Por que a imunidade de rebanho não vai nos salvar

clovis-wood-pfjecifs6hM-unsplash-1-scaled-1705x960FOTO: Clovis Wood/Unplash

Do Observatório da COVID-19 BR para a bori

Na discussão pública sobre o curso da epidemia deCOVID-19 alguns conceitos têm sido muito comentados. Nos últimos dias, em especial, fala-se da imunidade “de rebanho” ou imunidade coletiva. Há, porém, uma grande confusão sobre o fenômeno e as implicações ao se atingir este limiar.

Uma das interpretações equivocadas é a de que o vírus para de circular quando se atinge a chamada imunidade de rebanho. Porém esse conceito está definido apenas para uma população inteiramente suscetível, ou seja, de pessoas capazes de serem infectadas. Podemos aproveitá-lo para discutir algo que recebeu pouca atenção até agora: overshooting de casos, que é o número de casos que continuam se acumulando mesmo depois de se ter alcançado o limiar de imunidade coletiva.

Já o conceito de imunidade coletiva surgiu da resposta à seguinte questão: quantos devem ser vacinados para que uma epidemia não avance em uma população inteiramente de pessoas suscetíveis? Chamamos de R0 o número de pessoas para as quais uma pessoa infectada transmite a doença, em média, quando todos são ainda suscetíveis. A resposta é que em uma população homogênea a epidemia não progride se a proporção de pessoas inicialmente imunes for ao menos 1- 1/R0.

Na figura que segue, o gráfico mostra o número de pessoas infecciosas ao longo do tempo em uma epidemia. No momento do pico dessa curva, marcado com uma linha tracejada, o número de pessoas já atingidas pela infecção (infecciosos, recuperados e mortos) chega ao valor 1- 1/R0; o mesmo valor que define o limiar de imunidade coletiva. A partir desse momento o número de infecciosos cai gradativamente até que a epidemia acabe. Mas até o momento em que a epidemia se extinguir, haverá ainda muitos casos novos. Esse número de casos acima do limiar de imunidade coletiva é o overshooting de casos. No segundo gráfico, mostramos o conceito.

 

Qual seria o tamanho deste overshooting para o caso da COVID-19? A resposta não é simples, porque depende de muitas particularidades da epidemia. Para avaliarmos o efeito de overshooting é suficiente uma estimativa com um modelo matemático muito usado para descrever epidemias, o modelo SEIR (Suscetíveis-Expostos-Infectados-Resistentes). Por este modelo, se o R0 para a COVID-19 for 2,5 e, portanto, se o limiar da imunidade coletiva for atingido quando 60% da população estiver imune, o overshooting será de 20% a 30%. Ou seja, ao fim da epidemia teríamos 80% a 90% da população infectada. Mesmo num cenário otimista de limiar de imunidade coletiva de 40% (correspondente a R0 de cerca de 1,7), o tamanho final da epidemia se aproximaria de 70% da população. Todos estes cenários levariam a várias vezes mais hospitalizações e mortes do que as que já presenciamos.

É possível que se atinja a imunidade coletiva antes do esperado por estes cálculos (ao redor de 60%) e que o overshooting seja menor? Sim, é possível. Há uma série de fatores que podem ser importantes na diminuição do valor do limiar de imunidade coletiva, como, por exemplo, imunidade cruzada ou heterogeneidades de suscetibilidade. Tais fatores são objeto atual de pesquisa por vários grupos de cientistas no mundo. Existe muito por se descobrir e os resultados até agora estão no terreno das possibilidades. É importante levar isso em consideração ao se tomar decisões que afetam a vida da população.

Como o conceito de imunidade coletiva pode orientar políticas públicas? Quando tivermos uma vacina, saberemos em qual proporção da população ela deve ser aplicada para nos mantermos acima do limiar de imunidade coletiva. Até então, teremos que buscar outros meios de reduzir a transmissão. Nessa situação, aguardar o limiar de imunidade coletiva é uma declaração de fracasso de uma sociedade. É encarregar a natureza de concluir a epidemia, às custas do adoecimento e morte desnecessários de muitas pessoas.

Sobre o artigo

Observatório COVID-19 BR é uma iniciativa independente, fruto da colaboração de cerca de 50 pesquisadores da UFSC, Unicamp, Unesp, UFPB, USP, entre outras, interessados em contribuir para a disseminação de informação de qualidade sobre a COVID-19.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

MPF pede julgamento de ação que discute caracterização de igrejas e lotéricas como serviços essenciais

Órgão pede a declaração de nulidade de dois dispositivos do decreto e a condenação da União e do Município de Duque de Caxias a estabelecerem procedimentos que deem publicidade às justificativas de atos normativos

lotericas

Em manifestação em ação civil pública proposta contra a União e o Município de Duque de Caxias, o Ministério Público Federal (MPF) pediu o julgamento antecipado da ação que busca a declaração de nulidade dos incisos XXXIX e XL do § 1o do art. 3o do Decreto no 10.282/2020, inserido pelo Decreto no 10.292/2020, editados pela União. Entre os pedidos, constam não apenas a nulidade do decreto, mas a abstenção dos réus quanto à edição de novos atos normativos que extrapolem o poder regulamentar e a abstenção quanto ao estímulo ao descumprimento do isolamento social.

O órgão pediu ainda a condenação da União e do Município de Duque de Caxias a estabelecerem uma rotina administrativa de devido procedimento de exposição de justificativa dos decretos e atos normativos, sobretudo os que impactam a saúde da população, por meio da explicitação das razões e informações que os motivam.  Outro pedido foi a condenação dos réus a elaborarem um plano para a adequada integração de mídias e atos normativos, com vistas a viabilizar o direito à informação e à publicidade, de forma a garantir coerência e unidade à atuação governamental.

A ação foi proposta em março deste ano. O MPF alegou que o decreto, editado para estabelecer igrejas e casas lotéricas como serviços essenciais, extrapolou o poder regulamentar. No entendimento do órgão, o ato normativo contrariou a Lei 13.979/2020 e as orientações de isolamento social recomendadas pela OMS, em dissonância com as diretrizes aos órgãos de saúde e comitês científicos competentes.

Para o MPF, o decreto coloca em risco a eficácia das medidas de isolamento e achatamento de curva de casos de coronavírus. “Ao incluir como essenciais atividades religiosas ou casas lotéricas, sem demonstrar a essencialidade prevista em lei, nem apresentar justificativas que permitam uma compreensão do ato normativo em consonância com as recomendações dos órgãos de saúde, o decreto acabou por assumir para si a enumeração dos serviços e atividades que seriam assim consideradas, como se houvesse uma discricionariedade ilimitada para tanto”. No caso de Duque de Caxias, o MPF destacou um aspecto agravante: em vídeo, prefeito do município disse que ia manter igrejas abertas e que a cura para o coronavírus “viria de lá”.

A Justiça Federal acolheu o pedido liminar e determinou a suspensão do decreto, além da abstenção da União e do Município quanto à edição de novos decretos similares. A decisão determinou ainda que os réus se abstivessem de adotar qualquer estímulo à não observância do isolamento social. Para o juiz Marcio Santoro, “considerar como essenciais atividades religiosas, lotéricas, ou qualquer outra que não possua qualquer lastro de coerência com o que existe no Diploma que dispôs sobre tais atividades é ferir de morte a coerência que se espera do sistema jurídico”. A decisão, contudo, foi suspensa por decisão do Presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Relatório da Fiocruz considera prematuro retorno às atividades escolares

sala de aula

A Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz divulga, nesta segunda-feira (20/7), nova versão do documento sobre o retorno das atividades escolares durante a pandemia de Covid-19. O texto apresenta um panorama epidemiológico, com fontes de diferentes instituições, para uma melhor compreensão sobre a pandemia no Brasil e considera prematura a reabertura das escolas no município do Rio de Janeiro. “Diante da possibilidade de possível recrudescimento de casos e óbitos no município, ainda parece prematura a abertura das escolas no atual momento da pandemia pelo SARS-CoV2. É necessário que especialistas, epidemiologistas, infectologistas, pneumologistas, pediatras e outros acompanhem e monitorem todo o processo pandêmico. Principalmente para avaliar o impacto no número de casos e mortes com a reabertura dos outros processos produtivos na cidade do Rio de Janeiro.”, dizem os autores.

Ainda de acordo com o relatório, o município do Rio de Janeiro precisa garantir que as escolas públicas e privadas apresentem seus planos específicos para abertura e a construção de diretrizes e protocolos rígidos para monitoramento e controle de casos, atenção redobrada para os alunos especiais e política de abordagem psicossocial e saúde mental.

covid rjCasos da COVID-19 confirmados no município do Rio de Janeiro por data de notificação, total do dia e média móvel de 7 dias (Fonte Painel Rio COVID-19; acesso em 19 de julho de 2020).

O relatório aponta os seguintes critérios para o retorno das atividades escolares:

1. A transmissão da doença deve estar controlada. O município deve ter disponibilidade de pelo menos 30% de leitos disponíveis. Diminuição constante do número de hospitalizações e internações em UTI de casos confirmados e prováveis pelo menos nas últimas duas semanas. Diminuição do número de mortes entre casos confirmados e prováveis pelo menos nas últimas três semanas. O sistema de saúde deve estar pronto para detectar, testar, isolar e tratar pacientes e rastrear contatos.

2. Medidas preventivas devem ser adotadas nas escolas – apresentar um plano detalhado de medidas sanitárias, higienização e garantia de distanciamento entre as pessoas, de 2 metros, no ambiente escolar e salas de aula. Adotar medidas individuais com uso de máscaras para todos os alunos, trabalhadores e profissionais da educação, não sendo indicado para crianças abaixo de 2 anos e observando o aprendizado para o uso nas crianças entre 2 e 10 anos.

3. Controle dos transportes públicos e escolares para garantir o distanciamento social.

4. Controle do risco de importação de doença, vinda de outros lugares.

5. Comunidades escolares devem ser capacitadas, engajadas e empoderadas para se adaptar às novas regras. Os pais, sempre que possível, através de suas organizações, trabalhadores da educação e professores devem estar participando no planejamento do retorno.

6. Atenção para estudantes especiais.

7. Atenção para o bem-estar psicológico e socioemocional para toda a comunidade. Ao reabrir as escolas, os professores precisam lidar com os riscos à saúde e com o aumento da carga de trabalho para ensinar de maneiras novas e desafiadoras. As autoridades precisam garantir que os professores e toda a equipe recebam apoio psicossocial contínuo para alcançar seu bem-estar socioemocional. Isso será especialmente crítico para os professores encarregados de fornecer o mesmo apoio aos alunos e famílias.

8. Inclusão de professores e suas organizações representativas nas discussões sobre o retorno à escola. As organizações devem estar envolvidas para identificar os principais objetivos da educação, reorganizar os currículos e alinhar a avaliação com base no calendário escolar revisado. Devem ainda ser consultados sobre questões relacionadas à reorganização da sala de aula.

9. Trabalhadores da educação e Professores acima de 60 anos ou com comorbidades devem permanecer no isolamento social.

10. Garantir melhores condições de trabalho para toda a comunidade escolar. O retorno às atividades escolares pode revelar lacunas nos recursos humanos e criar horários e rotinas de trabalho difíceis. Os professores e suas organizações representativas devem ser incluídos no diálogo sobre o desenvolvimento de estratégias de recrutamento rápido, respeitando as qualificações profissionais mínimas e protegendo os direitos e as condições de trabalho dos professores.

11. Ampliar e manter recursos financeiros. Para garantir a continuidade da aprendizagem, as autoridades educacionais precisarão investir em professores e trabalhadores de apoio à educação, não apenas para manter os salários, mas também para fornecer capacitação essencial e apoio psicossocial. É importante que os governos resistam a práticas que possam prejudicar a atividade didática e a qualidade da educação, como aumentar as horas de ensino ou recrutar professores não capacitados.

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Este texto foi publicado inicialmente no site da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fiocruz [Aqui!].

 

Autópsias de coronavírus: uma história de 38 cérebros, 87 pulmões e 42 corações

O que aprendemos com os mortos que poderiam ajudar os vivos

wp2Uma sala de exames no necrotério do Laboratório de Ciências Forenses do Condado de Franklin, em Columbus, Ohio. (Ty Wright para o Washington Post)

Por  Ariana Eunjung Cha para o The Washington Post

Quando a patologista Amy Rapkiewicz iniciou o sombrio processo de abrir os coronavírus mortos para descobrir como seus corpos estavam dando errado, ela encontrou danos nos pulmões, rins e fígado, consistentes com o que os médicos haviam relatado há meses.

Mas algo estava errado.

Rapkiewicz, que dirige autópsias na NYU Langone Health, notou que alguns órgãos tinham muitas células especiais raramente encontradas nesses locais. Ela nunca tinha visto isso antes, mas parecia vagamente familiar. Ela correu para seus livros de história e – em um momento eureka – encontrou uma referência a um relatório da década de 1960 sobre um paciente com dengue.

Na dengue, uma doença tropical transmitida por mosquitos, ela aprendeu, o vírus parecia destruir essas células, que produzem plaquetas, levando a sangramentos descontrolados. O novo coronavírus parecia amplificar seu efeito, causando coagulação perigosa.

Ela ficou impressionada com os paralelos: “A COVID-19 e a dengue parecem realmente diferentes, mas as células envolvidas são semelhantes”.

As autópsias têm sido uma fonte de avanços na compreensão de novas doenças, do HIV / AIDS e Ebola à febre de Lassa – e a comunidade médica conta com eles para fazer o mesmo com a COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Com uma vacina provavelmente daqui a muitos meses, mesmo nos cenários mais otimistas, as autópsias estão se tornando uma fonte crítica de informação para a pesquisa de possíveis tratamentos.

Quando a pandemia atingiu os Estados Unidos no final de março, muitos sistemas hospitalares estavam sobrecarregados demais tentando salvar vidas para passar muito tempo investigando os segredos dos mortos. Mas no final de maio e junho, o primeiro grande lote de relatórios – de pacientes com idades entre 32 e 90 anos que morreram em meia dúzia de instituições – foi publicado em rápida sucessão. As investigações confirmaram alguns de nossos primeiros palpites da doença, refutaram outros – e abriram novos mistérios sobre o patógeno que matou mais de 500.000 pessoas em todo o mundo.

Entre as descobertas mais importantes, consistentes em vários estudos, está a confirmação de que o vírus parece atacar os pulmões com mais ferocidade. Eles também encontraram o patógeno em partes do cérebro, rins, fígado, trato gastrointestinal e baço e nas células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos, como alguns suspeitavam anteriormente. Os pesquisadores também encontraram coagulação generalizada em muitos órgãos.

Mas o cérebro e o coração entregaram surpresas.

“É sobre o que não estamos vendo”, disse Mary Fowkes, professora associada de patologia que faz parte de uma equipe da Mount Sinai Health que realizou autópsias em 67 pacientes cobertos por 19.

wp3Novas sepulturas no cemitério de Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, Brasil. (Michael Dantas / AFP / Getty Images)

Dados dados amplamente divulgados sobre sintomas neurológicos relacionados ao coronavírus, disse Fowkes, ela espera encontrar vírus ou inflamação – ou ambos – no cérebro. Mas havia muito pouco. Quando se trata do coração, muitos médicos alertaram por meses sobre uma complicação cardíaca que suspeitavam ser miocardite, uma inflamação ou endurecimento das paredes musculares do coração – mas os investigadores de autópsia ficaram surpresos ao não encontrar evidências da doença.

Outra descoberta inesperada, disseram os patologistas, é que a privação de oxigênio no cérebro e a formação de coágulos sanguíneos podem começar no início do processo da doença. Isso pode ter grandes implicações na maneira como as pessoas com covid-19 são tratadas em casa, mesmo que nunca precisem ser hospitalizadas.

As descobertas iniciais ocorrem quando novas infecções nos EUA ultrapassam até os dias catastróficos de abril, em meio ao que alguns críticos dizem ser um alívio prematuro das restrições de distanciamento social em alguns estados, principalmente no sul e no oeste. Um novo estudo de modelagem estimou que cerca de 22% da população – ou 1,7 bilhão de pessoas em todo o mundo, incluindo 72 milhões nos Estados Unidos – podem estar vulneráveis ​​a doenças graves se infectadas pelo vírus. De acordo com a análise publicada este mês na Lancet Global Health, cerca de 4% dessas pessoas precisariam de hospitalização – ressaltando os riscos, já que os investigadores de autópsia continuam sua busca por pistas.

Microcoágulos nos pulmões

wp4Um profissional de saúde examina a radiografia de tórax de um paciente em uma enfermaria reservada a pacientes cobertos por 19 pacientes no Hospital Juarez, na Cidade do México. (Eduardo Verdugo / AP)

Na melhor das hipóteses, as autópsias podem reconstruir o curso natural da doença, mas o processo para uma doença nova e altamente infecciosa é tedioso e requer trabalho meticuloso. Para proteger os patologistas e evitar o envio de vírus ao ar, eles devem usar ferramentas especiais para coletar órgãos e depois mergulhá-los em uma solução desinfetante por várias semanas antes de serem estudados. Eles devem então seccionar cada órgão e coletar pequenos pedaços de tecido para estudo sob diferentes tipos de microscópios.

Uma das primeiras pesquisas americanas a serem divulgadas em 10 de abril foi fora de Nova Orleans. O paciente era um homem de 44 anos de idade que havia sido tratado na LSU Health. Richard Vander Heide lembra de cortar o pulmão e descobrir o que provavelmente eram centenas ou milhares de microcoágulos.

“Nunca esquecerei o dia”, lembrou Vander Heide, que realiza autópsias desde 1994. “Eu disse ao residente: ‘Isso é muito incomum.’ Eu nunca tinha visto algo assim.

Mas quando ele passou para o próximo paciente e o próximo, Vander Heide viu o mesmo padrão. Ele ficou tão alarmado, disse ele, que compartilhou o artigo on-line antes de enviá-lo a um diário para que as informações pudessem ser usadas imediatamente pelos médicos. As descobertas causaram alvoroço em muitos hospitais e influenciaram alguns médicos a começar a administrar anticoagulantes em todos os pacientes cobiçados por 19 anos. Agora é prática comum. A versão final, revisada por pares, envolvendo 10 pacientes, foi posteriormente publicada na Lancet em maio.

Outras autópsias pulmonares – incluindo as descritas em artigos da Itália com 38 pacientes, um estudo da Mount Sinai Health com 25 pacientes e uma colaboração entre a Harvard Medical School e pesquisadores alemães com sete – relataram resultados semelhantes de coagulação.

Mais recentemente, um estudo realizado no mês passado no eClinicalMedicine da Lancet encontrou coagulação anormal no coração, rim e fígado, bem como nos pulmões de sete pacientes, levando os autores a sugerir que essa pode ser uma das principais causas da falência de múltiplos órgãos. em pacientes covid-19.

Células cardíacas

O próximo órgão estudado de perto foi o coração. Um dos relatos iniciais mais assustadores sobre o coronavírus da China foi que uma porcentagem significativa de pacientes hospitalizados – de 20 a 30% – parecia ter miocardite que poderia levar à morte súbita. A condição envolve o espessamento do músculo do coração, para que ele não possa mais bombear com eficiência.

A miocardite clássica geralmente é fácil de identificar nas autópsias, dizem os patologistas. Ocorre quando o corpo percebe que o tecido é estranho e o ataca. Nessa situação, haveria grandes zonas mortas no coração, e as células musculares conhecidas como miócitos seriam cercadas por células de combate à infecção conhecidas como linfócitos. Mas nas amostras de autópsia feitas até agora, os miócitos mortos não estavam cercados por linfócitos – deixando os pesquisadores coçando a cabeça.

Fowkes, do Monte Sinai, e sua colega Clare Bryce, cujo trabalho em 25 corações foi publicado on-line, mas ainda não foram revisados ​​por pares, disseram que viram alguma inflamação “muito leve” da superfície do coração, mas nada que se parecesse com miocardite.

Rapkiewicz, da NYU Langone, que estudou sete corações, ficou impressionado com a abundância no coração de células raras chamadas megacariócitos. As células, que produzem plaquetas que controlam a coagulação, geralmente existem apenas na medula óssea e nos pulmões. Quando ela voltou para as amostras de pulmão dos pacientes com coronavírus, ela descobriu que aquelas células eram abundantes lá também.

“Eu não conseguia me lembrar de um caso antes em que vimos isso”, disse ela. “Foi notável que eles estivessem no coração”.

Vander Heide, da LSU, que relatou descobertas preliminares em 10 pacientes em abril e tem um artigo mais aprofundado com mais estudos de caso em revisão em uma revista, explicou que “quando você olha para um coração oculto, não vê o que você esperaria. ”

Ele disse que alguns pacientes nos quais ele realizou autópsias haviam sofrido uma parada cardíaca no hospital, mas quando os examinou, o principal dano ocorreu nos pulmões – não no coração.

A grade cerebral

wp1Uma área de enterro muçulmana fornecida pelo governo para vítimas do coronavírus no cemitério de Tegal Alur em Jacarta, na Indonésia, no mês passado. (Willy Kurniawan / Reuters)

De todas as manifestações do coronavírus, seu impacto no cérebro está entre os mais irritantes. Os pacientes relataram uma série de deficiências neurológicas, incluindo capacidade reduzida de cheirar ou provar, estado mental alterado, acidente vascular cerebral, convulsões – até delírio.

Um estudo inicial da China, publicado no Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry do BMJ , em março, descobriu que 22% dos 113 pacientes tinham problemas neurológicos que variavam de sonolência excessiva a coma – condições tipicamente agrupadas como distúrbios da consciência. Em junho, pesquisadores na França relataram que 84% dos pacientes em terapia intensiva apresentavam problemas neurológicos e um terço estava confuso ou desorientado na alta. Também neste mês, as pessoas no Reino Unido descobriram que 57 dos 125 pacientes com coronavírus com um novo diagnóstico neurológico ou psiquiátrico sofreram um acidente vascular cerebral devido a um coágulo sanguíneo no cérebro e 39 tiveram um estado mental alterado.

Com base nesses dados e em relatórios anedóticos, Isaac Solomon, neuropatologista do Brigham and Women’s Hospital em Boston, decidiu investigar sistematicamente onde o vírus poderia estar se inserindo no cérebro. Ele conduziu autópsias de 18 mortes consecutivas, tomando fatias de áreas-chave: o córtex cerebral (a substância cinzenta responsável pelo processamento da informação), o tálamo (modula as entradas sensoriais), os gânglios da base (responsáveis ​​pelo controle motor) e outros. Cada um foi dividido em uma grade tridimensional. Dez seções foram retiradas de cada uma e estudadas.

Ele encontrou fragmentos do vírus em apenas algumas áreas, e não ficou claro se eram restos mortos ou vírus ativos quando o paciente morreu. Havia apenas pequenas bolsas de inflamação. Mas houve grandes quantidades de danos devido à privação de oxigênio. Se os falecidos eram pacientes de terapia intensiva de longa data ou pessoas que morreram repentinamente, disse Salomão, o padrão era assustadoramente semelhante.

“Ficamos muito surpresos”, disse ele.

Quando o cérebro não recebe oxigênio suficiente, os neurônios individuais morrem e essa morte é permanente. Até certo ponto, o cérebro das pessoas pode compensar, mas em algum momento, o dano é tão extenso que diferentes funções começam a se degradar.

Em um nível prático, disse Salomão, se o vírus não está entrando no cérebro em grandes quantidades, isso ajuda no desenvolvimento de medicamentos, porque o tratamento se torna mais complicado quando difundido, por exemplo, em alguns pacientes com Nilo Ocidental ou HIV. Outra conclusão é que as descobertas enfatizam a importância de levar as pessoas a oxigênio suplementar rapidamente para evitar danos irreversíveis.

Solomon, cujo trabalho foi publicado como uma carta de 12 de junho no New England Journal of Medicine , disse que as descobertas sugerem que os danos vêm ocorrendo há mais tempo, o que o faz pensar sobre o efeito do vírus nas pessoas menos doentes. “A grande questão que permanece é o que acontece com as pessoas que sobrevivem cobertas”, disse ele. “Existe um efeito persistente no cérebro?”

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Jan Claire Dorado, médica, atende a um paciente em uma sala de emergência designada para pacientes com coronavírus em Manila. (Eloisa Lopez / Reuters)

A equipe da Mount Sinai Health, que retirou os tecidos de 20 cérebros, também ficou perplexa por não encontrar muitos vírus ou inflamação. No entanto, o grupo observou em um artigo que a presença generalizada de pequenos coágulos era “impressionante”.

“Se você tem um coágulo no cérebro, vemos isso o tempo todo. Mas o que estamos vendo é que alguns pacientes estão tendo vários derrames nos vasos sanguíneos que estão em dois ou até três territórios diferentes ”, disse Fowkes.

Rapkiewicz disse que é muito cedo para saber se o mais novo lote de achados da autópsia pode ser traduzido em mudanças de tratamento, mas as informações abriram novos caminhos a serem explorados. Uma de suas primeiras ligações depois de perceber as células incomuns de produção de plaquetas foi para Jeffrey Berger, especialista em cardiologia da NYU que dirige um laboratório financiado pelo National Institutes of Health que se concentra nas plaquetas.

Berger disse que as autópsias sugerem que os medicamentos antiplaquetários, além dos anticoagulantes, podem ser úteis para conter os efeitos da COVID-19. Ele conduziu um grande ensaio clínico, analisando as doses ideais de anticoagulantes para examinar essa questão também.

“É apenas uma peça de um quebra-cabeça muito grande e temos muito mais a aprender”, disse ele. “Mas se pudermos evitar complicações significativas e se mais pacientes puderem sobreviver à infecção, isso muda tudo.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal The Washington Post [Aqui!].

“Ciência do desespero” retarda a busca por drogas contra o coronavírus

ap imageDoris Kelly, 57 anos, senta-se em sua casa na segunda-feira, 29 de junho de 2020 em Ruffs Dale, Pensilvânia. Kelly foi um dos primeiros pacientes em um estudo do COVID-19 na Universidade de Pittsburgh Medical Center. “Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre a doença. (Foto AP / Justin Merriman)

Marilynn Marchione para a Associated Press

Desesperado para resolver o dilema mortal da COVID-19, o mundo clama por respostas rápidas e soluções de um sistema de pesquisa não construído para a pressa.

O resultado irônico, e talvez trágico: os atalhos científicos diminuíram a compreensão da doença e atrasaram a capacidade de descobrir quais medicamentos ajudam, prejudicam ou não têm efeito algum.

À medida que as mortes pelo coronavírus aumentavam incessantemente nas centenas de milhares, dezenas de milhares de médicos e pacientes corriam para usar drogas antes que pudessem se provar seguros ou eficazes. Uma série de estudos de baixa qualidade obscureceu ainda mais o cenário.

“As pessoas tinham uma epidemia na frente delas e não estavam preparadas para esperar”, disse o Dr. Derek Angus, chefe de tratamento intensivo do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Nós fizemos a pesquisa clínica tradicional parecer tão lenta e complicada”.

Não foi até meados de junho – quase seis meses depois – quando surgiram as primeiras evidências de que um medicamento poderia melhorar a sobrevivência. Pesquisadores no Reino Unido conseguiram inscrever um em cada seis pacientes hospitalizados com COVID-19 em um grande estudo que descobriu que um esteróide barato chamado dexametasona ajuda e que um medicamento contra a malária amplamente usado não ajuda. O estudo mudou a prática da noite para o dia, apesar de os resultados não terem sido publicados ou revisados ​​por outros cientistas.

Nos Estados Unidos, um estudo menor, porém rigoroso , descobriu que um medicamento diferente pode reduzir o tempo de recuperação de pacientes gravemente enfermos, mas muitas questões permanecem sobre seu melhor uso.

Os médicos ainda estão buscando freneticamente qualquer outra coisa que possa combater as várias maneiras pelas quais o vírus pode causar danos, experimentando medicamentos para derrame, azia, coágulos sanguíneos, gota, depressão, inflamação, AIDS, hepatite, câncer, artrite e até células-tronco e radiação .

“Todo mundo tem buscado algo que possa funcionar. E não é assim que você desenvolve boas práticas médicas ”, disse Steven Nissen, pesquisador da Cleveland Clinic e consultor frequente da Food and Drug Administration dos EUA. “O desespero não é uma estratégia. Bons ensaios clínicos representam uma estratégia sólida. ”

Poucos estudos definitivos foram realizados nos EUA, com alguns prejudicados por pessoas que consomem drogas por conta própria ou métodos relaxados de empresas farmacêuticas que patrocinam o trabalho.

E a política ampliou o problema. Dezenas de milhares de pessoas experimentaram um remédio contra a malária depois que o presidente Donald Trump o promoveu implacavelmente, dizendo: “O que você tem a perder?” Enquanto isso, o principal especialista em doenças infecciosas do país, Dr. Anthony Fauci, alertou “eu gosto de provar as coisas primeiro”. Por três meses, estudos fracos polarizaram as vistas da hidroxicloroquina até que várias mais confiáveis ​​a consideraram ineficaz.

“O problema com o ‘remédio para pistoleiros’ ou o remédio praticado onde há um palpite é que levou a sociedade como um todo a se atrasar em aprender coisas”, disse o Dr. Otis Brawley, da Universidade Johns Hopkins. “Não temos boas evidências porque não apreciamos e respeitamos a ciência.”

Ele observou que, se os estudos tivessem sido realizados corretamente em janeiro e fevereiro, os cientistas já sabiam até março se muitos desses medicamentos funcionassem.

Até pesquisadores que valorizam a ciência estão adotando atalhos e regras de flexão para tentar obter respostas mais rapidamente. E os jornais estão correndo para publicar resultados, às vezes pagando um preço pela sua pressa com retratações.

A pesquisa ainda é caótica – mais de 2.000 estudos estão testando tratamentos com COVID-19, da azitromicina ao zinco. O volume pode não surpreender diante de uma pandemia e de um novo vírus, mas alguns especialistas dizem que é preocupante o fato de muitos estudos serem duplicados e carecerem do rigor científico para resultar em respostas claras.

“Tudo sobre isso parece muito estranho”, disse Angus, que lidera um estudo inovador usando inteligência artificial para ajudar a escolher tratamentos. “Tudo está sendo feito no horário da COVID. É como esse novo relógio estranho em que estamos correndo.

Aqui está uma olhada em alguns dos principais exemplos de “ciência do desespero” em andamento.

Uma droga contra a malária se torna viral

Para os cientistas, foi uma receita para o desastre: em uma crise médica sem tratamento conhecido e uma população em pânico, uma figura pública influente empurra uma droga com efeitos colaterais potencialmente graves, citando depoimentos e um relatório rapidamente desacreditado de seu uso em 20 pacientes.

Trump divulgou a hidroxicloroquina em dezenas de apresentações a partir de meados de março. A Administração de Alimentos e Medicamentos permitiu seu uso emergencial, apesar de estudos não terem demonstrado segurança ou eficácia para pacientes com coronavírus, e o governo adquiriu dezenas de milhões de doses.

Trump pediu pela primeira vez que tome azitromicina, um antibiótico que, como a hidroxicloroquina, pode causar problemas no ritmo cardíaco. Depois das críticas, ele se limitou a dar conselhos médicos, pedindo “Você deve adicionar zinco agora, eu quero jogar isso lá fora”. Em maio, ele disse que estava tomando os remédios para prevenir a infecção depois que um assessor deu positivo.

Muitas pessoas seguiram seu conselho.

Rais Vohra, diretor médico de um centro de controle de venenos da Califórnia, contou sobre um paciente de 52 anos de idade, COVID-19, que desenvolveu um batimento cardíaco irregular após três dias em hidroxicloroquina – do medicamento, não do vírus.

“Parece que a cura foi mais perigosa do que os efeitos da doença”, disse Vohra.

Estudos sugeriram que a droga não estava ajudando, mas eram fracos. E o mais influente , publicado na revista Lancet, foi retirado depois que grandes preocupações surgiram sobre os dados.

Almejando melhores informações, um médico da Universidade de Minnesota que havia sido recusado por financiamento federal gastou US $ 5.000 do seu próprio dinheiro para comprar hidroxicloroquina para um teste rigoroso usando pílulas placebo como comparação. No início de junho, os resultados do Dr. David Boulware mostraram que a hidroxicloroquina não impediu o COVID-19 em pessoas intimamente expostas a alguém com ele.

Um estudo do Reino Unido considerou o medicamento ineficaz para o tratamento, assim como outros estudos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e da Organização Mundial de Saúde.

O colega de Boulware, Dr. Rahda Rajasingham, pretendia matricular 3.000 profissionais de saúde em um estudo para verificar se a hidroxicloroquina poderia prevenir infecções, mas recentemente decidiu parar às 1.500.

Quando o estudo começou, “havia a crença de que a hidroxicloroquina era essa droga maravilhosa”, disse Rajasingham. Mais de 1.200 pessoas se inscreveram em apenas duas semanas, mas isso diminuiu depois de alguns relatórios negativos.

“A conversa nacional sobre este medicamento mudou de todo mundo quer esse medicamento … para ninguém quer nada com ele”, disse ela. “Isso meio que se tornou político, onde as pessoas que apoiam o presidente são pró-hidroxicloroquina”.

Os pesquisadores só querem saber se funciona.

Aprenda como a coisa vai

Em Pittsburgh, Angus está buscando algo entre a abordagem “just try it” de Trump e Fauci “faça o estudo ideal”.

Em uma pandemia, “deve haver um caminho do meio, de outra maneira”, disse Angus. “Não temos o luxo do tempo. Nós devemos tentar aprender enquanto fazemos. ”

Os 40 hospitais do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh na Pensilvânia, Nova York, Maryland e Ohio ingressaram em um estudo em andamento no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia que atribui aleatoriamente pacientes a um dos vários tratamentos possíveis e usa inteligência artificial para adaptar os tratamentos, nos resultados. Se um medicamento parece um vencedor, o computador designa mais pessoas para obtê-lo. Os perdedores são rapidamente abandonados.

O sistema “aprende rapidamente, então nossos médicos estão sempre apostando no cavalo vencedor”, disse Angus.

Um pequeno número de pacientes que recebem os cuidados habituais serve como um grupo de comparação para todos os tratamentos sendo testados, para que mais participantes acabem tentando experimentar alguma coisa.

Mark Shannon, um caixa bancário aposentado de 61 anos de Pittsburgh, foi o primeiro a entrar.

“Eu sabia que não havia cura conhecida. Eu sabia que eles estavam aprendendo à medida que avançavam em muitos casos. Eu apenas confio neles ”, ele disse.

Shannon, que passou 11 dias em uma máquina de respiração, recebeu o esteróide hidrocortisona e se recuperou.

Doris Kelley, professora de pré-escola de 57 anos em Ruffs Dale, sudeste de Pittsburgh, ingressou no estudo em abril.

“Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre o COVID-19.

Ela tem asma e outros problemas de saúde e ficou feliz em deixar o computador escolher entre os muitos tratamentos possíveis. Ele a designou para receber hidroxicloroquina e ela voltou para casa alguns dias depois.

É muito cedo para saber se o medicamento de um paciente ajudou ou se ele teria se recuperado por conta própria.

O caminho turbulento para o Remdesivir 

Quando o novo coronavírus foi identificado, a atenção voltou-se rapidamente para o remdesivir, um medicamento experimental administrado por meio intravenoso que se mostrou promissor contra outros coronavírus no passado, restringindo sua capacidade de copiar seu material genético.

Médicos na China lançaram dois estudos comparando o remdesivir com o tratamento usual de pacientes hospitalizados graves e moderadamente doentes. O fabricante do medicamento, Gilead Sciences, também iniciou seus próprios estudos, mas eles eram fracos – um não tinha um grupo de comparação e, no outro, pacientes e médicos sabiam quem estava recebendo o medicamento, o que compromete qualquer julgamento sobre se ele funciona.

O NIH lançou o teste mais rigoroso, comparando o remdesivir aos tratamentos com placebo intravenoso. Enquanto esses estudos estavam em andamento, Gilead também distribuiu o medicamento caso a caso a milhares de pacientes.

Em abril, os pesquisadores chineses encerraram seus estudos mais cedo, dizendo que não podiam mais registrar pacientes suficientes porque o surto diminuiu lá. Em um podcast com um editor de periódico, Fauci deu outra explicação possível: muitos pacientes já acreditavam que o remdesivir funcionava e não estavam dispostos a ingressar em um estudo em que pudessem terminar em um grupo de comparação. Isso pode ter sido especialmente verdadeiro se eles pudessem obter o medicamento diretamente de Gileade.

No final de abril, Fauci revelou resultados preliminares do estudo NIH, mostrando que o remdesivir reduziu o tempo de recuperação em 31% – 11 dias em média, contra 15 dias para aqueles que receberam os cuidados usuais.

Alguns criticaram a divulgação desses resultados, em vez de continuar o estudo para ver se o medicamento poderia melhorar a sobrevivência e aprender mais sobre quando e como usá-lo, mas monitores independentes haviam aconselhado que não era mais ético continuar com um grupo de placebo assim que um benefício era aparente.

Até esse estudo, o único outro grande e rigoroso teste de tratamento com coronavírus era da China. Enquanto o país corria para construir hospitais de campanha para lidar com a crise médica, os médicos designaram aleatoriamente pacientes do COVID-19 para receber dois medicamentos antivirais usados para o tratamento do HIV ou os cuidados usuais e publicaram rapidamente os resultados no New England Journal of Medicine.

“Esses pesquisadores foram capazes de fazer isso em circunstâncias inacreditáveis”, disse o principal editor da revista, Dr. Eric Rubin, em um podcast. “Tem sido decepcionante que o ritmo da pesquisa tenha sido bastante lento desde então.”

Por que a ciência importa

Por não testar adequadamente os medicamentos antes de permitir o uso em larga escala, “repetidamente na história médica, as pessoas se machucam mais frequentemente do que ajudaram”, disse Brawley.

Durante décadas, a lidocaína foi usada rotineiramente para evitar problemas no ritmo cardíaco em pessoas suspeitas de ataques cardíacos até que um estudo em meados da década de 1980 mostrou que a droga realmente causou o problema que deveria prevenir, disse ele.

Alta Charo, advogado e bioeticista da Universidade de Wisconsin, lembrou o clamor dos anos 90 de conseguir que as seguradoras cobrissem transplantes de medula óssea para câncer de mama até que um estudo sólido demonstrasse que “simplesmente deixavam as pessoas mais miseráveis ​​e doentes” sem melhorar a sobrevivência.

Escrevendo no Journal of American Medical Association, os ex-cientistas da FDA drs. Jesse Goodman e Luciana Borio criticaram o incentivo ao uso de hidroxicloroquina durante esta pandemia e citaram pressão semelhante para usar uma combinação de anticorpos chamada ZMapp durante o surto de Ebola de 2014, que diminuiu antes que a eficácia desse medicamento pudesse ser determinada. Foram necessários quatro anos e outro surto para descobrir que o ZMapp ajudou menos de dois tratamentos semelhantes.

Durante o surto de gripe suína 2009-2010, o medicamento experimental peramivir foi amplamente utilizado sem estudo formal, os drs. Benjamin Rome e Jerry Avorn, do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, anotaram no New England Journal. Mais tarde, a droga deu resultados decepcionantes em um estudo rigoroso e, finalmente, foi aprovada apenas para casos menos graves de gripe e para pacientes não hospitalizados gravemente enfermos.

Os pacientes são melhor atendidos quando nos apegamos à ciência, em vez de “cortar custos e recorrer a soluções rápidas atraentes e arriscadas”, escreveram eles. A pandemia causará danos suficientes e os danos ao sistema para testar e aprovar medicamentos “não devem fazer parte do seu legado”.

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Marilynn Marchione pode ser seguida no Twitter: @MMarchioneAP

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

Números da pandemia no Brasil no dia em que Bolsonaro informou estar infectado

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No dia em que o presidente Jair Bolsonaro veio a público dizer que foi infectado pelo coronavírus os números do Brasil na pandemia são o seguinte: total de infectados 1.668.589; infectados nas últimas 24 horas +42.518; total de mortos: 66.741, e mortos nas últimas 24 horas: +1,185 (ver figura abaixo).

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Enquanto isso, o Brasil continua sem ministério da Saúde, e como  ministério chefiado interinamente por um general sem nenhum treinamento na área da Saúde.

Assim, me desculpem os apoiadores do presidente se eu não derramar uma lágrima por ele nesta noite. É que existem muitos outros brasileiros que são mais merecedores da minha solidariedade.

Distopia campista em meio à pandemia da COVID-19 cobrará vidas nas próximas semanas

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Grandes aglomerações no primeiro dia de desconfinamento no centro histórico de Campos dos Goytacazes

As cenas que emergem das ruas centrais de Campos dos Goytacazes no primeiro dia de abertura do comércio de rua (em suma de todo o comércio) seriam plausíveis, dadas as circunstâncias de estarmos mergulhados em uma pandemia letal que sequer chegou ao seu pico, apenas se estivéssemos vivendo dentro de filmes distópicos, tais como Matrix, Blade Runner e “V” de Vingança (ver vídeo abaixo).

O problema é que o que vemos acima não são cenas de um filme distópico, mas fragmentos de uma realidade que foi estabelecida a partir de uma série de decisões tomadas em diferentes níveis de governo, e que finalmente se materializou de forma escancarada na cidade de Campos dos Goytacazes.

O resultado dessa aglomeração toda vai aparecer em um tempo limite de duas semanas, no que poderá se tornar uma avalanche de doentes que, pasmem, não terão sequer a possibilidade de pleitear um leito no prometido e nunca concretizado hospital de campanha que seria, mas não será mais, instalado no terreno da antiga Vasa em frente do Shopping 28 (aliás, quanto será que foi gasto com o aluguel do terreno até o dia de hoje?).

Logo no início da pandemia escrevi que Rafael Diniz tinha uma chance rara de recuperar seu mandato, dependendo da forma que gerisse a crise sanitária que se avizinhava. Com o que aconteceu hoje nas ruas de Campos dos Goytacazes, onde o necessário controle por parte do poder público municipal esteve completamente ausente, Rafael Diniz pode esquecer qualquer possibilidade de reeleição.

Agora, lamentavelmente, é só aguardar que o pior aconteça. É que com as aglomerações observadas nas ruas estreitas do centro de Campos dos Goytacazes nesta 4a. feira, as chances matemáticas de um aumento exponencial da contaminação simplesmente se tornaram bem maiores. Lamentável, mas inevitável.

 

COVID-19: tentativas e erros no desconfinamento social equivalem a jogar gasolina em incêndio

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Ao contrário da imagem inicial de que a pandemia da COVID-19 funcionaria como uma sequência de ondas que se sucederiam em amplitude menor (a primeira onda sendo a maior de todas) está sendo substituída por outra, a de um incêndio florestal. Nessa versão, enquanto houver material para queimar, o fogo vai continuar ardendo. 

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Se usarmos a imagem do incêndio nos cenários de desconfinamento que estão sendo usados no Brasil ao arrepio do conhecimento científico acumulado em quase 4 meses de vigência, e agora crescimento descontrolado da pandemia, veremos que governadores e prefeitos que estão relaxando as medidas de confinamento estão apenas jogando mais material para ser queimado, reavivando o incêndio sem que ele tenha dado mostras de que iria ser extinguido.

O problema é que o material que está sendo consumido não é composto de árvores mortas, galhos e folhas, mas de vidas humanas.  No dia de hoje (30/06), a contagem oficial (e subnotificada) é de que quase 1,5 milhão de pessoas já foram infectadas e quase 60 mil já morreram por complicações causadas no Brasil.  Esse número de mortos é quase 100 vezes mais o que o presidente Jair Bolsonaro previu logo no início de sua cruzada contra as regras de confinamento, mas a contagem continua se acelerando. Lembremos que em março, Bolsonaro previu (equivocadamente) que o número de mortos pelo coronavírus não alcançaria os 796 causados pelo vírus H1N1 (ver o vídeo abaixo).

Culpados para esse verdadeiro massacre são muitos, começando na presidência da república e chegando até os comerciantes que pressionam prefeitos e trabalhadores de que é preciso trocar vidas humanas por um simulacro de retomada da normalidade. Somado a isso a fragilização do Sistema Único de Saúde (SUS), temos as condições perfeitas para o levantamento das chamas que cada vez mais se aproximam de nós, levando ou mutilando pessoas conhecidas.

Aqui em Campos dos Goytacazes vejo com um misto de “eu já sabia” e pasmo, a decisão do jovem prefeito Rafael Diniz de permitir a reabertura do comércio e igrejas (muitas delas comércios da fé) a partir de amanhã. A alegação, absurda é preciso se frisar, é que se chegou a um equivalente aceitável entre leitos e doentes, desconhecendo por completo as evidências de que há uma gritante subnotificação de casos.

Alguém já disse, e eu assino embaixo, que de Rafael Diniz, o exterminador das políticas sociais que protegiam minimamente os pobres, não se poderia esperar muito, já que seu governo sempre agiu controlado pelo princípio da necropolítica. E não seria agora que Rafael Diniz se elevaria à condição de estadista que a cidade de Campos dos Goytacazes precisaria para enfrentar uma pandemia letal.  Ainda que isso seja verdade, não deixa de ser chocante a tomada de uma decisão que ignora o conhecimento científico já firmado sobre o fato que um confinamento social estrito é a única forma conhecida de conhecer a pandemia da COVID-19 até que a onda passe ou as chamas do incêndio virem brasas dormentes.

Interessante notar que em Goiás e Paraná, estados que juntos não possuem números que cheguem sequer próximos dos registros no Rio de Janeiro, os governadores estão restabelecendo medidas mais duras de confinamento social após detectarem o crescimento vertiginoso do número de casos. E olhe que estamos falando de Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, dois governadores conhecidos por suas posições de direita. Mas o processo está sendo reimposto na cidade de Belo Horizonte, governada por Alexandre Khalil, que não é nem de perto uma pessoa que defende ideias de esquerda.

A verdade é que para se combater a ampliação do caos causado pela COVID-19 não devemos nos guiar pela posição do espectro político em que possamos estar, mas pelas evidências científicas já amealhadas para conter e controlar a pandemia. Essa seria uma questão simples para ser entendida, mas que em um país no qual o novo ministro da Educação é pego mentindo sobre o seu currículo acadêmico de forma explícita e não é demitido sumariamente, isto evidentemente não é. Está mais claro do que nunca que as elites brasileiras se preocupam pouco com as evidências científicas, e muito mais com suas próprias necessidades de gerar lucro, nem que isso custe algumas milhares de mortes a mais. Até porque a ciência já demonstrou que quase 70% dos mortos pela COVID-19 no Brasil fazem parte da classe trabalhadora, que é para essas elites apenas material descartável que pode ser consumido no incêndio.

Por isso, aos que estão sendo empurrados para o desconfinamento precoce e jogados à própria sorte dentro do olho do furacão, restará a adoção das medidas de minimização da contaminação pelo coronavírus. Será deste disciplina coletiva que poderá sair o controle que não tem sido propiciado pela ação governamental.

Mas que fique claro que a história irá registrar quem foi que ajudou a manter o fogo aceso.   Por ser exatamente por isso que os historiadores sejam tão detestados no Brasil.

Adveniat: “Coronavírus atinge com força a população rural da América Latina”

A organização latino-americana de ajuda humanitária Adveniat e o Mission Medical Institute alertam que as populações rurais da América Latina sofrem de fome e falta de assistência médica durante a pandemia do coronavírus

Mutter mit Schutzmaske und Kindern am HerdAs taxas de infecção por corona também estão aumentando nas áreas rurais remotas da América Latina. Esta mãe em Quilombo Caraíbas, Brasil, se preocupa com a saúde de sua família. Foto: Adveniat / Florian Kopp 

A organização católica latino-americana de ajuda humanitária Adveniat e o Mission Medical Institute em Würzburg reclamam dos efeitos catastróficos da pandemia causada pelo coronavírus na população rural da América do Sul. “O coronavírus atinge com força mortal a população rural vulnerável da América Latina”, enfatizou o gerente geral do Adveniat Michael Heinz na segunda-feira, 22 de junho de 2020, em Essen. Há muito que o vírus se espalhou dos bairros pobres das grandes cidades para as regiões rurais remotas.

Com mais de dois milhões de infectados, o subcontinente é o epicentro da pandemia do coronavírus. Só o Brasil tem mais de um milhão de pessoas infectadas e mais de 50.000 mortas. O chefe do Adveniat criticou que a população rural, incluindo sobretudo os povos indígenas, afro-americanos e migrantes, foi excluída da assistência médica e estava à mercê da crise emergente de suprimentos: “A fome causa pelo coronavírus está aumentando por causa da escassez de alimentos. A comida está se tornando mais caros e os pobres não conseguem sobreviver por causa dos bloqueios e das medidas de quarentena “.

O diretor-gerente do Instituto Médico Missionário em Würzburg, Michael Kuhnert, também alertou que o vírus afeta pessoas no campo cuja defesa imunológica pode ser rapidamente superada devido à sua pobreza, ao sofrimento quase crônico de doenças infecciosas e à sua má situação nutricional se estiverem infectados pelo vírus Corona. . Os cuidados de saúde no campo já são insuficientes em horários normais.

É por isso que Kuhnert teme que os sistemas de saúde entrem em colapso nos tempos da Corona. “Os postos de saúde rurais e os hospitais, em particular, não são treinados adequadamente, e há uma falta de opções de diagnóstico e tratamento. A população rural também frequentemente não possui um suprimento adequado de eletricidade e água potável”.

Ao comunicado de imprensa da Adveniat, 22 de junho de 2020,  “Coronavírus atinge a população rural com força mortal”

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Blickpunkt Latin America [Aqui!].

Invisíveis e letais

Esforço para combater o coronavírus deve puxar novas medidas para reduzir poluição do ar

AIR POLLUTIONPesquisa da Harvard University sugeriu que as taxas de mortalidade por COVID-19 nos EUA aumentaram onde houve uma alta concentração de material particulado fino

Por Leo Cesar Melo*

Em diversas cidades do mundo, especialmente nas grandes metrópoles, a qualidade do ar melhorou significativamente com a implantação das medidas de isolamento social para conter o avanço da pandemia causada pela novo coronavírus, que em todo o planeta já infectou quase 9 milhões de pessoas e provocou a morte de mais de 400 mil. Antes mesmo de concentrar toda sua atenção na luta contra o  COVID-19, uma das principais preocupações da Organização Mundial da Saúde era com a questão da poluição do meio ambiente. Em 2019, a OMS fez um alerta de que a poluição do ar era o maior risco ambiental para a saúde da humanidade.

De acordo com a organização, por ano, 7 milhões de pessoas morrem prematuramente por doenças provocadas pela poluição atmosférica, causada principalmente pelos altos volumes de emissões da indústria, dos transportes e da agricultura. Além disso, 90% dessas mortes ocorrem em países de baixa e média renda.

Se nada for feito para reverter esse quadro, a tendência é que a situação se agrave. Portanto, para frear o avanço do problema, os principais agentes poluidores precisam urgentemente focar na eliminação, diminuição ou compensação de suas ações. Isso serve especialmente para as indústrias e para alguns segmentos de infraestrutura.

No Brasil, um dos setores que vem apresentando bons resultados nesse sentido é o de energia limpa. Por conta dos avanços nas políticas que favorecem o biogás, proveniente de materiais orgânicos e que por ser renovável pode substituir o uso de combustíveis fósseis. Iniciamos 2020 com mais de 400 plantas de biogás em operação, um crescimento de 40% na comparação com 2019. As indústrias podem auxiliar no crescimento desse mercado e ao mesmo tempo se favorecer dele, já que hoje existem diversas soluções viáveis de reaproveitamento de resíduos para geração de energia. Com isso cai a necessidade de compra de energia, algo bastante custoso para a produção e ao mesmo tempo reduzem os gastos com a destinação de resíduos.

Mas precisamos avançar muito mais, e por outros setores. O mundo deve encarar o problema da poluição ambiental com a mesma firmeza que está enfrentando o novo coronavírus. As atitudes tomadas em relação à pandemia para a superação dessa crise estão mostrando como a inovação e a ciência são capazes de solucionar os problemas. Que usemos esse exemplo para gerar outras grandes mudanças a favor do desenvolvimento sustentável.

* Leo Cesar Melo é CEO da Allonda Ambiental, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis