Veneno de cobra contra a COVID-19: toxinas presentes no veneno da Jararacuçu mostram alta eficiência para conter o coronavírus

Proteína da mistura de toxinas de uma jararaca-lança funciona em laboratório

jararacussuO veneno do Bothrops Jararacussu poderá em breve ser usado na luta contra o vírus corona. Foto: wikimedia.com

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Bothrops Jararacussu é uma das maiores cobras venenosas da América do Sul. Sua principal área de distribuição é a Mata Atlântica , que se estende do sul ao nordeste do Brasil. Embora já tenha sido reduzido para cerca de 90%, o veneno da cobra que vive lá pode salvar vidas humanas. Pesquisadores brasileiros descobriram uma molécula nas toxinas dessa espécie de jararaca que retarda a reprodução do novo coronavírus Sars-CoV-2 e pode, portanto, ser a base de um fármaco promissor.

Uma equipe de pesquisadores de universidades do estado de São Paulo isolou uma miotoxina chamada Bothropstoxin-I do veneno de Jararacussu e examinou mais detalhadamente um de seus componentes, o chamado peptídeo. Em testes com células de macaco, o peptídeo identificado, que não é tóxico para humanos, inibiu a capacidade do vírus mortal de se multiplicar em 75%, de acordo com o estudo publicado recentemente na revista Molecules .

O grupo de pesquisa já havia identificado toxinas antibacterianas no veneno de Jararacussu em um estudo anterior, explica o líder do estudo Eduardo Maffud, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Devido ao avanço da pandemia de COVID-19, queríamos ver se os peptídeos do veneno de cobra também funcionam contra Sars-CoV-2.” Uma possível droga com base nisso poderia dar ao corpo mais tempo para admitir anticorpos ao inibir a proteína 19 forma de patógeno para resistir à doença. Dependendo da dosagem, a molécula também pode proteger as células do vírus e, assim, até mesmo impedir que o patógeno entre no corpo.

Mas mais estudos são necessários para isso. Uma das próximas etapas serão os testes in vitru, ou seja, experimentos com animais – em camundongos, por exemplo. Maffud afirmou que: “Se o resultado for positivo, vamos desenvolver um tratamento.”

Além de cientistas da UNESP, também participaram do estudo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Bothrops Jararacussu é uma cobra majestosa e poderosa. Possui mais de dois metros de comprimento, sendo a segunda maior cobra venenosa do Brasil. Seu nome brasileiro Jararacuçu vem da língua indígena Tupi. Seu coquetel de veneno mortal enriquecido com miotoxinas, que ela injeta no corpo de suas vítimas com dentes venenosos particularmente longos, reduz a coagulação do sangue e danifica o sistema cardiovascular. Além disso, pode causar hemorragia cerebral, sangramento no trato digestivo, insuficiência renal e danos aos tecidos – até necrose e cegueira. Embora seu habitat, a Mata Atlântica, tenha sido amplamente destruído há décadas, ela não está na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção no Brasil.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza registram diminuição na carga do coronavírus em seus esgotos nas últimas semanas, mas Rio segue com valores altos

Em comparação ao último boletim da Rede Monitoramento COVID Esgotos, as três capitais tiveram redução da carga viral. Já o Rio de Janeiro permaneceu com cargas consideráveis do novo coronavírus em todos os pontos de monitoramento

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Boletim de Acompanhamento nº 04/2021 da Rede Monitoramento COVID Esgotos, com dados até 24 de julho, semana epidemiológica 29, identificou uma tendência de redução da carga viral do novo coronavírus em três capitais: Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza em relação ao último boletim publicado em 7 de julho. No sentido oposto, o Rio de Janeiro teve a maior carga viral já medida no período abrangido pelo último Boletim, ocorrida na semana de 27 de junho a 3 de julho. Veja as informações por cidade a seguir, sendo que todos os dados constam do Boletim nº 4/2021.

Belo Horizonte (MG)

Em Belo Horizonte, houve uma redução da carga viral nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho) respectivamente de 37,4 bilhões de cópias por dia do vírus para cada 10 mil habitantes; 36,7 bilhões; 36,4 bilhões; e 13 bilhões. A carga verificada na semana 29 foi a menor registrada em 2021.

Em Belo Horizonte, nas semanas 26 e 27 o ponto de monitoramento do Interceptor Córrego Cardoso registrou uma concentração de novo coronavírus elevada – acima de 25 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras –, indicada em vermelho nos mapas disponíveis no Boletim nº 4/2021. Na semana 27 outro ponto com alta concentração do vírus foi o Interceptor Córrego Gorduras.

Já nas semanas epidemiológicas 28 e 29 houve o surgimento de pontos com baixa concentração, entre 1 e 4 mil cópias por litro, indicados em amarelo. É o caso do Interceptor Córrego Terra Vermelha, que esteve nesse patamar em ambas as semanas. Somente na semana epidemiológica 29 os pontos de monitoramento da Estação de Tratamento de Esgotos Onça (ETE Onça) e do Interceptor Córrego Vilarinho tiveram concentração viral num patamar baixo. Nos demais pontos de monitoramento, a concentração ficou na faixa intermediária entre 4 mil e 25 mil cópias por litro, representada pela cor laranja nos mapas do Boletim.

Já nos pontos especiais de monitoramento na capital mineira, todos eles apresentaram níveis não detectáveis ou baixa concentração viral em algum momento entre as semanas epidemiológicas 26 e 29. Esses pontos incluem o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, lar de idosos, Rodoviária de Belo Horizonte, Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), shopping localizado em área de alta renda (SHC-01) e shopping localizado em área de baixa renda (SHC-02). Veja no Boletim nº 4/2021.

Brasília (DF)

Com um histórico de medições iniciado no fim de março deste ano, Brasília apresentou respectivamente uma carga de 434, 224, 229 e 181 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho). Essa carga viral é determinada em oito estações de tratamento de esgotos (ETEs), que atendem a cerca de 80% da população do Distrito Federal.

As cargas medidas nas semanas epidemiológicas 27, 28 e 29 são as menores do histórico, que tinha o menor valor registrado para a semana 19 (11 de maio), em 236 bilhões de cópias por dia a cada 10 mil habitantes. Portanto, há uma tendência de redução da carga do novo coronavírus nos esgotos do DF, que ainda segue elevada.

Entre as semanas epidemiológicas 26 e 29, somente a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Brasília Norte permaneceu no patamar intermediário de concentração viral, entre 4 e 25 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras, indicado em laranja nos mapas a seguir. Nesse período todas as ETEs monitoradas ficaram no patamar médio de concentração viral e/ou no patamar elevado, acima de 25 mil cópias, indicado em vermelho nos mapas do Boletim nº 4/2021.

Vale destacar a elevação da concentração viral, e da carga, nas áreas atendidas pelas ETEs Melchior e Samambaia na semana epidemiológica 29 em comparação à 28. Juntas essas duas estações de tratamento atendem a uma população estimada de aproximadamente 1,3 milhão de habitantes.

Fortaleza (CE)

Fortaleza possui um histórico de dados desde 8 de junho, na semana epidemiológica 23, quando foi medida a maior carga viral nos esgotos da capital cearense: 34 bilhões de cópias por dia do novo coronavírus para cada 10 mil habitantes. Nas semanas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho) houve uma tendência de redução da carga viral. Nessas semanas, os valores identificados foram respectivamente de 15,2 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil habitantes; 12,1 bilhões; 10,1 bilhões; e 2 bilhões.

Nas semanas epidemiológicas 26 a 29, Fortaleza teve pontos onde o vírus não foi detectado (áreas em verde); foi detectado em concentração baixa (em amarelo), entre 1 e 4 mil cópias a cada 10 mil habitantes; e em concentração intermediária (em laranja), acima de 4 mil e até 25 mil cópias. Nas últimas semanas epidemiológicas, as maiores concentrações do novo coronavírus foram detectadas nas regiões da capital cearense que contribuem com esgoto para as estações elevatórias Reversora do Cocó e Praia do Futuro. Porém, nas duas regiões foi observada uma tendência de redução nas concentrações virais nas últimas semanas.

Rio de Janeiro (RJ)

As concentrações e cargas virais do novo coronavírus no esgoto do Rio de Janeiro permaneceram muito elevadas nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho): respectivamente 1,82 trilhão de cópias por dia a cada 10 mil habitantes; 700 bilhões; 748 bilhões; e 926 bilhões de cópias do novo coronavírus. A carga medida na semana 26 foi a maior do histórico iniciado em novembro de 2020, superando os 1,68 trilhão de cópias medidos em 24 de maio na semana epidemiológica 21.

Além disso, as concentrações permanecem bastante elevadas – acima de 25 mil cópias do vírus por litro – em todos os nove pontos monitorados, sendo quatro ETEs na capital fluminense (Alegria, Barra, Penha e Vargem Grande) e uma em São João de Meriti (ETE Sarapuí). Ainda na capital, nas estações elevatórias Leblon e André Azevedo, assim como nas ETEs Pavuna e ETIG, as concentrações estão em níveis bastante elevados, indicados em vermelho nos mapas disponíveis no Boletim nº 4/2021.

Na semana epidemiológica 26, foram observadas as maiores concentrações já registradas em todo o período de monitoramento para as estações elevatórias André Azevedo, ETE Ilha do Governador e ETE Sarapuí. Por outro lado, nas últimas três semanas de monitoramento, houve uma redução significativa das concentrações virais na região atendida pela Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Alegria, que recebe contribuição de aproximadamente 1,2 milhão de habitantes.

Recife (PE)

A amostragem de esgoto em Recife já foi iniciada, mas os resultados das análises ainda não estão disponíveis.

Curitiba (PR)

Os dados de Curitiba das últimas semanas epidemiológicas ainda não estão disponíveis em virtude de questões com os reagentes laboratoriais utilizados no monitoramento do novo coronavírus nos esgotos da capital paranaense.

Sobre a Rede Monitoramento COVID Esgotos

A Rede Monitoramento COVID Esgotos, lançada em webinar realizado em 16 de abril, acompanhará as cargas virais e concentrações do novo coronavírus no esgoto de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Esse trabalho, uma das maiores iniciativas brasileiras de monitoramento da COVID-19 no esgoto, busca fornecer subsídios para auxiliar a tomada de decisões para o enfrentamento da pandemia atual.

O último Boletim de Acompanhamento se soma aos boletins já publicados da Rede Monitoramento COVID Esgotos e aos 34 Boletins de Acompanhamento produzidos no contexto do projeto-piloto Monitoramento COVID Esgotos, realizado com base em amostras de esgotos em Belo Horizonte e Contagem (MG). As lições aprendidas com o projeto-piloto são a base para os trabalhos da Rede.

A Rede Monitoramento COVID Esgotos tem o objetivo de acompanhar a presença do novo coronavírus nas amostras de esgoto coletadas em diferentes pontos do sistema de esgotamento sanitário de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. A rede busca ampliar as informações para o enfrentamento da pandemia de COVID-19. Nesse sentido, os resultados gerados sobre a ocorrência do novo coronavírus no esgoto das cidades em questão podem auxiliar na tomada de decisões por parte das autoridades locais de saúde.

Com os estudos, o grupo pretende identificar tendências e alterações na ocorrência do vírus no esgoto das diferentes regiões monitoradas, o que pode ajudar a entender a dinâmica de circulação do vírus. Outra linha de atuação é o mapeamento do esgoto para identificar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos como uma ferramenta de alerta precoce para novos surtos, por exemplo.

A vigilância do novo coronavírus no esgoto também pode auxiliar nas tomadas de decisão relacionadas à manutenção ou flexibilização das medidas de controle para a disseminação da COVID-19. Também pode fornecer alertas precoces dos riscos de aumento de incidência do vírus de forma regionalizada.

A Rede é coordenada pela ANA e INCT ETEs Sustentáveis com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com os seguintes parceiros: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, a Rede conta com a parceria de companhias de saneamento locais e secretarias estaduais de Saúde.

Sobre os parceiros do projeto

ANA

Criada pela Lei nº 9.984/2000, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é a agência reguladora dedicada a implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos, a Lei das Águas, e coordenar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). Com a aprovação do novo marco legal do saneamento básico pela Lei nº 14.026/2020, também cabe ao órgão editar normas de referência para a regulação dos serviços públicos de saneamento básico.

Esse trabalho é feito por meio de ações de regulação, monitoramento, gestão e planejamento de recursos hídricos. Além disso, a ANA emite e fiscaliza o cumprimento de normas, em especial as outorgas em corpos d’água de domínio da União – interestaduais, transfronteiriços e reservatórios federais. Também é a responsável pela fiscalização da segurança de barragens de usos múltiplos das águas outorgadas pela instituição.

INCT ETEs Sustentáveis

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (INCT ETEs Sustentáveis) estuda questões sobre o esgoto sanitário, notadamente para países em desenvolvimento, de forma a contribuir para a promoção de mudanças estruturais e estruturantes nos serviços de esgotamento sanitário, a partir da capacitação profissional, desenvolvimento de soluções tecnológicas apropriadas às diversas realidades nacionais, construção e transmissão de conhecimento para a sociedade, órgãos governamentais e empresariais.

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Agronegócio como vetor de surto de COVID-19 em Campos dos Goytacazes

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As evidências de que o chamado “agronegócio” (cujo nome verdadeiro é latifúndio agro-exportador) é um dos principais responsáveis pela ampla circulação do Sars-Cov-2 no Brasil são inúmeras e já estão sendo documentadas pelos pesquisadores brasileiras sob a forma de artigos científicos (Aqui! e Aqui!). Mas agora uma reportagem do Portal Viu mostra que mesmo aqui na planície dos Goytacazes, temos o agronegócio sucro-alcooleiro jogando o papel de reunir trabalhadores em condições propícias para a contaminação e ampla circulação do vetor da COVID-19.

Como bem mostra a reportagem publicada pela Agência Fonte Exclusiva sobre o assunto, um total de 40  trabalhadores envolvidos no corte da cana foram identificados como portadores do coronavírus dentro de uma pousada que abrigava duas dezenas de cortadores de cana, o que demonstra que há um surto em curso, enquanto os trabalhadores são deixadas à mercê da própria sorte após dias exaustivos no corte da cana.

O mais curioso é que segundo novas matérias sobre o assunto apontando que até agora o Ministério Público do Trabalho (MPT) aparentemente ainda não se moveu para apurar as responsabilidades por essa contaminação em massa dos trabalhadores da cana em Campos dos Goytacazes.  Tal fato me parece incompreensível, mas apenas confirma que quando se trata de enfrentar as mazelas causadas pelo modelo agro-exportador, a velocidade dos entes estatais é muito lento, mas muito lento mesmo.

Escolas inglesas reabrem e número de casos de coronavírus entre crianças explode

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Estudantes britânicos: o número de crianças de cinco a nove anos infectadas aumentou 70 por cento em comparação com a semana anterior. Liam Mcburney / PA Wire / picture alliance / dpa

De acordo com uma reportagem do Sunday Times, o coronavírus está se espalhando rapidamente entre crianças inglesas. Na semana de 20 de junho, o número de crianças infectadas de cinco a nove anos aumentou 70% em relação à semana anterior, com 10 a 14 anos foi um aumento de 56%, relatou o jornal, citando números da autoridade de saúde Saúde pública. Um total de 16.100 alunos faltaram à aulas devido à infecção por coronavírus, em comparação com 10.600 na semana anterior. Como dezenas de milhares de crianças também foram enviadas para o isolamento por causa do possível contato com pessoas infectadas, um total de 216.000 alunos deixou de ir às aulas.

A razão para a rápida disseminação do coronavírus entre estudantes ingleses é a variante Delta, altamente contagiosa, informou o Sunday Times. O co-secretário-geral do sindicato dos professores do Sindicato Nacional da Educação, Kevin Courtney, alertou para a multiplicação dos casos. Steve Chalke, da instituição de caridade Oasis Trust, disse que as escolas são “centros de incubação para a nova variante Delta”. “A tendência nas escolas vem apontando no sentido do aumento de contaminações há três semanas. Obviamente, ainda não alcançamos o topo dessa terceira onda ”, disse Chalke.

Os pais estão criticando cada vez mais a estratégia do governo de enviar toda a classe para o auto-isolamento por dez dias se os autotestes por coronavírus forem positivos. Portanto, dezenas de milhares de crianças saudáveis ​​faltariam às aulas. Os defensores da prática, no entanto, apontam que apenas 15% dos pais testam seus filhos regularmente. Os sindicatos estão pedindo que a máscara seja mantida e que haja melhor ventilação nas aulas. Os diretores das escolas esperam que em breve seja tomada uma decisão a favor da vacinação das crianças.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pela revista Der Spiegel [Aqui!].

Por que líderes autoritários estão perdendo a luta contra a COVID-19

Uma grande lição da crise de Covid: mentir torna tudo pior

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Por Robert Reich para a Nation of Change

Um hospital em Uttar Pradesh, o estado mais populoso da Índia, está sendo acusado de acordo com a Lei de Segurança Nacional do país por soar o alarme sobre a falta de oxigênio que resultou na morte por COVID-19. O proprietário e gerente do hospital disse que  a polícia o acusou de “falsa disseminação do medo”,  depois que ele declarou publicamente que quatro de seus pacientes morreram em um único dia quando o oxigênio acabou.

Desde que a COVID-19 explodiu na Índia, o primeiro-ministro, Narendra Modi, parece mais decidido a controlar as notícias do que o surto. Na quarta-feira, a Índia registrou quase 363.000 casos de COVID-19 e 4.120 mortes, cerca de 30%o das mortes em todo o mundo naquele dia. Mas os especialistas dizem que a Índia está subestimando o número verdadeiro. Ashish Jha, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, estima que pelo menos  25.000 índiANOS morrem de COVID-19 a cada dia.

O horror foi agravado pela falta de oxigênio e leitos hospitalares. No entanto, Modi e seu governo não querem que o público saiba a história verdadeira.

Uma grande lição da crise de COVID-19: mentir torna tudo pior.

Vladimir Putin nega ativamente a verdade sobre a COVID-19 na Rússia. O demógrafo Alexei Raksha, que trabalhava na agência estatística oficial da Rússia, Rosstat, mas diz que foi forçado a sair no verão passado por contar a verdade sobre aCOVID-19, afirma que  os dados diários na Rússia foram “suavizados, arredondados, reduzidos” para parecerem melhores.  Como muitos especialistas, ele usa o excesso de mortalidade – o número de mortes durante a pandemia sobre o número típico de mortes – como o melhor indicador.

“Se a Rússia parar com 500.000 mortes a mais, esse será um bom cenário”, calcula ele  .

A Rússia foi a primeira a lançar a vacina contra a COVID-19, mas ficou terrivelmente para trás nas vacinações. Pesquisas recentes indicam que a proporção de russos que não querem ser vacinados é de  60% a 70% . Isso porque Putin e outros funcionários se concentraram menos em vacinar o público do que em reivindicar o sucesso em conter a COVID-19.

Os EUA estão sofrendo de um problema semelhante – o legado de outro homem forte, Donald Trump. Embora mais da metade dos adultos norte-americanos tenham recebido pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, mais de 40% dos republicanos   disseram sistematicamente aos pesquisadores que não seriam vacinados. Sua recalcitrância está  ameaçando os esforços para alcançar a “imunidade de rebanho”  e prevenir a disseminação do vírus.

Como Modi e Putin, Trump minimizou a gravidade da pandemia e espalhou desinformação sobre ela. Funcionários de Trump ordenaram que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças  minimizassem sua gravidade . Ele se recusou a ser vacinado publicamente e estava visivelmente ausente de um  anúncio de serviço público  sobre a vacinação que apresentava todos os outros ex-presidentes vivos.

Os aliados de Trump na mídia realizaram uma campanha de terror sobre as vacinas. Em dezembro,  Laura Ingraham postou uma história do Daily Mail no Facebook com o   objetivo de mostrar evidências de que os partidários do partido comunista chinês trabalhavam em empresas farmacêuticas que desenvolveram a vacina contra o coronavírus.

Em meados de abril, o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, opinou que, se a vacina fosse realmente eficaz, não haveria razão para as pessoas que a receberam usarem máscaras ou evitarem o contato físico.

“Então  talvez não funcione, e eles simplesmente não estão lhe dizendo isso. ”

Por que então alguém deveria se surpreender com a relutância dos republicanos de Trump em se vacinar? Uma análise recente do  New York Times  mostrou que as taxas de vacinação são mais baixas em condados onde a maioria votou em Trump em 2020. Os estados que votaram mais fortemente em Trump também são  estados onde percentagens mais baixas  da população foram vacinadas.

O pesquisador republicano Frank Luntz afirma que   Trump é responsável  pela hesitação dos eleitores republicanos em serem vacinados.

“Ele quer receber o crédito pelo desenvolvimento da vacina. Então ele também recebe a culpa por tão poucos de seus eleitores aceitarem. ”

O Partido Republicano de Trump está começando a se assemelhar a regimes autoritários ao redor do mundo em outros aspectos também – expurgando contadores da verdade e transportando mentiras, desinformação e propaganda prejudicial ao público.

Na semana passada, o Partido Republicano despojou a deputada Liz Cheney de sua posição de liderança por dizer a verdade sobre as eleições de 2020. Na audiência do Congresso da semana passada sobre o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, um congressista republicano, Andrew Clyde, até negou que tenha acontecido.

“Não houve insurreição”, disse ele. “Chamar isso de insurreição é uma mentira ousada … você realmente pensaria que foi uma visita de turista normal.”

Biden diz que planeja convocar uma cúpula de governos democráticos para conter o aumento do autoritarismo em todo o mundo. Espero que ele fale sobre sua ascensão nos Estados Unidos também – e o enorme preço que já cobrou dos americanos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Nation of Change [Aqui!].

Surto de COVID-19 força fechamento de escolas no Paraná. Em Campos, querem abrir

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Por motivos que não têm nada a ver com o processo pedagógico e o interesse da segurança de estudantes e suas famílias há no Brasil uma pressão crescente para forçar a reabertura de escolas. Um dos lugares em que essa medida descabida foi o estado do Paraná.  Mas mesmo aqui em Campos dos Goytacazes há uma forte pressão por parte de proprietários de escolas particulares e também de membros do governo municipal (às vezes fica difícil separar esses dois setores tantas os interesses em comum) para que as aulas presenciais sejam retomadas, ainda que em suposto estilo híbrido (parte presencial e parte remoto).

Aos que acham que isso não causará maiores problemas em termos da difusão ainda maior do Sars-Cov-2, deveria olhar o que está acontecendo no já citado estado do Paraná onde diversos municípios estão tendo fechar suas escolas reabertas por causa do alto nível de infecção principalmente entre professores. Segundo o jornalista Esmael Morais publicou em seu blog, a situação é tão grave que os sindicato que representa de 120 mil trabalhadores da educação do estado do Paraná, a APP-sindicato, está “recolhendo as fichas de saúde dos contaminados para responsabilizar administrativa, civil e criminalmente o governador Ratinho Junior (PSDB) e o secretário da Educação, o empresário Renato Feder“.  

Eu diria que se aqui em Campos dos Goytacazes, essa mesma medida intempestiva for adotada, SEPE terá que fazer rapidamente o mesmo, responsabilizando quem tiver de ser responsabilizado.  Aos pais de crianças que estão achando que colocar seus filhos e a si mesmos em situação de risco, sugiro olhar bem a situação que está ocorrendo no Paraná. Afinal, melhor em casa “atrapalhando” o sossego do que infectado e sob risco de contrair as formas mais agudas de COVID-19.  Até porque os donos de escola estão avisando que não vão se responsabilizar se alguma criança contrair o coronavírus nas dependências de seus estabelecimentos de ensino.

Sequelas graves da COVID-19, uma crise de oculta que piora o caos na saúde brasileira

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Uma das formas mais insidiosas de minimizar o impacto da pandemia da COVID-19 é contrapor o score dos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus contra os de pessoas “recuperadas” da infecção.  Essa contraposição dá a ideia de que alguém que se livrou da infecção causada pelo coronavírus volta imediatamente para as condições em que se encontrava anteriormente.

Esse tipo de mensagem está longe de ser a realidade de uma proporção significativa dos casos de pessoas de infectadas que acabam com sequelas graves por causa da COVID-19.  Relatos de um número considerável de pessoas dão conta de problemas variados, incluindo problemas permanentes no sistema pulmonar, dificuldades de circulação sanguínea chegando a alterações no funcionamento do sistema nervoso.

A consequência disso é que o sistema brasileiro de saúde ficará sobrecarregado com casos de pessoas que desenvolveram sequelas causadas pelas formas mais graves da COVID-19, e o que é pior, em um contexto de encurtamento do financiamento dos serviços públicos de saúde por causa da aplicação da PEC do Teto de Gastos.

Por isso mesmo é que o afrouxamento das medidas de isolamento social que estão sendo aplicadas não fazem o menor sentido, na medida que isso criará inevitavelmente as condições propícias para mais uma onda (está mais para tsunami) não apenas de novos casos de infecção, mas também de pacientes que desenvolvem sequelas graves quando acometidas pelas formas mais graves da COVID-19.

O fato é que enquanto o Brasil não realizar uma efetiva vacinação em massa, o mais indicado é a manutenção de formas mais estritas de isolamento social, a despeito das pressões que estão sendo feitas no sentido contrário.

Quem é o presidente da Anvisa que complicou Jair Bolsonaro na CPI da COVID-19?

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O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, e o presidente Jair Bolsonaro

Fontes jornalísticas informaram que o presidente Jair Bolsonaro teria ficado particularmente irritado com o depoimento que o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu ontem na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura possíveis irregularidades cometidas na gestão da pandemia da COVID-19, colocando o governo federal em uma situação complicada.

Um detalhe que tem sido curiosamente negligenciado versa justamente sobre o currículo do diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que é simplesmente apresentado como um amigo pessoal de Jair Bolsonaro. É que Barra Torres , antes de ser indicado para presidir a Anvisa, era contra-almirante da Marinha do Brasil, o terceiro mais alto da corporação. Além disso, como civil, Barra Torres foi instrutor na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ), e, como militar, foi diretor do Centro de Perícias Médicas da Marinha e do Centro Médico Assistencial da Marinha.

Em outras palavras Barra Torres é um elemento que não apenas pertence aos quadros superiores da Marinha, como também possui as devidas credenciais médicas, o que, combinado, torna seu depoimento particularmente danoso para o agora, provavelmente, ex-amigo Jair Bolsonaro. Para piorar,  o depoimento danoso pode significar que parte das forças armadas brasileiras decidiu jogar o ex-capitão aos lobos.  Por isso, a explicável irritação de Jair Bolsonaro.

Luiz Henrique Mandetta: uma testemunha chave na CPI da COVID-19

Mandetta desgraçou Bolsonaro na CPI da COVID-19

MANDETTA

Ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta

Por  Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Até ser expulso, em 16 de abril de 2020, Luiz Henrique Mandetta fazia parte do governo brasileiro como Ministro da Saúde. Na frente do comitê parlamentar da COVID-19, ele agora relata como todos os seus conselhos profissionais foram rejeitados pelo presidente Bolsonaro, que sabotou a proteção contra infecções e tentou forçar a indicação da droga mágica cloroquina para combater o coronavírus.

Mandetta nasceu em 1964 em Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com o Paraguai. Ele vem de um clã familiar que é influente na política local. Ele se formou em medicina no Rio de Janeiro e se especializou em ortopedia e ortopedia pediátrica na universidade local e em Atlanta nos EUA. Após o serviço militar como médico no Hospital Central do Exército do Rio, trabalhou em Campo Grande, onde foi eleito chefe da cooperativa médica da Unimed. Em 2004, Mandetta assumiu a presidência do vereador de saúde da cidade, provavelmente com a ajuda de “vitamina B”. Aqui ele conquistou mérito em campanhas de combate à dengue.

Mandetta apoiou o golpe parlamentar contra a presidente de esquerda Dilma Rousseff . A partir daí, o médico foi trocado como candidato ao cargo de governador de Mato Grosso do Sul, mas inicialmente se retirou para a vida privada.

Um lobby da política e da medicina promoveu sua nomeação como ministro a partir de 2019. Nessa função, ele manteve o bolonarismo em seu campo e se recusou a expurgar os partidos políticos. Seu sucessor, Nelson Teich, também médico, renunciou após apenas um mês . Por quase um ano, apesar da pandemia, a secretaria de saúde foi dirigida por um general que não entendia muito sobre o combate ao vírus.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

 

Os inevitáveis custos do novo ataque de Jair Bolsonaro à China

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Jair Bolsonaro discursa durante abertura da Semana das Comunicações no Palácio do Planalto. Imagem: Fabio Rodrigues/ Agência Brasil

A mídia corporativa brasileira noticiou hoje mais um ataque do presidente Jair Bolsonaro à China, este na forma da propalação de uma suposta origem em algum laboratório chinês do Sars-Cov-2 (causador da COVID-19), o que foi agravado pela acusação de que teriam sido os chineses os únicos a terem crescimento econômico em 2020. A primeira coisa é que essas acusações são usuais no esgoto ideológico em que opera os grupos bolsonaristas, e o presidente da república está apenas repetindo publicamente o que é dito de forma fortuita entre os membros de adeptos de teorias da conspiração.

Entretanto, independente do que está sendo repetido publicamente por Jair Bolsonaro não ser nenhuma novidade por quem conhece minimamente essas teses esdrúxulas;  o problema é que ao repetir ainda que envergonhada o que dizem os seus adeptos que não possuem um cargo de relevância como o de presidente república, o presidente da república parece esperar que os chineses reajam de forma prejudicial aos interesses nacionais.   Um  problema é que os chineses certamente reagirão, ainda que não mesma forma e proporção que Jair Bolsonaro fez.

A primeira razão para esperar que os chineses rejam diferente é que eles são membros de uma cultura com mais de 5.000 anos de história, onde o pragmatismo é uma das principais marcas. Além disso, como a China hoje é controlada por um único partido que se caracteriza por forte disciplina, o mais provável é que haja algum tipo de comunicado oficial lamentoso onde se reclamará do tratamento indelicado com um grande parceiro comercial. Esse é o jeito da diplomacia chinesa operar e não parece crível que haja alguma declaração mais forte, até porque o Brasil representa risco estratégico zero, e os chineses não são de chutar cachorro morto, ainda mais em público.

O problema é que haverá uma outra ordem de resposta, e ela certamente virá com forte peso econômico, principalmente para o latifúndio agro-exportador que tem na China o destino de mais de 70% da soja nacional. Ao provocar politicamente a China e em público, Jair Bolsonaro deverá fazer que esse percentual diminua. A mesma coisa deverá acontecer com as exportações de carne e também do minério de ferro.  É que mais do que ninguém, a China sabe quanto o Brasil depende dela para gerar superávits em sua balança comercial, e como isso só deverá aumentar com o avanço do boicote a produtos brasileiros pela Europa.

Outra área que deverá sofrer será a de fornecimento de vacinas, pois o Brasil não depende dos chineses apenas para a “vacina chinesa” produzida pela Sinovac, mas para a produção do chamado  Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da maioria das vacinas que estão sendo usadas no mundo para combater a pandemia da COVID-19. Assim é bem provável que novas demoras no envio tanto de vacinas como do IFA necessários para fabricá-las aqui mesmo.

O que me parece ainda passível de discussão é sobre quais seriam os reais motivos de Jair Bolsonaro para irritar a China com provocações que não possuem a menor sustentação nos fatos.  Uma possibilidade é de que Bolsonaro é apenas uma pessoa sem noção de como o mundo opera. A outra é que ele tem perfeitamente noção de como o mundo opera e utilizou essa provocação para irritar os chineses, sabendo precisamente quais seriam as repercussões disso. De qualquer forma, seja qual for a alternativa correta, o certo é que Bolsonaro continua acendendo fósforo para ver  se os chineses jogam a gasolina onde eles caírem.