Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.

Quantos portos ainda cabem no Açu?

De terminal de minério e petróleo a complexo de termelétricas, siderurgia, fertilizantes, hidrogênio, amônia e data centers, a expansão transnacional do Porto do Açu multiplica pressões sobre um território já ameaçado pela erosão e pela salinização

A expansão transnacional do Porto do Açu acumula data centers, termelétricas, siderurgia, fertilizantes e novos projetos energéticos sobre uma região já pressionada pela erosão, salinização e transformação das formas tradicionais de ocupação

A sucessão de novos empreendimentos anunciados para o emprrendimento criado por Eike Batista exige uma mudança na maneira de discutir seus impactos socioambientais. Já não basta avaliar separadamente uma termelétrica, um terminal portuário, uma siderúrgica, uma fábrica de fertilizantes ou um data center. O que precisa estar no centro da discussão são os efeitos cumulativos e sinérgicos da concentração de todas essas atividades sobre um mesmo território costeiro, ecologicamente sensível e que já apresenta sinais evidentes de estresse ambiental.

O anúncio de que a Yamna assegurou uma área para instalar um campus de data centers com capacidade inicial de 250 MW acrescenta uma atividade intensiva em eletricidade e potencialmente também em água a uma região onde a intrusão salina na foz do Rio Paraíba do Sul já compromete periodicamente o abastecimento de São João da Barra. Antes de celebrar a chegada da economia digital ao Açu, portanto, é indispensável saber quanta água será utilizada, de onde ela virá, qual tecnologia de refrigeração será empregada e o que acontecerá nos períodos de baixa vazão do Paraíba do Sul, quando aumenta o risco de avanço da cunha salina.

O problema torna-se maior quando esse empreendimento é colocado ao lado das atividades existentes e planejadas. O Açu concentra termelétricas e gigantescas operações de petróleo e minério de ferro, enquanto avança sobre siderurgia, hidrogênio, amônia, infraestrutura digital e cadeias vinculadas ao agronegócio. A recente entrada na movimentação de enxofre é ilustrativa: o desembarque inaugural foi de apenas 1,5 mil toneladas, mas a infraestrutura projetada pretende movimentar 300 mil toneladas anuais, além de abastecer uma futura unidade misturadora de fertilizantes. O Terminal Multicargas também já movimenta soja e milho, revelando uma estratégia explícita de abertura de uma nova frente de crescimento ligada ao agronegócio.

Estamos, portanto, diante da transformação progressiva do Açu em um complexo portuário, energético, industrial, agroexportador e digital. Entretanto, o território que recebe todos esses empreendimentos continua sendo o mesmo. O consumo de água se acumula, novas infraestruturas ocupam espaço, emissões se sobrepõem, aumenta a circulação de navios e caminhões e intervenções portuárias passam a coexistir com processos de erosão costeira, salinização e alterações em uma planície formada por lagoas, canais, restingas, praias, áreas úmidas e aquíferos.

A violência lenta de um território em transformação

É nesse ponto que o conceito de “violência lenta”, desenvolvido por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente apropriada para compreender o que ocorre no Açu. Diferentemente de uma catástrofe que acontece subitamente, a violência lenta se desenvolve durante anos ou décadas, por meio da acumulação de transformações que progressivamente deterioram as condições ambientais necessárias à reprodução da vida.

No Açu, essa violência não precisa assumir a forma espetacular de um grande desastre. Ela pode aparecer na erosão das praias, na salinização das águas, na transformação de lagoas, na perda de acesso a determinados espaços, na pressão sobre áreas agrícolas e pesqueiras e na substituição progressiva de formas tradicionais de utilização do território por grandes infraestruturas industriais e logísticas.

Essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante da crescente transnacionalização do complexo. Corporações privadas e empresas vinculadas a Estados estrangeiros participam de diferentes cadeias instaladas no Açu, fazendo com que decisões capazes de transformar profundamente São João da Barra sejam tomadas em escalas muito distantes das comunidades que experimentarão seus efeitos. O problema não está simplesmente na origem estrangeira do capital, mas na possibilidade de consolidação de uma geografia conhecida: decisões e benefícios internacionalizados enquanto custos e passivos ambientais permanecem territorializados.

Quando permanecer no território deixa de ser possível

É justamente aqui que a violência lenta encontra outra categoria importante: a dos “refugiados do desenvolvimento”. Grandes empreendimentos podem produzir deslocamentos não apenas por desapropriações formais, mas pela deterioração progressiva das condições necessárias à permanência das populações em seus territórios.

Quando agricultores perdem acesso à terra ou à água, pescadores encontram dificuldades crescentes para acessar áreas tradicionalmente utilizadas, sistemas lagunares são modificados ou a salinização compromete determinados usos da água, a expulsão pode ocorrer sem que exista uma ordem formal de remoção. As pessoas acabam saindo porque permanecer se torna econômica, social ou ambientalmente inviável.

Esse risco merece atenção especial no entorno do Porto do Açu. O V Distrito não começou a existir com a chegada do porto. Trata-se de um território historicamente ocupado por agricultores, pescadores e outras comunidades cuja reprodução social depende diretamente da terra, das lagoas, das praias e dos recursos hídricos. Se esses elementos forem progressivamente alterados, o resultado poderá ser uma nova rodada de deslocamentos produzidos não por uma única intervenção, mas pelo efeito acumulado de décadas de transformação territorial.

O que precisa ser avaliado agora é o próprio Açu

Por isso, o licenciamento fragmentado de novos empreendimentos está se tornando insuficiente. Um projeto pode parecer ambientalmente administrável quando estudado sozinho e tornar-se problemático quando colocado ao lado de muitos outros disputando os mesmos recursos e pressionando os mesmos ecossistemas.

O que precisa ser conhecido é a capacidade de suporte do território diante do conjunto dos empreendimentos existentes, licenciados e planejados. Isso significa avaliar conjuntamente disponibilidade hídrica, intrusão salina, erosão costeira, aquíferos, sistemas lagunares, biodiversidade, demanda energética, tráfego, mudanças climáticas e efeitos sobre as comunidades locais.

O Porto do Açu está apostando em ser uma das grandes concentrações portuárias, energéticas e industriais do Brasil, mas justamente sobre uma região costeira altamente sensível. A pergunta, portanto, deixou de ser se cada novo empreendimento consegue individualmente uma licença ambiental. A pergunta que realmente importa é quantos Portos do Açu cabem ambiental e socialmente em São João da Barra.

Continuar avaliando cada projeto como se os demais não existissem poderá fazer com que descubramos tarde demais que o limite não estava em cada empreendimento separadamente, mas na soma e, principalmente, na interação entre todos eles. E, nesse caso, a violência poderá ser lenta, mas seus resultados serão bastante concretos: um território profundamente transformado e comunidades convertidas, pouco a pouco, em refugiados do próprio desenvolvimento que lhes foi apresentado como inevitável.

Será que o impacto ambiental dos centros de dados está finalmente sendo compreendido?

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA – e o público só agora está descobrindo os potenciais efeitos em suas contas de energia

O centro de dados Meta El Paso, agosto de 2026. Fotografia: Brandon Bell/Getty Images

Por Dharna Noor para “The Guardian”

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA.

Mais de uma dúzia de estados consideraram moratórias para centros de dados. Nova York tornou-se o primeiro estado americano a promulgar uma proibição temporária no mês passado. Os progressistas senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez propuseram uma moratória nacional . E até mesmo Greg Abbott, o governador de extrema-direita do Texas, defendeu a proibição do desenvolvimento de centros de dados em áreas rurais de seu estado.

A preocupação com os centros de dados é alimentada por questões ambientais relacionadas ao uso da água e à contaminação tóxica, bem como por receios sobre o tipo de sociedade que as tecnologias de inteligência artificial impulsionadas pelos novos centros de dados estão criando.

Outra das objeções mais relevantes politicamente atinge um ponto diretamente relacionado ao bolso: os centros de dados exigem quantidades enormes de eletricidade, e esse aumento na demanda pode elevar as contas de energia.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026. Fotografia: Evelyn Hockstein/Grupo de moradores de Larbert.

O compromisso exige que desenvolvedores de data centers e empresas de inteligência artificial concordem em cobrir os custos da eletricidade que consomem e da nova infraestrutura necessária para conectar suas instalações à rede elétrica. O problema, segundo os críticos, é que o compromisso não tem força legal. Não é juridicamente vinculativo e não há consequências claras para as empresas que não o cumprirem.

Os grupos ambientalistas não ficaram particularmente impressionados : Patrick Drupp, diretor de políticas climáticas do Sierra Club, chamou a medida, no mês passado, de um “compromisso superficial” para famílias com dificuldades para pagar as contas, e Lena Moffitt, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Evergreen Action, descreveu o anúncio como uma mera “oportunidade para fotos com as grandes empresas de tecnologia”.

Os legisladores e os desenvolvedores apresentaram outras ideias sobre como garantir que os consumidores não arquem com o peso do crescimento da inteligência artificial em suas contas de serviços públicos, desde a implementação de tarifas para centros de dados até a simples proibição da construção dessas instalações até que novas regulamentações – inclusive sobre o consumo de energia – possam ser implementadas.

Em junho, os preços dos serviços públicos nos EUA subiram 4% em relação ao ano anterior, segundo dados federais, superando a inflação. A preocupação não mostra sinais de arrefecimento.


Fonte: The Guardian

Virgínia mostra o caminho: por que o Brasil precisa estudar antes de entregar sua água aos data centers

Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos

A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.

Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?

O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.

As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.

A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.

Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.

O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.

O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.

A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.

O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.

O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.

Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.

Data centers e o novo extrativismo digital: quando a inteligência artificial redefine a geografia da espoliação

Durante anos, a economia digital foi apresentada como uma alternativa limpa às atividades extrativas tradicionais. A imagem de uma “nuvem” imaterial ajudou a consolidar a percepção de que serviços digitais, inteligência artificial e computação em larga escala dependeriam muito mais de algoritmos do que de recursos naturais. Essa narrativa, contudo, começa a ruir à medida que a corrida global pela inteligência artificial exige uma expansão sem precedentes da infraestrutura física necessária para sustentar o processamento de dados.

O artigo de Lucas Zinet que foi publicado no Blog da Boitempo oferece uma contribuição importante para compreender esse fenômeno ao propor que os data centers constituem uma nova fronteira do extrativismo latino-americano. A analogia é particularmente pertinente porque revela que a economia digital não elimina a dependência de recursos naturais. Ao contrário, ela cria novas formas de apropriação intensiva de energia, água, terras e infraestrutura pública, frequentemente concentradas em países periféricos que assumem os custos ambientais enquanto capturam apenas uma parcela limitada dos benefícios econômicos.

Essa interpretação merece especial atenção no caso brasileiro. O país reúne exatamente os atributos mais cobiçados pelas grandes empresas globais de tecnologia: disponibilidade crescente de energia renovável, abundância relativa de água doce, extensas áreas para implantação de infraestrutura e uma posição geográfica estratégica para conexões internacionais por cabos submarinos. Não surpreende, portanto, que estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul disputem investimentos bilionários para atrair grandes centros de processamento de dados.

O problema reside na natureza dessa disputa. Os governos oferecem incentivos fiscais, infraestrutura energética subsidiada e facilidades regulatórias sob a promessa de geração de empregos e desenvolvimento regional. Entretanto, uma vez concluída a fase de construção, os data centers operam com um contingente relativamente pequeno de trabalhadores altamente especializados. Em outras palavras, trata-se de empreendimentos intensivos em capital, consumo energético e uso de recursos naturais, mas pouco intensivos em emprego.

Essa dinâmica guarda impressionantes semelhanças com outros enclaves de exportação que marcaram a história econômica latino-americana. Minas, monoculturas de exportação, grandes complexos portuários e agora data centers compartilham uma característica fundamental: organizam o território segundo as necessidades das cadeias globais de acumulação, deslocando para as populações locais os custos ambientais e sociais da atividade econômica.

No Brasil, essa lógica já pode ser observada na associação entre grandes projetos portuários, expansão da geração elétrica e instalação de infraestrutura digital. Não se trata apenas da construção de edifícios repletos de servidores, mas da reorganização de sistemas elétricos, redes de transmissão, disponibilidade hídrica e políticas públicas voltadas prioritariamente para atender às demandas das grandes plataformas digitais.

Outro aspecto particularmente relevante consiste no consumo crescente de água e eletricidade. Embora as empresas enfatizem avanços tecnológicos em eficiência energética e sistemas modernos de resfriamento, a expansão simultânea da inteligência artificial faz com que o consumo absoluto continue aumentando. Em regiões já sujeitas à insegurança hídrica ou à pressão sobre os sistemas elétricos, essa demanda adicional pode intensificar conflitos pelo acesso aos recursos naturais.

Há ainda uma dimensão geopolítica frequentemente negligenciada. Os dados tornaram-se um ativo estratégico comparável ao petróleo no século XX. Entretanto, enquanto muitos países latino-americanos fornecem energia, água e território para a instalação dessa infraestrutura, o controle das plataformas, dos algoritmos, da propriedade intelectual e da renda permanece concentrado nas grandes corporações sediadas nos Estados Unidos e na China. Assim, a promessa de inserção na economia digital pode reproduzir uma velha condição periférica: exportam-se recursos naturais e importam-se tecnologias e dependência.

Essa constatação não implica rejeitar a expansão da infraestrutura digital nem ignorar sua importância econômica. O desafio consiste em impedir que a transição para a economia da inteligência artificial repita os mesmos padrões históricos de espoliação que caracterizaram sucessivos ciclos extrativos na América Latina. Isso exige políticas públicas capazes de estabelecer contrapartidas efetivas, assegurar transparência sobre os custos ambientais, proteger os recursos hídricos, garantir tarifas energéticas socialmente justas e ampliar a apropriação local do conhecimento produzido.

O artigo publicado no Blog da Boitempo cumpre um papel importante justamente por deslocar o debate para além do fascínio tecnológico. Os data centers não representam apenas infraestrutura digital. Eles materializam uma nova etapa da disputa global por energia, água, território e soberania tecnológica. Em um momento em que governos disputam investimentos das gigantes da inteligência artificial, torna-se indispensável perguntar quem controlará essa infraestrutura, quem ficará com seus lucros e quem suportará seus custos ambientais e sociais.

Responder a essas perguntas talvez seja uma das tarefas mais urgentes para aqueles que pretendem construir uma economia digital que não reproduza, sob novas formas, as antigas veias abertas do extrativismo latino-americano.

Data centers são alvo crescente de processos judiciais globais relacionados ao clima, revela relatório

Uma análise da LSE destaca litígios relacionados a fontes de energia, consumo de água e poluição do ar

Um centro de dados do Google em Santiago, Chile, onde um projeto foi interrompido com sucesso em 2020 por motivos climáticos. Fotografia: Luis Bustamante/The Guardian

Por Isabella Kaminski

Um relatório constatou que a proliferação de centros de dados e inteligência artificial está cada vez mais na vanguarda dos litígios ambientais em todo o mundo, dos EUA e Reino Unido ao Chile e à Irlanda .

Em uma análise de cerca de 3.600 ações judiciais relacionadas ao clima, ajuizadas desde 2015, a mais recente revisão anual de litígios climáticos realizada pela London School of Economics (LSE) constatou um número crescente de casos que questionam as fontes de energia, o consumo de água e a poluição do ar dos centros de dados, todos com implicações climáticas relacionadas.

Um dos primeiros casos foi registrado em 2020 na capital do Chile, Santiago, onde o Google planejava construir um enorme centro de dados na região de Cerrillos. Um grupo de moradores e a prefeitura local contestaram as licenças concedidas ao Google, levantando preocupações sobre o impacto do empreendimento no abastecimento de água da cidade, que já sofre com a crise climática .

O processo judicial conseguiu interromper o projeto Cerrillos , sob a alegação de que os impactos climáticos não haviam sido devidamente considerados, mas não a explosão mais ampla de centros de dados, que está esgotando os pântanos chilenos já afetados pela seca .

O relatório da LSE identificou a Irlanda como um foco de litígios contra centros de dados. O governo irlandês quer que o setor se expanda , embora já consuma mais de um quinto da eletricidade do país.

Em dezembro, a Comissão Irlandesa para a Regulação dos Serviços Públicos (CRU) afirmou que os “grandes consumidores de energia”, como centros de dados, teriam permissão para operar com combustíveis fósseis pelos próximos seis anos, após os quais deveriam utilizar pelo menos 80% de energias renováveis.

As organizações Amigos do Meio Ambiente Irlandês (FIE), Amigos da Terra Irlanda e ClientEarth estão buscando uma revisão judicial da decisão, argumentando que ela prenderá a Irlanda ao gás fóssil, uma fonte de altas emissões e alto custo, por muitos anos.

A FIE apresentou várias outras queixas relacionadas a centros de dados na Irlanda, incluindo uma contra a Agência de Proteção Ambiental devido à aprovação de um projeto no sul de Dublin.

Nos EUA, também há uma crescente reação legal contra os centros de dados. Na Califórnia, a cidade de Pittsburgh agora exige que um centro de dados utilize energia renovável para geração de energia e água reciclada para resfriar seus servidores. Na Geórgia e na Pensilvânia , há processos judiciais em andamento contra órgãos reguladores estaduais pela aprovação de novas infraestruturas de combustíveis fósseis vinculadas a centros de dados.

Outro caso no Mississippi alega que a xAI, de Elon Musk, está violando a Lei do Ar Limpo ao operar geradores portáteis de gás metano sem as licenças necessárias. O processo, movido pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), afirma que esses geradores representam sérios riscos à saúde pública para as comunidades negras e minoritárias próximas. O Departamento de Justiça dos EUA está tentando bloquear o processo , alegando que o trabalho da empresa é essencial para a economia.

No Reino Unido, ativistas entraram com uma ação judicial contra a decisão do governo de aprovar a construção de um centro de dados “hiperescala” em Buckinghamshire. A Foxglove, uma organização sem fins lucrativos de justiça tecnológica, e a Global Action Plan, uma organização ambientalista, representadas pelo escritório de advocacia Leigh Day, afirmaram que a decisão ignorou as demandas de eletricidade e água do projeto e não considerou adequadamente seus impactos climáticos.

O governo reconheceu posteriormente que houve falhas no processo e a ação judicial foi arquivada. A construtora agora admite que as medidas para mitigar o impacto ambiental precisariam ser formalizadas por meio de um contrato com a prefeitura.

O relatório da LSE afirmou que casos nos EUA e no Reino Unido demonstraram como os litígios “podem impulsionar mudanças na tomada de decisões relacionadas ao clima, mesmo na ausência de julgamentos favoráveis”. Isso poderia melhorar a transparência, como no caso do centro de dados de Buckinghamshire, onde a dimensão total dos impactos ambientais “não teria vindo à tona”.

A coautora do relatório, Joana Setzer, professora associada da LSE, afirmou que esses casos não visavam necessariamente impedir o desenvolvimento, mas sim evitar uma maior dependência de combustíveis fósseis. “É uma oportunidade para que esses empreendimentos de alto consumo energético sejam abastecidos por energias renováveis ​​neste momento em que isso é possível”, disse ela.


Fonte: The Guardian

Datacenters estão se tornando o mais novo vilão político nos EUA

Novas pesquisas projetam que os custos de eletricidade no atacado nos EUA podem subir até 29% até o final da década, alimentando uma crise política crescente para o setor

Por Cris Tolomia para “Quartz” 

A frustração dos estadunidenses com a inteligência artificial está se transformando em oposição política organizada, impulsionada em grande parte pela raiva em relação aos custos de eletricidade ligados à rápida expansão de centros de dados em todo o país.

Uma pesquisa da Gallup divulgada na semana passada revelou que aproximadamente 70% dos estadunidesnes se oporiam à construção de um centro de dados de Inteligência Artificial (IA) em suas comunidades, citando preocupações com a sobrecarga nos recursos energéticos locais e a possibilidade de contas de luz mais altas como suas principais objeções. Uma pesquisa da YouGov e da Economist, realizada no mesmo período, mostrou que a maioria dos americanos acredita que o ritmo do desenvolvimento da IA ​​está ultrapassando a capacidade da sociedade de gerenciá-lo e que a tecnologia não trará benefícios econômicos significativos para as pessoas comuns.

A reação negativa já está remodelando a política local. A oposição da comunidade paralisou ou interrompeu 48 projetos, representando mais de US$ 156 bilhões em construções planejadas somente no ano passado, de acordo com dados da Data Center Watch citados pela Fortune .

Por trás dessa resistência, existe uma preocupação financeira concreta. Novas descobertas publicadas na revista Environmental Research Letters mostraram que a participação dos data centers na demanda nacional de energia mais que dobrou, passando de 1,9% para 4,4%, no período de cinco anos que termina em 2023. Dependendo da trajetória de crescimento dos data centers, essa mesma pesquisa estima que os preços da eletricidade no atacado em todo o país podem aumentar de 6% a 29% até o final da década. Na Virgínia, um polo de construção de data centers, os custos de geração podem subir até 57%.

Jeremiah Johnson, professor associado de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual da Carolina do Norte e principal autor do estudo, afirmou que a escala do crescimento da demanda não tem precedentes recentes no setor de energia. “O desafio aqui é que a magnitude dessa demanda de que estamos falando é realmente grande. Ela está em uma escala que supera em muito algumas das outras mudanças que vivenciamos no setor de energia nos últimos anos”, disse Johnson à Fortune.

A modelagem do estudo indica que os fornecedores de energia dependeriam substancialmente do gás natural, ao mesmo tempo que reativariam instalações de carvão ociosas, uma combinação que, segundo estimativas dos pesquisadores, poderia aumentar as emissões de dióxido de carbono do setor elétrico em até 28% antes do final da década. Sem subsídios federais para energia limpa na escala daqueles fornecidos pela Lei de Redução da Inflação — incentivos que o Congresso revogou em grande parte este ano —, o estudo constatou que o gás natural absorveria cerca de 70% do aumento da carga de geração, com o carvão, a energia eólica e a solar respondendo pelo restante.

As consequências políticas do aumento das contas de luz já tiveram um grande impacto no resultado de uma eleição . O democrata John McAuliff, ex-conselheiro climático da Casa Branca, derrotou um deputado republicano na Assembleia Legislativa da Virgínia no ano passado, atribuindo sua vitória apertada, em parte, à frustração dos eleitores com os custos de energia elétrica, ligados à concentração de data centers no Condado de Loudoun. Os legisladores da Virgínia agora estão analisando um projeto de lei que transferiria certos custos de conexão à rede elétrica de clientes residenciais para usuários de alto consumo, como data centers.

A viabilidade econômica dos data centers também tem sido questionada. A Virgínia deixou de arrecadar mais de US$ 1,6 bilhão em impostos no ano fiscal de 2025 devido às isenções fiscais para data centers, enquanto o setor gerou 1.610 empregos no mesmo período — um custo de cerca de US$ 1,2 milhão por novo emprego, segundo a VPM.

A indústria está respondendo com investimentos. Empresas de IA, incluindo Anthropic, OpenAI e Meta $META-1,41% Estão destinando pelo menos US$ 150 milhões para eleições estaduais e federais este ano por meio de organizações políticas e prometeram absorver uma parcela maior de seus custos com eletricidade, a pedido do presidente Donald Trump.


Fonte: Quartz

A insustentável leveza da inteligência artificial

Por Silvia Ribeiro para o “La Jornada”

O desenvolvimento rápido, desregulado e geralmente desnecessário de sistemas de inteligência artificial levou a um aumento brutal no consumo de água doce e energia globalmente, especialmente em comunidades onde grandes data centers estão instalados. Isso traz consigo um aumento global de gases de efeito estufa que aceleram a crise climática, além de impactos ambientais e à saúde.

Não é um desenvolvimento baseado na demanda . Há atores poderosos que a promovem agressivamente: a oligarquia tecnológica que agora governa os Estados Unidos sem ter um único voto. É uma estratégia deliberada para aumentar a dependência do usuário e o controle sobre os dados e o comportamento do usuário.

Tecnologias com inteligência artificial geral existem há décadas e podem ou não ser úteis para automatizar algumas atividades, dependendo do contexto, necessidades, alternativas, custos e impactos que acarretam. O desenvolvimento recente da chamada inteligência artificial generativa (GAI) é diferente porque não apenas coleta e sistematiza dados, mas também produz novos conteúdos que podem ser texto, imagens, som e até mesmo novas formas biológicas. Esse tipo de inteligência artificial sustenta aplicativos como o ChatGPT e similares. Exige processos de treinamento extensivos com grandes modelos de linguagem e conjuntos de dados cada vez mais volumosos, o que implica um aumento exponencial no uso de computadores, servidores, infraestrutura e, portanto, energia, água, recursos e geração de poluição e resíduos.

A digitalização em todos os setores industriais e seu uso individual em plataformas e redes sociais geram imensos volumes de dados que, para funcionar, exigem muitos computadores interconectados, ou seja, data centers que podem armazenar, processar, extrapolar e reinterpretar. Esses centros são a base física das nuvens de computação. Atualmente, três das maiores empresas da oligarquia tecnológica – Amazon, Microsoft e Google – controlam 66% das nuvens de computação do mundo e, junto com a Meta (dona do Facebook), 70% dos cabos submarinos.

Cecilia Rikap, do University College London, entrevistada na série Data Vampires pelo analista canadense Paris Marx, explica que grandes empresas de tecnologia estabeleceram uma estratégia deliberada de centralizar informações digitais em suas meganuvens. Ela é apresentada a empresas, instituições e governos como uma solução eficiente para evitar a criação de uma infraestrutura digital própria, com contratos que supostamente podem ser interrompidos. De fato, devido às constantes atualizações de programas e aplicativos de interconexão, fica muito difícil para quem contrata esses serviços revogar e até mesmo controlar o uso de suas informações. Os proprietários da nuvem ganham dinheiro vendendo o serviço, ao mesmo tempo em que aumentam seu acesso a mais dados e lucram com o negócio de vender ou usar a interpretação desses dados para influenciar escolhas de consumidores, políticas ou quaisquer outras.

Em 2018, havia 430 grandes data centers no mundo todo. No final de 2023 eram 992, atualmente são mais de mil. Com o uso da inteligência artificial generativa, estima-se que o número de grandes data centers dobre a cada 4 anos, sendo a maioria em hiperescala, uma categoria para aqueles com mais de 5.000 servidores e 10.000 pés quadrados de área de superfície. Por exemplo, a Amazon Web Services (AWS) está instalando um centro com mais de 50 mil servidores em Minnesota,

Com o sucesso de vendas do ChatGPT, todas as grandes empresas de tecnologia investiram no desenvolvimento de aplicativos com o IAG. A China acaba de anunciar o DeepSeek, um aplicativo muito mais barato que os dos EUA. Eles também incorporaram sistemas IAG em mecanismos de busca, celulares e diversos dispositivos, muitas vezes sem nos dar a opção de não usá-los, o que aumenta exponencialmente a demanda por água e energia sem que possamos decidir sobre isso.

De acordo com Sasha Luccioni, cientista da computação entrevistado pelo Data Vampires, a diferença entre fazer um cálculo matemático em uma calculadora manual com energia solar ou usar o ChatGPT pode multiplicar o uso de energia em até 50 mil vezes. Uma pergunta e resposta no ChatGPT ou em um mecanismo de busca de IA consome entre 0,5 e um litro de água. Também sujeito a erros frequentes e sem fornecer fontes.

As necessidades de água e energia são brutais e levaram a conflitos com diversas cidades onde estão instalados data centers. Cingapura, Irlanda e Holanda impuseram moratórias à instalação desses centros devido ao alto consumo de recursos.

Na América Latina, os principais locais para instalação de mega data centers são São Paulo, Brasil, e Querétaro, México. Em terceiro lugar está Quilicura, em Santiago do Chile, onde já há protestos da população contra essas instalações.

Os impactos ambientais, de saúde, sociais e políticos locais e globais do IAG são sérios e afetam a todos. Os lucros vão para um pequeno grupo de ultra-ricos.


Fonte: La Jornada