O tombamento da Usina Cambahyba pela Alerj é apenas o primeiro passo para a preservação da memória histórica

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O ex-delegado Cláudio Guerra mostrando como os corpos de oposicionistas ao regime militar de 1964  eram incinerados nos fornos da Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes 

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou ontem o Projeto de Lei 2360/2023 que “dispõe sobre o tombamento, por interesse histórico do estado do Rio de Janeiro, do parque industrial situado na Companhia Usina Cambahyba e dá outras providências”, de autoria, dentre outros, da deputa Marina do MST (PT) e do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil).

Essa aprovação é apenas o primeiro passo para um esforço de preservação da memória histórica em relação aos crimes ali cometidos durante o período do regime de 1964 que teriam incluído a incineração ilegal dos corpos de militantes de esquerda que faziam oposição armada ou não ao governo militar instalado com o golpe contra o presidente João Goulart.

Os crimes ocorridos na Usina Cambahyha foram descritos com riqueza de detalhes no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, publicado em 2012,   a partir do trabalho de dois jornalistas, Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que, ao colherem o depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra.

Curiosamente no período de lançamento do “Memórias da Guerra Suja” houve em Campos dos Goytacazes todo um esforço para negar os detalhes descritos por Cláudio Guerra sobre o uso dos fornos da Usina Cambahyba para incinerar os corpos de oposicionistas do regime militar.  Agora, com esse tombamento, há um reconhecimento de que os crimes que Guerra confessou ter cometido enquanto era delegado do temido DOPS realmente ocorreram, justificando assim o tombamento dos prédios que ainda restam de pé na Usina Cambahyba.

Importante lembrar que as terras no entorno da usina foram desapropriadas pelo governo federal para a criação de um assentamento de reforma agrária que deverá o nome de Cícero Guedes, liderança do MST que foi assassinada no dia 26 de janeiro de 2013 enquanto apoiava a luta de acampados no terreno da Cambahyba.

Memorial Cambahyba: os fornos da morte viram marco contra a ditadura, 60 anos depois

Com caravana do Estado, ato na “Usina da Morte”, em Campos dos Goytacazes (RJ), vai mostrar à sociedade horrores da ditadura

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Por Roberto Junquilho para o “Século Diário”

Um ato de alcance nacional, nesta quarta-feira (6), nos fornos da extinta usina de cana-de-açúcar Cambahyba, a “Usina da Morte”, em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, será o início da longa caminhada até Juiz de Fora, Minas Gerais, para relembrar os 60 anos do golpe de 1964, “para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Os fornos, onde o delegado Cláudio Guerra, da Polícia Civil do Espírito Santo, cremava corpos das vítimas, nos anos 70, será o ponto inicial de várias manifestações até a data dos 60 anos do regime, em 1º de abril de 2024.

A área da extinta usina será destinada para a reforma agrária, formalizada como assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O local abriga sete fazendas em 3,5 mil hectares e é objeto de disputa há vários anos. Em 2012, foi considerada improdutiva pela Justiça. Em 2021, desapropriada e destinada ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e, em junho do mesmo ano, ocupada por cerca de 300 famílias do MST, no local conhecido como um dos centro de violência da ditadura militar no Rio.  

O parque industrial, hoje desativado e situado em área do MST, no ato será transformado em símbolo contra os crimes da ditadura, em evento com fortes ligações com o Espírito Santo, por meio do livro Memórias de uma guerra suja. No texto, a revelação dos horrores cometidos pelo delegado, usado pela ditadura nos anos 70, como ele conta em depoimento aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, que resultou em investigações em torno dos crimes registrados naquele período.

No Espírito Santo, de onde sairá uma caravana de militantes políticos para a área da usina, haverá uma série de atos sobre a ditadura, entre documentários, com depoimentos de ex-presos políticos e de vítimas de tortura, lançamento de livros e exposição de fotos, concentrados no Centro Cultural Triplex Vermelho, no Centro de Vitória. Palestras em escolas, sindicatos, partidos políticos e outros espaços também fazem parte da programação.

A criação do “Memorial Cambahyba, ditadura nunca mais, memória, verdade e justiça” mobiliza o Triplex Vermelho, o Fórum Memória e Verdade, do Espírito Santo, e a centenária Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), Associação de Pós Graduandos da UFF Mariele Franco e Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG), entre várias outras entidades e partidos políticos.

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O objetivo é levar à sociedade os horrores da ditadura militar no Brasil, único país da América do Sul em que os ditadores não foram julgados e punidos. A maioria dos criminosos permanece na impunidade e, muitos deles, são homenageados com nomes em logradouros públicos e em discursos de agentes públicos da extrema direita, invariavelmente ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), admirador do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais conhecidos chefes de centros de tortura do período.

A ação no “Memorial Cambahyba” tem o apoio do Ministério dos Direitos Humanos; familiares de presos, mortos e desaparecidos políticos; centrais sindicais – CUT, CTB, MST -; partidos – PCB, PCdoB, PT, PSB, Psol -; e outros movimentos.

Os organizadores do ato afirmam que “a ocupação da Usina Cambahyba e das terras têm um sentido de preservação do espaço de memória daqueles que foram silenciados e desaparecidos no período da ditadura militar”, com a permissão da então Companhia Usina Cambahyba para utilização dos fornos para sumir com 12 corpos de presos políticos e opositores do regime. 

Foram cremados nos fornos os corpos de presos políticos, estando já identificados os de Ana Rosa Kucinski Silva (ALN), Armando Teixeira Frutuoso (PCdoB), David Capistrano (PCB), Eduardo Collier Filho (APML), Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira (APML), João Batista Rita Pereira (VPR), João Massena Melo (PCB), Joaquim Pires Cerveira (FLN), José Roman (PCB), Luiz Inácio Maranhão Filho (PCB), Thomáz Antônio da Silva Meirelles Neto (ALN) e Wilson Silva (ALN).

Comissão Nacional da Verdade

No livro Memórias de uma Guerra Suja, Claudio Guerra relata: “Minha participação na guerra contra a esquerda pode ser dividida em duas fases: a primeira foi de execução dos inimigos do regime militar. Eu era convocado e matava. Muito eficiente, passei a ter importância crescente na comunidade de informações, que organizava o combate aos comunistas”.

Na segunda fase, completa o ex-delegado, “tornei-me estrategista, braço direito dos coronéis linha-dura, ganhando prestígio e poder, participando de discussões secretas, votando pela eliminação de pessoas, planejando e liderando atentados a bomba”.

Os primeiros a serem incinerados, segundo Guerra, foram João Batista Rita Pereira, militante da VPR, e Joaquim Pires Cerveira, da FNL. Os dois haviam sido presos na Argentina trazidos para o Brasil. Guerra relata que eles tinham que sumir para não complicar ainda mais o delegado Sergio Fleury, de São Paulo. “Fizemos, então, um favor ao delegado”.


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Este texto foi originalmente publicado pelo Século Diário [Aqui!].

MPF faz acareação entre envolvidos com incineração de corpos em Campos (RJ) durante ditadura militar

A audiência será hoje (9), às 14 horas, na sede do MPF em Campos (RJ)

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O Ministério Público Federal (MPF) em Campos (RJ) põe cara a cara duas pessoas envolvidas em episódios ocorridos durante a ditadura, quando a Usina Cambaíba era usada para incinerar corpos de possíveis vítimas do regime militar. A acareação entre o ex-delegado do Departamento de Ordem e Política Social (Dops), Cláudio Guerra, e o ex-funcionário da Usina Cambaíba Erval Gomes da Silva será hoje (9) na sede do MPF em Campos (RJ), às 14 horas. 

A acareação irá instruir o procedimento investigatório criminal nº 1.30.002.000105/2012-04, instaurado para apurar fatos relativos a eventual violação de direitos humanos e incineração de corpos na Usina Cambaíba, no Município de Campos dos Goytacazes/RJ. 

Reconstituição da incineração

Em agosto deste ano, o MPF realizou uma reconstituição do episódio de incineração de corpos na usina. Para a reconstituição dos fatos, foram usados manequins. Na ocasião, o ex-delegado Cláudio Guerra indicou como os corpos eram trazidos e jogados no forno da Usina Cambaíba.

“Cláudio Guerra, apesar de colaborar, é um assassino frio e confesso. Foi braço do Regime Militar e merece pagar à justiça por suas atrocidades. A reconstituição mostrou que a queima era possível. Vamos prosseguir nas investigações”, destacou o procurador Eduardo Santos de Oliveira

As investigações sobre a incineração de corpos na usina foram abertas em maio de 2012. Na época, foi instaurado procedimento investigatório criminal para apurar declarações do ex-delegado no livro “Memórias de uma guerra suja”.

FONTE:  Assessoria de Comunicação Social/ Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro

Ururau: ex-delegado Eduardo Guerra faz reconstituição de incineração de corpos de guerrilheiros em usina de açúcar

MPF interroga Guerra e faz reconstituição de incineração em Cambaíba

Denúncia de incineração de corpos veio a tona no livro 'Memórias de uma guerra suja'

Marcelo Esqueff – Denúncia de incineração de corpos veio a tona no livro ‘Memórias de uma guerra suj
 Tristes memórias da Ditadura Militar voltaram a tona nesta terça-feira (19/08), durante depoimentos e uma reconstituição organizada pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre a a possível incineração de corpos de presos políticos que teria ocorrido em fornos da Usina Cambaíba, em Campos.

O ex-funcionário da usina, Erval Gomes da Silva, e o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dpos) do Espírito Santo e ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI), Cláudio Guerra são investigados por terem praticado queima de corpos de agentes do exército, principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A investigação teve início no ano de 2012, a partir da criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), com o objetivo de apurar graves violações de direitos humanos, que aconteceram entre os anos de 1964 e 1985, período da ditadura no país.

Na manhã desta terça-feira, uma acareação entre Erval e Cláudio estava marcada, mas por contradições em seus depoimentos, a mesma não aconteceu. “Durante os depoimentos dos dois, verificamos que havia muitos pontos contraditórios. O Erval negou qualquer tipo de envolvimento nos crimes e disse que não conhecia o ex-delegado, já o Cláudio afirmou categoricamente a queima de corpos na usina e que inclusive mantinha um vínculo de amizade com o ex-funcionário, por isso resolvemos obter provas mais concretas para depois colocarmos os dois frente à frente”, disse o procurador do MPF, Eduardo Oliveira.

No mês passado, durante depoimento, Guerra reconheceu as imagens de 19 vítimas da ditadura, onde 13 teriam sido carregadas por ele para incineração na indústria campista, e ainda disse ter sido o autor do assassinato de um deles. O ex-delegado também afirmou ter matado outras cinco ou seis pessoas.

No dia 11 deste mês, Guerra esteve em Campos, com membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV), mas o Ministério Público Federal não foi informado. Ainda de acordo com o Procurador, outras duas pessoas serão ouvidas até a próxima sexta-feira (22/08), mas que por motivos de segurança, seus nomes serão preservados. Essas testemunhas seriam ligadas ao exército e aos envolvidos nos crimes.

O procurador Eduardo Oliveira agora busca reunir provas para abrir uma Ação Civil Pública para responsabilizar Cláudio Guerra e outros envolvidos.

RECONSTITUIÇÃO

“Quando chego à usina passa um filme pela minha cabeça. Me lembro de tudo o que fiz de errado por aqui e tento me fazer de forte, mas quando chego a minha casa desabo e me arrependo de cada minuto do que fiz às pessoas”, essas foram as palavras do ex-delegado Cláudio Guerra, levado pelo Ministério Público Federal ao local em que junto a outras pessoas deu fim a diversos corpos de presos políticos.

Estavam presentes a reconstituição, viaturas da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal. Cláudio Guerra começou a explicar a dinâmica do crime, desde quando o carro em que os corpos eram levados até a usina e o momento em que as vítimas eram queimadas.

“Os corpos vinham da Casa da Morte, como era conhecido o ponto clandestino de tortura dos militares, que fica em Petrópolis. As vítimas já chegavam à cidade de Campos, torturadas e mortas, além de serem colocadas em um saco plástico antes de serem colocadas no forno”, disse o ex-delegado ressaltando que além dele, também participavam da incineração, o Erval Gomes, o Zé Crente [também ex-funcionário da usina que já é morto], além de policiais que davam suporte aos suspeitos.

A Casa da Morte era de propriedade do coronel Freddie Perdigão. Segundo o procurador, a motivação para todos estes crimes acontecerem seria o medo de donos de usinas perderem suas terras.

Para a simulação, foram usados dois manequins para representar os corpos das vítimas. De acordo com Guerra, os corpos eram levados até o forno eempurrados até o fundo. Neste momento mais combustível e lenha eram colocados para despistar os funcionários da usina.

Questionado pelo procurador se nenhum funcionário percebia a ação, o ex-delegado foi taxativo ao afirmar que todos tinham medo do grupo. “Os funcionários tinham medo de todos nós, então por mais que eles vissem ou desconfiassem dos crimes, eles não falavam por medo”, disse Guerra.

Cláudio Guerra também mencionou a conivência do dono da Usina Cambaíba e ex-vice governador do Rio de Janeiro, Heli Ribeiro Gomes, no crimes. “ O Heli só teve contato com o grupo uma vez, que foi quando em uma conversa ele autorizou o uso da usina para a incineração dos corpos, mas na época disse que não queria colocar as mãos em nada. Na época ele também recebeu um empréstimo para a usina, que nenhuma outra recebeu”, contou Guerra. A equipe do Site Ururau tentou contato com a filha de Heli, Cecília Ribeiro Gomes, mas não obteve exito até a publicação desta matéria.

Ainda durante a reconstituição, Guerra mencionou que o transporte dos corpos era realizado sempre na parte da noite, por volta das 19h, e chegavam à usina no final da noite, por volta das 23h, quando os corpos eram incinerados.

Em um dos momentos da reconstituição, Cláudio Guerra, também confessou a morte de Odilon Carlos de Souza, na década de 80, que segundo o ex-delegado morreu atingido por dois tiros.

“O Odilon também fazia parte desta prática de crimes, porém em um determinado momento começou a tomar decisões por fora do comando. Na época eu tinha uma namorada e ela foi morta, junto com a irmã atingida por mais de 14 tiros. Depois fiquei sabendo que o autor do crime seria uma pessoa conhecida, então comecei a desconfiar do Odilon, que também as conhecia e durante uma discussão, antes de uma viagem ao Rio, disparei dois tiros”, contou Guerra que disse que não sabe o que foi feito com o corpo, mas que ficou sabendo que também foi incinerado, mas não tem como confirmar.

No fim da reconstituição, o ex-delegado Cláudio Guerra, disse o que espera da Justiça. “Sei de toda a minha culpa e já confessei todo o crime que cometi. Já sei que pela lei de Deus já estou perdoado e estou fazendo minha parte para ajudar a Justiça, agora pela lei do homem, irei cumprir o que for decidido”, disse Cláudio Guerra.

LEI DA ANISTIA
No dia 29 de abril deste ano, um Projeto de Lei do Senado foi aprovado, alterando a anistia aos agentes públicos, militares ou civis que cometiam crimes de tortura, através da Lei nº 6.683/1979, que pode responsabilizar os suspeitos .

FONTE: http://www.ururau.com.br/cidades48208_MPF-interroga-Guerra-e-faz-reconstitui%C3%A7%C3%A3o-de-incinera%C3%A7%C3%A3o-em-Camba%C3%ADba-