A perda global de florestas tropicais continua a uma taxa de 10 campos de futebol por minuto

Apesar dos grandes progressos no Brasil e na Colômbia, o desmatamento liderado pela agricultura ainda desmatou uma área quase igual à da Suíça

desmatamentoFloresta queimada na área de conservação Ñembi Guasu em Charagua, Bolívia. A expansão do cultivo da soja levou a um aumento na perda florestal pelo terceiro ano na Bolívia. Fotografia: David Mercado/Reuters

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

A destruição das florestas tropicais mais preservadas do mundo continuou a um ritmo implacável em 2023, apesar das quedas dramáticas na perda de florestas na Amazónia brasileira e colombiana, mostram novos números.

Uma área quase do tamanho da Suíça foi desmatada de florestas tropicais anteriormente intactas no ano passado, totalizando 37 mil quilómetros quadrados (14.200 milhas quadradas), de acordo com números compilados pelo World Resources Institute (WRI) e pela Universidade de Maryland. Esta é uma taxa de 10 campos de futebol por minuto, muitas vezes impulsionada pelo aumento de terras cultivadas em todo o mundo.

Embora o Brasil e a Colômbia tenham registado grandes quedas na perda florestal de 36% e 49%, respectivamente, sob as políticas ambientais dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, essas quedas foram compensadas por grandes aumentos na Bolívia, Laos, Nicarágua e outros países.

O Canadá também sofreu uma perda recorde de floresta devido ao fogo, perdendo mais de 8 milhões de hectares (20 milhões de acres).

Mikaela Weisse, diretora do Global Forest Watch do WRI, disse: “O mundo deu dois passos para frente e dois para trás no que diz respeito à perda florestal do ano passado.

“Os declínios acentuados na Amazônia brasileira e na Colômbia mostram que o progresso é possível, mas o aumento da perda florestal em outras áreas contrabalançou em grande parte esse progresso”, disse ela. “Temos de aprender com os países que estão a abrandar com sucesso a desflorestação.”

As alterações na utilização dos solos – das quais a desflorestação é uma componente central – são a segunda maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa e um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade. Preservar as florestas tropicais é essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C (2,7°F) acima dos níveis pré-industriais, segundo os investigadores.

Uma rodovia atravessa trilhos de trem perto de Phonhong, no Laos

Uma ferrovia que liga Kunming, na China, a Vientiane, no Laos, passa por baixo de uma rodovia perto de Phonhong, no Laos, onde a demanda chinesa alimentou a expansão agrícola. Fotografia: Reuters

Especialistas alertaram que a desflorestação contínua significa que os governos estão perigosamente desviados no que diz respeito ao cumprimento dos seus compromissos climáticos e de biodiversidade. Na conferência climática Cop28, no Dubai, os governos concordaram sobre a necessidade de travar e reverter a perda e a degradação das florestas até 2030, após o compromisso dos líderes mundiais na Cop26, em Glasgow, de pôr fim à sua destruição nesta década.

Mas os novos números mostram que o mundo está muito longe de atingir esta meta, com poucas alterações na perda global de florestas durante vários anos.

Embora o Brasil tenha diminuído significativamente a sua taxa de perda florestal, o país continuou a ser um dos três países com maior perda de floresta tropical primária, ao lado da República Democrática do Congo e da Bolívia. Juntos, foram responsáveis ​​por mais de metade da destruição global total.

A Bolívia registou um grande aumento na perda de florestas pelo terceiro ano consecutivo – apesar de ter menos de metade da floresta de outros grandes países com florestas tropicais, como a RDC e a Indonésia – impulsionado em grande parte pela expansão do cultivo da soja.

O Laos e a Nicarágua perderam grandes pedaços da sua floresta tropical intocada em 2023, desmatando 1,9% e 4,2%, respetivamente, num único ano, o que os investigadores afirmam ser porque florestas altamente fragmentadas em países que já tinham sido desmatadas extensivamente podem muitas vezes ser apagadas mais rapidamente.

No Laos, a expansão agrícola está a ser alimentada pela procura de mercadorias por parte da China, enquanto na Nicarágua a culpa é da pecuária e da agricultura em expansão.

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Apesar da falta de progresso geral nos números para 2023, os investigadores disseram que o mundo poderia aprender com os exemplos do Brasil e da Colômbia para cumprir as metas de desflorestação.

O professor Matthew Hansen, especialista em sensoriamento remoto do departamento de geografia da Universidade de Maryland, disse: “Eu realmente acredito que a única maneira de manter as florestas em pé é um fundo de compensação para a conservação das florestas tropicais em pé.

“A Alemanha lançou o Acordo Justo ‘, que pretende pagar desta forma aos países com florestas tropicais. A Noruega envolveu-se com o Gabão de forma semelhante, utilizando o sequestro de carbono como medida. Junte essa abordagem a uma governação robusta e ao envolvimento da sociedade civil e poderá funcionar”, disse ele.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Grilagem, ecocídio e ameaça de morte no Cerrado

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De um lado, a preservação, do outro, a devastação causada pelo agronegócio no Cerrado. Foto: Mariella Paulino/Rede Social

“A lentidão do Instituto de Terras do Piauí em regularizar os nossos territórios favorece a ação de quem quer nos expulsar”, denuncia sr. Juarez Celestino que, na tarde de 15 de outubro, foi ameaçado de morte por Carlos Rone Salgim. Juarez é uma das lideranças do Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado, no Sul do Piauí.

A ameaça ocorreu junto aos moradores da comunidade Passagem da Nega, no território Melancias. De acordo com as pessoas ameaçadas, Rone estava bastante exaltado e, além de dizer que os moradores deveriam sair daquela área, anunciou que “já estava encomendada a pessoa que irá matar o sr. Juarez”. Rone, como é conhecido na região, já ameaçou Juarez e as famílias que ali vivem em outras ocasiões.

As ameaças foram registradas em boletins de ocorrência no município de Corrente. A denúncia também foi levada às autoridades estaduais e nacionais.

As famílias dessas comunidades ribeirinhas-brejeiras, que vivem há gerações de modo tradicional no território Melancias, vem sofrendo com ameaças de morte e expulsão por grileiros e com o avanço do agronegócio que causa desmatamento e contaminação com agrotóxicos.

O Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí, a Comissão Pastoral da Terra-PI e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos exigem medidas urgentes dos órgãos governamentais para garantir a vida, o território, a proteção ambiental e a dignidade das comunidades.


Relatório “Grilagem e ecocídio no Cerrado” é lançado em Harvard

O relatório “Grilagem de terras e ecocídio” foi lançado no dia 11 de outubro em um seminário na Universidade de Harvard, que teve como objetivo pressionar as empresas financeiras ligadas à Harvard, à TIAA e à Bunge por destruição ambiental e grilagem de terras no Cerrado.

relatório está disponível em português e em inglês e foi produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Friends of the Earth e Action Aid.

As pesquisas da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos que revelam a grilagem de terras e o impacto ambiental destas empresas no Cerrado foram noticiadas pela Agência Pública.

Caatinga tem mais de 480 espécies de plantas e animais ameaçados de extinção

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Todos os biomas do Brasil estendem suas fronteiras para além do limite do país, com exceção da Caatinga, que é o único bioma 100% brasileiro, com predomínio no Nordeste. Mas seu rico patrimônio biológico está ameaçado. Segundo dados da pesquisa Contas de Ecossistemas, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Caatinga tem pelo menos 481 espécies de plantas e animais com risco de extinção, o que torna o bioma o terceiro mais ameaçado à sobrevivência da fauna e flora no País, perdendo apenas para o Cerrado e para a Mata Atlântica, respectivamente.

O estudo analisou 3.220 espécies da Caatinga e concluiu que 15% corre o risco de desaparecimento. O bioma conta com aproximadamente 5.311 tipos de plantas e animais únicos, como o famoso tatu-bola, a jaguatirica e o carcará. “Se engana profundamente quem acredita que a Caatinga é um bioma pobre, seu ecossistema é valioso e não é encontrado em nenhuma outra região do mundo”, destaca Samuel Portela, coordenador técnico da Associação Caatinga.

Segundo Samuel Portela, entre as principais causas dessa devastação estão o uso de lenha como matriz energética e as queimadas para cultivos agrícolas. “Essas ações vão, aos poucos, diminuindo as florestas, matando as plantas e ameaçando o habitat natural dos animais”, explica o coordenador.

Segundo a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado (Sema), no Ceará, existem 55 espécies ameaçadas de extinção. Esses animais estão incluídos em uma chamada lista vermelha, que conta com cinco categorias: tartarugas marinhas, mamíferos marinhos, aves, anfíbios e répteis e mamíferos terrestres.

A Associação Caatinga desenvolve diversas iniciativas para preservar o ecossistema. Entre elas está o projeto “RPPN: Conservação voluntária: gerando serviços ambientais”, que visa ampliar e aprimorar a gestão de áreas protegidas legalmente, com foco nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). “Existem hoje mais de 1.850 RPPNs no Brasil, protegendo mais de 833.000ha de áreas, sendo 44 no Ceará e 8 no Rio Grande do Norte. Estamos focando nesses dois estados, já que eles possuem quase a totalidade dos seus territórios inseridos na Caatinga e apresentam preocupantes dados de desmatamento acumulado”, declara Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga.

O projeto busca realizar a prospecção de áreas para a criação de futuras RPPNs, elaborar e revisar planos de manejo, realizar cursos de capacitação e apoiar a implementação das ações dos planos de manejo de unidades de conservação já existentes. O “RPPN: Conservação voluntária gerando serviços ambientais” é realizado pela Associação Caatinga e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.

Sobre a Associação Caatinga

A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é promover a conservação das terras, florestas e águas da Caatinga para garantir a permanência de todas as suas formas de vida. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.

Cobertos por floresta, manguezais da Amazônia brasileira se mantêm preservados

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FOTO: MARCOS SANTOS / USP IMAGENS

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Os manguezais da costa amazônica brasileira estão bem preservados, aponta artigo publicado na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências” nesta sexta (21) por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA). Os principais impactos identificados na região são a expansão urbana e a construção de estradas, mas menos de 1% da área total foi convertida por essas atividades. As florestas de mangue correspondem à maior cobertura, ocupando 92% da área de estudo.

Os pesquisadores analisaram imagens de satélite de alta resolução entre 2011 e 2015 para obter um mosaico de imagens sem nuvens, que foram comparadas com imagens antigas da região. “Os manguezais da Amazônia brasileira são os maiores e mais bem conservados manguezais do planeta”, explica Pedro Walfir Martins e Souza Filho, autor correspondente do trabalho. Trata-se de área de 7820 km², com planícies de maré vegetadas que têm cerca de 30 a 40 quilômetros de largura, descreve o pesquisador do ITV. Além de florestas, a área estudada também conta com a presença de planícies salinas conectadas ao manguezal, conhecidas como apicuns.

A região de Bragança, no Pará, concentra pontos de degradação mapeados pelo estudo devido à construção de da Rodovia PA-458, que corta o manguezal por 26 quilômetros, aponta Souza Filho. Por outro lado, observa o pesquisador, a estrada construída entre as décadas de 70 e 80 permitiu maior acesso dos pesquisadores à região, gerando mais conhecimento sobre geoquímica, biodiversidade e conservação desses ecossistemas.

O apicum é a menor porção da área estudada, correspondendo a 12 km² ou 0,15% do total, mas é proporcionalmente mais afetada pela ação humana, que já atingiu mais de 2% dessas áreas salgadas. Souza Filho relata que a vegetação nesses locais é escassa por conta do sal. Assim, o apicum é muito usado para aquacultura, que envolve atividades como a criação de peixes e camarões em tanques. “Já no manguezal, temos uma floresta de 20 metros de altura, então é mais difícil fazer uso desta área em meio a extensos depósitos de lama”, observa.

O pesquisador lembra que o Código Florestal de 2012 permite o uso do apicum, enquanto manguezais são considerados áreas de preservação permanente. O artigo frisa que a preservação dessas florestas também pode ser explicada por fatores como a presença de unidades de conservação ao longo da costa, incluindo 12 reservas extrativistas, e a baixa densidade populacional na região, relacionada à ausência de infraestruturas como estradas e redes de transmissão de energia elétrica.

Souza Filho destaca que o objetivo dos pesquisadores é avaliar o estado de conservação dos manguezais em todo o planeta, já que a literatura tem apontado grandes alterações em manguezais da Índia, Bangladesh e Nova Guiné. “Partimos então da hipótese de que os manguezais da Amazônia precisam de uma política especial para que permaneçam nesse estágio de conservação e que não se permita o avanço da degradação como vem ocorrendo em outros lugares do mundo”, completa o autor.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Apesar da perda de habitat, mais onças estão habitando o Parque Nacional do Iguaçu

As populações de grandes felinos se recuperaram um pouco em torno das Cataratas do Iguaçu no Brasil e na Argentina

onça pniCom a ajuda de armadilhas fotográficas, foi possível contar as onças-pintadas na Mata Atlântica. Foto: Projeto Yaguareté (CeIBA-CONICET)

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

O Parque Nacional do Iguaçu, no estado do Paraná, no sul do Brasil, é famoso por ter as maiores cachoeiras de mesmo nome do mundo. Cerca de dois milhões de turistas visitam anualmente o parque nacional na fronteira com a Argentina. O que é menos conhecido é que abriga um dos últimos grandes remanescentes da Mata Atlântica rica em espécies e, portanto, um importante refúgio para a onça-pintada, ameaçada de extinção neste biomaO número de onças no santuário mais do que dobrou no ano passado em comparação com 2009. Em números absolutos, ainda existem apenas cerca de 25 animais perambulando pelo santuário. Esse foi o resultado de um estudo divulgado em junho pelos projetos de proteção à onça-pintada “Yaguareté”, na Argentina, e “Onças do Iguaçu”, no Brasil.

Há 20 anos, os dois projetos monitoram as mudanças na população do maior felino da América do Sul nas áreas transfronteiriças da Mata Atlântica nos rios Paraná, Iguaçu e Uruguai. Com o apoio da Fundação Vida Silvestre Argentina, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) e de instituições estatais de conservação da natureza, realizaram no ano passado o censo de onça-pintada mais completo até hoje.

A área de estudo, com área total de 582.123 hectares, inclui a província de Misiones, no nordeste da Argentina, e as duas unidades de conservação brasileiras adjacentes, o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, com 185.262 hectares, e o Parque Estadual do Turvo, com área de 17.491 hectares no Rio Grande do Sul . Os pesquisadores de grandes felinos colocaram armadilhas fotográficas em 224 locais selecionados, que são ativados por sensores sensíveis à temperatura e ao movimento.

Um dos grandes felinos tímidos, que chegava a 2,50 metros de comprimento e pesava 140 quilos, caiu em uma das armadilhas um total de 3.763 vezes durante o período do estudo. Como os animais podem ser distinguidos pelo padrão de suas manchas de pelo, como as pessoas por suas impressões digitais, os pesquisadores puderam contar o número de indivíduos fotografados e, usando modelos matemáticos, calcularam o tamanho provável da população de grandes felinos na região. .

Os resultados mostram que no ano passado havia entre 72 e 122 onças em Misiones com 95% de certeza, dando uma população média de 93. A população se estabilizou em um nível entre 90 e 100 indivíduos desde 2016, após um declínio drástico no início do século XXI na província do nordeste argentino.

“Considerando que tínhamos apenas cerca de 40 onças em Misiones em 2005, podemos supor que as medidas de conservação desta espécie trouxeram bons resultados”, comenta Agustín Paviolo, coordenador do projeto “Yaguareté”. “No entanto, a ameaça aos grandes felinos permanece latente e, em alguns casos, crescente, por isso precisamos redobrar nossos esforços para salvar as espécies da extinção”.

Biólogos identificaram de 19 a 33 onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu, no Brasil. Em comparação com 2009, quando apenas nove a onze gatos-pintados foram contabilizados e a espécie estava ameaçada de extinção local, a população na área protegida pelo menos se recuperou, de acordo com o estudo.

Segundo estimativas dos cientistas, entre 1990 e 1995 viveram entre 400 e 800 onças-pintadas na região de estudo, 164 delas na Unidade de Conservação do Iguaçu. As principais causas dodeclínio na população de grandes felinos desde 1995 houve a perda de habitat, a maior fragmentação das áreas florestais devido à construção de estradas e os acidentes de trânsito associados, bem como o tiro ilegal dos predadores e a caça excessiva de sua presa mais importante, os queixadas. Essa espécie, também conhecida como queixada, foi considerada extinta no Parque Nacional do Iguaçu em 1996. Somente em 2016 os pecaris retornaram à área, o que os pesquisadores acreditam ter tido um impacto positivo na população de onças-pintadas do Iguaçu. Eles supõem que cerca de 250 a 300 onças vivam ainda em toda a área da Mata Atlântica.

A Mata Atlântica, chamada de Mata Atlântica no Brasil, é um dos ecossistemas de maior biodiversidade da Terra, que já se estendeu por cerca de 1,4 milhão de quilômetros quadrados do norte da Argentina e Paraguai ao nordeste do Brasil. A Mata Atlântica no Brasil está sob proteção rigorosa, pelo menos no papel, desde 1993. Mesmo assim, cerca de 90% da Mata Atlântica brasileira já foram destruídos. E o desmatamento continua.

Segundo relatório divulgado em maio pela organização ambiental SOS Mata Atlântica, mais de 20.000 hectares de Mata Atlântica no Brasil foram queimados ou desmatados em 2022. Embora grande parte do crime florestal tenha ocorrido de forma ilegal, a Mata Atlântica do Paraná também está sendo atacada legalmente, até mesmo em nome do turismo de natureza: para que ainda mais “turistas da natureza” possam visitar a Unidade de Conservação do Iguaçu, que foi privatizada desde 1998, de carro , o governo para dobrar a largura da única estrada de acesso em uma distância de 8,7 quilômetros. Centenas de árvores já foram derrubadas para esse fim. Não houve resistência à expansão rodoviária, nem em Brasília nem no estado do Paraná, cuja principal fonte de renda é o turismo de massa de Iguaçu.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!]

Estudo na Science destaca a importância de terras privadas para a conservação da biodiversidade no cerrado brasileiro 

Material publicado na Science mostra que áreas reservadas dentro de propriedades privadas podem acomodar até 14,5% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas

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Um novo estudo publicado na revista Science desta semana destaca que terras privadas no cerrado brasileiro desempenham um papel vital na proteção de espécies ameaçadas de vertebrados. O estudo mostra que áreas de reserva legal e proteção permanentes das propriedades rurais privadas podem acomodar entre 14,5% e 30% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas, nesse último caso, se for considerado apenas o habitat remanescente atual dessas espécies. É importante destacar que o cerrado é um bioma prioritário global para a conservação da biodiversidade.

O artigo é um trabalho conjunto escrito por pesquisadores da UFG, IBAMA, UnB, a ONG Aliança da Terra, a Universidade de Alcalá na Espanha e a Kansas State University nos EUA. A equipe de pesquisa também desenvolveu um modelo de priorização para identificar áreas onde investimentos em restauração em terras privadas poderiam trazer melhores retornos para a conservação da biodiversidade. O estudo sugere que a região Sudeste, grande centro econômico no Brasil, deve ser uma área prioritária para tais investimentos.

O Código Florestal Brasileiro inclui disposições para áreas de reserva legal dentro de propriedades privadas, mas sua relevância para a conservação nunca foi avaliada adequadamente. O estudo destaca o potencial das terras privadas para a conservação da biodiversidade, apesar dos conflitos de uso da terra e dos desincentivos econômicos frequentemente associados a tais esquemas.

O estudo ainda fornece insights importantes para formuladores de políticas públicas, proprietários de terras e conservacionistas sobre a importância de terras privadas na promoção de paisagens amigáveis à biodiversidade e na manutenção do fluxo de serviços ecossistêmicos. Os resultados também enfatizam a necessidade de avaliação contínua e melhoria dos quadros legais para garantir a conservação efetiva de espécies ameaçadas e seus habitats.

Leia o artigo na íntegra.

Vegetação das montanhas de granito carece de proteção ambiental; flora da Caatinga é a mais vulnerável

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Foto: Luísa Azevedo

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Montanhas de granito, como o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, apresentam vegetações bastante distintas de acordo com cada bioma. A flora dessas montanhas da Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga foi o tema de um novo estudo publicado na sexta (29) no periódico “Frontiers in Plant Science” por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável e de outras instituições parceiras. Das 50 áreas analisadas, apenas 16 estão em áreas de proteção: 9 na Amazônia e 7 na Mata Atlântica. O estudo chama atenção para um dado preocupante: todas as 25 áreas estudadas na Caatinga estão em locais sem proteção ambiental.

Esse é o primeiro estudo até o momento com o objetivo de compreender as vegetações que crescem nas rochas e compará-las em diferentes biomas da América do Sul. A pesquisa liderada pelo biólogo Rafael Gomes Barbosa-Silva durou quatro anos realizando expedições de campo para coletar amostras de plantas e consultando o acervo de diversos herbários. Além disso, houve a compilação de informações da flora de outros biomas por meio da análise de dados já publicados. Para a análise, foram considerados 50 inselbergs – nome técnico para as montanhas de granito: 11 na Amazônia, 14 na Mata Atlântica e 25 na Caatinga. Ao todo, 2193 espécies foram identificadas em 4397 ocorrências nos três biomas.

“O resultado mostra o quão única e fascinante é a flora de cada um desses afloramentos graníticos. Assim, o entendimento de que as montanhas de granito possuem floras distintas conforme o bioma onde ocorrem nos mostra direções para conservação”, explica Barbosa-Silva, primeiro autor do artigo. Ele também afirma que os biomas influenciam a paisagem única das rochas – o que gera a beleza destes cenários: “São áreas que atraem muitas vezes o interesse para o lazer e o turismo, como o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, a Serra Grande, próximo de Boa Vista ou a Pedra da Harpia, na Floresta Nacional de Carajás”.

Diante da inexistência de proteção às áreas estudadas na Caatinga, os pesquisadores entendem que é urgente discutir a preservação das vegetações rochosas do bioma. “Inselbergs são vistos com frequência como fontes de rochas comerciais e podem se degradar por meio da destruição do ambiente ao redor”, alertam os especialistas no artigo. 

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Coleta no inselberg amazônico da Pedra da Harpia, na Floresta Nacional de Carajás. Foto: Rafael Gomes Barbosa-Silva Tereza Giannini, também autora do estudo, comenta a importância de entender a flora que ocorre nas áreas estudada: “Muitas áreas naturais, especialmente na Amazônia, foram pouco inventariadas e, portanto, são ainda pouco conhecidas. Programas efetivos de proteção e conservação precisam ser embasados em conhecimento científico, e por isso esse tipo de pesquisa tem um papel tão importante”, avalia a pesquisadora.

A partir da publicação, surgem novas perguntas e possibilidades de próximas pesquisas: Barbosa-Silva questiona como a flora dessas rochas está ameaçada pelas mudanças climáticas, visto que as plantas crescem diretamente nas rochas, com pouco ou nenhum solo, com retenção de água quase nula. Além disso, os pesquisadores sugerem o uso de tecnologias, como drones, para entender a relação entre geomorfologia e condições climáticas no surgimento da flora nas montanhas de granito.


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Este texto foi originalmente produzido e publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Fome através da conservação?

Uma expansão maciça de áreas protegidas não apenas limita a produção de alimentos, mas também pode expulsar os povos indígenas

modern agricultureAo contrário da agricultura moderna, os povos indígenas também usam ecossistemas ricos em espécies sem transformá-los em monoculturas em grande escala. Isso é muitas vezes esquecido na criação de áreas protegidas. Foto: http://www.kit.edu

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Na Conferência de Biodiversidade da ONU em Kunming, em abril próximo, novas metas de biodiversidade devem ser decididas. Uma das medidas propostas é a duplicação das áreas de proteção da natureza existentes em todo o mundo em pelo menos 30 por cento das áreas terrestres e marítimas até 2030. 50 países já aderiram a esta meta de proteção de espécies exigida pela Aliança Internacional para a Biodiversidade (High Ambition Coalition para a Natureza e as Pessoas), incluindo a França e a Alemanha. Mas se essa medida for realmente implementada, pode colocar em risco a segurança alimentar em grandes partes do mundo, alertam pesquisadores da Escócia, Alemanha, Áustria e EUA. Os problemas existentes seriam exacerbados, especialmente nas regiões pobres do Sul Global.

O estudo publicado recentemente na revista “Nature” examina dois cenários: no primeiro cenário, 30% da área terrestre global será protegida até 2040, no segundo cenário 50%. Os pesquisadores assumem que nenhuma atividade humana, como agricultura ou turismo, é permitida nas áreas protegidas. Portanto, a agricultura não seria mais possível em muitas áreas de cultivo – com consequências negativas para a produção global de alimentos, à medida que a população continua a crescer.

De acordo com o estudo, a expansão das áreas de proteção da natureza leva a uma intensificação da produção agrícola nas áreas remanescentes, o que resultaria no aumento dos preços dos alimentos. O consumo de frutas e vegetais diminuiria e, em geral, o número de pessoas com baixo peso aumentaria em diferentes regiões do mundo.

Os pesquisadores calcularam que isso levaria à escassez de alimentos e a mais 200.000 mortes por desnutrição em regiões de baixa renda, como o sul da Ásia e a África subsaariana. A implementação rigorosa de medidas de proteção prejudica a segurança alimentar e a saúde humana, especialmente nas “regiões mais vulneráveis ​​do mundo”, escreve a equipe de cientistas.

Por outro lado, países mais ricos, como os EUA ou os estados da União Europeia, seriam amplamente poupados dos efeitos negativos. Pelo contrário, nesses países, reduzir o consumo de calorias por meio de preços mais altos dos alimentos reduziria os efeitos negativos do sobrepeso e da obesidade.

De acordo com Matin Qaim, Diretor do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn, a contribuição mais importante do estudo é »a identificação de potenciais objetivos conflitantes entre a segurança alimentar global e a proteção da biodiversidade, porque a expansão das áreas de terra para a produção de alimentos é o maior assassino da biodiversidade natural.”

No entanto, o estudo não se opõe de forma alguma ao plano de colocar a maior área possível sob proteção da natureza. “A designação de áreas protegidas é um dos instrumentos mais importantes para atingir as metas de biodiversidade. No entanto, deve ser implementado com cuidado para garantir que não coloque em risco a segurança alimentar e a saúde da população, especialmente nas regiões mais pobres do mundo”, explica a principal autora do estudo, Roslyn Henry, da Universidade de Aberdeen.

De acordo com Martin Jung do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) em Laxenburg perto de Viena, que também trabalhou no estudo, deve-se notar que medidas muito radicais também podem levar a efeitos indesejáveis. É necessária uma ampla cooperação para implementar a conservação da natureza de forma significativa em cada região.

No entanto, a pesquisa feita usando modelos socioecológicos acoplados está em terreno instável. Baseia-se em apenas dois pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que a proteção de paisagens ricas em espécies leva automaticamente a uma redução das terras agrícolas. E em segundo lugar, que o consequente aumento dos preços dos alimentos levará a uma mudança nos hábitos alimentares das pessoas nos países “mais ricos” do norte e nos países “mais pobres” do sul.

Mas se, por exemplo – como exigem muitos ambientalistas e climáticos – todas as florestas tropicais ricas em espécies remanescentes na Amazônia e as áreas ainda não destruídas do Cerrado no Brasil fossem declaradas como reservas naturais, isso não levaria a uma redução nas terras agrícolas. Protegê-los apenas evitaria que esses hotspots de biodiversidade fossem derrubados para a expansão da pecuária ou cultivo de soja, ou fossem desenterrados para extração de minério e matéria-prima. O mesmo se aplica às florestas tropicais ainda não desmatadas da África Central, Sul da Ásia, Nova Guiné e região do Pacífico.

O estudo também não leva em consideração a preocupação de que a expansão dos parques naturais e nacionais possa levar ao deslocamento, empobrecimento e até mesmo genocídio de povos indígenas ou outros grupos populacionais que tradicionalmente vivem nessas áreas. Uma preocupação que encontra alimento na prática dos conceitos de parques nacionais existentes. Lisa Biber-Freudenberger, da ZEF, reclama que os autores do estudo assumem que as áreas protegidas não são mais usadas por humanos. Mas “a abordagem de criar áreas protegidas sem envolver a população local certamente teve seu dia”.

De acordo com a High Ambition Coalition for Nature and People, as novas reservas naturais devem ser criadas “enquanto reconhecem os direitos dos povos indígenas”, mas as organizações de direitos humanos consideram isso um palavrão que, em última análise, não é implementado ou implementado de forma insuficiente. Por esse motivo, organizações como Survival International e Minority Rights Group vêm alertando contra a implementação da meta de 30% exigida pelos conservacionistas conservadores desde 2020.

A expansão e a criação de novos santuários de vida selvagem podem resultar em graves abusos dos direitos humanos e causar danos irreversíveis a alguns dos mais pobres do mundo, disse a Survival International. “Até 300 milhões de pessoas podem ser afetadas se os direitos dos povos indígenas e dos proprietários tradicionais não forem significativamente mais bem protegidos.” poderia até acelerar a destruição ambiental. O “plano 30 × 30” é uma abordagem fundamentalmente errada para a conservação da natureza porque se baseia em um conceito de deserto que exclui os seres humanos com base no qual numerosos povos indígenas já foram vítimas no passado.

“A exigência de declarar 30% das ‘reservas naturais’ do mundo é de fato uma gigantesca apropriação de terras, comparável à colonização européia. Também trará muito sofrimento e morte”, teme Stephen Corry, diretor da Survival International. “Não devemos ser enganados pelo hype sobre as ONGs de conservação da natureza e seus financiadores governamentais.” É tudo sobre dinheiro, controle de terras e recursos e um ataque à diversidade cultural.

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Este texto foi escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

‘Te conto de um parque’, novo podcast do Semeia, conduz a uma viagem pelos parques do país embalada por literatura e música

Iniciativa visa ampliar a proximidade das pessoas com as áreas protegidas do país

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O Instituto Semeia acaba de lançar o podcast “Te conto de um parque”, produzido com o apoio da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ – Brasil). Cada episódio contará com informações sobre aspectos históricos, culturais e naturais de diversas áreas protegidas do país, e tudo isso embalado por trechos de obras da literatura e música brasileira, além de relatos de profissionais que se dedicam à conservação desses espaços.

A iniciativa surgiu com o propósito de estimular o interesse das pessoas pelos parques brasileiros, ainda pouco conhecidos e visitados por boa parte da população. “O ‘Te conto de um parque’ vem para ampliar a compreensão das pessoas sobre o que essas áreas realmente significam, promovendo a criação e o fortalecimento de laços afetivos com os parques. E por toda a relevância ambiental, social e cultural das unidades de conservação para a sociedade, entendemos ser fundamental criar iniciativas como essa, que ajudem a estimular interesse, gerar pertencimento e orgulho pelos parques e outras áreas protegidas”, explica o diretor-presidente do Instituto, Fernando Pieroni.

A primeira temporada do podcast contará com seis episódios, lançados às sextas-feiras nas principais plataformas de áudio (Spotify e Deezer) e no Conexão Semeia. A condução dessa expedição pelos parques fica por conta da jornalista Paulina Chamorro.

“É importante que a gente conheça as áreas naturais conservadas do Brasil para entendermos que aquilo é um patrimônio de todos nós e também para ajudar a entender os novos desafios que temos pela frente, como as mudanças climáticas, perda de biodiversidade e outras ameaças. São nesses ambientes conservados que estão resguardados todos os benefícios que a natureza oferece coletivamente. Então, o ‘Te conto de um parque’ vem para encantar, para trazer conhecimento e contribuir com histórias legais sobre os parques brasileiros”, avalia a jornalista.

A estreia do podcast foi sobre o Cerrado. “Partimos com as histórias e curiosidades do Parque Nacional Grande Sertão Veredas (MG), cujo nome é inspirado no livro de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros”, conta Pieroni. Não por acaso, esse episódio traz alguns trechos dessa obra que dá nome à unidade na voz de André Dib, um dos principais fotógrafos documentaristas do Cerrado brasileiro.

Do Cerrado, a viagem segue para o Arquipélago de Abrolhos (BA), protagonista do segundo episódio do podcast. Nele, mergulhamos nos relatos sobre a origem natural e cultural dessa área protegida – incluindo a ilustre visita de Charles Darwin ao arquipélago, em 1832 –, além de conhecer a história de Berna Barbosa, agente ambiental que há duas décadas se dedica à conservação dessa unidade.

Na sequência, o “Te conto de um parque” adentra o Pantanal Matogrossense (MT), tema do terceiro episódio da série. Quais animais habitam o local e como se deu sua formação geológica? Esses e outros causos sobre a terra d’água são abordados nesta edição do podcast, que conta ainda com trechos do novo livro de Luciano Candisani, narrados por André Casé.

O quarto episódio é dedicado ao Parque Estadual da Cantareira (SP), que possui uma das maiores matas tropicais nativas do mundo em plena São Paulo. As histórias da criação e a importância dessa unidade, que abriga 7.916 hectares da Mata Atlântica, são embaladas por canções do Emicida, cidadão ilustre da região. Ainda nesta edição é possível conferir uma entrevista especial com o biólogo Luciano Zandoná.

Também não poderia faltar nessa temporada a história do primeiro parque nacional do país. O Itatiaia (RJ) é tema do quinto episódio do podcast ‘Te conto de um parque’. Esse guardião da Mata Atlântica atrai milhares de visitantes todos os anos e sua exuberância foi motivo de comoção para o poeta Vinícius de Moraes, que fez dessa área seu refúgio natural para escrever e se reconectar com a natureza.

E, para fechar com chave de ouro, o sexto e último episódio traz em pauta o Parque Nacional do Iguaçu (PR), patrimônio natural da humanidade. Que registros históricos e culturais estão abrigados nessa área? E como é o parque a partir do ponto de vista de quem trabalha nele? Essas questões foram abordadas em uma entrevista especial com Cibele Munhoz, atual chefe dessa unidade de conservação.

Serviço

“Te conto de um parque”

Data: às sextas

Onde: https://conexao.semeia.org.br/podcast

Sobre o Instituto Semeia

Criado em 2011, o Instituto Semeia é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos. Com sede em São Paulo (SP), trabalha para transformar áreas protegidas em motivo de orgulho para brasileiras e brasileiros. Atua nacionalmente no desenvolvimento de modelos de gestão e projetos que unam governos, sociedade civil e iniciativa privada na conservação ambiental, histórica e arquitetônica de parques públicos e na sua transformação em espaços produtivos, geradores de emprego, renda, e oportunidades para as comunidades do entorno, sem perder de vista sua função de provedores de lazer, bem-estar e qualidade de vida. São pilares de sua atuação: a geração e sistematização de conhecimento sobre a gestão de unidades de conservação; o compartilhamento de informações por meio de publicações e eventos; a implementação e o acompanhamento de projetos com governos de todos os níveis, como forma de testar e consolidar modelos eficientes e que possam ser replicados no país.

Chega de “selva”: Para proteger a biodiversidade, os povos indígenas e o uso tradicional da natureza são necessários

povos indigenasFoto: dpa | Dean Lewins

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

»Proteja a natureza!« Dificilmente existe um termo tão frequentemente usado em conexão com a natureza e a biodiversidade e ao mesmo tempo que é tão enganador como »natureza selvagem«. Apesar de numerosos estudos científicos que apontam para a influência e conhecimento dos povos indígenas, o “pensamento selvagem” ainda está firmemente ancorado nas mentes de pesquisadores e conservacionistas ocidentais, como o mundialmente famoso cineasta britânico de natureza David Attenborough. Um novo estudo confirma mais uma vez que este termo é um equívoco e exige uma reformulação.

A natureza selvagem representa uma natureza virgem e intocada, uma paisagem sem pessoas. »Apesar de décadas de engajamento crítico de observadores indígenas e não indígenas, as principais organizações não governamentais internacionais, filantropos, instituições globais e estados-nação mantêm essa noção de paisagens intocadas como áreas selvagens em ideais e práticas de conservação da natureza. Ao fazer isso, a política de conservação da natureza global predominante e a percepção pública ainda não reconheceu que os povos indígenas há muito valorizam, usam e projetam paisagens de alta qualidade e biodiversas «, escrevem os cientistas naturais e sociais Michael-Shawn Fletcher, Rebecca Hamilton, Wolfram Dressler e Lisa Palmer das Universidades de Melbourne, Canberra e do Instituto Max Planck de História Humana em Jena.

Além disso, a exclusão de pessoas de muitos desses lugares sob o pretexto de proteção da selva piorou seu status ecológico e acelerou a destruição de paisagens ricas em espécies. “A natureza selvagem é uma construção inadequada e desumana”, resume a equipe de pesquisa. De uma forma que só pode ser descrita como uma ironia amarga, a definição de territórios indígenas como “selva” acelera seu declínio. A conservação da natureza destrói o que ela realmente quer proteger.

Para seu estudo, publicado no início de outubro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os pesquisadores avaliaram mais de 50 estudos de caso anteriores em regiões tropicais que os cientistas com experiência em conservação da natureza e biodiversidade retratam como “natureza selvagem”. “Em nosso trabalho, examinamos três regiões: Amazônia, Sudeste Asiático e Pacífico e os desertos centrais da Austrália”, escreve a equipe de pesquisa. Todas as áreas que foram mapeadas como “desertos” na suposta busca pelos últimos lugares silvestres.

De acordo com os pesquisadores, as regiões tropicais são mais frequentemente vistas como paisagens intocadas ou pouco influenciadas no pensamento ocidental de conservação da natureza. Mas, na verdade, eles foram “profundamente moldados por humanos e ainda são habitados e usados ​​por vários povos indígenas”. O cultivo itinerante milenar promoveu ativamente a biodiversidade em uma escala de paisagem nessas regiões e, ao mesmo tempo, garantiu o sustento de milhões de povo indígena.

Por exemplo, a Amazônia foi um centro de domesticação de mais de 80 espécies de lavouras. Ao criar e cultivar esses tipos de culturas, os povos indígenas tiveram uma influência considerável na composição e estrutura dos solos e florestas. A biodiversidade lá também é resultado disso. Semelhante no sul e sudeste da Ásia. Lá, o cultivo itinerante praticado por milhares de anos com a alternância de derrubada, queima e pousio provavelmente desempenhou um papel importante no desenho, estrutura e resiliência das florestas tropicais.

Segundo a equipe de cientistas, a região do mundo que há mais tempo é continuamente influenciada pelos povos indígenas são as regiões áridas da Austrália. Longe de ser uma das “últimas regiões selvagens” da terra, os Desertos Ocidentais da Austrália são o lar ancestral de vários povos aborígines que amam e usam essas paisagens há milênios. A equipe de pesquisa conclui que “o deslocamento de proprietários de terras tradicionais na década de 1960 teve efeitos catastróficos tanto nas pessoas quanto na terra”. Os incêndios florestais descontrolados e a perda de biodiversidade são duas das consequências mais significativas.

“A Austrália está enfrentando atualmente uma série de crises ambientais”, disse o principal autor Michael-Shawn Fletcher, da Universidade de Melbourne. “Estamos experimentando uma das maiores taxas de perda de biodiversidade do mundo, que começou com a invasão britânica e continuou rapidamente desde então, e agora está sendo exacerbada pelos efeitos das mudanças climáticas.” Além disso, incêndios florestais catastróficos, especialmente no sul -Neste, estão aumentando, e estão se tornando mais frequentes e intensas em áreas maiores.

O geógrafo aborígine Wiradjuri está certo de que esses problemas ambientais na Austrália foram causados ​​pelos efeitos devastadores e contínuos da invasão britânica e subsequente colonização do continente australiano. Por 1,7 milhão de anos, a evolução humana esteve inextricavelmente ligada ao fogo, diz Fletcher. “O fogo foi e ainda é nossa ferramenta mais importante no paisagismo.” É assim que os aborígines administraram com sucesso as paisagens australianas com fogo por mais de 65.000 anos e acumularam conhecimento inestimável. Em contraste com a ideologia ocidental usual de conservação da natureza, os aborígines na Austrália viam a “terra selvagem”, isto é, a selva como uma “terra doente”, terra que foi degradada devido à falta de cuidado e uso. É precisamente esta falta de gestão tradicional do fogo e uso insuficiente do solo, desencadeada pela destruição física e deslocamento da população indígena pela colonização britânica, bem como o contínuo desconhecimento de seus conhecimentos devido a uma conservação da natureza mal compreendida, são as principais causas de conflagrações atuais e perdas de biodiversidade. Fletcher está convencido de que a ideologia da selva está destruindo a natureza da Austrália.

“Nossa pesquisa mostra que tentar distinguir o ‘selvagem’ do ‘ domesticado e o ‘não-humano’ do ‘humano’ revela o legado longo e duradouro das populações indígenas e locais no desenho e proteção de paisagens ignoradas em todo o mundo, «diz a paleoecologista da conservação da natureza do Instituto Max Planck de História do Homem em Jena, Rebecca Hamilton. Essa ignorância tem o potencial de destruir as pessoas e os profundos sistemas de conhecimento que fomentaram o funcionamento a longo prazo e a resiliência da biodiversidade ao longo de milênios. Isso destruirá o que a conservação da natureza realmente deseja proteger.

Para o aborígine Fletcher da Universidade de Melbourne, “os incêndios florestais catastróficos e a degradação ambiental que agora ocorrem na Austrália, na América do Norte e na Amazônia, entre outros – são todos países que foram invadidos e colonizados pelos europeus – pelo menos em parte, que Resultado da expulsão de indígenas e locais, cujos saberes e ações levaram justamente àquelas paisagens que queremos preservar. «As abordagens de gestão fundiária exportadas da Europa fracassaram em todo o mundo. Uma coisa é clara para o geógrafo: “Devemos abandonar a metáfora da selva e o mito de que a ciência é uma busca objetiva. Temos que considerar e incorporar outras perspectivas do mundo se quisermos sobreviver neste planeta. “

Fletcher e seus coautores confirmam minhas próprias experiências jornalísticas dos anos 1990 com povos indígenas no Brasil e em Papua Nova Guiné, que resumi há exatamente 20 anos em seu livro »Mythos Wildnis«, publicado em 2001 pela Schmetterlingverlag.

Um dos povos indígenas do Brasil que foi vítima do conceito de conservação da natureza adotado pelo estado brasileiro são os Gurani-Mbyá, cujo território ancestral é a Mata Atlântica. Eles são um dos poucos povos da América do Sul que colonizaram o Sul e o Sudeste do Brasil por 500 anos sobreviveram em sua terra natal. Grandes áreas de seu território foram desmatadas ao longo dos séculos, principalmente para plantações de café e cana-de-açúcar, bem como para a pecuária e o crescimento das cidades. Mas foi somente quando o restante das áreas da Mata Atlântica foram colocadas sob proteção como parques nacionais e áreas protegidas na década de 1970 que eles perderam seu habitat tradicional. Hoje os Guarani-Mbyá vivem em minirreservas na “orla” das reservas naturais e só podem entrar em seu território como “turistas da natureza”.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].