Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Representação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

incêndios no cerradoAvanço na representação do Cerrado contribui para planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática

Bori - Soluções para um conhecimento cieníftico acessível

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e um dos mais ameaçados do planeta, ganhou um retrato mais fiel nos modelos climáticos e ecológicos utilizados internacionalmente. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e do Potsdam Institute for Climate Impact Research (Alemanha) desenvolveram um novo tipo funcional de planta, chamado Tropical Broadleaved Savanna Tree (TrBS). Essa representação virtual de uma árvore típica do Cerrado aprimora simulações sobre o impacto do fogo e de outros cenários climáticos na vegetação de savana. 

Publicado em 6 de janeiro na revista Biogeosciences, o trabalho considera características marcantes da vegetação do Cerrado, como as raízes profundas, que podem ultrapassar os 15 metros, e a casca mais espessa. Esses traços, definidos com base em dados de campo e extensa revisão da literatura, conferem às plantas uma notável resiliência ao fogo e à seca — e explicam a estrutura típica da “floresta de cabeça-para-baixo”, com grande parte da biomassa concentrada no subsolo.

Os resultados das simulações mostram que o novo modelo melhora a representação das dinâmicas ecológicas, do ciclo de carbono e das interações entre clima e vegetação. Além disso, passou a refletir com mais precisão a sazonalidade e a extensão das queimadas. A iniciativa foi conduzida por Jéssica Schüler, doutoranda em ecologia pela UnB, com colaboração de Mercedes Bustamante, professora titular da UnB, sua orientadora.

De acordo com Bustamante, a motivação para desenvolver um modelo específico para o Cerrado veio de uma lacuna histórica nos modelos globais. “Apesar da importância das savanas para o ciclo do carbono e da biodiversidade mundial, elas ainda são sub-representadas nas grandes ferramentas de modelagem”, conta. “O Cerrado é um hotspot ameaçado e compreender como ele responde às pressões ambientais é essencial para prever cenários futuros e apoiar a conservação”, afirma a pesquisadora.

Ao reunir informações de campo em larga escala, o modelo ganhou maior capacidade de representar a dinâmica natural da vegetação e a resposta das plantas a fatores ambientais críticos. A profundidade das raízes, por exemplo, se mostrou determinante não apenas para melhorar as simulações no Brasil, mas também em testes globais — sinalizando que estruturas subterrâneas têm papel essencial na organização de savanas em diferentes continentes.

Embora o estudo não tenha incluído simulações específicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na frequência ou intensidade das queimadas, ele estabelece a base para que essa análise seja realizada nas próximas etapas. Com o avanço obtido, já estão sendo desenvolvidos modelos que combinam o TrBS com ferramentas mais detalhadas, o que permitirá avaliar a variação de atributos funcionais das plantas e sua resposta a eventos extremos, como seca prolongada e incêndios severos.

Além da relevância científica, modelos mais realistas permitem prever como a vegetação responde ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às pressões climáticas, auxiliando na formulação de planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática. “Compreender a resposta da vegetação a diferentes pressões ambientais nos ajuda a desenhar políticas públicas mais sólidas e alinhadas à realidade brasileira”, destaca Bustamante.

A pesquisa teve financiamento do CNPq, CAPES, INCT–Mudança do Clima e da Conservation International Foundation, além de apoio da União Europeia pelo programa Horizon 2020. A nova fase do estudo já está em andamento, com foco em expandir o entendimento sobre como mudanças climáticas e pressões humanas podem moldar o futuro do Cerrado.


Fonte: Agência Bori

Destruição disfarçada de sustentabilidade: Desenvolvimento sustentável na Amazônia é conversa para boi dormir

Para analistas críticos, o termo “desenvolvimento sustentável” foi cunhado para desviar o debate sobre os malefícios do capitalismo sobre os sistemas naturais da Terra. E já se vão quase quase 4 décadas desde que o termo foi usado originalmente no famoso Relatório Bruntdland. E desde então o que se vê é o avanço desmensurado da destruição de ecossistemas naturais em todo o planeta. A Amazônia brasileira é talvez um das regiões em que já se injetou muito dinheiro em projetos que prometem a concretização desse modelo que promete formas menos destrutivas de utilização das riquezas naturais ali existentes.

Mas o que não se fala de forma minimamenrte clara é que para cada centavo gasto com projetos ‘sustentáveis”, milhares de reais são aplicados em outros projetos que claramente não têm nada de sustentáveis.  E isso acaba sendo obscurecido pela máquina publicitária do governo federal e de seus aliados dentro do que venho chamando de sistema “agroquímico mineral” que é composto por uma amálgama de latifundiários, corporações multinacionais que controlam o sistema alimentar global e grandes mineradoras. 

Hoje recebi uma coletânea de matérias do jornal “Folha de São Paulo” dentro de uma série intitulada “Grandes na Amazônia” que foi publicada entre julho/2025 e janeiro/2026. As matérias apresentam e analisam seis grandes projetos de investimento que incluem a construção ou ampliação de ferrovias, hidrovias, estradas e exploração de rochas destinadas a aumentar a produção nacional de fertilizantes (Aqui!, Aqui!, Aqui! Aqui! Aqui! Aqui!).  As matérias mostram claramente que esses projetos causarão não apenas problemas ambientais, mas servirão para deslocar e impor situações de grande violência sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. E como as matérias jornalíticas mostram, os riscos sociais e ambientais são plenamente conhecidos pelos ocupantes do governo federal, no caso a frente amplíssima construída pelo presidente Luís Inácio.

Conversando hoje com um parceiro científico de longa data, ouvi algo que me parece irrefutável. Ele, um pesquisador com décadas de experiência de pesquisas amazônicas, me disse que lamentavelmente há um grau muito grande de acordo sobre como usar a Amazônia entre as distintas forças politicas que têm ocupado historicamente o governo federal, apesar das distinções pontuais na hora de sustentar a lógica do uso dos recursos ali existentes. Na prática, segundo esse pesquisador,  fica tudo muito parecido quando se trata de definir as linhas de investimento em grandes projetos que nada têm de sustentáveis.

Desta forma, o chamado “desenvolvimento sustentável” tem operado, no caso da Amazônia, mais como discurso legitimador do que como alternativa real ao modelo predatório vigente. Apesar da retórica ambiental, os investimentos públicos e privados continuam priorizando grandes obras de infraestrutura, mineração e agronegócio, aprofundando o desmatamento, os conflitos sociais e a violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais. Esse padrão revela um amplo consenso político em torno de um projeto de uso da Amazônia subordinado ao sistema agroquímico-mineral, incompatível com uma sustentabilidade efetiva.

Como estamos entrando em um ano eleitoral em que certamente teremos novamente campanhas eleitorais que vão reduzir o debate a um combate entre “bem” e “mal” com vistas a impedir um debate mais amplo sobre quais são efetivamente as propostas de uso das riquezas nacionais, pois o debate aberto acaba mostrando que no caso da Amazônia as propostas são essencialmente as mesmas, qual seja, mais desmatamento e degradação florestal para alimentar a expansão do modelo agroquímico mineral.

Acordo Mercosul-UE é um pacto neocolonial que aumentará o caos ambiental e social

O anúncio de que o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será finalmente assinado vem sendo apresentado como uma espécie de salvação da lavoura. Entre apoiadores do governo Lula, o tratado é celebrado como mais uma demonstração da suposta habilidade negociadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cenário internacional.

No entanto, uma leitura minimamente atenta das análises já produzidas sobre o acordo revela um quadro bem menos alentador. Os termos de troca embutidos no tratado colocam o Mercosul em posição claramente desfavorável. Enquanto a União Europeia amplia o acesso de seus produtos industrializados aos mercados sul-americanos, os países do Mercosul entram com aquilo que historicamente lhes foi reservado: commodities agrícolas e minerais. Não é preciso grande sofisticação em economia política para perceber que os principais beneficiários do acordo serão as economias industriais europeias, com destaque para a Alemanha.

Além disso, o aprofundamento da especialização primário-exportadora tende a intensificar pressões já elevadas sobre florestas, territórios e povos tradicionais. A expansão da fronteira agromineral, estimulada pela lógica do acordo, deve agravar conflitos socioambientais existentes e elevar o grau de violência em regiões já marcadas por disputas fundiárias e degradação ambiental. E tome mais desmatamento e degradação florestal!

Outro efeito colateral pouco discutido diz respeito ao uso de agrotóxicos. O acordo cria condições favoráveis para a ampliação do consumo de substâncias altamente tóxicas, muitas das quais já foram banidas na própria União Europeia. Não por acaso, grandes corporações químicas europeias — como Bayer e BASF — figuram entre as mais interessadas na ratificação do tratado. É no Mercosul que esses produtos encontram mercados permissivos, capazes de absorver aquilo que os países-sede dessas empresas não permitem mais utilizar. A assinatura do acordo tende, portanto, a consolidar espaços desregulados para a comercialização de venenos rejeitados no Norte global.

Em síntese, o acordo Mercosul–União Europeia sacramenta um processo de recolonização econômica. Ele reatualiza o velho modelo fazenda-indústria que sustentou o enriquecimento europeu no século XIX, ao mesmo tempo em que manteve suas colônias sul-americanas presas a relações de troca profundamente desiguais. A diferença é que, agora, esse arranjo será vendido como triunfo do multilateralismo e da diplomacia moderna — quando, na essência, se trata de um pacote nitidamente neocolonial.

Logística de garimpo ilegal destruída por forças federais envolvia bens avaliados em R$ 902 milhões

Policiais federais durante operação contra o garimpo ilegal no Amazonas: destruição de dragas (Foto: Divulgação/PF) 

Do ATUAL, com Agência Gov

MANAUS – Operações da Polícia Federal em parceria com o Ibama (Instituto Nacional de Defesa do Meio Ambiente), ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) e Funai (Fundação Nacional do Índio) em cinco Terras Indígenas na Amazônia Legal resultaram na destruição de material de garimpo e de desmatamento ilegal avaliado em R$ 902 milhões entre 2023 e 2025.

Também participam das ações a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional de Segurança Pública e as Forças Armadas.

Sessenta mil indígenas das etnias Yanomami, Munduruku, Arariboia, Kayapó e Uru-Eu-Wau-Wau vivem nessas áreas. O valor é referente a material que serve de apoio à logística criminosa. Entre os bens apreendidos estão: 250 quilos de ouro; 2.537 motores de garimpo, 355 mil litros de óleo diesel, 948 acampamentos, 1.700 edificações, 138 maquinários pesados, 320 embarcações, e 44 aeronaves.

Também foram apreendidos 236 quilos de mercúrio, além de 187 mil quilos de cassiterita e 205 armamentos. Foram fiscalizados 40 mil veículos e 545 aeródromos que resultaram em quatro mil autuações.

As operações cumprem determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709. Foram 12 mil ações de controle, combate e fiscalização, coordenadas pela Casa Civil da Presidência da República.

Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo (Foto: PF/Divulgação)
Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo em Manaus (Foto: PF/Divulgação)

TI Apyterewa

Na terra indígena Apyterewa, a ação federal reduziu em 100% os alertas de novas áreas de desmatamento no mês de dezembro de 2023, comparado a setembro do mesmo ano – período em que ocorreu a desintrusão. Resultado semelhante foi registrado na TI Kayapó, onde houve queda de 98% dos alertas de novas áreas de garimpo, entre março e julho deste ano.

TI Yanomami

Na Terra Indígena Yanomami, onde a Casa de Governo mantém operações diárias desde março de 2024, houve 98% de queda da área de garimpo ativo, e redução de 97% na abertura de novos garimpos. As operações no território Yanomami estão ativas e integradas.

No âmbito da ADPF 709, foram realizadas operações nas terras indígenas Apyterewa (PA), Trincheira Bacajá (PA), Karipuna (RO), Munduruku (PA), Arariboia (MA), Kayapó (PA), Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e Yanomami (RR e AM). Embora não esteja no escopo da ADPF, a Terra Indígena Alto Rio Guamá (PA) era objeto de outra ação judicial e também passou por desintrusão em 2023.

A secretária-adjunta de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Janini Ginani, ressaltou a integração entre os diferentes órgãos para o sucesso das ações. “Nós temos agora um acúmulo suficiente para que possamos conduzir esse aprendizado como uma política de Estado, uma política pública que atue dentro e fora das terras indígenas, tendo como premissa a prevenção de novas invasões e garantindo que esses avanços apontados aqui permaneçam”.

“Um grande legado desse trabalho foi o envolvimento de todos os órgãos nessa agenda indigenista, de forma a expandir a atuação para uma responsabilidade do Estado brasileiro”, acrescentou.

O coordenador-geral das desintrusões, Nilton Tubino, apresentou o histórico das desintrusões. “Pelas próprias dificuldades e dinâmicas dos territórios, ninguém consegue fazer nada sozinho”, disse.

A coordenadora de Fiscalização do ICMBio, Nidia Reis de Paiva, destacou a importância das operações em terras indígenas para a queda ou redução a zero nos registros de desmatamento em unidades de conservação próximas ou sobrepostas a esses territórios.

O diretor-geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), Richard Fernandez Nunes, ressaltou o “trabalho magnífico” de integração entre as agências do governo. “Cada órgão tem seus próprios procedimentos que vão sendo aprimorados com esse enriquecimento mútuo. Eu não vejo dificuldade que a gente avance na direção de consolidar essa metodologia [utilizada nas desintrusões]. E que possamos seguir neste caminho para que o Poder Executivo possa conduzir as políticas públicas que sejam capazes de dar respostas. O Censipam está disponível para isso”, disse.


Fonte: Amazônia Atual

Promessas climáticas favorecem a remoção de carbono em terra, uma meta irrealista que ignora as florestas

Por Sofia Murphy para IATP 

Esta semana, a Universidade de Melbourne lançou a segunda edição do Relatório sobre a Lacuna de Terras (The Land Gap Report ), que analisa detalhadamente os compromissos climáticos dos países e suas implicações para a forma como a terra deve ser usada — e como as florestas precisam ser protegidas — para atingir essas metas.

O Relatório sobre a Lacuna de Terras é um relato aprofundado e especializado de como concepções errôneas sobre o uso da terra e a importância subestimada das florestas se combinam com promessas climáticas governamentais fracas e irrealistas para agravar a crise climática. Eu escrevi o capítulo sete, que se concentrou no comércio de commodities agrícolas e nas cadeias de valor globais.

O lançamento do relatório foi programado para coincidir com o debate na COP30, o fórum intergovernamental anual da ONU sobre como evitar a catástrofe climática. Um evento paralelo para discutir as conclusões do relatório ocorreu no dia 20 de novembro em Belém.

No novo relatório, avaliamos os compromissos governamentais mais recentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (em planos conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDCs) e constatamos que os países não apenas aumentaram sua dependência da Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) em terra, exigindo um total combinado de 1,01 bilhão de hectares, como também estão muito distantes das trajetórias que poderiam alcançar seu compromisso de deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Pior ainda, como aponta o relatório, não há terra suficiente no mundo para concretizar esses planos. A CDR é uma parte racional de uma resposta abrangente à emergência climática, mas quanto mais adiarmos a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e de outros grandes poluidores climáticos, maior será o aumento esperado das temperaturas médias e maior a probabilidade de incêndios florestais, secas, inundações e outros desastres.   

O relatório deixa claro que o problema com os compromissos florestais e climáticos não é a falta de vontade política e de recursos financeiros, embora ambos sejam importantes. O financiamento privado e o comércio de carbono também não resolverão o problema. Em vez disso, os capítulos defendem uma transformação nos setores florestal e fundiário. Isso seria alcançado se os governos identificassem e desmantelassem os mecanismos e políticas estruturais inter-relacionados que mantêm a extração em vigor, incluindo mudanças na dívida, na política fiscal, na tributação e na legislação comercial. 

O Relatório sobre a Lacuna de Terras oferece soluções climáticas muito mais ambiciosas — e muito mais eficazes — do que os planos de ação propostos pelos governos. As recomendações focam na proteção das florestas existentes, na eliminação gradual do uso de combustíveis fósseis e em reformas profundas nos subsídios públicos, incentivos fiscais e regras de comércio e investimento internacionais. O relatório insta os governos a pararem de permitir a externalização dos custos da poluição na contabilidade econômica. O agronegócio precisa começar a arcar com os custos reais de seus modelos de produção extrativistas. 

Que papel desempenham o comércio e a agricultura num relatório sobre o uso da terra e o clima?

Escrevi o sétimo capítulo do relatório: “ Reforma da política comercial para a proteção florestal e a soberania alimentar ”. Nesse capítulo, analiso o comércio internacional, as commodities agrícolas e a soberania alimentar, argumentando que mudanças políticas eficazes para desacelerar o desmatamento e a degradação florestal só podem ser feitas com uma compreensão clara e matizada das forças que impulsionam o comércio de commodities.

Por que um relatório sobre desmatamento e mudanças climáticas inclui um capítulo sobre comércio e agricultura? Porque a agricultura é o principal fator de mudança no uso da terra que polui o clima, incluindo o desmatamento. Vinte e seis por cento da perda global de cobertura arbórea no período de 2001 a 2015 é atribuída à expansão da produção de sete commodities agrícolas (gado, óleo de palma, soja, cacau, borracha, café e fibra de madeira de plantações), todas elas intensamente comercializadas. Ao mesmo tempo, a agricultura é uma das atividades econômicas mais afetadas pelas mudanças climáticas e pela perda de biodiversidade. As florestas são essenciais não apenas para as comunidades e a biodiversidade que as habitam, mas também para os ciclos climáticos e hídricos em todo o planeta. Precisamos proteger os sistemas alimentares e agrícolas que protegem as florestas se quisermos sobreviver.

A ação climática e florestal tem sido impulsionada, há duas décadas, pela constatação de que um pequeno grupo de agronegócios globais domina as sete commodities que são desproporcionalmente responsáveis ​​pelo desmatamento. Essa constatação foi combinada com a crença de que essas empresas poderiam ser persuadidas a melhorar suas práticas, resultando em uma estratégia focada em ações voluntárias e mesas-redondas que incluíram agronegócios, organizações da sociedade civil e representantes governamentais. O objetivo, refletido em resultados como a Moratória da Soja no Brasil , era elevar os padrões de produção e aprimorar a sustentabilidade das cadeias de valor. 

Apesar de alguns pequenos sucessos, os níveis devastadores de desmatamento persistem. Precisamos alinhar os incentivos econômicos e ecológicos. O Acordo sobre Agricultura da OMC é a estrutura que rege a maioria das regras do comércio agrícola internacional. O acordo foi concebido para limitar o papel do Estado na gestão dos mercados agrícolas e para facilitar o acesso às importações, com pouca ou nenhuma consideração por objetivos de políticas internas, como sistemas de produção limpos e justos. O acordo ignora o poder de mercado concentrado nas mãos dos comerciantes de commodities e como esse poder distorce os preços e desequilibra a distribuição dos benefícios que a teoria do comércio prevê para os produtores eficientes. Na prática, os pontos nos sistemas de distribuição agrícola onde a concorrência é fraca — incluindo o acesso a transporte, armazenamento e capacidade de processamento — criam assimetrias de preços que prejudicam os produtores locais e, muitas vezes, os orçamentos públicos do país produtor. Práticas como a precificação de transferência permitem que as empresas ocultem seus lucros onde a carga tributária é menor (geralmente pequenos estados sem florestas tropicais para proteger, mas com grande número de empresas bancárias privadas). 

O que deve vir a seguir?

É impossível prever o que a COP30 nos reserva. Havia grandes expectativas, durante anos, de que esta COP obtivesse resultados melhores do que as dos últimos anos, em que as COPs foram sediadas por países produtores de petróleo, ávidos por evitar a redução do uso de combustíveis fósseis. O Brasil é um país extenso e florestal, cujo governo, sob o primeiro mandato de Lula, conquistou uma reputação positiva por seus eficazes programas de combate à fome e cuja atual liderança pressiona por financiamento significativo para a proteção florestal. Mas, uma semana após o início das negociações, os problemas e as divergências intransponíveis entre os Estados-membros são desanimadores.

Então, o que os governos poderiam fazer? A ação contra as mudanças climáticas exigirá a participação de todos os níveis de governo, e há muito a ser feito enquanto o multilateralismo estiver paralisado. Os países têm a obrigação de cumprir o direito humano universal à alimentação — um direito que depende da proteção dos recursos naturais e dos ecossistemas nos quais uma diversidade de alimentos prosperará. Esse sistema alimentar precisa ser soberano, o que não significa que seja separado de outros sistemas, mas sim que as pessoas precisam ter controle sobre as decisões que afetam sua capacidade de produzir e acessar alimentos.

A produção em massa de produtos agrícolas em escala industrial para cadeias de valor globais não deve ser confundida com segurança alimentar; elas exigem regulamentações e controles diferentes. As regras comerciais devem ser reformadas para distinguir essas diferentes formas de agricultura, como muitos países em desenvolvimento vêm defendendo há anos em sua solicitação por proteções adicionais contra importações a preços de dumping. 

Os mecanismos comerciais também precisam se conectar com as comunidades locais. Por exemplo, o Regulamento da UE sobre Desflorestamento visa as empresas na cadeia de valor, responsabilizando-as por suas práticas de fornecimento de matérias-primas. Isso é positivo, mas não há nenhum mecanismo previsto para envolver as pessoas que vivem e trabalham na floresta. Precisamos de mais camadas no comércio e na gestão florestal para desmantelar os incentivos perversos e míopes que encorajam a destruição de nossas florestas.

Em última análise, precisamos de um novo sistema econômico que valorize a Terra e seus recursos. Como os povos indígenas bem sabem, a proteção ambiental não é uma opção: sem a natureza, não podemos ter atividade econômica.


Fonte: IATP

Mostra agrícola da COP30 é patrocinada pelo agronegócio ligado ao desmatamento e ao lobby anti-conservacionismo

O pavilhão “Agrizone” será patrocinado por gigantes multinacionais de agrotóxicos e lobistas do agronegócio brasileiro, aos quais foram oferecidos “visibilidade” e “ganho de imagem”

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, na Plenária Geral de Líderes da COP30 em Belém, Brasil, em 6 de novembro de 2025. A agência governamental brasileira de agricultura está sediando a Agrizone. Foto: Pablo Porciuncula / AFP via Getty Images

Por Naira Hofmeister e Lucy Jordan para o “Unearthed” 

Entre os patrocinadores do pavilhão da agricultura sustentável na COP30, a cúpula climática deste ano no Brasil, estará a gigante de pesticidas e sementes Bayer , que, segundo ativistas sul-americanos, promove um modelo de agricultura industrial que está impulsionando o “desmatamento em massa ” no continente 

A Bayer pagará pelo menos R$ 1 milhão (£ 142.000) pelo patrocínio diamante ” do pavilhão “Agrizone”. Organizada pela Embrapa, a Agrizone sinaliza a influência do agronegócio no Brasil e sua determinação em se apresentar como sustentável, apesar das altas emissões do setor e de seus comprovados vínculos com o desmatamento .   

A Bayer enfrenta uma denúncia em andamento na OCDE por parte de grupos do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, que a acusam de promover um modelo agrícola na América do Sul que impulsiona o desmatamento , a perda de biodiversidade e conflitos com comunidades indígenas . 

multinacional alemã é uma das principais empresas do mercado sul-americano de sementes geneticamente modificadas e pesticidas relacionados, utilizados no cultivo de soja.

“Essa monocultura exige o desmatamento de grandes áreas de terra em países que enfrentam enormes conflitos de posse de terras. A Bayer está realmente promovendo um modelo de agronegócio e uma fronteira da soja que impacta negativamente os direitos humanos e ambientais”, disse Cristina Hernandez Hurtado, Assessora Jurídica Sênior do Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), uma das organizações que apresentaram a queixa à OCDE

A placa da Embrapa pode ser vista na Agrizone, um pavilhão dedicado à agricultura sustentável, na COP30 em Belém, em 7 de novembro de 2025. © Hyury Potter / Unearthed

“A Bayer tem tentado se posicionar como sustentável, e vemos sua participação na COP em uma escala tão grande como um grande esforço para apresentar essa imagem ao mundo todo”, acrescentou ela. “Somos céticos em relação a essa mensagem.” 

Qualquer pessoa pode apresentar uma queixa aos Pontos de Contato Nacionais da OCDE sobre supostas violações de direitos humanos por parte de empresas. A OCDE não tem o poder de impor sanções, mas pode iniciar um processo de mediação entre os reclamantes e a empresa .

Outros patrocinadores do pavilhão Agrizone incluem a Senar braço da principal associação do agronegócio brasileiro, a CNA , e a UPL fabricante indiana de agrotóxicos que fornece ao Brasil produtos contendo substâncias químicas proibidas na União Europeia. Essas substâncias químicas ainda podem ser legalmente vendidas por empresas europeias ao Brasil. 

Juntos, esses patrocinadores pagaram pelo menos R$ 4,4 milhões (£ 625.000) por exposição da marca, salas de negociação privadas, direito de sediar eventos e espaços para discursos em debates sobre o clima .

Um rascunho de contrato obtido pela Unearthed por meio de um pedido de acesso à informação promete aos patrocinadores “visibilidade” e “ganho de imagem” por sua “associação com empresas comprometidas com as mudanças necessárias para enfrentar… as mudanças climáticas” .

O presidente Lula faz sinal de positivo ao lado de chefes de Estado e representantes na Cúpula de Líderes, antes da COP30, a conferência climática da ONU, em Belém, Pará, Brasil. Foto: Mauro Pimentel /AFP via Getty Images

Brice Böhmer, do grupo de campanha Transparência Internacional, alertou que os anfitriões da COP30 deveriam ser “cautelosos com o acesso privilegiado que às vezes é concedido às empresas”, já que, por vezes, existe “uma discrepância entre a forma como as empresas se apresentam” e o trabalho que realizam para “promover soluções que sejam do seu próprio interesse… a portas fechadas”.

O ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Favaro, deverá trabalhar na Agrizone durante a cúpula O ministério não respondeu ao pedido de comentário 

Böhmer defendeu uma política de conflito de interesses para regular a visibilidade e o acesso concedidos às empresas nas cúpulas da COP.

“As cúpulas climáticas da ONU estão se tornando plataformas para ações climáticas genuínas ou para desinformação e influência indevida da indústria?”, questionou. “Para que as COPs impulsionem ações climáticas reais, não deve haver espaço para aqueles que fazem lobby contra seus objetivos .”   

Um porta-voz da Bayer afirmou que “Combater as mudanças climáticas exige esforços coletivos em toda a cadeia produtiva… Na COP, portanto, participaremos de discussões sobre soluções baseadas na ciência para o combate às mudanças climáticas.” 

Agrotóxicos são pulverizados em uma plantação de soja recém-semeada no Mato Grosso, principal estado produtor de soja do Brasil. A Bayer é atualmente alvo de uma denúncia à OCDE devido aos impactos de suas atividades com soja e agrotóxicos. Foto: Lucas Ninno / Getty Images

Em julho de 2024, a Bayer respondeu formalmente à queixa da OCDE, detalhando a situação e afirmando que a empresa levava “muito a sério todas as informações sobre potenciais impactos adversos aos direitos humanos e ao meio ambiente”, mas que, com base em sua própria pesquisa e nas informações fornecidas pelos reclamantes, “não foi possível identificar qualquer ligação entre os impactos adversos e os negócios da Bayer”.

Em comunicado, a Embrapa afirmou que, como instituição pública de pesquisa e inovação, “baseia suas ações e todos os seus relacionamentos na ética, na transparência e em um compromisso inabalável com a legislação ambiental e de direitos humanos no Brasil e no mundo”.

Acrescentou ainda que rejeita práticas que tenham sido “comprovadamente” constituídas de desflorestação ilegal, utilização indevida de pesticidas ou violação dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

A Embrapa tem feito campanha recentemente para que o Brasil adote o GWP* , uma nova métrica para medir o impacto climático do metano, um gás de efeito estufa, que visa levar em consideração o fato de o metano se decompor rapidamente na atmosfera. Os críticos argumentam que a adoção desse padrão permitiria que grandes emissores, como a pecuária, mascarassem sua contribuição para o aquecimento global.

A expansão das fazendas de gado é a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira, e a pecuária é uma fonte significativa de metano. A Embrapa, anfitriã do Agrizone, recentemente fez campanha para que o Brasil adote o GWP* (Potencial de Aquecimento Global) para medir o impacto climático do metano. © Getty Images

Hannah Daly, professora de Energia Sustentável na University College Cork, afirmou que se o Brasil, o maior exportador de carne bovina do mundo, adotasse o GWP*, isso criaria um “precedente desastroso”.  

Ela acrescentou que a Embrapa estava promovendo “uma métrica que permitiria ao enorme setor pecuário brasileiro reivindicar a “neutralidade climática”, mantendo, ao mesmo tempo, altas emissões de metano”.

A Embrapa afirmou que “as discussões sobre os SLCPs [poluentes climáticos de vida curta] devem continuar sendo tema de encontros científicos antes de serem adotadas ou abandonadas. A Embrapa considera que a divergência e o debate são partes fundamentais do desenvolvimento científico e devem ser baseados em argumentos fundamentados em evidências científicas.”

Desmatamento e conflitos fundiários

A Bayer é uma força dominante no mercado sul-americano de sementes de soja geneticamente modificadas e dos herbicidas utilizados nelas. 

O desenvolvimento de sementes resistentes a herbicidas transformou a indústria da soja no Brasil, onde, segundo relatos, até 98% da safra é geneticamente modificada. A expansão do cultivo da soja consumiu vastas extensões de terra impulsionando o desmatamento e conflitos fundiários nas fronteiras da Amazônia e do Cerrado. 

“Essa remoção muitas vezes está ligada a despejos forçados ou à invasão de comunidades indígenas e camponesas ” disse Cristina Hernandez Hurtado à Unearthed . 

As terras indígenas Guasu Guavirá, no oeste do Paraná, estão em disputa – lar de aldeias indígenas, mas reivindicadas por agricultores cujos campos de soja as cercam 

A soja é irrigada no Mato Grosso, onde a cultura é cultivada em vastas extensões de terra que antes eram florestadas. © Matt Mawson / Getty Images

“Não temos liberdade. E muitas comunidades fazem fronteira com terras agrícolas. Então, os agrotóxicos são pulverizados a 5 metros, a 10 metros das casas dos Guarani”, disse Ilson Soares, líder da aldeia Yvy Okaju da terra Guasu Guavirá. 

Ele acrescentou que os agricultores, por vezes, usaram pesticidas contra os povos indígenas como uma “arma química”. 

“Os agrotóxicos também causam ansiedade, tristeza”, disse uma líder indígena da região de Guasu Guavira, que pediu anonimato para evitar ameaças.   Ela acrescentou: “Quando se trata de pesticidas e de plantações de soja, nada é sustentável”.

O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de soja, com uma produção estimada em 169,5 milhões de toneladas em 2024-25. O Reino Unido importou £243 milhões em soja do Brasil em 2024 , mais do que de qualquer outro país principalmente para alimentação animal . 

A denúncia da OCDE contra a Bayer também cita impactos na Bolívia, onde, segundo ela, a soja geneticamente modificada agora utiliza cerca de 50% das terras cultivadas cerca de 436.000 hectares de floresta foram desmatados para o cultivo de soja entre 2011 e 2022 

A Bayer não respondeu diretamente às perguntas da Unearthed relacionadas às alegações da denúncia da OCDE, mas afirmou que “a Bayer historicamente fez da sustentabilidade um de seus principais pilares estratégicos e contribui globalmente com soluções e iniciativas inovadoras relacionadas à agricultura, saúde, transição energética e sistemas alimentares sustentáveis”.

Hurtado, do ECCHR, disse que o escritório nacional da OCDE na Alemanha deve decidir em breve se irá mediar a queixa.  

A UPL, fabricante indiana de agrotóxicos, também patrocinará a Agrizone. A UPL pagou R$ 900.000 (£ 125.000), garantindo diversos espaços de marca e um estande de 300 m² A partir de 2023, a UPL foi autorizada a vender 136  agrotóxicos no Brasil contendo substâncias proibidas na União Europeia devido a preocupações com a saúde humana ou o meio ambiente .

A UPL não respondeu ao pedido de comentário. 

Lobistas anti-conservacionistas

A Senar, patrocinadora da Agrizone, é o braço educacional da CNA, a maior associação de agronegócio do Brasil. A Senar pagou R$ 2,5 milhões (cerca de £ 360 mil) pelo “patrocínio master”, o nível mais alto Recentemente,a CNA apoiou o chamado “projeto de lei da devastação” do Brasil, um pacote de reformas legais condenado por grupos ambientalistas por supostamente afrouxar o licenciamento ambiental. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o projeto, em sua versão original, prejudicaria a promessa do país de eliminar o desmatamento até 2030. Em contrapartida, a CNA apoiou publicamente o projeto, argumentando que ele reduziria a burocracia. 

Gado é visto perto de uma área recentemente desmatada na Amazônia. A CNA tem feito lobby contra a legislação da UE destinada a impedir a importação de carne bovina, soja e outras commodities provenientes de terras desmatadas. © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

A CNA também liderou os esforços para revogar a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo histórico para bloquear a venda de soja ligada ao desmatamento . Em fevereiro, a CNA apresentou uma denúncia ao Departamento de Execução de Armas de Defesa Econômica (CADE), alegando que a moratória era “ilegal”. 

O CADE deu um passo preliminar para suspender a ASM , mas um tribunal federal reverteu essa decisão; uma decisão final está pendente. Estudos demonstraram que a moratória reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia. 

A CNA também fez lobby contra a legislação EUDR, que proíbe a importação pela UE de produtos provenientes de terras desmatadas, classificando-a como uma “ restrição comercial significativa ”. 

A CNA não respondeu ao pedido de comentário. A Embrapa afirmou que, embora a Senar seja uma entidade privada, possui “fortes laços e objetivos públicos, já que atua principalmente em formação profissional, assistência social e promoção da qualidade de vida dos trabalhadores. Portanto, são atores relevantes no ecossistema de inovação da agricultura e da agricultura familiar, visto que desempenham uma importante função social que complementa a da Embrapa”.

Negação e desinformação sobre as mudanças climáticas 

Em julho, os organizadores da COP30 prometeram combater a desinformação. Mas dois dos patrocinadores da Agrizone foram recentemente associados à negação das mudanças climáticas.

A Bayer patrocina o Agro Bar, um podcast focado no agronegócio, que em 2023 entrevistou o notório negacionista brasileiro das mudanças climáticas, Luiz Carlos Molion . No episódio, Molion afirmou que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é responsável por “terrorismo climático ” Ele descarta o CO2 como um fator climático significativo, chamando-o de um “gás da vida ” vital, com um efeito atmosférico tão pequeno que é imperceptível . 

Membros da Academia Brasileira de Ciências refutaram publicamente as teorias de Molion .

Um porta-voz do podcast Agro Bar afirmou que o objetivo era “ampliar o debate e trazer diferentes vozes e pontos de vista sobre questões que impactam o agronegócio e a sociedade” e que “a Bayer não teve qualquer envolvimento na pauta, na escolha do entrevistado ou na produção do episódio em questão”. 

Durante o episódio, os apresentadores não contestaram nenhuma das opiniões de Molion. 

“A ausência de questionamentos imediatos aos convidados, ou de reações humorísticas em momentos específicos, são características do formato de debate livre e não implicam a promoção de falsidades ou desinformação”, disse o porta-voz.

Molion também tem ministrado palestras regularmente em eventos organizados pela Senar, patrocinadora do Agrizone, onde é apresentado como “o maior especialista em clima do Brasil”. Em uma palestra da Senar em 2023, Molion afirmou que a chuva na Amazônia “não tem absolutamente nenhuma influência sobre o resto do país” e que o desmatamento não tem impacto no clima global. 

Molion não respondeu ao pedido de comentário.

A Bayer não comentou a participação de Molion no Agrobar e continua patrocinando o podcast. 

Outro convidado frequente das conferências da CNA/Senar , o ex-cientista da Embrapa Evaristo de Miranda , foi acusado de liderar um grupo de pesquisadores que intencionalmente produziu controvérsias falsas que impactaram seriamente a conservação ambiental, particularmente em questões relacionadas ao desmatamento e às mudanças climáticas”.  

As afirmações de Miranda, feitas por meio de relatórios, apresentações e artigos de jornal, incluíam a de que as proteções ambientais do Brasil são as mais fortes do mundo, que as leis de conservação dificultam o desenvolvimento e que a preocupação com o desmatamento da Amazônia é infundada.

Miranda não respondeu ao pedido de comentário. 

O professor Klaus Jensen , da Universidade de Copenhague, co-liderou uma revisão sistemática de 300 artigos científicos sobre desinformação climática. Ele disse à Unearthed que a iniciativa do governo brasileiro de combater a desinformação era importante, mas que: “a inclusão de patrocinadores que anteriormente e continuamente apoiaram vozes negacionistas e contrárias em relação às mudanças climáticas coloca em questão o valor deste componente da COP30”.


Fonte: Unearthed

COP30 no Brasil: uma cúpula climática manchada por petróleo e desmatamento

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Com o início da COP30 Brasil em Belém, o mundo se reúne mais uma vez para prometer salvação — uma solução para a crise climática. Líderes globais chegam de avião e se encontram sob a copa da floresta amazônica , prometendo ambição, justiça e preservação.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comparece diante das câmeras proclamando a liderança de sua nação na luta global contra as mudanças climáticas, mas sua retórica parece estar em desacordo com a realidade.

O governo brasileiro que agora se veste com a linguagem da sustentabilidade é o mesmo que promove leis, projetos e indústrias extrativistas que colocam em risco a própria floresta que alega proteger.

A Amazônia está ameaçada não apenas por madeireiros e garimpeiros ilegais, mas também pelo próprio governo do país, que promove uma cúpula climática enquanto abre novas fronteiras petrolíferas, enfraquece a proteção de terras indígenas e acelera a emissão de licenças para atividades ecodestrutivas.

COP30 Brasil — Fumaça e espelhos

Enquanto diplomatas saboreiam smoothies de açaí em Belém, incêndios, desmatamento e degradação continuam a devastar a Amazônia.

No final de 2023, Manaus, a capital do Amazonas, desapareceu sob uma sufocante nuvem escura de fumaça. Os moradores acordaram com céus cinzentos e o gosto de floresta queimada na boca. As máscaras deixaram de ser uma proteção contra o vírus e se tornaram escudos contra o próprio ar de que precisavam para sobreviver.

Monitores de qualidade do ar registraram níveis de PM2,5 vinte vezes superiores ao limite da Organização Mundial da Saúde. É a Amazônia falando, e ela estava gritando.

Os incêndios seguem um caminho muito familiar: a rodovia BR-319, antes abandonada e agora sendo revitalizada pelo governo Lula, corta a floresta tropical como uma faca. Tratores abrem um corredor de destruição em uma das partes mais intactas da floresta, dando margem à pecuária, à grilagem de terras, ao crime organizado, à mineração legal e ilegal, aos incêndios e, possivelmente, a novas pandemias.

“O Brasil está retrocedendo enquanto promete liderança climática, caminhando na direção oposta aos seus compromissos para a COP30 Brasil”, afirma Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Ele acrescentou :

O desmatamento e a degradação já são visíveis ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, poderá desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas a um nível incontrolável.

Cássio Cardoso Pereira , ecologista e editor da revista BioScience, disse :

Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a desastrosa proposta de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical cada vez mais perto do colapso.

Perfuratriz, perfuratriz, perfuratriz

Uma das contradições mais flagrantes é a aprovação, por parte do Brasil, da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, na chamada margem equatorial brasileira.

Apesar dos apelos globais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, a gigante estatal Petrobras recebeu autorização ambiental do Ibama , órgão ambiental brasileiro , para perfurar um poço exploratório no Bloco 59, a cerca de 500 km da foz do rio, em uma área que abriga ecossistemas sensíveis, incluindo o Grande Sistema Arrecifal da Amazônia e manguezais. Ambientalistas alertam para os riscos de tal projeto e as trágicas consequências de um derramamento de petróleo.

Como um país pode sediar uma cúpula sobre ação climática enquanto expande a extração de petróleo em uma das regiões mais biodiversas e sensíveis ao clima do mundo?

A contradição é tão flagrante que quase parece deliberada, um lembrete de que a diplomacia climática muitas vezes serve à ilusão de progresso, sinalizando que a cúpula pode estar mais voltada para a promoção da marca do que para uma mudança real.

A batalha pelas terras indígenas

A narrativa climática do Brasil também desmorona quando se trata de direitos indígenas.

O controverso “Marco temporal ”, legislação apoiada pelo lobby do agronegócio (“ruralistas”), afirma que os povos indígenas só podem reivindicar terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição brasileira entrou em vigor.

Comunidades indígenas inteiras deslocadas antes dessa data perderiam seus direitos aos territórios ancestrais.

Embora o Supremo Tribunal Federal do Brasil tenha derrubado o projeto de lei em 2023, o Congresso logo aprovou a Lei 14.701/2023 para reimpor a lei, uma manobra legislativa enganosa que mina a justiça constitucional.

Para quem vive perto da floresta, a questão é existencial.

Especialistas da ONU alertaram que a lei pode invalidar centenas de demarcações de terras e acelerar o desmatamento. No entanto, na COP30, é provável que delegados indígenas participem de painéis governamentais, e sua presença será usada como prova de inclusão, mesmo enquanto seus direitos territoriais estão sendo corroídos em seus próprios países.

Desregulamentação

Como se isso não bastasse, em julho de 2025, o Congresso brasileiro aprovou a chamada “PL da devastação ”, oficialmente a lei 2159/2021 . Essa legislação afrouxa radicalmente as normas de licenciamento ambiental, permitindo que muitos projetos prossigam com avaliações de impacto mais brandas, contornando a fiscalização e concedendo mais poder aos estados e municípios.

Organizações de direitos humanos alertaram que o projeto de lei coloca as pessoas e o planeta em risco ao enfraquecer as proteções relacionadas às comunidades indígenas e quilombolas.

Embora o presidente Lula tenha vetado ou emendado 63 dos quase 400 artigos do projeto de lei em agosto, observadores alertam que as disposições restantes ainda representam uma séria ameaça. Consciente de que o Congresso poderia derrubar seus vetos, Lula pareceu buscar um delicado equilíbrio, tentando apaziguar tanto a direita quanto a esquerda, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de neutralidade.

Organizar uma cúpula climática enquanto o governo aprova esse tipo de lei é declarar guerra à credibilidade. Um país não pode, simultaneamente, presidir a mesa de negociações climáticas e acelerar a desregulamentação que incentiva o desmatamento e o deslocamento de comunidades.

A bioeconomia disfarçada de verde

Outro dos temas de maior orgulho do presidente Lula é a “revolução da bioeconomia” no Brasil. No Fórum Empresarial dos BRICS, ele declarou :

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento baseado na agricultura sustentável, na indústria verde, em infraestrutura resiliente e na bioeconomia.

Parece visionário, mas por trás dos slogans, persistem as mesmas dinâmicas extrativistas .

As monoculturas em larga escala de soja, cana-de-açúcar, óleo de palma e milho estão se expandindo pela Amazônia, justificadas como culturas para biocombustíveis “renováveis”, “verdes”, “limpas” e “sustentáveis”, o “combustível do futuro”. Projetos como a Amazônia 4.0 prometem inovação sustentável, mas correm o risco de replicar a lógica colonial de extração de recursos sob um disfarce verde.

“A extensão desse conceito à Amazônia acarreta o risco inerente de que a matéria-prima acabe sendo transformada em polpa e vendida para obter lucro”, alerta o pesquisador Ossi Ollinaho, da Universidade de Helsinque.

Entretanto, o especialista em política ambiental, Jorge Rodriguez Morales, observa que:

“Posicionar a bioenergia como uma estratégia climática justificou, na prática, políticas mais amplas de apoio à indústria de biocombustíveis e contribuiu para a deturpação dos princípios verdes da política climática brasileira.”

Deslocamentos

Enquanto isso, outro destaque da COP30 Brasil são os mercados de carbono, a suposta varinha mágica para a ação climática, mas as compensações voluntárias de carbono estão agora sob intenso escrutínio . Uma pesquisa liderada pelo Dr. Thales West, da Universidade Livre de Amsterdã, descobriu que muitos projetos florestais REDD+, antes celebrados como prova de progresso, são construídos sobre “esperança, não prova”, baseando-se em premissas frágeis.

A revista Nature relata que as compensações de carbono muitas vezes “minam a descarbonização, permitindo que empresas e países reivindiquem reduções que não existem”.

No cerne do problema está o cenário base: ameaças exageradas permitem que projetos vendam mais créditos, mesmo para florestas que nunca estiveram em risco. O Dr. West  afirma :

Mesmo com as melhores intenções, se você seguir a ‘receita errada’, provavelmente não obterá o resultado desejado.

Os sistemas de certificação, financiados pelos próprios projetos que auditam, criam conflitos de interesse, enquanto muitos créditos não levam em consideração a perda florestal causada por incêndios, exploração madeireira ou deslocamento de populações.

O projeto Suruí, no Brasil, outrora celebrado como um sucesso de conservação liderado por indígenas, entrou em colapso devido à mineração ilegal e à pressão sobre a terra, demonstrando que mesmo compensações bem planejadas não conseguem ter sucesso em um sistema falho.

Os críticos alertam que as compensações de carbono se tornaram uma forma de greenwashing, permitindo que companhias aéreas, empresas de tecnologia e marcas de luxo continuem poluindo.

O Dr. West adverte :

A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.

Integridade, verdade e justiça

A retórica internacional de Lula continua poderosa, seus discursos sobre “salvar a Amazônia” ainda recebem aplausos em Nova York, Londres, Paris e Davos, mas poder sem integridade é apenas ruído.

Na COP30 Brasil, a palavra “justiça” será repetida muitas vezes, mas justiça exige mais do que palavras, exige ação, alinhamento de políticas e princípios.

O Brasil não pode sediar a cúpula mundial do clima enquanto concede licenças para exploração de petróleo na foz do Amazonas, enquanto afrouxa as proteções territoriais dos povos indígenas e enquanto acelera projetos ambientalmente sensíveis sob a égide da “lei da devastação”.

A Amazônia não é apenas uma floresta, é o pulmão de um continente, guardiã de “rios voadores” que trazem chuva e umidade para o Brasil e outras regiões, um escudo contra o caos climático. Destrua-a, e as consequências se espalharão muito além do Brasil, trazendo secas, inundações, instabilidade climática e até mesmo novas pandemias.

A floresta já se manifesta através dos incêndios, da fumaça, do desaparecimento dos rios e das pessoas ameaçadas. O mundo ouve os discursos da COP30, mas a floresta ouve as ações — ela responde ao que os líderes fazem, não ao que prometem.

A Amazônia não tem mais tempo para hipocrisia.

Imagem em destaque via Foreign Policy Centre


Fonte: The Canary

Povos indígenas exigem a proteção das florestas tropicais contra as indústrias extrativistas

mapas de extrativismoComunidades indígenas exigem o reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a natureza. Crédito da imagem: Sergio Carranza Basantes/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed.

Por Aleida Rueda para o SciDev 

[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Grupos indígenas e comunidades locais de diferentes regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia, uniram-se em uma reivindicação global pelo reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a preservação da natureza.

O apelo é consequência de um novo relatório elaborado pela Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight, que expõe pela primeira vez, com mapas detalhados, a crise ambiental causada pelo modelo de produção baseado na extração intensiva de recursos naturais.

Os mapas indicam as áreas onde ocorrem atividades de extração de petróleo e gás, bem como mineração, exploração madeireira industrial e agricultura em larga escala nas florestas da Amazônia, da região do Congo, da Indonésia e da Mesoamérica, onde vivem 35 milhões de indígenas.

Um estudo realizado pela Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight produziu mapas detalhados das indústrias extrativas em várias regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia. Crédito da imagem: Earth Insight.

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo”, disse Juan Carlos Jintiach Arcos, secretário executivo da GATC, à SciDev.Net .

“Eles não podem mais dizer que inventamos essas coisas. Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam”, afirmou ele.

Jintiach Arcos, que faz parte do povo Shuar da Amazônia equatoriana, também afirmou que este relatório demonstra que as ameaças aos territórios indígenas não são incidentes isolados, mas parte de um padrão estrutural que se repete em todas as regiões de floresta tropical do mundo.

Esse padrão é evidente nos mapas do relatório, que constituem “uma ferramenta poderosa, pois são uma forma de tornar visível, de forma clara e urgente, o que normalmente fica oculto em documentos técnicos ou bancos de dados dispersos”, disse Florencia Librizzi, vice-diretora da Earth Insight, ao SciDev.Net .

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo (…) Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam.”

Juan Carlos Jintiach Arcos, Secretário Executivo do GATC

Na Mesoamérica , por exemplo, o relatório mostra que existem 3,7 milhões de hectares (Mha) de terras de povos indígenas e comunidades locais ameaçadas pela extração de petróleo e gás, enquanto as concessões de mineração ameaçam 18,7 milhões de hectares desse tipo de terra.

A isso se somam outras ameaças, como o tráfico de drogas, o desmatamento, a construção de megaprojetos e a fragilidade da governança em países como México, Honduras e Nicarágua.

Na Amazônia , onde 250 milhões de hectares são terras habitadas por povos indígenas e comunidades locais, 31 milhões de hectares estão ameaçados por petróleo e gás; 9,8 milhões de hectares por mineração; e 2,4 milhões de hectares por exploração madeireira.

As indústrias extrativas estão presentes em todos os países da Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, mas existem diferenças interessantes.

Por exemplo, a indústria petrolífera representa uma ameaça maior na Amazônia do que na Mesoamérica, mas nesta última, a maior parte da exploração ocorre longe da costa ( em alto-mar). Também se observa que países como Suriname e Guiana têm uma concentração maior de concessões madeireiras do que o resto da região.

Após a divulgação do relatório, as pessoas que vivem nas áreas ameaçadas estão exigindo mudanças. A principal reivindicação é a garantia e o reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, bem como a asseguração do consentimento livre, prévio e informado  (CLPI) para todos os projetos.

“Muitas vezes, empresas ou governos chegam aos nossos territórios sem compreender os nossos processos internos, sem respeitar as nossas formas de governação e tomada de decisões, ou pior, enganando as nossas comunidades para obter uma assinatura ou autorização. Isso não é consentimento”, afirmou Jintiach Arcos.

O consentimento, esclareceu ele, “não busca abrir as portas para as indústrias extrativas, mas afirmar nossa soberania (…) que somos nós que decidimos o que entra e o que não entra em nossos territórios”.

Outra reivindicação diz respeito ao financiamento direto para as comunidades indígenas. “Não estamos falando apenas do dinheiro chegar às comunidades”, explicou Levi Sucre Romero, diretor-geral da Aliança Mesoamericana dos Povos e das Florestas (AMPB). Especificamente, eles se referem a empresas, governos e organizações multilaterais que modifiquem seus modelos de financiamento, fortaleçam os sistemas de governança que sustentam esses territórios e criem mecanismos diferenciados de monitoramento e avaliação que respondam às realidades de cada território.

Para Ivan Brehaut, diretor de programas da Associação ProPurus, dedicada à proteção das florestas, e que não participou do relatório, o documento oferece um panorama muito claro de onde estão as ameaças, não apenas para as florestas, mas também para os povos indígenas em isolamento e em contato inicial (PIACI).

“Para a maioria das pessoas, a floresta tropical continua sendo um espaço vazio, sem população. Mostrar a sobreposição entre as áreas do PIACI e as iniciativas extrativistas ajuda a perceber o nível de impacto causado pelas indústrias extrativistas na vida das pessoas”, disse ele ao SciDev.Net .

No entanto, acrescentou, não haverá interrupção do extrativismo enquanto a economia mundial depender de combustíveis fósseis e enquanto não for reconhecido que as florestas (e seus habitantes, os povos indígenas) “são mais do que apenas uma mercadoria ”.

Evidências de proteção bem-sucedida

O relatório não apenas destaca as ameaças, mas também propõe soluções. Por exemplo, onde há maior reconhecimento dos direitos territoriais e da governança comunitária, a saúde da natureza é preservada e o desmatamento diminui significativamente.

“Um exemplo é a Reserva da Biosfera Maia na Guatemala, onde a sobreposição com as concessões é muito menor, a ponto de o desmatamento em áreas comunitárias ser mais de sete vezes menor que a média nacional”, disse Librizzi.

Para Olo Villalaz, líder da AMBP, isso tem a ver com a forma como as comunidades entendem o cuidado com as florestas.

“Entendemos que a Mãe Terra é um único lar onde todos vivemos e do qual nossas vidas dependem. Sua proteção se baseia no respeito, na espiritualidade e em decisões tomadas coletivamente, onde cada voz — de mulheres, jovens, idosos e autoridades — tem seu lugar”, disse ela ao SciDev.Net .

Líderes indígenas concordaram que, embora pareça não haver como deter o extrativismo na região, existem sinais de esperança: “Não falamos mais sozinhos. Hoje, o mundo começa a entender que sem os povos indígenas não há futuro possível”, afirmou Jintiach Arcos.

De acordo com Librizzi, há claros sinais de progresso devido à crescente colaboração entre organizações indígenas nas três principais bacias tropicais: a Amazônia, a bacia do Congo e o Sudeste Asiático. “Isso está gerando uma voz coletiva mais forte e coordenada.”

Jintiach concordou: “A esperança reside na força organizada do povo, na nossa capacidade de propor, resistir e construir. Não pedimos para sermos incluídos; exigimos ser aliados em pé de igualdade, porque sem nós, a regeneração é impossível.”


Fonte: SciDev.Net

Cúpula climática em área de alto risco: a redução das emissões é urgente, mas os poluidores têm seus próprios planos

Na conferência climática na Amazônia, o Brasil, país anfitrião, quer se concentrar principalmente na maior proteção das florestas tropicais.

Na conferência climática na Amazônia, o Brasil, país anfitrião, quer se concentrar principalmente na maior proteção das florestas tropicais. Foto: AFP/Douglas Magno

Por Kurt Stenger para o “Neues Deutschland”

“Os EUA não enviarão nenhum representante de alto escalão à COP 30.” Esta declaração de um porta-voz da Casa Branca, pouco antes do início da conferência climática da ONU em Belém, Brasil, trouxe alívio a muitos representantes de ONGs. Washington retirou-se do Acordo de Paris sob o governo de Donald Trump, mas ainda tem permissão para participar desta cúpula. É quase inimaginável o que uma delegação forte de Washington, repleta de negacionistas climáticos de direita e lobistas de combustíveis fósseis, poderia fazer durante as duas semanas de negociações.

Este incidente também demonstra o quão baixas são as expectativas para a COP 30. Ela enfrenta uma situação preocupante, dadas as tensões geopolíticas, a tendência para acordos comerciais bilaterais e a crescente oposição da direita a qualquer política climática. Dez anos após a adoção do Acordo de Paris sobre o Clima, o progresso é mais difícil do que nunca. No entanto, torna-se cada vez mais urgente: “Provavelmente já perdemos os recifes de coral tropicais”, afirma o meteorologista Frank Böttcher, organizador do congresso sobre clima extremo. “No máximo, quando o aquecimento atingir 1,5 graus Celsius, também entraremos em território de alto risco em relação a outros pontos de inflexão.”

A diplomacia climática, contudo, segue seu curso normal, como revela a agenda de Belém. Uma decisão sobre a expansão do financiamento para adaptação climática ainda está pendente. Discussões futuras se concentrarão na questão, adiada na COP 29 em Baku, de como mobilizar os US$ 1,3 trilhão necessários em financiamento climático anual para os países pobres. Permanece incerto se a significativa lacuna nos Planos de Desenvolvimento Determinados Nacionalmente (NDCs), que estão longe de ser suficientes para atingir a meta de 1,5 grau do Acordo de Paris, será abordada. O Brasil, país anfitrião, pretende excluir questões sensíveis do “acordo geral” planejado e fortalecer a proteção florestal para reivindicar o sucesso da conferência.

Nem todas as delegações estão satisfeitas com isso. A pressão aumenta por parte da Coalizão de Alta Ambição – um grupo de estados fundado pelas Ilhas Marshall, comprometido com a meta de 1,5 grau e com a solidariedade aos países vulneráveis. Pouco antes do início da cúpula em Belém, a coalizão pediu um acordo vinculativo para reduzir rapidamente a lacuna de emissões nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e medidas para reformar a arquitetura financeira internacional. A declaração foi assinada por 22 estados, principalmente da Europa, América Latina e pequenos estados insulares. Estes últimos enfrentam ameaças existenciais e precisam urgentemente de progressos reais em questões de proteção climática e finanças.

A diplomacia climática, no entanto, está se baseando na manutenção do status quo.

Mas isso só acontecerá se os principais poluidores, China, EUA e UE, também se comprometerem com uma “alta ambição” e trabalharem juntos. O Acordo de Paris só foi possível quando os presidentes de Washington e Pequim forjaram uma aliança climática surpreendente. Nada restou disso: durante o segundo mandato de Trump, o diálogo climático estratégico entre as duas superpotências foi suspenso.

Assim, as três grandes potências defenderão apenas seus próprios interesses nas negociações de Belém. A China, como porta-voz das principais economias emergentes, busca maior influência no cenário internacional. “Mudanças geopolíticas significativas estão moldando a ação climática global”, explica a ONG Germanwatch. Ao mesmo tempo, Pequim e seus aliados se recusam até agora a assumir compromissos financeiros reais com os países pobres, sem os quais a meta de um trilhão de euros permanecerá inatingível. É improvável que algo mude nesse sentido em Belém.

A China demonstra uma postura igualmente vaga em relação à proteção climáticaEmbora o presidente Xi Jinping tenha prometido uma redução absoluta de emissões de sete a dez por cento até 2035 na Assembleia Geral da ONU, isso equivale a pouco mais do que uma declaração de boa vontade, visto que Pequim ainda não apresentou essa promessa à ONU como um compromisso nacional no âmbito do Acordo de Paris. Além disso, Martin Kaiser, do Greenpeace, calcula que uma redução de pelo menos 30% seria necessária para manter o aquecimento global dentro da meta de 1,5 grau.

Isso também se reflete no setor energético. Embora a China tenha expandido sua capacidade de energia eólica e solar como nenhum outro país nos últimos anos, aumentando-a seis vezes em comparação com 2020, e a eletrificação dos transportes esteja progredindo rapidamente, com mais de 7,5 milhões de veículos elétricos vendidos este ano – mais do que no resto do mundo combinado –, ambos os desenvolvimentos são impulsionados por interesses comerciais de exportação. A China almeja se tornar líder global em tecnologia verde, uma meta claramente delineada em seu plano quinquenal para o período de 2026 a 2030.

Ao mesmo tempo, a República Popular da China está expandindo massivamente seu setor de carvão, particularmente prejudicial ao clima: de novas minas e infraestrutura de transporte a usinas termelétricas. De acordo com a “Lista Global de Desativação do Carvão”, publicada pela ONG Urgewald, dois terços de todo o financiamento global para novos projetos de carvão no ano passado vieram de bancos chineses, e outros países também estão expandindo sua produção devido à alta demanda da China. A Urgewald também aponta para a expansão do setor de produtos químicos derivados do carvão, onde quase metade dos novos projetos em todo o mundo estão localizados na República Popular da China. “Isso libera significativamente mais gases de efeito estufa do que a queima de carvão em uma usina termelétrica”, explica a diretora-geral Heffa Schücking.

Portanto, não é surpreendente que a China seja responsável por cerca de um terço das emissões globais anuais de CO2 . As emissões per capita são praticamente equivalentes às da Alemanha – embora as nações industrializadas ocidentais tenham historicamente contribuído muito mais para o aquecimento global, o que implica uma maior responsabilidade na redução das emissões.

O governo dos EUA não quer ter nada a ver com isso. O país ocupa o segundo lugar, atrás apenas das emissões globais, com 13%, e apresenta emissões per capita superiores às da China. Aqui também existe uma dicotomia no setor energético: Trump lançou o slogan “Perfurem, meu bem, perfurem” e está pressionando por novos projetos de petróleo e gás. As regulamentações de proteção climática também estão sendo flexibilizadas, como a classificação do CO2 como prejudicial à saúde. Por outro lado, os interesses econômicos defendem a expansão das energias renováveis. Nos estados de Iowa, Dakota do Sul, Kansas e Oklahoma, mais de 40% da eletricidade já é gerada por energia eólica, e o conservador Texas ultrapassou recentemente a Califórnia como líder em energia solar. Além disso, foram implementados sistemas regionais de comércio de emissões com preços para o CO2 .

As esperanças de algumas ONGs de que uma aliança União Eurpeia (UE)-China impulsionaria a diplomacia climática após a saída dos EUA não se concretizaram. A desconfiança mútua e os interesses econômicos estão a obstruir o processo. Bruxelas impôs tarifas punitivas às importações chinesas de carros elétricos e considera fazer o mesmo com as células solares. Ao mesmo tempo, a UE – o quarto maior emissor, com uma quota de 6% – não vai a Belém como pioneira. Os prazos da ONU para novos planos climáticos foram ultrapassados; os ministros do ambiente só recentemente chegaram a um acordo sobre uma meta modesta para 2035, com lacunas. Martin Kaiser vai ainda mais longe, argumentando que os debates sobre metas são, de qualquer forma, inúteis neste momento, uma vez que a implementação de todas as medidas de proteção climática da UE, desde o comércio de emissões à eliminação gradual dos motores de combustão, está a ser posta em causa sob pressão da indústria e da direita política.

Isso também afeta o financiamento climático: a Alemanha, um dos doadores mais importantes, cumpriu sua promessa de destinar seis bilhões de euros ao Sul Global pela primeira vez no ano passado. No entanto, cortes em favor das forças armadas já estão em curso: Jan Kowalzig, da Oxfam, prevê que apenas 4,5 a 5,3 bilhões de euros serão disponibilizados este ano e 4,4 a 5 bilhões de euros em 2026.

Apesar desses sinais, o Brasil, anfitrião da COP 30, aposta na mensagem de “mutirao” – mas o “esforço conjunto” provavelmente terá que vir de alguém que não sejam os grandes poluidores. Pelo menos não parece haver uma grande aliança de obstrucionistas liderada pelos EUA. Donald Trump estará, no entanto, presente em Belém, em 6.000 formas diferentes. Os artistas de rua Jens e Lasse Galschiøt planejam confrontar os delegados com esculturas em miniatura do presidente americano, acompanhadas da mensagem: “Rei da Injustiça”.


Fonte: Neues Deutschland