O mundo entra na era da ‘falência global da água’

UNU-INWEH report on 'Global Water Bankruptcy' | UN-Water

Durante décadas, cientistas, legisladores e a mídia alertaram para uma “crise global da água”, sugerindo um choque temporário seguido de recuperação.

O que está surgindo em muitas regiões, no entanto, é uma escassez persistente, em que os sistemas de água não conseguem mais, de forma realista, retornar aos seus níveis históricos.

“ Para grande parte do mundo, o ‘normal’ acabou ”, disse Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

 “O objetivo não é matar a esperança, mas sim incentivar a ação e o reconhecimento honesto da nossa falha hoje, para que possamos proteger e viabilizar o amanhã”, disse ele em uma coletiva de imprensa em Nova York na terça-feira.

Encargos desiguais

O Sr. Madani enfatizou que as conclusões não sugerem um colapso mundial, mas existem sistemas falidos ou quase falidos em número suficiente, interligados pelo comércio, pela migração e pelas dependências geopolíticas, de modo que o panorama global de riscos foi fundamentalmente alterado.

Os  encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos de baixa renda, as mulheres e os jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos.

Da crise à recuperação? 

O relatório apresenta a falência por dívida hídrica como uma condição definida tanto pela insolvência quanto pela irreversibilidade .

Insolvência refere-se à extração e poluição de água além dos níveis de entrada renováveis ​​e dos limites de esgotamento seguro.

Irreversibilidade refere-se aos danos a partes essenciais do capital natural relacionado à água , como zonas úmidas e lagos, que tornam inviável a restauração do sistema às suas condições iniciais.

Mas nem tudo está perdido: comparando a questão da água com as finanças, o Sr. Madani afirmou que a falência não significa o fim da luta. 

“ É o início de um plano de recuperação estruturado : estancar a sangria, proteger os serviços essenciais, reestruturar as reivindicações insustentáveis ​​e investir na reconstrução”, observou ele.

Conta cara

Segundo o estudo, o mundo está rapidamente esgotando suas “reservas naturais de água”: mais da metade dos grandes lagos do mundo diminuíram desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 35% dos pântanos naturais foram perdidos desde 1970, afirmou o Sr. Madani.

O custo humano já é significativo. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica.

Cerca de quatro bilhões de pessoas sofrem com a grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano, enquanto os impactos da seca custam cerca de US$ 307 bilhões anualmente.

“Se continuarmos a gerir estas falhas como ‘crises’ temporárias com soluções de curto prazo, apenas iremos agravar os danos ecológicos e alimentar os conflitos sociais”, alertou o Sr. Madani.

Correções de rota

O relatório defende uma transição da resposta à crise para a gestão da falência , baseada na honestidade quanto à irreversibilidade das perdas, na proteção dos recursos hídricos remanescentes e em políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.


Fonte: ONU

Encontro de ecossocialistas: é urgente colocar a classe no centro da luta anticapitalista

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Participei neste final de semana do “IV Encontros Internacionais Ecossocialistas. Alerta vermelho, alerta verde: dar forma à transformação ecossocialista” que ocorreu em Lisboa [1].  A reunião contou com militantes e intelectuais de diversas partes do mundo, e boa parte das discussões das quais participei giraram em torno da grave crise ecológica que hoje ameaça os ecossistemas planetários e a  própria sobrevivência da Humanidade.

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Nas diferentes mesas das quais fui ouvinte, um tema recorrente foi a necessidade urgente de que a luta anti capitalista se dê a partir do conceito de classe que seria segundo um dos palestrantes a única que seria capaz de fazer com que se restaure a unidade das classes oprimidas em torno de um projeto solidário de sociedade, o qual seja capaz de restabelecer o sentido de comunidade humana.

Este mesmo palestrante alertou para o fato de que se este projeto de reconstrução comunitária não for levado adiante pelos setores que se colocam contra  o Capitalismo, a ultra direita alastrará a sua visão de exclusão do diferente como forma de resolver as diversas formas em que a crise capitalista está se apresentando.

Um dos aspectos que considerei mais interessantes nos chamamentos para que a classe seja colocada à serviço da unificação das múltiplas lutas que hoje ocorrem contra as diferentes formas de opressão capitalista, foi o reconhecimento de que é necessário voltar a estudar os clássicos do Marxismo (incluindo o próprio Karl Marx, mas também Lênin e Rosa de Luxemburgo, dentre outros) no tocante aos processos de acumulação capitalista que foram solenemente abandonados pela esquerda nas últimas décadas. É que segundo outro palestrante, o Capitalismo financeirizado está cada vez mais necessitado de apropriar bens coletivos como as florestas e as águas para alimentar a forma particular de apropriação que esta fase capitalista requer. 

Por outro lado, também foram apresentadas ideias de que para a luta anticapitalista avance de forma positivo vai ser necessário estabelecer novas formas de colaboração entre sindicatos, movimentos de luta pelos direitos humanos e organizações ambientalistas.  Ao ver a experiência brasileira, vejo quão atrasados estamos na formação deste tipo de aliança em função da hegemonia de visões que fragmentam a luta no processo identitário.  No caso do Brasil, o primeiro desafio será convencer que é possível unificar todas as identidades dentro da classe. É que apesar de todos os recuos que tivemos, e que culminou na vitória de Jair Bolsonaro,  ainda não vejo nenhum balanço sério sobre o papel que a luta identitária, por mais justa que seja, cumpriu na fragmentação da classe trabalhadora e da juventude brasileira.


[1] https://alterecosoc.org/programme/