Metade das mulheres passou a cuidar de alguém na pandemia, revela pesquisa

mulheres pandemia

Por  bori

As condições de trabalho se transformaram radicalmente durante a pandemia de Covid-19, sobrecarregando, principalmente, as mulheres. Metade das brasileiras passou a cuidar de alguém durante esse período, e 41% das mulheres com emprego afirmam estar trabalhando mais do que antes. Os dados são de pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista. O estudo indica que a realidade não é a mesma para todas. Nos ambientes rurais, 62% das respondentes afirmaram que passaram a exercer tarefas de cuidado.

Para identificar os efeitos da pandemia sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa, os pesquisadores aplicaram um questionário online com mais de 2.600 mulheres brasileiras entre abril e maio. A perspectiva era de que as tarefas de cuidado e trabalho passaram a se sobrepor de forma mais intensa durante os meses de isolamento social. A análise das respostas levou em conta variáveis como raça e área de residência das respondentes, se moram em zonas rurais ou urbanas. A amostra é representativa da população brasileira.

Os dados mostram que as mulheres residentes em áreas rurais e negras assumiram mais responsabilidades com relação ao cuidado do outro. Além disso, as mulheres negras parecem ter menos suporte nestas tarefas.

A maior parcela das mulheres que seguiu trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários é de mulheres brancas. Elas relataram estar trabalhando mais no período da quarentena, evidenciando que a ausência de funcionárias no domicílio ou de espaços como a creche/escola pesou mais para esse grupo. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%.

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena. Para Tica Moreno, socióloga da SOF Sempreviva Organização Feminista envolvida no estudo, os dados mostram que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que o trabalho e a economia pararam durante o período de isolamento social. “Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar”, comenta.

Para os pesquisadores, entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe. Os resultados do estudo, segundo Guilliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, dão visibilidade para a crise do cuidado. “O cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global”.

Os impactos da COVID-19 na desigualdade de gênero dentro de lares

COVID GENERO

Por Giuliana Schunck e Tricia Oliveira, advogadas do escritório Trench Rossi Watanabe

Nos últimos anos, o mundo vem celebrando a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres. São muitas as reportagens e notícias exaltando mulheres em cargos de liderança em grandes multinacionais ou posições políticas importantes. Tais conquistas são de extrema relevância e devem, sim, ser festejadas e propagadas, no entanto, há muito ainda pela frente a ser conquistado no âmbito da igualdade profissional e, mais ainda, no âmbito doméstico.

Em reunião com o grupo de gêneros, parte do Comitê de D&I de nosso Escritório, surgiu a discussão de como o isolamento social decorrente da pandemia da COVID-19 colocou em evidência a sempre existente desigualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com as crianças e idosos. Antes do isolamento, apesar de a desigualdade já ocorrer, ela de certo modo era mascarada pelo fato de as crianças irem para a escola, algumas até em período integral e por vezes haver uma “participação” maior do homem que auxiliava no transporte ou em tarefas de casa, sem contar com a possibilidade de maior ajuda com profissionais que realizam tarefas domésticas (isso, claro, para uma parcela de privilegiados), muitos dos quais tiveram que ser afastados para também cumprirem o distanciamento.

Nesse momento, com todos em casa, lições remotas, sem auxilio externo, mais do que nunca se mostra absolutamente acertado o ditado que diz que “é necessária uma vila para cuidar de uma criança”, pois de fato é preciso toda a comunidade para participar dos cuidados com as crianças. Mesmo antes do isolamento, como padrão em uma sociedade patriarcal, as mulheres já tinham a maior carga de conciliar o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos ou parentes idosos. Com o home office, esse cenário se intensificou.

Não há dúvida de que o cenário que temos hoje em termos de divisões de tarefas aparenta ser melhor do que tínhamos há 50, 20 ou até mesmo 10 anos atrás. Mas ainda assim, a situação, talvez na maioria dos lares, é de alguma (ou até mesmo grande) desigualdade.

Na prática, o que se vê são as mães muito mais preocupadas (a chamada carga mental de pensar em tudo) e ocupadas com as questões da casa (comida, limpeza etc.), com as tarefas da escola, e com o entretenimento das crianças em tempos de pandemia.

Essa situação acaba, de forma perversa, refletindo no desempenho profissional das mulheres, que já tanto lutam para poder ocupar espaços de maior destaque, sem contar seus reflexos em sua saúde mental e física.

Uma reportagem do portal The Lily (do The Washington Post) aponta que as mulheres acadêmicas estão produzindo menos artigos científicos durante a pandemia por conta, justamente, do aumento dos cuidados domésticos. Por outro lado, homens da academia estão submetendo 50% a mais de artigos, porque supostamente têm mais tempo de dedicação ao trabalho. E essa realidade, medida no meio acadêmico, certamente pode ser transposta para diversos outros setores profissionais. Isso sem contar outras camadas da população mais vulneráveis, como as trabalhadoras informais.

A ONU Mulheres emitiu relatório sobre os impactos da COVID-19 sobre as mulheres, em diferentes aspectos, desde profissionais e de remuneração, saúde, trabalhos domésticos e não-remunerados, até questões de violência doméstica, demonstrando como esse recorte de gênero é importante e necessário durante a pandemia.  A ONU Mulheres também sugere algumas ações, tais como compartilhar os trabalhos de casa, ler, assistir e compartilhar histórias sobre mulheres, conversar sobre a desigualdade com a família, continuar o ativismo de forma online, entre outros. Mas a verdade é que a eliminação da desigualdade passa por diferentes espectros sociais.

Sem dúvida, é importante fomentar a igualdade dentro de casa, dividindo as tarefas entre parceiros, educando meninos e meninas da mesma forma, mostrando à comunidade que todos ganham em uma sociedade mais igualitária. Porém, os esforços são também importantes em outras searas, como empresas, organizações, escolas, universidades entre outras entidades. É preciso educar a sociedade, de forma geral, que pais e mães devem dividir as responsabilidades com a casa e com os cuidados dos filhos e idosos. Não há nenhuma razão – a não ser aquelas de machismo e patriarcado, – que efetivamente justifique que as mulheres sejam as cuidadoras de todos na sociedade.

Em tempos de pandemia, há de se aproveitar o momento e fomentar mudanças sociais, que inclusive já estavam ocorrendo gradualmente. Já se viu que o home office funciona e as organizações estão se tornando mais empáticas com as necessidades de seus empregados, com a flexibilidade de tempo, entre outras iniciativas que ajudam na questão da igualdade. Outras mudanças também podem acontecer na sociedade: companheiros e pais mais participativos, organizações mais atuantes e engajadas na mudança, uma sociedade mais atenta, mais aberta ao debate e à efetiva necessidade de mudança de comportamento. Esperamos que seja possível aproveitar a experiência do isolamento para que esses novos olhares e atitudes se incorporem na rotina das pessoas e empresas. Não há como voltar ao “normal” depois de tudo isso, justamente porque o “normal” não estava funcionando, impunha um peso muito maior às mulheres e outras minorias, mostrava que nossa sociedade não estava em equilíbrio.

Que possamos refletir, agir e criar uma nova maré para ser seguida por todos, modificando e melhorando a nossa sociedade.

O problema dos bilionários do Brasil

bilionarios

Para compreender a desigualdade global, primeiro você tem que entender a desigualdade do Brasil .

*Por Patrick Iber

Pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014 , quando Thomas Piketty lançou o seu livro “O Capital no século XXI”, que foi publicado inicialmente em inglês e tomou o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times. O livro de Piketty atingiu um nervo, ajudando a disseminar várias ideias-entre elas a de que o capitalismo não gera automaticamente uma distribuição razoável ou equitativa da renda e que prestar atenção ao 1% dos mais ricos é necessário para se compreender a política. Piketty focou sua análise na concentração de riqueza nos séculos 19 e 20 na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, lugares onde a maioria dos dados que disponibilizados para esses períodos. Mas se Piketty se comportasse, em vez do economista que é, como um repórter que trabalha para compreender o mundo que os extremos de desigualdade fizeram hoje, ele não olharia para os países ricos. Ele poderia muito bem ter escolhido para se concentrar no Brasil, como Alex Cuadros fez em seu novo livro intitulado “Brazillionaires”.

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Cuadros, um repórter da Bloomberg, chegou ao Brasil em 2010 com uma missão tipo a encaminhada por Piketty: investigar a vida dos não 1%, mas dos 0,0001% mais ricos dos brasileiros. Parte de seu trabalho foi organizar a classificação bilionários brasileiros na lista da Bloomberg. Uma espécie de US News & World Report do ranking dos super-ricos, bem como para se informar sobre seus negócios e suas vidas pessoais.  No “Brazillionaires”, ele consolidou e moldou tais perfis em um pujante e engajador retrato envolvente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata de mídia Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como os principais meios de comunicação do Brasil retratam a questão da raça, e através disso, suas ideias e ideologias sobre as questões raciais. Seu capítulo sobre Edir Macedo, um pregador na linha do “evangelho da prosperidade”, que lhe permite discutir a mudança nas práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de um determinado bilionário, Cuadros inclui reflexões de sua própria lavra e de informações obtidas gastando a sola do seus próprios sapatos. Ele visita os grupos comunitários nas favelas e vai junto no helicóptero $ 1.500 por hora que seus casos de estudo (no caso os bilionários) usam para evitar os congestionamentos de trânsito. O livro pode ser mais revelador do que os bilionários estudados gostariam. Na verdade, ele não estará disponível no Brasil, ´pois um dos bilionários em questão não ficou feliz com o que viu nos rascunhos do livro, e por causa disso os editores recuaram da ideia de publicar a obra em português.

O bilionário mais importante para o livro é, sem dúvida, Eike Batista. Eike, como é conhecido, subiu tão alto que chegou ao posto de oitavo colocado na lista de bilionários da Bloomberg, com uma fortuna estimada de US $ 30 bilhões de dólares. Eike ambicionava se tornar o homem mais rico do mundo. Eike que foi campeão de corridas de lanches tem implantes de cabelo usando as tecnologias mais modernas, e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo que posou para a Playboy e foi rainha do Carnaval. Um de seus filhos, Thor Batista, mostrou seu enorme torso muscular no Instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um Mercedes-Benz SLR McLaren avaliado em mais de um milhão de dólares. Eike e sua família dificilmente poderia ser menos representativos do estilo de vida de playboy bilionário dos ultra-ricos globais.

Portanto, Eike serve como um símbolo dos problemas do Brasil de hoje, e cerca de metade dos capítulos Brazillionaires é dedicada a ele. Apesar do que parece ser diferenças fundamentais na perspectiva e ideologia, Eike forjou uma relação de trabalho pragmática com os governos do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda. Até a presidente Dilma Rousseff, que foi suspensa do exercício do cargo por legisladores hostis em maio deste ano, o país tinha sido governada pelo Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda desde 2003, primeiro sob o metalúrgico e líder sindical organizador Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois sob Dilma (2011-2016). Antes de Lula tomar posse, os ricos brasileiros ficaram preocupados com o que iria acontecer quando Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu-a como uma regressão. Mas Lula que estava determinado a quebrar a associação de governos de esquerda com o caos econômico, e construiu alianças com oligarcas brasileiros.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreveu como “querendo trazer a nação não tanto para o Século XXI  com alta tecnologia e alta finança, mas para o Século XX, com portos, barragens e grandes empresas brasileiras de base.” Porque Eike controlava um conjunto de empresas inter-relacionadas, principalmente nos setores de mineração e gás, e tinha feito grandes apostas na perfuração offshore, ele recebeu grandes empréstimos de bancos estatal de desenvolvimento. Em função disso Eike se aproximou de Lula.

A corrupção é quase uma parte esperada de negócios e políticos no Brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário de “estilo americano” e “self-made”, não foi uma exceção. Ele ajudou a financiar um filme biográfico lisonjeiro sobre Lula e gastou quarto de milhão de dólares em um leilão para comprar um terno que Lula tinha usado em sua posse. Mas, apesar da evidência de corrupção e conflitos de interesses através do sistema político, por um tempo todos pareciam estar se beneficiando. A economia do Brasil fez enormes progressos. A classe média cresceu e os padrões de qualidade de vida entre os pobres melhorou dramaticamente. Desnutrição foi diminuída pela metade. Um dos programas com a assinatura de Lula, o Bolsa Família, forneceu transferências monetárias diretas aos pobres, parcialmente em troca de frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários entrevistados por Cuadros justificaram a sua riqueza com alguma versão do argumento “do que é bom para a GM é bom para o país”. A maioria dos brasileiros considerou esta abordagem aceitável: Lula deixou o cargo com a aprovação de mais de 80%.

Mas os problemas surgiram em 2013. O governo do Brasil e seus consumidores tinham tomado dívidas em demasia. Os preços das commodities estavam caindo. As previsões de produção de campos de petróleo offshore de Eike se mostraram ser insuficientes para ele cobrir seus custos e suas empresas começou a colapsar. O seu patrimônio líquido estimado caiu de US$ 30 bilhões para US$ 1 bilhão negativo um em apenas dois anos, e ele se viu perante o tribunal, acusado de fazer uso de informações privilegiadas. Em 2012, seu filho Thor atingiu e matou um ciclista pobre com aquela McLaren avaliada em milhões de dólares. Os julgamentos de Eike e Thor pareciam ser testes para se saber se os poderosos poderiam ser responsabilizados pelas suas ações num momento em que as pessoas comuns estavam sofrendo com a deterioração das suas condições vida e com suas esperanças frustradas.

Em toda a sua ora, Cuadros é crítico dos bilionários que retrata, mas ele não os denuncia. Em alguns deles ele encontra qualidades admiráveis. Mas ele está ciente, de que os mitos contados sobre eles e dos mitos que ele contam sobre si mesmos são profundamente prejudicais. O mais próximo que ele chega a um crítica é quando ele pergunta a funcionários do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil depois da queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser, e de parte da Heinz), para citar alguma “coisa nova” que ele tivesse criado como um empreendedor adequadamente deve fazer. Eles não deram qualquer exemplo, e ele escreveu “Em uma apresentação recente para investidores recente Heinz apresentou inovações que misturaram mostarda amarela e molhos picantes”. É como se fosse um tipo destruição criativa sem a parte da criatividade.

Muitos dos brasileiros pobres admiram seus conterrâneos ricos, como Cuadros deixa claro. Muitos na classe média direcionam sua ira contra os pobres. Alguns de nós temos que trabalhar duro, mas:

” nós temos estas pessoas que não fazem nada e podem viver uma boa vida boa.” Quando eu perguntei a ela se ela coloca seu dinheiro em certificados de CDBs que recebem altas taxas de juros, ela respondeu que sim. Ela ficou surpresa quando eu argumentei que isto também era um subsídio público, uma muito maior, uma vez que o governo paga enormes somas para os bancos para ter seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três de quartos dos adultos apoiados pelo Bolsa Família também precisam trabalhar para sobreviver.

Se Cuadros tem uma agenda, esta pode ser descrita como a ênfase nas contingência dos resultados econômicos, bem como sobre os obstáculos à mobilidade e ao acesso, todos que fazem a ideia de meritocracia pouco mais do que um meio para justificar a desigualdade extrema.

Estas questões-e todos os tipos de conversas sobre mérito, bem estar e distribuição da riqueza, não são, naturalmente, de nenhuma maneira única restritos ao Brasil. Brazillionaires se refere na superfície sobre o Brasil, mas pretende ser mais do que isso.  O Brasil, em alguns aspectos importantes, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país.  O Brasil tem sido em décadas recentes um dos países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntos e medir as desigualdades de riqueza, o que se acha encontra é um nível maior de desigualdade do que existe em qualquer única nação. Ainda assim, o perfil do Brasil é que fica mais próximo de igualar a situação mundial: uma pequena rica e dominante classe alta, uma classe média modesta, e uma grande maioria de pobres que luta por renda e direitos efetivos.

O Brasil é incomum entre os países de desigualdade elevada dado o fato que seus cidadãos estão espalhados por todo o espectro de classes sociais. Nos Estados Unidos, por outro lado, em termos puramente monetários, os pobres são de renda média para os padrões mundiais.  O Brasil tem pessoas que são tão pobres como outros em qualquer outro lugar, e ainda tem, portanto, pessoas que são tão ricas quanto qualquer um em outro lugar qualquer. Apenas um dos entrevistados de Cuadros expressou qualquer tipo de remorso sobre essa situação peculiar. Guilherme Leal, co-fundador de uma empresa de cosméticos sustentáveis (a Natura, grifo meu) disse a Cuadros que se sente desconfortável em ser bilionário em um país tão pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são os menos desiguais”.  Leal adicionou ainda que:

“Onde todos pudessem ter uma qualidade de vida bastante decente e razoável. Se eu tivesse que desistir de uma parte significativa da minha riqueza, e pagar 30% ou 40% a mais impostos, mas que com isso eu pudesse viver num país com menos desigualdade, eu seria mais feliz.”

Ainda assim, quando sua companhia foi instada a pagar milhões de dólares em impostos não recolhidos, Leal afirmou que: “aqui no Brasil, se você não tentar lidar de forma inteligente com a carga tributária, você vai falir.” Se o nível de desigualdade do Brasil choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então devemos reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós somos todo o Brasil.

Cuadros não faz essa comparação global de forma explícita, mas ele espalha trilhas de pedaços de pão para uma terceira interpretação do conteúdo do seu livro. Mesmo o subtítulo da edição nos EUA “Riqueza, poder, decadência e esperança num país americano” visivelmente não diz que “país latino-americano”, mas americano. O ponto, que ele faz com certeza é de que estes problemas não são apenas Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas nos EUA reclamar com desânimo que enormes porções da Amazônia estão sendo desmatadas para o plantio de soja e a criação gado, como também fazem os ambientalistas brasileiros. Mas a atividade de traz ganhos de curto prazo para as áreas pobres do país e, como Cuadros aponta, os EUA tem feito o mesmo cálculo com o uso de fracking nos últimos anos.

Ambos os países são ex-sociedades escravagistas que lutam para enfrenta seus legados de racismo institucional e a violência que acompanha a patologização de um pobre racializado. Ambos são lugares onde os ricos têm aos meios garantir que seus filhos se tornem prósperos e mais se beneficiam até mesmo de bens públicos, como a educação.  A corrupção institucional tem sua cultura particular no Brasil, onde ela tanto pode ser uma frustração cotidiana quanto completamente exasperante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike Batista por manipulação de mercado e uso de informações preferenciais apreendeu alguns dos seus bens pessoais para depois ser flagrado dirigindo o Porsche Cayenne de Eike pelas ruas do Rio de Janeiro)

Mas o que dizer das nossas práticas completamente legais de lobbying na qual a experiência no governo pode ser transformada em riqueza privada, e as corporações e as pessoas ricas tem grande influência sobre a aprovação de leis?  A história de nossos poderosos bilionários não é simplesmente sobre produção de valor social, mas de bolhas, monopólios, negócios preferenciais, e a violência estatal e privada contra os trabalhadores. Os EUA são mais ricos e sua democracia é mais antiga, mas não é assim tão diferentes do Brasil.

Por causa dos Jogos Olímpicos, o Brasil é agora o centro da atenção mundial. Mas o fato de que os jogos acontecem num momento de conflito político e recessão econômica certamente é desapontador para os líderes brasileiros. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros que estão caindo de paraquedas para visitas rápidas serão certamente atraídos pelo exótico: a beleza da paisagem e do povo, futebol, Carnaval, as favelas, e assim por diante. Brazillionaires é apenas uma lembrança aos telespectadores nos EUA serão mais bem servidos se não olharem para o Brasil como um lugar exótico com problemas igualmente exóticos. Contemplar as condições do Brasil é contemplar um quadro alarmante, e perceber que nosso olhar não está dirigido a uma pintura, mas a um espelho.

**O texto de Patrick Iber foi originalmente escrito em inglês  e  publicado pelo jornal estadunidense “New Republic” (Aqui!) e foi traduzido pessoalmente por mim para o português.

O pânico a Piketty e a direita sem ideias

POR PAUL KRUGMAN


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Em resposta ao “Capital no Século XXI”, não há argumentos, só silêncio e preconceitos. Partidários da desigualdade foram pegos no contrapé

Por Paul Krugman | Tradução: Daniella Cambaúva, em Carta Maior

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, é um prodígio de honestidade. Outros livros de economia foram um sucesso nas vendas, mas diferentemente da maioria deles, a contribuição de Piketty tem uma séria erudição, capaz de mudar a retórica. E os conservadores estão aterrorizados.
 
Por isso, James Pethokoukis, do American Interprise Institute, adverte na revista “National Review” que o trabalho de Piketty precisa ser refutado porque, do contrário, “se propagará entre a clerezia e dará nova forma ao cenário da economia política em que  serão travadas todas as futuras batalhas sobre política”.
 
Pois bem, lhes desejo boa sorte nesta empreitada. Por enquanto, o que de fato surpreende no debate é a direita parecer incapaz de organizar qualquer tipo de contra-ataque significativo à tese de Piketty. Em vez disso, sua reação consistiu exclusivamente em desqualificá-lo. Concretamente, em alegar que Piketty é um marxista e, portanto, alguém que considera a desigualdade de renda e de riqueza uma questão importante. Em breve voltarei à questão da desqualificação. Antes, vejamos por que o livro está tendo tanta repercussão. 

Piketty não é o primeiro economista a ressaltar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a enfatizar o contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos altíssimos no topo. É verdade que Piketty e seus colegas agregaram uma profundidade histórica ao nosso conhecimento, demonstrando que realmente estamos vivendo em uma nova Era Dourada. Mas nós sabemos disso faz tempo.

Não. O que é realmente novo sobre o “Capital” é o modo como destrói o mais amado mito dos conservadores, a insistência de que estamos vivendo em uma meritocracia, em que grandes fortunas são conquistadas e merecidas.

Nas duas últimas décadas, a resposta conservadora às tentativas de tratar de forma política a questão do aumento da renda das classes altas envolveu duas linhas de defesa: em primeiro lugar, a negação de que os ricos estão realmente se dando tão bem e o resto está mal. E quando tal negação falha, eles alegam que essas rendas elevadas são uma recompensa justificada por serviços prestados. Não se deve chamá-los de 1% ou de ricos, mas sim de “geradores de emprego”.
 
Mas como fazer essa defesa, se os ricos derivam grande parte de sua renda não do trabalho que eles fazem, mas dos ativos que possuem? E se as grandes fortunas, cada vez mais, que não vêm de empreendimentos, mas sim de heranças?

O que Piketty mostra é que estas não são questões menores. As sociedades ocidentais, antes da Primeira Guerra Mundial, eram dominadas, de fato, por uma oligarquia de riqueza herdada -e seu livro argumenta convincentemente de que estamos voltando para esse cenário.

Portanto, o que os conversadores podem fazer, diante do medo que esse diagnóstico possa ser usado para justificar o aumento de impostos sobre os ricos? Podem tentar rebater Piketty de forma substancial mas, até agora, não vi nenhum sinal disso. Em seu lugar, como eu disse, há apenas desqualificações.

Isso não deveria ser surpreendente. Participei de debates sobre a desigualdade de renda por mais de duas décadas e nunca vi os “especialistas” conservadores conseguirem negar os números sem tropeçarem em seus próprios cadarços intelectuais. Ora, é quase como se os fatos fundamentalmente não estivessem do lado deles. Ao mesmo tempo, xingar de vermelho todos os que questionam qualquer aspecto da teoria de livre mercado tem sido um procedimento padrão da direita, desde que pessoas como William F. Buckley tentaram impedir o ensino da economia keynesiana, não por prová-la errada, mas denunciando-a como “coletivista”.

Ainda assim, tem sido incrível assistir aos conservadores, um após o outro, denunciarem Piketty como marxista. Até mesmo Pethokoukis, que é mais sofisticado do que o resto, chama o livro de uma obra de “marxismo leve”, o que só faz sentido se a mera menção à desigualdade de riqueza faça de você um marxista. (Talvez esta a visão deles. Recentemente, o ex-senador Rick Santorum denunciou o termo “classe média” como “conversa marxista”, porque, veja bem, não temos classes nos Estados Unidos.)

E o “Wall Street Journal”, em sua crítica ao livro, de forma muito previsível, percorre todo o percurso. De alguma forma, consegue comparar a defesa de Piketty da tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza -um remédio tão americano quanto a torta de maçã, defendido não apenas por economistas, mas também por políticos, inclusive por Teddy Roosevelt- aos males do stalinismo. Isso é realmente o melhor que o “Wall Street Journal” consegue fazer? Aparentemente, a resposta é sim.

Agora, o fato de os defensores dos oligarcas norte-americanos estarem evidentemente em falta de argumentos coerentes não significa que eles estejam politicamente em fuga. O dinheiro ainda fala -na verdade, em parte graças ao Supremo Tribunal de Roberts, fala mais alto do que nunca. Ainda assim, as ideias também importam, moldando a forma como falamos sobre a sociedade e, eventualmente, a forma como agimos. E o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

FONTE: http://outraspalavras.net/destaques/o-panico-a-piketty-e-a-direita-sem-ideias/

Apenas 124 pessoas concentram mais de 12% do PIB do Brasil

Blog Controvérsia

As 124 pessoas mais ricas do Brasil acumulam um patrimônio equivalente a R$ 544 bilhões, cerca de 12,3% do PIB, o que ajuda a entender porque o país é considerado um dos mais desiguais do mundo.

Estas 124 pessoas integram a última lista de multimilionários divulgada nesta segunda-feira pela revista ‘Forbes’, que inclui todos os brasileiros cuja fortuna supera R$ 1 bilhão.

O investidor chefe do fundo 3G Capital, Jorge Paulo Lemann, que acaba de adquirir a fabricante de ketchup Heinz e é um grande acionista da cervejaria AB InBev e do Burger King, ficou com o primeiro lugar.

A fortuna de Lemann, de 74 anos, chega a R$ 38,24 bilhões, enquanto o segundo da lista, Joseph Safra, empresário de origem libanesa e dono do banco Safra, tem ativos de R$ 33,9 bilhões.

A maioria das fortunas corresponde a membros de famílias que dominam as grandes empresas de setores como mídia, bancos, construção e alimentação.

Entre os 124 multimilionários brasileiros apenas o cofundador de Facebook, Eduardo Saverin, constituiu seu patrimônio por meio da internet.

O empresário Eike Batista, que chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo e perdeu parte de sua fortuna pela vertiginosa queda do valor das ações de sua companhia petrolífera OGX e do resto das empresas de seu conglomerado EBX, ficou em 52º lugar na lista.

A grande fortuna concentrada por estes milionários comprova a veracidade dos indicadores oficiais que classificam o Brasil como um dos países com maiores disparidades entre ricos e pobres.

O índice de Gini do país foi de 0,501 pontos em 2011, em uma escala de zero a um, na qual os valores mais altos mostram uma disparidade mais profunda entre ricos e pobres.

Cerca de 41,5% das rendas trabalhistas se concentram nas mãos de 10% dos mais ricos, segundo dados do censo de 2010, enquanto metade da população vivia, nesse ano, com uma renda per capita mensal de menos de R$ 375.

FONTEhttp://cebes.com.br/2014/01/apenas-124-pessoas-concentram-mais-de-12-do-pib-do-brasil/