UENF aos 30: um carinhoso abraço tardio na celebração de 3 décadas de muitos desafios

uenf 30 anos

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) celebrou, em agosto de 2023, três décadas de contribuição significativa para o ensino superior no Brasil. A visão utópica idealizada pelo Prof. Darcy Ribeiro resultou em uma instituição inovadora que, ao longo dos anos, demonstrou seu compromisso com a excelência acadêmica e a promoção do conhecimento.

O ano de 1992 marcou um ponto crucial na história da UENF. Na época, após retornar de uma experiência na Universidade de Washington em Seattle, onde estive na Escola de Oceanografia, fui informado pelo meu orientador de doutorado, o Prof. Wolfgang Christian Pfeiffer, a criação de uma nova universidade na cidade de Campos dos Goytacazes sobre a liderança do Prof. Wanderley de Souza que na ocasião era Diretor do Instituto de Biofísica da UFRJ. Este último, se tornaria o primeiro reitor da UENF, estava à frente da formação de grupos para a constituição da instituição.

Nesse contexto, fui convidado a participar ativamente desse processo. Meu orientador, o Prof. Wolfgang, decidiu não se envolver diretamente, mas ofereceu todo o suporte necessário para a criação do Laboratório de Ciências Ambientais, do qual passei a fazer parte e onde estou até hoje.

A iniciativa de formar grupos para compor a UENF revelou-se não apenas como uma oportunidade para o estabelecimento de uma nova instituição de ensino superior, mas também como um marco na minha trajetória acadêmica. A visão e o comprometimento da equipe fundadora, aliados ao suporte irrestrito do Prof. Wolfgang, foram fundamentais para o sucesso do empreendimento.

Assim, ao completar três décadas, a UENF não apenas celebra sua existência, mas também a riqueza de suas contribuições para o cenário educacional brasileiro. O Laboratório de Ciências Ambientais, resultado desse esforço conjunto, destaca-se como um exemplo concreto do impacto positivo que a visão de Darcy Ribeiro trouxe para a comunidade acadêmica e para o país como um todo.

Destaco o ano de 1992 como um marco significativo, uma vez que a Constituição promulgada em 1989 estipulava que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) deveria iniciar suas atividades nos próximos 3 anos. Desta forma, e graças à participação ativa de diversos jovens doutores que conseguimos inaugurar diversos cursos na UENF, estabelecendo parcerias fundamentais, como aquela com a Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR).

Vale ressaltar que cursos importantes, a exemplo de Medicina Veterinária, tiveram seu início nas instalações dessa fundação. Ao longo de muitos anos, o setor administrativo da Fundação Estadual Norte Fluminense (FENORTE) também operou nesse ambiente. Este cenário alinhava-se com uma das utopias do saudoso Chanceler Prof. Darcy Ribeiro, que idealizou a colaboração entre a UENF e a FENORTE. Conforme essa visão, a UENF se beneficiaria do suporte administrativo da FENORTE, proporcionando aos professores todo o respaldo necessário para a gestão de seus projetos e aquisição de materiais para suas pesquisas.

Lamentavelmente, ao longo do tempo, essa relação não se concretizou conforme planejado, e, por diversos motivos, os quais não serão abordados neste momento, a FENORTE foi extinta em fevereiro de 2016. Essa realidade evidencia parte dos desafios enfrentados e as transformações ao longo da trajetória da UENF, marcando um capítulo importante em sua história institucional.

Na fundação da UENF, contamos com a significativa contribuição de vários membros da Academia Brasileira de Ciências e pesquisadores estrangeiros. Esses profissionais foram fundamentais durante o período inicial da instituição, e muitos deles permaneceram por anos. A experiência acumulada por esses cientistas foi essencial para consolidar diversos grupos de pesquisa que continuam contribuindo de maneira essencial para a UENF.

O modelo institucional da UENF estabeleceu um marco ao ser a primeira instituição de ensino superior no Brasil a contar com 100% do seu quadro docente permanente composto por doutores dedicados exclusivamente à pesquisa e ao ensino, e hoje, com atuação na extensão. Este modelo possibilitou o início simultâneo dos cursos de graduação e pós-graduação. Apesar de debates ocorridos nos conselhos superiores da instituição, nos quais a alteração desse modelo foi pautada, acredito não apenas na sua defesa, mas também na conexão direta entre esse modelo e os inúmeros resultados positivos experimentados por nossa instituição. Esse é um ponto que considero uma cláusula pétrea institucional e se tornou um alicerce fundamental para o crescimento e a qualidade da UENF.

Diferentemente de outras instituições, na UENF não adotamos uma estrutura departamental convencional. Nossos laboratórios buscam operar de maneira horizontal, abrangendo diversas áreas do conhecimento. Essa abordagem visa evitar a sobreposição excessiva de profissionais com formação semelhante. Embora reconheçamos a complexidade dessa abordagem, essa estruturação me parece adequada para os enfrentamentos necessários da ciência contemporânea. Além disso, a estrutura física de laboratórios compartilhados visa não apenas evitar a replicação desnecessária de infraestrutura analítica, mas também expandir as possibilidades de aquisição de novos equipamentos. Acreditamos que a multidisciplinaridade é a essência dessa abordagem, estimulando a interação entre diferentes áreas da ciência, enriquecendo as possibilidades de avanço nas pesquisas. Ao enfrentar os desafio e as resistências pela busca da horizontalidade nos laboratórios entendemos que este é o caminho que favorece a excelência acadêmica e a inovação.

Este não será meu último escrito sobre a instituição que moldou a maior parte da minha carreira acadêmica. Ao longo dos últimos anos, tenho testemunhado situações em que a história desta instituição é negligenciada. Com o início de uma nova administração em 2024, expresso minha sincera esperança de que conduzam a UENF com o devido cuidado para superar os desafios que persistem ao longo da rica trajetória desta instituição.

Dedico este texto a todos que, diariamente, contribuem para o crescimento da UENF, dedicando-se a respeitar o nome da nossa universidade e a sociedade que possibilitou sua criação por meio de uma mobilização significativa, agradeço.

Feliz Ano Novo


Carlos Eduardo de Rezende é  PQ 1B do CNPq, CNE da FAPERJ e Professor Titular da UENF, Fundador do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB). Na UENF foi Vice-Reitor, Pró-Reitor de Graduação e Diretor do CBB.

Darcy Ribeiro, o papel nefasto das corporações nas universidades, e as eleições na Uenf

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Quando cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) no início de 1998 me deparei com uma indisposição para a conexão da nossa associação de docentes à estrutura sindical existente.  Perguntando o porquê daquilo, me foi respondido que essa era mais um dos elementos pensados por Darcy Ribeiro para evitar o que ele considerava o papel nefasto das corporações dentro do meio universitário brasileiro.

Passados exatos 30 anos, eu diria que Darcy Ribeiro estaria se olhando no espelho e lamentando estar mais certo do que esperaria estar. É que olhando o que aconteceu nas eleições para a reitoria da Uenf, veremos ali todos os traços das coisas que levariam o fundador do nosso modelo de gestão a querer não ter estado tão correto em suas análises.

A verdade é que tivemos um uso inédito da estrutura sindical interna para beneficiar a candidatura do continuísmo.  Com isso, houve não um debate democrático das ideias como alguns querem alardear, mas uma disputa desigual para impedir que isso oocorresse. O resultado é que onde o debate houve, a chapa de oposição venceu. Entretanto, com o uso da máquina sindical e fortes pitadas de instrumentos típicos de cyber war, tivemos que assistir ao que eu previ mesmo antes de se saber quem era os candidatos, que foi o emprego de táticas tomadas dos manuais do pensador de extrema-direita estadunidense, Steve Bannon.

Além disso, houve ainda a clara interferência de figuras ligadas aos quadros municipais do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo o mais notável o reitor do Instituto Federal Fluminense (IFF), o proto candidato a prefeito, Jefferson Manhães. Ao se alinhar explicitamente à chapa do continuísmo, Manhães fez algo que seria muito criticado se o oposto ocorrer nas próximas eleições de sua própria instituição. Mas com certeza, o reitor do IFF fez o que fez para tentar angariar apoio para uma candidatura que tem tantas chances de derrotar Wladimir Garotinho em 2024 quanto a de se ter um dia frio no inferno.

Além do reitor do IFF, outras figuras menos importantes, mas igualmente ligadas ao PT Campos, transitaram dentro das eleições de forma bem atuante mesmo que sem ter qualquer vínculo com a Uenf, o que apenas reforça a interferência ilegítima de um partido que no plano municipal tem contribuição irrisória para a luta dos trabalhadores e da juventude, mas que encontrou na Uenf um nicho para angariar quadros e outras coisas mais.

O que essa situação toda me diz é que a reitora eleita vai ter que se debruçar sobre um dilema óbvio após a sua posse que será a convivência com aqueles que tornaram sua eleição possível. Alguns professores que votaram na chapa de oposição acreditam que o currículo acadêmico da reitora acabará gerando conflitos de interesse e dissenções tanto com os sindicatos internos quanto com os aliados dentro do PT Campos.  De meu lado, não nutro essa ilusão, pois se fosse para ser assim, a reitora eleita já teria aberto deste tipo de apoio, mas não fez porque sabia que as alianças feitas foram quem viabilizaram suas eleições.

Por último, que ninguém se surpreenda com vários candidatos se identificando como “Fulano da Uenf” ou “Beltrano da Uenf”.  É que não é só o reitor do IFF que atuou nas eleições da Uenf pensando em 2024.

Na véspera da eleição na Uenf, reitor parte para analogia futebolística e erra o gol (como sempre)

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Estou participando da sétima eleição para reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), e afirmo nunca presenicei tanto uso da máquina para tentar eleger uma chapa de continuísmo. Hoje, o ainda reitor da Uenf, professor Raul Palacio, resolveu partir para uma analogia metáfora futebolística para tentar defender a chapa 10. Vejamos o que está escrito na imagem abaixo:

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Primeiro, o irônico é a caixa contendo a palavra respeito já que se tem algo que faltou com os professores da Uenf nos últimos 4 anos foi exatamente isso, mas deixemos isso para lá. O que mais deixa curioso é que o reitor da UENF, palmeirense como eu, resolveu usar o exemplo do Flamengo que dispensou o limitado Dorival Júnior para tentar imitar o Verdão do Allianz Parque, e deu com os burros na poça. Mas há que se examinar qual foi o motivo do fracasso de Victor Pereira e agora o de Jorge Sampaoli. É que quem assistiu o jogo de ontem contra o São Paulo viu que o problema é claramente um time de jogadores burocráticos e que não demonstram qualquer disposição para enfrentar um adversário minimamente organizado. Era passe errado aqui, era furada ali, era cabeçada bisonha acolá. Assim, Sampaoli tem suas muitas culpas, mas os jogadores também.

Por isso, sem querer, o ainda reitor da Uenfnos ofereceu um belo quadro do que foi sua gestão. Um técnico limitado com jogadores que estavam fora de forma ou que eram apenas pernas de pau no lugar e hora erradas. Por isso, a Uenf, como o Flamengo, vive, digamos, uma crise técnica que se mostra no desempenho pífio no campeonato das universidades.]

Vou dar um exemplo. Neste semestre não consegui acessar a turma para quem estou ministrando uma disciplina antes das aulas começarem, e só recebi a carga da turma após o semestre iniciado! Só soube quem eram meus alunos porque fui procurar no sistema acadêmico e achei, mas não pude emitir a ata de presença e parti para a improvisação.  E isso, meus caros colegas de time, ocorreu em todos os quatro anos em que esse reitor/técnico atuou.  Por isso, amanhã não vamos trocar o certo pelo duvidoso, mas vamos tirar um grupo de jogadores e seu técnico de campo porque demonstraram ao longo de 8 anos (sim, 8 anos que é a duração dessa gestão em que só se trocaram as cadeiras de lugar) serem incompetentes e incapazes de guiar a Uenf para o futuro planejado por Darcy Ribeiro.

Finalmente, ao contrário do Flamengo que é bilionário e pode trocar um time inteiro junto com o técnico para os campeonatos do futuro e voltar a encantar a sua fanática torcida, a UENF não tem esse luxo porque o nosso negócio não é nada simples como parecer achar o nosso reitor/técnico de futebol.

E vamos eleger Carlão e Daniela amanhã porque o nosso time precisa cumprir o papel histórico que nos foi destinado por Darcy Ribeiro.

E nós sabemos que com esse time que está em campo sob o comando de um reitor/técnico de futebol, a derrota só vai se aprofundar.

Tentações autoritárias marcam fim da campanha eleitoral na Uenf

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Em meio às várias peculiaridades (vamos chamar assim) que marcaram a corrida eleitoral para a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), uma intervenção que ocorreu durante o debate entre as chapas concorrentes na última 5a. feira (14/9) deixou muita gente indignada. Ali, durante uma troca animada de opiniões, um dos candidatos a dirigir a reitoria entre 2024 e 2027, propôs que os “caciques” que supostamente impõe suas vontades sobre jovens pesquisadores fossem “ostracizados geograficamente”.

Essa proposta chocou a muitos dentro da universidade, na medida em que o seu idealizador Darcy Ribeiro foi uma das vítimas do “ostracismo geográfico” que foi imposta a milhares de brasileiros e brasileiras durante o regime militar instalado em 1964. Como todos devem lembrar, Darcy Ribeiro ficou exilado no Urugai após seu banimento público pelos militares.

Mas mais do que um mero escorregão em um momento de empolgação durante um debate, o que esta fala aponta é a explicitação ainda maior de um viés autoritário que já estava visível dentro da Uenf, mas que agora se mostrou mais claramente nos debates eleitorais.

Tais tentações autoritárias refletem bem o que tem ocorrido na Uenf sob uma gestão que desvaloriza a ciência para apostar no que eu tenho chamado de “prefeiturização” das relações da instituição com o seu entorno social. Um exemplo disso foi a participação de um secretário municipal na tentativa de angariar votos nas eleições que estão ocorrendo no polo de São Francisco do Itabapoana.  Somado a isso, tivemos a tentativa dos membros da chapa do continuísmo de ignorar as decisões da Comissão Eleitoral designada pelo Conselho Universitário da Uenf e impor, por exemplo, o uso proibido de camisetas nas áreas de votação nos polos em que temos estudantes na modalidade de ensino à distância (EAD). E pensar que a Darcy Ribeiro tinha como ideal a participação da Uenf e dos seus membros na elevação da cultura política na nossa região!

Recuperar a autoestima e o compromisso com a produção da ciência é uma necessidade estratégica para os próximos anos dentro da Uenf. Sem isso, as tentações autoritárias vão se fortalecer e inviabilizar o desenvolvimento pleno das grandes potencialidades que o projeto de Darcy Ribeiro representa não apenas para a região Norte Fluminense, mas para todo o Brasil.

Com perfil fake, eleições para a reitoria da UENF descabam para o vale tudo

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Por decisão da comissão eleitoral eleita pelo Conselho Universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), as chapas que concorrem à reitoria para o período de 2024-2027 tiveram que interromper a postagem de novos materiais a partir das 10:00 horas da manhã desta 6a. feira, o que foi efetivamente feito.

O que poderia parecer que haveria normalidade nas eleições que ocorrem amanhã (16/9)  nos polos CEDERJ e na próxima terça-feira (19/9) era apenas aparente. É que assim que os perfis oficiais cessaram a publicação de novos materiais, um perfil de autoria desconhecida (ou seja, um perfil fake) que já atendeu por pelo menos 4 nomes, sendo o último o sugestivo “estudantescomrosana10” começou a postar fotos e vídeos no que se configura em uma flagrante violação das normas eleitorias estabelecida pela comissão eleita pelo colegiado superior da UENF (ver imagens abaixo).

O fato é que ao agirem ao arrepio do que determina uma comissão eleitoral eleita pelo Conselho Universitário da Uenf, os criadores desse perfil agem claramente para minar as possibilidades de que o pleito que se inicia amanhã possa ocorrer de forma equânime.

Além disso, ao desprezar as regras estabelecidas pela Comissão Eleitoral, os criadores desse perfil que dissemina materiais que a estas alturas são ilegais em face das regras eleitorais aceitas por ambas as chapas certamente agem sob a certeza de que permanecerão impunes. 

Caberá agora aos representantes da chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros acionarem inicialmente a própria Comissão Eleitoral da Uenf para que este perfil seja descontinuado. Mas se isto não ocorrer de forma imediata, o mais provável é que a derrubada deste perfil tenha ocorrer por via judicial.

Como alguém que já participou de 7 eleições para a reitoria da Uenf desde 1998, eu realmente nunca presenciei nada como o que está ocorrendo nos últimos dias, sempre tendo como protagonistas pessoas ligadas à chapa do continuísmo.

Por fim, eu fico imaginando o que pensaria Darcy Ribeiro se ainda estivesse de tamanha afronta à democracia dentro de uma universidade que ele criou para servir como alicerce científico e da democracia. Certamente Darcy estaria primeiro envergonhado e depois furioso.

O Arquivo e a Universidade em ruínas…

darcy e brizola
Por Douglas Barreto da Mata*

O que a decrepitude física e institucional do Arquivo Público Municipal e a atual situação da UENF têm em comum?

Tudo…

Podemos dizer que todo o marasmo intelectual, toda indigência de gestão e de política institucional da UENF pode ser reificada nas ruínas do Arquivo Público…

Não é um acaso…é consequência…

Sempre acompanhei a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com um misto de admiração e ressalvas…

Sim, ressalvas que tenho a todo centro de produção de conhecimento que extrapola o poder inerente a ele (conhecimento) e cria hierarquias e cânones para, ao invés de democratizar os saberes, aprisioná-los para desfrute de poucos…

Darcy e Brizola sabiam desse perigo, intuíam isso…e criaram um modelo de Universidade que enfrentava a inclinação histórica das universidades à elitização…

Darcy já o fizera (ou ajudara a fazer) na UnB…

Por certo, eu sei que toda sociedade que conhecemos, falo das capitalistas, tende a criar elites econômicas e culturais, certamente…

Não dá para ter uma sociedade só de médicos, engenheiros, ou físicos nucleares…

No entanto, algumas sociedades nos ensinam que é possível dotar pessoas de diferentes graus de instrução, sem tornar essa diferença um abismo social instransponível, e/ou culturalmente hierárquico…

Bem, se você não concordar que existam tais sociedades no mundo, eu vos digo: há, pelo menos nos meus sonhos…

Esse foi o sonho de Darcy e de Brizola, e de tantos outros professores que compartilhavam e compartilham essa visão de mundo, que alguns insistem em chamar de antiquada…

É certo que talvez o sonho deles dois não coubesse no mundo de hoje, mas eu insisto…

O papel de uma universidade não é apenas de formar elites acadêmicas, mas fazer essas elites servirem à tarefa de propor novas formas de sociedade, e não se acomodar dentro delas…

Talvez por esse motivo eu tenha alguma esperança quando veja a candidatura do Professor Dr. Carlos Eduardo de Rezende, mais conhecido como Carlão, a Reitor da Uenf…

Posso falar um pouco da transição da Uenf, quando se libertou da tutela da Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte), porque lá estive, na Fenorte, no breve governo Benedita da Silva…

A orientação era clara: livrar a Uenf das amarras, e consolidar um processo de autonomia, que seria ratificado logo em seguida…

Porém, ouso dizer que as distorções criadas pela famigerada fundação deixaram sequelas profundas…

Estas sequelas repercutem hoje, na forma subserviente como cada Reitor se comportou desde então a cada ocupante dos governos estaduais e locais…

Eu sei, eu sei que as questões orçamentárias impõem jogos e acordos políticos, truques e salamaleques…

Porém, a escolha desse caminho como o único, ou seja, do pires nas mãos, do chapéu, ou da latinha de moedas é uma lástima…

A Uenf mendiga porque esqueceu de se tornar relevante ao povo que a cerca…perdeu, digamos, a conexão…

Não falo de populismo, festinhas, convescotes…ou outros aspectos amenos de sociabilidade…

Falo de sintonia política com a sociedade e suas demandas, que às vezes existem, e nem a própria (sociedade) as conhece…

Sem ser arrogante, a Uenf tem que fazer as perguntas que ninguém quer fazer, propor caminhos que ninguém quer tomar, deixar de ser apenas uma entidade burocrática de titulação, ou de produção de conhecimento-umbigo-ambíguo…

Podemos dizer hoje que a Uenf está em situação pior que o Arquivo Público Municipal…

A Uenf, como idealizada por Darcy e Brizola, morreu…

Esse ciclo de poder que revezou lideranças medíocres e ambiente acadêmico tóxico, disputas mesquinhas e corporativas matou a Uenf…

A Uenf é hoje uma universidade que poderia ter João Dória ou Bolsonaro como reitor, ninguém sentira a diferença…

Que venha a nova Uenf com Carlão…

*Douglas Barreto da Mata é Inspetor da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Em seus 30 anos, a Uenf se defronta com imensos desafios e oportunidades

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Em junho de 2001, Leonel Brizola visitou o campus da Uenf para apoiar a luta pela nossa autonomia frente à hoje extinta Fenorte

Hoje teremos os festejos na data que foi escolhida para marcar o início formal das atividades da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).  O aniversário de hoje é o trigésimo, e a efeméride será marcada com pompa e circunstância. Como alguém que chegou na Uenf em 1998, penso que essa jovem instituição se encontra, apesar da festa, em um momento crucial da sua existência, na medida em que atravessamos um longo inverno que tem sido marcado por um retração nas ambições intelectuais que foram impressas por Darcy Ribeiro no modelo institucional revolucionário que ele criou,

Mas também vejo uma enorme possibilidade que exatamente no ano em que completamos 30 anos, a Uenf possa ter um dos seus fundadores assumindo o cargo de reitor. A questão aqui é que precisamos retomar rumos que foram sendo paulatinamente abandonados, muitas vezes sob o silêncio de quem sabe que os rumos estão errados.  E para isso, ninguém melhor do que um dos que chegou em Campos dos Goytacazes para fincar raízes e transformar em realidade aquilo que Darcy idealizou.

Apesar dos dissabores e contratempos, sou daqueles que acha que a Uenf pode sim estar à altura do que foi sonhado por Darcy Ribeiro.  E o que Darcy sonhou não era e nunca será simples, pois ele delegou à Uenf um papel de transformação radical da realidade social e econômica vigente no Norte e no Noroeste Fluminense.  Essa transformação passava inclusive pela formação de profissionais que não seriam apenas excelentes tecnicamente, mas que também precisariam entender a necessidade de se ter uma consciência cidadã.  Mas que fique claro: Darcy com sua mente inquieta queria uma universidade que se desse como tarefa principal intervir nas abjetas condições sociais e econômicas em que a maioria do nosso povo vive.

Tenho plena consciência de que atravessamos uma transformação geracional na forma de produzir e assimilar conhecimento, onde as novas gerações estão expostas a tecnologias que eu só via nos filmes e desenhos de ficção enquanto ainda engatinhava nos meus primeiros anos de graduação na UFRJ. Esse contato é uma espécie de benção e maldição, já que acesso a essas tecnologias exige também foco para que a imensa potencialidade que elas trazem não se percam. Lamentavelmente, a Uenf não está hoje preparada para ampliar essa benção.

Entretanto, para vencer fazer a Uenf avançar no terreno em que Darcy Ribeiro preparou, vamos precisar mais do que fazer nossos estudantes se tornarem mais aptos a usar as potencialidades que as novas tecnologias fornecem.  É que dois dos piores obstáculos que qualquer instituição universitária vivencia atualmente  é a preguiça intelectual e a inaptência para novos desafios. Nesses quesitos é que a próxima reitoria vai ter que defrontar de forma efetiva ou será engolida pela mesmice que hoje reina de forma abundante. A verdade é que passada a festa de hoje, nos restará superar a imensa ressaca intelectual que se abateu sobre a Uenf, muito em um função de uma liderança que sequer entende a magnitude dos desafios que temos que continuar enfrentando para estarmos minimamente preparados as transformações que se avizinham, a começar por vivermos em um mundo assombrado pelas mudanças climáticas.

Quero dizer que realidade em que estamos é muito complexa, mas se olharmos com um mínimo de atenção o que os fundadores da Uenf deixaram como testamento intelectual, tenho confiança de que poderemos ser a instituição que eles idealizaram.

Longa vida à Uenf de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola!

Revista Reoriente lança dossiê para celebrar o Centenário de Darcy Ribeiro

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Uma publicação impulsionada a partir do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), sediado no Instituto de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ), a revista Reoriente(RED): estudos sobre marxismo, dependência e sistemas-mundo, que segue firme e forte, e acaba de lançar uma nova edição.

Esta edição traz como tema central, ainda que não exclusivo, o dossiê 100 anos de Darcy Ribeiro: Nuestra America e a civilização no século XXI.

Esta edição da RED  é aberta com uma entrevista de Ana Esther Ceceña, a Carlos Eduardo Martins, Roberta Traspadini e Roberto Goulart, sobre capitalismo, geopolítica e emancipações. 

O dossiê Darcy Ribeiro se constitui pelos artigos O atual dilema Latino-americano (Vitor Hugo Torin, Diogenes Breda, Evaldo Gomes Junior e Pietro Calderini Arut); Provocações de Darcy Ribeiro para economistas (Carla Curty, Maria Malta e Wilson Vieira); As escolas de formação e a obra do antropólogo Darcy Ribeiro: O Brasil e os brasileiros ( Yolanda Lima Lobo); A universidade necessária: o compromisso civilizatório (Lia Faria, Carla Villanova e Silvio Souza); Darcy Ribeiro na Amazônia paraense (Hubner Kliner Lobato, Anderson Ferreira e João Mota Neto) e pelas homenagens de Angela Ganem, Isaac Roitman e Wanderley de Souza.

Luiz Bernardo Pericas apresenta o artigo Cuba: economia e planificação nos anos 1970 e 1980 e Bernardo Salgado Rodrigues aborda a geopolitica decolonial latino-americana no sistema internacional contemporâneo.

A Reoriente traz ainda as resenhas de Por Um feminismo Afro-latino-americano da destacada Lélia Gonzalez, por Joana Coutinho; de Europe as the Western Peninsula of Greater Eurasia: geoeconomic regions in a multipolar world, do importante Glenn Diesen, que compõe o grupo de Valdai que assessora Putin, escrita por Carlos Eduardo Martins; e de 2050 China: Becoming a Great Modern Socialist Country, escrito por U, Angang; Shenglong Liu; Xiao Tang; e Yilong Yan, apresentada por Pedro Martinez. 

Esta edição fecha com chave de ouro com uma crônica que o grande humorista e escritor, Carlos Eduardo Novaes.

A equipe editorial da RED  deeja aos interessados uma ótima leitura que temos a certeza será proveitosa. 

 
A RED pode ser acessada [Aqui!]

No domingo, o voto em Lula é um voto em defesa da universidade pública, patrimônio dos trabalhadores brasileiros

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Neste próximo domingo estaremos diante de duas possibilidades de voto para o próximo presidente do Brasil. Posto abaixo a minha mensagem gravada em defesa não apenas da necessidade de se votar no ex-presidente Lula, mas também de que todos os que entendem a gravidade da situação que vivemos neste momento no Brasil trabalhem para garantir a maior quantidade possível de votos no candidato do Partido dos Trabalhadores.

Lembro que não se ganha eleição com resultados de pesquisas, mas com a ação incansável para convencer as pessoas a irem votar no domingo no único candidato que poderá nos ajudar a sair do caos social e econômico em que o Brasil se encontra neste momento.

Como eu disse no vídeo, como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, tenho a completa certeza de que se ainda estivessem vivos, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Oscar Niemeyer também estariam trabalhando pela eleição de Lula. É que simplesmente o outro candidato e atual presidente do Brasil representa tudo o que eles lutaram contra em suas ilustres vidas. 

Finalmente, o voto em Lula é acima de tudo em defesa dos trabalhadores brasileiros e das universidades públicas.

 

Celebrando os 100 anos de Darcy a partir da sua última e genial criação, a Uenf

Os muitos afazeres dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) me distraíram sobre a necessidade de escrever sobre uma data importante para a instituição onde cheguei em janeiro de 1998, qual seja, o Centenário do nascimento do seu criador, o professor Darcy Ribeiro.

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Para se celebrar devidamente esse aniversário não há outra maneira que não seja a de incorporar as inquietações que moveram Darcy Ribeiro ao longo da sua existência como pessoa, intelectual e ativista político. Não é sequer preciso que se concorde com tudo o que ele fez ou pensava. O essencial é compreender que a despeito de eventuais falhas ou limitações que todo ser humano carrega, Darcy Ribeiro era um apaixonado pelo povo brasileiro, especialmente aquela porção despossuído e relegada a um destino inglório para que uma minoria privilegiada se refastele em um fausto perdulário.

Como professor da última instituição que Darcy Ribeiro ajudou a desenhar, sou testemunha de que ele era um homem que procurava pensar as soluções para as incontáveis mazelas da sociedade brasileira de forma a incluir os que foram sempre excluídos.  A inquietação que marcou a vida do mineiro nascido em Montes Claros, mas que depois ganhou o mundo é evidente em cada uma das suas falas, não apenas pelo jeito que se manifestava, mas principalmente pelo conteúdo do que ele manifestava.

Em Darcy Ribeiro não era possível se pensar a acomodação a uma realidade dada, pois ele sempre procurava desafiar a tudo e a todos, de forma a colocar aqueles que o ouviam para participar da construção de suas utopias.  Ainda estou na Uenf, apesar de todas as limitações que vivenciei em quase 25 anos de magistério, por estar convencido que sua última criação merece que eu continue em seu interior ajudando a formar jovens que sem a instituição criada por Darcy e implantada por Leonel Brizola em cima de antigos canaviais não teriam como escapar das armadilhas postas a quem nasce pobre no Brasil.

Sou uma testemunha de como o pensamento crítico de Darcy Ribeiro é cada vez mais necessário para que possamos tirar o Brasil, e principalmente os pobres brasileiros, da condição nefasta em que estamos postos neste momento.

Viva Darcy Ribeiro, um legítimo herói do povo brasileiro.