A Amazônia queima enquanto o improbo Ricardo Salles está à toa na vida

fogo-amazoniaEnquanto as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro colocam tocam fogo na Amazônia, Ricardo Salles está à toa na vida.

Imagens de satélite estão mostrando que boa parte da América do Sul está sendo coberta por nuvens de fumaça vindas das milhares de queimadas que estão sendo acesas com a vegetação que está sendo tombada das florestas da Amazônia brasileira (ver exemplo abaixo).

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Não bastassem as imagens de satélite, relatos de diversas tragédias que estão alcançando aqueles que estão ficando literalmente do fogo cruzado começam a surgir na mídia alternativa, como foi o caso de um casal de idosos que morreu abraçado tentando escapar de um incêndio aparentemente criminoso que atingiu um assentamento de reforma agrária no município de Machadinho do Oeste em Rondônia.

Enquanto o fogo que se espalha por boa parte da Amazônia ceifa vidas e extermina a biodiversidade, o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se ocupa de fazer paródias em sua página oficial na rede social Twitter. Frise-se ainda que a paródia feita foi uma tentativa (tosca é preciso que se diga) de responder à informação que o improbo ministro está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo por suposto enriquecimento ilícito entre 2012 e 2017,  período em que ele alternou suas pouca rentáveis atividades como advogado com cargos no governo tucano de Geraldo Alckmin.

Em mais essa mostra de inaptidão para ocupar um ministério chave para a manutenção do Brasil como um “player” não apenas no fornecimento de commodities agrícolas e minerais para os mercados globais, mas também nas políticas internacionais de mitigação das mudanças climáticas, como é o caso do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles utilizou-se da canção “A banda” para tentar atacar (no caso a mídia corporativa) quem divulga os seus problemas com a justiça, realizando um ataque primário à Chico Buarque e ao jornalista Glenn Greenwald.

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Um conforto nesse tweet é que Ricardo Salles finalmente reconheceu publicamente e em veículo pessoal algo que já é sabido por todos, que é o fato dele “estar à toa na vida”. O problema é que a sua gestão desastrosa à frente do MMA, não apenas a Amazônia queima, como queimam pessoas e a rica biodiversidade que ela contém.

Quando a conta da presença do improbo ministro Ricardo Salles à frente do MMA finalmente chegar (e ela vai chegar), quem hoje ri com a situação criada por ele também vai chorar, como hoje chora quem está perdendo tudo para o fogo alimentada pela ação deliberada de destruir a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle está destruindo.

Fogo em Rondônia: Incêndio de grandes proporções atinge várias fazendas próximo a Campo Novo do Parecis

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Por Alexandre Rolim

Um incêndio de grandes proporções está se alastrando para várias propriedades rurais, próximas a cidade de Campo Novo. O fogo, com ajuda do vento, se propaga rapidamente, afetando várias fazendas.

A palhada seca, principalmente do milho, serve como combustível para as chamas continuarem avançando. Equipe de brigadistas, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, caminhões pipa, tratores e aeronaves tentam conter o avanço do fogo.

Na manhã deste sábado (17), as equipes se deslocaram até algumas fazendas, pela BR-364, sentido Brasnorte, aproximadamente 10 quilômetros de Campo Novo, cada uma atuando em uma frente diferente. Uns tentando evitar que o fogo continue se espalhando e outros evitando que incendeie uma plantação de cana-de-açúcar.

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O principal meio para conter o fogo, segundo os bombeiros, é realizando um arado na terra, evitando que o fogo continue usando a palhada seca como combustível. Até a publicação desta matéria, as chamas ainda não haviam sido controladas.

Uma imensa coluna de fumaça pode ser vista da cidade. O trabalho continua e deve durar até a parte da tarde. Não foi informado como o fogo começou, mas possivelmente foi próximo a sede de uma fazenda.

Fonte e fotos: Portal Campo Novo

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Este artigo foi publicado originalmente pelo Portal Tangará em Foco [Aqui!].

Bolsonaro é ridicularizado na TV alemã

Em horário nobre, programa humorístico da principal rede de televisão pública da Alemanha satiriza o governo brasileiro, criticando suas políticas ambientais e agrícolas e o crescente desmatamento na Amazônia.

bolso bufaoPresidente brasileiro é o “bufão do agronegócio”, segundo humorístico

Borat, bobo da corte e protagonista do clássico de terror Massacre da serra elétrica – essas foram algumas das associações feitas ao presidente Jair Bolsonaro pelo programa humorístico alemão Extra 3, transmitido na noite de quinta-feira (15/08).

Atração de horário nobre da ARD, principal rede de televisão pública alemã, o programa satirizou por quase cinco minutos o governo do presidente brasileiro, criticando principalmente sua política ambiental e o desmatamento na Amazônia.

“Um sujeito que não pensa nem um pouco sobre sustentabilidade e emissão de CO2 é o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o ‘Trump do samba’. Mas alguns dizem também ‘o boçal de Ipanema'”, afirma o apresentador Christian Ehring, em frente a uma fotomontagem de Bolsonaro vestindo a sunga do personagem Borat, criado pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen.

“Bolsonaro deixa a floresta tropical ser destruída para que gado possa pastar e para que possa ser plantada soja para produzir ração para o gado”, continua Ehring, após mencionar os mais recentes dados sobre desmatamento no Brasil e diante de outra montagem, dessa vez mostrando Bolsonaro com uma serra elétrica nas mãos.

“Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento cresceu significativamente e pode continuar aumentando a longo prazo”, diz uma voz em off, após aparecer uma foto do líder brasileiro como um “bobo da corte do agronegócio”, segurando uma garrafa de pesticida.

O apresentador destaca ainda que o presidente “não se importa nem um pouco” com a suspensão de verbas para projetos ambientais anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente alemão no fim de semana. “Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, afirmou Bolsonaro ao reagir com desprezo ao congelamento dos repasses.

Ehring também fala sobre o acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, chamando o pacto de um “romance destrutivo”. Atrás dele aparece uma fotomontagem retratando o presidente e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como uma dançarina sentada em seus braços.

“Bolsonaro ainda demitiu o chefe do próprio instituto que registrou o desmatamento na floresta tropical”, ressalta o comediante, referindo-se à demissão de Ricardo Galvão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “E também nomeou a principal lobista da indústria agropecuária como ministra da Agricultura”, complementa.

Em seguida, ele apresenta um videoclipe da chamada Bolsonaro-Song, uma paródia da música Copacabana, sucesso nos anos 70 na voz do americano Barry Manilow. O vídeo intercala cenas de Bolsonaro com imagens de cortes de árvores e queimadas na Amazônia, além de atividade agrícola e pecuária.

massacre“O massacre da serra elétrica”: sátira associa líder brasileiro a filme de terror

Humorístico conhecido principalmente pela sátira política, o programa Extra 3 tem como alvos principais os dirigentes alemães. Mas líderes internacionais como o americano Donald Trump, o norte-coreano Kim Jong-un, o britânico Boris Johnson e o russo Vladimir Putin também são personagens recorrentes do programa.

Nem sempre a brincadeira é levada na esportiva pelos estadistas. Um dos mais recentes debates provocados pelo Extra 3 foi uma paródia musical com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, veiculada em março de 2016. O caso gerou um desconforto diplomático entre Berlim e Ancara, e o Ministério do Exterior turco chegou a convocar o embaixador alemão no país para explicações.

A controvérsia chegou ao ápice poucas semanas depois, com uma sátira a Erdogan apresentada em outro programa televisivo, dessa vez pelo humorista Jan Böhmermann. O imbróglio foi parar na Justiça e acabou ganhando as capas dos jornais como o “caso Böhmermann”.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

A devastação da Amazônia e os riscos crescentes do isolamento internacional do Brasil

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Múltiplas evidências apontam no sentido de que a porção brasileira da bacia Amazônica está experimentando uma retomada dos ritmos explosivos de desmatamento que marcaram a região durante os anos de 1970. Mas ao contrário do que aconteceu cinco décadas atrás, existem ferramentas de mensuração e publicização de formas predatórias de uso dos recursos naturais existentes na Amazônia.

As primeiras consequências da constatação do avanço explosivo da franja de desmatamento foram a demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por ter cometido o “pecado” de não ter escondido os números do desmatamento. Depois e provavelmente como consequência disso, os governos da Alemanha e da Noruega resolveram suspender o envio de cerca de R$ 300 milhões que seriam investidos em projetos de conservação.

A resposta do governo brasileiro a partir do que vem dizendo o presidente Jair Bolsonaro é um misto de incompreensão e afronta. Uma das pérolas foi sugerir ao governo de Angela Merkel que utilize os recursos retidos na conservação de suas próprias florestas, aparentemente sem saber que a Alemanha é um dos países mais florestados do continente europeu. A resposta alemã veio na forma de um vídeo sarcástico publicado pela Embaixada da Alemanha em Brasília onde somos convidados a visitar os parques nacionais alemães onde a beleza natural se mistura com a eficiência de sua proteção.

O problema é que, por falta de um ministro de Relações Exteriores com um mínimo de capacidade de representar bem os interesses brasileiros,  não se está entendendo o real significado da suspensão do envio de, convenhamos, uma quantia que é pequena em relação ao montante da balança comercial que o Brasil possui com a União Europeia da qual a Alemanha é um dos principais membros.  Como já escrevi aqui, o que Alemanha e Noruega estão fazendo é iniciar um alerta não ao presidente Jair Bolsonaro, mas aos líderes do latifúndio agro-exportador para que contenham o ímpeto do governo federal no sentido de permitir o desmatamento desenfreado da Amazônia e do Cerrado.  E os pontos do relógio para que os donos do “agronegócio” ajam já começaram a girar.

E os pontos tenderão a girar mais rápido se aos grileiros, madeireiros e garimpeiros que continuem sua marcha de devastação sem serem incomodados. Não entender os motivos da diplomacia europeia para exigir a contenção do desmatamento na Amazônia levará em um primeiro momento ao que o ex-ministro e latifundiário da soja Blairo Maggi vaticinou como uma volta à estaca zero do agronegócio brasileiro. Depois disso virão outras consequências duras e que deverão em um amplo isolamento do Brasil no cenário internacional.  O caminho da transformação do Brasil em um pária internacional está sendo aberto nas florestas amazônicas.

Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

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Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

“Pegue essa grana e refloreste a Alemanha”, diz Bolsonaro a Merkel

Presidente volta a minimizar congelamento de financiamento alemão a projetos de proteção da Amazônia. Debate entre Brasília e Berlim se intensificou após divulgação de dados do Inpe sobre o desmatamento no Brasil.

bolso“Lá tá precisando muito mais do que aqui”, diz Bolsonaro sobre dinheiro da Alemanha. Reuters/ A.Machado

O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar a Alemanha nesta quarta-feira (14/08), após o país europeu anunciar o congelamento de financiamentos de projetos de proteção à Floresta Amazônica.

“Eu queria até mandar recado para a senhora querida [chanceler federal da Amazônia] Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, disse o presidente a jornalistas enquanto comentava o processo de escolha do novo procurador-geral da República

No último sábado, a ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, afirmou que o governo decidiu suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade uma vez que “a política do governo brasileiro na Região Amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”.

Inicialmente, a verba suspensa é de 35 milhões de euros (cerca de 155 milhões de reais), proveniente da iniciativa para proteção climática do Ministério do Meio Ambiente em Berlim.

Após a declaração da ministra, Bolsonaro reagiu, dizendo que “a Alemanha não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar a prestações a Amazônia. Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso”.

Na segunda-feira, a ministra alemã rebateu a declaração de Bolsonaro. “Isso mostra que estamos fazendo exatamente a coisa certa”, disse Schulze. “Apoiamos a região amazônica para que haja muito menos desmatamento. Se o presidente não quer isso no momento, então precisamos conversar. Eu não posso simplesmente ficar dando dinheiro enquanto continuam desmatando”, afirmou a ministra à DW.

A verba congelada não faz parte dos financiamentos do governo alemão ao Fundo Amazônia, no qual o Ministério alemão da Cooperação Econômica injetou até agora 55 milhões de euros (por volta de 245 milhões de reais). Com um volume de quase 800 milhões de euros (por volta de 3,5 bilhões de reais), a maior parcela do Fundo é financiada pela Noruega e, uma pequena parte dele, pela Alemanha. O dinheiro se destina a projetos para reflorestamento, contenção do desmatamento e apoio à população indígena.

O debate entre Berlim e Brasília sobre a proteção ambiental em terras brasileiras vem se intensificando nas últimas semanas. Em junho, Merkel expressou preocupação com as questões dos direitos humanos e do meio ambiente no Brasil. Bolsonaro reagiu acusando a Alemanha de abusar dos recursos naturais ao utilizar combustíveis fósseis para gerar energia e de já ter desmatado suas próprias florestas.

As tensões se acirraram após os dados mais recentes do Instituto nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe) apontarem um aumento no desmatamento da Amazônia de 278% em julho, em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Um grande aumento do desmatamento já havia sido apontado em junho, quando a devastação da floresta cresceu 88% em relação ao mesmo mês de 2018.

A divulgação desses números causou uma crise entre o Inpe e o governo brasileiro, que culminou com a demissão do presidente do instituto Ricardo Galvão. O anúncio de Schulze sobre o congelamento de verbas para o Brasil também veio após o Inpe divulgar os dados.

Repercussão na imprensa alemã

Assim como suas declarações anteriores, a fala de Bolsonaro desta quarta-feira repercutiu na imprensa alemã.

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) afirmou que o “presidente direitista Bolsonaro, que começou a governar no início de 2019, não quer identificar novas áreas de proteção na região amazônica e visa permitir mais desmatamento”.

O portal de internet do jornal Die Welt qualificou a declaração como um ataque a chanceler alemã, destacando que o brasileiro chamou de “senhora querida”, e destaca que a Amazônia é considerada o “pulmão verde” do mundo.

Ao mencionar a declaração de Bolsonaro, diversos veículos de imprensa alemães destacaram que a Alemanha possui 11,4 milhões de hectares de floresta, o que corresponde a 32% do território do país, e que nos últimos dez anos as áreas de floresta tiveram um leve aumento.

RC/dpa/kna/ots

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

“Bolsonaro ignora o meio ambiente e o que a ciência diz”

Entrevista com Thomas Lovejoy

Mapas ProdesTerra Brasilis / INPE

Por IHU

Conselheiro de três ex-presidentes americanos e estudioso da Amazônia desde 1965, o biólogo Thomas Lovejoy alerta para efeitos irreparáveis do desmatamento. Em entrevista, ele classifica o trabalho do Inpe de impecável.

Conselheiro ambiental dos ex-presidentes americanos Ronald ReaganBill Clinton e George W. Bush e ex-conselheiro-chefe do Banco Mundial para biodiversidade, o biólogo Thomas E. Lovejoy estuda a Amazônia desde 1965. Conhecido como o “padrinho da biodiversidade” por popularizar o termo na década de 1980, Lovejoypreocupa-se com o futuro da floresta em meio ao avanço do desmatamento.

Em fevereiro, o especialista assinou um editorial na revista científica Science Advances, ao lado do climatologista brasileiro Carlos Nobre, no qual fazem um alerta. Eles afirmam que o desmatamento na Amazônia está caminhando para o que chamam de ponto de inflexão, a partir do qual os padrões biológicos e climáticos são afetados de modo irreparável.

Em entrevista à DW Brasil, o pesquisador classifica os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento de impecáveis e sugere formas sustentáveis de usar os recursos da floresta para desenvolver a economia.

Lovejoy afirma que, assim como o líder americano, Donald Trump, o presidente JairBolsonaro está ignorando o meio ambiente e deveria ouvir cientistas experientes sobre a Amazônia.

A entrevista é de Cristian Edel Weiss, publicada por Deutsche Welle, 12-08-2019.

Eis a entrevista.

Você começou a pesquisar a Amazônia na década de 1960. O que mudou na floresta desde então?

Cheguei à Amazônia pela primeira vez em junho de 1965 e imediatamente decidi que queria fazer o meu PhD lá [pela Universidade de Yale]. Era o sonho dos biólogos. Desde então, a Amazônia passou de 3% para mais de 17% desmatada […] Passou de [uma região com] uma rodovia para dezenas de rodovias, de nenhum projeto hidrelétrico para dezenas deles, e de uma população na Amazônia inteira de cerca de 3 milhões para 30 milhões. Isso está avançando até o ponto em que o ciclo hidrológico que alimenta a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão.

A boa notícia é que em 1965 havia um parque nacional, na Venezuela, e uma reserva indígena demarcada. Agora, no Brasil e em todos os países da Amazônia, há cerca de 25% em áreas de conservação e outros 25% de áreas indígenas demarcadas, o que é uma conquista extraordinária.

Em fevereiro, você e o climatologista Carlos Nobre publicaram um editorial no qual afirmam que desmatamento, mudança climática e queimadas contribuem para que a Amazônia alcance o que vocês chamam de ponto de inflexão, a partir do qual deixaria de existir um ecossistema de floresta tropical, afetando o regime de chuvas. Como você avalia a situação tendo em conta os dados divulgados recentemente pelo Inpe?

Acredito que Carlos e eu concordamos que o ponto de inflexão está muito próximo. Penso que o dado revelador é que tivemos secas históricas em 2005, 2010, 2015 e 2016, e essa é, na nossa opinião, a primeira oscilação para o ponto de inflexão. Então, esses são o alerta e a má notícia, mas sempre é possível restabelecer uma margem de segurança por meio do reflorestamento.

E como vocês chegaram à essa conclusão?

Nos anos 1970, o cientista brasileiro Eneas Salati demonstrou que a Amazônia produzia metade da sua própria chuva. Antes disso, o dogma era que a vegetação é simplesmente consequência do clima e não tem qualquer influência sobre ele. O que Salati foi capaz de demonstrar, numa pesquisa que quebrou paradigmas, é que, quando a umidade vem do Atlântico tropical, numa massa de ar em direção ao oeste, e derrama sua chuva perto da costa atlântica, até 75% dessa umidade volta para a atmosfera por meio da evaporação ou transpiração através das folhas. Você pode ver isso acontecendo com a umidade saindo do topo da floresta, após uma tempestade. Assim, tudo está disponível para se tornar chuva mais para o oeste. A conclusão foi que a umidade se recicla cinco ou seis vezes até chegar à parede alta dos Andes. A massa de ar sobe, esfria e libera uma enorme quantidade de chuva, que abastece os 20% de água doce do mundo, que é o sistema fluvial do Amazonas. Essa foi a base de tudo.

Desde o início, havia a pergunta óbvia de quanto desmatamento poderia causar a degradação desse ciclo. Porque quando a chuva cai, e quando não há floresta, ela escorre e não fica disponível para reciclagem. Carlos conseguiu alguém para fazer um modelo relacionado a pergunta há uns dez ou 15 anos. E a conclusão foi que provavelmente cerca de 40% a 50% [de desmatamento degradaria o ciclo natural de chuvas de modo irreversível]. Isso é muito longe de onde as coisas estavam na época e até mesmo de onde estamos agora. Mas outras coisas têm acontecido. O uso extensivo do fogo, que seca a floresta ao redor, não só destrói o que queimou, como penetra e seca a floresta. Assim, no ano seguinte, ela está mais vulnerável ao fogo. Outra coisa, é claro, é a crescente presença da mudança climática. A discussão que Carlos e eu tivemos e que levou ao artigo na Science Advances é que os fatores estão agindo juntos numa espécie de energia negativa. E quando você olha para essas secas históricas, é muito difícil não concluir que essas são as primeiras oscilações do que poderia ser um ponto de inflexão na região amazônica.

O que poderia ser feito para melhorar a economia na região sem avançar para a floresta?

A maioria do que está acontecendo dá algum ganho imediato, mas o custo no longo prazo é enorme. Então, a pergunta é: quais são as alternativas? E uma das mais claras é a aquacultura, porque nos rios amazônicos há uma série de grandes espécies de peixes que dependem das florestas de várzea durante os meses em que os rios estão altos. A floresta é inundada e tem cadeias alimentares curtas. Os peixes vegetarianos com cadeias curtas como esta são altamente desejáveis. Há um enorme potencial na aquacultura para que não haja apenas a extração florestal, mas que se esteja usando algum recurso da biodiversidade nativa para construir retorno econômico.

Outra coisa realmente importante é como criar cidades relativamente sustentáveis na AmazôniaManaus tem uma espécie de benefício em ter um tipo de zona livre de impostos à sua volta. Ao visitá-la, ouço: “À medida que a produção econômica de Manaus aumenta, o desmatamento diminui”. E essa é uma relação real. Mas a questão é: qual é essa atividade econômica? É proveniente principalmente de fábricas de montagem, que proporcionam oportunidades de emprego montando coisas, geralmente, com materiais que não saem da floresta. Mas há possibilidades novas e interessantes em torno de cidades sustentáveis. Há um forte potencial de ecoturismo, que também cria mercados para artesanato. E artesanato pode ser realmente maravilhoso e não muito barato. Juntando as duas coisas, todas elas se tornam únicas para o lugar em particular que os produz. A maior oportunidade de todas gira em torno de estudar a biodiversidade da Amazônia e tentar descobrir o seu potencial para criar retorno e benefício econômico.

O que pode ser feito a partir da biodiversidade?

Um exemplo interessante seria estudar as formigas cortadeiras. O que é elas fazem de bom é levar pedaços de folhas para o subsolo e usá-los como matéria orgânica para uma fazenda de fungos, que é a fonte da dieta delas. Assim, o que poderia ser feito, e ainda não foi, é estudar as formigas cortadeiras e descobrir quais árvores elas não atacam, pois elas têm fungicida natural, e obviamente as formigas não querem fungicida em sua fazenda de fungos. Assim poderia haver um mercado enorme para fungicidas naturais, que podem ser revelados por esse tipo de pesquisa. Então, se você começar a pensar sobre a biodiversidade na Amazônia, todas essas espécies que representam soluções para problemas biológicos são apenas um potencial para desenvolver o retorno econômico. A chave para o futuro é abraçar essa diversidade biológica na Amazônia. E fazer pesquisa e parceria com a indústria para tentar descobrir novos potenciais.

Você foi conselheiro nos governos de Clinton, Reagan e George W. Bush. Agora, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se orgulha de ser chamado de “Trump dos Trópicos”. Que paralelo você traça entre os EUA e o Brasil quanto à atual política ambiental?

Não há dúvida de que ambos [Bolsonaro e Trump] estão ignorando o meio ambiente. Eles estão ignorando o que a ciência diz sobre o meio ambiente. Acho tudo isso muito estranho porque, no fim das contas, a raiz da palavra ciência é conhecer. Sem dúvida, isso é muito infeliz, e esperemos que seja um fenômeno de curto prazo.

Que conselho você daria a Bolsonaro na área ambiental?

Ele deveria juntar alguns cientistas experientes para pensar sobre o conteúdo que acabamos de falar e identificar oportunidades.

Bolsonaro criticou os dados divulgados recentemente pelo Inpe, afirmando que estes não condizem com a verdade e prejudicam a imagem do Brasil. Como você vê isso?

Permita-me colocar desta forma: os dados do Inpesempre estiveram entre os melhores do mundo e acima de reprovação. E é um erro dele [Bolsonaro] pensar o contrário.

Os dados e a metodologia do Inpe são realmente confiáveis?

Sim, eles têm uma longa história fazendo um trabalho impecável.

Há uma forma de medir o desmatamento de maneira mais assertiva?

sensoriamento remoto melhora ao longo do tempo. Por isso, provavelmente há formas de obter dados mais precisos. Mas falo apenas sobre pontos decimais aqui, e não sobre o conjunto de dados gerais. Tenho certeza de que a capacidade de sensoriamento remoto em outras partes do mundo trará resultados semelhantes [aos do Inpe].

Bolsonaro tem entrado em atrito com países desenvolvidos devido à política ambiental. O que essas nações podem fazer para impedir o desmatamento na Amazônia?

Minha esperança é de que tudo possa ser melhorado por meio do bom diálogo entre nações. A questão realmente infeliz é que após sediar a Cúpula da Terra (Eco92), em 1992, o Brasil foi líder global em meio ambiente por anos, isso quase se tornou parte da marca do Brasil. Espero que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos retomem logo esse tipo de liderança.

(EcoDebate, 14/08/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]