Gigante chinesa vai rastrear origem da soja para evitar compras em áreas desmatadas na Amazônia e no Cerrado

Cofco International da China verificará compras agrícolas do Brasil por danos ambientais

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A Cofco International Ltd., braço de comércio global da maior empresa de alimentos da China, prometeu rastreabilidade total de toda a soja que compra diretamente de agricultores no Brasil até 2023.

A promessa, incluída em seu último relatório anual de sustentabilidade, visa reduzir os danos ambientais e seria a primeira vez para um grande comerciante de colheitas. O compromisso forçaria a Cofco International Ltd. a rastrear toda a soja que compra no Brasil para fazendas e locais específicos que não são de terras desmatadas, segundo o relatório.

“Tornamos público nosso compromisso de rastreabilidade porque estamos preparados e queremos ser responsabilizados por ele”, disse Wei Peng, chefe global de sustentabilidade da Cofco International, em comunicado.

A empresa promete rastrear mais de 50% de suas compras de soja no Brasil em 2020, segundo Peng. A Cofco estimou anteriormente que manipulará entre 6,7 milhões e 7 milhões de toneladas de soja no país na temporada 2020-21, que começou em fevereiro.

A rastreabilidade total, que a Cofco disse que seria verificada por terceiros, deve ajudar a desacelerar o desmatamento que devastou algumas partes do Brasil, incluindo o bioma Cerrado.

georating-deforestation-score-2-scfUm dos 11 mapas de classificação geográfica do Cerrado Brasil: desmatamento em 2016/2017 (PRODES), metodologia Agrotools

Os comerciantes agrícolas globais foram criticados por seu papel na crise ambiental do Brasil, que se espalhou da floresta amazônica para os campos de savanas do Cerrado, que cobrem mais de 20% do país e representam mais da metade de suas colheitas de soja.

O objetivo da Cofco de rastreabilidade total identificaria as origens exatas de onde a soja veio e sua história com documentação de apoio que garantiria que não fosse de terras agrícolas recentemente convertidas em vegetação natural.

O mapeamento tem métodos e objetivos diferentes em relação à rastreabilidade, ressaltando as diferentes abordagens que os comerciantes estão adotando para resolver o problema, de acordo com a Bloomberg.

A rival da Cofco, Louis Dreyfus Co., disse em seu relatório anual de sustentabilidade esta semana que conseguiu rastrear cerca de 30% de suas compras diretas de soja no Brasil em 2019 e se comprometeu com a rastreabilidade de 50% em 2020.

A Cargill Inc., maior trader agrícola, disse nesta semana que mapeou 100% de sua base de fornecimento de soja no Brasil, o que significa que possui uma localização geográfica para as fazendas que comprou e para os intermediários que comprou soja como plantas de britagem e terminais de exportação.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado no site da CLBrief [Aqui!].

Estudo aponta que grandes propriedades apresentam maiores áreas de déficit ambiental em municípios da Mata Atlântica

Gestores de 117 municípios podem utilizar dados para a tomada de decisão quanto ao uso e conservação do bioma

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Mata Atlântica. Ao fundo, cidade do Rio de Janeiro. Foto: Dmitry V. Petrenko/ Shutterstock.com

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) lançam o sumário executivo “Resumo Fundiário, Uso do Solo e de Remanescentes Florestais de 117 Municípios da Mata Atlântica“, como parte de um relatório mais abrangente que reúne uma série de estudos sobre conservação, uso e ocupação do solo no bioma. O objetivo da iniciativa é oferecer conhecimento sobre a situação atual dos municípios para auxiliar gestores públicos na tomada de decisão de políticas públicas ambientais. Além de estatísticas, o relatório traz mapas de todos os municípios analisados. A apresentação do relatório aconteceu durante webinar nesta quinta (30), às 15h.  

Acesse o sumário executivo

Para solicitar o relatório completo entre em contato com info@sosma.org.br

Segundo o estudo, nos municípios analisados, as grandes propriedades – que correspondem a 3% do total, apresentam as maiores áreas de déficit de Área de Preservação Permanente (APP), com 46,6%, e de Reserva Legal, com 69,6%. Enquanto o ativo de vegetação natural em pequenas e médias soma 55,6%. Ao relacionar por tamanho das propriedades rurais (pequenas, médias e grandes), as grandes propriedades representam 48%, totalizando 5.659.506 hectares da área. Além disso, foi possível identificar uma predominância de vegetação natural nos municípios, com 6.326.971 de hectares, ou 37.7% do total, seguido da classe de agricultura com 5.167.435 de hectares, ou 30.8% do total.

“A Mata Atlântica foi o bioma mais impactado pelas anistias do novo Código Florestal, com um uma redução de 27%, uma área maior que a do estado do Sergipe. A falta de planejamento territorial contribui para uma gestão ineficiente dos recursos, causando, por exemplo, supressão de vegetação nativa, escassez hídrica e degradação do solo. E isso ocasiona a perda de serviços ecossistêmicos fundamentais e contribui para as mudanças climáticas, já cada vez mais acentuadas. Por isso, queremos colaborar com conhecimento para o melhor gerenciamento por partes dos gestores públicos locais”, afirma Rafael Bitante Fernandes, gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica.

O impacto ao meio ambiente também é visto como prejudicial à economia e à imagem do Brasil. Recentemente, um grupo de investidores que detém uma carteira de US﹩ 4,1 trilhões direcionou suas preocupações ambientais às embaixadas brasileiras em oito países. Empresários brasileiros também se uniram para pedir o combate ao desmatamento em todos os biomas do país.

Transparência, rastreabilidade, compromissos e ações em sinergia com meio ambiente são pilares cada vez mais estratégicos no mundo dos negócios, o que para o poder público e iniciativa privada podem ser uma grande oportunidade. Uma política pública ainda pouco utilizada e que vai ao encontro a isso são os Planos Municipais da Mata Atlântica (PMMAs), e esse relatório traz subsídios concretos para colocar isso em prática.

“Com os Planos Municipais de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA), por exemplo, os gestores podem usar estes dados para apontar o que fazer, como e onde priorizar ações de uso e conservação”, reforça Rafael Bitante Fernandes.

A realização deste estudo se baseou em quatro critérios: remanescente de vegetação nativa; desmatamento; adequação do Código Florestal e uso do solo. Para a definição dos municípios analisados, foi feita uma análise multicritério em que foram escolhidas variáveis como desmatamento após 2008, déficit total, área de vegetação nativa, área de agronegócio, entre outras.

“O contexto atual reforça aquilo que já vínhamos demonstrando há décadas: não há dicotomia entre produção e conservação, pelo contrário. Não só é possível como, cada vez mais, urgente e obrigatório levar em conta os dados científicos disponíveis para a tomada de decisões de políticas públicas”, acredita Luis Fernando Guedes Pinto, Gerente de Políticas Públicas, engenheiro agrônomo e pesquisador do Imaflora. “Quem se propuser a utilizar tais dados para construir políticas de regeneração estará dando um sinal positivo para investidores, eleitores e a sociedade em geral.”

Para obter tais dados, os pesquisadores analisaram diversas pesquisas e metodologias, como o estudo “Números detalhados do novo Código Florestal e suas implicações para os PRAs”, do Imaflora; bases de dados governamentais públicas; o Atlas da Agropecuária brasileira; a base vetorial de hidrografia da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS); o MapBiomas e o Atlas da Mata Atlântica.

Em vista das eleições municipais no segundo semestre deste ano, o estudo traz importantes contribuições para que os atuais e futuros gestores destas cidades possam incluir a agenda ambiental como tema estratégico em seus planos.

“Assim como os órgãos estaduais de meio ambiente, a esfera municipal é crucial neste momento de pandemia e diante das fragilidades de políticas federais. Os órgãos municipais podem exercer cada vez mais um papel preponderante e protagonista na construção de uma agenda positiva e estratégica no campo da conservação e recuperação da Mata Atlântica. Principalmente para que sejam ativo essencial para o enfrentamento dos impactos do clima, na gestão da água, nas áreas protegidas, na sustentabilidade das atividades econômicas, na qualidade de vida e bem-estar da população”, conclui Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma ONG ambiental brasileira criada em 1986 para inspirar a sociedade na defesa da floresta mais ameaçada do Brasil. Atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade em prol da restauração da floresta, valorização dos parques e reservas, água limpa e proteção do mar. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.

Sobre o Imaflora

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil brasileira sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora busca influenciar as cadeias dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país. Mais informações: http://www.imaflora.org

Informações à imprensa

Fundação SOS Mata Atlântica

Luiz Soares,  Tel.: (11) 96199-1050, Email.: luiz@sosma.org.br

Imaflora

Israel Lippe,  Tel.: (11) 95041-3625,  Email.: israel.lippe@profilepr.com.br

 

 

Nordea retira investimentos e cessa relações com a JBS por causa da falta de compromisso ambiental

Investidores descartam gigante de carne brasileira JBS

Principal casa de investimento exclui maior produtor mundial de carne por falta de compromisso com questões de sustentabilidade

 

guardian 1Os investidores estão cada vez mais preocupados com a sustentabilidade. Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Por Dom Phillips no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

O braço de investimentos do maior grupo de serviços financeiros do norte da Europa retirou a JBS, a maior processadora de carne do mundo , de seu portfólio. A empresa brasileira agora está excluída dos ativos vendidos pela Nordea Asset Management, que controla um fundo de €230 bilhões, de acordo com Eric Pedersen, seu chefe de investimentos responsáveis.

A decisão foi tomada há cerca de um mês, sobre os vínculos do gigante da carne com fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia, sua resposta ao surto de COVID-19, escândalos de corrupção anteriores e frustrações pelo envolvimento com a empresa em tais questões. “A exclusão da JBS é bastante dramática para nós, porque é de todos os nossos fundos, e não apenas daqueles rotulados como ESG”, disse Pedersen.

o termo ESG representa os padrões “ambientais, sociais e governamentais ” usados ​​para avaliar a sustentabilidade e o impacto social de uma empresa para os investidores. Um terço dos investimentos da Nordea Asset Management são classificados como ESG, disse Pedersen. A Nordea foi uma das 29 instituições financeiras internacionais que administravam US $ 3,7 trilhões em fundos que alertaram o governo brasileiro no mês passado sobre o aumento do desmatamento. No ano passado, a Nordea suspendeu a compra de títulos do governo brasileiro após a crise na Amazônia.

Somente no ano passado, cinco reportagens do The Guardian, do Bureau of Investigative Journalism, da agência brasileira Réporter Brasil, do Greenpeace e da Anistia Internacional, vincularam a JBS ao gado fornecido pelas fazendas da Amazônia envolvidas no desmatamento.

Embora a empresa tenha avançado no controle de seus “fornecedores diretos” – as fazendas das quais seus matadouros obtêm gado -, é incapaz de controlar seus “fornecedores indiretos”. São fazendas de criação ou criação de gado que vendem para fazendas que, por sua vez, abastecem matadouros da JBS. Em alguns casos, as “fazendas limpas” têm links para “fazendas sujas” – ou são administradas pelas mesmas pessoas, como no caso mais recente revelado na segunda-feira.

A JBS e os outros produtores de carne em larga escala do Brasil, Minerva e Marfrig, estão sujeitos a controvérsias sobre o suprimento de gado na Amazônia há mais de uma década.

Em 2009, após um relatório devastador do Greenpeace , JBS, Marfrig, Minerva e outras empresas se comprometeram a parar de comprar de qualquer fornecedor direto envolvido no desmatamento. Em dois anos, eles prometeram verificar se seus fornecedores indiretos também não estavam envolvidos no desmatamento – mas essa promessa ainda não foi cumprida. No mesmo ano, a JBS, Minerva e Marfrig assinaram acordos semelhantes com os promotores federais .

Em 2017, a JBS foi multada em US $ 7,7 milhões pela agência governamental ambiental Ibama por comprar mais de 49.000 bovinos de áreas desmatadas ilegalmente no estado do Pará, na Amazônia – algumas de fornecedores indiretos. Como resultado, o Greenpeace desistiu do acordo, mas o acordo com os promotores federais ainda permanece. Em julho de 2019, uma investigação publicada pelo The Guardian, pelo Bureau of Investigative Journalism e pela Reporter Brasil constatou que os matadouros da JBS no mesmo estado compraram gado de fazendas pertencentes à AgroSB Agropecuária SA, uma poderosa empresa de pecuária.

Essas fazendas tinham sido abastecidas com gado de outra fazenda pertencente à mesma empresa – uma fazenda com uma longa história de multas e embargos de terra para desmatamento. A AgroSB disse que o desmatamento ocorreu antes de comprar a terra em 2008. A JBS disse que não comprou gado de terras desmatadas ilegalmente ou embargadas contra uso para pecuária e que sua própria auditoria independente de 2018 mostrou que mais de 99,9% de suas compras cumpriu os termos do acordo do Greenpeace. Não afirmou que sua auditoria independente reconheceu que a empresa não era capaz de auditar seus fornecedores indiretos. E no início deste ano uma investigação da Réporter Brasil publicada pelo The Guardian vinculou a empresa a um agricultor cuja fazenda, de acordo com imagens de satélite, havia desmatado extensivamente em 2015. Uma serraria que o agricultor possuía em outro local também possuía uma longa lista de multas. Recentemente, um tribunal retirou as acusações contra ele em outro caso envolvendo o massacre de nove homens.

4351Grandes frigoríficos brasileiros dizem que estão trabalhando para melhorar a transparência em suas cadeias de suprimentos. Foto: Joedson Alves / EPA

A JBS reiterou sua posição anterior de que não comprava gado de fazendas envolvidas em desmatamento, invasão de reservas indígenas, conflitos rurais ou conflitos de terra, e negou que o agricultor tivesse sido um fornecedor. A empresa disse que monitorou mais de 50.000 fazendas potenciais de fornecimento de gado todos os dias e bloqueou mais de 8.000 devido à não conformidade.

A JBS disse ao The Guardian: “A rastreabilidade total de nossa cadeia de suprimentos, incluindo soluções viáveis ​​para monitorar o suprimento indireto, continua sendo uma prioridade. Novas iniciativas foram propostas e estão sendo examinadas com as partes interessadas, além das políticas substanciais que já foram implementadas. ” Em 1º de julho, a JBS introduziu um novo “índice teórico” que usa a produtividade de uma fazenda para calcular se há suspeita de lavagem de gado e agora verifica as fazendas de fornecedores quanto a embargos do Ibama.  A JBS também disse que está trabalhando em uma versão “verde” dos registros de movimentação de gado com o Ministério da Agricultura do Brasil que mostraria o status ambiental das fazendas fornecedoras. A empresa disse que está discutindo o esquema com o ministério desde 2014.

A Marfrig repetiu suas declarações anteriores e disse estar “totalmente consciente dos desafios relacionados à cadeia de produção animal”, destacando seu mecanismo pelo qual os agricultores fornecem informações sobre seus fornecedores. Ele disse que 53% de seu gado amazônico veio de fornecedores indiretos. A Minerva disse que suas compras de gado na Amazônia eram “100% feitas em fazendas monitoradas”, mas que não era possível rastrear completamente os movimentos de gado na Amazônia sem acesso total aos dados do governo, o que não a empresa declarou não possuir.

Em junho deste ano, uma investigação do Greenpeace relatada pelo The Guardian constatou que a JBS, Marfrig e Minerva haviam comprado gado de uma fazenda que fornecia gado de outra fazenda dentro de uma reserva protegida no estado de Mato Grosso, em co-propriedade do mesmo proprietário – acusado de crimes ambientais. De acordo com um relatório do Observer de 2017 , a JBS havia dito que havia bloqueado as compras de fazendas dentro da reserva.

Neste mês, a Anistia Internacional, com a Repórter Brasil, revelou que o gado que era alimentado em pastos estabelecidos ilegalmente em áreas protegidas do estado da Amazônia de Rondônia havia entrado na cadeia de suprimentos da JBS.

A JBS diz que a empresa “está totalmente comprometida em alcançar uma cadeia de suprimentos de carne sem desmatamento e evitar fornecedores irregulares. Reconhecemos que a rastreabilidade indireta do fornecedor continua sendo um problema no nível do sistema no Brasil e estamos trabalhando com as partes interessadas do governo e da indústria para encontrar soluções viáveis. Instamos qualquer pessoa com evidência de negligência a denunciá-la às autoridades competentes. Também operamos uma linha direta de denúncias da empresa para qualquer funcionário entrar em contato se vir ou suspeitar de irregularidades. ”

Mas Pedersen disse que escândalos como esses, e a resposta da JBS a eles, influenciaram a decisão da Nordea de excluir a empresa de seu portfólio.

“Tivemos várias reuniões com eles no Brasil e atualizações regulares por telefone e vídeo e não ficamos impressionados com o nível de compromisso que poderíamos ver do lado deles”, disse ele. “Se não vemos progresso, temos que dar esse passo.”

A sustentabilidade é cada vez mais importante não apenas para investimentos em ESG, disse Pedersen, mas também para produtos padrão. “Também estamos trabalhando com a Minerva e, claro, com a Marfrig”, disse ele. “O bar continua subindo.”

A JBS disse ao Guardian que não comenta o diálogo com seus acionistas.

Em 23 de julho, a Marfrig lançou seu próprio plano ambicioso para monitorar todos os fornecedores indiretos na Amazônia até 2025 e na região de Cerrado no Brasil até 2030, usando chips em gado, monitoramento por satélite, blockchain e mapas de risco, bem como esquemas para ajudar os agricultores anteriormente envolvidos no desmatamento produz de forma sustentável.

“Faltam detalhes de quando será iniciado, qual é a meta por ano, qual sistema será usado”, disse Daniel Azeredo, o promotor federal envolvido nos acordos de 2009 com as empresas de carne, mas enfatizou: “É positivo plano.” Adriana Charoux, ativista florestal sênior do Greenpeace Brasil, disse que os prazos da empresa eram muito longos. “A Marfrig conhecia as raízes desse problema em 2009”, disse ela.

Minerva disse que em julho começou a testar o Visipec , uma ferramenta de rastreamento baseada em nuvem desenvolvida pela Universidade de Wisconsin e pela Federação Nacional da Vida Selvagem dos EUA. Ele disse que monitora mais de 9.000 fornecedores na Amazônia, mas disse que “atualmente não há dados e estatísticas acessíveis … para determinar o número de fornecedores indiretos no Brasil”.

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Esta reportagem foi inicialmente escrita em inglês e publicada pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Greenpeace registra imagens de focos ilegais na Amazônia

Com falta de fiscalização e inteligência no combate aos danos ambientais, Brasil pode registrar novos recordes de fogo na Amazônia neste ano

unnamed (12)Foto: © Foco de calor direto em floresta, próximo a área recém desmatada, com alerta Deter, em Alta Floresta (MT). Christian Braga / Greenpeace.

Manaus, 17 de julho de 2020 – Mesmo com a medida que proíbe queimadas em Mato Grosso a partir de 1 de julho, o Greenpeace registrou imagens de focos de incêndio na floresta amazônica no Estado em sobrevoo realizado na semana passada. Além das áreas completamente queimadas, o Greenpeace também registrou imagens de áreas sendo preparadas para a queima. Com 4.437 focos de incêndio até o dia 13 de julho, o Estado de Mato Grosso já conta com o maior número de queimadas na Amazônia brasileira este ano, representando 49,52% de todas as queimadas na região em 2020.

Acesse as imagens aqui

“Essas imagens e o aumento recorde do desmatamento este ano são o resultado da política antiambiental do governo para a Amazônia, que ainda tenta usar a crise provocada pela Covid-19 como uma cortina de fumaça para permitir ainda mais desmatamento, grilagem e garimpo na floresta. A única coisa que este governo está fazendo é colocando o clima e mais vidas em risco, especialmente as dos povos indígenas”, afirma Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Florestas do Greenpeace Brasil.

Em junho de 2020, 2.248 focos de incêndio foram registrados na Amazônia, um aumento de 19,57% comparado a junho de 2019 (1.800) e o maior número registrado para o mês desde 2007. Entre 1 e 13 de julho, 1.057 focos de incêndio foram registrados no bioma. Atualmente, todos os focos de incêndio na Amazônia são considerados ilegais devido a um decreto, publicado essa semana, proibindo queimadas entre julho e setembro.

“Incêndios não ocorrem de forma natural na Amazônia. O fogo é ateado por fazendeiros e grileiros para remover a floresta ou quando ela já está derrubada e seca pelo sol, visando aumentar as áreas de pastagem ou agrícola, especulação de terras e grilagem. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e desmantelamento dos órgãos ambientais promovido por este governo, pois gera a sensação de certeza da impunidade. Hoje, os criminosos já esperam que o governo aprove leis e medidas que venham a conceder anistia da grilagem e desmatamento ilegal. Como se não bastasse a ameaça do novo coronavírus, com a temporada de fogo os povos indígenas estarão ainda mais vulneráveis, pois a fumaça e a fuligem das queimadas prejudicam ainda mais sua saúde”, explica Batista.

Mesmo com a ameaça de saída de investidores e os impactos resultantes na reputação e a economia do país, a resposta do governo tem sido teatral e ineficiente: com orçamento de R$ 60 milhões por mês, a Operação Verde Brasil 2, via Garantia da Lei e da Ordem (GLO), não tem diminuído o desmatamento. “As imagens da Amazônia em chamas em Mato Grosso são um claro exemplo de que a moratória do fogo, não funcionará se não estiver acompanhada de um trabalho eficiente de comando e controle, que Bolsonaro segue enfraquecendo. Afinal, criminoso não é conhecido por seguir a lei. Não podemos nos enganar com a propaganda do governo, pois ela não resultará em proteção à floresta e seus povos”, finaliza Rômulo.

Um quinto das exportações de soja da Amazônia e Cerrado à UE é fruto de desmatamento ilegal

Estudo publicado na revista ‘Science’ por grupo de pesquisadores do Brasil, Alemanha e EUA identificou os produtores brasileiros responsáveis pela “soja contaminada” soja mataVista aérea das plantações de soja no limite da área da Floresta Nacional no baixo Tapajós, Pará. PABLO ALBARENGA

Por Heloísa Mendonça para o El País

Um estudo publicado nesta quinta-feira, 16, pela revista científica Science revela que, atualmente, 20% da soja brasileira produzida na Amazônia e no Cerrado exportada anualmente para a União Europeia (UE) é fruto de áreas de desmatamento ilegal. Para expor as “maçãs podres” do agronegócio, pesquisadores do Brasil, Alemanha e Estados Unidos desenvolveram um software de alta potência ―utilizando dados públicos e mapas― para analisar 815.00 propriedades rurais dos dois biomas e identificar as áreas de desmatamento ilegal recente associadas à produção de soja e carne bovina.

Os números revelados pelo levantamento corroboram com os dados do desmatamento crescente na Amazônia, que atingiu em junho deste ano a maior destruição registrada em cinco anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A publicação do estudo coincide com um momento de forte cobrança de investidores estrangeiros por ação mais efetiva do Governo de Jair Bolsonaro contra a destruição da floresta. Alguns países europeus já sugeriram que a União Europeia suspenda a compra de carnes e soja do Brasil e até mesmo não leve adiante o acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu caso o país não tome providências para proteger a floresta amazônica. No ano passado, diversos líderes europeus criticaram o Governo brasileiro, durante os incêndios florestais de agosto de 2019, e convocaram boicotes aos produtos do país.

“É fundamental que a Europa use seu poder comercial e de compra para reverter esse trágico desmantelamento da proteção ambiental no Brasil e seus impactos no clima do planeta, nas populações locais e nos valiosos serviços ecossistêmicos que o país fornece”, afirma Britaldo Soares-Filho da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coautor do artigo. Ele defende que, com a pesquisa, os legisladores em Bruxelas poderão avaliar melhor a dimensão do problema da produção brasileira de soja e carne.

A intenção dos pesquisadores é transferir a tecnologia do software para que o Brasil desenvolva um sistema melhor para rastrear o desmatamento ilegal em propriedades agrícolas. “Já não se pode dizer que não há uma solução para monitorar essas atividades. E parte dela está no fato do desmatamento ser muito concentrado. Cerca de 2% dos imóveis concentram mais de 60% do desmatamento do Cerrado e da Amazônia. Então você pode concentrar a fiscalização nessas áreas”, afirma ao EL PAÍS Raoni Rajão, professor da UFMG e autor principal do estudo ‘As maçãs podres do agronegócio brasileiro’.

Na avaliação do pesquisador, a operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com as Forças Armadas na Amazônia― autorizada de maio a novembro ― para evitar queimadas e tentar conter o desmatamento tem um potencial de diminuir a destruição, mas é um instrumento que só funcionará caso o ministério do meio ambiente também se comprometa com o combate às ilegalidades. “Se não tiver um ministro do meio ambiente comprometido e uma mudança na situação do Ibama, que atualmente só perde fiscais, nada vai mudar. Vários analistas ambientais experientes que estavam em posições técnicas de comando estão sendo substituídos por diretores sem experiência. Isso tudo gera caos e consequentemente aumento do desmatamento”, afirma. O Governo também tem afrouxado uma série de medidas de proteção ambiental destinadas a combater o desmatamento ilegal em unidades de conservação e terras indígenas, leais guardiões das florestas nacionais.

Mais de ⅔ das exportações de soja para UE saem da Amazônia e Cerrado

Aproximadamente 41% (13,6 milhões de toneladas) das importações anuais de soja da UE são provenientes do Brasil e 69% desse total, da Amazônia e do Cerrado. Segundo o estudo, cerca de dois milhões de toneladas anuais de soja ilegalmente cultivada podem ter chegado nos mercados do bloco europeu durante os últimos anos. Desse total, 500.000 toneladas vieram da Amazônia.

No que diz respeito à carne bovina, a UE importa cerca de 189.000 toneladas por ano do Brasil. Os autores descobriram que, de um total de 4,1 milhões de cabeças enviadas ao abate, pelo menos 500.000 vêm diretamente de propriedades desmatadas ilegalmente. Isso representa 2% da carne produzida na Amazônia e 13% da produção do Cerrado. Contudo, o maior problema são os produtores indiretos, que fornecem os animais para a etapa da engorda, mas que não são monitorados pelos grandes frigoríficos, nem pelo Governo. Após a análise dos fluxos de animais entre as fazendas, o estudo estima que aproximadamente 60% de todas as cabeças abatidas (44% na Amazônia e 66% no Cerrado) podem estar envolvidas com o desmatamento ilegal em alguma etapa de sua produção.

A onda da soja

O Brasil é o maior produtor mundial de soja, seguido pelos Estados Unidos e Argentina. O estudo revela que a produção de soja, destinada principalmente à alimentação de gado leiteiro e de corte, está em alta em todo o país. A produção mais que quadruplicou nas últimas duas décadas e deve aumentar em mais um terço nos próximos dez anos, com um aumento de 42% nas exportações.

O produtores de carne suína da UE, maior exportador mundial, dependem da soja brasileira, ingrediente essencial também para a criação de aves e outros animais. O aumento da demanda por carne suína na Ásia e em outras regiões tem estimulado a produção animal e, consequentemente, de soja, que serve de ração. Por sua vez, o boom da soja atinge particularmente a região do Cerrado brasileiro, a maior savana tropical do mundo. Conhecido por sua grande biodiversidade, o Cerrado já perdeu a metade de sua vegetação nativa.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

 

Entrevista ao Programa Faixa Livre: a questão ambiental no governo Bolsonaro

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O geógrafo e professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski explicou o paradoxo criado pela gestão de Jair Bolsonaro, que deixou de lado a preservação do meio ambiente, provocando a saída de investimentos estrangeiros do país, e comentou as reações a essa política de destruição da biodiversidade.

Ouça a entrevista de Marcos Pedlowski

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Este material foi inicialmente publicado no site do Programa Faixa Livre [Aqui!].

Governo Bolsonaro exonera responsável por monitorar Amazônia no Inpe

queimadasA demissão acontece em meio às maiores taxas de alerta de desmatamento da Amazônia dos últimos cinco anos. Imagem: Getty Images

Por Giovana Girardi para

Em meio às maiores taxas de alerta de desmatamento da Amazônia dos últimos cinco anos, foi exonerada hoje a pesquisadora responsável pelo trabalho de monitoramento da devastação florestal no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Lubia Vinhas ocupava o cargo de coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, departamento responsável pelos sistemas Deter e Prodes, que acompanham o desmatamento da Amazônia. A exoneração foi publicada no Diário Oficial desta segunda, assinada pelo ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, pasta à qual é vinculada o Inpe. O motivo ainda não foi esclarecido. A reportagem procurou o ministério, mas ainda não recebeu uma resposta.

Na sexta-feira (10), o órgão atualizou em seu site os dados referentes ao desmatamento da Amazônia em junho, apontando que o ritmo de alta se manteve, mesmo com uma ação de militares na região desde maio e com a pressão que vem sendo feita por investidores estrangeiros para que o governo controle o problema.

Alertas feitos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam a perda de 1.034,4 km² no mês de junho, alta de 10,65% em relação a junho do ano passado, quando os alertas apontaram desmate de 934,81 km². Em apenas um mês, foram derrubados na Amazônia o equivalente à área da cidade de Belém (Pará).

É o mês de junho com maior devastação dos últimos cinco anos. Já são 14 meses consecutivos de alta no corte da floresta em relação aos mesmos meses do ano anterior. Em oito desses meses, as taxas bateram os recordes do registro desde 2015

No acumulado desde agosto (quando se inicia o calendário anual para fins de detecção do que ocorre na floresta), o Deter indica a devastação de 7.566 km², ante 4.589 km² no período de agosto de 2018 a junho de 2019. O aumento para esse período é de 65% .

O valor até o momento já é maior do que o acumulado de todos os alertas dos 12 meses entre agosto de 2018 e julho de 2019: 6.844 km². Somente nos primeiros seis meses deste ano, foram mais de 3 mil km² de florestas perdidos, o equivalente a duas vezes a área da cidade de São Paulo.

No ano passado, quando alertas do Deter começaram a indicar que a Amazônia estava sendo devastada, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, rejeitaram inicialmente os dados e chegaram a alegar que eles eram mentirosos. O estresse acabou culminando, em agosto, na exoneração do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão.

Alguns meses depois, quando foram divulgados os dados do sistema Prodes, que traz os dados oficiais de desmatamento na floresta, confirmou-se que a perda de vegetação na Amazônia, entre agosto de 2018 e julho de 2019 havia sido a maior desde 2008.

Apesar dos números alarmantes, da cobrança de investidores estrangeiros e nacionais, das denúncias feitas por agentes ambientais, pesquisadores e ambientalistas, o problema não cessa. As taxas mensais de alertas do Deter continuaram em alta desde então.

O governo enviou em maio deste ano uma nova operação militar para a floresta, a Verde Brasil 2, mas no mesmo período, o desmatamento continuou subindo.

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Este artigo foi originalmente pelo jornal “O Estado de São Paulo” [Aqui!].

O Brasil de Bolsonaro: um estado pária?

Esta é a hora  em que a UE deve terminar com seu papel nos crimes ambientais e sociais que estão correndo no Brasil

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Fern

Sacrificar florestas e direitos ao comércio 

Chamar a quarta maior democracia do mundo de “ estado pária ” pode parecer extremo, mas – em meio às profundas crises econômicas, políticas e de saúde do Brasil – as ações do presidente do país, Jair Bolsonaro, justificam cada vez mais o país com essa descrição. 

Em seus primeiros 100 dias de mandato, conforme  documentamos  na época, Bolsonaro preparou o caminho para o que se seguiu: imediatamente lançou um ataque às proteções ambientais do país e retirou os direitos de seus povos indígenas. 

Agora, após 18 meses no poder, a pergunta que Fern e outras ONGs fizeram naquela época é ainda mais premente: quando a União Européia (UE) encerrará sua cumplicidade na catástrofe que se desenrola?

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Este informe sobre o desastre em desenvolvimento no Brasil oferece um argumento inatacável para a ação da UE.

No centro está o testemunho de nossos parceiros brasileiros – aqueles que estão na vanguarda de resistir à agenda destrutiva do governo Bolsonaro.

“Este é um governo que deseja entregar nossos territórios à agricultura em larga escala. Eles não apenas têm uma política de não nos conceder direitos à nossa terra, como é pior – eles estão tentando tirar terras às quais já temos direitos ”, diz Sônia Guajajara, Coordenadora de Articulação dos Povos Indígenas do Brasil ( APIB), que representa 300 grupos de povos indígenas brasileiros.

As incursões em terras indígenas aumentaram, juntamente com a violência contra os povos indígenas.

“Considerando que antes havia conflitos violentos de terra, agora é incitado pelo discurso de ódio vindo do governo federal. Todos os dias eles incitam a violência. As pessoas pensam que têm o direito de matar impunemente ”, diz Guajajara.

Ela e outros brasileiros estão pedindo ao mundo – e à UE, cujo consumo e investimento afeta diretamente os eventos no Brasil – que prestem atenção. 

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“O desmatamento  já era ruim, a tendência era de alta, e o governo reduziu a aplicação da lei no ano passado. 

Eles têm um discurso muito agressivo contra a proteção ambiental. Os grileiros e garimpeiros sentem-se confiantes de que podem operar ilegalmente e com impunidade. 

Em dezembro de 2019, o governo emitiu uma medida provisória (MP 910)  para uma lei de apropriação de terras,  com aumento do tamanho da área e subsídio. Seria rentável invadir terras públicas. 

Agora há um projeto de lei em tramitação no Congresso (PL 2633). Eles usam um argumento falso de que precisam identificar quem é o bandido para multá-los, e somente dando-lhes o título de terra eles podem identificá-los. É uma ideia ridícula e distorcida. 

A intenção é clara, mas há pressão suficiente para bloqueá-la. Houve uma  reação  contra isso, mesmo de CEOs privados. 

Convocar pessoas do setor privado de alto nível para se manifestar tem sido muito importante, como Candido Bracher, CEO do Itaú Unibanco, o maior banco privado do Brasil. 

O governo gosta de retratar que é agronegócio versus ambientalista, mas aqui estão os CEOs privados dizendo – em público e em público – que isso é ruim para o Brasil, ruim para a economia. Mudar essa narrativa é fundamental. 

Os métodos mais eficazes estão relacionados ao setor financeiro. Eles [o governo] não vão ouvir a sociedade civil. A pressão nos mercados é crítica. 

Se o  acordo comercial UE-Mercosul  não for ratificado, afetará não apenas o setor de agronegócio, mas outros setores no Brasil. 

O Brasil projetou que o acordo traria R $ 500 bilhões (85 bilhões de euros) ao longo de uma década em Produto Interno Bruto adicionado. 

Com a pandemia, o Brasil é ainda mais vulnerável. A economia está em recessão. A moeda brasileira, o Real, é a moeda mais desvalorizada do mundo em 2020. O Brasil precisa de mais investimentos, por isso é propenso a pressões. 

Em termos de soluções, acho muito importante ter como alvo os governadores estaduais da Amazônia. Se o investimento for bloqueado, serão os estados da Amazônia que sofrerão. 

Eu acho que o Brasil já está se tornando um estado de pária . 

No futuro, será caótico e tenso. As intenções do governo são claras. A questão é quanto dano Bolsonaro pode causar no restante de sua Presidência [até outubro de 2022] e quanto o mercado pode agir com responsabilidade. A pressão está ligada. 

A transparência é clara. Precisamos conectar isso com as instituições que estão dispostas a exigir melhores políticas contra o desmatamento e a favor do desenvolvimento sustentável. O apoio internacional é fundamental. ” 

* Paulo Barreto é pesquisador sênior do  Imazon,  uma organização independente sem fins lucrativos com sede em Belém, Brasil, que promove a conservação e o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Paulo publicou 117 artigos, um livro, capítulos de livros  e relatórios . 

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A Amazônia em perigo: um instantâneo

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O custo humano 

Acompanhando esse pedágio ambiental sombrio, está o custo humano em espiral. 

Desde que Bolsonaro chegou ao poder, conflitos violentos por terra aumentaram quase um quarto e um número recorde de povos indígenas foi assassinado. 

Mais da metade dos conflitos estão concentrados na região amazônica, segundo a Comissão Pastoral da Terra. Esses conflitos afetaram mais de 100.000 famílias e representam o maior total desde que os registros começaram 34 anos atrás. 

Além disso, uma análise do Ministério Público Federal constatou que quase 10.000 propriedades no Registro Ambiental Rural do Brasil (um registro eletrônico obrigatório de propriedades rurais) se sobrepõem a terras indígenas que estão em diferentes estágios de regularização e áreas de uso restrito . 

Assassinato com impunidade 

Nove povos indígenas – incluindo sete líderes – estavam entre as  32 pessoas  assassinadas durante conflitos fundiários no último ano. 

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  • Paulo Paulino Guajajara , 26, líder do grupo indígena Guajajara, foi morto a tiros em novembro de 2019 em uma emboscada por madeireiros em sua própria terra. 
  • O corpo de  Zezico Guajajara  foi encontrado perto de sua aldeia no estado do Maranhão em março de 2020. Ele foi baleado. 

Ele era um defensor dos Guardiões da Floresta, um grupo formado para combater gangues de madeireiros na área. 

Ari Uru-Eu-Wau-Wau , 33 anos, sangrou até a morte depois de ser atacado com um objeto contundente em abril de 2020, no estado de Rondônia. 

Ele fazia parte de um grupo cujo trabalho era denunciar a exploração ilegal de madeira dentro do território. 

Segundo a APIB, naquele mês, um grupo de 40 homens invadiu a terra e cortou 100 hectares, dizendo que moraria lá porque havia sido autorizado pelo governo federal. 

Seu tio, Awapu, é o líder dos povos indígenas Uru-Eu-Wau-Wau e sofreu ameaças constantes de morte. 

 Essas atrocidades estão acontecendo no contexto de erosão das salvaguardas ambientais e dos direitos humanos, que começaram imediatamente depois que Bolsonaro assumiu o poder. 

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* Sônia Guajajara é a coordenadora da APIB,  que representa 300 grupos de povos indígenas. 

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Ministros desmascarados 

Em maio de 2020, um vídeo de uma reunião de ministros particulares realizada em 22 de abril apareceu em uma investigação sobre se o presidente Jair Bolsonaro interferiu na nomeação de líderes da polícia federal para ganho pessoal. 

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Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente,  sugerindo  que a pandemia foi uma boa oportunidade – com a imprensa olhando para o outro lado – para simplificar a regulamentação na Amazônia.  

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Abraham Weintraub foi demitido em 17 de junho de 2020.  (Transcrição completa disponível aqui  em português).

Medidas concretas que a UE poderia tomar

  • A UE precisa de novas leis que garantam que nem os produtos vendidos na UE, nem os mercados financeiros que os sustentam, estejam destruindo florestas, ecossistemas naturais e promovendo a apropriação de terras e outros abusos dos direitos humanos. 
  • Todas as partes devem interromper o trabalho para finalizar o Acordo Comercial Mercosul-UE até que o governo do Brasil abandone seu caminho de permitir o desmatamento indiscriminado, a apropriação de terras e incitar ataques assassinos aos povos indígenas. Se e quando as negociações forem reabertas, o acordo deverá incluir disposições vinculativas e aplicáveis ​​para acabar com o desmatamento, respeitar os direitos consuetudinários de posse e implementar o Acordo Climático de Paris. 
  • A Comissão Europeia deve especificar como planeja responder aos desafios apresentados pelo governo Bolsonaro, inclusive garantindo que os direitos humanos sejam respeitados. O Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) deve usar o diálogo político com o Brasil com mais eficácia, incluir consultas mais proativas com organizações da sociedade civil brasileira e fornecer atualizações aos cidadãos europeus que estão cada vez mais preocupados com o que está acontecendo no Brasil.
  • A UE também deve monitorar e responder às violações dos direitos humanos e fortalecer os mecanismos de proteção dos defensores dos direitos humanos. Para aqueles em maior risco, incluindo povos indígenas e defensores do meio ambiente, a UE deve fornecer apoio direto e urgente, quando necessário. 

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Este material foi escrito originalmente em inglês e publicado no sítio da Fern, organização ambientalista que possui escritórios na França, Reino Unido e Bélgica [Aqui!].

Enquanto a boiada passa, governo Bolsonaro apresenta versão “para inglês ver” do agronegócio predatório

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Dupla bem azeitada: enquanto Ricardo Salles deixa a porteira escancarada, Tereza Cristina continua passando a boiada.

Diga o que se disser da ministra Tereza Cristina, também conhecida como a musa do Veneno, ninguém pode dizer que ela não é uma pessoa que comanda o ministério da Agricultura do governo Bolsonaro com o devido grau de criatividade, no melhor estilo do mascate que vende gelo para esquimó.

Vejam abaixo, por exemplo, o vídeo produzido pelo Ministério da Agricultura em língua inglesa para vender uma imagem de responsabilidade ambiental e de alta inovação tecnológica da setor agropecuário brasileiro.

Se não soubéssemos do números recordes de desmatamento que estão ocorrendo em todos os biomas florestais brasileiros e da enxurrada de agrotóxicos altamente venenosos que foram liberados sob a batuta de Tereza Cristina, as imagens lúdicas e potencialmente inebriantes que são mostrados no vídeo fariam até os mais aguerridos dos críticos vacilarem por um momento.

O problema é que nós e o resto do mundo sabemos que essa vídeo pago pelo dinheiro público apresenta uma versão para lá de fantasiosa da realidade, e que brevemente os rolos de fumaça que subirão na Amazônia brasileira tratarão de mostrar a distância entre a propaganda e a realidade.

Mas vá lá. se algum incauto caia na conversa e resolva investir em uma agricultura que só existe nos estúdios que produziram a miragem acima, Tereza Cristina e sua equipe poderão continuar passando a boiada pela porteira que Ricardo Salles deixou aberta.

Mourão falha e desmatamento mantém viés de alta na Amazônia

Dados confirmam recorde para junho e a maior área acumulada em alertas para o período fiscal desde 2008

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Área desmatada de 1.022 ha na APA Triunfo do Xingu, na cidade de São Félix do Xingu, no Pará, com alerta de desmatamento do Deter detectado entre agosto de 2019 a junho de 2020

Por Karen Mota para o Greenpeace

São Paulo, 10 de julho, de 2020 – O desmatamento segue alcançando níveis alarmantes na floresta Amazônica, é o que comprova os dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje. Os dados apontam alertas de desmatamento em uma área de 1.034 km² para junho, um aumento de 11% em relação ao mesmo mês do ano passado (935km²) e representam o pior junho desde 2007. Apesar dos números crescentes, o governo federal segue ineficaz em lidar com o problema, dando assim, prosseguimento à sua política antiambiental que fragilizou órgãos de fiscalização, como Ibama e ICMBio, enquanto prevê uma grande quantidade de recursos para operações militares ineficazes, sob comando do vice-presidente Hamilton Mourão.

A opção do governo em não adotar um plano concreto para impedir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, além de colocar vidas em risco, também aumenta dramaticamente a vulnerabilidade econômica do Brasil. Isto é cada vez mais visível na relutância de alguns países europeus a acordos comerciais com o Brasil, e nas cartas enviadas ao governo brasileiro por representantes de países, investidores e empresas internacionais pedindo ações concretas para a defesa da maior floresta tropical do planeta.

A reação do governo às pressões é esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada. “Mitigar e reverter os danos causados por esta política anti-ambiental à floresta e à imagem do país exigirá muito mais: precisamos de resultados concretos, e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o PPCDAM – a começar por ações de comando e controle em caráter permanente e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho – já conhecido – que este governo insiste em ignorar”, afirma Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Os números crescentes estampam a verdade, se enganam aqueles que aceitarem o que foi apresentado pelo governo até então como uma garantia de mudança de cenário”, completa.

A destruição avança com velocidade assustadora até mesmo em áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas). Cerca de 67% do garimpo realizado na Amazônia no mês de junho ocorreu dentro dessas áreas. Foram desmatados 387 hectares para realização de garimpo em Terras Indígenas e 1.021 hectares em Unidades de Conservação somente no mês de junho. “Em meio a pior pandemia do século, nem mesmo o desastre ambiental de 2019 e a repercussão internacional do descaso do governo brasileiro com seu maior patrimônio natural e com os povos indígenas, parecem ser o bastante para fazer com que medidas concretas e inteligentes sejam tomadas para combater o crime na floresta”, avalia Cristiane.

imagens amazoniaApui, Amazonas Rodovia Transamazônica. À esquerda área em 28/03/2020 e à direita estado da área em 16/06/2020.

O Deter aponta a tendência da taxa oficial de desmatamento (Prodes), mesmo sem o último mês do chamado “ano fiscal do desmatamento”, medido entre os meses de agosto e julho, a área com alertas já soma 7.540km² (agosto de 2019-junho de 2020) 10% de crescimento em comparação com o ano anterior fechado (6.844km² entre agosto de 2018 e junho 2019), é o maior acumulado para o período fiscal desde 2008. Como resultado já esperado deste cenário, a taxa oficial do desmatamento, que ultrapassou os 10.000 km² em 2019, tende a ser ainda maior em 2020. “Não temos mais tempo a perder, os dados estão evidenciando o rastro do fogo, é urgente a adoção de ações verdadeiramente eficazes para garantir a integridade da floresta e a vida daqueles que nela residem”, completa Cristiane.