Nota de Repúdio do Núcleo Cidade Cultura e Conflito contra a Megaoperação realizada por Cláudio Castro no RJ

Megaoperação deixa corpos enfileirados no Rio; força-tarefa é anunciada

O Núcleo Cidade, Cultura e Conflito da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro expressa absoluta indignação com a operação Contenção. Até agora o número de mortes de civis e policiais chega a 121 e não deixa dúvidas sobre como qualificar esta ação do Governo Cláudio Castro: cruel, desastrosa, criminosa. Cruel ao ceifar a vida de inocentes, desastrosa porque não há argumentos para justificar o número de mortos e o caos instaurada no Estado (a operação impacta outras cidades além do Rio de Janeiro). Criminosa ao descumprir a ADPF das Favelas.

Seguimos afirmando que Castro bate recordes de uso intensivo da força policial de forma irresponsável, expondo aqueles que ele deveria proteger à uma condição desigual de enfrentamento. São as mesmas favelas em que outras dezenas de vidas foram perdidas em anos anteriores, em ações semelhantes.

Concordamos com as avaliações sobre os interesses do atual governador, que sempre tratou mal os servidores. Mirando 2026, ele pretende ser um candidato viável para o campo da extrema direita.  Consideramos após análises nos territórios dominados pelo tráfico e a milícia no Rio de Janeiro, que o combate às facções do Comando Vermelho é uma cortina de fumaça e uma janela midiática. A fragilidade de nossa democracia foi escancarada pelo golpe tentado logo após as eleições de 2022 e não há engano: vemos demonstrações de apoio a execuções sumárias, mesmo quando concluída que a vítima não possuía nenhuma relação com atividades ilegais.

Devemos lembrar que a execução não é uma das atribuições da Polícia Militar. Mas este foi o modus operandi da ação que abalou o país como a mais letal até então, sob o governo Castro. É preocupante que se pense em termos de uma guerra. Pois não estamos em uma guerra. Estamos vendo a população sofrer um ataque contínuo com as operações que se tornaram rotineiras na Maré e em outras favelas. Seria possível afirmar que ainda estamos sob um Estado de Direito?

Defendemos que uma polícia cidadã deve ter melhores salários, melhores condições de trabalho e conquistar o respeito da população, o que contribuiria para a diminuição da corrupção policial. Para termos um Estado democrático, precisamos que nossos servidores tenham condições de fazer bem o seu trabalho. E na área de Segurança Pública não é diferente

À todos os moradores enlutados, nossa solidariedade.

E, mesmo tardia, que seja feita justiça aos mortos, considerando que todos eles deveriam ser julgados e se concluída a responsabilidade pelas ações à eles imputadas, condenados dentro dos preceitos defendidos pela Constituição da República Federativa do Brasil.

Campos dos Goytacazes, 30 de outubro de 2025. 

Núcleo Cidade, Cultura e Conflito

As andanças da reitora da Uenf mostram bússula quebrada: a curiosa troca de uma ida ao Palácio Guanabara por uma reunião com petistas em Brasília

A imagem abaixo sintetiza bem a situação de bússola quebrada que impera já faz algum momento na reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), pois mostra uma reunião que teria ocorrido entre a reitora Rosana Rodrigues, o reitor do IFF Jeferson Manhães e o deputado federal do PT/RJ, o paraibano Lindbergh Farias.

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O problema é que ao contrário do IFF que sim é uma instituição de ensino federal, a Uenf é uma universidade estadual que recebe parte significativa das verbas que necessita para funcionar do cofres estaduais do Rio de Janeiro cuja caneta repousa na mão do governador Cláudio Castro. Assim, ao ir até Brasília para sabe-se lá fazer o que, Rosana Rodrigues está longe do endereço que realmente interessa em questões cruciais que é o Palácio da Guanabara, localizado na Avenida Pinheiro Machado S/N no charmoso bairro de Laranjeiras na capital fluminense.

Um exemplo de algo que é de crucial importância para a Uenf é retirar da dormência o novo Plano de Cargos e Vencimentos que se encontra firmemente depositado no Palácio Guanabara e não em gabinetes de deputados federais em Brasília.

Além disso, ao voar para Brasília em vez pegar a BR-101 na direção da capital fluminense, a reitora da Uenf ainda se coloca em uma situação curiosa que é de servir de escada para um encontro entre petistas que estariam articulando uma vinda do presidente Lula a Campos dos Goytacazes para apoiar a chapa do PT às eleições municipais deste ano que potencialmente colocará juntos a deputada estadual Carla Machado e o reitor do IFF, Jefferson Manhães.  Como desconheço a filiação da reitora da Uenf ao PT, ela me lembra aquele personagem daquela música dos Paralamas do Sucesso, a “Melô do Marinheiro” (ver abaixo).

O pior que ao visitar e se deixar fotografar ao lado de Lindbergh Farias, Rosana Rodrigues certamente diminuiu a vontade (já muito pequena) de Cláudio Castro de recebê-la para discutir a implantação do novo PCV da Uenf.

Governo Castro retira disciplinas chaves e as substitui por bizarrices na rede estadual

A imposição do NEM reduz drasticamente as chances de acesso dos  estudantes pobres às universidades públicas

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Uma das grandes expectativas que acompanharam a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao seu terceiro mandato na presidência da república era que ele anularia o horroso “Novo Ensino Médio” (NEM)imposto pelo governo de facto de Michel Temer. Mas até agora, Lula e o seu ministro da Educação, Camilo Santana (PT/CE), não mostraram a real disposição de anular a reforma do ensino médio que veio na esteira do golpe parlamentar de 2016.

Um dos maiores problemas do NEM é que ele criou uma separação concreta entre o que pode ser oferecido no ensino médio que é uma espécie de antessala da entrada nas universidades. Enquanto as escolas de ensino privada continuam ofertando disciplinas estruturantes como Física, Química, Biologia, Geografia, História e Filosofia, na rede pública elas desaparecem no terceiro ano e são substituídas por puras bizarrices sob a desculpa de oferecer mais espaço para a escolha dos estudantes. Aí aparecem coisas como  “Corpo e mente saudáveis”, “Projeto de vida”, “Tempo, Espaço e Movimento” e “Direito à Saúde” surgem para preencher tempos que poderiam e deveriam estar sendo usados com as disciplinas chaves que continuarão sendo oferecidas nas escolas privadas.

O que essa diferença faz é desprover que estudantes da rede pública concluam o ensino médio em pé de igualdade em termos de acesso a conteúdos que serão demandados nas provas do ENEM que definem atualmente se alguém acessará ou não as melhores universidades brasileiras. Na prática, ocorre a criação de um processo de profunda desigualdade em termos de formação que ameaça gravemente o direito dos pobres (imensa maioria dos que usam a rede de ensino pública) em acessar cursos de ensino superior.

Assim, o fato de que o NEM está sendo imposto a todo vapor pelo governo de Cláudio Castro na rs escolas da rede pública estadual deveria gerar alarde e preocupação entre estudantes, professores e gestores das universidades públicas. A mídia corporativa campista até abriu espaço para noticiar esse problema, oferecendo a oportunidade para as universidades públicas locais usarem o início do primeiro semestre letivo de 2024 para abordar as graves distorções que o NEM está gerando para os estudantes mais pobres.

O curioso, para não dizer outra coisa, é que na recepção aos calouros que está sendo promovida pela reitoria da Uenf ao longo da semana que se inicia, não há qualquer evento relacionado à necessária discussão sobre a imperiosa necessidade de se revogar urgentemente o NEM em nome do oferecimento de um ensino de qualidade aos pobres. Pelo contrário, quem vê a programação oficial da UENF vai ficar achando que o NEM nem existe, e que existem outras coisas mais importantes para “desenrolar” e se “orgulhar”.  O governo Castro agradece!

Servidores-fantasmas da Fundação Ceperj e Uerj voltam a assombrar Cláudio Castro e aliados próximos

Uma curiosidade que eu tinha até a tarde desta 3a. feira (14/12) era como o governador acidental Cláudio Castro havia conseguido passar incólume pelas fartas evidências de que sua campanha usufruiu de recursos públicos via o emprego de servidores fantasmas na Fundação Ceperj e Uerj. 

Bom, o que tudo indica é que Cláudio Castro e vários de seus companheiros de governo e campanha eleitoral não passaram tão incólumes quansto eu pensava. É que hoje o Ministério Público Eleitoral denunciou a chapa formada por Claúdio e Thiago Pampolha de abuso de poder econômico e político por causa do esquema de pagamento na boca do caixa que foi inicialmente revelado por matérias escritas pela dupla Ruben Berta e Igor Mello, as quais foram publicadas pelo portal UOL.

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Segundo a denúncia oferecido pelo MP Eleitoral, Cláudio Castro teria utilizado de desvios na Fundação Ceperj que aconteciam por meio de projetos como Esporte Presente, Casa do Trabalhador, RJ para Todos e Cultura para Todos; e na Uerj, por projetos como o Observatório Social da Operação Segurança Presente.

A coisa fica ainda mais grave quando se vê que além de Cláudio Castro e Thiago Pampolha, vários outros membros da entourage mais próxima do governador acidental também estão sendo acusados (ver lista completa logo abaixo).

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Em condições normais, essa denúncia teria pouca chance de prosperar, mas como não vivemos condições normais no Brasi ou, tampouco, no Rio de Janeiro, estamos diante de um momento de completa indefinição. Como as provas amealhadas pelo Ministério Público Eleitoral têm tudo para serem robustos, pois bastaria aos procuradores compilarem as reportagen de Berta e Mello para terem muitos fatos concretos para montar sua peça, os próximos dias deverão ser de tensão absoluta no Palácio Guanabara.

Mas cá entre nós, o fato de que a campanha eleitoral para o governo do Rio de Janeiro foi claramente repleto de curiosidades já é conhecido da maioria dos cidadãos que habitam o território fluminense, inclusive os que votaram em na dupla Castro/Pampolha. Eu particularmente achava que Cláudio Castro seria assombrado pelos fantasminhas que foram plantados na Fundação Ceperj e na Uerj após tomar posse em janeiro de 2023. Entretanto, o assombro ocorreu antes, uma prova que no Rio de Janeiro pode-se morrer de tudo, menos de tédio.

Aumenta pressão no escândalo dos cargos secretos do governo Castro: Alerj quer que TCE audite programas de outros órgãos estaduais

Deputados pedem apuração em programas da Uerj, do DER e secretarias como a de Educação

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A Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio (Ceperj), em Botafogo Domingos Peixoto/O GLOBO

Por Rafael Galdo para “O Globo”

A Comissão de Tributação da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) aprovou nesta quinta-feira um pedido que será enviado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) para que sejam auditados e investigados mais de 21 programas de órgãos do governo fluminense devido a indicativos de irregularidades, parte delas nos moldes das suspeitas que recaem sobre o Ceperj, fundação que está na mira do Ministério Público do Rio. O ofício cita projetos ligados às secretarias de Educação, de Infraestrutura e de Cidades, além da Universidade do Estado do Rio (Uerj) e do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ).

De acordo com o presidente da comissão, o deputado estadual Luiz Paulo (PSD), as irregularidades podem caracterizar improbidade administrativa e crime eleitoral.

— Neste momento, muitas coisas podem estar envolvidas: a improbidade administrativa, o crime eleitoral. Muitas hipóteses podem ser aventadas. Então, é necessário que não misture o joio com o trigo — disse o deputado.

O texto do ofício pede, por exemplo, que as apurações se debrucem sobre projetos contratados à Uerj pelo Poder Executivo em parcerias com secretarias e fundações, que tenham levado à “contratação de pessoas externas, ou não, ao serviço público, sem transparência”. Nesse âmbito, são citados programas como o Observatório Social da Uerj da Operação Segurança Presente e o Casa da Gente, que desenvolve trabalhos voltados à habitação de interesse social.

O TCE já tem aprovada uma auditoria especial em todos os projetos do Ceperj em conjunto com outros órgãos, além de uma auditoria específica sobre o programa Esporte Presente. Sobre essas iniciativas, uma ação civil pública do MPRJ aponta a contratação de mão de obra externa ao governo, sem transparência, com mais de R$ 226 milhões em saques na “boca do caixa” realizados por pessoas físicas por meio de ordens de pagamento bancário da fundação.

Além do ofício que a Comissão de Tributação enviará ao TCE, em outra frente, o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Educação da Alerj, enviou à reitoria da Uerj na última quarta-feira uma requerimento de informação sobre a “íntegra dos processos, incluindo os nomes de todos os participantes com a discriminação de cargo exercido, remuneração e local de lotação, referentes à todos os contratos celebrados entre a UERJ e qualquer outro órgão do estado do Rio, ou terceiros, que envolvam contratação de pessoal externo ao serviço público estadual e o pagamento de valores adicionais a colaboradores de Secretarias Estaduais como por exemplo, no projeto Observatório Social do Segurança Presente, no projeto Mulheres Apoiando a Educação, dentre todos os demais”. Um segundo requerimento, esse endereçado à Secretaria estadual de Educação, pede os processos referentes aos contratos celebrados entre a pasta e a Uerj, bem como entre a secretaria e o Ceperj.

Sobre o ofício que será enviado pela Comissão de Tributação ao TCE, o governo informou que ainda não foi notificado. “Mas o Estado tem total interesse em dar transparência, apurar os fatos e prestar todas as informações necessárias”, diz em nota.


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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “O Globo” [Aqui].

Na surdina, Cláudio Castro, o governador por acaso do RJ, decreta a militarização da rede Faetec

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Em uma materialização do velho adágio que diz que “de onde nada se espera é que não sai nada mesmo”, o governador acidental do Rio de Janeiro decidiu decretar a militarização da rede de ensino técnico, ao impor via o  DECRETO Nº 48.003 DE 23 DE MARÇO DE 2022, que em um período de 90 dias a criação ” das Escolas Técnicas Cívico-Militares do Estado do Rio de Janeiro” (ver imagem abaixo).

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Para traduzir em miúdos o que Cláudio Castro (um ilustre desconhecido transformado em governador pela derrubada do governador Wilson Witzel) está tentando fazer, basta pensar em unidades escolares centenárias como o Instituto Superior de Educação Professor Aldo Muylaert (ISEPAM) em Campos dos Goytacazes ou o Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro na capital do estado tendo que repentinamente abandonar suas trajetórias históricas para se transformarem objetivamente em unidades de reprodução de uma ideologia militarizada de educação, preparando assim uma geração de futuros mestres que serão formados sob o peso dos coturnos militares.

Que Cláudio Castro vinha fazendo movimentos para apelar para os setores mais ligados ao presidente Jair Bolsonaro, isto já estava claro em suas muitas viagens a redutos bolsonaristas onde tentou, e continua tentando, chamar para si um capital eleitoral que nunca teve. Mas, convenhamos, a militarização da rede Faetec é um pouco demais até para um estado que se acostumou a viver em um ambiente político completamente degradado.

Obviamente existirão aqueles que saudarão a chegada dos comandantes militares nas escolas técnicas do Rio de Janeiro.  Para estes há uma ilusão de que o problema da nossa juventude não é falta de horizontes profissionais, mas de disciplina e códigos firmes de conduta. Entretanto, eu presumo que mesmo dentro do comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro haverá quem ache que este é um tremendo presente de grego (lembrando o Cavalo de Tróia), na medida em que a realidade das escolas técnicas é altamente complexa, e marcada pelo abandono e escassez de recursos. Isto sem falar na complexidade dos processos formativos que ocorrem na rede Faetec, nenhum deles afeitos à disciplina militar.

Um dos maiores problemas que eu vejo na concepção de que militarização é sinônimo de melhoria do quer que seja no âmbito escolar é que tal sistema não é proposto para as escolas particulares, especialmente naquelas em que estudam os filhos das elites.  A verdade é que nas escolas destinadas aos filhos das classes dirigentes o receituário seguirá modelos mais ligados aos conceitos formulados por Paulo Freire que são voltados para a construção de formas libertárias de pensamento, enquanto para os estudantes oriundos da classe trabalhadora se aplicará regras do adestramento militar, destinando-os a obedecer sem pensar.

A verdade inescapável é que esse decreto não pode ser tolerado, aperfeiçoado nem minimizado pelo impacto que criará na formação técnica e no desenvolvimento da juventude pobre do Rio de Janeiro. Esse decreto tem que ser contestado em todos os níveis para que chegue muito rapidamente a uma lata de lixo, único lugar que um instrumento tão regressivo e tão antagônico ao direito de uma escola pública de qualidade, democrática e inclusiva.

E que nas próximas eleições se trabalhe muito para retornar Cláudio Castro à obscuridade da qual ele nunca deveria ter saído. Simples assim!