Estudo defende proteção legal para áreas ao redor de terras indígenas na Amazônia

Desmatamento no entorno do Vale do Javari, que abriga a maior concentração mundial de povos indígenas isolados, foi 187,5 vezes maior que dentro da TI em 2022

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização. Foto: Gabriel de Oliveira & Erin Koster / Acervo Pesquisadores 

A Terra Indígena (TI) Vale do Javari evidencia uma dinâmica preocupante na Amazônia: enquanto a floresta permanece preservada dentro do território demarcado, o desmatamento avança rapidamente em seu entorno. Em 2022, a perda florestal na zona de amortecimento (uma faixa de 200 km ao redor da TI) foi 187,5 vezes maior do que o observado dentro da TI.

Ainda que o desmatamento anual tenha diminuído no entorno do Vale do Javari em 2023 e 2024, os níveis ainda são superiores aos das décadas anteriores. Por isso, a proteção legal para zonas de amortecimento, aplicada para limitar as atividades humanas nas proximidades das unidades de conservação em geral — como os parques nacionais e reservas extrativistas — deve ser estendida também às terras indígenas.

A análise está em publicação na revista Nature Sustainability, assinada por pesquisadores de instituições nacionais, como INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e internacionais, além do líder indígena Beto Marubo. Os autores reúnem dados de desmatamento do PRODES/INPE (Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia Legal) e de cobertura florestal e mudanças de uso da terra a partir da plataforma MapBiomas.

O artigo observa que mudanças na legislação e a invasão de territórios para atividades como mineração, tráfico de animais silvestres e exploração ilegal de madeira e pesca ameaçam a integridade dos povos indígenas e seus modos de vida. Porém, mesmo com essas ameaças, as TIs da Amazônia prestam serviços ecossistêmicos e garantem a subsistência tanto de povos que interagem com grupos externos como daqueles que decidiram viver isolados em suas comunidades.

Localizada em 8.544.482 hectares no oeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a TI Vale do Javari é a segunda maior do Brasil. É lar de cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor — Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina –, dois de contato recente — Korubo e Tsohóm-Djapá –, além de pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário, a maior concentração mundial de povos isolados. Demarcada em 2001, ganhou atenção internacional em 2022 por conta do assassinato do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização e do combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas vizinhas às terras indígenas. No Vale do Javari, a prioridade, afirmam, é conter novas ocupações e atividades ilegais, como caça comercial e pesca predatória.

“Coibir a ocupação irregular, inclusive removendo os ocupantes ilegais, é importante em toda a Amazônia brasileira. Como há limitações de orçamento, pessoal e capacidade de fiscalização, essa atuação deve ter prioridade nas áreas próximas às terras indígenas”, afirma Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do estudo, liderado por Gabriel de Oliveira, da Universidade do Sul do Alabama (EUA). Essa proteção, observam, é ainda mais importante para os povos isolados, que não conseguem acionar autoridades, organizações da sociedade civil ou a imprensa quando seus territórios são invadidos.


Fonte: Agência Bori

Publicação reúne exemplos de políticas públicas que unem ciência e conservação do oceano

Persistem barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão.

As políticas públicas são um instrumento essencial para transformar a relação da sociedade brasileira com o oceano – e as evidências científicas participam de todas as etapas de construção dessas políticas, desde a identificação dos problemas que exigem intervenção do Estado até o planejamento e a execução de ações que beneficiem a natureza e a população local. Para que o processo seja inclusivo e eficiente, é fundamental que o poder público assegure, ainda, a participação das comunidades impactadas na tomada de decisões. 

Exemplos dessa dinâmica são o Pagamento por Serviços Ambientais e o seguro-defeso. O primeiro instrumento remunera pessoas e grupos por ações de conservação e recuperação ambiental, incentivando a continuidade de modos de vida sustentáveis, sobretudo entre povos e comunidades tradicionais. Já o segundo é um benefício pago a pescadores durante períodos de restrição à atividade, definidos com base em dados científicos como épocas de desova, padrões de migração e importância ecológica das espécies.

Essa análise integra a publicação “Uma introdução às políticas públicas para o oceano no Brasil”, lançada na quarta (22) por pesquisadores da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e do Programa de Políticas Públicas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. O livro explica diferentes tipos de políticas públicas, principais atores envolvidos na sua implementação e exemplos de iniciativas voltadas à proteção do oceano no Brasil.

Segundo a oceanógrafa e pesquisadora Monique Torres Queiroz, uma das organizadoras, trata-se de um material didático pensado inicialmente para aproximar estudantes de graduação e pós-graduação em Oceanografia no Brasil de conceitos sobre gestão marinha. “Embora o curso seja tradicionalmente estruturado em quatro grandes áreas, biologia, física, geologia e química, sentimos falta de conteúdos que expliquem como o oceano e a zona costeira são governados e como as decisões sobre esses ambientes são tomadas”, contextualiza. Ao apresentar essa discussão em uma linguagem simplificada, porém, a equipe avalia que a publicação pode alcançar outros atores interessados no tema – de cientistas a gestores públicos.

Com um litoral de mais de 10 mil quilômetros e muitas atividades econômicas vinculadas ao mar, como turismo, pesca e transporte, o país ainda vê barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão – ocupados por setores com maior capacidade de organização, recursos e influência, segundo avalia Torres.

Para a pesquisadora, é necessário ampliar o acesso à informação, além de incluir e empoderar esses grupos na implementação das políticas públicas. “São justamente essas populações que convivem diariamente com o ambiente costeiro e acumulam conhecimentos fundamentais para a construção de políticas públicas mais justas e eficazes, porque conhecem as problemáticas e sentem as consequências das políticas tomadas”, observa.

A publicação dialoga com a Década do Oceano, iniciativa da ONU realizada até 2030 para conscientizar a sociedade sobre a contribuição da ciência oceânica nas ações de desenvolvimento sustentável.

Torres explica que as políticas apresentadas no material já contam com participação consolidada da comunidade científica desde o diagnóstico de problemas até a avaliação dos resultados, passando pela elaboração e implementação. “Ainda assim, existe espaço para ampliar a incorporação do conhecimento científico, especialmente por meio de sistemas de monitoramento contínuo, indicadores socioambientais e da integração entre ciência e conhecimentos locais. Quando pesquisadores, gestores e comunidades trabalham de forma articulada, as políticas públicas tendem a ser mais bem fundamentadas e adaptativas”, finaliza a pesquisadora.


Fonte: Agência Bori

A perda global de florestas tropicais continua a uma taxa de 10 campos de futebol por minuto

Apesar dos grandes progressos no Brasil e na Colômbia, o desmatamento liderado pela agricultura ainda desmatou uma área quase igual à da Suíça

desmatamentoFloresta queimada na área de conservação Ñembi Guasu em Charagua, Bolívia. A expansão do cultivo da soja levou a um aumento na perda florestal pelo terceiro ano na Bolívia. Fotografia: David Mercado/Reuters

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

A destruição das florestas tropicais mais preservadas do mundo continuou a um ritmo implacável em 2023, apesar das quedas dramáticas na perda de florestas na Amazónia brasileira e colombiana, mostram novos números.

Uma área quase do tamanho da Suíça foi desmatada de florestas tropicais anteriormente intactas no ano passado, totalizando 37 mil quilómetros quadrados (14.200 milhas quadradas), de acordo com números compilados pelo World Resources Institute (WRI) e pela Universidade de Maryland. Esta é uma taxa de 10 campos de futebol por minuto, muitas vezes impulsionada pelo aumento de terras cultivadas em todo o mundo.

Embora o Brasil e a Colômbia tenham registado grandes quedas na perda florestal de 36% e 49%, respectivamente, sob as políticas ambientais dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, essas quedas foram compensadas por grandes aumentos na Bolívia, Laos, Nicarágua e outros países.

O Canadá também sofreu uma perda recorde de floresta devido ao fogo, perdendo mais de 8 milhões de hectares (20 milhões de acres).

Mikaela Weisse, diretora do Global Forest Watch do WRI, disse: “O mundo deu dois passos para frente e dois para trás no que diz respeito à perda florestal do ano passado.

“Os declínios acentuados na Amazônia brasileira e na Colômbia mostram que o progresso é possível, mas o aumento da perda florestal em outras áreas contrabalançou em grande parte esse progresso”, disse ela. “Temos de aprender com os países que estão a abrandar com sucesso a desflorestação.”

As alterações na utilização dos solos – das quais a desflorestação é uma componente central – são a segunda maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa e um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade. Preservar as florestas tropicais é essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C (2,7°F) acima dos níveis pré-industriais, segundo os investigadores.

Uma rodovia atravessa trilhos de trem perto de Phonhong, no Laos

Uma ferrovia que liga Kunming, na China, a Vientiane, no Laos, passa por baixo de uma rodovia perto de Phonhong, no Laos, onde a demanda chinesa alimentou a expansão agrícola. Fotografia: Reuters

Especialistas alertaram que a desflorestação contínua significa que os governos estão perigosamente desviados no que diz respeito ao cumprimento dos seus compromissos climáticos e de biodiversidade. Na conferência climática Cop28, no Dubai, os governos concordaram sobre a necessidade de travar e reverter a perda e a degradação das florestas até 2030, após o compromisso dos líderes mundiais na Cop26, em Glasgow, de pôr fim à sua destruição nesta década.

Mas os novos números mostram que o mundo está muito longe de atingir esta meta, com poucas alterações na perda global de florestas durante vários anos.

Embora o Brasil tenha diminuído significativamente a sua taxa de perda florestal, o país continuou a ser um dos três países com maior perda de floresta tropical primária, ao lado da República Democrática do Congo e da Bolívia. Juntos, foram responsáveis ​​por mais de metade da destruição global total.

A Bolívia registou um grande aumento na perda de florestas pelo terceiro ano consecutivo – apesar de ter menos de metade da floresta de outros grandes países com florestas tropicais, como a RDC e a Indonésia – impulsionado em grande parte pela expansão do cultivo da soja.

O Laos e a Nicarágua perderam grandes pedaços da sua floresta tropical intocada em 2023, desmatando 1,9% e 4,2%, respetivamente, num único ano, o que os investigadores afirmam ser porque florestas altamente fragmentadas em países que já tinham sido desmatadas extensivamente podem muitas vezes ser apagadas mais rapidamente.

No Laos, a expansão agrícola está a ser alimentada pela procura de mercadorias por parte da China, enquanto na Nicarágua a culpa é da pecuária e da agricultura em expansão.

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‘Não sabemos para onde vai o dinheiro’: os ‘cowboys do carbono’ que ganham milhões com esquemas de crédito

Apesar da falta de progresso geral nos números para 2023, os investigadores disseram que o mundo poderia aprender com os exemplos do Brasil e da Colômbia para cumprir as metas de desflorestação.

O professor Matthew Hansen, especialista em sensoriamento remoto do departamento de geografia da Universidade de Maryland, disse: “Eu realmente acredito que a única maneira de manter as florestas em pé é um fundo de compensação para a conservação das florestas tropicais em pé.

“A Alemanha lançou o Acordo Justo ‘, que pretende pagar desta forma aos países com florestas tropicais. A Noruega envolveu-se com o Gabão de forma semelhante, utilizando o sequestro de carbono como medida. Junte essa abordagem a uma governação robusta e ao envolvimento da sociedade civil e poderá funcionar”, disse ele.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Grilagem, ecocídio e ameaça de morte no Cerrado

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De um lado, a preservação, do outro, a devastação causada pelo agronegócio no Cerrado. Foto: Mariella Paulino/Rede Social

“A lentidão do Instituto de Terras do Piauí em regularizar os nossos territórios favorece a ação de quem quer nos expulsar”, denuncia sr. Juarez Celestino que, na tarde de 15 de outubro, foi ameaçado de morte por Carlos Rone Salgim. Juarez é uma das lideranças do Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado, no Sul do Piauí.

A ameaça ocorreu junto aos moradores da comunidade Passagem da Nega, no território Melancias. De acordo com as pessoas ameaçadas, Rone estava bastante exaltado e, além de dizer que os moradores deveriam sair daquela área, anunciou que “já estava encomendada a pessoa que irá matar o sr. Juarez”. Rone, como é conhecido na região, já ameaçou Juarez e as famílias que ali vivem em outras ocasiões.

As ameaças foram registradas em boletins de ocorrência no município de Corrente. A denúncia também foi levada às autoridades estaduais e nacionais.

As famílias dessas comunidades ribeirinhas-brejeiras, que vivem há gerações de modo tradicional no território Melancias, vem sofrendo com ameaças de morte e expulsão por grileiros e com o avanço do agronegócio que causa desmatamento e contaminação com agrotóxicos.

O Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí, a Comissão Pastoral da Terra-PI e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos exigem medidas urgentes dos órgãos governamentais para garantir a vida, o território, a proteção ambiental e a dignidade das comunidades.


Relatório “Grilagem e ecocídio no Cerrado” é lançado em Harvard

O relatório “Grilagem de terras e ecocídio” foi lançado no dia 11 de outubro em um seminário na Universidade de Harvard, que teve como objetivo pressionar as empresas financeiras ligadas à Harvard, à TIAA e à Bunge por destruição ambiental e grilagem de terras no Cerrado.

relatório está disponível em português e em inglês e foi produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Friends of the Earth e Action Aid.

As pesquisas da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos que revelam a grilagem de terras e o impacto ambiental destas empresas no Cerrado foram noticiadas pela Agência Pública.

Caatinga tem mais de 480 espécies de plantas e animais ameaçados de extinção

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Todos os biomas do Brasil estendem suas fronteiras para além do limite do país, com exceção da Caatinga, que é o único bioma 100% brasileiro, com predomínio no Nordeste. Mas seu rico patrimônio biológico está ameaçado. Segundo dados da pesquisa Contas de Ecossistemas, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Caatinga tem pelo menos 481 espécies de plantas e animais com risco de extinção, o que torna o bioma o terceiro mais ameaçado à sobrevivência da fauna e flora no País, perdendo apenas para o Cerrado e para a Mata Atlântica, respectivamente.

O estudo analisou 3.220 espécies da Caatinga e concluiu que 15% corre o risco de desaparecimento. O bioma conta com aproximadamente 5.311 tipos de plantas e animais únicos, como o famoso tatu-bola, a jaguatirica e o carcará. “Se engana profundamente quem acredita que a Caatinga é um bioma pobre, seu ecossistema é valioso e não é encontrado em nenhuma outra região do mundo”, destaca Samuel Portela, coordenador técnico da Associação Caatinga.

Segundo Samuel Portela, entre as principais causas dessa devastação estão o uso de lenha como matriz energética e as queimadas para cultivos agrícolas. “Essas ações vão, aos poucos, diminuindo as florestas, matando as plantas e ameaçando o habitat natural dos animais”, explica o coordenador.

Segundo a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado (Sema), no Ceará, existem 55 espécies ameaçadas de extinção. Esses animais estão incluídos em uma chamada lista vermelha, que conta com cinco categorias: tartarugas marinhas, mamíferos marinhos, aves, anfíbios e répteis e mamíferos terrestres.

A Associação Caatinga desenvolve diversas iniciativas para preservar o ecossistema. Entre elas está o projeto “RPPN: Conservação voluntária: gerando serviços ambientais”, que visa ampliar e aprimorar a gestão de áreas protegidas legalmente, com foco nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). “Existem hoje mais de 1.850 RPPNs no Brasil, protegendo mais de 833.000ha de áreas, sendo 44 no Ceará e 8 no Rio Grande do Norte. Estamos focando nesses dois estados, já que eles possuem quase a totalidade dos seus territórios inseridos na Caatinga e apresentam preocupantes dados de desmatamento acumulado”, declara Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga.

O projeto busca realizar a prospecção de áreas para a criação de futuras RPPNs, elaborar e revisar planos de manejo, realizar cursos de capacitação e apoiar a implementação das ações dos planos de manejo de unidades de conservação já existentes. O “RPPN: Conservação voluntária gerando serviços ambientais” é realizado pela Associação Caatinga e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.

Sobre a Associação Caatinga

A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é promover a conservação das terras, florestas e águas da Caatinga para garantir a permanência de todas as suas formas de vida. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.

Cobertos por floresta, manguezais da Amazônia brasileira se mantêm preservados

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FOTO: MARCOS SANTOS / USP IMAGENS

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Os manguezais da costa amazônica brasileira estão bem preservados, aponta artigo publicado na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências” nesta sexta (21) por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA). Os principais impactos identificados na região são a expansão urbana e a construção de estradas, mas menos de 1% da área total foi convertida por essas atividades. As florestas de mangue correspondem à maior cobertura, ocupando 92% da área de estudo.

Os pesquisadores analisaram imagens de satélite de alta resolução entre 2011 e 2015 para obter um mosaico de imagens sem nuvens, que foram comparadas com imagens antigas da região. “Os manguezais da Amazônia brasileira são os maiores e mais bem conservados manguezais do planeta”, explica Pedro Walfir Martins e Souza Filho, autor correspondente do trabalho. Trata-se de área de 7820 km², com planícies de maré vegetadas que têm cerca de 30 a 40 quilômetros de largura, descreve o pesquisador do ITV. Além de florestas, a área estudada também conta com a presença de planícies salinas conectadas ao manguezal, conhecidas como apicuns.

A região de Bragança, no Pará, concentra pontos de degradação mapeados pelo estudo devido à construção de da Rodovia PA-458, que corta o manguezal por 26 quilômetros, aponta Souza Filho. Por outro lado, observa o pesquisador, a estrada construída entre as décadas de 70 e 80 permitiu maior acesso dos pesquisadores à região, gerando mais conhecimento sobre geoquímica, biodiversidade e conservação desses ecossistemas.

O apicum é a menor porção da área estudada, correspondendo a 12 km² ou 0,15% do total, mas é proporcionalmente mais afetada pela ação humana, que já atingiu mais de 2% dessas áreas salgadas. Souza Filho relata que a vegetação nesses locais é escassa por conta do sal. Assim, o apicum é muito usado para aquacultura, que envolve atividades como a criação de peixes e camarões em tanques. “Já no manguezal, temos uma floresta de 20 metros de altura, então é mais difícil fazer uso desta área em meio a extensos depósitos de lama”, observa.

O pesquisador lembra que o Código Florestal de 2012 permite o uso do apicum, enquanto manguezais são considerados áreas de preservação permanente. O artigo frisa que a preservação dessas florestas também pode ser explicada por fatores como a presença de unidades de conservação ao longo da costa, incluindo 12 reservas extrativistas, e a baixa densidade populacional na região, relacionada à ausência de infraestruturas como estradas e redes de transmissão de energia elétrica.

Souza Filho destaca que o objetivo dos pesquisadores é avaliar o estado de conservação dos manguezais em todo o planeta, já que a literatura tem apontado grandes alterações em manguezais da Índia, Bangladesh e Nova Guiné. “Partimos então da hipótese de que os manguezais da Amazônia precisam de uma política especial para que permaneçam nesse estágio de conservação e que não se permita o avanço da degradação como vem ocorrendo em outros lugares do mundo”, completa o autor.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Apesar da perda de habitat, mais onças estão habitando o Parque Nacional do Iguaçu

As populações de grandes felinos se recuperaram um pouco em torno das Cataratas do Iguaçu no Brasil e na Argentina

onça pniCom a ajuda de armadilhas fotográficas, foi possível contar as onças-pintadas na Mata Atlântica. Foto: Projeto Yaguareté (CeIBA-CONICET)

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

O Parque Nacional do Iguaçu, no estado do Paraná, no sul do Brasil, é famoso por ter as maiores cachoeiras de mesmo nome do mundo. Cerca de dois milhões de turistas visitam anualmente o parque nacional na fronteira com a Argentina. O que é menos conhecido é que abriga um dos últimos grandes remanescentes da Mata Atlântica rica em espécies e, portanto, um importante refúgio para a onça-pintada, ameaçada de extinção neste biomaO número de onças no santuário mais do que dobrou no ano passado em comparação com 2009. Em números absolutos, ainda existem apenas cerca de 25 animais perambulando pelo santuário. Esse foi o resultado de um estudo divulgado em junho pelos projetos de proteção à onça-pintada “Yaguareté”, na Argentina, e “Onças do Iguaçu”, no Brasil.

Há 20 anos, os dois projetos monitoram as mudanças na população do maior felino da América do Sul nas áreas transfronteiriças da Mata Atlântica nos rios Paraná, Iguaçu e Uruguai. Com o apoio da Fundação Vida Silvestre Argentina, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) e de instituições estatais de conservação da natureza, realizaram no ano passado o censo de onça-pintada mais completo até hoje.

A área de estudo, com área total de 582.123 hectares, inclui a província de Misiones, no nordeste da Argentina, e as duas unidades de conservação brasileiras adjacentes, o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, com 185.262 hectares, e o Parque Estadual do Turvo, com área de 17.491 hectares no Rio Grande do Sul . Os pesquisadores de grandes felinos colocaram armadilhas fotográficas em 224 locais selecionados, que são ativados por sensores sensíveis à temperatura e ao movimento.

Um dos grandes felinos tímidos, que chegava a 2,50 metros de comprimento e pesava 140 quilos, caiu em uma das armadilhas um total de 3.763 vezes durante o período do estudo. Como os animais podem ser distinguidos pelo padrão de suas manchas de pelo, como as pessoas por suas impressões digitais, os pesquisadores puderam contar o número de indivíduos fotografados e, usando modelos matemáticos, calcularam o tamanho provável da população de grandes felinos na região. .

Os resultados mostram que no ano passado havia entre 72 e 122 onças em Misiones com 95% de certeza, dando uma população média de 93. A população se estabilizou em um nível entre 90 e 100 indivíduos desde 2016, após um declínio drástico no início do século XXI na província do nordeste argentino.

“Considerando que tínhamos apenas cerca de 40 onças em Misiones em 2005, podemos supor que as medidas de conservação desta espécie trouxeram bons resultados”, comenta Agustín Paviolo, coordenador do projeto “Yaguareté”. “No entanto, a ameaça aos grandes felinos permanece latente e, em alguns casos, crescente, por isso precisamos redobrar nossos esforços para salvar as espécies da extinção”.

Biólogos identificaram de 19 a 33 onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu, no Brasil. Em comparação com 2009, quando apenas nove a onze gatos-pintados foram contabilizados e a espécie estava ameaçada de extinção local, a população na área protegida pelo menos se recuperou, de acordo com o estudo.

Segundo estimativas dos cientistas, entre 1990 e 1995 viveram entre 400 e 800 onças-pintadas na região de estudo, 164 delas na Unidade de Conservação do Iguaçu. As principais causas dodeclínio na população de grandes felinos desde 1995 houve a perda de habitat, a maior fragmentação das áreas florestais devido à construção de estradas e os acidentes de trânsito associados, bem como o tiro ilegal dos predadores e a caça excessiva de sua presa mais importante, os queixadas. Essa espécie, também conhecida como queixada, foi considerada extinta no Parque Nacional do Iguaçu em 1996. Somente em 2016 os pecaris retornaram à área, o que os pesquisadores acreditam ter tido um impacto positivo na população de onças-pintadas do Iguaçu. Eles supõem que cerca de 250 a 300 onças vivam ainda em toda a área da Mata Atlântica.

A Mata Atlântica, chamada de Mata Atlântica no Brasil, é um dos ecossistemas de maior biodiversidade da Terra, que já se estendeu por cerca de 1,4 milhão de quilômetros quadrados do norte da Argentina e Paraguai ao nordeste do Brasil. A Mata Atlântica no Brasil está sob proteção rigorosa, pelo menos no papel, desde 1993. Mesmo assim, cerca de 90% da Mata Atlântica brasileira já foram destruídos. E o desmatamento continua.

Segundo relatório divulgado em maio pela organização ambiental SOS Mata Atlântica, mais de 20.000 hectares de Mata Atlântica no Brasil foram queimados ou desmatados em 2022. Embora grande parte do crime florestal tenha ocorrido de forma ilegal, a Mata Atlântica do Paraná também está sendo atacada legalmente, até mesmo em nome do turismo de natureza: para que ainda mais “turistas da natureza” possam visitar a Unidade de Conservação do Iguaçu, que foi privatizada desde 1998, de carro , o governo para dobrar a largura da única estrada de acesso em uma distância de 8,7 quilômetros. Centenas de árvores já foram derrubadas para esse fim. Não houve resistência à expansão rodoviária, nem em Brasília nem no estado do Paraná, cuja principal fonte de renda é o turismo de massa de Iguaçu.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!]

Estudo na Science destaca a importância de terras privadas para a conservação da biodiversidade no cerrado brasileiro 

Material publicado na Science mostra que áreas reservadas dentro de propriedades privadas podem acomodar até 14,5% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas

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Um novo estudo publicado na revista Science desta semana destaca que terras privadas no cerrado brasileiro desempenham um papel vital na proteção de espécies ameaçadas de vertebrados. O estudo mostra que áreas de reserva legal e proteção permanentes das propriedades rurais privadas podem acomodar entre 14,5% e 30% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas, nesse último caso, se for considerado apenas o habitat remanescente atual dessas espécies. É importante destacar que o cerrado é um bioma prioritário global para a conservação da biodiversidade.

O artigo é um trabalho conjunto escrito por pesquisadores da UFG, IBAMA, UnB, a ONG Aliança da Terra, a Universidade de Alcalá na Espanha e a Kansas State University nos EUA. A equipe de pesquisa também desenvolveu um modelo de priorização para identificar áreas onde investimentos em restauração em terras privadas poderiam trazer melhores retornos para a conservação da biodiversidade. O estudo sugere que a região Sudeste, grande centro econômico no Brasil, deve ser uma área prioritária para tais investimentos.

O Código Florestal Brasileiro inclui disposições para áreas de reserva legal dentro de propriedades privadas, mas sua relevância para a conservação nunca foi avaliada adequadamente. O estudo destaca o potencial das terras privadas para a conservação da biodiversidade, apesar dos conflitos de uso da terra e dos desincentivos econômicos frequentemente associados a tais esquemas.

O estudo ainda fornece insights importantes para formuladores de políticas públicas, proprietários de terras e conservacionistas sobre a importância de terras privadas na promoção de paisagens amigáveis à biodiversidade e na manutenção do fluxo de serviços ecossistêmicos. Os resultados também enfatizam a necessidade de avaliação contínua e melhoria dos quadros legais para garantir a conservação efetiva de espécies ameaçadas e seus habitats.

Leia o artigo na íntegra.

Vegetação das montanhas de granito carece de proteção ambiental; flora da Caatinga é a mais vulnerável

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Foto: Luísa Azevedo

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Montanhas de granito, como o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, apresentam vegetações bastante distintas de acordo com cada bioma. A flora dessas montanhas da Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga foi o tema de um novo estudo publicado na sexta (29) no periódico “Frontiers in Plant Science” por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável e de outras instituições parceiras. Das 50 áreas analisadas, apenas 16 estão em áreas de proteção: 9 na Amazônia e 7 na Mata Atlântica. O estudo chama atenção para um dado preocupante: todas as 25 áreas estudadas na Caatinga estão em locais sem proteção ambiental.

Esse é o primeiro estudo até o momento com o objetivo de compreender as vegetações que crescem nas rochas e compará-las em diferentes biomas da América do Sul. A pesquisa liderada pelo biólogo Rafael Gomes Barbosa-Silva durou quatro anos realizando expedições de campo para coletar amostras de plantas e consultando o acervo de diversos herbários. Além disso, houve a compilação de informações da flora de outros biomas por meio da análise de dados já publicados. Para a análise, foram considerados 50 inselbergs – nome técnico para as montanhas de granito: 11 na Amazônia, 14 na Mata Atlântica e 25 na Caatinga. Ao todo, 2193 espécies foram identificadas em 4397 ocorrências nos três biomas.

“O resultado mostra o quão única e fascinante é a flora de cada um desses afloramentos graníticos. Assim, o entendimento de que as montanhas de granito possuem floras distintas conforme o bioma onde ocorrem nos mostra direções para conservação”, explica Barbosa-Silva, primeiro autor do artigo. Ele também afirma que os biomas influenciam a paisagem única das rochas – o que gera a beleza destes cenários: “São áreas que atraem muitas vezes o interesse para o lazer e o turismo, como o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, a Serra Grande, próximo de Boa Vista ou a Pedra da Harpia, na Floresta Nacional de Carajás”.

Diante da inexistência de proteção às áreas estudadas na Caatinga, os pesquisadores entendem que é urgente discutir a preservação das vegetações rochosas do bioma. “Inselbergs são vistos com frequência como fontes de rochas comerciais e podem se degradar por meio da destruição do ambiente ao redor”, alertam os especialistas no artigo. 

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Coleta no inselberg amazônico da Pedra da Harpia, na Floresta Nacional de Carajás. Foto: Rafael Gomes Barbosa-Silva Tereza Giannini, também autora do estudo, comenta a importância de entender a flora que ocorre nas áreas estudada: “Muitas áreas naturais, especialmente na Amazônia, foram pouco inventariadas e, portanto, são ainda pouco conhecidas. Programas efetivos de proteção e conservação precisam ser embasados em conhecimento científico, e por isso esse tipo de pesquisa tem um papel tão importante”, avalia a pesquisadora.

A partir da publicação, surgem novas perguntas e possibilidades de próximas pesquisas: Barbosa-Silva questiona como a flora dessas rochas está ameaçada pelas mudanças climáticas, visto que as plantas crescem diretamente nas rochas, com pouco ou nenhum solo, com retenção de água quase nula. Além disso, os pesquisadores sugerem o uso de tecnologias, como drones, para entender a relação entre geomorfologia e condições climáticas no surgimento da flora nas montanhas de granito.


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Este texto foi originalmente produzido e publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Fome através da conservação?

Uma expansão maciça de áreas protegidas não apenas limita a produção de alimentos, mas também pode expulsar os povos indígenas

modern agricultureAo contrário da agricultura moderna, os povos indígenas também usam ecossistemas ricos em espécies sem transformá-los em monoculturas em grande escala. Isso é muitas vezes esquecido na criação de áreas protegidas. Foto: http://www.kit.edu

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Na Conferência de Biodiversidade da ONU em Kunming, em abril próximo, novas metas de biodiversidade devem ser decididas. Uma das medidas propostas é a duplicação das áreas de proteção da natureza existentes em todo o mundo em pelo menos 30 por cento das áreas terrestres e marítimas até 2030. 50 países já aderiram a esta meta de proteção de espécies exigida pela Aliança Internacional para a Biodiversidade (High Ambition Coalition para a Natureza e as Pessoas), incluindo a França e a Alemanha. Mas se essa medida for realmente implementada, pode colocar em risco a segurança alimentar em grandes partes do mundo, alertam pesquisadores da Escócia, Alemanha, Áustria e EUA. Os problemas existentes seriam exacerbados, especialmente nas regiões pobres do Sul Global.

O estudo publicado recentemente na revista “Nature” examina dois cenários: no primeiro cenário, 30% da área terrestre global será protegida até 2040, no segundo cenário 50%. Os pesquisadores assumem que nenhuma atividade humana, como agricultura ou turismo, é permitida nas áreas protegidas. Portanto, a agricultura não seria mais possível em muitas áreas de cultivo – com consequências negativas para a produção global de alimentos, à medida que a população continua a crescer.

De acordo com o estudo, a expansão das áreas de proteção da natureza leva a uma intensificação da produção agrícola nas áreas remanescentes, o que resultaria no aumento dos preços dos alimentos. O consumo de frutas e vegetais diminuiria e, em geral, o número de pessoas com baixo peso aumentaria em diferentes regiões do mundo.

Os pesquisadores calcularam que isso levaria à escassez de alimentos e a mais 200.000 mortes por desnutrição em regiões de baixa renda, como o sul da Ásia e a África subsaariana. A implementação rigorosa de medidas de proteção prejudica a segurança alimentar e a saúde humana, especialmente nas “regiões mais vulneráveis ​​do mundo”, escreve a equipe de cientistas.

Por outro lado, países mais ricos, como os EUA ou os estados da União Europeia, seriam amplamente poupados dos efeitos negativos. Pelo contrário, nesses países, reduzir o consumo de calorias por meio de preços mais altos dos alimentos reduziria os efeitos negativos do sobrepeso e da obesidade.

De acordo com Matin Qaim, Diretor do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn, a contribuição mais importante do estudo é »a identificação de potenciais objetivos conflitantes entre a segurança alimentar global e a proteção da biodiversidade, porque a expansão das áreas de terra para a produção de alimentos é o maior assassino da biodiversidade natural.”

No entanto, o estudo não se opõe de forma alguma ao plano de colocar a maior área possível sob proteção da natureza. “A designação de áreas protegidas é um dos instrumentos mais importantes para atingir as metas de biodiversidade. No entanto, deve ser implementado com cuidado para garantir que não coloque em risco a segurança alimentar e a saúde da população, especialmente nas regiões mais pobres do mundo”, explica a principal autora do estudo, Roslyn Henry, da Universidade de Aberdeen.

De acordo com Martin Jung do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) em Laxenburg perto de Viena, que também trabalhou no estudo, deve-se notar que medidas muito radicais também podem levar a efeitos indesejáveis. É necessária uma ampla cooperação para implementar a conservação da natureza de forma significativa em cada região.

No entanto, a pesquisa feita usando modelos socioecológicos acoplados está em terreno instável. Baseia-se em apenas dois pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que a proteção de paisagens ricas em espécies leva automaticamente a uma redução das terras agrícolas. E em segundo lugar, que o consequente aumento dos preços dos alimentos levará a uma mudança nos hábitos alimentares das pessoas nos países “mais ricos” do norte e nos países “mais pobres” do sul.

Mas se, por exemplo – como exigem muitos ambientalistas e climáticos – todas as florestas tropicais ricas em espécies remanescentes na Amazônia e as áreas ainda não destruídas do Cerrado no Brasil fossem declaradas como reservas naturais, isso não levaria a uma redução nas terras agrícolas. Protegê-los apenas evitaria que esses hotspots de biodiversidade fossem derrubados para a expansão da pecuária ou cultivo de soja, ou fossem desenterrados para extração de minério e matéria-prima. O mesmo se aplica às florestas tropicais ainda não desmatadas da África Central, Sul da Ásia, Nova Guiné e região do Pacífico.

O estudo também não leva em consideração a preocupação de que a expansão dos parques naturais e nacionais possa levar ao deslocamento, empobrecimento e até mesmo genocídio de povos indígenas ou outros grupos populacionais que tradicionalmente vivem nessas áreas. Uma preocupação que encontra alimento na prática dos conceitos de parques nacionais existentes. Lisa Biber-Freudenberger, da ZEF, reclama que os autores do estudo assumem que as áreas protegidas não são mais usadas por humanos. Mas “a abordagem de criar áreas protegidas sem envolver a população local certamente teve seu dia”.

De acordo com a High Ambition Coalition for Nature and People, as novas reservas naturais devem ser criadas “enquanto reconhecem os direitos dos povos indígenas”, mas as organizações de direitos humanos consideram isso um palavrão que, em última análise, não é implementado ou implementado de forma insuficiente. Por esse motivo, organizações como Survival International e Minority Rights Group vêm alertando contra a implementação da meta de 30% exigida pelos conservacionistas conservadores desde 2020.

A expansão e a criação de novos santuários de vida selvagem podem resultar em graves abusos dos direitos humanos e causar danos irreversíveis a alguns dos mais pobres do mundo, disse a Survival International. “Até 300 milhões de pessoas podem ser afetadas se os direitos dos povos indígenas e dos proprietários tradicionais não forem significativamente mais bem protegidos.” poderia até acelerar a destruição ambiental. O “plano 30 × 30” é uma abordagem fundamentalmente errada para a conservação da natureza porque se baseia em um conceito de deserto que exclui os seres humanos com base no qual numerosos povos indígenas já foram vítimas no passado.

“A exigência de declarar 30% das ‘reservas naturais’ do mundo é de fato uma gigantesca apropriação de terras, comparável à colonização européia. Também trará muito sofrimento e morte”, teme Stephen Corry, diretor da Survival International. “Não devemos ser enganados pelo hype sobre as ONGs de conservação da natureza e seus financiadores governamentais.” É tudo sobre dinheiro, controle de terras e recursos e um ataque à diversidade cultural.

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Este texto foi escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].