Agronegócio como vetor de surto de COVID-19 em Campos dos Goytacazes

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As evidências de que o chamado “agronegócio” (cujo nome verdadeiro é latifúndio agro-exportador) é um dos principais responsáveis pela ampla circulação do Sars-Cov-2 no Brasil são inúmeras e já estão sendo documentadas pelos pesquisadores brasileiras sob a forma de artigos científicos (Aqui! e Aqui!). Mas agora uma reportagem do Portal Viu mostra que mesmo aqui na planície dos Goytacazes, temos o agronegócio sucro-alcooleiro jogando o papel de reunir trabalhadores em condições propícias para a contaminação e ampla circulação do vetor da COVID-19.

Como bem mostra a reportagem publicada pela Agência Fonte Exclusiva sobre o assunto, um total de 40  trabalhadores envolvidos no corte da cana foram identificados como portadores do coronavírus dentro de uma pousada que abrigava duas dezenas de cortadores de cana, o que demonstra que há um surto em curso, enquanto os trabalhadores são deixadas à mercê da própria sorte após dias exaustivos no corte da cana.

O mais curioso é que segundo novas matérias sobre o assunto apontando que até agora o Ministério Público do Trabalho (MPT) aparentemente ainda não se moveu para apurar as responsabilidades por essa contaminação em massa dos trabalhadores da cana em Campos dos Goytacazes.  Tal fato me parece incompreensível, mas apenas confirma que quando se trata de enfrentar as mazelas causadas pelo modelo agro-exportador, a velocidade dos entes estatais é muito lento, mas muito lento mesmo.

Escolas inglesas reabrem e número de casos de coronavírus entre crianças explode

Coronavirus - Großbritannien

Estudantes britânicos: o número de crianças de cinco a nove anos infectadas aumentou 70 por cento em comparação com a semana anterior. Liam Mcburney / PA Wire / picture alliance / dpa

De acordo com uma reportagem do Sunday Times, o coronavírus está se espalhando rapidamente entre crianças inglesas. Na semana de 20 de junho, o número de crianças infectadas de cinco a nove anos aumentou 70% em relação à semana anterior, com 10 a 14 anos foi um aumento de 56%, relatou o jornal, citando números da autoridade de saúde Saúde pública. Um total de 16.100 alunos faltaram à aulas devido à infecção por coronavírus, em comparação com 10.600 na semana anterior. Como dezenas de milhares de crianças também foram enviadas para o isolamento por causa do possível contato com pessoas infectadas, um total de 216.000 alunos deixou de ir às aulas.

A razão para a rápida disseminação do coronavírus entre estudantes ingleses é a variante Delta, altamente contagiosa, informou o Sunday Times. O co-secretário-geral do sindicato dos professores do Sindicato Nacional da Educação, Kevin Courtney, alertou para a multiplicação dos casos. Steve Chalke, da instituição de caridade Oasis Trust, disse que as escolas são “centros de incubação para a nova variante Delta”. “A tendência nas escolas vem apontando no sentido do aumento de contaminações há três semanas. Obviamente, ainda não alcançamos o topo dessa terceira onda ”, disse Chalke.

Os pais estão criticando cada vez mais a estratégia do governo de enviar toda a classe para o auto-isolamento por dez dias se os autotestes por coronavírus forem positivos. Portanto, dezenas de milhares de crianças saudáveis ​​faltariam às aulas. Os defensores da prática, no entanto, apontam que apenas 15% dos pais testam seus filhos regularmente. Os sindicatos estão pedindo que a máscara seja mantida e que haja melhor ventilação nas aulas. Os diretores das escolas esperam que em breve seja tomada uma decisão a favor da vacinação das crianças.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pela revista Der Spiegel [Aqui!].

Por que líderes autoritários estão perdendo a luta contra a COVID-19

Uma grande lição da crise de Covid: mentir torna tudo pior

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Por Robert Reich para a Nation of Change

Um hospital em Uttar Pradesh, o estado mais populoso da Índia, está sendo acusado de acordo com a Lei de Segurança Nacional do país por soar o alarme sobre a falta de oxigênio que resultou na morte por COVID-19. O proprietário e gerente do hospital disse que  a polícia o acusou de “falsa disseminação do medo”,  depois que ele declarou publicamente que quatro de seus pacientes morreram em um único dia quando o oxigênio acabou.

Desde que a COVID-19 explodiu na Índia, o primeiro-ministro, Narendra Modi, parece mais decidido a controlar as notícias do que o surto. Na quarta-feira, a Índia registrou quase 363.000 casos de COVID-19 e 4.120 mortes, cerca de 30%o das mortes em todo o mundo naquele dia. Mas os especialistas dizem que a Índia está subestimando o número verdadeiro. Ashish Jha, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, estima que pelo menos  25.000 índiANOS morrem de COVID-19 a cada dia.

O horror foi agravado pela falta de oxigênio e leitos hospitalares. No entanto, Modi e seu governo não querem que o público saiba a história verdadeira.

Uma grande lição da crise de COVID-19: mentir torna tudo pior.

Vladimir Putin nega ativamente a verdade sobre a COVID-19 na Rússia. O demógrafo Alexei Raksha, que trabalhava na agência estatística oficial da Rússia, Rosstat, mas diz que foi forçado a sair no verão passado por contar a verdade sobre aCOVID-19, afirma que  os dados diários na Rússia foram “suavizados, arredondados, reduzidos” para parecerem melhores.  Como muitos especialistas, ele usa o excesso de mortalidade – o número de mortes durante a pandemia sobre o número típico de mortes – como o melhor indicador.

“Se a Rússia parar com 500.000 mortes a mais, esse será um bom cenário”, calcula ele  .

A Rússia foi a primeira a lançar a vacina contra a COVID-19, mas ficou terrivelmente para trás nas vacinações. Pesquisas recentes indicam que a proporção de russos que não querem ser vacinados é de  60% a 70% . Isso porque Putin e outros funcionários se concentraram menos em vacinar o público do que em reivindicar o sucesso em conter a COVID-19.

Os EUA estão sofrendo de um problema semelhante – o legado de outro homem forte, Donald Trump. Embora mais da metade dos adultos norte-americanos tenham recebido pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, mais de 40% dos republicanos   disseram sistematicamente aos pesquisadores que não seriam vacinados. Sua recalcitrância está  ameaçando os esforços para alcançar a “imunidade de rebanho”  e prevenir a disseminação do vírus.

Como Modi e Putin, Trump minimizou a gravidade da pandemia e espalhou desinformação sobre ela. Funcionários de Trump ordenaram que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças  minimizassem sua gravidade . Ele se recusou a ser vacinado publicamente e estava visivelmente ausente de um  anúncio de serviço público  sobre a vacinação que apresentava todos os outros ex-presidentes vivos.

Os aliados de Trump na mídia realizaram uma campanha de terror sobre as vacinas. Em dezembro,  Laura Ingraham postou uma história do Daily Mail no Facebook com o   objetivo de mostrar evidências de que os partidários do partido comunista chinês trabalhavam em empresas farmacêuticas que desenvolveram a vacina contra o coronavírus.

Em meados de abril, o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, opinou que, se a vacina fosse realmente eficaz, não haveria razão para as pessoas que a receberam usarem máscaras ou evitarem o contato físico.

“Então  talvez não funcione, e eles simplesmente não estão lhe dizendo isso. ”

Por que então alguém deveria se surpreender com a relutância dos republicanos de Trump em se vacinar? Uma análise recente do  New York Times  mostrou que as taxas de vacinação são mais baixas em condados onde a maioria votou em Trump em 2020. Os estados que votaram mais fortemente em Trump também são  estados onde percentagens mais baixas  da população foram vacinadas.

O pesquisador republicano Frank Luntz afirma que   Trump é responsável  pela hesitação dos eleitores republicanos em serem vacinados.

“Ele quer receber o crédito pelo desenvolvimento da vacina. Então ele também recebe a culpa por tão poucos de seus eleitores aceitarem. ”

O Partido Republicano de Trump está começando a se assemelhar a regimes autoritários ao redor do mundo em outros aspectos também – expurgando contadores da verdade e transportando mentiras, desinformação e propaganda prejudicial ao público.

Na semana passada, o Partido Republicano despojou a deputada Liz Cheney de sua posição de liderança por dizer a verdade sobre as eleições de 2020. Na audiência do Congresso da semana passada sobre o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, um congressista republicano, Andrew Clyde, até negou que tenha acontecido.

“Não houve insurreição”, disse ele. “Chamar isso de insurreição é uma mentira ousada … você realmente pensaria que foi uma visita de turista normal.”

Biden diz que planeja convocar uma cúpula de governos democráticos para conter o aumento do autoritarismo em todo o mundo. Espero que ele fale sobre sua ascensão nos Estados Unidos também – e o enorme preço que já cobrou dos americanos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Nation of Change [Aqui!].

Surto de COVID-19 força fechamento de escolas no Paraná. Em Campos, querem abrir

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Por motivos que não têm nada a ver com o processo pedagógico e o interesse da segurança de estudantes e suas famílias há no Brasil uma pressão crescente para forçar a reabertura de escolas. Um dos lugares em que essa medida descabida foi o estado do Paraná.  Mas mesmo aqui em Campos dos Goytacazes há uma forte pressão por parte de proprietários de escolas particulares e também de membros do governo municipal (às vezes fica difícil separar esses dois setores tantas os interesses em comum) para que as aulas presenciais sejam retomadas, ainda que em suposto estilo híbrido (parte presencial e parte remoto).

Aos que acham que isso não causará maiores problemas em termos da difusão ainda maior do Sars-Cov-2, deveria olhar o que está acontecendo no já citado estado do Paraná onde diversos municípios estão tendo fechar suas escolas reabertas por causa do alto nível de infecção principalmente entre professores. Segundo o jornalista Esmael Morais publicou em seu blog, a situação é tão grave que os sindicato que representa de 120 mil trabalhadores da educação do estado do Paraná, a APP-sindicato, está “recolhendo as fichas de saúde dos contaminados para responsabilizar administrativa, civil e criminalmente o governador Ratinho Junior (PSDB) e o secretário da Educação, o empresário Renato Feder“.  

Eu diria que se aqui em Campos dos Goytacazes, essa mesma medida intempestiva for adotada, SEPE terá que fazer rapidamente o mesmo, responsabilizando quem tiver de ser responsabilizado.  Aos pais de crianças que estão achando que colocar seus filhos e a si mesmos em situação de risco, sugiro olhar bem a situação que está ocorrendo no Paraná. Afinal, melhor em casa “atrapalhando” o sossego do que infectado e sob risco de contrair as formas mais agudas de COVID-19.  Até porque os donos de escola estão avisando que não vão se responsabilizar se alguma criança contrair o coronavírus nas dependências de seus estabelecimentos de ensino.

Sequelas graves da COVID-19, uma crise de oculta que piora o caos na saúde brasileira

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Uma das formas mais insidiosas de minimizar o impacto da pandemia da COVID-19 é contrapor o score dos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus contra os de pessoas “recuperadas” da infecção.  Essa contraposição dá a ideia de que alguém que se livrou da infecção causada pelo coronavírus volta imediatamente para as condições em que se encontrava anteriormente.

Esse tipo de mensagem está longe de ser a realidade de uma proporção significativa dos casos de pessoas de infectadas que acabam com sequelas graves por causa da COVID-19.  Relatos de um número considerável de pessoas dão conta de problemas variados, incluindo problemas permanentes no sistema pulmonar, dificuldades de circulação sanguínea chegando a alterações no funcionamento do sistema nervoso.

A consequência disso é que o sistema brasileiro de saúde ficará sobrecarregado com casos de pessoas que desenvolveram sequelas causadas pelas formas mais graves da COVID-19, e o que é pior, em um contexto de encurtamento do financiamento dos serviços públicos de saúde por causa da aplicação da PEC do Teto de Gastos.

Por isso mesmo é que o afrouxamento das medidas de isolamento social que estão sendo aplicadas não fazem o menor sentido, na medida que isso criará inevitavelmente as condições propícias para mais uma onda (está mais para tsunami) não apenas de novos casos de infecção, mas também de pacientes que desenvolvem sequelas graves quando acometidas pelas formas mais graves da COVID-19.

O fato é que enquanto o Brasil não realizar uma efetiva vacinação em massa, o mais indicado é a manutenção de formas mais estritas de isolamento social, a despeito das pressões que estão sendo feitas no sentido contrário.

Quem é o presidente da Anvisa que complicou Jair Bolsonaro na CPI da COVID-19?

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O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, e o presidente Jair Bolsonaro

Fontes jornalísticas informaram que o presidente Jair Bolsonaro teria ficado particularmente irritado com o depoimento que o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu ontem na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura possíveis irregularidades cometidas na gestão da pandemia da COVID-19, colocando o governo federal em uma situação complicada.

Um detalhe que tem sido curiosamente negligenciado versa justamente sobre o currículo do diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que é simplesmente apresentado como um amigo pessoal de Jair Bolsonaro. É que Barra Torres , antes de ser indicado para presidir a Anvisa, era contra-almirante da Marinha do Brasil, o terceiro mais alto da corporação. Além disso, como civil, Barra Torres foi instrutor na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ), e, como militar, foi diretor do Centro de Perícias Médicas da Marinha e do Centro Médico Assistencial da Marinha.

Em outras palavras Barra Torres é um elemento que não apenas pertence aos quadros superiores da Marinha, como também possui as devidas credenciais médicas, o que, combinado, torna seu depoimento particularmente danoso para o agora, provavelmente, ex-amigo Jair Bolsonaro. Para piorar,  o depoimento danoso pode significar que parte das forças armadas brasileiras decidiu jogar o ex-capitão aos lobos.  Por isso, a explicável irritação de Jair Bolsonaro.

Luiz Henrique Mandetta: uma testemunha chave na CPI da COVID-19

Mandetta desgraçou Bolsonaro na CPI da COVID-19

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Ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta

Por  Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Até ser expulso, em 16 de abril de 2020, Luiz Henrique Mandetta fazia parte do governo brasileiro como Ministro da Saúde. Na frente do comitê parlamentar da COVID-19, ele agora relata como todos os seus conselhos profissionais foram rejeitados pelo presidente Bolsonaro, que sabotou a proteção contra infecções e tentou forçar a indicação da droga mágica cloroquina para combater o coronavírus.

Mandetta nasceu em 1964 em Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com o Paraguai. Ele vem de um clã familiar que é influente na política local. Ele se formou em medicina no Rio de Janeiro e se especializou em ortopedia e ortopedia pediátrica na universidade local e em Atlanta nos EUA. Após o serviço militar como médico no Hospital Central do Exército do Rio, trabalhou em Campo Grande, onde foi eleito chefe da cooperativa médica da Unimed. Em 2004, Mandetta assumiu a presidência do vereador de saúde da cidade, provavelmente com a ajuda de “vitamina B”. Aqui ele conquistou mérito em campanhas de combate à dengue.

Mandetta apoiou o golpe parlamentar contra a presidente de esquerda Dilma Rousseff . A partir daí, o médico foi trocado como candidato ao cargo de governador de Mato Grosso do Sul, mas inicialmente se retirou para a vida privada.

Um lobby da política e da medicina promoveu sua nomeação como ministro a partir de 2019. Nessa função, ele manteve o bolonarismo em seu campo e se recusou a expurgar os partidos políticos. Seu sucessor, Nelson Teich, também médico, renunciou após apenas um mês . Por quase um ano, apesar da pandemia, a secretaria de saúde foi dirigida por um general que não entendia muito sobre o combate ao vírus.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

 

Os inevitáveis custos do novo ataque de Jair Bolsonaro à China

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Jair Bolsonaro discursa durante abertura da Semana das Comunicações no Palácio do Planalto. Imagem: Fabio Rodrigues/ Agência Brasil

A mídia corporativa brasileira noticiou hoje mais um ataque do presidente Jair Bolsonaro à China, este na forma da propalação de uma suposta origem em algum laboratório chinês do Sars-Cov-2 (causador da COVID-19), o que foi agravado pela acusação de que teriam sido os chineses os únicos a terem crescimento econômico em 2020. A primeira coisa é que essas acusações são usuais no esgoto ideológico em que opera os grupos bolsonaristas, e o presidente da república está apenas repetindo publicamente o que é dito de forma fortuita entre os membros de adeptos de teorias da conspiração.

Entretanto, independente do que está sendo repetido publicamente por Jair Bolsonaro não ser nenhuma novidade por quem conhece minimamente essas teses esdrúxulas;  o problema é que ao repetir ainda que envergonhada o que dizem os seus adeptos que não possuem um cargo de relevância como o de presidente república, o presidente da república parece esperar que os chineses reajam de forma prejudicial aos interesses nacionais.   Um  problema é que os chineses certamente reagirão, ainda que não mesma forma e proporção que Jair Bolsonaro fez.

A primeira razão para esperar que os chineses rejam diferente é que eles são membros de uma cultura com mais de 5.000 anos de história, onde o pragmatismo é uma das principais marcas. Além disso, como a China hoje é controlada por um único partido que se caracteriza por forte disciplina, o mais provável é que haja algum tipo de comunicado oficial lamentoso onde se reclamará do tratamento indelicado com um grande parceiro comercial. Esse é o jeito da diplomacia chinesa operar e não parece crível que haja alguma declaração mais forte, até porque o Brasil representa risco estratégico zero, e os chineses não são de chutar cachorro morto, ainda mais em público.

O problema é que haverá uma outra ordem de resposta, e ela certamente virá com forte peso econômico, principalmente para o latifúndio agro-exportador que tem na China o destino de mais de 70% da soja nacional. Ao provocar politicamente a China e em público, Jair Bolsonaro deverá fazer que esse percentual diminua. A mesma coisa deverá acontecer com as exportações de carne e também do minério de ferro.  É que mais do que ninguém, a China sabe quanto o Brasil depende dela para gerar superávits em sua balança comercial, e como isso só deverá aumentar com o avanço do boicote a produtos brasileiros pela Europa.

Outra área que deverá sofrer será a de fornecimento de vacinas, pois o Brasil não depende dos chineses apenas para a “vacina chinesa” produzida pela Sinovac, mas para a produção do chamado  Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da maioria das vacinas que estão sendo usadas no mundo para combater a pandemia da COVID-19. Assim é bem provável que novas demoras no envio tanto de vacinas como do IFA necessários para fabricá-las aqui mesmo.

O que me parece ainda passível de discussão é sobre quais seriam os reais motivos de Jair Bolsonaro para irritar a China com provocações que não possuem a menor sustentação nos fatos.  Uma possibilidade é de que Bolsonaro é apenas uma pessoa sem noção de como o mundo opera. A outra é que ele tem perfeitamente noção de como o mundo opera e utilizou essa provocação para irritar os chineses, sabendo precisamente quais seriam as repercussões disso. De qualquer forma, seja qual for a alternativa correta, o certo é que Bolsonaro continua acendendo fósforo para ver  se os chineses jogam a gasolina onde eles caírem. 

Ciência e coronavírus: a verdade não é relativa

As evidências científicas desempenham um papel importante na pandemia? Bem, Francis Bacon já sabia: você conquista a natureza obedecendo às suas leis

virusA filosofia tem pouco a dizer no laboratório. © Testalize.me/ unsplash.com

Por Ralf Bönt para o Die Zeit

Já faz bem mais de 2.000 anos que Epicuro formulou uma reserva contra a era moderna que ainda hoje é comum em uma carta a um amigo. Era muito melhor, pensou o filósofo, seguir o mito dos deuses do que estar sujeito, como um escravo, à necessidade natural do destino dos filósofos. O mito, em última análise, afastou a esperança de que os deuses se permitiriam ser chamados pela adoração, enquanto o destino mostra apenas uma necessidade inexorável. Ore e tenha esperança: esse era o programa de rejeição do progresso do anti-conhecimento, mesmo naquela época, enquanto os filósofos naturais queriam entender o mundo, tentando decifrar suas instruções de operação, por assim dizer.

Infelizmente, é preciso perguntar hoje por que os cientistas ainda são recebidos com tanto ceticismo e desconfiança. Afinal, séculos de sucessos esmagadores por trás deles. No momento, eles quase não estão fazendo nada com que sonham e estão disponibilizando vacinas contra uma epidemia em muito pouco tempo. Ainda assim, os negadores do vírus estão nas ruas para demonstrar contra uma política projetada para protegê-los da infecção por coronavírus. A política é subserviente aos cientistas, daí a acusação de que os cientistas exageram em sua ciência. Ou eles estão até sujeitos a uma política que persegue objetivos obscuros e usa a autoridade da ciência. Pode-se facilmente dizer que muitos simplesmente não sabiam nada melhor, uma falha na educação deles. Mas também há uma discussão entre as elites sobre a alegada crença na ciência.

Tudo isso é baseado em um mal-entendido de longa data tanto da ciência quanto da sociedade moderna que precisa desesperadamente ser esclarecido. Os exageros dos cientistas certamente ocorrem na vida profissional cotidiana, especialmente quando isso ocorre em grande parte em programas de entrevistas. Por exemplo, há virologistas e médicos que querem impor severas restrições à sua liberdade de movimento, máscaras e proibições profissionais às pessoas vacinadas porque algumas porcentagens restantes permanecem sob risco de infecção. Isso é comumente chamado de déformation professionnelle, popularmente: doença ocupacional. Assim como um jogador de tênis sonha com o mundo como uma bola de feltro amarela em algum momento sem perceber nada, tudo o que vê são vírus. Os exageros e piscadelas dos cientistas são, segundo seus oponentes, apenas a razão do caos econômico e da desmoralização, por todos os danos colaterais causados ​​pelo não diagnóstico de câncer, depressão e suicídios, falências privadas e perda de escolaridade. Agora você pode até ler que eles são responsáveis ​​pelas mortes de pacientes ventilados incorretamente que nunca teriam morrido de coronavírus. Provavelmente não é por acaso que muitas vezes são grandes pensadores de outras disciplinas, de preferência filósofos e historiadores, que relativizam e acabam por desacreditar as conquistas das chamadas ciências exatas. Ironicamente, eles fingem ser algo que dificilmente podem ser: especialistas em proteção contra infecções.

Ao fazer isso, eles reproduzem o antigo e extremamente vivo mal-entendido a que Epicuro já estava sujeito: os cientistas naturais não são os novos deuses em que estão sendo transformados. Você não se submete a ninguém. Ao contrário, eles estão simplesmente tentando realmente ler o mundo, as escrituras de Deus, Johannes Kepler diria, e também não soa muito diferente com Einstein. No entanto, eles próprios são apenas bons sujeitos da única inevitabilidade, a natureza. Nesse caso, é sobre a natureza do vírus, especialmente quando e como ele encontra o hospedeiro mais próximo e como eliminá-lo. A suposição de Epicuro – ler e entender escravizado – é absurda. Em última análise, compreender o mundo amplia o campo de ação e, portanto, também a soberania individual. Você também pode chamar isso de liberdade. Insistir que todo conhecimento é relativo é inútil: uma lei da natureza é algo diferente do decreto arbitrário de um deus ou de seu patriarca secular substituto, que só é válido até ser revogado. Uma lei da natureza é confiável. Não foi feito por um homem ou por um deus como o homem. É por isso que a visão freqüentemente ouvida de que não existe apenas uma ciência, de que se deve ouvir todas as opiniões, é pelo menos extremamente imprecisa, mas completamente errada.

Visto que não existem duas verdades lado a lado na mesma coisa, há sempre apenas uma ciência como uma doutrina da verdade no final. Isso não significa que as descobertas científicas não criem problemas de conexão em outras disciplinas. Uma falácia clássica, entretanto, é relativizar as descobertas com referência aos problemas de conexão e assumir uma crença na ciência onde apenas alguém diz: algo é assim – e essas são as consequências prováveis. A natureza da transmissão do vírus é até agora apenas parcialmente conhecida e deve ser pesquisada novamente a cada mutação, mas a filosofia, por exemplo, tem muito pouco a contribuir. Ao contrário do que afirma a cultura popular, nem tudo é relativo. Em qualquer caso, a teoria da relatividade, para dar um exemplo, não é. Em vez disso, sabe-se exatamente onde se aplica, como usá-los e quão grande são suas correções à mecânica clássica. Portanto, você também sabe quando negligenciá-lo. E basicamente sempre é assim.

A alegada relatividade de todos os argumentos é necessária como uma porta para infiltrar intenções injustas e uma agenda política secreta em um debate puramente objetivo sobre a proteção contra infecções. Gostaríamos de forçar o que é conhecido na lógica como a falácia do meio-termo. Em termos da dinâmica da conversa, isso equivale a uma guerra de cansaço.

Claro, agora há muito o que discutir entre os cientistas naturais. O aberto é, no entanto, de uma categoria completamente diferente: Aberto é o nível de conhecimento que se tem, primeiro de uma lei natural e, em segundo lugar, da situação especial em que ela é aplicada. Trata-se das leis pelas quais o novo coronavírus se espalha. Os aerossóis são perigosos ou maçanetas? A que temperaturas, com que umidade e com que luz é necessário ter um cuidado especial? E quais serão esses tamanhos se uma medida previamente decidida para proteger contra o vírus entrar em vigor? Por que uma ilha foi gravemente atingida, Inglaterra, e outra, Taiwan, nãoA maioria dos argumentos usados ​​no debate são simples, mas errados. Você precisa de dados para avaliar e avaliações que deve aplicar novamente. Só então vem a discussão crucial sobre os objetivos da política: você quer salvar o maior número possível de pessoas da morte por vírus ou apenas outras morrem? Se você não sabe do que está falando e sempre muda de assunto quando algo não lhe convém, você não pode decidir nada.

Infelizmente, as críticas à expertise das disciplinas responsáveis ​​por  explicar uma pandemia viral não ajudaram a esclarecer isso. É preciso concordar que, inicialmente, apenas virologistas foram ouvidos. Foi só lentamente que surgiram epidemiologistas que não sabem exatamente o que os vírus fazem na garganta, circulação e linfa, mas podem dizer melhor como se movem nas sociedades. São principalmente os físicos que podem calcular grandes sistemas com muitas variáveis. Como de costume, eles rapidamente desencadeiam alergias em qualquer pessoa acostumada a encobrir sua aversão à matemática com certo orgulho. Onde deveria haver confiança, o complexo de inferioridade triunfa. Mesmo antes do surgimento de sociólogos, psicólogos e economistas, o poço foi envenenado e as discussões no nível meta foram transformadas em conversas vãs.

Enquanto isso, nenhum virologista ou epidemiologista jamais emitiu um toque de recolher. Como se sabe, é isso que a política faz. E se optarem pela ciência, é um processo político, mas não uma expertocracia. Respeitável – também pode ser completamente diferente: para provar que a popularidade de um regente não é uma garantia contra julgamentos errados, mas, pelo contrário, pode retroalimentar diretamente com a negação científica dos pseudo-especialistas, devemos lembrá-lo de Rainha Vitória. Ela achava que devia haver algo na parte de trás da mesa dos mesmeristas, se tantos acreditavam nisso. Quando Michael Faraday veio e destruiu a fé dos mesmeristas, eles alegremente acenaram com a mão, referindo-se à rainha. A liberdade é mais trabalho do que ilusão, e obscurantismo e idiotice andavam de mãos dadas já no final do século XIX.

Toda criança sabe que conhecimento é poder desde que Wilhelm Liebknecht fez seu discurso em fevereiro de 1872 para as associações de trabalhadores em Dresden e Leipzig. Mas esse poder também deve ser capaz de se desenvolver contra a ignorância e as mentiras. Os especialistas têm que se defender contra o uso indevido de seus conhecimentos, mas também contra a ignorância. Afinal, os virologistas dizem há anos que uma pandemia certamente virá. A única questão era quando. Se basta publicar em periódico especializado ou se a ciência também é uma força social, se o conhecimento obriga, é uma das questões mais importantes. A resposta só pode ser sim em um mundo livre e burguês. E o trabalho da política seria ouvi-los e tomar precauções razoáveis, mesmo que tudo do lado de fora esteja gritando que temos problemas completamente diferentes no momento, e que o zero preto está tremendo como resultado. Um pouco mais de expertocracia teria nos salvado dessa catástrofe.

Adiar esse insight seria fatal. Porque agora, enquanto as igrejas estão se esvaziando rapidamente, o desenvolvimento científico está se acelerando enormemente novamente. Em experimentos com múons, os irmãos mais pesados ​​dos elétrons, os cientistas descobriram contradições espetaculares à teoria que o mundo vinha descrevendo com mais detalhes há décadas: o modelo padrão que sabe tudo sobre forças e matériaVocê se depara com a observação de novas áreas da natureza nas quais se aplicam leis até então desconhecidas. A semelhança de nossos dias com a época da gripe negra, exatamente um século atrás, já é impressionante. Naquela época, havia mais vítimas da gripe do que mortes na guerra, a teoria da relatividade foi confirmada e derrubou todas as ideias sobre o mundo. Seguiu-se uma renovação quase desenfreada na ciência, arte e política.

Portanto, pode muito bem ser que agora, quando todos querem a velha normalidade de volta, uma grande revolução esteja ocorrendo. Certamente não se limitará à digitalização e diversificação. Em vez disso, as hierarquias como as conhecemos da história cultural há muito se tornaram insustentáveis. Não só a engenharia genética na campanha de vacinação, que salva inúmeras vidas, fez com que todos os argumentos dos céticos parecessem velhos. Os desafios humanos colocados pelas novas técnicas de inteligência artificial e transumanismo, reprodução e memória digital também colocam questões que não podem ser respondidas com uma crença pré-moderna na negociabilidade de tudo e de todos. Há tão pouca formação política nessas questões quanto nas questões da pandemia.

A prática epicurista de fazer tudo para não chegar à modernidade finalmente falhou. Francis Bacon , o grande empiricista, formulou sua primeira lei antes que Liebknecht a confiasse. Para os amigos do conceito de liberdade banalizado e correntemente comum, que nem mesmo quer reconhecer a factualidade do mundo, soa estimulantemente provocativo: “Você conquista a natureza obedecendo às suas leis. Conhecimento é poder.” O fato de o poder ser sempre lutado não é novidade, mas na situação atual isso só é bom para o próprio ditador: o vírus.

 
 
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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Die Zeit [Aqui!].

No Rio todo mundo tem seu próprio pedaço de praia

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A praia do Rio de Janeiro é ao mesmo tempo passarela, quadra de esportes, ponto de encontro e reflexo da sociedade e de seus dilemas sociais. Que o imenso espaço público seja considerado o lugar mais democrático do país é mais mito do que realidade.

Por Nicole Anliker, Rio de Janeiro, para o Neues Zürcher Zeitung

Eles não deixam ninguém levar a praia embora. Os cariocas, habitantes do Rio de Janeiro, provaram isso durante a pandemia da COVID-19. A mais recente proibição de banhos de sol ainda está sendo respeitada por causa do patrulhamento dos policiais, mas dificilmente vai demorar muito. Basta um olhar sobre o ano passado: naquela época, a Prefeitura do Rio de Janeiro também fechava as praias por semanas no combate ao vírus. Assim que as primeiras medidas de flexibilização foram anunciadas, no entanto, quase ninguém aderiu à proibição. Mesmo os policiais logo desistiram de pagar aos cariocas pelo que eles amam fazer de melhor: bronzear e endurecer seus corpos sob o sol escaldante. Aos poucos, eles recuperaram sua praia.

Cada um em seu próprio território

“As praias estão cheias como em qualquer outro verão”, diz Paulo Vitor Breves Izaias em fevereiro. Seu olhar vagueia pela densa agitação da areia e acrescenta: Só faltarão os turistas estrangeiros este ano. O salva-vidas de 36 anos deve saber. As praias de Copacabana e Ipanema são seu local de trabalho há doze anos . É assim que o brasileiro se parece: bem treinado para nadar e surfar, bronzeado de um marrom dourado de sol. Também se encaixa o clichê de que nada parece incomodá-lo. Breves parece calmo, fala devagar e deliberadamente. Como se o Coronavírus não existisse: os brasileiros não vão deixar sua praia ser tirada deles.

nzz 1As praias de Copacabana e Ipanema são seu local de trabalho: o salva-vidas Paulo Vitor Breves Izaias do Rio de Janeiro não poderia viver sem o mar. Kristin Bethge para NZZ

nzz 2Como se o Coronavírus não existisse: os brasileiros não vão deixar sua praia ser tirada deles. Ricardo Moraes / Reuters

“Um carioca sem praia”, pondera enquanto bebe água de coco, “não seria carioca. Ele ficaria mais nervoso, mais estressado – talvez como um “Paulista”? ” Ele ri de seu golpe aos moradores da metrópole sem praia de São Paulo. O que ele quis dizer com isso: A praia é o centro da vida de muitos cariocas. Eles acham difícil passar sem ele – mesmo em tempos de pandemia.

Não importa se velho ou jovem, pobre ou rico, preto ou branco. Como um grande espaço público, a praia do Rio é de todos. Os cariocas, portanto, afirmam com frequência e com orgulho que é o lugar mais democrático do Brasil: Na praia, o rico advogado do bairro chique de Ipanema se refresca na mesma água que o caixa que o atende no supermercado por um salário mínimo e mora no Favela do Cantagalo. Os dois estão seminus, fritando ao sol e bebendo cerveja em lata. Mas se você olhar mais de perto, vai perceber rapidamente que a realidade da cidade se reproduz na areia. Não há união, mas coexistência. Assim como a cidade, a praia também é segmentada.

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Praias da Zona Sul do Rio de Janeiro 3 quilômetros Base do mapa: © Openstreetmap, © Maptiler NZZ / ann.

São os numerosos postos de salva-vidas que dividem em setores as praias de Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, com oito quilômetros de extensão. Cada posto é usado para orientação e abriga seu próprio público, uma espécie de microcosmo social em um pedaço de areia. A frase frequentemente usada “não é a minha praia” significa “isso não é meu lugar” e reflete como o carioca se identifica com um determinado pedaço de praia – ou não.

Homossexuais, por exemplo, se encontram entre os Postos Oito e Nove, em frente à Farme de Amoedo, em Ipanema. Seu “território” é marcado por bandeiras de arco-íris penduradas em duas barracas de praia. A densidade de corpos masculinos imaculadamente treinados chama a atenção. Não muito longe dali, no Posto Nove, as alternativas de esquerda e os jovens “descolados” se encontram. Antes da pandemia do coronavirus, as festas eram regularmente celebradas ali, e a esquina é particularmente popular. Entre os Postos Dez e  Onze, em frente ao clube de campo de elite, os realmente ricos estão se bronzeando. No Posto 12, onde há playground, você encontra pais com filhos de classe média.

O Posto Sete, na Pedra do Arpoador, atrai surfistas por suas ondas. Na areia, é o ponto de encontro dos moradores das favelas e da classe trabalhadora da periferia. Esse trecho de praia surgiu na década de 1980, quando a Zona Norte pobre foi conectada diretamente à Zona Sul rica por linhas de ônibus. Os moradores de Ipanema se sentiram mal naquele momento que a classe baixa de repente tomou banho de sol ao lado deles e se alimentou com comida e bebida de seu próprio refrigerador de isopor. Mas o subúrbio veio para ficar – pelo menos durante o dia, a Praia do Arpoador é deles desde então.

Como na cidade, a praia não é toda tranquila. Repetidas vezes acontecem os “arrastões”, batidas em que grupos de jovens das favelas se enfileiram nas praias da zona sul, roubam tudo que podem e causam pânico. Segundo a antropóloga brasileira Fernanda Pacheco Huguenin, os roubos em massa representam simbolicamente o conflito territorial entre ricos e pobres do Rio. Paulo Breves viu muitos de seu posto de salva-vidas. “Eles são um bem cultural do Rio”, afirma ironicamente. Eles faziam parte da vida praiana do Rio.

Regras próprias

“Um ou dois salva-vidas sozinho monitoram até cinco mil banhistas aqui na alta temporada”, diz Breves. “Cinco mil pessoas”, ele repete enfaticamente, “em uma praia que não conhece leis.” Beber álcool, fumar maconha, ouvir música alto, passear com os cães – tudo vai aqui. Além disso: “O brasileiro não gosta de respeitar as regras”. Como exemplo, ele descreve como ele e seus colegas pescavam um após o outro fora da água quando as ondas eram perigosas e haviam desconsiderado a bandeira vermelha.

No entanto, todos aderem ao código de conduta não oficial que existe aqui: calcinhas biquínis podem e devem ser minúsculas, mas o ” topless é o tabu mais estrito. Mudar de roupa na praia – mesmo atrás da toalha – também é um impedimento absoluto. Também existe uma espécie de mecanismo de resgate para crianças perdidas: se um menor não consegue mais encontrar seus pais no tumulto, um completo estranho os agarra pelos ombros e os carrega entre os banhistas que aplaudem. Isso chama atenção para a criança.

A vida praiana do Rio também tem outras peculiaridades: as pessoas fleumáticas que não gostam de ir para a água se refrescam no chuveiro –  um serviço oferecido pelos vendedores de barracas. Os cariocas também não olham para o mar na praia, mas orientam suas cadeiras dobráveis ​​para o sol – seus corpos oleados devem receber o máximo de vitamina D possível. As cadeiras podem ser alugadas ou trazidas. As ruas dos bairros de Copacabana e Ipanema estão, portanto, cheias de gente seminua com cadeiras debaixo do braço. Aproveite a diversão na praia um para o outro. Quem está por lá quer uma boa praia, uma boa estadia na praia.

nzz 3Com cadeirinha embaixo do braço na direção da Praia de Ipanema. Luiz Gomes / Imago

nzz 4Os policiais controlam os banhistas que ousam ir para o mar, apesar de estarem temporariamente bloqueados. Andre Coelho / EP

Bar e quadra de esportes

Os cariocas também não vêm ao mar para encontrar paz. Aqui você se encontra como em um pub: há fofoca, bebida, comida e discussões selvagens. Se alguém lê um livro, com certeza é um turista – com uma capacidade de concentração extremamente boa, notem bem. Centenas de vendedores ambulantes gritam constantemente como latifundiários para oferecer suas mercadorias: caipirinha, mate chá, cigarros, sorvete, queijo grelhado ou camarão, protetor solar, biquíni e toalha de praia. Além disso, o som das ondas, o baixo de alto-falantes grandes, mixagens de alto-falantes. “O som da praia” – o som da praia – é o que Paulo Breves chama de incomparável ruído de fundo.

Em certos cantos também soa como no campo de esportes. Porque essa é a praia também. Às cinco da manhã, os primeiros madrugadores correm ao longo do calçadão ou desenvolvem seus músculos com os incontáveis ​​equipamentos de ginástica ao ar livre. Eles são seguidos por atletas que remam na areia com pneus de carro, puxam cordas ou fazem flexões. São realizados cursos de ioga, boxe, natação, futebol e surfe. Os esportes com bola são, entretanto, muito populares o dia todo: à beira-mar, grupos de  banhistas fazem malabarismos com futebol. As partidas são disputadas nos inúmeros campos de vôlei de praia, tênis de futebol e tênis de praia. Pranchas de rodas, ciclistas e patinadores aceleram ao longo da ciclovia pavimentada até tarde da noite.

A infraestrutura da praia é totalmente voltada para a loucura esportiva dos cariocas, que trabalham a perfeição do corpo com camisas musculosas e leggings neon. Eles devem ser nítidos e bem treinados. Isso pode ser devido ao fato de que o corpo está em exibição no clima quente durante todo o ano. No entanto, nem tudo se deve ao treinamento duro. Freqüentemente, os cirurgiões plásticos também ajudaram. O Brasil é campeão mundial nesse quesito: segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, não há outro país no mundo que faça tantas cirurgias estéticas.

Homenagear o sol

A praia do Rio é uma passarela, campo de esportes, ponto de encontro social, mas também um reflexo da sociedade e seus dilemas sociais. Pedro Breves não é o único a dizer o quanto isso é vital para ele. “A energia da água salgada, das ondas e da brisa atuam simultaneamente no corpo quando você nada no mar”, afirma. Trabalha contra a tristeza, você se sente melhor depois.

Só a chuva pode estragar o prazer. Nenhum carioca sequer põe os pés na frente da porta quando isso se manifesta. É por isso que eles adoram o sol como uma deusa. Todas as noites dezenas de banhistas se aglomeram no Rochedo do Arpoador e a aplaudem quando ela se afunda no mar. Quase ninguém demonstra maior apreço por ela do que os cariocas.

nzz 5Banhistas treinam boxe na Praia do Arpoador.  Pilar Olivares / Reuters

nzz 6Caipirinhas fresquinhas são vendidas na Praia do Rio. Como num mercado, vende-se tudo o que o coração que toma banho deseja.  Chico Ferreira / Imago

fecho

Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Zürcher Zeitung [Aqui!].