pelo TSE.

Cláudio Castro, o RioPrevidência e a política da cara dura

Há alguns anos tive o azar de chegar atrasado para uma conexão no aeroporto internacional de Madri e, junto com a minha família, incluindo um filho pequeno, fui literalmente abandonado para vagar pelos corredores vazios do Barajas. Depois de finalmente sermos descobertos pela equipe de terra da Iberia, fomos encaminhados a um ponto onde outros passageiros aguardavam solução para o mesmo problema: conseguir um voo que nos levasse ao destino final.

O caos era total, pois havia mais gente do que atendentes. Foi então que apareceu um cidadão espanhol que pegou todos os tipos de senha disponíveis e, em um passe de mágica, foi atendido antes de todos que aguardavam pacientemente a sua vez. Como brasileiro em terra estrangeira, observei a cena com um misto de revolta e curiosidade.

A situação esquentou quando outro espanhol, mais jovem que o primeiro, dirigiu-se ao fura-fila e disse, em tom alto e tenso: tu eres un cara dura — algo que interpretei, em português, como “cara de pau”.

Pois bem. Ontem, o ainda governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), esteve em Campos dos Goytacazes para, na prática, realizar um ato de campanha antecipada sob o disfarce de anunciar obras e realizações na cidade.

Sabendo da presença de Castro, um grupo de servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi ao local cobrar o envio da proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da instituição para análise da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo fui informado, a resposta do governador foi repetir a velha cantilena: não há dinheiro para pagar um novo PCV da Uenf.

É aqui que entra a explicação do porquê Cláudio Castro pode ser chamado de cara dura. Primeiro, porque a Uenf possui — e o governador sabe disso — orçamento alocado para pagar os salários previstos no novo PCV.

Mas há um segundo elemento que não pode ser esquecido. Cláudio Castro está enrolado até o pescoço no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A partir de 2023, o governador retirou mais de R$ 1 bilhão do fundo próprio dos servidores públicos estaduais, o RioPrevidência, e aplicou esses recursos em fundos podres ligados ao Master.

Agora, com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro, Castro aparece na lista de governantes que pegaram dinheiro que não lhes pertencia — no caso, dos aposentados e pensionistas do RioPrevidência — e o aplicaram em ativos virtualmente inexistentes.

Ainda assim, em meio a essa situação melindrosa, Cláudio Castro vem a Campos prometer um novo batalhão de polícia e a criação de uma escola cívico-militar dentro dessa suposta unidade policial. E, em mais uma demonstração de cara-durice, sabe perfeitamente que seu sucessor — seja ele quem for — poderá ignorar essa promessa com a mesma desenvoltura.

Mais curioso ainda foi ver políticos locais oferecendo palanque a um personagem envolvido em uma situação que ameaça atingir gente graúda em diferentes esferas do Estado brasileiro, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Moral da história: é muita cara dura em um estado só.

RioPrevidência: Audiência pública na Alerj vai discutir rombo causado pelo Banco Master

BANCO MASTER E RIOPREVIDÊNCIA | Precisamos enfrentar quem atacou a aposentadoria dos servidores

Audiência Pública, sexta, 5/12, às 10h, na Alerj.

O rombo causado pelos investimentos no Banco Master, liquidado por fraudes bilionárias, colocou em risco o futuro de servidores, aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro.

Não dá para naturalizar esse ataque, foi dinheiro da aposentadoria colocado em operações de altíssimo risco, ignorando alertas técnicos e abrindo brecha para prejuízos que podem afetar toda a categoria.

Por isso, pela Comissão de Servidores da Alerj convocamos uma audiência pública para debater os impactos e riscos das transações entre o RioPrevidência e o Banco Master. Chamamos autoridades, órgãos de controle e especialistas e vamos cobrar respostas.

Não aceitaremos que o RioPrevidência vire alvo de aventureiros financeiros. Vamos defender mecanismos reais de proteção ao fundo e lutar para responsabilizar quem colocou a aposentadoria dos servidores em risco.

Sua presença é fundamental. É hora de mostrar força e exigir transparência.

📍Sexta, dia 5 | 10h | Assembleia Legislativa do Rio (Alerj)

#AudiênciaPública #Servidores #Alerj

Flávio Serafini quer instalação de CPI para investigar perdas do RioPrevidência no Banco Master

O investimento bilionário do RioPrevidência, fundo estadual de aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, no Banco Master pode virar objeto de uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).  É que o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Servidores da Alerj, protocolou projeto de resolução para instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar esses aportes e também os realizados por outras instituições públicas, a começar pela Cedae. 

Os dirigentes do RioPrevidência falam em cerca de um bilhão de reais investidos, mas o valor segundo técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode ter chegado a R$ 2,6 bilhões no Master e em fundos associados.

Flávio Serafini, deputado de oposição ao governo de Cláudio Castro (PL)  tem dito que os cofres estaduais do Rio de Janeiro tiveram um prejuízo bilionário e culpa o governador por essa situação escabrosa.  Para Serafini está evidente que houve um direcionamento para favorecer o Banco Master, o que agora  se mostra uma ação completamente irresponsável e que coloca em risco a saúde financeira do RioPrevidência.

É importante lembrar que Flávio Serafini presdiu a CPI do RioPrevidência entre 2019 e 2021, e sabe muito da situação financeira do fundo de previdência dos servidores estaduais fluminenses.

Justificando a morte : a cor e as ações de Cláudio Castro na Operação Contenção

Por Luciane Soares da Silva

Florestan Fernandes fez muito pelo Brasil. Além de uma obra fundamental para compreender o país, nos apresentou uma frase aparentemente fácil mas extremamente profunda; ‘o Brasil tem preconceito de ter preconceito”. Vários textos contemporâneos trataram a questão explicitando um país racista sem pessoas racistas. Não leremos em placas a proibição de entrada em uma barbearia, um shopping ou no Copacabana Palace. O professor Kabengele Munanga afirmava que nossa forma de resolver a questão racial, a engenharia de nosso racismo. era mais eficaz (e um tanto mais perversa) se comparada a outros países. E esta seria nossa marca, a  disseminação ideológica da impossibilidade de ser este um país racista uma vez que a miscigenação teria abarcado todas as relações sociais e íntimas. A acomodação dos opostos nas formas mais próximas de relação que se estabeleciam na Casa Grande. E eis aí uma das teses mais interessantes e controversas de Gilberto Freire: este encontro que antes de ser separação era concertação, afeto. Contribuição da cultura africana ao Brasil “amolengando” os conflitos nas formas de apadrinhamento e miscigenação populacional.

Mas nossa construção imagética sobre um país sem racistas nos apresenta com muita frequência imagens que fundem cor e violência. Joel Zito trabalha esta ideia em seu livro e depois documentário, A negação de negro na telenovela. Mas qual a importância das imagens?

Quem já pisou em um museu com quadros africanos ou instrumentos de tortura usados na escravidão deve ter recebido imediatamente um tipo de estímulo. De pavor, dor, lamento ou raiva. Quase todos que leem este texto devem ter crescido com as representações de corpos negros sujeitos a condição do escravo ou do subalterno, ladrão, alcóolatra, boêmio, sensual, mutilado física ou psicologicamente.

Antônio Sérgio Guimarães ao discutir classe e raça, no livro Classes, Raças e Democracia, observa que no Brasil se tivemos certa dificuldade no tratamento de nossa condição de operário, conhecemos desde sempre o tratamento dispensado aos escravizados. E minha interpretação seria de que esta lembrança nos diz algo sobre continuidades históricas (o pensamento social brasileiro sempre nos lembra de nossa ausência de um processo revolucionário ( e isto merece um texto único ).

Seguindo este raciocínio não é  estranha a afirmação da existência  desta longa duração do tratamento dispensado aos descendentes de escravos quando observamos o tratamento dispensado aos moradores de favela “quase todos pretos, ou quase pretos de tão pobres”. Seguimos um debate sobre classe e raça que tem rendido importantes contribuições teóricas. E possibilitado que se avance na política de ações afirmativas, por exemplo

Durante a pesquisa nas favelas da Maré era preciso combinar um dia para poder entrar no território. Crianças sem aula por 42 dias, pessoas buscando medicação e calmantes para sobreviver à experiência do “caveirão do ar” aterrorizando moradores  frequentemente, pessoas diariamente acossadas pelas forças policiais. Com medo contínuo e aquisição de trauma coletivo semelhante a populações expostas à guerra.

Os dados apresentados sobre aceitação da operação , dizem muitas coisas. Embora façam parte de um momento dramático e de alta pressão emocional, no passado recente já houve aceitação do uso de blindados, de outras operações como a do Jacarezinho. Trago uma única variável: a cor de quem é executado. E devemos observar ainda os casos de execuções com sinais de tortura. Seria errado dizer que é isto que a população fluminense está aprovando? Execuções com sinais de tortura de pessoas que sequer foram identificadas?

Mas gostaria de estabelecer aqui uma questão sobre metodologia de pesquisa (é o que fazemos, é o nosso ofício e isto não desqualifica pesquisadores em segurança pública). As pesquisas que sempre buscam seu grau de cientificidade em bases quantitativas sempre me lembram da limitação desta técnica. Especialmente com determinados grupos. Entre eles, os moradores de favela. Vamos fazer um exercício fácil. Mudar as questões e pensar em outros resultados. Se você perguntasse sobre o grau de confiança na polícia aos mesmos grupos pesquisados no dia 10 de outubro? Se você perguntasse sobre tapas na cara e outras formas de humilhação ? Se antes da operação, você perguntasse o que acham do governador ? E qual o peso das respostas de católicos e evangélicos ? E se você morasse em área de milícia, poderia responder o que pensa ? Já fiz entrevistas em favelas nas quais a pessoa só respondia com a cabeça porque ela sabia exatamente onde estavam as facções durante a UPP. Conclusão: você pode usar a estatística para obter resultados diferentes com o mesmo grupo. Depende de quando, como e o quê deseja obter como resposta.

Existem aqueles que se indignam com a injustiça representada pelas 121 mortes até aqui. E em minha trajetória como pesquisadora eu estaria neste grupo. Mas ao seguir metodologicamente o exercício de permanecer dentro das favelas e seguir cotidianamente aprofundando os diálogos, passei da relação formal de pesquisadora  à experiência de imersão cotidiana junto aos moradores. Então tenho meus afetos a defendo que esta não é a variável que diminui nossa objetividade no fazer científico. A postura que exigiram de minha geração sempre retomava o afastamento como técnica de pesquisa para que não fosse perdida a objetividade. Os moradores de favela que entram na Universidade e que pretendo formar não serão menos capazes de manter a objetividade. Seria impossível aceitar que além de corpos estraçalhados, este exercício de manutenção da objetividade nos demandasse esquecer cada luta desde o Brasil Colônia. Que não foi outra coisa se não uma luta contra o extermínio que segue historicamente o mesmo modus operandi.

Nosso sentimento, daqueles que estão lá, têm parentes, temem pela vida de policiais expostos a estes eventos passa por tristeza, indignação. Mas não perco a objetividade quando observo os olhos de uma mãe cujo filho foi desaparecido pelo Estado. Eu ouvi mais de 30 mulheres, ouvi longamente suas histórias de vida. E muito do que tinham em comum, era comum às suas mães e avós. Um século de subemprego, um século de ausência de direitos, um século de mortes.

Esta condição vergonhosa é nosso legado, nossa face global.  Nossa estatística diária de execuções e torturas. E acredito que ao fazer o registro deste cotidiano, ao ouvir estas histórias de vida, não deixamos de fazer uma ciência relevante. Que nunca permita o esquecimento da história. E que faça justiça aos mortos pelo Estado.


Luciane Soares da Silva é professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Governo Castro desdenhou parecer técnico do TCE e colocou +R$ 1 bilhão no Banco Master

Governador diz que recuperação fiscal do Rio está bem encaminhada | Agência  Brasil

Há algum tempo sabe-se que o Banco Master se equilibrava em meio a um mar de dificuldades criadas pela gestão imprudente (e agora se sabe criminosa) de grandes somas de recursos de um número ainda desconhecido de investidores.  Apesar da situação calamitosa em que se encontrava, o governador Cláudio Castro e sua equipe decidiram colocar no Master algo em torno de R$ 1 bilhão de recursos do fundo próprio de previdência dos servidores públicos estaduais do Rio de Janeiro, o RioPrevidência.

E é importante frisar que isso foi feito à revelia de pareceres técnicos emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/RJ) que apontavam para “graves irregularidades no processo de alocação de recursos do Rioprevidência” em letras financeiras do Master”. Apesar disso,  de acordo com os pareceres dos técnicos do TCE/RJ,  o volume de aportes entre 2024 e 2025 no grupo do Banco Master atingiu R$ 2,6 bilhões – de acordo com o TCE, o correspondente  a mais de 25% de todos os recursos aplicados pelo RioPrevidência.

Agora que a barca do Banco Master afundou fica provado que os técnicos do TCE/RJ estavam cobertos de razão em apontar para os problemas cercando os investimentos de recursos do RioPrevidência em uma instituição financeira que já exalava um forte cheiro de que iria ter um destino inglório.

Como objetivamente estamos diante de uma ação com graves e prolongados prejuízos para o RioPrevidência, ameaçando sim o pagamento de pensões e aposentadorias dos servidores públicos estaduais, há que se demandar que os culpados por essa alocação bilionária de recursos no Master sejam todos identificados e exemplarmente punidos dentro dos rigores da lei.

E agora vamos ver como se vira o governador Cláudio Castro sobre quem repousa a maior responsabilidade, já que é o chefe do executivo estadual, de ter colocado um dinheiro que pertence aos servidores públicos estaduais em uma instituição que colapsou.

As reinações de Cláudio Castro: em uma dia “uma megaoperação”, no outro a “bot farm” entra em ação para legitimar a matança

Cláudio Castro se tornou um símbolo da guerra híbrida: o cantor católico transformado em governador acidental, agora nada em um mar de sangue, enquanto número de seguidores nas redes sociais sobe exponencialmente

A suposta “megaoperação policial” determinada pelo governador Cláudio Castro ganha ares de outro tipo de guerra, a híbrida, ao se ver a mídia corporativa propalanda acriticamente a informação de que o ex-cantor católico amealhou o impressionante número de 1 milhão de novos seguidores enquanto a população empilhava os corpos dos mortos pelas forças policiais que ele enviou para os complexos de favelas da Penha e do Alemão.

A primeira coisa que me ocorreu foi uma reportagem que eu acabei de ver sobre as chamadas “bot farms” (ou grosseiramente traduzidas como “fazendas de cliques”) que na prática são redes organizadas que utilizam grandes quantidades de contas automatizadas (bots) e, por vezes, até mesmo dispositivos físicos como celulares, para manipular a percepção online e simular um comportamento humano e engajamento falsos em larga escala. A Thales relata que, em 2024, o tráfego automatizado de bots representou 51% de todo o tráfego da web , a primeira vez em uma década que ultrapassou a atividade humana online.

Fazenda de Bots controlada por IA.

Quem estuda as bot farms já detectou que a operação delas se baseiam em: a) automação onde são Utilizados softwares programados para executar tarefas repetitivas automaticamente, imitando ações humanas como clicar, seguir, curtir, comentar e visualizar conteúdo; b) uso de infraestrutura física que milhares de dispositivos móveis (como celulares empilhados em racks) para executar as tarefas, tornando mais difícil para os sistemas de detecção identificarem as atividades como não-humanas, e c) na criação de contas falsas que gerenciam inúmeras contas em plataformas de redes sociais, lojas de aplicativos, sites de streaming e e-commerce. Também é sabido que as bot farms contribuem para a degradação do ambiente digital, tornando difícil distinguir entre engajamento real e artificial, o que prejudica a confiança nas informações e plataformas online.

O que nem sempre é dito é que as bot farms são operadas por todas as forças políticas, e estudos de instituições como a Universidade de Oxford e a Freedom House indicam que o uso de bots e “ciber-tropas” é prevalente tanto por governos e partidos de direita quanto de esquerda, dependendo do país e do momento político. Assim, em princípio, esta ferramenta é ideologicamente neutra; o que varia é quem a emprega para atingir seus objetivos. Mas é mais prevalente por aquelas forças que possuem recursos financeiros poderosos e que utilizam as farm bots para controlar a narrativa pública, silenciar a dissidência e solidificar o apoio ao poder estabelecido.

Um caso que tornou o Brasil um país notório pelo uso das bot farms foi a operação massiva pela forças de extrema-direita durante as eleições gerais de 2018, onde foi notório que redes de bots foram usados para realizar disparos em massa de mensagens via WhatsApp para influenciar o debate público e disseminar desinformação. 

Há ainda que se dizer que a mídia corporativa ao propalar certas versões da realidade são grandes alimentadoras das bot farms, na medida em que elas não apenas reproduzem os conteúdos disseminados pela mídia, mas como também orientam a produção de mais conteúdo, em uma espécie de retroalimentação de versões falsas da realidade (ou seja há uma combinação/parceria entre a mídia corporativa e operadores das bot farms para orientar a percepção de realidade entre pessoas reais).

É nesse contexto de cooperação que a mídia corporativa legitima de forma inquestionada e acrítica, a informação de que Cláudio Castro amealhou 1 milhão de novos seguidores poucos dias após a “megaoperação” nos complexos de favelas do Alemão e da Penha. Simples, mas tragicamente óbvio.

What Are Bot Farms & How Do They Work? | Anura

O que também me parece óbvio é que em 2026, a bot farms vão estar funcionando a todo vapor, e que será inútil tentar vencer o combate político nas redes sociais. Se as forças de esquerda desejarem ter alguma chance, elas terão que gastar muita sola de sapato. É que nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, a extrema-direita reinará soberana por causa dos investimentos que já estão sendo feitos para favorecê-las, incluindo a grana que virá de outros países.

Onde está Wally? Por que Rodrigo Bacellar está em silêncio em hora tão urgente?

Onde está o Wally? Tente achar o personagem em um belo vídeo em 360 graus |  Entretenimento

Por Douglas Barreto da Mata

Gostemos ou não da política de segurança pública de Cláudio  Castro, o fato é que o governador do estado do Rio de Janeiro assumiu a narrativa sobre o combate ao crime. Repito, não faço (agora) um juízo de valor sobre os eventos dessa semana, mas é impossível ficar impassível aos efeitos deles sobre nossas vidas e, claro, sobre o jogo político.

Muita gente argumenta que as preparações e engenharias da operação nos complexos da Penha e do Alemão tiveram suas origens nos gabinetes da administração Trump. Outros defendem que o timing teve como alvo diluir os bons momentos da diplomacia lulista nos EUA, e interromper a recente escalada da popularidade do presidente Lula, que até pouco tempo patinava no fundo do poço.

Há os que indicam o caminho mais simples, isto é, o governador que estava nas cordas, ora afundando em meio a disputas com correligionários próximos, como o presidente da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro ora acossado pela intensificação de apurações sobre empresários amigos, e enfim, ameaçado pelo calendário judiciário, que traz o desfecho sobre sua permanência (ou não) no cargo.

Uma operação dessa magnitude e carga dramática tem os ingredientes para criar campos políticos, que passam a ser definidos por limites mais  emocionais e simbólicos, reduzindo conceitos complicados  a percepções como “vagabundos”, “bandidos”, “mocinhos”, “bem”, “mal”, guerra, terrorismo, heróis, mártires, etc.

Esses são os campos preferidos da direita, e tais esferas estavam sendo soterradas pelo conjunto de notícias e imagens ruins da direita, desde as chantagens tarifárias pedidas a Trump como resgate pela família Bolsonaro, para forçar uma anistia ao patriarca, passando pela associação do deputado TH às facções criminosas, e, como dissemos, os ecos da investida da PF na Faria Lima, que surpreendeu gente graúda ligada a vários governos e figuras da direita.

Para recuperar terreno, era preciso fazer barulho. Claúdio Castro entendeu e foi à guerra. Desenterrou vários pontos de uma vez, que estavam dormindo. Aumento de autonomia dos estados, a definição de tráfico como terrorismo, discussão dos limites impostos pelo Supremo Tribunal Federal, dentre outros.

Mas por que Rodrigo Bacellar tem sido econômico em gestos e palavras, uma vez que ele é partidário das teses que o governador colocou em prática? Não seria exagero dizer que se a carreira política de Rodrigo Bacellar estava moribunda, os disparos no Alemão e na Penha a atingiram em cheio, e pelas costas.

Se Rodrigo Bacellar ainda tinha esperança de se movimentar dentro da inércia do governador, inclusive disparando munição pesada contra a Polícia Militar, após um arrastão em Copacabana, a ação das polícias estaduais nestes últimos dias encurralou o deputado.

Cláudio Castro viu sua conta em rede social aumentar em mais de 1 milhão, a operação recebeu apoio de 70% de pesquisados, governadores de direita dos maiores estados da federação vieram ao encontro de Cláudio Castro e pior, o governo federal reagiu com a incapacidade de sempre, e ficou no meio do caminho: primeiro, criticou, e depois, quando viu a tsunami de apoio, resolveu embarcar na repercussão, mas não deu, e ficaram com cara de cachorro que caiu da mudança.  O mesmo aconteceu com Rodrigo Bacellar, por motivos distintos.

Ele se colocou contra um governo que ele não sabia que ia agir desse jeito. Agora, ficou sem a agenda da segurança pública, não porque seja contrário a ela, porém, ele é contrário ao seu principal executor.

Por tudo isso, Cláudio Castro é o dono da bola, e Rodrigo Bacellar não sabe o que fazer, e por isso, se esconde, como Wally.

Em defesa do PCV, professores da Uenf decidem entrar em estado de greve para pressionar governo do RJ

Após esperarem por mais de 4 anos a implementação do seu novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV), os professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) decidiram em uma assembléia representativa, e por ampla maioria, se colocar em estado de greve a partir de hoje (29/10).

Além de se colocar em estado objetivo de preparação para uma greve geral caso o governador Cláudio Castro não envie o novo PCV da Uenf para ser apreciado pela Alerj no mês de novembro, os professores decidiram ainda formar um Comando de Mobilização, o qual será responsável por organizar atos e mobilizações em defesa da universidade pública e do respeito aos servidores.

Como primeira atividade desse estágio pré-greve, os professores decidiram que irão estar presentes na Alerj no dia 3 de novembro para a audiência pública que será realizada para analisar os impactos da Reforma Administrativa sobre os servidores públicos estaduais,  a qual também deverá atingir todos os servidores da Uenf.

A assembléia de hoje foi a maior desde o encerramento da greve geral dos professores que ocorreu em 2017 quando os salários deixaram de ser pagos pelo governador Luiz Fernando Pezão.