A universidade do adoecimento: quando a produção do conhecimento passa a consumir seus próprios trabalhadores

A enquete do ANDES-SN revela a face humana da crise estrutural da educação pública brasileira 

Durante muito tempo, consolidou-se no imaginário social a ideia de que a carreira docente no ensino superior público representaria uma posição privilegiada, marcada por autonomia intelectual, estabilidade e condições favoráveis para a produção do conhecimento. A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente realizada pelo ANDES-SN desmonta essa narrativa ao revelar um cenário marcado pela intensificação do trabalho, pelo adoecimento crescente e pela deterioração das condições materiais de exercício da docência.

Inspirada metodologicamente na tradição da Enquete Operária de Karl Marx, a pesquisa busca não apenas levantar dados, mas compreender a experiência concreta dos trabalhadores da educação superior e transformá-la em instrumento de organização política e sindical. Trata-se de uma iniciativa particularmente relevante em um período em que a universidade pública brasileira vem sendo submetida a sucessivos processos de desfinanciamento e reestruturação gerencial. A própria apresentação da pesquisa destaca a intenção de combinar rigor científico e intervenção política, recolocando a produção de conhecimento a serviço da compreensão crítica das condições de trabalho.

Os resultados preliminares da primeira etapa, realizada com 1.874 docentes de 11 instituições públicas, já indicavam tendências preocupantes. A pesquisa identificou jornadas extensas, múltiplas exigências administrativas, sobrecarga de atividades e elevado índice de relatos de assédio moral. Mais da metade dos participantes declarou ter sofrido algum tipo de assédio ao longo de sua trajetória profissional, ainda que em diferentes intensidades. O dado é particularmente grave porque evidencia que a violência organizacional deixou de ser um fenômeno excepcional para se tornar parte constitutiva da vida universitária contemporânea.

Mas talvez o aspecto mais revelador da enquete seja a conexão estabelecida entre as transformações recentes do trabalho docente e o crescimento dos problemas de saúde física e mental. Os relatórios produzidos a partir das etapas subsequentes da pesquisa apontam para o avanço de quadros de ansiedade, transtornos de humor, doenças cardiovasculares, enxaquecas e outros problemas associados ao estresse ocupacional. O que aparece nesses números não é um conjunto de casos isolados, mas a manifestação de uma lógica institucional que transforma permanentemente professores em gestores de indicadores, produtores de relatórios, captadores de recursos e operadores de plataformas digitais.

A pandemia de COVID-19 acelerou esse processo. O ensino remoto emergencial foi frequentemente apresentado como demonstração de resiliência e capacidade de adaptação das universidades. Entretanto, a enquete mostra que o legado deixado por esse período inclui a ampliação das fronteiras do trabalho, a invasão permanente do espaço doméstico pelas demandas profissionais e a naturalização de mecanismos de controle mediados por tecnologias digitais. O resultado é uma jornada que não termina quando a aula acaba, mas se estende indefinidamente por aplicativos, plataformas, reuniões virtuais e sistemas de avaliação.

A pesquisa também evidencia um fenômeno frequentemente negligenciado nos debates sobre ensino superior: o endividamento crescente dos docentes. Os dados divulgados em algumas instituições, como a UERJ, revelam percentuais expressivos de professores convivendo com financiamentos, empréstimos e dívidas. A combinação entre perdas salariais acumuladas, aumento do custo de vida e deterioração das carreiras públicas ajuda a explicar por que um setor historicamente associado à estabilidade econômica passou a enfrentar inseguranças típicas de segmentos cada vez mais precarizados da classe trabalhadora.

O caso brasileiro não pode ser analisado isoladamente. Em diversas partes do mundo observa-se a expansão de modelos de gestão universitária inspirados em práticas empresariais. Métricas de produtividade, competição por financiamentos, ranqueamentos institucionais e sistemas permanentes de avaliação passaram a orientar a vida acadêmica. Nesse ambiente, o conhecimento tende a ser tratado como mercadoria, enquanto docentes são pressionados a ampliar continuamente sua produção sob condições cada vez mais adversas.

A grande contribuição da enquete do ANDES-SN está justamente em demonstrar que a crise da universidade pública não se manifesta apenas nos cortes orçamentários ou na precarização da infraestrutura. Ela se expressa também nos corpos e nas mentes daqueles que sustentam cotidianamente o funcionamento dessas instituições. O adoecimento docente não é um problema individual. É um sintoma social de um modelo que busca ampliar produtividade sem garantir condições dignas de trabalho.

Por isso, os resultados da pesquisa deveriam ultrapassar os limites do debate sindical e acadêmico. Eles dizem respeito ao futuro da própria universidade pública brasileira. Afinal, quando a produção do conhecimento passa a depender da exaustão física e mental de seus trabalhadores, não é apenas a saúde dos docentes que está em risco. Está em risco a capacidade da universidade de cumprir sua função social, científica e democrática.

A enquete do ANDES-SN oferece um alerta necessário: defender a saúde docente não é uma pauta corporativa. É uma condição indispensável para defender a educação pública em um momento histórico marcado pela expansão da precarização, pela mercantilização do ensino e pela crescente subordinação do conhecimento às exigências do mercado.

O relatório completo e as informações sobre a enquete podem ser consultados junto ao ANDES-SN e aos materiais da pesquisa divulgados pela entidade.

Trabalhadores de frigoríficos do Brasil sob risco de plano ‘inconcebível’ para reduzir os intervalos em locais de baixas temperaturas

Com o boom das exportações, os donos dos frigoríficos brasileiros estão apoiando planos para restringir os períodos de descanso para aqueles que realizam trabalhos perigosos em baixas temperaturas

marfrig

Trabalhadores em um frigorífico da Marfrig. As propostas apoiadas pela indústria da carne limitariam as pausas regulares, que os sindicatos dizem que são destinadas a proteger os trabalhadores. Fotografia: Ricardo Funari / Lineair / Greenpeace

Por  Carlos Juliano Barros para o “The Guardian”

A saúde de centenas de milhares de trabalhadores de frigoríficos no Brasil está em risco devido a um plano apoiado pela indústria para reduzir as pausas concedidas aos empregados, dizem grupos de direitos dos trabalhadores no país.

Em meio a uma pandemia que ceifou a vida de mais de 350.000 brasileiros, o governo do presidente Jair Bolsonaro, o parlamento e a indústria da carne têm pressionado por uma mudança para revisar as leis e regulamentos que protegem os trabalhadores nos frigoríficos.

As novas regras em discussão limitariam os intervalos regulares dados aos trabalhadores que enfrentam baixas temperaturas, o que os especialistas em trabalho dizem que ajuda a reduzir o potencial de lesões.

“É inconcebível que durante a pior crise de saúde da história, quando os frigoríficos foram qualificados como essenciais e continuaram a trabalhar normalmente para garantir o abastecimento de alimentos à sociedade, eles devessem ter quaisquer direitos relacionados à saúde e segurança no trabalho retirados”, disse Lincoln Cordeiro, que trabalha para o Ministério Público do Trabalho, órgão federal independente do governo.

Os intervalos de 20 minutos a cada hora e 40 minutos permitem a “recuperação térmica” das baixas temperaturas. As alterações propostas significariam que essas pausas só seriam concedidas a funcionários sujeitos a temperaturas abaixo de 4C ou movimentação de cargas entre locais com diferença de temperatura de 10C. Isso cobriria cerca de 5% dos trabalhadores da frigorífica, diz Cordeiro.

“Há estudos que mostram que o trabalho contínuo em ambiente frio deteriora os músculos e o funcionamento neural”, disse Cordeiro. “A exposição ao ar frio também causa alterações inflamatórias e piora do sistema respiratório.”

A revisão das regras trabalhistas nos frigoríficos ocorre em um momento em que se levantam questões na Europa sobre a sustentabilidade das exportações brasileiras de carne, no valor recorde de  US$ 17 bilhões em 2020.

Sob Bolsonaro, o desmatamento ilegal em biomas sensíveis disparou. Uma vasta extensão da floresta amazônica sete vezes maior que a Grande Londres foi desmatada entre agosto de 2019 e julho do ano passado.

“O setor empresarial pressionou o governo, argumentando que as regras atuais estão causando prejuízos”, disse Célio Elias, líder da Federação Democrática dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação de Santa Catarina, um importante estado produtor de aves. “[Mas] se a proteção dos trabalhadores for prejudicada, veremos um grande número de pessoas feridas e mutiladas. Não temos dúvidas sobre isso. ”

Trabalhadores processam carne na planta de processamento do Minerva SA em Barretos, BrasilTrabalhadores da indústria de processamento de carnes da Minerva SA em Barretos, Brasil. O governo e a indústria têm pressionado por uma redução na proteção aos trabalhadores. Fotografia: Bloomberg / Getty Images

Foram quase 23 mil acidentes em frigoríficos no Brasil em 2019, segundo o Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho , uma média de 62 por dia.

Além das mudanças propostas para a legislação trabalhista do país, o governo de Bolsonaro anunciou planos de revisão das normas federais (conhecidas como NR36) que cobrem a distância mínima entre os trabalhadores e o uso de móveis adequados para evitar acidentes, bem como intervalos.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa as indústrias de aves e suínos do país, disse que as mudanças propostas no código de trabalho do Brasil iriam “colocá-los em linha com as regras internacionais” e dar aos trabalhadores um modelo mais flexível de pausas que não obrigá-los a abandonar as instalações.

Tanto a ABPA quanto a secretaria do trabalho do Ministério da Economia afirmaram que as mudanças na NR36 visam “simplificar, harmonizar e desburocratizar”. A ABPA acrescentou em comunicado que a revisão da NR36 foi necessária “devido aos avanços nas tecnologias de produção” e que “o trabalho é essencialmente pautado pela melhoria constante das condições de saúde e segurança de todos os trabalhadores”.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que inclui frigoríficos de bovinos, não comentou as propostas de mudanças na legislação trabalhista ou na NR36.

 Carlos Juliano Barros é repórter investigativo da Repórter Brasil

Inscreva-se na atualização mensaldo Animals farmed para obter um resumo das melhores histórias de agricultura e comida em todo o mundo e manter-se atualizado com nossas investigações. Você pode nos enviar suas histórias e pensamentos para animalsfarmed@theguardian.com

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian”  [Aqui!].

Acesso à justiça foi prejudicado na pandemia, segundo maioria dos profissionais de defensorias públicas

justiça

FOTO: TINGEY INJURY LAW FIRM / UNSPLASH

Por bori

O acesso do cidadão mais pobre a serviços de justiça tem sofrido impactos da pandemia de COVID-19. Essa é a percepção de 92,6% dos profissionais das Defensorias Públicas respondentes de pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getulio Vargas (FGV). Quase metade destes profissionais (47%) acreditam que não estão conseguindo atender o público satisfatoriamente. Ao mesmo tempo, cerca de 80% dos respondentes acreditam que seu trabalho contribui para mitigar certos efeitos da pandemia na vida de seus assistidos.

“A percepção dos profissionais das Defensorias Públicas de que podem, de fato, contribuir para reduzir os impactos negativos da pandemia na vida de seus assistidos, aliado à sensação de que o serviço não está sendo prestado satisfatoriamente, podem
gerar um sentimento de impotência e frustração. A mudança brusca na prestação de um serviço geralmente presencial para digital em tão pouco tempo acabou excluindo grande parte dos assistidos” afirma Giordano Magri, pesquisador do NEB-FGV e um dos coordenadores da pesquisa.

Para compreender qual a percepção de profissionais das Defensorias Públicas sobre os impactos da crise no seu trabalho, bem-estar e modo de interagirem com cidadãos, os pesquisadores aplicaram uma survey online com 530 profissionais das Defensorias Públicas Estaduais e da Defensoria Pública da União de todas as regiões do Brasil entre os dias 23 de junho e 11 de julho de 2020. Os respondentes eram defensores públicos (43,4%), assessores (34,3%), estagiários (12,8%) e funcionários de outras carreiras (9,4%).

O bem-estar destes profissionais parece ter sido, particularmente, afetado pela pandemia: 74% dos respondentes do survey acreditam que a situação trouxe impactos prejudiciais à sua saúde mental. Mais de 75% destes trabalhadores afirmam não ter recebido apoio para cuidar da sua saúde. Uma das emoções predominantes no seu cotidiano é o medo: 87,9% dos profissionais afirmam temer serem infectados pelo novo coronavírus.

Sobre as condições de trabalho, 19,2% dos profissionais que estão em regime de teletrabalho não têm e não receberam equipamentos necessários para executar suas tarefas em casa. O suporte dado pela Defensoria-Geral durante a pandemia foi alvo de crítica de 29% dos respondentes, que acreditam que a Defensoria-Geral não tem feito ações para garantir a realização do trabalho destes profissionais.

“O que vemos também é que há uma desigualdade interna na instituição em que as condições de trabalho se mostram mais precárias para estagiários e outros profissionais se comparado com defensores. Isso ressalta a compreensão de que o acesso à justiça não se restringe somente à atuação do defensor público, mas depende também do trabalho de outros profissionais que nem sempre são visíveis nesta política” reflete Gabriela Lotta, coordenadora do NEB-FGV e da pesquisa.

#Os resultados do estudo vão ser apresentados em coletiva na terça (4/8), às 14h, pelo Zoom!#