Mudanças climáticas: o que antes parecia alarmista, agora é tratado como conservador pela comunidade científica

Muitos acreditam que limite de aquecimento, de 1,5ºC até 2100, será ultrapassado bem antes do que se esperava

cchangeEm melhor cenário, temperatura global pode subir 1,5°C em duas décadas

Por Vivian Oswald, Especial para O Globo 

Sem reconhecer fronteiras, extremos do clima varreram o planeta em setembro. O caos provocado por seus efeitos domina as primeiras páginas dos jornais mundo afora. Tragédias anunciadas, não é de hoje, como repetirão cientistas. Talvez nem eles tenham antevisto a intensidade do que estava por vir.

Com a temperatura global batendo sucessivos recordes, períodos de seca cada vez mais longos e incêndios lambendo florestas nos dois hemisférios, cresce a pressão sobre academia e governos. Acusada de alarmista não muito tempo atrás, a primeira agora é vista como conservadora por subestimar a velocidade do aquecimento e seu potencial de danos. Criticados pela falta de celeridade, os últimos são instados a correr.

Redução de danos

Dados do observatório climático europeu Copernicus (C3S) mostram que os termômetros bateram novo recorde em junho, o 13° mês consecutivo de alta. No acumulado de 12 meses encerrados em junho, a temperatura média global foi a mais elevada já registrada: 1,63°C acima da média pré-industrial de 1850-1900.

No texto “Ondas de Calor, Calor Extremo e Mudança do Clima”, a Chatham House, um dos centros de pesquisa mais prestigiosos da Europa, mostra que, dos 152 estudos de atribuição de condições meteorológicas extremas feitos por cientistas de todo o mundo nos últimos 20 anos, 141 (93%) concluíram que as alterações climáticas induzidas pelo homem intensificaram os eventos de calor extremo.

Na COP15, o mundo concordou em evitar que o aumento da temperatura global passasse de 1,5°C até 2100. Está no acordo de Paris. O que muitos dizem é que já não há como evitar a “ultrapassagem”. O somatório das metas individuais com as quais cada nação se comprometeu — as NDCs (a sigla em inglês para contribuição nacionalmente determinada) — já não fecha a conta. Ou seja, será necessário esforço ainda maior de cada um na próxima revisão das NDCs, em 2025.

No debate “Como Enfrentar o Impensável”, na Chatham House, Pascal Lamy, chair da Climate Overshoot Comission (Comissão sobre a Ultrapassagem Climática), afirmou que pouco se fala na possibilidade cada vez menos improvável da ultrapassagem. Ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), ele critica o que chama de polarização Norte-Sul. Diz que a política cria obstáculos ao debate, em especial sobre quem vai pagar a conta.

Para Michel Obersteiner, diretor do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford, existe um jogo entre os países para dizer quem se tornará carbono neutro primeiro (até segunda ordem, a meta é 2050), em vez de se pensar no que vem depois.

— Não é segredo que vamos ultrapassar. Quem vai tirar CO2 da atmosfera, quando chegar 2050, se conseguirmos ser carbono neutros de fato?

Para a secretária de Mudança do Clima do Ministério do Ambiente do Brasil, Ana Toni, ainda há tempo de fechar 2100 dentro da meta. Mas para isso, diz, as ações de mitigação têm que ser aceleradas. Afinal, não adianta ter metas sem meios de cumpri-las. Toni alerta que as governanças econômica e financeira precisam estar alinhadas aos 1,5°C.

Segundo a secretária, as NDCs definidas em Paris, se implementadas, levarão o mundo a uma temperatura entre 2°C e 2,5°C acima.

— A gente tem que primeiro aumentar as metas nas novas NDCs e acelerar a implementação. É isso que o Brasil quer com o novo Plano Clima — disse. — Na presidência da COP30, o país terá oportunidade de liderar pelo exemplo

‘Muito longe de cair’

Segundo o IPCC, o painel do clima da ONU, o aquecimento global ultrapassará a média pré-industrial em algum momento de hoje a 2040 nos seis cenários de emissões de gases de efeito estufa avaliados. O IPCC afirma que vários impactos climáticos irreversíveis ocorrerão no período de ultrapassagem. Para o climatologista Carlos Nobre, referência internacional no tema, se as temperaturas continuarem 1,5°C acima da média até 2025, como tem sido, é quase certo que teremos atingido essa temperatura muito antes do esperado.

— Estão muito longe de começar a cair. A meta indicava que não chegaríamos a 1,5°C se não reduzíssemos até 2030 e zerássemos em 2050 — explica. — Temos que cortar emissões muito mais depressa do que a COP previa e passar para a remoção do gás carbônico, com gigantesca restauração florestal dos biomas em todo o mundo. Isso é essencial para, aí sim, reduzir o risco. A temperatura vai passar de 1,5°C. Quem sabe na segunda metade desse século a gente consiga não deixar ela explodir e chegar a 3°C ou 4°C no final do século. Esse é o maior desafio que a humanidade já enfrentou.


Fonte: O Globo

Estudo mostra que por causa do avanço da degradação florestal, a Amazônia passou de sumidouro a fonte de CO2 atmosférico

amazonia-degradacaoO processo de degradação florestal por extração de madeira, garimpos e incêndios transformaram a Amazônia em uma fonte significativa de carbono atmosférico

No dia 11 de setembro de 2020, a revista Science publicou o artigo “Long-term forest degradation surpasses deforestation in the Brazilian Amazon” produzido por um grupo de pesquisadores liderados pelo professor Eraldo Matricardi do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, da qual fui dos co-autores.  Nesse trabalho, mostramos que o processo de degradação do bioma amazônico por atividades de extração de madeira e fogo havia ultrapassado a área desmatada.

source

A fumaça sobe de um incêndio ilegalmente aceso na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images

No artigo citado, adiantamos que outros pesquisadores poderiam utilizar nosso estudo para produzir estimativas sobre, por exemplo, os efeitos do avanço da degradação sobre o estoque de carbono nas florestas amazônicas.  Eis que na última 5a. feira (29/04), a revista “Nature and Climate Change” publicou um artigo intitulado “Carbon loss from forest degradation exceeds that from deforestation in the Brazilian Amazon” que parte exatamente da ideia de que a degradação florestal é um importante agente não apenas de mudança da paisagem, mas também um fator central nas alterações que estão ocorrendo nos estoques de carbono, o que altera significativamente não apenas o ciclo do carbono, mas também o clima e as taxas de biodiversidade.

O grupo liderado pelos pesquisadores Xiangming Xiao (da Universidade Estadual de Oklahoma nos EUA) e Jean-Pierre Wigneron (do INRA Nouvelle-Aquitaine da França) constatou que “a perda de área bruta de floresta foi maior em 2019 do que em 2015, possivelmente devido ao recente afrouxamento das políticas de proteção florestal‘, mas que, no entanto, “a perda líquida de  biomassa acima do solo (AGB) foi três vezes menor em 2019 do que em 2010“.  Além disso, eles também observaram que “durante o período entre 2010–2019, a Amazônia brasileira teve uma perda bruta cumulativa de 4,45 PgC contra um ganho bruto de 3,78 PgC, resultando em uma perda líquida de AGB de  0,67 PgC“. Assim, sendo “a degradação florestal (73%) contribuiu três vezes mais para a perda bruta de AGB do que o desmatamento (27%), dado que a extensão da área de degradação excede a do desmatamento (refletindo o que havíamos indicado no artigo publicado pela revista Science)”.

A consequência dessas descobertas é que o processo de degradação florestal “se tornou o maior responsável pela perda de carbono na Amazônia”, enterrando de vez a ideia de que os problemas causados pela mudança da cobertura florestal estão circunscritos ao desmatamento e, mais importante ainda, que não haverá um controle efetiva da transformação da Amazônia em fonte, em vez de sumidouro, de carbono atmosférico sem políticas públicas que contenham o acesso descontrolado a áreas que ainda estão relativamente fora da ação de grupos que agem ilegalmente para extrair madeira e riquezas minerais (como o caso dos garimpos ilegais de ouro). 

Finalmente, a confirmação de que a degradação florestal da Amazônia é hoje o elemento central para se formular políticas que a mantenham como um importante fator de controle das mudanças climáticas deverá colocar desafios particularmente incumpríveis durante a vigência do governo de Jair Bolsonaro e por causa das ações objetivas de seus ministros anti-ambiente Tereza Cristina e Ricardo Salles.