Agrotóxicos são a nova face do complexo de vira-latas de um Brasil transformado na lixeira química do mundo

Por  Sonia Corina Hess*

Em 2025 foram aprovados 914 novos agrotóxicos para uso no Brasil. Desses, 152 (16%) continham ingredientes ativos biológicos, incluindo microorganismos, óleos e extratos vegetais, e 140 (92%) de tais pesticidas naturais eram fabricados por empresas instaladas no Brasil. Por outro lado, dentre os 762 agrotóxicos químicos registrados (83% do total), 666 (73%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China. Além disso, em 393 desses 762 agrotóxicos (51%) havia pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia (banidos, ou sem registro, ou com registro pendente).

Somando-se os números relativos ao atual governo, de 2023 a 2025, foram aprovados 2.135 novos agrotóxicos, sendo 346 (16%) produtos biológicos e 302 deles (87%) fabricados no Brasil. Dentre os 1.789 agrotóxicos químicos aprovados naquele período, 1.511 (84%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China e 867 (48%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

No período de 2019 a 2022, no governo anterior, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos, sendo 278 (13%) produtos biológicos, dos quais 254 (91%) eram fabricados no Brasil. Dentre os 1.892 agrotóxicos químicos, 1.465 (77%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China, e 1.056 (49%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

A maioria dos 1.419 agrotóxicos formulados aprovados entre 2023 e 2025 tinha uso autorizado em plantações de soja (895/63%), algodão (671/ 47%), milho (639/45%) e cana-de-açúcar, (404/28%). Também no período de 2019 a 2022, a maioria dos 1.014 agrotóxicos formulados aprovados tinha uso autorizado em plantações de soja (614/ 61%), algodão (443/44%), milho (428/42%) e cana-de-açúcar (336/33%). Tais proporções são compatíveis com as estimativas do uso de agrotóxicos naqueles cultivos industriais no Brasil, 52% do total sendo aplicados em plantações de soja, 10% no milho, 10% na cana-de-açúcar e 7% no algodão.

Os dados apresentados revelam uma realidade que tem perdurado mesmo com a mudança de governos no Brasil. O país depende da China para produzir os ingredientes ativos presentes em torno de 80% dos agrotóxicos químicos autorizados, e metade dos produtos químicos aprovados contém pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia. Além disso, a maioria dos agrotóxicos aprovados tem uso direcionado a plantações de soja, algodão, milho e cana-de-açúcar, que não são alimentos direcionados a seres humanos, mas sim, à alimentação de animais, bioenergia e outros usos.

Até quando aceitaremos que o Brasil figure como a maior lixeira química do mundo, onde as multinacionais vendem a preços elevados os agrotóxicos que foram banidos em outros países, sendo considerados lixo por lá? Até quando teremos que beber, respirar e comer esse lixo que contamina os nossos corpos, os animais, as águas, o ar e o solo? Até quando aceitaremos essa situação vexatória, nos comportando como vira-latas simpáticos, enquanto que as muiltinacionais químicas atuam com a truculência típica dos cães furiosos, insistindo em ferir a nossa dignidade e a nossa saúde?

Fontes dos dados podem ser conhecidas [Aqui!].


* Sonia Corina Hess é professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina