Fim do auxílio emergencial em meio à avanço da pandemia equivale a jogar fósforo aceso na gasolina

bolso nero

Com o anunciado fim do chamado “Auxílio Emergencial, em poucas semanas nem as maiores peripécias do presidente Jair Bolsonaro irão impedir que a dura realidade se instaura em milhões de lares brasileiros, onde faltarão os recursos necessários para colocar um pouco de comida na mesa.  Quem se dá ao trabalho de olhar o que está acontecendo nas ruas das cidades brasileiras com milhões de pessoas vagando em busca de comida não consegue entender como o governo Bolsonaro está cometendo um erro de cálculo político tão imenso, especialmente em um contexto de expansão da pandemia da COVID-19 que imporá uma redução na atividade econômica, jogando ainda mais pessoas em um já imenso exército de desempregados.

A resposta para esse aparente mistério está no apego do ministro Paulo Guedes a um receituário econômico que foi abandonado pela imensa maioria dos governos nacionais que, para combater a expansão da pandemia da COVID-19,  optou por destravar as torneiras dos recursos necessários par manter a suas respectivas populações com condições mínimas de sobrevivência. Em outras palavras, o fim do “Auxílio Emergencial” é uma consequência direta da manutenção da ortodoxia neoliberal pelo governo Bolsonaro. 

O presidente Bolsonaro, entre um mergulho em outro em praias ocupadas por seus apoiadores, sintetizou a disposição do seu governo com a singela frase “Toca a vida“.  A questão é que Bolsonaro sabe que dadas as condições estruturais da economia brasileira, não há como “tocar a vida”, a não ser que seja passando fome e sede.

O agravamento do cenário difícil que vivemos em 2020, e que jogará ainda mais brasileiros na condição de miséria extrema (o número inicialmente é de 15 milhões de pessoas), colocará uma pressão extraordinária sobre prefeitos e governadores. O problema é que estes também estão sendo pressionados a abraçar as mesmas políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes. Como governadores e prefeitos se comportarão ainda é um mistério, mas suponho que as eventuais resistências serão pontuais, e a maioria optará por apertar as contas para alcançar um impossível equilíbrio das contas públicas, optando por restringir gastos com políticas sociais.

Todo esse cenário disparado pelo fim do pagamento do “Auxílio Emergencial” acabará mostrando rapidamente o seu potencial de gerar uma forte explosão social nas principais cidades brasileiras. E que ninguém venha depois alegar algum tipo de surpresa, pois a decisão de jogar fósforo aceso em gasolina foi anunciada publicamente e adotada sem maiores resistências.

A prioridade econômica do Brasil é gerar empregos, não manter a disciplina fiscal

filaPessoas desempregadas fazem fila para obter uma senha para participação em um evento de oportunidades de emprego no centro de São Paulo, Brasil, em 26 de março de 2019. Foto tirada em 26 de março de 2019. REUTERS / AMANDA PEROBELLI

Por Jamie McGeever e Leandra Camera para a Reuters

BRASÍLIA (Reuters) – O Brasil foi aplaudido por investidores por insistir que seu desafio econômico mais urgente é enfrentar um déficit recorde causado pela COVID-19, mas um número crescente de economistas afirma que a prioridade do governo é fazer com que milhões de brasileiros voltem ao trabalho.

Os números da semana passada mostraram o péssimo estado do mercado de trabalho no Brasil. As taxas de desemprego e subemprego são as mais altas já registradas; o mesmo acontece com o número de pessoas que desistiram de procurar trabalho e saíram da força de trabalho.

A folga resultante está sufocando a demanda do consumidor por bens e serviços, desencorajando as empresas de investir, e é um obstáculo de longo prazo ao crescimento econômico, dizem os economistas.

A economia brasileira de US$ 1,3 trilhão deve encolher um recorde de 5% este ano e crescerá apenas 3,5% no ano que vem, de acordo com a última previsão de uma pesquisa semanal do banco central com economistas.

Um relatório do Ministério da Economia na semana passada intitulado ‘Estratégia de Crescimento Econômico de Longo Prazo’ – publicado em resposta a uma crítica da mídia local sobre o manejo da economia – destacou onde está o foco do governo.

A palavra ‘fiscal’ apareceu seis vezes, e houve seis referências feitas à agenda de ‘reformas’ do governo. Não houve uma única menção a ‘empregos’, ‘emprego’ ou ‘trabalho’.

O Brasil não está sozinho em gastar muito para minimizar os problemas econômicos da pandemia. Mas um ponto de partida fiscal fraco significa que a dívida do governo está em vias de terminar este ano em torno de 95% do PIB, muito maior do que a média da América Latina e do Caribe de 59%, de acordo com a Fitch.

Poucos contestam que o déficit recorde deve ser revertido em algum momento. Os investidores estão cada vez mais nervosos e os mercados brasileiros cada vez mais pressionados.

Ainda assim, o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse na segunda-feira que a prioridade da política de curto prazo do Brasil deveria ser “salvar vidas e meios de subsistência”. Uma consolidação fiscal foi necessária para reduzir a dívida no “médio prazo”, disse.

Um número crescente de economistas afirma que os desafios fiscais e de emprego estão relacionados: com a escassa demanda por bens e serviços, e que nenhum aperto de cinto do governo estimulará as empresas a investir e contratar.

“Não nego que o Brasil tenha um problema fiscal, mas o problema do Brasil não é fiscal”, disse José Francisco Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator em São Paulo.

“Se não houver esperança nem mesmo de baixo crescimento, o mercado de trabalho continuará extremamente fraco. Quem vai investir se a capacidade econômica não estiver sendo usada?”

O “mergulho” dos investimentos

Gonçalves disse que as empresas investem se estiverem confiantes de que a demanda e os lucros vão aumentar, o que normalmente depende de um mercado de trabalho saudável.

Mas o investimento empresarial no Brasil está fraco há muito tempo. No segundo trimestre, o investimento fixo bruto ajustado sazonalmente caiu para seu nível mais baixo desde 2006.

FIXEDINVESTMENTEvolução do investimento fixo no Brasil

Mesmo antes da pandemia, a economia brasileira estava desacelerando e o desemprego aumentando.

E com as transferências de ajuda emergencial para os pobres programadas para expirar no final de dezembro e um esquema de substituição ainda a ser determinado, as perspectivas econômicas para milhões de famílias são incertas.

“Perdi meu sustento. Não tenho casa; não tenho emprego”, disse Maria Lucia Spolzino Porto, 56, divorciada do Rio de Janeiro, que foi morar com o filho depois de perder seu trabalho em uma clínica de beleza.

Algumas métricas do mercado de trabalho melhoraram recentemente. O número de empregos formais aumentou por dois meses consecutivos e os pedidos de seguro-desemprego vêm caindo há semanas.

Mas o desemprego é um indicador defasado, o que significa que é lento para responder às mudanças nas condições econômicas. A taxa de desemprego – que atingiu 13,8% em julho – pode subir por meses, mesmo com a recuperação da economia.

O retorno às taxas de desemprego anteriores à pandemia, aos níveis de emprego, ao tamanho da força de trabalho e à parcela da força de trabalho ocupada poderia levar anos, em vez de meses, sem a ajuda do governo.

Eduardo Zylberstajn, economista e consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), olha o problema do outro lado: o governo não pode enfrentar o desemprego de maneira significativa se estiver carregado de déficit e dívidas recordes.

“Você não pode ajudar no emprego se não tiver espaço fiscal. Às vezes, a melhor ajuda que você pode oferecer é a disciplina fiscal, pois isso reduz as taxas de juros, aumenta o crédito e incentiva o investimento”, disse Zylberstajn.

12 milhões de desempregados

O problema é que as perspectivas de emprego no Brasil não eram tão boas, mesmo antes da pandemia, apesar das taxas de juros historicamente baixas, do mercado de ações em alta recorde e do otimismo entre os investidores de que a agenda de reformas amigáveis ​​ao mercado do governo estava no caminho certo.

Enquanto o número de brasileiros em idade produtiva que estão trabalhando é  de  apenas 47,1%, de acordo com o IBGE, mesmo antes do coronavírus atacar em fevereiro já era de apenas  54,5%.

Esse foi aproximadamente o mesmo nível que esteve desde 2016 e confortavelmente abaixo dos picos da série acima de 57% em 2012 e 2013.

DESEMPREGO1

Taxa de pessoas empregadas/ população em idade ativa no Brasil

O número de brasileiros trabalhando caiu  para 82 milhões, o representa um total de 12 milhões de desempregados. Mesmo o recorde de 94 milhões de pessoas trabalhando antes da pandemia mal acompanhava o crescimento geral da população desde o início da série do IBGE em 2012.

DESEMPREGO2Total de pessoas empregadas no Brasil

“Onde estão esses 12 milhões de pessoas que estavam empregadas no início do ano? A maioria delas terá que voltar para encontrar trabalho e  isso vai aumentar o desemprego”, disse João Sabóia, professor emérito do Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Vai ser uma recuperação muito lenta.”

(Reportagem de (Reportagem de Jamie McGeever em Brasília; reportagem adicional de Leandra Camera no Rio de Janeiro; edição de Daniel Flynn e Richard Pullin) no Rio de Janeiro; edição de Daniel Flynn e Richard Pullin)

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!]

O problema com a disparidade

O racismo é real e o anti-racismo é admirável e necessário, mas o racismo existente não é o que principalmente produz nossa desigualdade e o anti-racismo não vai eliminá-lo.

unemployment_coronavirus_0“Como o racismo não é a principal fonte de desigualdade hoje”, argumentam Reed e Benn Michaels, “o anti-racismo funciona mais como um equívoco que justifica a desigualdade do que uma estratégia para eliminá-la”. (Foto: Kena Betancu / AFP via Getty Images)

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Se a pandemia de COV ID-19 e os assassinatos de negros desarmados pela polícia tornaram visíveis as desigualdades subjacentes da vida americana, ambos foram recebidos com análises prontas de, primeiro, o que produziu essas desigualdades e, segundo, como para eliminá-los. O problema (considerado tão arraigado na vida americana que às vezes é chamado de pecado original da América) é o racismo; a solução é o anti-racismo. E a confiança no diagnóstico e na cura é tão alta que produziu ação em todos os lugares, desde BLM protestando nas ruas até a votação da legislatura do Mississippi para derrubar sua bandeira para salas de diretoria corporativas que prometem literalmente bilhões de dólares – tudo com o admirável objetivo de acabar supremacia branca.

Tudo isso, é claro, tendo como pano de fundo uma economia que – tanto para os brancos quanto para os negros – se tornou cada vez mais desigual ao longo do último meio século. O índice de Gini (uma medida de desigualdade em que zero significa que todos temos o mesmo, enquanto um significa que uma pessoa tem tudo) passou de 0,397 em 1967 para 0,485 hoje. (Em contraste, a pior pontuação atual na Europa é basicamente a nossa há meio século.) E a maioria das pessoas – pelo menos na esquerda – que se preocupa com a disparidade racial, sem dúvida acredita que a desigualdade entre as classes também é um problema. Na verdade, eles podem muito bem acreditar que atacar o racismo é um passo também na direção de atacar a lacuna entre o decil superior da riqueza americana e todos os demais.

Mas eles estão enganados. Na verdade, não apenas o foco no esforço para eliminar as disparidades raciais não nos levará na direção de uma sociedade mais igualitária, nem mesmo é a melhor maneira de eliminar as disparidades raciais em si. Se o objetivo é eliminar a pobreza negra e não simplesmente beneficiar as classes altas, acreditamos que o diagnóstico de racismo está errado e a cura do anti-racismo não funcionará. O racismo é real e o anti-racismo é admirável e necessário, mas o racismo existente não é o que principalmente produz nossa desigualdade e o anti-racismo não vai eliminá-lo. E porque o racismo não é a principal fonte de desigualdade hoje, o anti-racismo funciona mais como um equívoco que justifica a desigualdade do que uma estratégia para eliminá-la.

O que faz o racismo parecer o problema? As disparidades raciais muito reais visíveis na vida americana. E o que faz o anti-racismo parecer a solução? Duas crenças plausíveis, mas falsas: que as disparidades raciais podem de fato ser eliminadas pelo anti-racismo e que, se pudessem, sua eliminação faria dos Estados Unidos uma sociedade mais igualitária. A diferença de riqueza racial, por ser tão notável e comumente invocada, é uma ilustração muito boa, para não dizer perfeita, de como, em nossa opinião, tanto o problema quanto a solução são concebidos de maneira incorreta.

Já se sabe que os brancos têm mais riqueza líquida do que os negros em todos os níveis de renda, e a diferença racial geral na riqueza é enorme. Por que o anti-racismo não resolve esse problema? Porque, como Robert Manduca mostrou , o fato de os negros estarem super-representados entre os pobres no início de um período em que “trabalhadores de baixa renda de todas as raças” foram prejudicados pelas mudanças na vida econômica americana significa que eles “suportou o impacto” dessas mudanças. A falta de progresso na superação do hiato de riqueza entre brancos e negros tem sido uma função do aumento do hiato de riqueza entre ricos e pobres.

Na verdade, se você observar como a riqueza de brancos e negros é distribuída nos Estados Unidos, verá imediatamente que a própria ideia de riqueza racial é vazia. Os 10% do topo da população branca possuem 75% da riqueza branca; os 20% melhores têm virtualmente tudo isso. E o mesmo é verdade para a riqueza negra. Os 10% mais ricos das famílias negras detêm 75% da riqueza negra.

Isso significa que, como Matt Bruenig do People’s Policy Project observou recentemente,“a disparidade geral de riqueza racial é impulsionada quase inteiramente pela disparidade entre os 10% mais ricos dos brancos e os 10% mais ricos dos negros.” Isso não quer dizer que não existam diferenças em quase toda a linha: os negros pobres são, em geral, ainda mais pobres do que os brancos pobres. Mas significa que quando você diz a 80% dos brancos que possuem menos de 15% da riqueza branca que a desigualdade básica nos Estados Unidos é entre negros e brancos, eles sabem que você está errado. Mais revelador, se você disser a mesma coisa para 80% dos negros na mesma posição, eles também saberão que você está errado. Não são os brancos que têm riqueza branca; são os primeiros dez por cento dos brancos, além de alguns negros e asiáticos.

Tentar resolver o problema da disparidade racial, portanto, nada tem a ver com a produção de igualdade econômica; em vez disso, substitui a meta de igualdade pela meta de desigualdade proporcional. O ideal disparitarista é que os negros e outros não-brancos devem ser representados em todos os degraus da escada da hierarquia econômica em proporção aproximada à sua representação na população em geral. Em vez de se preocupar com a desigualdade, ela se preocupa com as desigualdades que foram produzidas pelo racismo. Obviamente, isso não faz nada para os brancos pobres. Mas, também obviamente, não faz nada para a maioria dos negros pobres. Em sua insistência de que a proporcionalidade é a única norma e métrica defensável de justiça social,

Reclamações sobre desproporcionalidade são matemática neoliberal. Eles nos dizem que o aumento da riqueza de um por cento estaria bem se houvesse mais bilionários negros, pardos e LGBTQIA +. E o fato de que o anti-racismo e a anti-discriminação de todos os tipos validariam em vez de minar a estratificação da riqueza na sociedade americana é completamente visível para aqueles que atualmente possuem essa riqueza – todas as pessoas ricas ansiosas para embarcar em um curso de purificação moral isso os tornará menos racistas, mas sem nenhum interesse em uma política que os tornaria menos ricos.

Como gerações de proponentes negros da social-democracia compreenderam claramente, é praticamente impossível imaginar uma estratégia séria para vencer os tipos de reformas que realmente melhorariam as condições dos trabalhadores negros e pardos sem ganhá-los para todos os trabalhadores e sem fazê-lo através da luta ancorado na ampla solidariedade da classe trabalhadora. Nosso outro ponto é que, mesmo se fosse possível, estaria errado. Uma sociedade onde igualar negros e brancos significa torná-los igualmente subordinados a uma classe dominante (principalmente branca, mas, realmente, o que isso importa?) Não é uma sociedade mais justa, apenas uma sociedade diferente. Esse é o problema da disparidade.

Uma versão mais longa deste ensaio está programada para publicação em Nonsite.org no final deste mês.

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Adolph Reed Jr. é professor emérito de ciência política na Universidade da Pensilvânia e organizador do Medicare for All-South Carolina.
Walter Benn Michaels é professor de inglês na Universidade de Illinois em Chicago. Ele é o autor de The Trouble with Diversity: How We Learn to Love Identity and Ignore Inequality (2006), que acaba de ser publicado em uma edição do décimo aniversário e, mais recentemente, de A beleza de um problema social: fotografia, autonomia, economia(2015).
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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Centro de Notícias Common Dreams [Aqui!].

 

Ajuste orçamentário nas universidades e institutos federais deverá ampliar o desemprego e a recessão

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O corte anunciado de cerca de R$ 2,2 bilhões no orçamento de 2019 de universidades e institutos federais deverá causar fortes atrapalhos não apenas no interior das instituições ou só capacidade de produção científica brasileira.  Algo que ainda não foi apontado até aqui será o feito que esse ajuste terá sobre um número incalculável de empresas que prestam serviços ou vendem insumos e equipamentos para o sistema federal de ensino.

É que confrontados com o encurtamento do orçamento, as direções das instituições certamente terão que cortar na própria carne, começando pelos serviços básicos de limpeza e segurança, mas chegando naquelas empresas que aportam insumos e equipamentos utilizados não apenas para a pesquisa, mas também para o funcionamento de serviços hospitalares, por exemplo. Com isso, não sofrerão apenas as empresas que prestam serviços ou vendem produtos para o sistema federal de ensino, mas, principalmente, a população brasileira.

Com o encurtamento orçamentário teremos então inevitavelmente fechamentos de empresas e demissões como subprodutos do ataque que está sendo desferido pelo governo federal contra o sistema federal de ensino.

Interessante notar que, ao contrário das fake news divulgadas para dar sustentação a este ataque inédito às instituições federais de ensino, o controle orçamentário realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e também por outros órgãos de controle, o sistema federal já é fortemente monitorado, havendo pouco espaço para estripulias com o dinheiro público.  

Entretanto, sabemos que a real motivação não é nem ampliar o investimento em educação básica, já que esse segmento também sofreu cortes, ou tampouco melhorar a gestão de recursos públicos pelo sistema federal de ensino. O que está em jogo é pura e simplesmente a destruição pura e simples de um patrimônio que levou várias gerações para começar a dar frutos.  Agora, só faltará salgar a terra arrasada em que querem transformar nossas universidades e institutos federais para que ali nunca mais brote nada. Tal como fez o Império Romano em Cartago no ano 146 antes de Cristo (a.C.).  

Por último, há que se apontar que muitas cidades que possuem instalações de universidades e institutos federais são hoje diretamente dependentes da capacidade dessas instituições de empregar e dinamizar a economia municipal. Especialmente nas cidades localizadas no interior é que os efeitos colaterais do ajuste feito pela dupla Bolsonaro/Weintraub deverão resultar em repercussões mais dramáticas.

 

Porto do Açu e a falácia do milagre dos empregos

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Venho acompanhando a implantação do Porto do Açu mesmo antes da primeira pedra ter sido plantada no interior do canteiro de obras que o ex-bilionário Eike Batista tanto inflou em suas apresentações de Powerpoint. Uma das grandes falácias (i.e. argumentos  logicamente inconsistentes, sem fundamento, inválidos ou falhos na tentativa de provar eficazmente o que alegam) que foram usadas para vender o empreendimento como a pílula mágica para superar o histórico atraso econômico regional é de que o mesmo seria um centro de geração de empregos.

O tempo e a derrocada do império de empresas pré-operacionais de Eike Batista trataram de colocar em questão a falácia do  Porto do Açu como uma meca do emprego. A verdade é que não houve qualquer aumento substancial nem consistente na oferta de empregos em São João da Barra, nem nos municípios limítrofes a partir da implantação e funcionamento do porto de Eike Batista.

Mas dito assim, sem números, pode parecer que estou exercitando a minha má vontade contra o Porto do Açu, não é? Felizmente, o prof. Alcimar das Chagas Ribeiro do Laboratório de Engenharia de Produção (Leprod0 da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) resolveu me ajudar a tornar meus argumentos menos abstratos e postou  ontem em seu blog “Economia Norte Fluminense” a evolução na oferta de empregos para São João da Barra entre os anos de 2011 e 2015 (Aqui!), e os resultados mostrados apontam que, no mínimo, o Porto do Açu não serviu como um elemento de minimização para o aumento do desemprego municipal, como bem ilustra o gráfico abaixo.

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E atentem para o fato de que a tendência à perda e não geração de empregos começou já em 2013 e vem se prolongando no tempo. Neste período o Porto do Açu começou a pelo menos operar o pouco que foi finalizado em seu interior. Mas nem isto parece ter resolvido o problema do aumento do desemprego em São João da Barra. Em outras palavras, o Porto do Açu prometeu muito, mas acabou se mostrando inócuo no tocante á geração de empregos.

Mas a falácia da “Meca do emprego” ainda possui elementos negativ0s adicionais, tanto no nível econômico como ambiental. É que somadas as desapropriações nunca pagas, o recuo na produção agrícola, os problemas de salinização de águas e solos, e a erosão costeira, as chamadas externalidades negativas do Porto do Açu representam um baque tremenda para um município que já possui dificuldades evidentes para sair de um processo histórico de estagnação econômica.

O pior é que a prefeita eleita de Sâo João da Barra já deu todas as mostras de que vai jogar boa parte de sua energia administrativa para aumentar a dependência que o seu município possui em relação ao Porto do Açu, com a promessa de secretarias municipais com a finalidade de “azeitar” as relações com a atual controladora do Porto do Açu, a Prumo Logística Global.  Pelo jeito vai ser como aquele jogador que está numa mesa de “Black Jack” que resolve colocar todas as suas moedas numa aposta claramente perdedora.

Leitor aborda crise do desemprego gerado pela agonia da Anglo American em Minas Gerais

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No dia 27/02/2016 publiquei uma material que me foi enviado por um leitor de Conceição de Mato Dentro (MG) que narrava as causas da agonia em que a mineradora Anglo American se encontra neste momento em suas operações em território mineiro (Aqui!).

Pois bem, agora outro leitor que reside em Conceição do Mato Dentro me enviou o outro lado da moeda que são as consequências sociais da situação vivida pela Anglo American. E pelo que pode se depreender da narrativa que segue abaixo, o processo de demissões que assolam os empregados da Anglo American está contaminando empresas que prestam serviços para ela.

Essas demissões representam outro ponto baixo na situação que se estabeleceu em Conceição do Mato Dentro após a chegada do grupo econômico do ex-bilionário Eike Batista que depois repassou o chamado projeto Minas-Rio para a AngloAmerican.

Agora, o que eu fico imaginando é por quanto tempo vai se tentar vender a ideia de que a crise da AngloAmerican não vai afetar o funcionamento do Porto do Açu já que a mineradora é, de fato, a principal parceira que o empreendimento efetivamente possui. A ver! 

DISPENSAS NA ANGLO AMERICAN E AFILIADAS ASSOMBRA CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO E REGIÃO

No dia 02/02/2016, representantes do sindicato METABASE de ITABIRA e região iniciaram atividades na cidade de Conceição do Mato Dentro contra a demissão de funcionários no empreendimento Minas-Rio. O METABASE realizou uma manifestação pacifica, distribuindo panfletos e transmitindo mensagens de repúdio através de veículo com amplificador sonoro, também colheu assinaturas na tentativa de reversão do quadro de demissões.

Abaixo dois dos panfletos distribuídos:

 

Por outro lado, no dia 04/02/2016 no jornal DeFato online o posicionamento da AngloAmerican em relação às demissões realizadas recentemente pela empresa.

Segue abaixo a matéria

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O link para acesso à publicação está disponível Aqui!

Paralelo a isso, correm informações ainda extra-oficiais que a construtora CIAP, empresa terceirizada da ANGLO AMERICAN, demitiu cerca de 500 funcionários em Conceição do Mato Dentro, pois a empresa feito feito um planejamento equivocado, acarretando em dívidas de pagamento para mão de obra e para o comércio local.

As obras da CIAP eram realizadas no bairro BOUGANVILLE, com finalidade de construir casas populares para moradia de funcionários. As informações disponíveis indicam que a CIAP teria finalizado 70%, e que para a conclusão do restante será aberta nova licitação. Enquanto isso, um grande número de trabalhadores de CMD e região foi desempregado, e não há informações se estes receberam a compensação final da empresa CIAP.

Desmobilização em Suape só é similar à da construção de Brasília, afirma secretário

 Por Paulo Veras

Obras da refinaria Abreu e Lima. Foto: Heudes Regis/JC Imagem.

“Na história do Brasil, só houve desmobilização similar quando Brasília foi construída. E a gente sabe como é o entorno de Brasília até hoje”, afirmou nesta terça-feira (2) o secretário de Desenvolvimento de Pernambuco, Márcio Stefanni, ao comentar a demissão de trabalhadores no Complexo Industrial e Portuário de Suape, na Região Metropolitana do Recife (RMR), onde foram construídos, nos últimos anos, grandes empreendimentos como a Refinaria Abreu e Lima e os estaleiros Atlântico Sul e Vard Promar.

De acordo com o Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), cerca de 42 mil trabalhadores devem ser demitidos só da Refinaria em 2015. Para efeito de comparação, Stefanni explicou que existem 25 mil trabalhadores diretos em Suape, enquanto as obras do empreendimento da Petrobras concentram até 112 mil pessoas.

“Não há muito o que o Estado de Pernambuco possa fazer”, explicou o secretário, lembrando que a relação trabalhistas entre a Petrobras e os funcionários não é mediada pela administração de Suape.

Stefanni garantiu que a Secretaria de Trabalho de Pernambuco tem trabalhado para realocar essas pessoas. O secretário também disse que algumas obras tocadas no Estado; como o Arco Metropolitano, a Transnordestina, a fábrica da Fiat e a construção de barragens; podem atender aos trabalhadores desligados de Suape.

Nesta terça, o próprio governador João Lyra Neto (PSB) saiu em defesa dos terceirizados que atuaram na construção da refinaria, que alegam estar sem receber salários. “Não temos nenhum envolvimento direto com a ação, mas enquanto Governo temos responsabilidade com trabalhadores que precisam de apoio”, disse.

“As pessoas estão abandonadas e sem dinheiro, devido ao atraso nos pagamentos das indenizações. Muitos trabalhadores são de outros estados e estão sem recursos para se manter em Pernambuco”, defendeu Lyra.

Nas últimas semanas, a Petrobras chegou a ter valores bloqueados em suas contas pela Justiça do Trabalho de Pernambuco para garantir o pagamento dos terceirizados, que têm protestado em Suape e nas ruas do Recife.

A Petrobras já reconheceu que deve R$ 50 milhões com a empresa terceirizada Alusa e teve contas neste valor congeladas pelo judiciário.

FONTE: http://blogs.ne10.uol.com.br/jamildo/2014/12/02/desmobilizacao-em-suape-e-similar-da-construcao-de-brasilia-afirma-secretario/