‘Eu estava contaminado’: estudo revela o quão difícil é evitar a exposição a agrotóxicos

Pulseiras de silicone usadas por voluntários na Holanda capturaram 173 substâncias em uma semana

O estudo descobriu que os agrotóxicosda pulverização de plantações podem acabar longe das áreas agrícolas. Fotografia: Dewald Kirsten/Shutterstock

Por Ajit Niranjan, correspondente ambiental da Europa, para o “The Guardian” 

Durante décadas, Khoji Wesselius notou o cheiro oleoso de agrotóxicos durante os períodos de pulverização, quando o vento soprava em sua pequena vila agrícola em um canto rural da Holanda.

Agora, depois de se voluntariar em um experimento para contar a quantas dessas substâncias as pessoas são submetidas, Wesselius e sua esposa estão um passo mais perto de entender as consequências de viver em campos de batata-semente, beterraba, trigo, centeio e cebola pulverizados com produtos químicos.

“Ficamos chocados”, disse Wesselius, um funcionário aposentado do governo provincial, que foi exposto a oito agrotóxicos diferentes através da pele, com ainda mais produtos químicos encontrados em exames de sangue, urina e fezes. “Fui contaminado por 11 tipos de agrotóxicos. Minha esposa, que é mais rigorosa com sua alimentação orgânica, tomou sete tipos de agrotóxicos.”

Os órgãos reguladores monitoram de perto a ingestão alimentar de pesticidas para decidir se eles são seguros o suficiente para o mercado, mas pouca atenção tem sido dada aos efeitos da inalação ou absorção pela pele. De acordo com um novo estudo , mesmo pessoas que vivem longe de fazendas estão expostas a diversos tipos de pesticidas de fontes não alimentares – incluindo substâncias proibidas.

“O mais surpreendente é que não podemos evitar a exposição a agrotóxicos: eles estão em nosso ambiente direto e nosso estudo indica contato direto”, disse Paul Scheepers, epidemiologista molecular da Universidade Radboud e coautor do estudo. “A verdadeira questão é quanto é absorvido [pelo corpo], e isso não é tão fácil de responder.”

Os pesquisadores fizeram com que 641 participantes em 10 países europeus usassem pulseiras de silicone continuamente por uma semana para registrar a exposição externa a 193 agrotóxicos. Em testes de laboratório, eles detectaram 173 das substâncias testadas, com agrotóxicos encontrados em todas as pulseiras e uma média de 20 substâncias para cada participante.

Agricultores não orgânicos apresentaram o maior número de agrotóxicos em suas pulseiras, com uma mediana de 36, seguidos por agricultores orgânicos e pessoas que moram perto de fazendas, como Wesselius e sua esposa. Consumidores que moram longe de fazendas apresentaram o menor número, com uma mediana de 17 agrotóxicos.

“Eu me perguntei se valia a pena saber de tudo isso”, disse Wesselius, que conta que alguns prestadores de serviços para os agricultores perto de sua aldeia parecem não levar em consideração a direção do vento ao aplicar agrotóxicoscomo glifosato e neonicotinoides. “Isso fica na minha cabeça. Toda vez que vejo um trator [com um sistema de pulverização], tenho uma sensação estranha de que estou sendo envenenado.”

Os agrotóxicos ajudaram o mundo a produzir mais alimentos em menos espaço – poluindo as regiões onde são pulverizados e reduzindo a área de terra que precisa ser explorada para produção de alimentos –, mas têm preocupado médicos que apontam para um crescente conjunto de evidências que os associam a doenças. A UE descartou uma meta proposta no ano passado para reduzir pela metade o uso e o risco de pesticidas até 2030, após pressão de lobbies agrícolas e de alguns Estados-membros, que argumentaram que os cortes eram muito profundos.

Bartosz Wielgomas, chefe do departamento de toxicologia da Universidade Médica de Gdansk, que não participou do estudo, disse que os resultados foram de “grande valor”, mas podem até subestimar a exposição a agrotóxicos. As pulseiras de silicone não absorvem todas as substâncias na mesma proporção, disse ele, e os pesquisadores testaram menos da metade dos agrotóxicos aprovados na UE.

“As conclusões deste estudo são altamente significativas: os agrotóxicos são onipresentes, não apenas em áreas agrícolas, mas também em ambientes distantes dos campos de cultivo”, disse ele.

Os pesquisadores descobriram que os participantes do estudo também foram expostos a agrotóxicos que foram retirados do mercado, com produtos de decomposição do DDT (diclorodifeniltricloroetano), proibido há décadas por questões de saúde, comumente encontrados nas pulseiras. Eles também detectaram alguns inseticidas proibidos, como dieldrin e propoxur.

Embora a presença de agrotóxicos nas pulseiras não indique efeitos diretos à saúde, os autores expressaram preocupação com a quantidade de diferentes tipos. Pesquisadores sugeriram que algumas misturas de diferentes produtos químicos amplificam seus efeitos no corpo humano além do que estudos de exposição isolada constataram.

Wesselius, cujos resultados o motivaram a consumir mais alimentos orgânicos, disse: “Não é algo agradável de se saber. Mas é ainda pior continuar com essa prática.”


Fonte: The Guardian

Sonia Corina Hess dá depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em lixeira química por agrotóxicos banidos na União Europeia

A professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess, dá um depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em destino preferencial de agrotóxicos banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

Assista ao vídeo e reflita: como podemos ter tantas benesses para os fabricantes desses venenos altamente poderosos?

A herança (agro) tóxica da ditadura civil-militar de 1964

Plantação de soja no Mato Grosso na década de 70 (foto: Emater) 

Por Marcos Pedlowski para o “Nova Democracia”

O fato do Brasil ser hoje o principal mercado de agrotóxicos é uma daquelas honrarias que dispensam comentários. Afinal,  ao concentrador 20% do consumo mundial, o nosso país vive inundado por substâncias banidas nos países que os desenvolveram por causa da sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.  Um aspecto especialmente macabro é que dezenas de agrotóxicos banidos na União Europeia por causarem inúmeros tipos de doenças, a começar por formas particularmente agressivas de câncer, mas fabricadas por multinacionais sediadas no Velho Continente, continuam sendo abundantemente usadas no Brasil, principalmente na forma de agrotóxicos genéricos.

Um exemplo disso é o herbicida Atrazina, que foi banido para uso nos países da União Europeia, mas que continua sendo exportado para o Brasil em grandes quantidades.  A Atrazina foi banida para uso na Europa por ser um desregulador endócrino, ou seja, por interferir nos sistemas hormonais, podendo causar problemas reprodutivos e de desenvolvimento. Mas a Atrazina também é uma possível causadora de câncer. Como essa é uma substância que se mova rapidamente na água, ela está hoje presente de forma ampla na água que chega nas torneiras que abastecem diariamente na casa dos brasileiros. Apesar disso, para alegria dos acionistas da multinacional sino-suíça Syngenta, não há proibição à vista para o uso da Atrazina na agricultura brasileira. Aliás, como não existe proibição para dezenas de outros agrotóxicos tão ou mais tóxicos do que a Atrazina, mas que continuam sendo liberados de ampla, geral e irrestrita para uso no Brasil.

A questão que escapa da maioria das pessoas é que a transformação do Brasil em uma imensa latrina química onde são despejadas toneladas de venenos poderosos para alimentar a agricultura de exportação é que até a década de 1960 a realidade era bem diferente. Na verdade, a transformação da agricultura brasileira se deu a partir do golpe civil-militar de 1964. Alinhados com os latifundiários que se opunham à reforma agrária, os militares iniciaram uma transição para adotar o pacote tecnológico da Revolução Verde que impunha a adoção de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Com isso, se passou de um consumo anual irrisório de  40.656 toneladas em 1969 para cerca de 800.000 toneladas em 2024.

Para conseguir iniciar essa ascensão do consumo de agrotóxicos, os militares lançaram em 1975 o  Programa Nacional de Defensivos Agrícolas (PNDA). Apesar de ter durado apenas 4 anos, o PNDA lançou as bases de sustentação da elevação continuada do consumo de agrotóxicos. Isso foi feito de várias maneiras, mas o receituário incluiu a obrigação de usar agrotóxicos para obter financiamento agrícola e adoção de uma série de benefícios fiscais para fabricantes e vendedores de agrotóxicos. A questão é que após quarenta anos do fim do ciclo militar, as políticas de sustentação da indústria de agrotóxicos permanecem basicamente as mesmas.   A manutenção desses benefícios pelos governos civis que se iniciaram após o fim do ciclo militar em 1985 foi um dos elementos basilares tanto da aprovação da Lei 14.785/2023, apelidada de “Pacote do Veneno”, como a da Reforma Tributária, ambas em 2023. Essas duas legislações continuaram a receita de benefícios fiscais e tributários que permitem o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil. Um estudo do grupo de pesquisa em justiça ambiental, alimentos, saberes e sustentabilidade da Universidade do Vale do Taquari (RS), calculou soma da renúncia de todos os estado e Distrito Federal para o ano de 2017, apenas com o que se deixa de cobrar com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Quando esses valores de 2023  são atualizados com base no IPCA,  temos uma perda de R$ 7,05 bilhões. 

Mas a perda de recursos públicos bancando a indústria de agrotóxicos não se limita a isenções e redução de alíquotas do ICMS.  O fato é que os fabricantes de agrotóxicos se beneficiam também das isenções em impostos e contribuições federais, que foram sendo concedidas a partir da década de 1990: o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Imposto de Importação (II), Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e as Contribuição Social dos Programas de Integração Social (PIS) e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep).  

O mais absurdo é que apenas quatro commodities agrícolas de exportação (soja, milho, algodão e açúcar), que concentram 80% do consumo de agrotóxicos no país, acabam saindo com pouquíssimo ganho para a maioria dos brasileiros já que estão livres do pagamento do ICMS ao serem exportadas por causa da Lei Kandir (Lei Complementar nº 87/96).  E não é de menos importância notar que o principal comprador dessas commodities, a China, é também hoje o maior fornecedor dos agrotóxicos usados para produzi-las. Essa situação exemplifica de forma explícita o processo de trocas desiguais, na medida em que as commodities são mais baratas e sofrem mais flutuações para baixo do que os agrotóxicos cuja tendência tem sido sempre de alta.

Em outras palavras, o ganho fica todo como latifúndio agroexportador, enquanto os prejuízos ficam todos com a população. E os sinais dessa perda são abundantes, principalmente nas regiões que concentram a produção de commodities agrícolas de exportação. A verdade é que o Brasil atravessa atualmente uma grande epidemia derivada da exposição a agrotóxicos, seja na forma aguda ou na crônica.  Estudos científicos comprovam que estamos testemunhando um forte aumento em diferentes tipos de doenças que está associado à exposição a agrotóxicos. O problema é que isto está acontecendo no mesmo momento em que os recursos para a saúde pública estão sendo diminuídos. A consequência disso está sendo o aumento exponencial na detecção de diversos tipos de câncer, inclusive pelo consumo de água contaminada por agrotóxicos.

 Finalmente, é precisar lembrar que enquanto não se mudar o panorama de termos uma agricultura fortemente dependente de agrotóxicos para produzir, e que só se sustenta com os beneplácitos concedidos pelo Estado brasileiro, o que pairará sobre todos nós é a herança tóxica da ditadura de 1964.


Fonte: Nova Democracia

Em decisão inédita, Justiça suspende uso do agrotóxico 2,4-D no RS

Caso da deriva do 2,4-D no RS pode render multa de mais de R$ 21 milhões à  empresa - Revista Globo Rural | Soja

Ação civil pública tramita há cinco anos e foi movida por associação de produtores de maçã e uvas, que tiveram suas lavouras destruídas pela deriva do agrotóxico. Governo ainda não se manifestou

Por Sílvia Lisboa e Valentina Bressan para “Matinal” 

Uma decisão da juíza Patrícia Antunes Laydner, titular da Vara do Meio Ambiente, determinou a suspensão temporária do uso de agrotóxico hormonal 2,4-D em todo o território gaúcho. De caráter urgente, a medida visa proteger culturas sensíveis ao herbicida, como a da uva, da maçã, das oliveiras e nozes-pecã, que ficam destruídas com a deriva da substância, que pode alcançar até 30 quilômetros. 

Pela decisão, a proibição deve permanecer em vigor até que sejam delimitadas zonas de exclusão ou até ser implementado um zoneamento e fiscalização efetivos da aplicação do 2,4-D. A sentença dá prazo de 120 dias para o estado tomar essas providências. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) não respondeu aos questionamentos da Matinal feitos nesta terça (2). O espaço segue aberto.

O 2,4-D é um composto do agente laranja, arma química usada pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1955-1975) para destruir a agricultura do país. A Organização Mundial de Saúde (OMS) o classifica como possivelmente cancerígeno para humanos. Um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostra que a substância está associada a problemas endócrinos, formação de câncer e malformações fetais.

Amplamente utilizado em lavouras de soja, arroz, trigo e milho, que representam mais da metade da produção agrícola do estado, o 2,4-D causa danos irreversíveis a parreirais e pomares de frutas por causa da deriva, isto é, da dispersão das gotículas da substância provocadas pelo vento durante a aplicação aérea ou por tratores. 

A ação civil pública foi movida pela Associação Gaúcha de Produtores de Maçã e Associação de Vinhos Finos da Campanha gaúcha há cinco anos. “Foi uma luta em equipe que ainda não terminou. Se continuasse como estava, só a soja iria prevalecer, nenhuma fruticultura teria condições de continuar. A decisão dá ao Rio Grande do Sul o direito de ter uma diversidade de culturas”, diz Rosana Wagner, presidente da associação de vinhos finos, criada há cinco anos. “Não temos nada contra a cultura da soja. Mas sabemos ser possível plantar soja sem usar os herbicidas hormonais. Buscamos nosso direito de não sermos atingidos pelas outras culturas.” As duas associações defendem a proibição do 2,4-D em todo o estado.

Análises recentes de safras, anexadas à ação, revelaram que os níveis de contaminação por 2,4-D estavam acima dos limites permitidos – o que, segundo a juíza, evidenciou uma falha no controle por parte do estado. Segundo a sentença, as perdas frequentes ocasionadas pelo 2,4-D levaram muitos agricultores a desistir da produção. Rosana Wagner disse que perdeu 50% do meu vinhedo ano passado. “Teve quem perdeu não só a produção, mas o vinhedo. A vitivinicultura emprega 15 mil famílias no RS”, disse.

Produtor de vinhos da Guatambu, Valter Potter disse estar emocionado e confiante de que o estado não entrará com recursos contra a decisão. “Não restam dúvidas da importante e grandiosa decisão de proibição do 2,4-D e consolida a frase ‘a justiça tarda, mas não falha’”, disse em entrevista à Matinal o ex-presidente da associação de vinhos da Campanha. “Estamos confiantes que o estado não irá contestar e anular uma decisão da justiça em prol do desenvolvimento socioeconômico. Digo mais: (o governo) deveria aproveitar a ruptura da barreira do atraso e ampliar as normas de proibição para todo o Estado e para todos os hormonais”, completou. 

Justiça pede lei para proteger a produção e o meio ambiente

A decisão da justiça, divulgada nesta terça-feira, também diz ser dever do estado a criação de uma política pública preventiva. Mesmo sem haver certeza sobre o dano futuro da aplicação do agrotóxico, a justiça entende haver riscos iminentes e comprovados para justificar a intervenção antecipada, visando a proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado e dos direitos fundamentais.

No curso da ação, o governo do estado se defendeu, alegando ter instituído o programa Deriva Zero, e diz que não é sua competência proibir o uso de 2,4-D, atribuição que caberia à União. 

Há uma semana, a Assembleia Legislativa aprovou um relatório da subcomissão criada para discutir a aplicação dos herbicidas hormonais. No novo marco regulatório proposto, há 10 medidas estruturantes que tentam melhorar as ações de fiscalização, regrar a aplicação do agrotóxico, criar um fundo para indenizar produtores atingidos e outro para premiar aqueles que conservam os biomas, entre outras ações. 

Vice-presidente da subcomissão, o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) comemorou a decisão judicial. “A decisão é importante nesse momento porque não há regulação ou zoneamento (para o uso do 2,4-D)”, afirma. “O estado precisa ser um indutor da transição agrícola. O agricultor se preocupa com a sustentabilidade, com o meio ambiente, com a saúde, mas ele coloca na ponta do lápis o que vai dar mais lucro. É importante que ele encontre financiamentos, programas subsidiados, linhas de crédito favoráveis à agroecologia. O governo fala muito em sustentabilidade, mas, na prática, tem feito pouco para avançar nessa direção”.

Pretto também disse que a subcomissão realizou diversas audiências públicas e ouviu especialistas para compor o relatório. Segundo o deputado, há uma maioria contrária à utilização desse produto em todos os encontros. 

Além do relatório, um projeto de lei será apresentado na Assembleia na mesma linha da decisão judicial, proibindo o uso de herbicidas hormonais. “É preciso criar as condições para que as pessoas possam produzir o que escolherem. Da forma como está hoje, nosso estado vai virar uma monocultura”, sustenta Pretto.


Fonte: Matinal

Infâncias sitiadas na América Latina: comer, respirar e viver com agrotóxicos

infâncias de pesticidas 1

El Mentidero, Autlán. Aqui, como em muitas áreas rurais da América Latina, crianças e adolescentes são expostos diariamente a agrotóxicos, incluindo alguns altamente perigosos. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Por Aleida Rueda para o “SciDev” 

[AUTLÁN, CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net] Muitas mulheres nas áreas agrícolas do Vale do Autlán, em Jalisco, México, viram seus filhos voltarem do campo com irritação, dores de cabeça, náuseas e vômitos devido ao uso de agrotóxicos, um “costume” que ocorre em toda a América Latina sem nenhuma medida para preveni-lo.

“Depois de pulverizar, meu filho [de 16 anos] chegou em casa com dor de cabeça e vomitando quando ele pulveriza, ele só usa uma bandana [uma máscara de pano feita em casa] sobre o nariz e a boca”, diz Lidia Morales, uma mulher indígena de Guerrero que se mudou para a cidade agrícola de El Mentidero, em Autlán, há quase uma década para que sua família pudesse ganhar mais trabalhando no campo.

Jalisco é promovido como o “gigante agroalimentar do México” por sua produção líder de culturas como abacate, cana-de-açúcar, framboesas e amoras. Mas também lidera em outra área: intoxicações por pesticidas. Segundo dados do Ministério da Saúde, houve 72 casos em 2024 e, em abril deste ano, foram 62.

Rodolfo González Figueroa, agroecologista e promotor de processos agroecológicos na região, afirma que há muitos outros casos. Ele estima que mais de 70% dos casos nunca chegam a um médico. “Se fossem registrados, o número seria avassalador”, observa.

Mas em El Mentidero, como em muitas outras áreas agrícolas, os trabalhadores informais vivem sem seguridade social, então os envenenamentos são tratados em casa. As mulheres já estão acostumadas a usar leite ou limão para aliviar os sintomas.

“A intoxicação diminui e, no dia seguinte, eles estão de volta ao campo, trabalhando e pulverizando”, diz Alma Cisneros, outra mãe de El Mentidero. Seu marido morreu há algumas semanas de envenenamento relacionado ao uso de Lannate, um inseticida potente que mata larvas e insetos sugadores de plantações.

O que acontece em El Mentidero também acontece em muitas áreas rurais da região, onde adolescentes, meninos e meninas, estão expostos diariamente a agrotóxicos, mesmo os altamente perigosos, seja porque trabalham, vivem ou estudam perto do local de pulverização, seja porque entram em contato com esses resíduos em suas próprias casas, quando comem, bebem ou brincam.

Os agrotóxicos fazem parte do cotidiano das crianças rurais desde muito pequenas, pois convivem com eles em casa ou perto do local de pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

“Não há para onde escapar; estudos mostram vestígios de agrotóxicos por toda parte”, diz Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, ao SciDev.Net .

Embora não haja números oficiais sobre o número de menores expostos a agrotóxicos, estima-se que possa haver milhões devido à quantidade de crianças e adolescentes que trabalham no campo.

“Não há nem mesmo equipamentos de proteção projetados para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas usam, não é do tamanho certo, é desconfortável e não as protege. Isso também aumenta a exposição delas a esses pesticidas.”

Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México.

Em seu relatório de 2024 , a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que na América Latina e no Caribe há 7,3 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos que trabalham, e destes, 46% atuam em atividades agrícolas, que a própria OIT classifica como perigosas, em parte, devido ao uso de substâncias tóxicas.

O envolvimento de crianças e jovens no trabalho agrícola não é novidade. Mas o que alguns especialistas consideram revelador, e preocupante, é que os riscos que as crianças enfrentam com agrotóxicos e herbicidas constituem uma crise de saúde pública que “estamos ignorando coletivamente”.

É assim que um grupo de pesquisadores do Brasil, Costa Rica, Chile e México descreve em um artigo de discussão publicado em 15 de agosto na edição impressa da revista Science of the Total Environment .

No artigo, o grupo alerta que dezenas de estudos na região mostram associações entre a exposição de crianças a agrotóxico e efeitos adversos que vão desde danos neurológicos e cognitivos a problemas respiratórios, alergias, leucemia e distúrbios hormonais e sexuais, entre outros.

Entretanto, apesar das evidências científicas, os autores afirmam que se trata de uma questão negligenciada nas agendas de saúde ocupacional e saúde materno-infantil, e que essa invisibilidade atrasa as respostas políticas e prejudica as avaliações de risco, intervenções eficazes, cuidados de saúde e vigilância.

“Nenhum ator sozinho vai resolver isso”, disse Rafael Buralli, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no Brasil, e principal autor do artigo, ao SciDev.N .

“É por isso que pedimos ações para que todos (governos, academia, empresas, trabalhadores e profissionais de saúde) assumam sua responsabilidade e evitem que mais crianças sejam expostas a substâncias tóxicas”, diz Buralli.

Lidia Morales mora em um abrigo em El Mentidero, Autlán, e viu seu filho ser envenenado durante a pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Associações

De acordo com relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), as crianças correm um risco particular quando expostas a agrotóxicos altamente perigosos, em parte devido ao seu próprio comportamento (como levar a mão à boca) e à sua maior ingestão em relação ao seu peso corporal.

“Uma criança respira mais vezes do que um adulto, consome mais água e mais alimentos em proporção ao seu peso do que um adulto”, diz Humberto González, pesquisador do Centro de Pesquisa e Estudos Avançados em Antropologia Social (CIESAS Occidente) em Jalisco, ao SciDev.Net .

Por estarem em fase de desenvolvimento, seus tecidos e órgãos podem sofrer danos estruturais, às vezes permanentes. Além disso, seus corpos são menos capazes de metabolizar e eliminar toxinas, resultando em uma dose interna proporcionalmente maior do que em adultos.

Entretanto, em termos de evidências científicas, um dos maiores desafios na avaliação dos riscos dos agrotóxicos é a complexidade de estabelecer relações causais.

“Nós que fazemos epidemiologia falamos sobre associações, não causalidade, porque não há um único fator de risco e porque não podemos testar em humanos, fazemos observações”, disse a Dra. Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México, ao SciDev.Net .

Algumas associações são mais bem compreendidas do que outras. Farías descreve as evidências da exposição de gestantes a inseticidas organoclorados (com ligações de fósforo e carbono) e alterações na forma e motilidade dos espermatozoides em bebês do sexo masculino como “convincentes”. Ele também descreve os efeitos antiandrogênicos em seus genitais.

Julia Blanco, também pesquisadora do INSP, apresentou evidências sobre os efeitos da exposição a agrotóxicos (permetrina, metamidofós, metilparation, atrazina, 2,4-D, clorpirifós, mancozeb, picloram, entre outros) em pais e mães três meses antes e um mês depois da gestação.

E descobriu uma associação com um risco maior de seus filhos nascerem com defeitos congênitos, como anencefalia, que é basicamente a ausência de cérebro.

Blanco explica que as evidências mais convincentes são sobre agrotóxicos altamente tóxicos a curto prazo, que produzem intoxicação aguda em poucas horas e podem até levar à morte. “Quanto menor a quantidade necessária para produzir um efeito tóxico, mais perigoso ele é”, afirma.

Farías insiste que, embora haja vários graus de evidência, “é geralmente sabido que os agrotóxicos são altamente neurotóxicos; eles danificam o sistema nervoso central”.

E há um aspecto central sobre a infância: quanto mais exposição as crianças têm em estágios iniciais de desenvolvimento, mais efeitos elas terão em estágios posteriores.

É o que explica María Teresa Muñoz Quezada, professora associada do programa de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Chile, a respeito de estudos que analisaram a exposição de crianças ao pesticida clorpirifós em diferentes momentos de suas vidas.

“Crianças expostas antes do nascimento não só apresentaram desempenho neurocognitivo inferior ao daquelas que não foram expostas, como também apresentaram menor espessura da substância branca cerebral”, explica ele. Isso significa menor densidade de mielina, substância essencial para o bom funcionamento do sistema nervoso.

Estudos longitudinais também foram conduzidos na Costa Rica , desde o momento em que as mulheres estão grávidas até o nascimento e crescimento dos filhos. Berna van Wendel, professora do Instituto Regional de Substâncias Tóxicas e Estudos da Universidade Nacional da Costa Rica, relatou sintomas de hipotireoidismo em gestantes expostas ao clorpirifós.

Além disso, “os meninos e meninas nasceram menores, mais leves e com perímetro cefálico menor em comparação com as crianças não expostas. Ao completarem um ano de idade, também observamos mudanças em seu desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional”, afirma a pesquisadora.

Julia Blanco alerta que, embora não haja evidências epidemiológicas de causa e efeito, uma coisa é clara: “Se houver suspeitas bem fundamentadas de que um agrotóxico pode ser tóxico, reprodutivo ou potencialmente cancerígeno, devemos nos guiar pelo princípio da precaução, parar de usá-lo e buscar alternativas”.

Muitas crianças e adolescentes que trabalham no campo usam pesticidas sem o equipamento adequado, pois não há equipamentos projetados para eles. Crédito da imagem: Abdul Batin / Pexels .

Em todos os lugares

Em diferentes países, crianças em áreas rurais são frequentemente expostas a agrotóxicos constantemente e por diversos meios. Um dos motivos é que elas começam a trabalhar no campo muito jovens, porque seus pais não têm com quem deixá-las ou porque precisam contribuir para o sustento da família.

Mariana Butinof, médica, especialista em saúde comunitária e professora da Universidade de Córdoba, na Argentina, afirma que, de uma perspectiva ocidental, o trabalho infantil pode ser repreensível, “mas a lógica de muitas comunidades é educar as crianças em uma cultura de trabalho. Desde cedo, elas aprendem a trabalhar e a ajudar suas famílias”.

Estando dentro ou perto dos campos, as crianças ficam expostas à pulverização por aeronaves individuais autopropulsadas, pequenos aviões ou drones, sem qualquer proteção.

“Não há nem equipamento de proteção projetado para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas o usam, não é do tamanho certo, causa desconforto e não as protege. Isso também contribui para que elas recebam mais dessas doses de agrotóxicos”, diz a pesquisadora Paula Farías.

Mas eles não precisam estar nas áreas pulverizadas para entrar em contato com os agroquímicos; eles podem ser expostos por deriva, que é quando o pesticida é transportado pela chuva, vento ou poeira em suspensão, para longe do local onde foi aplicado.

Vários estudos relatam resíduos de partículas na água ou em alimentos colhidos. Um livro sobre os efeitos do glifosato, publicado no México há algumas semanas, menciona um risco quatro vezes maior em estudos envolvendo crianças que comeram maçãs e pepinos com mais frequência do que aquelas que não comeram.

Além de alimentos, resíduos foram encontrados nas roupas que seus pais usam para trabalhar. “Não há divisão entre o espaço de trabalho e o espaço de convivência. Agrotóxicos entram e saem constantemente da casa através de botas, roupas e dos alimentos que colhemos”, diz Butinof.

“Às vezes, as roupas de trabalho são lavadas junto com o resto das roupas da família, e tudo isso leva à exposição do grupo familiar”, acrescenta o pesquisador.

Em algumas casas em El Mentidero, há recipientes de glifosato e outros inseticidas pela metade. Rodolfo González diz que não é incomum que as pessoas armazenem agrotóxicos em suas casas ou usem os recipientes vazios como garrafas de água.

Essa disponibilidade não só aumenta a vulnerabilidade das crianças, mas também aumenta a possibilidade de que pessoas, incluindo menores, as utilizem para se envenenarem voluntariamente.

“Estima-se que 15 a 20 por cento de todos os suicídios no mundo sejam causados por envenenamento autoimposto por agrotóxicos, e esse número provavelmente está subestimado devido ao estigma associado ao suicídio”, afirmou a OMS em um relatório de 2024 . 

Herbicidas como o Faena (glifosato) estão disponíveis em casas e ao alcance das crianças. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Colonialismo químico

Uma solução para reduzir os riscos à saúde de crianças e adultos causados por pesticidas parece simples: proibir o uso de Pesticidas Altamente Perigosos (PAPs), mas conseguir isso é complexo devido, em parte, a um problema que alguns especialistas descrevem como colonialismo químico.

“Isso significa que os países pobres usam produtos químicos que são proibidos nos países ricos . Por exemplo, há produtos químicos produzidos na Suíça, mas que não podem ser consumidos lá, então eles os enviam para o Brasil, e nós os consumimos em massa”, diz Buralli.

Há relatos desse colonialismo. Segundo a Rede de Ação contra Pesticidas (PAN) da Alemanha, empresas europeias estão envolvidas na exportação anual de milhares de toneladas de pesticidas classificados como proibidos ou não autorizados na União Europeia, como atrazina, diafentiuron, metidationa, paraquate e profenofós.

Eles são proibidos, mas “as empresas são livres para produzir esses agrotóxicos perigosos na União Europeia e exportá-los para outros países com regulamentações mais fracas, colocando a saúde das pessoas e o meio ambiente em risco “, diz a PAN Alemanha.

Como resultado, existem centenas dessas substâncias tóxicas na América Latina. Só no México, há alguns dias, a Rede de Ação sobre Pesticidas e Alternativas (RAPAM) publicou um relatório revelando que, dos 210 POPs autorizados no país, 171 são proibidos em outros países, com efeitos tóxicos de curto e longo prazo para a saúde e o meio ambiente.

Exemplos incluem os herbicidas 2,4-D, diuron, fluazifop, glufosinato de amônio, glifosato e paraquate; os inseticidas clorpirifós, cipermetrina, fipronil, imidacloprido, malation, metomil e tiametoxam; e os fungicidas clorotalonil, compostos de cobre, mancozeb, metalaxil, tebuconazol e tiofanato-metil.

“Por que ainda são usados?”, pergunta Fernando Bejarano, diretor do RAPAM, durante a apresentação do relatório. “Tudo isso é um legado da Revolução Verde, onde o modelo a ser seguido era a agricultura americana, e se pensava que era impossível produzir pesticidas sem venenos.”

Segundo Rodolfo González, o uso extensivo de agrotóxicos responde a um modelo que prioriza a produtividade e a comercialização, e no qual governos e ejidatários veem o sucesso baseado na quantidade que vendem.

“É essa ideia decrépita do campo de vanguarda, da infraestrutura, da tecnologia e da monocultura, que torna invisíveis a diversidade, as sementes nativas, a saúde e a agricultura original”, ressalta.

Mas Bejarano é enfático: “Agora sabemos que depender de agrotóxicos altamente perigosos não é sustentável e que pagamos os custos com sofrimento, problemas de saúde e danos ambientais.”

Proibir os agrotóxicos altamente tóxicos é necessário, mas não é suficiente. O Chile é um dos países mais regulamentados , mas muitosagrotóxicos proibidos continuam sendo usados. “Um agrotóxico é proibido, mas as empresas começam a vendê-lo mais barato até esgotarem o estoque, então as pessoas consomem mais desses do que de outros”, explica Muñoz Quezada.

Gatilhos para mudança

Saraí Cisneros, dona de casa, lembra-se do momento em que os envenenamentos por agrotóxicos se tornaram coisa do passado em El Mentidero. “Lá, ao lado da escola de telesecundária, havia uma plantação de tomates e pepinos, e eles pulverizavam herbicidas fortes bem na hora em que as crianças estavam em aula”, conta ela.

Em 2019, crianças em idade escolar começaram a reclamar de odores fortes, seguidos de dores de cabeça, náuseas e tonturas. Então, as mães se mobilizaram, registraram uma queixa junto às autoridades municipais e começaram a colaborar com Humberto González e outros pesquisadores do CIESAS para que a urina de seus filhos fosse analisada.

“As mulheres têm desempenhado um papel de liderança nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, em particular, sobre os danos causados às crianças. Não apenas as mães, mas também as professoras rurais.”

Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, Argentina

González já havia analisado amostras de mais de 200 crianças do jardim de infância e do ensino fundamental em El Mentidero e encontrado até oito agrotóxicos em suas urinas. Nesta nova amostra, de 81 alunos do ensino médio, ele relatou que 100% das crianças continham glifosato e 2,4-D.

A partir daquele momento, uma mudança ocorreu. Em 2021, foi obtido um contrato de empréstimo de três anos para realizar um projeto de reconfiguração agroecológica e converter o terreno em um espaço educacional demonstrativo.

Durante três anos (de 2022 a 2024), a área foi pulverizada, a abordagem de produção foi abandonada e as crianças começaram a produzir alimentos sem agrotóxicos, aprendendo sobre hortaliças orgânicas e biofertilizantes. “As crianças se tornaram um fator de mudança”, diz Rodolfo González, entusiasmado. 

Crianças de El Mentidero, Jalisco, aprendem agroecologia em seu terreno escolar. Crédito da imagem: Projeto RAAS.

Este não é um caso isolado. Gargano documentou um ponto em comum em muitos conflitos socioambientais na região: quando a saúde das crianças está em jogo, as mulheres e as escolas promovem mudanças, aprendizado e transformação.

“As mulheres têm desempenhado um papel de destaque nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, principalmente, sobre os danos causados às crianças. Não só as mães, mas também as professoras rurais”, afirma a pesquisadora.

Em áreas rurais da província de Buenos Aires, por exemplo, a pulverização perto de escolas levou dezenas de professores a criar a Rede Federal de Professores pela Vida para impedir a pulverização perto de escolas.

Quando ocorre uma fumigação perto de uma escola, os professores interrompem as aulas, ligam para os pais para buscarem seus filhos e tiram fotos para relatar o ocorrido.

Mas “no dia seguinte temos que voltar para a escola, e temos que enfrentar a respiração daquele ar poluído e estar naquele parquinho”, diz a professora Marcela Murguía, da Escola nº 10 da cidade de Alta Vista, na província de Buenos Aires, em um vídeo online.

E praticamente nenhum país na região tem leis rígidas que proíbem ou estabelecem limites de distância para pulverização perto de escolas.

“É possível encontrar regulamentações e portarias provinciais e municipais, mas elas não são uniformes. Elas podem variar de 50 a 1.500 metros, mas não há consequências para quem não as cumpre”, diz Gargano. 

Desenho de uma criança sobre os riscos da pulverização perto de sua escola. Crédito da imagem: Rede Federal de Professores pela Vida (Argentina)/Facebook .

No Chile, Muñoz Quezada conduziu intervenções educacionais com pais e filhos em escolas rurais para avaliar até que ponto uma maior percepção de risco pode levar a uma redução de pesticidas em seus corpos.

A conclusão deles é que essas intervenções não funcionam se as crianças continuarem expostas a um ambiente repleto de agrotóxicos. “Percebemos que a mudança não é responsabilidade da família, da escola ou da criança, mas do Estado; precisamos ter políticas de justiça ambiental para evitar zonas rurais de sacrifício.”

Rodolfo González acredita que a agroecologia é um caminho para isso, desde que as mulheres sejam as que tomam as decisões sobre a terra. “Precisamos feminizar o campo. Onde há uma mulher trabalhando, há uma agricultura diferente, diversa, focada na saúde e não nos negócios.”

Ele diz isso enquanto olha para o que resta do terreno da escola que ajudou a construir. O projeto terminou há alguns meses e, em poucas semanas, estará “produtivo” novamente e, consequentemente, será dedetizado perto da escola.

Ele não consegue evitar a frustração. “Enquanto continuarmos focados na produção máxima e no rendimento máximo, em vez de focar na saúde das crianças, na conservação , na diversidade e na família, isso está fadado ao fracasso.”


Fonte: SciDev.Net

Decisão da EPA de dar sinal verde ao controverso herbicida dicamba gera indignação

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Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Na mais recente reversão das proteções ambientais dos EUA, os reguladores disseram esta semana que planejam aprovar um trio de novos produtos herbicidas feitos com dicamba, um produto químico controverso que causou estragos em áreas rurais, desencadeou anos de litígios e duas vezes proibições judiciais.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou uma proposta de decisão datada de 22 de julho afirmando que vê mais benefícios do que riscos em permitir que três produtos de dicamba feitos pelas gigantes da indústria agroquímica Bayer, Syngenta e BASF sejam usados por agricultores que cultivam algodão e soja geneticamente modificados para tolerar o dicamba.

Grupos de defesa da saúde pública e ambiental atacaram a decisão, dizendo que ela ignora evidências estabelecidas de que o dicamba tem tendência a se afastar do local onde é pulverizado, principalmente em temperaturas quentes, e que o potente herbicida danificou milhões de acres de plantações, pomares e paisagens onde nunca foi planejado que fosse aplicado.

Eles também dizem que a decisão cheira a favoritismo político, ocorrendo logo após um ex-lobista da indústria da soja ter sido nomeado administrador assistente adjunto para pesticidas no Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA.

Mas a EPA afirmou que os produtores de algodão e soja estão tendo dificuldades para eliminar ervas daninhas que ameaçam a saúde de suas plantações, pois elas se tornaram resistentes a outros tipos de herbicidas. Os produtos Dicamba são necessários para proteger essas importantes indústrias, afirmou a EPA.

Em sua avaliação, a EPA observa que a indústria de algodão dos EUA “é responsável por mais de US$ 21 bilhões em produtos e serviços anualmente” e diz que a colheita anual de soja é avaliada em aproximadamente US$ 57,6 bilhões.

A EPA disse que estava trabalhando com a BASF, Syngenta e Bayer para incluir diversas restrições nos rótulos dos produtos visando reduzir os riscos, tanto para pessoas que pulverizam os produtos químicos e certas espécies ameaçadas e em perigo de extinção, quanto para “cultivos sensíveis e certas plantas a favor do vento”.

Ainda assim, os críticos protestaram contra a decisão.

“A EPA de Trump está atingindo novos patamares de absurdo ao planejar dar sinal verde para um agrotóxico que causou os maiores danos por deriva na história agrícola dos EUA e foi rejeitado duas vezes por tribunais federais”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, em um comunicado. “Isso é o que acontece quando a supervisão de pesticidas é controlada por lobistas da indústria. Os ricos corporativos recebem seu pagamento e todos os outros sofrem as consequências.”

Bill Freese, diretor científico do Centro de Segurança Alimentar, pediu aos funcionários da EPA que retirassem o plano.

“Se permitirmos que essas decisões propostas sejam aprovadas, fazendeiros e moradores de toda a área rural dos Estados Unidos verão novamente suas plantações, árvores e hortas dizimadas pela deriva do dicamba, e áreas naturais como refúgios de vida selvagem também sofrerão”, disse Freese em um comunicado.

O dicamba foi introduzido na agricultura americana em 1967, mas não era amplamente utilizado durante os meses quentes, pois se sabia que o produto químico podia se volatilizar e se mover por longas distâncias com o aumento das temperaturas. Isso mudou quando a Monsanto e a BASF desenvolveram culturas transgênicas tolerantes ao dicamba para uso com novos herbicidas de dicamba, após o uso generalizado do herbicida glifosato da Monsanto em culturas geneticamente modificadas tolerantes ao glifosato ter causado o desenvolvimento de resistência ao glifosato em milhões de acres de plantas daninhas.

No ano passado, um tribunal federal concluiu que a EPA violou a lei ao aprovar os três novos herbicidas de dicamba. Em 2020, um tribunal federal independente concluiu que a EPA havia apresentado análises falhas e “subestimado substancialmente” os riscos associados aos herbicidas de dicamba.

Documentos corporativos internos mostram que a Monsanto, comprada pela Bayer em 2018, e a BASF estavam cientes de que a combinação de suas culturas geneticamente modificadas tolerantes ao dicamba e herbicidas de dicamba provavelmente causaria danos a muitas fazendas dos EUA que não comprassem as culturas e produtos químicos especiais.

Os documentos também descrevem como a Monsanto se opôs aos testes de produtos de terceiros como forma de limitar dados que poderiam preocupar os reguladores.

A decisão sobre o dicamba é uma das muitas medidas tomadas desde que o presidente Donald Trump assumiu o cargo para anular ou desfazer dezenas de restrições ambientais. Até o momento, o governo Trump realizou mais de 140 ações para reverter as regras de proteção ambiental, de acordo com uma análise do The Guardian .

(Imagem em destaque de Karl Wiggers  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Embalagens vazias de agrotóxico e técnico em central de processamento na Capital (Foto: Osmar Veiga)

Por Cássia Modena para o “Campo Grande News” 

Eles são perigosos, mas altamente demandados na produção agrícola em larga escala. Leis e fiscalização tentam traçar a linha do meio no uso seguro de agrotóxicos, enquanto as infrações aumentam no Estado.

A Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal) e a PMA (Polícia Militar Ambiental) flagraram, juntas, 1.208 irregularidades em propriedades rurais de Mato Grosso do Sul entre 2023 e 2025.

A quantidade é maior que essa, já que a PMA não apresentou dados de 2023.

O crescimento foi de 10% na comparação entre autos de infração lançados apenas pela Iagro em 2023 e 2024. A maioria é sobre descarte e armazenamento errados, que oferecem risco de intoxicação e contaminação não só entre pessoas, mas também a animais, rios e lençol freático.

Arte: Thainara Fontoura

A Iagro e à PMA cabe cuidar o que tem a ver com a defesa da saúde humana e dos recursos naturais. Já a fiscalização da importação e uso de pesticidas proibidos no Brasil, é de responsabilidade de órgãos como PF (Polícia Federal), PRF (Polícia Rodoviária Federal), DOF (Departamento de Operações e Fronteira), Ministério da Agricultura e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).

Duas apreensões feitas pelo DOF em janeiro deste ano, por exemplo, desviaram cargas com veneno agrícola ilegal avaliadas em mais de R$ 9 milhões.

Falha na fiscalização

No mês passado, fiscais do Ibama foram até uma fazenda de Sidrolândia, após receberem denúncia de queima de embalagem e uso de agrotóxicos falsificados.

O que mais impressionou foi o descaso com os galões usados em área plantada tão grande, por arrendatário que fazia cultivo há anos no mesmo local, disse a superintendente do órgão em Mato Grosso do Sul, Joanice Lube.

Os fiscais federais não confirmaram a denúncia sobre agrotóxicos que vêm de fora. Foram encontradas somente embalagens de produtos nacionais, inclusive, com conteúdo vencido há mais de um ano. As irregularidades geraram multa de R$ 324 mil ao arrendatário.

Embalagens de agrotóxicos descartadas à céu aberto ou enterradas em fazenda de Sidrolândia (Foto: Divulgação/Ibama)

Joanice admite que a fiscalização do uso de agrotóxicos importados ilegalmente precisa melhorar. É o que o MPF (Ministério Público Federal) já pede ao Ibama em Mato Grosso do Sul.

Para ter certeza que não se depararam com embalagens mascaradas com rótulos falsos, o Ibama no Estado teria que ter um aparelho chamado espectrômetro para analisar o conteúdo líquido. O órgão federal comprou três, mas nenhum chegou aqui.

“O correto seria fazer amostra e usar o aparelho para fazer teste e ter o fazer resultado na hora. Como tem denúncias de uso de agrotóxico ilegal, temos que aprimorar a fiscalização”, falou a superintendente.

Terras indígenas

Enquanto algumas comunidades indígenas se organizam e cultivam suas lavouras, outras são vítimas de pulverizações aéreas de veneno com alto risco de intoxicar pessoas e comprometer a água consumida nas aldeias.

“Isso tem tem sido um grande problema no sul de Mato Grosso do Sul, onde a gente tem comunidades indígenas cercadas por plantações. Os aviões agrícolas passam por cima delas. Sem falar que os produtos ficam à deriva dependendo das condições atmosféricas, e podem ‘andar’ até mais que 500 metros”, descreve Joanice.

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Aeronave faz pulverização de agrotóxico em fazenda (Foto: Perícia do MPT/MS)

Nos casos em que os próprios povos originários usam nas plantações, eles também podem ser vítimas. “Isso tem impactado diretamente a saúde deles”, conclui a superintendente.

Logística reserva

Editada em dezembro de 2023, a lei federal nº 14.785 deixou mais rígido o controle de agrotóxicos no Brasil e definiu as responsabilidades quanto à destinação correta das embalagens de agrotóxicos.

Mas ainda é comum fiscais encontrarem as vazias servindo até de garrafa para beber água no campo, o que não é recomendado, pois qualquer pequeno resíduo pode ser tóxico e levar à morte.

Os fabricantes nacionais montaram o InpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias) para dar conta da logística reversa das embalagens, de forma que elas sejam incineradas, se o resíduo não for lavável, ou reaproveitadas.

Perigosas, infrações relacionadas a agrotóxicos aumentam em MS

Arte: Thainara Fontoura

Cerca de 90% das embalagens usadas em propriedades rurais nos estados voltam para os galpões de processamento do instituto e ganham novas funções, segundo o engenheiro agrônomo que coordena as operações em Mato Grosso do Sul, Hamilton Flandoli.

O Estado é o 7º na lista de maiores devolvedores. Ele contribuiu com 7% do total de 4.894 mil toneladas de embalagens processadas em 2024, de acordo com o InpEV.

Hamilton explica que a conta não fecha porque o que é comprado, nem sempre é devolvido. “Não vai dar 100%, já que não necessariamente o produtor vai usar o produto naquele ano. E depende do produto. Pode não dar as pragas que ele achou que ia ter. Então, acaba ficando guardado”, diz. Outro caso, é a demora no recolhimento de embalagens que ficam em cooperativas.

O produtor rural precisa ter receita emitida por técnico para comprar um agrotóxico. Pela lei, ele deve devolver a embalagem em até um ano após a aquisição.

O coordenador do InpEV frisa que os fabricantes organizam caminhões de recolhimento apenas para atender pequenos produtores. Os grandes, precisam providenciar a destinação correta por si.


Fonte:  Campo Grande News

Risco de câncer dobra para aplicadores de agrotóxicos que usaram carbaril, segundo estudo

Por Brian Bienkowski para o “The New Lede” 

Aplicadores de pesticidas na Carolina do Norte e em Iowa que pulverizaram o inseticida carbaril com frequência durante suas carreiras têm maior risco de desenvolver câncer de estômago, esôfago, língua e próstata, de acordo com uma nova pesquisa liderada pelo Instituto Nacional do Câncer (NCI) dos EUA. 

A pesquisa é a primeira a relacionar o agrotóxico ao câncer de estômago, mas se baseia em muitos estudos anteriores que constataram que o carbaril — frequentemente comercializado sob a marca Sevin — aumenta o risco de vários outros tipos de câncer. O produto químico é usado para matar pulgões e outros insetos em diversas culturas agrícolas, bem como insetos como formigas, pulgas e carrapatos em gramados e jardins domésticos. 

“Esta é a maior e mais abrangente avaliação prospectiva do carbaril e do risco de câncer até o momento”, escreveram os autores.

Os pesquisadores utilizaram dados do Estudo de Saúde Agrícola , financiado pelo governo dos EUA, sobre o uso de agrotóxicos por agricultores e outros aplicadores licenciados em Iowa e Carolina do Norte. Os dados incluem o uso autorrelatado de pesticidas de 1993 a 1997 e de 1999 a 2005.

“Esta é a maior e mais abrangente avaliação prospectiva do risco de carbaril e câncer até o momento.” – Autores do estudo

A autora sênior do estudo, Laura Beane Freeman, pesquisadora sênior do NCI, disse que os pesquisadores não apenas analisaram quantos dias os aplicadores relataram pulverizar o carbaril, mas também fatores que podem afetar a exposição, como quais equipamentos de proteção individual eles usaram ou não e como aplicaram o agrotóxico.

Os pesquisadores também analisaram os registros estaduais de câncer em 2014 para a Carolina do Norte e em 2017 para Iowa. 

Os aplicadores que relataram a maior quantidade de dias aplicando carbaril e exposição intensa tiveram cerca de duas vezes mais chances de desenvolver câncer de estômago em comparação com aqueles que relataram nunca ter aplicado. O grupo com maior exposição também apresentou uma incidência 52% maior de câncer de esôfago e 91% maior de câncer de língua em comparação com aqueles que relataram nunca ter aplicado carbaril, concluiu o estudo. 

O grupo de maior exposição teve uma incidência 56% maior de câncer de próstata para exposições que ocorreram mais de 30 anos antes do câncer ser diagnosticado. 

É “trágico que permitamos que produtos como esse sejam registrados para uso e os mantenhamos no mercado apesar das crescentes evidências de danos à saúde”, disse Alexis Luckey, diretora executiva da Toxic Free NC, que defende a reforma dos pesticidas no estado há quase quatro décadas.

“Aplicadores de pesticidas e trabalhadores rurais nos campos… pagam o preço mais alto neste sistema falho”, disse Luckey.

Agrotóxicos e câncer 

Numerosos estudos associaram o carbaril a vários tipos de câncer. E uma ficha de dados de segurança regulatória de 2021 para o produto químico, fabricado e vendido há anos pela Bayer sob a marca Sevin , alerta que o produto é “suspeito de causar câncer”. 

O novo estudo se soma às crescentes evidências de que muitos produtos químicos agrícolas comumente usados ​​estão deixando as pessoas doentes. Em uma análise nacional realizada no ano passado , pesquisadores descobriram que a exposição a pesticidas pode rivalizar com o tabagismo em termos de risco de câncer. 

“Esses resultados não são surpreendentes”, disse Luckey. 

No mês passado, pesquisadores começaram a conduzir sessões de “escuta” em Iowa como parte de um novo projeto para investigar possíveis causas ambientais para o que alguns chamam de “crise” de câncer no estado, que tem a maior taxa de câncer do país e é apenas um dos dois estados dos EUA onde o câncer está aumentando. 

“Aplicadores de agrotóxicos e trabalhadores rurais nos campos pagam o preço mais alto neste sistema falho.” – Alexis Luckey, Toxic Free NC

Freeman afirmou que mais estudos são necessários para entender melhor como o carbaril pode causar câncer. No entanto, foi demonstrado que o inseticida reage com nitrato e nitritos — ambos os quais as pessoas podem consumir em alimentos e água, especialmente em áreas com forte atividade agrícola — para formar compostos cancerígenos. Alguns estudos sugerem que o carbaril também pode danificar o DNA e os cromossomos, o que pode levar ao câncer.

Brandon Herring, porta-voz do Departamento de Agricultura e Serviços ao Consumidor da Carolina do Norte, disse que a agência não revisou o estudo, mas que ele “serve como um lembrete das diretrizes de segurança estabelecidas, como taxas e métodos de aplicação, que constam no rótulo de cada pesticida. Incentivamos as pessoas a seguirem essas diretrizes”. 

A regulação do carbaril 

Existem 61 agrotóxicos registrados no mercado dos EUA que contêm carbaril, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Embora o inseticida ainda seja amplamente utilizado nos EUA, a Europa proibiu todos os seus usos em 2007 devido a preocupações com o câncer. 

Os pesquisadores do estudo atual estimaram que cerca de 317.000 kg de carbaril são aplicados anualmente em plantações agrícolas nos EUA. Freeman afirmou que cerca de 900.000 kg são aplicados anualmente perto de edifícios, gramados, pastos e estradas. 

Não são apenas os humanos que podem estar em risco: a EPA está mudando os rótulos dos produtos com carbaril depois que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA descobriu que ele “provavelmente colocaria em risco 78 espécies listadas e modificaria adversamente 14 habitats críticos quando usado conforme registrado atualmente”. 

A nova rotulagem, prevista para ser concluída até o final do ano, foi projetada para reduzir o escoamento e a deriva, e alertará os aplicadores sobre áreas restritas e sensíveis. 

A Drexel Chemical Company e a Tessenderlo Kerley, Inc., duas empresas agrícolas que produzem produtos de carbaril, não retornaram pedidos de comentários sobre o novo estudo.

Foto em destaque: Funcionário do Serviço Florestal dos EUA pulverizando carbaril. (Crédito: USFS ) 


Fonte: The New Lede

Diquat pode danificar órgãos e bactérias intestinais, mostra nova pesquisa

O diquat é proibido no Reino Unido, na UE, na China e em outros países. Os EUA (e o Brasil) têm resistido aos apelos para regulá-lo

Agrisel® Diquat | Agrisel USA, Inc

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos. 

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

O herbicida Diquat, usado para substituir o glifosato no Roundup e outros produtos herbicidas pode matar bactérias intestinais e danificar órgãos de várias maneiras, mostra uma nova pesquisa .

O ingrediente, diquat, é amplamente utilizado nos EUA como herbicida em vinhedos e pomares, e é cada vez mais pulverizado em outros lugares do país, com o uso de substâncias herbicidas controversas, como glifosato e paraquat,

Mas os novos dados sugerem que o diquat é mais tóxico que o glifosato, e a substância é proibida devido aos seus riscos no Reino Unido, na UE, na China e em muitos outros países. Ainda assim, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) resistiu aos apelos por uma proibição, e as fórmulas do Roundup com o ingrediente chegaram às prateleiras no ano passado.

“Do ponto de vista da saúde humana, esse produto é bem mais nocivo que o glifosato, então estamos presenciando uma substituição lamentável, e a estrutura regulatória ineficaz está permitindo isso”, disse Nathan Donley, diretor científico do Centro para a Diversidade Biológica, que defende regulamentações mais rigorosas para pesticidas, mas não participou da nova pesquisa. “Substituição lamentável” é um termo científico usado para descrever a substituição de uma substância tóxica em um produto de consumo por um ingrediente que também é tóxico.

Acredita-se também que o diquat seja uma neurotoxina, cancerígeno e esteja ligado à doença de Parkinson. Uma análise de dados da EPA realizada em outubro pela organização sem fins lucrativos Amigos da Terra descobriu que ele é cerca de 200 vezes mais tóxico que o glifosato em termos de exposição crônica.

A Bayer, fabricante do Roundup, enfrentou quase 175.000 processos judiciais alegando que os usuários do produto foram prejudicados. A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, reformulou o Roundup depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classificou o glifosato como um possível carcinógeno.

A nova revisão da literatura científica concentra-se, em parte, nas múltiplas maneiras pelas quais o diquat danifica órgãos e bactérias intestinais, incluindo a redução do nível de proteínas que são peças-chave do revestimento intestinal. Esse enfraquecimento pode permitir que toxinas e patógenos passem do estômago para a corrente sanguínea, desencadeando inflamação nos intestinos e em todo o corpo. Ao mesmo tempo, o diquat pode inibir a produção de bactérias benéficas que mantêm o revestimento intestinal.

Danos ao revestimento também inibem a absorção de nutrientes e o metabolismo energético, disseram os autores.

A pesquisa analisa ainda mais detalhadamente como a substância prejudica os rins, os pulmões e o fígado. O diquat “causa danos estruturais e funcionais irreversíveis aos rins”, pois pode destruir as membranas das células renais e interferir nos sinais celulares. Os efeitos no fígado são semelhantes, e o ingrediente causa a produção de proteínas que inflamam o órgão.

Enquanto isso, parece atacar os pulmões, desencadeando uma inflamação que danifica o tecido do órgão. De forma mais ampla, a inflamação causada pelo diquat pode causar a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos, um cenário em que os sistemas orgânicos começam a falhar.

Os autores observam que muitos dos estudos são com roedores e que mais pesquisas sobre exposição de baixo e longo prazo são necessárias. A Bayer não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Apesar dos riscos em meio ao aumento do uso de diquat, a EPA não está revisando o produto químico, e até mesmo organizações sem fins lucrativos que pressionam por regulamentações mais rigorosas de pesticidas têm concentrado sua atenção em outras áreas.

Donley disse que isso se deve, em parte, ao fato de as regulamentações de agrotóxicos nos EUA serem tão frágeis que os defensores estão envolvidos em batalhas por ingredientes como glifosato, paraquate e clorpirifós – substâncias proibidas em outros lugares, mas ainda amplamente utilizadas aqui. O diquate é “ofuscado” por esses ingredientes.

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos”, disse Donley. “Isso ainda não chegou ao radar da maioria dos grupos, e isso realmente diz muito sobre o triste e lamentável estado dos pesticidas nos EUA.”

Alguns defensores acusaram a EPA de ser controlada pela indústria, e Donley disse que as leis de pesticidas dos EUA eram tão fracas que era difícil para a agência proibir ingredientes, mesmo que existisse a vontade da agência. Por exemplo, a agência proibiu o clorpirifós em 2022, mas um tribunal anulou a decisão após a indústria entrar com uma ação judicial.

Além disso, o escritório de pesticidas da EPA parece ter uma filosofia que afirma que pesticidas tóxicos são um “mal necessário”, disse Donley.

“Quando você aborda uma questão dessa perspectiva, há um limite para o que você pode fazer”, disse ele.


Fonte: The Guardian

Soja lidera uso de agrotóxicos no Brasil, mas apesar disso a produtividade está caindo drasticamente, mostra relatório

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Escolhas, o latifúndio agro-exportafor brasileiro tem intensificado o uso de agrotóxicos e fertilizantes para aumentar a produção de soja, na qual o Brasil é líder mundial.  Além disso, esse aumento se dá em um ritmo mais acelerado do que a expansão da área plantada, o que pode acarretar riscos ambientais e reduzir a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, ao se comparar com países líderes no uso de agrotóxicos, como Estados Unidos, Argentina, China e Índia, o Brasil se destaca, conforme mostram dados oficiais.

Por outro lado, o levantamento feito pelo Instituto Escolhas aponta que mesmo com um aumento da produtividade de 2% ao ano, esse crescimento é inferior à expansão da área plantada e ao aumento do uso de insumos, que foram de 5% e 11% respectivamente.  O estudo também mostra que, em 30 anos, a área de soja saltou de 11 para 44 milhões de hectares, mas a eficiência do uso dos agrotóxicos caiu drasticamente: em 1993, eram 23 sacas de soja produzidas para cada quilo de agrotóxico aplicado; hoje, são apenas 7.

Além disso, o estudo mostra que o custo dos agrotóxicos e fertilizantes saltou de 30% para 44% sobre o valor bruto da produção. 

Livre da soja, Pantanal sofre com veneno que chega pelos rios

Segundo Jaqueline Ferreira, do Instituto Escolhas, o aumento do uso de agrotóxicos e fertilizantes é frequentemente minimizado pelos alta na produção de soja, que é essencial para o abastecimento mundial e fonte de exportação de dólares para o país. Para a safra 2024/2025, o Brasil projeta uma produção recorde de 168 milhões de toneladas de soja, 13% a mais que o ano anterior. Mas esse resultado não pode esconder que isso está acontecendo graças ao aumento do desmatamento e do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa e até na China.