A marcha do veneno continua: com mais 42 aprovações, o total de agrotóxicos liberados por Bolsonaro chega a 239

pesticideCom mais 42 agrotóxicos aprovados, governo Bolsonaro liberou o número recorde de 239 produtos apenas na primeira metade de 2019.

A despeito das condenações e do boicote convocado pelo fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, o governo Bolsonaro continua disposto a transformar o Brasil numa imensa piscina tóxica.  É que o Diário Oficial da União desta segunda-feira (24/06) traz a publicação do Ato No. 42 de 19 de Junho de 2019 em que são aprovados mais 42 agrotóxicos para comercialização no Brasil.

Já comecei a tabulação dessa nova leva de agrotóxicos e em breve publicarei a lista completa e especificações dos compostos que acabam de ser liberados pelo governo Bolsonaro. Entretanto, com as primeiras tabulações já pude identificar a persistência da China como principal fornecedor de agrotóxicos para a agricultura brasileira. Além disso, já verifiquei que dentre os compostos aprovados há uma série de produtos ativos para os quais já existe uma ampla literatura mostrando seus efeitos deletérios para a saúde humana e para o meio ambiente.

O que minhas primeiras avaliações dessa nova leva de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, sob a batura célere da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES), indicam é que todo o discurso em torno da substituição de produtos antiquados por outros mais modernos e menos tóxicos não passa mesmo de um discurso para inglês ver (ou para a União Europeia ver). Na prática, continuam a ser aprovados compostos químicos que já estão ou estão sendo banidos em outras partes do mundo, muitas vezes após pressões da sociedade civil organizada.

Diante dessas novas aprovações e da propensão do latifundio agro-exportador de utilizá-los em larga escala nos grandes monocultivos de exportação não seria nenhuma surpresa se os próximos estudos sobre impactos sobre seres humanos e o meio ambiente mostrarem resultados ainda mais críticos.

 

 

 

Agrotóxicos e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente – Entrevista ao Programa “Faixa Livre”

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Concedi hoje uma entrevista ao jornalista Paulo Passarinho que é o âncora do “Programa Faixa Livre” que é levado ar pela Rádio Bandeirantes 1360 AM a partir da cidade do Rio de Janeiro.

Abaixo posto a resenha produzida pelos editoria do “Faixa do Livre”, bem como o arquivo contendo a íntegra das respostas dadas a Paulo Passarinho.

Pedlowski alerta a alta de casos de câncer provocados por agrotóxicos

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O atendimento aos interesses daqueles que patrocinaram sua eleição à Presidência tem levado Jair Bolsonaro a promover um verdadeiro genocídio silencioso no país: o governo autorizou, em pouco menos de cinco meses, a utilização de 197 novos agrotóxicos pelos grandes proprietários de terra.

Esta é a maior taxa de aprovação de uso de fitossanitários na história. O panorama já tem levado a um aumento alarmante de casos de câncer em algumas regiões do país, onde o agronegócio tem predominância, como no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.

A iniciativa criminosa do Governo Federal preocupa o professor de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) Marcos Pedlowski, que fez questão de citar alguns dos agrotóxicos mais perigosos e que tiveram sua utilização liberada pelo ex-capitão do Exército.

“É um problema ambiental, mas eu diria, principalmente hoje, de saúde coletiva. Temos substâncias reconhecidamente causadoras de câncer, uma delas, que foi aprovada com algumas variações, é o acetato, e outra bastante problemática, que é uma das mais consumidas no mundo, é o glifosato. Temos um produto, o Fipronil, proibido na União Europeia, só pode ser usado em casos raríssimos nos Estados Unidos e é conhecido como exterminador de abelhas”, citou.

Não bastasse a contaminação dos alimentos pelo veneno usado por produtores rurais para conter pragas, os agrotóxicos vêm alcançando o principal bem natural para subsistências das espécies no planeta.

“O problema dos agrotóxicos mais recentes é que eles não ficam tanto no solo, vão direto para a água. Essa capacidade de passar diretamente para o lençol freático e não contaminar o solo tem uma consequência muito ruim. Foi feita uma pesquisa recente com dados fornecidos pelas próprias concessionárias de tratamento de água no Brasil que comprovou que pelo menos um quarto dos municípios brasileiros estão servindo 27 agrotóxicos na torneira da população brasileira”, alertou o professor da UENF.

“Aqui no estado do Rio de Janeiro, a maioria dos municípios analisados tem esses agrotóxicos. Estamos bebendo resíduos de agrotóxicos em grandes quantidades, dependendo da cidade. No Mato Grosso, o grupo do professor Wanderlei Pignati está encontrando até na água da chuva. O que temos com essa situação é que estamos bebendo água contaminada, respirando e comendo agrotóxicos em muitas regiões”, prosseguiu Pedlowski.

A China, um dos principais produtores de fitossanitários do mundo, tem o Brasil como um de seus maiores mercados, já que os Estados Unidos e a União Europeia proibiram a boa parte dos agrotóxicos exportados pelo país asiático.

Indo no caminho inverso do governo Bolsonaro, um país que tem tomado medidas efetivas contra a proliferação de veneno industrial no solo é um dos aliados chineses no mundo, o que pode atingir nossa balança comercial.

“Em 31 de janeiro, os serviços de vigilância sanitária da Rússia emitiram um comunicado ao governo brasileiro dizendo que se o Brasil não tomasse cuidado para diminuir o conteúdo de glifosato na soja exportada, eles suspenderiam a aquisição de soja brasileira. O problema é que a Rússia tolera três vezes mais resíduos do que a União Europeia”, avaliou.

Ouça a entrevista de Marcos Pedlowski:

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Este artigo foi originalmente publicado no site oficial do Programa “Faixa Livre” [Aqui!]

VERACEL é acusada de contaminar lençol freático e afluente do Rio Sapucaeira

Moradores do Itapoã estariam tomando banho e consumindo peixes de águas contaminadas

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Uma grave denúncia de contaminação do lençol freático e contaminação de um afluente do Rio Sapucaeira provocado pelo uso de defensivos agrícolas no viveiro da Veracel, foi enviada para o Futucando Notícias contendo informações detalhadas e alertando sobre os graves riscos para a vida humana e ambiental, chamando a atenção das autoridades que precisam investigar de forma urgente os graves impactos ambientais causados pela Veracel, devendo também, segundo a fonte, verificar os relatórios anteriores e se existirem atuais, mostrando a contaminação ocorrida e os desvios feitos para que os alertas fossem ignorados.

Os lençóis freáticos são grandes extensões de água que ficam abaixo da superfície do solo, e que constituem grande parte da água doce potável do planeta.

A denúncia alerta ainda, que moradores do bairro Itapoã estariam tomando banhos e consumindo peixes de uma lagoa que também estaria contaminada com defensivos agrícolas e se localiza nos fundos do viveiro da Veracel.

Veja as informações detalhadas sobre o impacto ambiental, segundo a fonte da denúncia:

Durante auditoria do FSC/ Cerflor, realizada na Veracel em Agosto de 2015, foi identificado pelos auditores nas análises das águas subterrâneas (há poços de monitoramento do lençol freático dentro do Núcleo florestal da Veracel), que o lençol freático da área do Núcleo Florestal estava contaminado com adubos e defensivos químicos que eram usados nas aplicações dentro do viveiro da multinacional.

Veja fotos:

Para evitar a perda do selo de Certificação, a Veracel fez um revestimento em 2016, conforme fotos abaixo, mas somente na parte interna do seu viveiro de produção de mudas, não se importando com o meio ambiente e vidas em perigo, se preocupando apenas com o custo que era altíssimo para fazer em toda área do viveiro. A parte externa era muito grande e não foi realizado este revestimento, com isso os resíduos químicos que caem no solo continuaram e continuam contaminado o lençol freático.

Há um tanque de captação dentro do Núcleo florestal da Veracel que recebe toda água de defensivos químicos e a água deste tanque é lançada em “plantios Experimentais” que ficam ao lado.

O problema  é que as águas destes plantios caem direto em um afluente do Rio Sapucaeira, onde não há análise da Veracel para saber o real impacto destas águas para famílias ou pessoas que fazem uso abaixo do ponto em que estas águas contaminadas são despachadas pela empresa Veracel. Podem verificar que a Veracel não tem análise da qualidade da água que seguem do ponto onde caem para baixo, os gestores não estão nem ai com a saúde de quem está usando a água. Conforme informações de Vigilantes da Veracel, há muitos moradores do bairro Itapuã tomando banho e pescando nas águas de uma represa localizada nos fundos do viveiro. Outro problema grave são as águas de chuvas com graxa, óleos e demais contaminantes que vem do bairro itapuã e caem dentro destes efluentes.

Segundo a fonte da denúncia, a empresa Veracel nunca fez nada para resolver este Impacto Ambiental que segue contaminando peixes e espécies aquáticas que habitam neste afluente do Rio Sapucaeira.

Ainda de acordo com a fonte, em auditoria realizada em agosto de 2015, um auditor solicitou que a Veracel fizesse um estudo sobre os impactos ambientais da contaminação do solo e sobre as águas lançadas no afluente do Rio Sapucaeira. Pediu ainda para verificar se havia Morte dos Polinizadores pelas aplicações de defensivos e nunca foi feito tal estudo.

Os agentes polinizadores são fatores bióticos ou abióticos que garantem o transporte de pólen, possibilitando, assim, a propagação de espécies vegetais. Nas gimnospermas e angiospermas, a reprodução sexuada envolve um processo conhecido como polinização.

Será que realmente esta empresa está preocupada com o meio ambiente e a sociedade com diz em seus noticiários e jornais impressos?

Perigo ARSENAL NA:

Por: Jean Ramalho

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Futucando Notícias [Aqui!]

166 agrotóxicos já aprovados em 2019. E segue firme a marcha do veneno do governo Bolsonaro

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Aplicação de agrotóxicos.

Em meio a muitas outras notícias turbulentas na situação brasileira, passou despercebida a aprovação de mais 14 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro por meio do Ato 27 que foi publicado no dia 17 de Abril de 2019, perfazendo um total de 166 agrotóxicos liberados para comercialização apenas nos primeiros 4 meses do corrente ano, um verdadeiro recorde de aprovações.

Tendo atualizado a base de dados que criei para acompanhar a marcha do veneno do governo Bolsonaro, pude confirmar algumas tendências que já estava claras desde a primeira série de aprovações, e que desmentem o discurso oficial em várias esferas no que tange as interligações existentes entre o comércio de agrotóxicos e a expansão de áreas cultivas unicamente com monoculturas voltadas para a exportação.

A primeira é que não nada de minimizador ocorrendo em termos do nível de toxicidade das substâncias aprovadas, sendo que no tocante à saúde humana, 43% das substâncias aprovadas estão nas categorias mais perigosas,  I e II, e velhos venenos conhecidos estão na lista dos contemplados (a começar pelo Acefato e pela Atrazina, ambos banidos na União Europeia) (ver gráfico abaixo).

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Ainda no tocante ao elemento da toxicidade, analisei também a situação dos 166 agrotóxicos aprovados em relação à União Europeia e verifiquei que pelo menos 26% deles estão listados como proibidos (o que decorre da não aprovação em primeira instância ou do banimento posterior para aqueles que foram aprovados e depois tiveram comprovadas seus danos sobre saúde humana e meio ambiente) (ver figura abaixo).

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O fato do Brasil estar concentrando produtos que foram banidos pela União Européia já foi verificado anteriormente pela professora Larissa Miers Bombardi do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. Os resultados das pesquisas da professora Bombardi foram sintetizados na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia“.  Entretanto, o que os dados relativos aos 166 agrotóxicos aprovados em 2019 mostram é que as tendências verificadas anteriormente pode não apenas estar sendo mantidas, mas também aprofundadas, tornando o mercado brasileiro uma espécie de banheira preferencial para onde são despejados agrotóxicos  indesejados na União Europeia.

Outra tendência que vejo confirmada a partir dos agrotóxicos autorizados pelo Ato 27 é a extrema dependência do Brasil em relação à China no tocante à produção de agrotóxicos para manter sua agricultura voltada para a exportação.  Nesse quesito, apesar o Brasil importar produtos técnicos que serão utilizados nas diferentes formulações que chegam ao mercado  de diversos países, no caso dos 166 agrotóxicos aprovados em 2019, 63,4% dos fabricantes primários (e em diversos casos do único fabricante) são empresas chinesas (ver figura abaixo).

fabricante primário

Um detalhe ainda mais curioso, é que 98% dos proibidos na União Europeia chegam no Brasil por meio de empresas chinesas. Este dado revela que a China não apenas é a principal fonte de agrotóxicos vendidos, mas, e especialmente, daqueles que foram banidos em outras regiões do planeta, a começar pela União Europeia. 

Por essas e outras é que aparentemente cessaram todas as manifestações belicosas contra a China que marcaram os primeiros momentos do governo Bolsonaro. É que alguém deve alertado quem atacava os laços comerciais com a China, a começar pelo ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, visto que dependemos dos chineses não apenas para assimilar a produção de várias commodities agrícolas, mas também para a compra de agrotóxicos, muitos deles, friso eu, banidos em outras partes do mundo por causa dos fortes impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Interessante lembrar o caso do Paraquat  que tem 85% de sua produção baseada na China, tornando os latifundiários brasileiros diretamente dependentes dos chineses para comprarem esse produto.  O problema é que no caso do Paraquat , o produto já foi proibido para uso na China em 2016 e os chineses irão cessar sua produção para consumo externo em 2020. Enquanto isso no Brasil, a Anvisa só deverá banir o Paraquat, isso se os ruralistas permitirem, coincidentemente em 2020.

Como ainda existem mais de 200 agrotóxicos esperando na fila para aprovação, o mais provável é que brevemente eu tenha de atualizar a minha base de dados. Entretanto, acredito que as tendências aqui observadas não apenas serão mantidas, como possuem fortes possibilidades de serem aprofundadas. Em outras palavras, mais venenos agrícolas altamente tóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, inclusive na China que os produz para os ruralistas brasileiros consumirem.  E depois que ninguém se surpreenda se aumentar a contaminação na água que chega nas nossas torneiras e na comida que alcança a mesa de que ainda consegue comprar.

Com agrotóxicos aparecendo em mais lugares, aumentam as preocupações com a segurança

Um corpo crescente de pesquisas está desafiando a suposição de que os neonicotinóides são mais seguros e menos propensos a se espalhar no ambiente do que outros agrotóxicos

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Credito: Danita Delimont Getty Images

Por Jim Daley para a Scientific American

Durante décadas, Judy Hoy dirigiu um centro independente de reabilitação da vida selvagem na sua casa no estado de Montana, onde também realizou autópsias em cervos atingidos por carros. No final dos anos de 1990, ela notou uma tendência bizarra: muitos cervos tinham pronunciado sobremordidas, ventrículos cardíacos ampliados e glândulas e timo danificados ou ausentes. E os cervos não estavam sozinhos. “Estávamos vendo os mesmos defeitos congênitos em todos os animais de caça e domésticos”, diz Hoy, que relatou suas observações em 2002 no Journal of Environmental Biology. Ela suspeitava que uma nova classe de agrotóxicos chamada neonicotinóides poderia ser responsável por esses problemas.

Impulsionado pelo trabalho de Hoy, Jonathan Jenks, um ecologista de vida selvagem da Universidade Estadual de Dakota do Sul, testou essa ideia em 2015 e 2016. Ele deu água a um  cervo cativo contendo imidaclopride, o neonicotinóide mais comumente usado, e mediu sua presença em vários órgãos. Veados com níveis mais altos em seus baços tinham sobremordidas pronunciadas, exatamente como Hoy tinha visto. O que realmente surpreendeu Jenks foi que ele também encontrou imidacloprid em seus animais de controle – que não haviam sido expostos intencionalmente ao agrotóxico. Suas descobertas se somam a um corpo acumulado de indicações sinistras de que os neonicotinóides podem estar representando um risco ambiental e de saúde sub-reconhecido.

Os neonicotinóides, que visam o sistema nervoso dos insetos com eficiência letal, foram desenvolvidos pela Bayer na década de 1980 como uma alternativa mais segura aos agrotóxicos então existentes. Eles são considerados menos tóxicos para os vertebrados e, em vez de serem amplamente pulverizados sobre os campos, podem ser aplicados diretamente às sementes ou entregues via irrigação e incorporados aos tecidos à medida que a planta se desenvolve – em tese, minimizando suas chances de se espalhar no meio ambiente. Mas um corpo crescente de literatura está desafiando esse paradigma, apontando para impactos tóxicos em espécies não-pestes de abelhas e em veados e para a transmissão além dos campos agrícolas. Apenas 2 a 20% dos neonicotinóides aplicados às sementes chegam à planta, diz Jonathan Lundgren, um ecologista que trabalhou com Jenks e dirige a Ecdysis Foundation, uma organização de pesquisa agrícola. “Isso levanta a questão de para onde os outros 80 a 98 %  dos agrotóxicos estão indo”, diz ele. “E estamos começando a encontrá-los em outras áreas do meio ambiente. Estamos encontrando-os em águas superficiais. Estamos encontrando-os em plantas não tratadas com agrotóxicos.

De Pardais a Alimentos

Jenks não tem certeza de como o cervo controle em seu experimento foi exposto ao imidaclopride, mas ele suspeita que eles possam ter comido vegetação de um campo próximo ao local onde foram mantidos ou que sua ração baseada em grãos pode ter sido tratada com o pesticida.  Jenks observa que 90% do milho e 50% da soja nos Estados Unidos são tratados com neonicotinóides. Os produtos químicos são projetados para diminuir nas plantas tratadas ao longo do tempo, mas Jenks diz que sua meia-vida é de até 1.400 dias – o que significa que as aplicações anuais nas lavouras podem estar causando o acúmulo de neonicotinóides no ambiente. “Qualquer alimento doméstico usado em um estudo experimental provavelmente resultaria em contaminação”, diz ele. Os agrotóxicos também são solúveis em água, razão pela qual podem ser entregues a plantas em crescimento por meio de irrigação, mas também significa que o escoamento pode levá-los a lagos e rios. Jenks diz que seu estudo, publicado em março na Scientific Reports, foi o primeiro a examinar experimentalmente os efeitos do imidacloprid sobre grandes mamíferos. Os efeitos dos neonicotinóides sobre os vertebrados de forma mais ampla estão apenas começando a ser compreendidos.

Christy Morrissey, ecotoxicologista da Universidade de Saskatchewan, que não participou do estudo de Jenks, diz que a exposição a neonicotinóides tem efeitos perturbadores sobre pássaros canoros migratórios. Em 2017, Morrissey mostrou em um estudo da Scientific Reports que a alimentação do imidaclopride com pardais coroados-brancos fazia com que eles perdessem até um quarto da massa corporal – e em uma longa jornada migratória, cada miligrama é importante. Além disso, os pardais também não conseguiram encontrar o norte verdadeiro por semanas depois de serem expostos. Morrissey diz que uma alta porcentagem de pardais migratórios capturados no sul de Ontário tem níveis detectáveis ​​de neonicotinóides no sangue. “Os níveis são baixos, mas indicam uma contaminação generalizada”, disse ela. “Esses produtos químicos estão entrando na cadeia alimentar mais ampla … e não são atóxicos para muitas espécies.” Outros estudos começaram a detectar neonicotinóides em aves de rapina selvagens, roedores, peixes, lagartos e sapos; os biólogos suspeitam que os animais estão sendo expostos de várias maneiras, incluindo comer sementes tratadas ou presas contaminadas, ou entrar em contato com o escoamento de campo contaminado.

Neonicotinóides também estão aparecendo na comida humana. Um artigo de revisão  publicado na revista Environmental Science and Toxicity em 2018 constatou que mais da metade das frutas e verduras servidas na cafeteria do Congresso dos EUA continha neonicotinóides, embora em níveis considerados aceitáveis ​​pela Agência de Proteção Ambiental com base em estudos em roedores (a prática padrão da EPA para testar toxicidade de agrotóxicos)  E um estudo publicado em janeiro de 2019 na Environmental Health encontrou neonicotinóides mesmo em algumas frutas e vegetais orgânicos certificados – possivelmente devido à má rotulação do produto, à contaminação pós-colheita ou à deriva de  agrotóxicos carregados pelo vento.

Mas a extensão da toxicidade desses agrotóxicos para os seres humanos ainda não está clara para os cientistas, em parte porque, até muito recentemente, não possuíam capacidade analítica para detectar esses produtos químicos ou subprodutos em humanos, diz Melissa Perry, pesquisadora de saúde pública da Universidade George Washington. “Nos últimos 15 anos, chegamos a entender que muitos agrotóxicos podem imitar hormônios, o que pode afetar as atividades do sistema endócrino humano”, diz ela. “Como os estudos sobre os efeitos dos neonicotinóides sobre a saúde humana têm sido bastante limitados, se eles têm atividade endócrina humana ainda não é conhecido.”

De acordo com David Fischer, diretor da divisão de segurança ambiental da Bayer Crop Science, os métodos de testes ambientais atuais são mais sensíveis – e os níveis dos agrotóxicos detectados não são prejudiciais. Lundgren, entretanto, contrapõe que, mesmo em níveis baixos, “os neonicotinóides são 5 a 10.000 vezes mais tóxicos para as abelhas que o DDT [diclorodifeniltricloroetano, um pesticida que a EPA proibiu na década de 1970]”. Fischer também diz que as concentrações utilizadas por Jenks e Lundgren em seus experimentos são maiores do que os níveis ambientais atuais, o que Jenks prontamente reconhece. Mas Jenks e seus colegas encontraram alguns cervos selvagens com concentrações de imidacloprid ainda mais altas do que aqueles em seus cervos experimentais, indicando que os níveis ambientais podem variar.

Repensando os agrotóxicos

Jenks e outros estão analisando os impactos dos neonicotinóides em outras espécies, para entender melhor o escopo potencial do problema. Em seu trabalho atual com faisões, Jenks encontrou novamente contaminação em seus animais de controle. Ele testou sua alimentação e identificou-a como uma possível fonte de contaminação. Outros pesquisadores começaram a pedir por biomonitoramento e estudos epidemiológicos de larga escala para determinar os efeitos dos neonicotinóides na saúde humana.

Recentemente, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças estabeleceram métodos analíticos para estudar a presença de agrotóxicos na urina, como parte da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição, uma ampla pesquisa do status médico e alimentar dos americanos. Devon Payne-Sturges, cientista de saúde ambiental da Universidade de Maryland, diz que o estudo da NHANES “preencherá uma importante lacuna de dados” no biomonitoramento de neonicotinóides.

Em grande parte porque os neonicotinóides já mostraram ser mortais para as abelhas, que são cruciais para as plantas polinizadoras, alguns governos começaram a restringir seu uso. Em 2018, a União Europeia expandiu a proibição de três neonicotinóides, incluindo o imidaclopride. Nos EUA, o congressista Earl Blumenauer (D-Ore.) reintroduziu uma lei em fevereiro de 2019 para limitar o uso de imidaclopride e outros neonicotinóides, e para direcionar a Environmental Protection Agency (EPA) a estabelecer um “conselho de proteção de polinizadores” que envolveria apicultores, agricultores e conservacionistas em processos de revisão de toxicidade de agrotóxicos.

No entanto, Morrissey diz que o problema não é tão simples quanto proibir um agrotóxico ou outro. “O maior problema é que nos tornamos complacentes com o uso de agrotóxicos para tudo”, diz ela. Lundgren diz que alternativas como a agricultura regenerativa – uma abordagem que é defendida pela Fundação Ecdysis e promove a biodiversidade para ajudar a controlar pragas com insetos benéficos – já estão disponíveis e são escaláveis ​​para a agricultura comercial. Mas ele acrescenta que uma mudança significativa terá que vir dos esforços de base. “Acho que esse tipo de mudança de paradigma ao longo da história não vem necessariamente do governo ou da universidade; eles vêm das pessoas que decidem fazer uma mudança ”, diz ele. “Dentro do nosso sistema alimentar, quem precisa fazer essa mudança? Os fazendeiros, os apicultores, os consumidores. Eles precisam exigir algo melhor ”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista Scientific American [Aqui!]

Desde o golpe contra Dilma, 1,2 mil novos agrotóxicos foram liberados no Brasil

Com Temer e Bolsonaro, passam a ser permitidos 3 novos venenos a cada 2 dias, consolidando país como recordista mundial

Enquanto em 2015 foram aprovados 139 agrotóxicos no país, em 2018, esse número mais que triplicou, saltando para 450 - Créditos: Pixabay

Enquanto em 2015 foram aprovados 139 agrotóxicos no país, em 2018, esse número mais que triplicou, saltando para 450 / Pixabay

Por Bruna Caetano para o jornal “Brasil de Fato”

O Brasil é o líder mundial no consumo de agrotóxicos, com 7,3 litros por ano para cada um dos habitantes do país. E o número de veneno no prato dos brasileiros têm aumentado consideravelmente nos últimos três anos. Enquanto em 2015 foram aprovados 139 agrotóxicos no país, em 2018, esse número mais que triplicou, saltando para 450. Já em 2019, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), sob o comando de Tereza Cristina, aprovou o uso de 121 produtos elaborados com agrotóxicos nos dois primeiros meses de governo.

Dos 2.184 produtos consolidados no país, 715 são classificados como extremamente tóxicos e 309 como altamente tóxicos. São esses os produtos que mais podem causar consequências graves à saúde de trabalhadores rurais e também adoecer a população consumidora de alimentos contaminados. O contato com os agroquímicos – inclusive os de menor nível de toxicidade – pode causar desde intoxicação aguda, com fraqueza, vômitos, tontura e convulsões, até intoxicação crônica: alterações cromossomiais, alergias, doença de Parkinson, má formação fetal e câncer, tudo em curto, médio ou longo prazo.

Para Nilto Tatto, deputado federal pelo PT, a articulação entre a bancada ruralista e a cúpula que organizou o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff foi fundamental para atender medidas em benefício do agronegócio no país, incluindo a liberação de agrotóxicos. A partir da eleição de Jair Bolsonaro, essa relação se estreitou através da ministra da agricultura, Tereza Cristina, conhecida como “musa do veneno”.

Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, responsabiliza também o alinhamento ideológico entre a Anvisa, o Ibama, Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente com o agronegócio pela facilitação da aprovação de agrotóxicos a partir de mudanças internas a partir do impeachment. “A partir do golpe, você perde o contrapeso de setores progressistas, da agricultura familiar e da agroecologia, e essa agenda ruralista passa a ter uma facilidade maior de avanço na agilização do registro de agrotóxicos e na tentativa de flexibilização da lei.”

Entre 2013 e 2015, o Programa de Análise de Resíduos de Alimentos (Para) da Anvisa, analisou 12.051 amostras de 25 alimentos de origem vegetal e constatou que mais da metade (58%) continha resíduos de agrotóxicos, em quantidade menor, igual ou maior que o limite estabelecido. Destes, 16,6% possuíam venenos não autorizados para a cultura analisada.

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), foram registrados 4 mil casos de intoxicação por agrotóxicos no país em 2017, quase o dobro de registros em relação à uma década atrás. Em 2018, 154 pessoas morreram por conta do contato com o veneno. De acordo com Tygel, os casos de intoxicação registrados correspondem a uma parcela pequena do número real, já que muitos não são levados ao sistema de saúde. Além do mais, muitas vezes são desenvolvidas doenças crônicas que raramente são associadas ao agrotóxico pelo intoxicado.

Ele explica que a legislação atual proíbe o registro das substâncias que possuem uma equivalente com a toxicidade menor, mas as empresas acabam burlando isso incluindo ou excluindo culturas, de modo que pareça que a substância é necessária. Com os produtos aprovados esse ano das classes um e dois (extremamente tóxicos e altamente tóxicos), a expectativa é que o número de intoxicações aumente.

E vem mais por aí

Ainda em 2018, foi aprovada pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados, às escuras, a PL 6299/2002, conhecida popularmente como Pacote do Veneno, que pretende trazer mudanças na regulamentação de agrotóxicos no país. A PL transfere o poder de registro de agrotóxicos da Anvisa e do Ibama exclusivamente para o Mapa, e muda o nome para “fitossanitários”, mas ainda aguarda a votação no Plenário.

O avanço do uso de agrotóxicos no Brasil segue um movimento contrário ao do mundo, que vem reavaliando e proibindo muitas substâncias. No país, a quantidade permitida de agrotóxico na água é 5 mil vezes maior que a europeia, e 30% dos agrotóxicos usados aqui tem o uso proibido por lá. Um exemplo disso é o paraquate, oitavo agrotóxico mais vendido no Brasil e proibido no território europeu desde 2007. De acordo com o Centro de Controle de Intoxicações em Marselha, na França, o químico está associado à envenenamentos graves e fatais.

Segundo estudo do instituto francês, ele tem ligação com tentativas de suicídio por ingestão proposital, mas o agrotóxico pode também ter levado ao quadro suicida, já que a exposição à ele pode causar depressão no sistema nervoso central.

De acordo com o deputado Tatto, os parlamentares de esquerda e do campo progressista têm se articulado junto aos movimentos sociais de luta pela reforma agrária, entidades ambientais e de saúde para barrar a flexibilização do uso de agrotóxicos no país. Um dos símbolos disso é a construção do Projeto de Lei (PL) de uma Política Nacional de Redução de Agrotóxicos, aprovada em uma comissão especial, o que a deixou no mesmo patamar do Pacote do Veneno, aguardando aprovação pelo Plenário.

“Ao mesmo tempo em que a bancada ruralista se articula e têm um projeto de lei para flexibilizar a legislação, temos um projeto de iniciativa popular no mesmo estágio na Câmara Federal que vai em uma outra perspectiva. Ele repensa o modelo de agricultura para trabalhar a diminuição dos agrotóxicos, e começar a pensar outras políticas como a de incentivo à perspectiva da agroecologia e desenvolvimento de tecnologia para facilitar a vida dos camponeses e ter alternativas ao veneno”.

Apesar da liberação de substâncias de agrotóxicos protagonizada pelo governo Bolsonaro, existe uma deterioração da relação com o agronegócio enquanto se favorece o setor agroquímico. Recentemente, por exemplo, em uma viagem aos Estados Unidos, o presidente fez um acordo de importação do trigo norte-americano, desestimulando a produção nacional e concorrendo com o produto brasileiro. “Eles estão brigando entre eles por interesses específicos do agronegócio, mas por outro lado paralisa completamente e anuncia o fim das políticas de apoio à agricultura familiar”, finaliza Tatto.


Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!]

Mortandades de peixes continuam no Rio Doce

Lançamentos periódicos de rejeito de minério matam peixes, que continuam sendo consumidos pela população

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Por Fernanda Couzemenco para o Século Diário

“É contínuo. O rejeito fica no fundo, quando começa a prejudicar as turbinas das hidrelétricas, eles abrem as comportas e os peixes morrem”, declara o presidente da Associação de Pescadores de Conselheiro Pena e região (Aspec), Lélis Barreiros, ao final da reunião do Comitê Interfederativo (CIF) realizada nestas quarta e quinta feiras (27 e 28) em Vitória.

O CIF foi criado em 2016 para fiscalizar a execução dos programas de compensação e reparação dos danos ambientais e socioeconômicos advindos do rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP, ocorrido em cinco de novembro de 2015, o maior crime ambiental da história da mineração mundial e o maior do Brasil.  Realiza reuniões itinerantes mensais, assim como as Câmaras Técnicas a ele associadas.

Conhecedor da realidade dos pescadores atingidos no Espírito Santo e Minas Gerais, Lélis questionou, mais uma vez à Fundação Renova e outras entidades presentes à reunião, sobre os estudos que mostrem o grau de contaminação do pescado no Rio Doce, para que a população seja devidamente informada sobre os riscos que corre ao consumidor o pescado.

“A Fundação dificulta muito as coisas. Dizem que vão fazer os estudos, mas não apresentam nada”, irrita-se. “E mente, também. Já tive de chamar um funcionário da Renova de mentiroso durante uma videoconferência, porque ele dizia que os cadastros de todos os pescadores estava tudo certo”, conta.

Atualmente, a pesca está totalmente liberada na parte capixaba do Rio Doce e, no litoral, proibida apenas entre Barra do Riacho/Aracruz e Degredo/Linhares, na profundidade de até vinte metros. Em Minas, a proibição de pesca é apenas para as espécies nativas. As exóticas estão liberadas.

E entre as espécies mais pescadas pelos pescadores mineiros, na região da divisa com o Espírito Santo, está a corimba. “Ela é recente na região e tem um gosto forte, tipo salmão, por isso o preço é baixo. Mas é um peixe grande, chega a 12 kg, é muito pescado”, conta Lélis.

corimbaNa foto ao lado, um exemplo de uma corimba encontrada morta na região entre Baixo Guandu/Es e Aymorés/MG, e devorada por piranhas, pouco após a abertura da represa Baguari, a cerca de 30 km de Governador Valadares. “Quando o rio sobe 80 cm, eles abrem a represa e a água volta a baixar”, descreve.

Essas aberturas de comportas também acontecem na Represa Risoleta Neves, próximo a Mariana, que tem, segundos dados informados nas reuniões de Câmaras Técnicas do CIF, 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos depositados. Da última vez, conta Lélis, a água jogou poeira pro ar. “Nunca vi isso, água jogar poeira”, diz.

A Aspec está acionando o Ministério Público para que intervenha no caso e explique porque os peixes exóticos estão liberados para pesca. “Em novembro 2015, sugeri a proibição total da pesca. Eles aceitaram. Mas em maio de 2017, liberaram os exóticos. Se não sabe qual o grau de contaminação, então tem que proibir tudo. Prevenir é melhor do que contaminar a população toda”, afirma o pescador.

As críticas à liberação da pesca no Rio Doce é feita também por pescadores capixabas, sem qualquer atendimento por parte dos governos estaduais ou do Ministério Público.


Este artigo foi originalmente publicado pelo site “Século Diário” [Aqui!]

The Guardian: Apoiadores de Bolsonaro declaram guerra às florestas da Amazônia

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Apoiadores de Bolsonaro declaram guerra às florestas

A maioria na fronteira do oeste do Brasil, altamente desmatada, apoia Jair Bolsonaro e suas promessas de progresso em vez de proteção

Por Dom Philips, em Porto Velho (RO) [1]

O rugido de uma motosserra e o uivo de um motor de trator foram suficientes para atrair as autoridades do meio ambiente para um caminho esburacado na floresta.

Na clareira no final da estrada, três jovens madeireiros silenciaram suas máquinas e ofereceram seus documentos. Eles foram pagos em dinheiro, disseram – quase quatro vezes o salário mínimo brasileiro para enviar até dois caminhões por dia de enormes toras de madeira.

E como a maioria das pessoas no estado de Rondônia, fortemente desmatado, na fronteira oeste do Brasil, elas têm certeza de quem vão votar na votação presidencial de domingo.

“Tem que ser Bolsonaro. Ele nos apoia ”, disse Edivaldo da Silva, 22.

As pesquisas mostram que Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército de extrema-direita, tem 78% de apoio em Rondônia, deixando seu rival de esquerda, Fernando Haddad, na poeira. Na Amazônia, Bolsonaro prometeu progresso em vez de proteção. E suas propostas radicais – neutralizar as agências federais de meio ambiente, dar luz verde a represas hidroelétricas destrutivas, congelar a demarcação de novas reservas indígenas e abrir as já existentes para a mineração – com os eleitores daqui, inclusive os que violam leis ambientais. Madeireiros, garimpeiros ilegais e posseiros em uma reserva protegida disseram ao Guardian que estão votando em Bolsonaro porque acreditam que ele facilitará suas vidas.

Ambientalistas argumentam que os planos de Bolsonaro serão desastrosos para a Amazônia e 33 grupos não-governamentais advertiram que suas propostas representam “riscos concretos e irreversíveis” para as florestas brasileiras, a biodiversidade e até mesmo a reputação de seus produtores do agronegócio.

Os aliados de Bolsonaro esquecem essas preocupações. Seu chefe de gabinete e seu candidato a governador de Rondônia criticavam a “interferência” estrangeira na Amazônia e disseram ao “The Guardian” que tinham dúvidas sobre a ciência do aquecimento global. 

Tais visões são comuns em um estado onde os pequenos produtores dizem que são injustamente penalizados por violarem as regras ambientais e argumentam que a responsabilidade pela mudança climática deve ser compartilhada globalmente. 

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Lucemar Kouchut  dirige um carregamento de toras.  Fotógrafo: Dom Phillips

Os três madeireiros mostraram aos funcionários ambientais documentos que, segundo eles, mostraram que seu trabalho foi licenciado sob um plano que permite o corte de árvores “sustentável”. 

Mas os fiscais concluíram depois que os documentos se referiam a outro trecho de terra a 400 metros de distância – não essa área próxima a uma floresta protegida e uma reserva indígena. 

Esse é um estratagema comum, disse Sebastiana Almeida, engenheira florestal na agência de desenvolvimento ambiental de Rondônia. “Com esse documento em suas mãos, eles roubam madeira de dentro da área protegida ou da reserva indígena”, disse ela.  

As pessoas em Rondônia – 43% de seu território foram desmatadas – concordam em grande parte em duas coisas: que votarão em Bolsonaro e que o estado está ficando mais quente e seco.  

Dados do governo confirmam isso. As temperaturas médias anuais na parte norte de Rondônia tiveram uma média entre 26C-28C em 2017, dois graus a mais do que cinco anos antes. A precipitação anual também caiu em todo o estado.  

“O tempo está todo confuso”, disse Wagner Matos, 37 anos, um motorista do Uber em sua capital Porto Velho, que culpou o desmatamento.  

Mas o congressista Onyx Lorenzoni, provável chefe de gabinete de Bolsonaro, contesta que o aquecimento global seja um problema.  “Há coisas que são sólidas e há coisas que são ideológicas”, disse ele ao The Guardian, antes de criticar o Greenpeace por se intrometer no meio ambiente brasileiro. “Os brasileiros estarão no comando da Amazônia, meu irmão, não dos europeus.”

Outros aliados de Bolsonaro pediram mais indústria na Amazônia. O coronel João Chrisóstomo, engenheiro aposentado do exército eleito como um dos deputados federais do estado em 7 de outubro para o Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro, disse que os militares deveriam asfaltar suas estradas de terra. “O meio ambiente não pode atrasar o desenvolvimento”, disse ele.  

Estradas melhores agradariam a habitantes de Rondônia, como Sheila Barros, 44, que mora com o marido de pescador Adegilton Lopes, 44, e seus dois filhos dentro da reserva protegida do Lago do Cuniã.

 “Não há estrada, não há maneira de obter nossos produtos”, disse ela. A reserva fica a apenas 70 km de Porto Velho, mas chegar nela envolve dirigir por estradas de terra, duas viagens de barco e uma motocicleta que deixa os cabelos em pé por uma estreita trilha na floresta. 

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“Onde mais há tanto verde?”, Diz o pescador  Mabel Lopes, morador  da reserva protegida do Lago do Cuniã. Foto: Dom Phillips

Mas a história da Amazônia mostra que a pavimentação de estradas traz desenvolvimento e destruição para reservas florestais como o Lago do Cuniã, administrado pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), que só permite a pesca de pequena escala e agricultura sustentável para 400 moradores que moram ao lado de uma lagoa majestosamente bela. para jacarés e bandos de pássaros. 

A pescadora Mabel Lopes, de 65 anos, disse que até a criação da reserva em 1999, a lagoa foi sobrepujada por pessoas de fora. Hoje em dia, ele disse, há muitos peixes. Acenando para a floresta exuberante, ele perguntou: “Onde mais há tanto verde?

“Bolsonaro já  prometeu retirar o Brasil do acordo climático de Paris, embora na quinta-feira ele tenha dito que mudou de idéia ao sair do acordo. 

Mas ele prometeu pôr um fim ao “ativismo ambiental” do ICMBio, e da agência ambiental Ibama, e pode passar o ministério do meio ambiente para o Ministério da Agricultura – cujo chefe será escolhido pelo lobby do agronegócio. 

Ele também prometeu ajuda para os garimpeiros artesanais conhecidos simplesmente como “garimpeiros”, alguns dos quais trabalham ilegalmente, dragando lama dos rios da Amazônia em busca de ouro – e, no processo, despejando toneladas de mercúrio e envenenando as populações de peixes. 

Em uma tarde recente, várias barcaças garimpeiras de madeira foram ancoradas no rio Madeira, perto do Lago do Cuniã. Dois homens que manejam as bombas a bordo de uma barcaças admitiram que estavam trabalhando ilegalmente, e temiam ataques do IBAMA – depois disseram que a promessa de “dignidade e segurança” de Bolsonaro havia obtido seus votos.  

“Ele prometeu legalizá-lo, para que trabalhássemos”, disse Aroldo da Silva, 53 anos, dono da barcaça, enquanto uma tempestade açoitava o rio. “Ele prometeu mudanças na lei.”  Marcos Rocha, um coronel da polícia aposentado do PSL de Bolsonaro, que está liderando as pesquisas para o segundo turno do governo de Rondônia, também acredita que os garimpeiros deveriam ser legalizados porque as pessoas precisavam trabalhar. 

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Barcaça garimpeira de Aroldo da Silva. Foto: Dom Phillips

“Os garimpeiros e os madeireiros eram as pessoas que começaram nosso estado, mas hoje são marginalizados. Há muitas pessoas na pobreza”, disse ele em uma entrevista. “Queremos gerar riquezas e renda para o nosso país”.  

A Amazônia precisava de “mais indústria”, disse ele, antes de sugerir que os alarmantes aumentos de temperatura do planeta poderiam ser cíclicos e ocorrer naturalmente.  O atual governador do estado de Rondônia, Daniel Pereira, e seu legislativo estadual estão trancados em um impasse judicial sobre 11 novas reservas florestais criadas por seu antecessor e depois derrubadas por deputados estaduais. Rocha ficou do lado dos legisladores e disse que as pessoas que se agacham em reservas protegidas deveriam poder ficar.  

Alguns desses posseiros moram em Jaci Paraná, uma reserva administrada pelo governo estadual a cerca de 100 km de Porto Velho, que só permite a agricultura sustentável em pequena escala por membros de uma cooperativa. O gado é proibido, mas a reserva foi amplamente desmatada por fazendeiros.  

Na semana passada, um grupo de fiscais estaduais do meio ambiente visitou a reserva com uma escolta policial armada. Eles pararam em uma fazenda de madeira cercada por gado pastando, onde Jessica da Silva, 23 anos, estava sentada com seus dois filhos pequenos enquanto seu marido, Alex dos Santos, cuidava do rebanho. 

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Um oficial de proteção ambiental do estado de Rondônia, Nei Peres, examina uma área desmatada na reserva de Jaci Paraná. Foto: Dom Phillips

Da Silva disse que não planejava votar porque está matriculada em outra cidade, mas que o marido votaria em Bolsonaro.  

Mais abaixo na estrada de terra, passaram por uma motocicleta cujo ocupante estava carregando uma motosserra no colo. Os policiais acenaram com a bicicleta e se aproximaram, mas antes que eles tivessem chegado longe com suas perguntas, o passageiro correu para a vegetação rasteira. Um dos oficiais disparou um tiro e o homem foi trazido de volta algemado – mas ele foi liberado mais tarde.  

Ninguém presta muita atenção às leis ambientais aqui.  

Ednesio Diogo, 51 anos, e Jonas Dantas, 22 anos, estavam preparando o almoço ao lado da estrutura de uma casa de madeira que estavam construindo quando os fiscais ambientais chegaram.

Diogo disse que a casa era para seu filho, Wallan, 21 anos, que recebeu a terra onde planejava criar gado, plantar café e construir um viveiro de peixes. Quando o oficial de proteção ambiental Nei Peres disse aos homens que eles estavam lá ilegalmente e teriam que sair, Diogo apenas assentiu. Os dois homens disseram que votariam em Bolsonaro.

No sábado, veículos do IBAMA foram incendiados em Buritis, um dia depois que os agentes do ICMBio em uma missão anti desmatamento ficaram abandonados quando moradores incendiaram uma ponte no Pará, outro estado do Amazonas. 

 nova guerra do Brasil contra suas florestas e aqueles que as defendem já começou.


Artigo publicado originalmente pelo jornal “The Guardian” [1]

Pacote do Veneno é aprovado com portas fechadas e flagrantes de descaso completo

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O dia de ontem ficará marcado como aquele onde os interesses de latifundiários e fabricantes de sementes geneticamente modificadas e agrotóxicos foram colocados acima da saúde de ecossistemas e da população brasileira.  

É que sob a desculpa de modernizar a legislação que controla a liberação e comercialização de agrotóxicos, o Pacote do Veneno irá permitir a aceleração da entrada de novas substâncias e a permanência de outras que já foram banidas em diversas partes do mundo, a começar pelo  herbicida Paraquat que se encontra proibido até na China desde 2016 [1 & 2].

Essa aprovação do Pacote do Veneno não é nenhuma surpresa, já que a bancada ruralista e os fabricantes de sementes e agrotóxicos possuem nela uma maioria folgada. Aliás, foi apenas pela forte pressão exercida por diversos setores da sociedade e da comunidade científica que a aprovação não foi mais rápida.

Entretanto, uma matéria assinada pelo jornalista Bruno Góes e publicada pelo jornal “O GLOBO” com esclarecedor título “Deputados ‘trocam’ debate sobre agrotóxicos por foto de mulher seminua e futebol” deixa claro o nível de descaso com a bancada do veneno tratou esse debate. É que entre escolher a preocupação que o aumento do comércio de agrotóxicos causará no Brasil, os excelentíssimos deputados escolheram visualizar imagens de mulher seminua e de partida de futebol [3].

agrotoxicos

Que a atual composição da Câmara de Deputados é bisonha já é sabido, incluindo casos revelados de envolvimento com prostituição, corrupção, comércio ilegal de drogas, e outros “quetais”. Agora, o que se esperaria seria um mínimo de decoro ao tratar do problema tão grave. Mas, convenhamos, dada a ficha pregressa desses parlamentares, até o decoro mínimo é demais.

Mas já que inexiste no parlamento brasileiro uma maioria preocupada com os efeitos do Pacote Veneno, o combate para evitar a sua aplicação não deve esmorecer, muito pelo contrário. É que já existem evidências científicas suficientes para reconhecermos o risco colocado pelos agrotóxicos, e ficar inerte frente a este descalabro não é uma opção para os que sabem o que está efetivamente em jogo.

Finalmente, venho alertando faz algum tempo que todas as medidas regressivas que estão sendo impostas pelo governo “de facto” de Michel Temer ainda vão colocar o Brasil numa posição de pária ambiental, o que causará o banimento da produção agrícola ancorada no uso intensivo de agrotóxicos pelos principais parceiros comerciais do nosso país. É que apesar de fazer lobby para nos empurrar mais venenos para o mercado brasileiro, muitos dos países que sediam os principais fabricantes de agrotóxicos não vão querer consumir comida contaminada. Simples assim!


[1] https://sfagro.uol.com.br/anvisa-herbicida-paraquat/

[2] https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/campo-e-lavoura/noticia/2016/07/paraquat-liberado-no-brasil-e-proibido-na-china-maior-produtor-mundial-6707115.html

[3] https://oglobo.globo.com/sociedade/deputados-trocam-debate-sobre-agrotoxicos-por-foto-de-mulher-seminua-futebol-22820771#ixzz5JXZsuQ1U

Norsk Hydro usa twitter para tentar limpar sua barra suja de bauxita em Barcarena

barcarena hydro

A empresa para estatal dinamarquesa Norsk Hydro vem fazendo um esforço concentrado para tentar afastar suas próprias responsabilidades acerca do grave incidente ambiental ocorrido no município de Barcarena (PA) quando fortes chuvas causaram um processo de extravazamento de rejeitos tóxicos em corpos hídricos existentes naquela região.

Dentro deste esforço um ponto de disseminação da posição oficial da Norsk Hydro é a conta oficial da empresa no Twitter, onde sem medo de ser feliz, é apresentada a versão de que auditoria interna não revelou a presença de contaminantes oriundos dos tanques de rejeitos existentes em Barcarena nos corpos aquáticos que foram identificados como estando fortamente impactados, inclusive por metais pesados (ver figura abaixo).

norsk hydro denial

O que a Norsk Hydro não diz aos seus leitores no Twitter é que o Instituto Evandro Chagas (IEC), que fez análises independentes da empresa, já apresentou relatórios que mostram justamente o contrário, qual seja, que os corpos aquáticos no entorno de sua planta em Barcarena estão sim fortemente impactados, causando riscos aos ecossistemas naturais e à população humana assentada naquela região.

Tampouco a Norsk Hydro informa aos seus leitores do Twitter que a empresa vem fazendo um esforço concentrado para desmentir os relatórios produzidos pelo IEC, numa tentativa de cobrir o sol com a peneira, contando com cooperação ativa da mídia corporativa nacional [1]. Aliás, como bem já retrucou o pessoal do IEC, o que a Norsk Hydro está tentando fazer é desqualificar a validade científica dos trabalhos realizados pelos pesquisadores brasileiros em Barcarena, os quais lhes são completamente detrimentais.

O que a Norsk Hydro não aborda são os dutos clandestinos que foram encontrados após o incidente ocorrido em fevereiro dentro de suas instalações e que lançavam detritos tóxicos diretamente nos corpos aquáticos existentes na região de Barcarena.  E para não ter que se explicar principalmente aos seus acionistas sobre este tipo de procedimento ilegal que os executivos da Norsk Hydro estão tentando desacreditar os resultados científicos produzidos pelo IEC.

Como se pode ver, governança ambiental para a Norsk Hydro é coisa para “dinamarquês ver”, especialmente se ele for acionista. Já no Brasil, o negócio é poluir sem temer o amanhã.

 


[1] http://www.valor.com.br/empresas/5439335/norsk-hydro-quer-processar-mpf-e-rever-laudo-do-evandro-chagas

[2] https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/04/hydro-rebate-contaminacao-no-para-e-anuncia-fundo-de-r-100-mi-para-moradores.shtml