Cresce pressão para adoção de frete de emissão zero na Europa

Entidade do setor apresenta proposta para acelerar transição da frota

truck

Será lançada nesta quarta-feira (9/12) uma proposta que busca redefinir mais rapidamente o futuro do transporte rodoviário na União Europeia. A ação cobra medidas de financiamento para uma transição antecipada para caminhões com emissão zero, e pede incentivos regulatórios para a implantação de infraestrutura privada e pública para esses novos veículos – ou seja, tudo que envolve hidrogênio, veículos elétricos a bateria e sistemas rodoviários elétricos.

O documento foi elaborado pela Aliança Europeia de Caminhões Limpos (European Clean Trucking Alliance ). Ela reúne participantes-chave no setor de transporte rodoviário de mercadorias, incluindo associações de mobilidade, ONGs como Transport & Environment, e grandes empresas dos setores de transporte, manufatura e varejo. Entre os membros empresariais estão IKEA, Deutsche Post DHL Group, Anheuser-Busch InBev, Nestlé, Michelin.

A ação pressiona o bloco europeu de duas formas: em primeiro lugar buscar elevar a ambição da Estratégia de Mobilidade Sustentável e Inteligente (SSMS), que começa a ser implementada em dezembro deste ano na União Europeia. A estratégia já prevê reduzir as emissões do transporte em pelo menos 90% até 2050, em comparação com os níveis de 1990. Ao mesmo tempo, a Aliança quer sensibilizar o Conselho Europeu, e por isso a proposta foi apresentada às vésperas da reunião da entidade (10-11 de dezembro), quando será discutida uma meta mais ambiciosa de redução de emissões do bloco já para 2030.

A descarbonização do setor de frete rodoviário é crucial para que a Europa alcance suas metas de redução de emissões e a neutralidade de carbono estabelecida para 2050. Embora representem apenas 2% dos veículos rodoviários na União Europeia, os caminhões são responsáveis por 22% das emissões de CO2 do transporte rodoviário.

A Aliança argumenta que o SSMS “é a oportunidade para a Europa estabelecer um caminho claro para a descarbonização do setor de frete rodoviário”. A proposta da entidade pede medidas claras e apoio financeiro para aumentar a aceitação e a oferta de caminhões com emissão zero, dando ao setor automotivo e logístico certeza de investimento em tecnologias com emissão zero, especialmente pelo fato de que a Europa planeja uma reconstrução verde após a crise econômica da COVID-19.

Concentração de CO2 cresce em níveis recordes mesmo com COVID-19

Boletim da Organização Meteorológica Internacional afirma que redução gerada por pandemia não achata curva de emissões

global emissionsCrédito: mikaelmiettinen/Flickr, CC BY 2.0

A desaceleração industrial devido à pandemia COVID-19 não reduziu os níveis recordes de gases de efeito estufa concentrados na atmosfera e que favorecem condições climáticas extremas, afirma a Organização Meteorológica Mundial (WMO). Em coletiva de imprensa realizada hoje (23/11) em Genebra, na Suíça, os meteorologistas explicaram que houve um surto de crescimento de emissões de dióxido de carbono (CO2) em 2019 e que a concentração continuou aumentando em 2020.

As informações estão no Boletim de Gases de Efeito Estufa da WMO, que descreve a abundância atmosférica dos principais gases de efeito estufa de longa duração: dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Segundo o documento, os bloqueios impostos pelos governos para frear a transmissão do novo coronavírus em 2020 ajudaram a reduzir as emissões de muitos poluentes e gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono. Apesar disso, o impacto nas concentrações de CO2 na atmosfera (que é o acúmulo das emissões passadas e atuais) não foi percebido – na verdade houve um aumento dentro das flutuações normais do ciclo de carbono.

Segundo a WMO, com o aumento das concentrações em 2019, a média anual global ultrapassou o limiar significativo de 410 partes por milhão. Desde 1990, houve um aumento de 45% na força total de radiativos – o efeito do aquecimento sobre o clima – pelos gases de efeito estufa de longa duração, sendo o CO2 responsável por 80% desse resultado.

“Ultrapassamos o limite global de 400 partes por milhão em 2015 e apenas quatro anos depois superamos 410 ppm”, alerta o secretário-geral da WMO, professor Petteri Taalas. “Essa taxa de aumento nunca foi vista na história de nossos registros. A queda nas emissões relacionada ao bloqueio é apenas um pequeno sinal sonoro no gráfico de longo prazo. Precisamos de um achatamento sustentado da curva.”

“O dióxido de carbono permanece na atmosfera por séculos e no oceano por ainda mais tempo”, explica Taalas. “A última vez que a Terra experimentou uma concentração comparável de CO2 foi há 3-5 milhões de anos, quando a temperatura era 2-3°C mais quente e o nível do mar era 10-20 metros mais alto do que agora. Mas não havia 7,7 bilhões de habitantes.”

O professor afirma que embora a pandemia isoladamente não solucione as mudanças climáticas, ela pode servir como uma plataforma para ações de transformação completa dos sistemas industriais, energéticos e de transporte. “As mudanças necessárias são economicamente acessíveis e tecnicamente possíveis. É memorável que um número crescente de países e empresas tenha se comprometido com a neutralidade de carbono. Não há tempo a perder.”

Redução pontual

Estimativas preliminares do Projeto Carbono Global afirmam que durante o período mais intenso de quarentena em decorrência da pandemia, as emissões diárias de CO2 podem ter sido reduzidas em até 17% globalmente, devido ao confinamento da população. Como a duração e a severidade das medidas de confinamento permanecem pouco claras, a previsão da redução total anual de emissões ao longo de 2020 é muito incerta. O Projeto Carbono Global divulgará sua atualização sobre as tendências globais de carbono em dezembro.

Os dados revelados pela WMO indicam até o momento uma redução na emissão anual entre 4,2% e 7,5% em 2020. Na escala global, uma redução de emissões neste patamar não fará com que o CO2 atmosférico diminua. De acordo com o Boletim, o CO2 continuará a subir, embora a um ritmo ligeiramente reduzido (0,08-0,23 ppm por ano mais baixo), dentro da variabilidade natural interanual de 1 ppm. Isto significa que, a curto prazo, o impacto dos confinamentos COVID-19 não pode ser distinguido da variabilidade natural.

Tanto o Projeto Carbono Global como o Boletim de Gases de Efeito Estufa da WMO são baseados em medições da iniciativa Observador Global da Atmosfera (Global Atmosphere Watch ), da WMO, que inclui estações de monitoramento atmosférico em regiões polares remotas, montanhas elevadas e ilhas tropicais.

Acúmulo de gases

O dióxido de carbono é o mais importante gás de efeito estufa de longa duração relacionado às atividades humanas. Ele fica na atmosfera entre 50-200 anos depois de emitido e estima-se que contribua com cerca de dois terços da força radiativa. Segundo a WMO, o nível médio anual global de CO2 era de cerca de 410,5 partes por milhão (ppm) em 2019, contra 407,9 partes ppm em 2018, tendo ultrapassado a marca de referência de 400 partes por milhão em 2015. O aumento de CO2 de 2018 a 2019 foi maior do que o observado de 2017 a 2018 e também maior do que a média da última década.

As emissões do desmatamento, da combustão de combustíveis fósseis e da produção de cimento, entre outras atividades e mudanças no uso do solo, empurraram o CO2 atmosférico de 2019 para 148% do nível pré-industrial de 278 ppm. Durante a última década, cerca de 44% do CO2 permaneceu na atmosfera, enquanto 23% foi absorvido pelo oceano e 29% pela terra, com 4% não atribuídos.

O metano, que permanece na atmosfera por menos de uma década, mas é mais potente que o CO2 para o efeito estufa, chegou a 260% dos níveis pré-industriais em 2019 – 1.877 partes por bilhão. O aumento nas concentrações de metano de 2018 a 2019 foi ligeiramente menor do que o observado de 2017 a 2018, mas ainda maior do que a média da última década. O metano contribui com cerca de 16% da força radiativa dos gases de efeito estufa, e aproximadamente 40% desse gás é emitido por fontes naturais (como zonas úmidas e cupins), e cerca de 60% vem de fontes antropogênicas (por exemplo, criação de gado, agricultura de arroz, exploração de combustíveis fósseis, aterros sanitários e queima de biomassa). 

O óxido nitroso, que é tanto um gás de efeito estufa quanto um produto químico que empobrece a camada de ozônio, atingiu 332,0 partes por bilhão em 2019, ou 123% acima dos níveis pré-industriais. O aumento de 2018 a 2019 também foi menor que o observado de 2017 a 2018 e praticamente igual à taxa média de crescimento nos últimos 10 anos.

Vários outros gases também são apresentados no Boletim da WMO, incluindo as substâncias que empobrecem a camada de ozônio e regulamentadas sob o protocolo de Montreal.

Atores envolvidos

A Organização Meteorológica Mundial é uma agência das Nações Unidas. O Global Atmosphere Watch da WMO coordena observações sistemáticas e análises de gases de efeito estufa e outros constituintes atmosféricos. Os dados de medição de gases de efeito estufa são arquivados e distribuídos pelo Centro Mundial de Dados de Gases de Efeito Estufa (WDCGG) na Agência Meteorológica do Japão, que comemora seu 30º aniversário em 2020.

Próximos estudos

Em 9 de dezembro será divulgado um relatório separado e complementar sobre as Lacunas de Emissões (Emissions Gap). Esse levantamento compara as emissões de gases de efeito estufa atuais e estimadas para o futuro com os níveis de emissão permitidos para que o mundo alcance as metas do Acordo de Paris. A diferença entre “onde provavelmente estamos” e “onde precisamos estar” é chamada de Lacuna de Emissões.

Entrevistas e informações adicionais

Para solicitar entrevistas e outras informações, entre em contato com a assessora de imprensa Clare Nullis. Email cnullis@wmo.int. Cell 41797091397

Emissões de carbono dos 1 % mais ricos são mais do que o dobro das emissões da metade mais pobre da humanidade

O 1% mais rico da população mundial é responsável por mais de duas vezes mais poluição de carbono do que os 3,1 bilhões de pessoas que constituíram a metade mais pobre da humanidade durante um período crítico de 25 anos de crescimento de emissões sem precedentes.

emissõesPorcentagem de emissões cumulativas entre 1990 e 2015, e uso de  orçamento global de carbono para a meta de 1,5 ° C, vinculado ao nível de consumo dos diferentes grupos de renda globalmente

O novo relatório da Oxfam, ‘ Confronting Carbon Inequality ‘, é baseado em pesquisas conduzidas com o Stockholm Environment Institute e está sendo divulgado enquanto os líderes mundiais se preparam para se reunir na Assembleia Geral da ONU para discutir os desafios globais, incluindo a crise climática.

O relatório avalia as emissões de consumo de diferentes grupos de renda entre 1990 e 2015 – 25 anos quando a humanidade dobrou a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. Encontrou :   

  • Os 10 por cento mais ricos foram responsáveis ​​por mais da metade (52 por cento) das emissões adicionadas à atmosfera entre 1990 e 2015. O um por cento mais rico foi responsável por 15 por cento das emissões durante este período – mais do que todos os cidadãos da UE e mais do que o dobro da metade mais pobre da humanidade (7 por cento).
  • Durante esse tempo, os 10 por cento mais ricos explodiram um terço de nosso orçamento global de carbono 1,5 C, em comparação com apenas 4 por cento para a metade mais pobre da população. O orçamento de carbono é a quantidade de dióxido de carbono que pode ser adicionada à atmosfera sem fazer com que as temperaturas globais subam acima de 1,5 ° C – a meta estabelecida pelos governos no Acordo de Paris para evitar os piores impactos das mudanças climáticas descontroladas.
  • As emissões anuais aumentaram 60% entre 1990 e 2015. Os 5% mais ricos foram responsáveis ​​por mais de um terço (37%) desse crescimento. O aumento total nas emissões do um por cento mais rico foi três vezes maior do que o dos 50 por cento mais pobres.

Tim Gore, Chefe de Política Climática da Oxfam e autor do relatório disse: “O consumo excessivo de uma minoria rica está alimentando a crise climática, mas são as comunidades pobres e os jovens que estão pagando o preço. Essa extrema desigualdade de carbono é uma consequência direta da busca por décadas de nossos governos por um crescimento econômico extremamente desigual e intensivo em carbono. ”

As emissões de carbono provavelmente se recuperarão rapidamente à medida que os governos aliviarem os bloqueios relacionados à Covid. Se as emissões não continuarem caindo ano após ano e a desigualdade de carbono for deixada sem controle, o orçamento de carbono restante para 1,5 C será totalmente esgotado até 2030. No entanto, a desigualdade de carbono é tão forte que os 10 por cento mais ricos estourariam o orçamento de carbono em 2033, mesmo que todos outras emissões foram reduzidas a zero.

Durante 2020, e com cerca de 1C de aquecimento global, as mudanças climáticas alimentaram ciclones mortais na Índia e Bangladesh, enormes enxames de gafanhotos que devastaram plantações em toda a África e ondas de calor e incêndios florestais sem precedentes na Austrália e nos EUA. Ninguém está imune, mas as pessoas mais pobres e marginalizadas são as mais atingidas. Por exemplo, as mulheres correm um risco maior de violência e abuso após um desastre.

‘Confrontando a Desigualdade de Carbono’ estima que as emissões per capita dos 10 por cento mais ricos precisarão ser cerca de 10 vezes menores até 2030 para manter o mundo no caminho certo para apenas 1,5 ° C de aquecimento – isso é equivalente a cortar as emissões anuais globais em um terço . Mesmo a redução das emissões per capita dos 10% mais ricos para a média da UE reduziria as emissões anuais em mais de um quarto.

Os governos podem enfrentar a extrema desigualdade e a crise climática se visarem as emissões excessivas dos mais ricos e investirem nas comunidades pobres e vulneráveis. Por exemplo, um estudo recente descobriu que os 10% mais ricos das famílias usam quase a metade (45%) de toda a energia ligada ao transporte terrestre e três quartos de toda a energia ligada à aviação. O transporte é responsável por cerca de um quarto das emissões globais hoje, enquanto os SUVs foram o segundo maior impulsionador do crescimento global das emissões de carbono entre 2010 e 2018.

Gore disse: “Simplesmente reiniciar nossas economias pré-Covid desatualizadas, injustas e poluentes não é mais uma opção viável. Os governos devem aproveitar esta oportunidade para remodelar nossas economias e construir um amanhã melhor para todos nós.

“Os governos devem reduzir as emissões dos ricos por meio de impostos e proibições de carbono de luxo, como SUVs e voos frequentes. As receitas devem ser investidas em serviços públicos e setores de baixo carbono para criar empregos e ajudar a acabar com a pobreza ”, acrescentou Gore .

O briefing para a mídia ‘Confronting Carbon Inequality’ e o relatório de pesquisa completo e os dados em que se baseia estão disponíveis aqui .

Os 50 por cento mais pobres da humanidade compreendiam aproximadamente 3,1 bilhões de pessoas em média entre 1990 e 2015, os 10 por cento mais ricos compreendiam aprox. 630 milhões de pessoas, os mais ricos 5 por cento aprox. 315 milhões de pessoas e o um por cento mais rico de aproximadamente 63 milhões de pessoas.

Em 2015, cerca de metade das emissões dos 10% mais ricos – pessoas com renda líquida acima de US $ 38.000 – estão ligadas a cidadãos nos Estados Unidos e na UE e cerca de um quinto a cidadãos da China e Índia. Mais de um terço das emissões do 1% mais rico – pessoas com renda líquida acima de US $ 109.000 – estão vinculadas a cidadãos dos Estados Unidos, com as próximas maiores contribuições de cidadãos do Oriente Médio e da China. As receitas líquidas são baseadas nos limites de receita para 2015 e representadas em $ 2011 PPC (paridade do poder de compra).

A pesquisa é baseada em estimativas de emissões de consumo de combustíveis fósseis, ou seja, emissões consumidas dentro de um país, incluindo emissões incorporadas em importações e excluindo emissões incorporadas em exportações. As emissões de consumo nacional foram divididas entre famílias individuais com base nos conjuntos de dados de distribuição de renda mais recentes e uma relação funcional entre emissões e renda. Isso pressupõe, com base em numerosos estudos, que as emissões aumentam proporcionalmente à receita acima de um piso mínimo de emissões e até um teto máximo de emissões. As estimativas de emissões de consumo doméstico nacional – para 117 países de 1990 a 2015 – são então classificadas em uma distribuição global de acordo com a renda. Mais detalhes sobre a metodologia estão disponíveis no relatório de pesquisa.

O Stockholm Environment Institute é uma organização internacional sem fins lucrativos de pesquisa e política que lida com os desafios ambientais e de desenvolvimento.

Informações de Contato

Para mais informações ou para organizar entrevistas Anna Ratcliff, anna.ratcliff@oxfam.org / +447796993288

 

Aquecimento global: melhores e piores cenários são menos prováveis ​​do que se pensava

A incerteza sobre os resultados climáticos foi reduzida, mas especialistas alertam que a redução urgente dos níveis de CO2 é essencial

sunsetÉ provável que o estudo seja o mais influente, porque foi escrito por mais de uma dúzia de especialistas e baseia-se na mais ampla gama de evidências. Foto: Murdo MacLeod / The Guardian

Por Jonathan Watts e Graham Readfear para o “The Guardian”

Profetas do Apocalipse e Esperançosos Incorrigíveis podem precisar revisar suas previsões climáticas depois de um estudo que quase descarta as previsões mais otimistas para o aquecimento global, enquanto minimiza a probabilidade dos piores cenários.

A equipe internacional de cientistas envolvidos na pesquisa diz ter restringido a gama de prováveis ​​resultados climáticos, o que reduz a incerteza que há muito afeta o debate público sobre esse campo.

A crescente confiança sobre a sensibilidade do clima deve facilitar o trabalho dos formuladores de políticas e diminuir a possibilidade de ceticismo, mas está longe de ser tranquilizador para o futuro do planeta.

“A principal mensagem é que, infelizmente, não podemos esperar que a sorte nos salve das mudanças climáticas”, Reto Knutti, professor de física climática do Instituto de Ciências Atmosféricas e do Clima da ETH Zurich.

“O bom é que reduzimos um pouco o alcance do aquecimento futuro a longo prazo, o ruim é que não podemos mais esperar ou afirmar que o problema simplesmente desaparecerá magicamente”.

co2 atmosférico

Até agora, o painel intergovernamental das Nações Unidas sobre mudança climática estimou uma duplicação do dióxido de carbono atmosférico em relação ao nível pré-industrial de cerca de 280 partes por milhão, com 66% de chance de aquecer o planeta entre 1,5 ° C e 4,5 ° C. Em maio, o CO2 atmosférico atingiu 417ppm e está aumentando cerca de 2,5ppm por ano.

Os otimistas poderiam aproveitar o número mais baixo para dizer que nenhuma ação era necessária. Os pessimistas poderiam apontar para o número mais alto para avisar que o apocalipse estava próximo.

O estudo, publicado na Reviews of Geophysics, reduz essa faixa de sensibilidade climática de 66% – entre 2.6C e 3.9C, ou um pouco maior se houver mais incertezas. Essa faixa menor ainda é perigosamente alta, o que significa que não há espaço para complacência, mas as previsões mais terríveis agora são consideradas menos prováveis.

“São notícias moderadamente boas. Reduz a probabilidade de algumas das estimativas catastroficamente altas. Se estávamos planejando o pior, o pior se tornaria menos provável ”, disse um dos autores, Zeke Hausfather, do Grupo de Energia e Recursos da Universidade da Califórnia em Berkeley. “Mas, fundamentalmente, isso significa que devemos fazer mais para limitar as mudanças climáticas. Não estamos nem perto de fazer isso. ”

A sensibilidade climática mede a suscetibilidade do clima da Terra à influência humana. Tem sido considerado o santo graal da ciência climática desde a primeira estimativa de 1.5C a 4.5C em 1979. Inúmeros trabalhos foram publicados sobre o assunto, mas esse intervalo mal mudou até agora.

O estudo mais recente e mais preciso provavelmente será o mais influente, porque foi escrito por mais de uma dúzia de especialistas e baseia-se na mais ampla gama de evidências, incluindo processos físicos observados, dados climáticos históricos e registros da era do gelo.

O principal autor do estudo, o professor Steve Sherwood, do Centro de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas da Universidade de New South Wales, disse que é crucial compreender a faixa potencial de sensibilidade climática.

Ele disse: “Todos os outros impactos da mudança climática são dimensionados com sensibilidade climática. Quanto maior o número, maior o aumento da temperatura global e maiores os demais impactos. ”

Sherwood disse que o estudo descartou efetivamente que a sensibilidade climática esteja abaixo de 2,5 ° C, mas a extremidade mais alta da faixa de temperatura é mais difícil de se confiar.

“Se a sensibilidade climática estiver no limite mais alto, você quase perdeu a chance de cumprir o acordo de Paris e precisará se esforçar para evitar uma catástrofe”.

Gabi Hegerl, professora da Universidade de Edimburgo que esteve envolvida em estudos anteriores de sensibilidade climática, disse que os trabalhos mais recentes foram mais longe do que nunca, reunindo diferentes conjuntos de evidências. Alguns ajudam a descartar estimativas mais altas, outros mais baixos.

“Eles nos dizem mais juntos do que individualmente. Nunca podemos erradicar completamente a incerteza, mas isso é o mais rigoroso que podemos ser ”, afirmou. “A sensibilidade climática é um conceito teórico, mas restringe nosso espaço de decisão. O que realmente acontece depende de nossas ações. De alguma forma, espero que nunca aprendamos exatamente quem está certo. Não quero aquecer o que esperamos do dobro de CO2. ”

Essa confluência de fontes permitiu aos cientistas estimar, com um nível de probabilidade de 90%, que a sensibilidade climática esteja entre 2,3 ° C e 4,7 ° C. O nível mais provável de sensibilidade climática está ligeiramente acima de 3C. Hausfather diz que um número abaixo de 2C é extremamente improvável. Acima de 5C permanece possível, embora o estudo diminua essa probabilidade para 10%.

No início deste ano, alguns modelos climáticos, incluindo alguns dos mais avançados do mundo, sugeriram que a sensibilidade climática poderia estar acima de 5 ° C, provocando alarme .

Esses números altos não foram incluídos no estudo desta semana, mas muitos cientistas climáticos consideram os números mais recentes como outliers que não devem ser retirados do contexto mais amplo.

“Não entre em pânico!”, Gavin Schmidt, diretor do Instituto Nasa Goddard de Estudos Espaciais, em Nova York, twittou no início deste ano com um link para um blog que dizia : “Afirma que a sensibilidade climática é muito maior ou pior os cenários de casos precisam ser revisados ​​para cima, são prematuros. “

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Os Falsos Proeminentes Cientistas do Clima

lattes

César Lattes foi um dos mais célebres físicos experimentais brasileiros. Seu nome foi imortalizado na Base de currículos Lattes, mantida pelo CNPq consiste num patrimônio acadêmico brasileiro único no mundo. Desde 1999 virtualmente todos os acadêmicos e pesquisadores brasileiros, inclusive ex-ministros e ex-presidentes mantém atualizado seu perfil no Lattes. Ali estão todas as publicações científicas, participação em eventos, orientações, trajetória acadêmica, proficiência linguística, enfim, tudo o que caracteriza a vida intelectual e acadêmica. Como praticamente todos os cientistas brasileiros estão cadastrados na plataforma Lattes, ela contém uma quantidade enorme de informações relevantes sobre os cientistas e a comunidade científica brasileiros, infelizmente ainda pouco exploradas.

Duas estratégias são muito usadas por pseudocientistas e anticientistas para confundir o público leigo: uma é apresentar supostas controvérsias onde há consenso. Outra é apresentar pesquisadores irrelevantes ou pouco prestigiados pelos pelos seus colegas como grandes especialistas numa área. 

aquecimento

Não há dúvida de que a concentração de CO2 e de outros gases causadores de aquecimento global vêm aumentando a um ritmo nunca visto na história do planeta. O consenso na comunidade científica é que o aumento da concentração desses gases está causando a um aumento da temperatura média global com consequências que podem ser catastróficas para o futuro da humanidade mais cedo ou mais tarde. Por isso, por precaução, cientistas prestigiados se reuniram no IPCC, um painel global de especialistas em clima e fizeram uma recomendação de redução no ritmo de liberação de gases do efeito estufa. As atividades desse painel foram reconhecidas com o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Mesmo que os modelos adotados pelos especialistas estejam errados (o que é pouco provável), é prudente reduzir a concentração de CO2 e outros gases causadores de efeito estufa gases na atmosfera.

Obviamente a indústria dos combustíveis fósseis não gosta nada dessas recomendações e vem investindo milhões para desqualificar o trabalho dos cientistas sérios.
Recentemente chegou a minha atenção uma carta enviada à ONU por um grupo holandês chamado CLIntel, ou Climate Intelligence. A carta começa afirmando que não há uma emergência climática e é assinada por nada menos que “500 proeminentes cientistas”. Caso esses signatários representem um grupo de cientistas reconhecidos por seus pares sem dúvida a carta deveria ser levada em consideração pela ONU.
Um grupo de cientistas sérios preparou uma resposta à carta. Segundo eles a carta contém várias estratégias há muito adotadas pela pseudociência: mentiras, cherry picking, descontextualização de informações. afirmações imprecisas e não respaldadas por referências sólidas. Um dos críticos coloca em dúvida a competência científica dos 500 signatários.

Como sete signatários são brasileiros, podemos utilizar a base Lattes para verificar se eles realmente são “proeminentes cientistas” como afirma o CLIntel.
Seguem os nomes dos signatários brasileiros com links para seus currículos Lattes.

  1. Luiz Carlos Baldicero Molion tem doutorado em meteorologia e é professor da UFAL. O documento afirma que ele é professor emérito, a Wikipedia diz que ele é professor associado. O Lattes não tem informação e na página da UFAL não há menção a ele ser emérito. Segundo o Web of Knowledge, o mais prestigioso banco de dados acadêmicos do mundo, o Prof. Molion tem um índice h=10. O índice h é um estimador da relevância acadêmica de um pesquisador. O índice h é definido para um pesquisador que tem h artigos publicados com mais de h citações. No caso do Prof. Molion, ele tem 10 artigos internacionais com 10 citações cada um. O valor de h que indica relevância depende da idade do pesquisador e da área. No caso do Prof. Molion h=10 é um valor relativamente mediano, não o qualificando como um cientista muito preoeminente.   
  2. Ricardo Augusto Felicio tem doutorado em geografia e é professor da USP. Seu Lattes revela que da sua lista de 11 artigos nenhum é em revista internacional. Alguns nem se qualificam como artigos. Dessa forma não é possível definir seu índice h. O professor Felício não pode ser considerado um proeminente cientista.
  3. Geraldo Luis Saraiva Lino não tem currículo Lattes. Um proeminente cientista brasileiro teria.
  4. Thiago Maia não tem currículo Lattes. Um proeminente cientista brasileiro teria.
  5. Igor Vaz Maquieira tem graduação em ciências biológicas. Aparentemente não é professor ou pesquisador em nenhuma universidade. O senhor Maquieira não tem nenhuma publicação científica nacional ou internacional. O senhor Maquieira não pode ser considerado um cientista, muito menos proeminente.
  6. Mario de Carvalho Fontes Neto tem graduação em Engenharia Agronômica. O senhor Fontes Neto não tem nenhuma publicação científica nacional ou internacional. O senhor Fontes Neto não pode ser considerado um cientista, muito menos proeminente.
  7. Daniela de Souza Onça é doutora em geografia e professora da UDESC. Dos seus 11 artigos 9 são num certo Fórum Ambiental da Alta Paulista que não é exatamente uma revista científica. Como ela não tem nenhum artigo internacional não é possível definir um índice h. A professora Onça não pode ser considerada uma proeminente cientista.

Graças ao Lattes podemos mostrar que nenhum dos sete signatários brasileiros da carta da CLIntel é um proeminente cientista. Quatro deles nem podem ser qualificados como cientistas. Se extrapolamos essa amostra para os demais signatários podemos concluir que pelo menos grande parte dos que assinam a carta não são nem cientistas nem proeminentes. A carta é mais uma manobra dos grupos de pressão anticiência para desacreditar o trabalho de gente séria.

Agradeço ao colega e amigo Carlos Lenz Cesar por ter me chamado a atenção para a carta do CLIntel

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Este artigo foi originalmente publicado pelo blog Cultura Científica [Aqui!].

ONU diz que gases de efeito estufa que aquecem o clima estão em níveis recordes

Dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão muito acima dos níveis pré-industriais

emissões

Uma estação de energia na Polônia perto das fronteiras com a Alemanha e a República Checa. Foto: Florian Gaertner / Photothek / Getty Images

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente  do “The Guardian” [1] 

As emissões dos principais de gases do efeito estufa que impulsionam as mudanças climáticas atingiram níveis recordes, segundo os especialistas em meteorologia da ONU.

O dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão agora muito acima dos níveis pré-industriais, sem nenhum sinal de reversão da tendência de alta, segundo um relatório da Organização Mundial de Meteorologia.

“A última vez que a Terra experimentou uma concentração comparável de CO2 foi de 3 a 5 milhões de anos, quando a temperatura era de 2-3ºC mais quente e o nível do mar era de 10 a 20 metros mais alto do que agora”, disse o secretário geral da OMM, Petteri Taalas.

“A ciência é clara. Sem cortes rápidos no CO2 e outros gases do efeito estufa, as mudanças climáticas terão impactos cada vez mais destrutivos e irreversíveis sobre a vida na Terra. A janela de oportunidade para ação está quase fechada. ”

Os níveis de CO2 subiram para uma média global de 405,5 partes por milhão na atmosfera em 2017- duas vezes e meia maior do que antes da revolução industrial. Os níveis de metano, um potente gás de efeito estufa responsável por cerca de 17% do aquecimento global, são agora 3,5 vezes mais altos do que os tempos pré-industriais devido às emissões de gado, arrozais e vazamentos de poços de petróleo e gás.

O óxido nitroso, que também aquece o planeta e destrói a camada protetora de ozônio da Terra, está agora em mais que o dobro dos níveis pré-industriais. Cerca de 40% do N2O vem de atividades humanas, incluindo degradação do solo, uso de fertilizantes e indústria. 

A OMM também destacou a descoberta da produção ilícita de CFC-11, uma substância química proibida que também aquece o planeta e destrói o ozônio. Investigações indicam que pelo menos parte da produção está na China

Em outubro, os cientistas do mundo disseram que o aquecimento global de até 1.5 ºC teria consequências graves para a humanidade. Os acordos climáticos internacionais estabeleceram por duas décadas o limite 2 ºC. 

“Cada fração de um grau de aquecimento global é importante, assim como toda parte por milhão de gases do efeito estufa”, disse a vice-secretária geral da OMM, Elena Manaenkova. “O CO2 permanece na atmosfera por centenas de anos e nos oceanos por mais tempo. Atualmente não há varinha mágica para remover todo o excesso de CO2 da atmosfera. ” 

A professora Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia, disse que não ficou surpresa com os novos níveis recordes de gases de efeito estufa. “Mas estou muito preocupado com o fato de que todos os três gases mais responsáveis pela mudança climática estão subindo sem parar. Parece que a urgência e a extensão das ações necessárias para lidar com a mudança climática ainda não foram assimiladas. 

“Tecnologias de baixo carbono como o transporte eólico, solar e elétrico precisam se tornar mainstream, com fósseis poluidores antiquados expelidos rapidamente”. 

Os esforços para reduzir as emissões estão aumentando e na quarta-feira o órgão de mudança climática da ONU publicou um relatório sobre os compromissos assumidos em 2018. Encontrou 9.000 cidades em 128 países, 240 estados e regiões em 40 países e mais de 6.000 empresas em 120 países. 

Patricia Espinosa, chefe da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas, disse: “Por um lado, as emissões de gases do efeito estufa ainda não atingiram o pico e os países lutam para manter a atenção concentrada e o esforço necessário para uma resposta bem sucedida à mudança climática. Por outro lado, a ação climática está ocorrendo, está aumentando e há vontade de fazer mais. Destaco isso porque cair no desespero e na falta de esperança é um perigo igual à complacência, nenhuma das quais podemos pagar ”.


Artigo publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [1

Eventos de secas extremas deverão aumentar emissão de CO2 na Amazônia

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Em um artigo liderado por um ex-estudante da Universidade Estadual do Norte Fluminense e hoje pesquisador do Insituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Luiz Aragão, temos a informação de que eventuais diminuições na emissão de gás carbônico via o processo de desmatamento deverão ser compensadas por aquelas oriundas de eventos climáticos extremos, tais como secas, que estão causando um alto número de incêndios em toda a Amazônia brasileira [1].

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Imagem do satélite Landsat 8 OLI (Operational Land Imager) mostrando quilometros de florestas queimadas (tons de magenta)  em regiões cobertas por vegetação nativa (tons de verde) na porção leste da Amazônia brasileira.  A cor branca representa nuvens. Fonte: U.S. Geological Survey’s Earth Explorer Platform

Como os eventos climáticos extremos estão aumentando em número e em frequência, e não são eventos controláveis, haverá uma dificuldade adicional para que se controle as emissões de CO2, mesmo que alcance a redução das taxas de desmatamento e dos focos de queimadas. 

Essas conclusões poderão ser ainda mais drásticas quando se considerar que boa parte da floresta considerada em “estado primário”  já foi afetada por atividades ilegais de exploração madeireira e garimpo, o que aumentou as áreas suscetíveis à ocorrência de incêndios.

Aliás, essa subestimativa da área “perturbada” por ações antrópicas é um dos pontos menos abordados na literatura científica. Quando for estimado com precisão como está efetivamente o estoque da cobertura vegetal já alterada por ações de exploração é bem provável que as estimativas que são oferecidas neste estudo tenham que ser recalculadas para cima e não para baixo.

De qualquer forma, as contribuições do estudo liderado pelos pesquisadores do Inpe ao entendimento das emissões de carbono associadas à ocorrência de incêndios são muito importantes. 

Quem desejar acessar este trabalho, basta clicar [Aqui!]


[1] http://www.stockholmresilience.org/research/research-news/2018-02-14-a-different-kind-of-fire.html

Por que o governo não divulga os dados de emissão de carbono

O Terceiro Inventário nacional, que dá os dados de 2005, deveria ser um produto técnico, mas virou refém de decisão política

 

 

Área desmatada no Mato Grosso para expansão do agronegócio. Estado foi o "campeão" em alertas de desmatamento e degradação. (© Paulo Pereira/Greenpeace)

Área desmatada no Mato Grosso para expansão do agronegócio. Estado foi o “campeão” em alertas de desmatamento e degradação. (© Paulo Pereira/Greenpeace)

 

Por TASSO AZEVEDO & MARINA PIATTO*

Daqui até o meio do ano, o país precisa publicar seu terceiro inventário de emissões de gases de efeito estufa, que dará a cifra oficial de nossas emissões até o ano de 2010 e também o número revisado de emissões do Brasil em 2005, ano do último levantamento do tipo disponível. Isso mesmo: a nossa conta oficial de emissões de carbono mais recente se refere a dez anos atrás.

O terceiro inventário foi finalizado ainda em 2014 e passou por consulta pública em janeiro de 2015. O documento aguarda publicação desde pelo menos agosto do ano passado.

Quem teve acesso à versão final conta que ele vai mostrar que as emissões em 2005 foram bem maiores do que sugeria o segundo inventário: saltaram de 2,2 bilhões para 2,7 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e). Isso colocaria o Brasil na terceira posição entre os maiores emissores globais em 2005, atrás apenas da China e dos EUA.

A diferença, apesar de enorme, pode ser explicada por evolução na metodologia de medição das emissões e remoções de gases de efeito estufa, especialmente no que se refere a desmatamento e captura de carbono pelas florestas remanescentes.

Apesar de já contar com os dados não publicados, o governo anunciou em setembro a proposta de compromissos para o Acordo de Paris com base nos dados antigos. A meta de reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030 com relação a 2005 foi calculada com base nos dados ultrapassados do segundo inventário, o que daria uma emissão de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 em 2030.

Considerando os novos números, o governo fica com duas opções: ou revisa a meta em termos absolutos, que passaria a 1,5 bilhão de toneladas em 2030 — ou seja, nenhuma redução em relação às emissões atuais –, ou revisa a meta proporcional, que passaria a ser de 55% de corte até 2030 em relação a 2005 em vez de 43%. E este parece ser um dos motivos pelos quais a publicação do inventário, que deveria ser um produto eminentemente técnico, virou refém de uma decisão política.

Comunicar emissões de forma ágil, atualizada e com a melhor informação científica disponível traria diversos ganhos para o Brasil. O mais imediato seria a aplicação de políticas de controle de poluição: hoje nossos inventários são olhares no retrovisor, descolados do ritmo da economia. Saber como elas evoluem ano a ano é importante para aplicar regulações e incentivos, proteger a população e gerar emprego e renda.

Outro ganho diz respeito aos nossos compromissos internacionais. Hoje o Brasil está desobrigado de revelar ao mundo quanto emite anualmente. Com a entrada em vigor do Acordo de Paris, que exigirá um mecanismo global de transparência, isso deverá mudar. Todas as nações serão obrigadas a reportar emissões e, quanto mais cedo estiverem prontas para isso, melhor.

Um terceiro ganho diz respeito ao próprio acesso a mercados de carbono e ao cumprimento das metas nacionais de corte de emissões. Hoje, por exemplo, o país não reporta quanto emite todos os anos por degradação de solos em pastagens. Cálculos feitos pelo Imaflora a partir dos dados do SEEG, o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, sugerem que as emissões do setor agrícola seriam 25% maiores caso esses dados fossem computados. No entanto, esse mesmo setor tem potencial de emissões negativas – ou seja, de sequestro de carbono – caso as metas propostas de recuperação de pastagens sejam cumpridas. Por não contabilizar o quanto emite, o país não pode receber os benefícios de reduções de emissões.

Além disso, monitorar o que acontece no seu quintal é uma tradição no Brasil. Na década de 1980, fomos os pioneiros em estimar o desmatamento em florestas tropicais usando satélites. Nos anos 2000, o sistema Deter, do Inpe, permitiu que esse monitoramento ocorresse em tempo real. Na mesma década, surgiu o SAD, sistema do Imazon que ampliou a transparência do monitoramento – e foi fundamental para defender a credibilidade do sistema do Inpe contra ataques em 2008. A expressiva queda do desmatamento na Amazônia na ultima década deve muito aos sistemas de monitoramento.

Os dados do terceiro inventário são fundamentais para atualizar e balizar os esforços de monitoramento de emissões no Brasil. Sem eles praticamente todas as políticas públicas para redução de emissões perdem eficácia.

Ajustar as contas do clima é crucial para ajustar as contas com o clima. Além de evitar situações embaraçosas para o país no futuro.

* Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Planeta, da revista Época.

Tasso Azevedo é engenheiro florestal e coordenador do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa) do Observatório do Clima
Marina Piatto é agrônoma e coordenadora da Iniciativa de Clima e Agrupecuária do Imaflora

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/por-que-o-governo-nao-divulga-os-dados-de-emissao-de-carbono-2/