Anvisa revela alimentos campeões de agrotóxicos, mas deixa pimentão de fora das análises

Anvisa divulgou nesta quarta os novos resultados do programa que monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos; mais de 20% das amostras em 2024 continham agrotóxicos acima do limite permitido ou substâncias não autorizadas

Laranja, pepino e couve foram os alimentos que apresentaram mais irregularidades (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Por Diego Junqueira para “Repórter Brasil” 

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou na última quarta-feira (17) os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, com dados coletados em 2024. 

Segundo a agência, pepino, laranja e couve são os itens com maior proporção de amostras com resíduos de pesticidas acima do limite permitido ou de substâncias não autorizadas.

No balanço geral de 2024, foram avaliadas 3.084 amostras de 14 alimentos, das quais 636 foram classificadas como insatisfatórias. Isso representa 20,6% das amostras analisadas, o menor percentual desde 2017. 

Entre os problemas identificados, 12% do total de amostras tinham resíduos de agrotóxicos não permitidos para a cultura analisada; 5,6% apresentaram resíduos acima do limite permitido; e 0,1% continham substâncias proibidas no Brasil. As demais amostras foram consideradas satisfatórias: em 26% não houve detecção de resíduos e, em 54%, foram encontrados agrotóxicos nos alimentos, mas dentro dos limites permitidos.

Agrotóxicos com percentual de detecções acima de 1% no ciclo 2024, destacando-se o
percentual relativo à conformidade da detecção

Os maiores índices de amostras insatisfatórias apareceram no pepino, com 46% de irregularidades entre 217 amostras analisadas. Na sequência vieram a laranja, com 39% de amostras insatisfatórias em um total de 240, e a couve, com 35% em 204 amostras. 

Também apresentaram percentuais acima da média geral a uva (28%), a maçã (27%), a abobrinha (26%) e o mamão (21%). Abaixo da média apareceram aveia (18%), cebola (13%), banana (12%), soja (8%), pera (7%), milho (3%) e farinha de trigo (2%). O pimentão, que liderou algumas das análises anteriores, não foi avaliado neste ciclo.

Gráfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil e superior do formulário

Programa já monitorou mais de 45 mil amostras desde 2001

O PARA monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos com o objetivo de mitigar riscos à saúde. Desde 2001, mais de 45 mil amostras foram analisadas. O programa é realizado em parceria com órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios de saúde pública. Os resultados completos de 2024 estãoneste link.

A meta do programa é investigar periodicamente 36 alimentos que, segundo o IBGE, representam 80% dos itens de origem vegetal consumidos pela população brasileira.

As coletas em 2024 englobaram 14 produtos e foram feitas por equipes de vigilância sanitária em supermercados e sacolões de 88 municípios.

Durante apresentação dos dados na manhã de hoje, Adriana Torres, gerente de Monitoramento e Avaliação de Risco da Anvisa, afirmou que o fato de uma amostra ser considerada “insatisfatória” não significa automaticamente risco ao consumidor. Segundo ela, para determinar se há perigo à saúde, é necessário realizar uma avaliação de risco, considerando o nível de resíduo encontrado e o padrão de consumo do alimento. 

De acordo com a análise da Anvisa, 12 amostras (0,39% do total) representaram “risco agudo” à saúde do consumidor — caso uma grande porção do alimento seja consumida em um único dia. Os 12 casos incluem seis amostras de uva, cinco de laranja e uma de abobrinha. Por outro lado, nenhuma amostra representava “risco crônico”, manifestado a longo prazo.

Segundo a agência, a higienização com hipoclorito ou água sanitária, prática comum para limpeza de alimentos, tem mais relação com a redução dos riscos microbiológicos, como bactérias, fungos ou parasitas. “Então não se aplica tanto para resíduos de agrotóxicos, mas complementa a questão da segurança do alimento”, afirmou Torres.

“É importante salientar que nesse ciclo de 2024 observamos uma melhora no índice de não conformidades. É o melhor índice desde 2017. Tivemos uma redução de 5% desse porcentual [na comparação com 2019, de 25,6% para 20,6%]”, afirmou.

A lista completa de 36 produtos monitorados  pelo PARA representam 80% dos alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira: arroz, milho, trigo, aveia, feijão, soja, amendoim, tomate, chuchu, pepino, pimentão, abobrinha, quiabo, alho, batata, batata doce, beterraba, cebola, cenoura, mandioca, repolho, alface, couve, brócolis, maçã, uva, goiaba, pera, morango, banana, laranja, mamão, abacaxi, manga, maracujá e café.

Mudanças de critérios dificultam dizer se riscos aumentaram ou caíram, diz pesquisadora

A toxicologista Karen Friedrich, do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), alerta que o PARA não permite uma comparação histórica consistente, porque nem todos os alimentos são analisados ano a ano e porque a lista de agrotóxicos pesquisados muda com frequência.

Além disso, ela aponta que, especialmente após 2016, houve flexibilização de normas, com agrotóxicos antes não permitidos passando a ser autorizados em certas culturas e, em alguns casos, com aumento de limites de resíduos.

Ela chama atenção ainda para a presença de substâncias proibidas em outros países e de compostos associados a câncer, doenças endócrinas e reprodutivas — como glifosato, 2,4-D e malationa. “Para agrotóxicos cancerígenos não existem limites seguros”, diz.

A pesquisadora avalia também que o método de risco agudo e crônico ignora possíveis “sinergias” entre diferentes agrotóxicos consumidos numa mesma refeição, o que reforçaria a importância de divulgar os resultados por amostra. “Em anos anteriores, houve hortaliças com 10 a 21 agrotóxicos identificados, diz.

“Outra fragilidade da avaliação de risco apresentada é que a Anvisa considera os dados de consumo para ‘pessoas acima de 10 anos’. Com isso, a segurança para bebês e crianças fica ainda mais comprometida. Nesse período da vida, os agrotóxicos encontrados sao ainda mais danosos”, completa Friedrich.


Fonte: Repórter Brasil

Agrotóxicos no seu prato – Novo estudo alerta para a necessidade de compreender melhor os efeitos na saúde

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Comer muitas frutas e vegetais é recomendado como essencial para uma dieta saudável, mas novas pesquisas ressaltam que o consumo de alimentos favoritos da família, como morangos, pêssegos, espinafre e couve, geralmente vem acompanhado de resíduos de agrotóxicos que podem prejudicar sua saúde.

Usando conjuntos de dados gerados por pesquisadores do governo dos EUA, uma equipe que inclui cientistas do Environmental Working Group (EWG) e da Brown University School of Public Health disse no estudo divulgado na quarta-feira que eles descobriram que os alimentos que tinham as maiores cargas de agrotóxicos incluíam espinafre, couve, morangos, batatas, nectarinas, pêssegos, maçãs e passas.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) afirmam que frutas e vegetais “fornecem vitaminas e minerais essenciais, fibras e outras substâncias importantes para uma boa saúde”.

“Comer frutas e vegetais como parte de um plano alimentar saudável pode reduzir o risco de alguns tipos de câncer e doenças crônicas”, afirma a agência em seu site .

Mas o novo estudo, publicado no International Journal of Hygiene and Environmental Health, analisou a relação entre o consumo de alimentos contaminados com agrotóxicos e os níveis de resíduos presentes na urina humana. O estudo alerta que o consumo de certos alimentos contaminados com agrotóxicos leva a níveis mais elevados de resíduos encontrados no soro humano. O estudo afirma que é necessário um melhor monitoramento dos potenciais impactos da exposição a agrotóxicos sobre a saúde.

“As descobertas reforçam que o que comemos afeta diretamente o nível de agrotóxicos em nossos corpos”,   disse Alexis Temkin, Ph.D. , vice-presidente de ciência do EWG e principal autor do estudo, em um comunicado à imprensa. “Comer vegetais é essencial para uma dieta saudável, mas também pode aumentar a exposição a agrotóxicos.”

O estudo cita pesquisas que relacionam a exposição a agrotóxicos a uma série de problemas de saúde, incluindo aumento do risco de câncer, resultados adversos no parto, danos neurológicos, toxicidade respiratória, toxicidade reprodutiva e função hormonal prejudicada.

“O biomonitoramento de  agrotóxicos é essencial para a proteção da saúde pública”, afirma o estudo. “O desenvolvimento de métodos analíticos para medir a exposição interna a uma gama mais ampla de agrotóxicos também ajudaria a compreender os efeitos na saúde associados a essas exposições.”

Os pesquisadores disseram que criaram um “índice de carga de agrotóxicos” para classificar produtos com base em dados nacionais de testes de resíduos coletados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), principalmente entre 2013 e 2018 para 44 tipos de produtos.

As pontuações de exposição alimentar a pesticidas para 1.837 indivíduos foram então calculadas com base em informações sobre o consumo de produtos agrícolas retiradas da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES) de 2015-2016 do CDC. Os índices de carga de agrotóxicos foram calculados com base na detecção de 178  produtos parentais únicos, ou 42 agrotóxicos parentais com biomarcadores urinários correspondentes na NHANES.

Os pesquisadores disseram que o estudo aumenta as dúvidas sobre a abordagem da Agência de Proteção Ambiental em relação aos resíduos de agrotóxicos em alimentos, já que a agência estabelece limites para substâncias individuais, mas não leva em conta o fato de que as pessoas normalmente consomem resíduos de uma série de substâncias que contaminam produtos alimentícios.

O Dr. Philip Landrigan, pediatra e especialista em toxinas ambientais e diretor do Observatório Global de Saúde Planetária do Boston College, disse que a exposição a agrotóxicos na dieta pode ser particularmente preocupante para crianças.

“Pode ser verdade que um baixo nível de uma determinada substância química não seja motivo de preocupação para um adulto. Mas tudo se complica quando se trata de crianças e bebês ainda não nascidos no útero”, disse ele.

“O monitoramento é muito importante. Como pediatra, sempre fico irritado quando pessoas que não estudaram medicina dizem que a presença de uma substância química tóxica no corpo humano não é motivo de preocupação”, disse Landrigan.

(Foto em destaque de  Engin Akyurt  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Flores (agro) tóxicas: sem limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e clientes

Produção de flores ornamentais não é monitorada quanto à aplicação correta de agrotóxicos e dispensa análise de resíduos químicos no produto final; falta de normas leva ao uso excessivo de pesticidas, segundo pesquisadores 

Mercado de flores ornamentais não passa por controle de resíduos de agrotóxicos no mercado, o que é visto como um risco à saúde (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil) young beautiful couple happy man and woman with bouquet of flowers smiling cheerfully embracing happy in love celebrating international women's day march 8 standing over orange background

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Quem visita uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos — responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a atividade. 

Em 2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21 bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas que as exigidas nas lavouras de alimentos. 

Órgãos competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas também a dos clientes. 

“Já tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos polos de produção no país, que prefere não se identificar. 

Aos 27 anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.

Com poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango, fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.

O fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”, descreve.

Ele aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma correta de uso do Verango.

“Eu aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o produtor. 

A bula do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado para plantas ornamentais.

A falta de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte. 

“As indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de segurança não foram testadas para a espécie.

O uso irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Os agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.

Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)
Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)

Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final

Apesar do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados pela Repórter Brasil. 

O setor deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).

Esse parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica Barizon. 

A falta de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.

“O produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.

A pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.

O estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.

Sobre o impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e inalatória”, diz o estudo. 

Para a pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta própria”, explica.

“É fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.

Um representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.

Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)
Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)

Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos

Um dos motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora nacional.

O mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com infertilidade e baixa qualidade do sêmen.

A abamectina já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e  2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso, endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”

O pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e podem ser usados”, afirma.

“O cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação] e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua Meireles. 

Outro aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói, pesquisador da Esalq/USP.

“Essa exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos, assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente sanguínea”, continua.

Mas os mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.

O que dizem Ibraflor e Anvisa?

Procurado pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.

A Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e, de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”

Ainda segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.


Fonte: Repórter Brasil

Aumento acentuado é detectado na exportação de agrotóxicos proibidos pela União Europeia, apesar das promessas em contrário

Bloco é instado a pôr fim ao “duplo padrão antiético” que permite a venda de produtos considerados muito perigosos para uso nas fazendas da UE

Um avião pulverizando pesticidas na Costa Rica, onde o Guardian já havia relatado os efeitos perigosos de produtos químicos importados da UE.

Um avião pulverizando agrotóxicos na Costa Rica, onde o jornal The Guardian já havia noticiado os efeitos perigosos de produtos químicos importados da UE. Fotografia: Adrian Hepworth/Alamy


Por Ajit Niranjan para o “The Guardian”

Uma investigação descobriu que empresas químicas europeias desenvolveram planos para exportar quantidades crescentes de agrotóxicos proibidos por terem sido considerados perigosos demais para serem pulverizados em fazendas da União Europeia (UE), apesar da promessa de acabar com a prática.

As exportações planejadas de agrotóxicos proibidos internamente aumentaram de 81.600 toneladas em 2018 para 122.000 toneladas em 2024, de acordo com notificações de exportação obtidas por meio de solicitações de liberdade de informação pela Unearthed, a sala de notícias investigativa do Greenpeace, e pela organização sem fins lucrativos suíça Public Eye.

Os números, que são derivados de documentos produzidos para garantir que a venda de produtos químicos perigosos tenha o “consentimento prévio informado” dos países importadores, não mostram a quantidade final que foi enviada, mas são o melhor registro disponível do comércio de agrotóxicos proibidos.

Angeliki Lysimachou, toxicologista da Pesticide Action Network Europe que não estava envolvida na pesquisa, disse que a Comissão Europeia cedeu aos interesses da indústria ao permitir que o “comércio tóxico” se expandisse em vez de acabar com ele como prometido.

“Cada atraso adicional não é apenas negligência, é uma traição aos direitos humanos e ambientais”, disse ela. “A comissão precisa agir urgentemente para pôr fim a esse duplo padrão antiético.”

A UE liderou o movimento global para restringir produtos químicos agrícolas perigosos devido aos danos que podem causar à saúde humana e ao meio ambiente, como a redução da fertilidade ou a morte de abelhas . A UE proibiu o uso doméstico de dezenas de agrotóxicos nos últimos anos, mesmo com reguladores em outras economias ricas continuando a permitir que agricultores os pulverizem em plantas e solos.

A comissão anunciou planos para interromper as exportações após uma investigação revelar a escala de suas vendas para países terceiros.  A estratégia da Comissão Europeia para produtos químicos de 2020 afirmou que “daria o exemplo e, em conformidade com os compromissos internacionais, garantiria que produtos químicos perigosos proibidos na UE não fossem produzidos para exportação”.

Mas, cinco anos depois, documentos mostram que a quantidade de agrotóxicos proibidos listados em notificações de exportação aumentou, em parte porque a lista de produtos químicos proibidos aumentou. As substâncias proibidas que estão sendo transportadas para todo o mundo incluem o herbicida glufosinato e o fungicida mancozeb, que os reguladores europeus consideram tóxicos para a reprodução.

O aumento nas exportações de agrotóxicos proibidos ocorre apesar da saída do Reino Unido da UE, visto que o país é um grande exportador de  agrotóxicos. O maior país exportador de agrotóxicos da UE em 2024 foi a Alemanha, seguida pela Bélgica, Espanha, Holanda e Bulgária, mostrou a análise.

A Bélgica juntou-se recentemente à França na proibição da prática, embora empresas francesas tenham continuado algumas exportações devido a uma brecha legal que de agrotóxicos pesticidas proibidos na UE.

A análise constatou que os agrotóxicos eram destinados principalmente a países de baixa e média renda, embora os EUA fossem o maior destinatário. Alguns dos produtos químicos nocivos podem ser importados de volta para a UE como alimentos.

O jornal The Guardian já havia noticiado os efeitos perigosos dos agrotóxicos exportados pela UE em países como o Brasil , onde foram pulverizados em fazendas de cana-de-açúcar que abasteciam a Nestlé e um importante fornecedor brasileiro de açúcar para a Europa, e a Costa Rica , onde as pessoas reclamaram de odores “insuportáveis” que acompanhavam uma série de problemas de saúde quando aviões pulverizavam pesticidas sobre plantações de banana e abacaxi do país. O Reino Unido também exportou agrotóxicos para o Brasil que considera impróprios para fazendas britânicas.

Um porta-voz da comissão afirmou que a comissão compartilhava preocupações e estava comprometida em abordá-las. Afirmou que lançou uma consulta pública e um estudo em 2023 e que uma avaliação informaria “possíveis próximos passos”.

“Garantir um alto nível de proteção para as pessoas e o meio ambiente, tanto na UE quanto globalmente, é fundamental”, disse o porta-voz. “A Comissão está explorando opções para garantir que os produtos químicos mais perigosos proibidos na UE não possam ser produzidos para exportação, inclusive alterando a legislação pertinente, se e conforme necessário.”

Um porta-voz da multinacional alemã farmacêutica e de biotecnologia Bayer se recusou a comentar sobre os volumes exportados, mas disse que todos os seus produtos eram seguros para humanos e o meio ambiente se aplicados de acordo com as instruções do rótulo.

“O simples fato de um produto fitofarmacêutico não ser autorizado ou proibido na UE não diz nada sobre sua segurança”, afirmaram. “Muitas outras agências reguladoras ao redor do mundo – incluindo EUA, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia – também possuem sistemas regulatórios muito confiáveis, robustos, que funcionam com cuidado e são sofisticados para proteger a saúde humana e o meio ambiente.”

Um porta-voz da Syngenta afirmou que todas as suas exportações estavam em conformidade com as regulamentações químicas europeias e que a empresa forneceu treinamento nos países importadores para garantir o uso seguro. “Bloquear o acesso a produtos autorizados e de alta qualidade corre o risco de incentivar alternativas falsificadas e ilegais – muitas vezes feitas com ingredientes não regulamentados e nocivos – o que pode colocar os agricultores e o meio ambiente em risco muito maior”, disse o porta-voz.

Três dos maiores exportadores de agrotóxicos proibidos identificados na análise – BASF, Teleos e Agria – não responderam a um pedido de comentário. A Corteva não quis comentar.

Lis Cunha, ativista do Greenpeace, disse que o aumento das exportações era “repreensível e profundamente hipócrita”. Ela pediu à comissão que cumprisse seu compromisso de proibir a produção em toda a UE. “É escandaloso que os lucros da indústria química europeia tenham precedência sobre a saúde e o meio ambiente das pessoas em países mais pobres”, disse ela.


Fonte: The Guardian

Observatório dos Agrotóxicos: na surdina, Ministério da Agricultura passa a controlar exclusivamente o registro de agrotóxicos

Enquanto a população brasileira está sendo distraída pelo show de horrores que está acontecendo no Congresso Nacional em meio à PECda Blindagem e a anistia para os golpistas frustrados de janeiro de 2023, o Ministério da Agricultura, segundo o que foi aprovado no Pacote do Veneno, se tornou a porta exclusiva para os pedidos de registros de novos (velhos) agrotóxicos no Brasil.

É que entrou em vigor na última segunda feira (15.set.2025), as regras apontadas no ATO Nº 40, DE 1º DE SETEMBRO DE 2025 que determinam que todos os pedidos de registro de novos agrotóxicos devem ser protocolados exclusivamente no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).   Com isso, os protocolos que tenham sido enviados diretamente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou ao Ibama  não serão mais considerados válidos, como acontecia antes da promulgação do Pacote do Veneno.

Ainda que com a análise técnica dos pedidos continuará sendo tripartite, envolvendo também a Anvisa, responsável pela área de saúde, e o Ibama, que avalia os impactos ambientais, na prática isso será apenas consultivo, já que caberá ao MAPA que serve primariamente aos interesses do latifúndio agro-exportador e dos fabricantes de venenos agrícolas.

É aquela velha história, o que é ruim sempre pode piorar. Como venho acompanhando mais de perto a questão dos registros de novos agrotóxicos desde 2019 e disponibilizando as informações via o Observatório dos Agrotóxicos, considero que essa mudança trará prejuízos consideráveis à capacidade de controle, que já era baixa, dos impactos ambientais e sobre a saúde humana de uma grande quantidade de substâncias que são sabidamente causadoras de uma série de alterações significativas nos fluxos ambientais, e que acabam atingindo a população brasileira.

A verdade é que com o Pacote do Veneno sendo aplicada na prática, o papel tanto da Anvisa como do Ibama serão meramente decorativos, já que o poder decisório estará totalmente concentrado no MAPA. Assim, poderemos esperar a ampliação do quadro de doenças que já está sendo detectado em todo o território nacional, quadro esse resultante da contaminação das fontes de abastecimento e alimentos.

Considerado particularmente preocupante a falta de dados recentes sobre a contaminação por agrotóxicos da água de abastecimento e dos alimentos que estão sendo consumidos diariamente pelos brasileiros.  Em ambos os casos, a obrigação do governo Lula seria garantir não apenas a ampliação da coleta de dados, mas também da divulgação expedita dos resultados. Mas não é o que está se vendo, e estamos basicamente em um voo cego no que se refere ao processo de contaminação.

A situação é complicada pelo baixo nível de investimento feito nas universidades públicas onde são feitas as pesquisas sobre o processo de contaminação por agrotóxicos. O pior é que as pesquisas que ainda possuem financiamento sempre trazem notícias alarmantes sobre a contaminação em ampla escala de solos, água, alimentos, e até da chuva.  

 

Glifosato encontrado em ovos e frango vendidos em supermercados é rastreado até ração transgênica para aves

Glyphosate residues in feed adversely impact avian species, particularly those in poultry production, as shown in a review of literature.

Por Sustainable Pulse

Uma revisão científica publicada no  World’s Poultry Science Journal  destaca os efeitos adversos à saúde das espécies aviárias decorrentes da exposição ao herbicida  glifosato (Roundup), amplamente utilizado durante o processo de produção avícola. O herbicida entra no sistema de produção avícola por meio de resíduos em rações geneticamente modificadas, informou a Beyond Pesticides .

Um artigo anterior na  Scientific Reports  concluiu que a “ampla aplicação do glifosato (GLP) em culturas forrageiras deixa resíduos na ração”, enquanto  resíduos  são “comuns em ovos convencionais adquiridos em supermercados”.

Ao analisar os impactos bioquímicos, toxicológicos e ecológicos do glifosato em aves, especialmente frangos, os autores encontram um amplo conjunto de evidências que ligam o glifosato e seu metabólito (produto de degradação) ácido aminometilfosfônico (AMPA) a riscos debilitantes que vão além da mortalidade.

Esses efeitos subletais incluem perturbação do microbioma intestinal e doenças gastrointestinais; diminuição da produtividade e diminuição da saúde reprodutiva; toxicidade hepática e renal; impactos no crescimento e desenvolvimento, incluindo teratogenicidade e embriotoxicidade; perturbação endócrina e estresse oxidativo; e comprometimento das funções imunológicas.

Os efeitos do glifosato, como há muito documentados na literatura científica, variam de impactos negativos à biodiversidade e ao meio ambiente a riscos à segurança alimentar e implicações à saúde humana.

Resíduos de glifosato e AMPA “foram detectados no solo, plantações, ração animal, aves e fontes de água, o que levou à análise de seus efeitos a longo prazo”, afirmam os autores.

Eles continuam:

“Estudos indicam que o glifosato interrompe as vias enzimáticas, particularmente ao inibir o sistema do citocromo P450, levando ao estresse oxidativo, à desregulação endócrina e à disfunção mitocondrial.

“Ele tem sido associado à toxicidade hepática e renal, alterações na microbiota intestinal, danos reprodutivos, defeitos de desenvolvimento e possível carcinogenicidade, embora as agências reguladoras permaneçam divididas sobre sua classificação como cancerígeno.”

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como tendo propriedades cancerígenas, assim como estudos científicos independentes revisados ​​por pares.

A natureza onipresente dos resíduos de glifosato no meio ambiente e dentro dos organismos é resultado da ampla aplicação desse produto químico tóxico na silvicultura, agricultura, paisagismo e jardinagem.

Mais de 750 herbicidas contêm glifosato como ingrediente ativo, e ele também desempenha um papel importante na produção de culturas geneticamente modificadas (GM), “com aproximadamente 80% das culturas GM criadas especificamente para tolerância às BPL”.

Formulações de herbicidas à base de glifosato contêm não apenas glifosato, mas também outros ingredientes inertes (não divulgados), como adjuvantes que aumentam a toxicidade.

Um adjuvante comum em produtos herbicidas à base de glifosato é a amina de sebo polietoxilada (POEA), que pesquisadores descobriram que pode matar células humanas, particularmente células embrionárias, placentárias e do cordão umbilical.

Efeitos em aves

Resíduos de glifosato na ração animal, bem como na água e por outras vias de exposição, representam riscos à saúde animal e humana, pois esses resíduos podem se bioacumular e biomagnificar ao longo da cadeia alimentar.

Com uma alta dependência de milho e soja na dieta das aves, as culturas geneticamente modificadas são uma fonte significativa de exposição para esses animais.

“A presença de resíduos de GLP na ração para aves levanta preocupações sobre potenciais efeitos na saúde das aves, incluindo perturbações na microbiota intestinal, estresse oxidativo e produtividade geral”, escrevem os autores.

Eles continuam:

Globalmente, aproximadamente 57% da produção de grãos de milho e 85% da produção de soja são destinados à alimentação animal. Diversos estudos investigaram os efeitos da alimentação de diversas espécies de animais com culturas transgênicas tolerantes ao glifosato.

“A pesquisa incluiu vacas leiteiras, gado e galinhas, destacando o impacto potencial dos resíduos de glifosato no desempenho do crescimento das aves, na função imunológica e na saúde reprodutiva.”

Toxicidade hepática e renal

Estudos mostram que os rins e o fígado estão entre os primeiros órgãos a serem afetados por intoxicações alimentares/doenças transmitidas por alimentos. Pesquisas adicionais mostram que resíduos de glifosato nos alimentos podem impactar vários sistemas em animais, incluindo fígado, intestino, rins e pulmões, além de alterar a atividade enzimática.

Em um  estudo com frangos recém-nascidos  expostos apenas ao glifosato e ao Roundup, foram observadas “alterações histopatológicas nos rins e no fígado, juntamente com desequilíbrios nos parâmetros séricos e diversas alterações bioquímicas nesses órgãos, o que poderia potencialmente prejudicar sua função”.

Estresse oxidativo

A exposição ao glifosato pode induzir estresse oxidativo e danos aos lipídios, proteínas e DNA. Pesquisas anteriores mostram como o glifosato e o AMPA são genotóxicos e estão associados a danos oxidativos.

Um estudo  mostra que o glifosato aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio no fígado e no intestino delgado de frangos. A exposição crônica a produtos que contêm glifosato em matrizes de corte (frangos de corte) enfraquece a casca dos ovos e retarda o crescimento dos órgãos embrionários, sendo o estresse oxidativo a causa.

Toxicidade gastrointestinal

O glifosato diminui a biodisponibilidade das enzimas citocromo (CYP), cruciais para o metabolismo, nos órgãos das galinhas. Um estudo mostra que o glifosato inibe especificamente as enzimas CYP P450 no fígado e intestino delgado das galinhas.

Os pintinhos expostos ao glifosato também apresentam função hepática comprometida e metabolismo lipídico alterado, causando ainda mais estresse oxidativo e depósitos de gordura no sangue e nos tecidos do fígado devido à expressão aumentada de genes relacionados à lipogênese, como resultado de seu efeito disruptivo nas enzimas do citocromo P450.

Estudos adicionais mostram a perturbação do microbioma intestinal em gado e aves, onde o glifosato reduz bactérias benéficas e aumenta a resistência em cepas patogênicas.

Esses impactos podem levar ao surgimento de doenças gastrointestinais crônicas. Em um estudo sobre a  estrutura intestinal de pintinhos , o glifosato demonstrou prejudicar os intestinos, reduzir a capacidade antioxidante, induzir inflamação e causar a regulação negativa de genes no intestino delgado.

Impacto na reprodução

Pesquisas anteriores mostram que  a exposição crônica a herbicidas contendo glifosato pode afetar a sobrevivência, o crescimento, a atividade e a reprodução de organismos, incluindo galinhas.

Um  estudo com galos  com exposição crônica e subtóxica ao glifosato mostra redução de testosterona plasmática e um declínio no pico reprodutivo.

Outro estudo  encontra “efeito significativo nas características histopatológicas [do tecido doente] dos testículos do galo, bem como na motilidade dos espermatozoides, o principal determinante da qualidade do esperma do galo”.

Pesquisas adicionais mostram  espermatozoides alterados em galos  quando alimentados com uma dieta contendo glifosato, o que leva a “distúrbios metabólicos na prole, provavelmente devido a  efeitos epigenéticos ”.

Implicações do glifosato para produtividade e desempenho

Vários estudos classificaram formulações de herbicidas à base de glifosato como teratogênicas, causando anormalidades no desenvolvimento do feto ou embrião, e embriotóxicas, causando danos ou morte aos embriões durante o desenvolvimento.

Em  um estudo com codornas , constatou-se que o glifosato se acumulava dentro dos ovos, causando danos aos lipídios (gorduras) no cérebro dos embriões em desenvolvimento. Este estudo também revela que resíduos de glifosato nos alimentos também retardam o desenvolvimento da plumagem e permanecem nos ovos, músculos e fígados das aves.

Outro estudo com galinhas mostra que  a exposição ao GLP  levou a uma redução significativa na expressão de genes-chave relacionados à produtividade”.

A exposição direta dos ovos de galinhas a herbicidas à base de glifosato induz efeitos teratogênicos com efeitos negativos no crescimento e desenvolvimento embrionário, bem como na mortalidade embrionária.

Alterações nos parâmetros sanguíneos, efeitos adversos no desenvolvimento do trato digestivo e redução do peso corporal são observados em  galinhas expostas ao glifosato .

Os impactos reprodutivos e de desenvolvimento relacionados à qualidade da casca do ovo e ao desenvolvimento do embrião também estão associados aos níveis de  glifosato e AMPA  na gema do ovo.

Outro estudo mostra que a  queda na eclodibilidade  está associada a níveis mais altos de resíduos de glifosato na ração de matrizes de frangos de corte.

Deficiências regulatórias e a solução orgânica

Apesar das crescentes evidências científicas que continuam a vincular o glifosato a efeitos adversos em uma ampla gama de espécies, as regulamentações atuais não protegem a saúde e o meio ambiente.

Os processos regulatórios, como os utilizados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), também ignoram fatores que aumentam a toxicidade desses produtos químicos já nocivos, como sinergia, misturas e ingredientes inertes.

“As avaliações de segurança atuais concentram-se principalmente no glifosato de forma isolada, ignorando os efeitos tóxicos sinérgicos das formulações comerciais e sua capacidade de bioacumulação nos tecidos adiposos”, apontam os autores.

Eles continuam:

“Além disso, a toxicidade elevada das formulações comerciais de glifosato, influenciada por coformulantes como POEA, em conjunto com a interferência do glifosato na microbiota intestinal, nas enzimas do citocromo P450 e nas funções endócrinas, enfatiza a necessidade de avaliações de risco cumulativo e estudos de longo prazo que levem em conta a variabilidade das espécies, a bioacumulação e os efeitos sinérgicos.”

Essas inadequações na regulamentação de pesticidas petroquímicos e fertilizantes sintéticos reforçam a necessidade urgente de adoção generalizada de alternativas mais seguras.


Fonte: Sustainable Pulse

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Contaminação mostra urgência em substituir plástico por materiais biodegradáveis 

Apesar de invisíveis, micro e nanoplásticos estão presentes em sistemas de águas subterrâneas, fontes de quase metade da água potável consumida no mundo. Esses materiais são em grande parte provenientes de produtos para agricultura, como as coberturas plásticas (mulches), recipientes de agrotóxicos e sacos de fertilizantes. O tamanho das partículas faz com que elas atravessem as camadas de solo e contaminem os lençóis freáticos. É o que mostra artigo publicado na sexta (5) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os pesquisadores fizeram uma revisão de literatura a partir de mais de 50 artigos disponíveis nas bases de dados Web of Science e ScienceDirect e publicados entre 2019 e 2024. Eles usaram combinações de termos relacionadas ao assunto, priorizando artigos de periódicos com fatores de impacto mais altos para garantir a relevância e qualidade das fontes.

Os resultados mostram a quase onipresença dos resíduos plásticos nesses ambientes. Diante desse contexto, Victor R. Moreira, pesquisador da UFMG e um dos autores do estudo, atenta para a importância de substituir plástico por materiais biodegradáveis. “Observamos muitas vezes que as partículas menores predominam nas camadas mais profundas, inclusive nos aquíferos. Isso acaba sendo um desafio maior, porque é mais difícil de remover”, diz Moreira.

A revisão também indica que o estudo de microplásticos é mais frequente do que o de nanoplásticos, embora estas partículas microscópicas sejam mais predominantes em sistemas de água subterrânea. Essa presença se deve ao tamanho menor e, por efeito, maior mobilidade através das camadas do solo.

Na dinâmica de contaminação, os autores também apontam como fonte relevante os biossólidos, que são os resíduos orgânicos provenientes do tratamento do esgoto. Os biossólidos são materiais ricos em matéria orgânica e nutrientes e usados em atividades agrícolas como fertilizantes. “O processo de tratamento de esgoto remove contaminantes, mas muitos deles, incluindo microplásticos, acabam sendo agregados ao lodo por adsorção, e, portanto, reintroduzidos no solo ao aplicar os biossólidos”, explica Moreira.

Para compreender melhor os efeitos dessa contaminação, são necessários estudos temporais com foco na variabilidade sazonal dos micro e nanoplásticos nos sistemas subterrâneos de água, assim como a análise espacial em regiões com significativa produção agrícola, avaliam os pesquisadores. Além disso, próximos passos para investigar o impacto da contaminação envolvem estudos de laboratórios, que podem analisar a toxicidade dos micro e nanoplásticos e seu papel como carregador de agrotóxicos.


Fonte: Agência Bori

Agrotóxicos usados na cultura de fumo contaminam água e agricultores em SC, aponta estudo

Agricultor aplica agrotóxico sem uso adequado de equipamentos de proteção individual em lavoura de tabaco

Um estudo realizado em Chapadão do Lageado, no interior de Santa Catarina, revela que o cultivo do tabaco expõe agricultores e recursos hídricos à contaminação por pesticidas. O artigo, publicado na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, investigou a presença de resíduos de agroquímicos usados na fumicultura em rios e poços da região, além da ocorrência da doença da folha verde do tabaco (DFVT) e de sintomas de intoxicação por agrotóxicos entre os produtores.

Com a autoria de pesquisadoras da Universidade Regional de Blumenau (Furb), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina (Conicet), o trabalho foi motivado após uma das autoras, Giane Carla Kopper Müller, doutora em engenharia ambiental pela Furb e proprietária de áreas rurais em Chapadão do Lageado, identificar a presença de agroquímicos em águas de suas terras. “Fiquei intrigada , pois as fontes são protegidas, rodeadas por vegetação e distantes, cerca de 500 metros, de lavouras. Quis entender qual seria a origem dessa contaminação.”

A metodologia combinou entrevistas com 107 pessoas, representando 42% dos fumicultores da região (258). Já a análise da água foi feita a partir de 36 amostras coletadas em seis pontos dos três principais rios do município — Rio do Meio, Rio Figueiredo e Rio Lageado — sendo três pontos a montante (antes das áreas de cultivo, no sentido contrário ao fluxo do rio) e três a jusante (depois das áreas de cultivo, acompanhando o fluxo da água). Também foram analisadas seis amostras de poços, localizados próximos aos pontos de coleta dos rios e utilizados para consumo humano, durante três fases da safra de 2019. As amostras passaram por filtragem e análise em laboratório com uso de cromatografia líquida e espectrometria de massa, e foram testadas para 14 dos pesticidas mais citados pelos fumicultores.

As entrevistas revelaram um cenário de intensa exposição ocupacional. A maioria dos fumicultores trabalha em pequenas propriedades, com o tabaco como principal fonte de renda (85%), e dedica mais de 75% do tempo familiar à atividade. Crianças e idosos também participam da colheita. Dos produtores entrevistados, 91,6% relataram sintomas relacionados à DFV e 19,6% relataram sintomas relacionados ao manuseio de pesticidas. 

Segundo o artigo, os riscos de exposição dos agricultores são potencializados por uso incorreto ou parcial dos equipamentos de proteção individual (EPI), falhas no descarte e descontaminação de vestuários, embalagens e equipamentos utilizados no preparo e aplicação dos agroquímicos. Apesar de 99% dos entrevistados reconhecerem a importância dos EPI, apenas metade afirma sempre usá-los ao manusear agrotóxicos o que aumenta os riscos de intoxicação. Apenas 13% afirmam ser necessário usar EPIs para evitar a intoxicação, DFVT ou popular “porre do fumo”, devido à exposição à nicotina.

“Não se pode restringir o risco de contaminação apenas ao momento da aplicação direta do agrotóxico na lavoura. É preciso considerar também as embalagens usadas, as roupas de proteção, os utensílios e os resíduos presentes no ambiente agrícola. Mesmo após o uso, esses materiais ainda retêm partículas tóxicas, que podem ser dispersas pela água da chuva ou pelo manuseio inadequado, ampliando a exposição de trabalhadores e o risco de contaminação ambiental”, explica Lorena Benathar Ballod Tavares, professora do programa de pós-graduação em engenharia ambiental da Furb e coautora do artigo. Além disso, a proximidade entre as plantações comerciais e os alimentos cultivados para o consumo da própria família, como aipim, feijão e frutas, aumenta a exposição.

A análise da água detectou resíduos de agrotóxicos em 18 das 36 amostras, sendo a maioria em rios próximos às lavouras. Princípios ativos como sulfentrazone, imidacloprid e thiamethoxam foram identificados em concentrações que superam o limite individual máximo de 100 nanogramas por litro, estabelecido pela União Europeia para água potável. No Brasil, não há parâmetros de potabilidade definidos para os ingredientes ativos testados. Quatro de seis poços analisados estavam contaminados; as fontes de água testadas são usadas para consumo humano, irrigação e piscicultura.

Para as autoras do estudo, os resultados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à educação sobre riscos ocupacionais e ambientais no cultivo de tabaco.  Para a pesquisadora Maria Pilar Serbent, do Conicet, são necessários  investimentos em soluções que reduzam essa exposição dos agricultores, como modelos de produção orgânica. “Eles plantam tabaco e usam agrotóxicos porque é a única forma de garantir a subsistência da família”, defende Müller. “São dependentes dessa forma de produção e não têm os recursos, subsídios, investimentos e nem acesso à expertise para buscar meios menos prejudiciais ao meio ambiente e à própria saúde.” O estudo também sugere que a fiscalização ambiental e o monitoramento da qualidade da água sejam intensificados em regiões de monocultura.


Fonte: Agência Bori

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula mantém inalterada a marcha do veneno e libera mais 115 agrotóxicos

Mostrando um compromisso inalterado com o modelo agrícola agro-exportador, fortemente dependente de venenos agrícolas para produzir, o governo Lula autorizou hoje, via dois, o Ato No. 26 de 24 de junho de 2025 e o Ato No. 28 de 27 de junho de 2025, a comercialização de mais 56 agrotóxicos em território brasileiro. 

Em mais esse ato contra a saúde ambiental e dos brasileiros em geral foram liberados velhos conhecidos, incluindo os herbicidas Dicamba, Glifosato e Glufosinato que são todas substâncias que são reconhecidamente tóxicas para o meio ambiente e a saúde humana.

Outras característica persistente que está presente em mais esse “ato” é a forte predominãncia de empresas chinesas como as principais fornecedoras desses venenos agrícolas, mostrando um processo de trocas altamente desiguais, seja econômica como ambientalmente.

O fato inescapável é que o governo Lula está mantendo inalterada a marcha do veneno estabelecida pelo governo de Jair Bolsonaro, o que não chega a ser uma surpresa visto que há no atual governo a mesma espécie de compromisso com a pauta agro-exportadora que está na base desse enxurrada de agrotóxicos.

Brasil: Peixes introduzidos por transposição de água apresentam parasitas

peixes parasitas introduzidosPesca de tilápia, um peixe invasor altamente explorado comercialmente e consumido popularmente. Crédito da imagem: Prefectura del Guayas/Flickr , sob licença Creative Commons BY-NC-SA 2.0 Deed .

As espécies com maior número de parasitas foram a piaba Astyanax bimaculatus) também chamada (tetra-fortuna ou lambari), a tilápia do Nilo ( Oreochromis niloticus ), o tucunaré ( Cichla Monoculus ) e a traíra (pertencente ao gênero hoplia), segundo estudo publicado no Journal of Helminthology.

No total, 42% dos peixes analisados ​​apresentavam algum tipo de parasita.

Entre as espécies de parasitas encontradas, os pesquisadores identificaram três tipos associados à anisaquíase humana, uma parasitose gastrointestinal causada pela ingestão de peixe cru ou malpassado.

“Sempre ouvimos que a traíra tem parasitas. Houve um tempo em que era difícil vender esse peixe porque as pessoas diziam que tinha parasitas. Agora, as pessoas esqueceram. Estamos preocupados, mas não temos outra maneira de sobreviver”, disse Antonio Valdivino Muniz, 54 anos, um dos 300 pescadores que tiram seu sustento da barragem de Acauã, na Paraíba, nordeste do Brasil, ao SciDev.Net .

Esta barragem é um dos 27 reservatórios vinculados ao PISF, um projeto de megatransferência que leva água do caudaloso Rio São Francisco até o Catinga, bioma predominante no semiárido brasileiro.

O projeto de 477 quilômetros visa fornecer água para 12 milhões de pessoas.

“A transferência de água é uma ação humana que pode causar um desequilíbrio ecológico porque altera o ambiente natural”, explicou ao SciDev.Net a bióloga Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e principal autora do estudo.

“Hoje, não temos essas zoonoses no Rio Paraíba, mas imagine o que aconteceria se, no futuro, tivéssemos doenças parasitárias associadas a peixes que não existiam aqui antes. Como eles as relacionariam com a transferência se ninguém soubesse delas? É por isso que o monitoramento é tão importante”, acrescentou.

A bióloga Ana Carolina Lacerda, do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e uma das coautoras do estudo, ressalta que o país ainda carece de dados sobre doenças parasitárias em peixes que tenham potencial de causar doenças em humanos.

“Se as espécies de parasitas que encontramos têm potencial zoonótico, então sim, elas podem causar doenças em humanos. Mas precisamos registrá-las no sistema público e garantir que o parasita se originou do peixe que foi ingerido”, observou.

“No Brasil, embora exista um sistema nacional de registro de zoonoses, é provável que haja subnotificação devido à falta de diagnóstico”, acrescentou.

Entre os grupos de parasitas mais abundantes encontrados, dois deles eram hospedados por espécies invasoras não nativas da região: a tilápia do Nilo e o tucunaré.

O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, responsável pelo PISF, afirma que não há certeza se o deslocamento de peixes hospedeiros é responsável pela introdução desses parasitas com potencial zoonótico, ou se [os parasitas] já estavam presentes na área e infectaram as populações de peixes quando chegaram aos reservatórios locais.

“Existem vários cenários possíveis para a introdução de peixes e seus parasitas, pois os peixes podem estar parasitados em seu ambiente original e podem ou não perder seus parasitas durante o processo de transferência, ou podem não ter sido originalmente parasitados e se tornarem colonizados por parasitas de peixes no novo ambiente”, explicou o ministério em uma resposta ao SciDev.Net .

O ministério afirma que o surgimento de espécies invasoras de peixes estava entre os impactos previstos e que, desde 2012 — fase de instalação do projeto —, monitora 73 pontos nos dois eixos (leste e norte) em 10 bacias hidrográficas do Nordeste.

Em relação aos parasitas, a agência afirma que “somente com estudos prévios sobre a presença das águas do PISF nesses ambientes é possível vincular qualquer impacto dessa natureza ao Projeto”.

A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode levar a extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes.

Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Ana Carolina Lacerda explica que essas organizações não são vilãs. “Eles fazem parte da preservação e do equilíbrio dos ecossistemas”, ressalta. Entretanto, quando chegam de outros ambientes, tornam-se uma ameaça a esse equilíbrio.

Das mais de 50 espécies de parasitas identificadas no estudo, realizado no eixo leste do projeto, 32 não haviam sido identificadas anteriormente na bacia do Rio Paraíba do Norte.

“A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode causar extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes”, enfatiza Moreira de Lima.

Isso afetaria o trabalho de pessoas como Antonio Valdivino Muniz, o pescador mencionado no início desta reportagem: pescar 150 quilos de peixe por semana lhe garante uma renda de R$ 450 (cerca de US$ 80). “Não temos nenhum incentivo da prefeitura, nem o pessoal da transferência de água vem aqui, se reúne e vai embora”, reclamou.

Preocupados com sua sobrevivência, os pescadores locais desconhecem a ameaça representada pela introdução de peixes invasores, como o tucunaré e a tilápia. O primeiro acaba dominando o ambiente por ser predador, e o segundo, pela facilidade de reprodução.

A tilápia do Nilo, apesar de ser um peixe invasor, é altamente explorada comercialmente no Brasil. Crédito da imagem: Bernard Dupont/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed .

“Quem vive da pesca prefere espécies nativas pela qualidade de muitas delas. Economicamente, é melhor. Mas elas estão desaparecendo”, enfatizou o biólogo Ricardo Takemoto, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, que não participou do estudo.

“O tucunaré é bom para a pesca esportiva, mas não tem importância comercial devido à sua baixa qualidade. A tilápia, em termos de produção, tem sido bastante explorada economicamente. Ela já está se adaptando à água do mar, como uma praga”, explicou ele ao SciDev.Net .

Introduzido no Brasil na década de 1960, esse peixe hoje domina o mercado: segundo o Anuário Peixe BR 2024 , o país produziu quase 900 mil toneladas de peixes, dos quais 65,3% eram tilápias, 29,7% peixes nativos e 5% outras espécies.

“Qualquer mudança ambiental causa desequilíbrio, então estudos desse tipo são importantes porque abordam o problema dessas introduções”, acrescentou Takemoto.


Fonte: SciDev.Net