O desmatamento impulsionado por commodities e a perda de turfeiras emitem mais carbono do que a Alemanha

Enquanto todos os olhares se voltam para as negociações sobre o clima na COP28, Trase quantifica as emissões de gases com efeito de estufa causadas pela desflorestação e pela degradação das turfeiras ligadas à produção e consumo de carne bovina, soja, óleo de palma e outras mercadorias pelos países

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Por Carina Mueller e André Vasconcelos para a Trase

Os líderes mundiais estão a reunir-se na cimeira climática COP28, nos Emirados Árabes Unidos, para fazer um balanço do progresso no sentido de reduzir as emissões de carbono para zero emissões líquidas até 2050. Embora muito debate se concentre no sector da energia, não há caminho para zero emissões líquidas sem combater o desmatamento.

Se o desmatamento fosse um país, seria o terceiro maior emissor do mundo . Na COP26, em Glasgow, 145 países, representando 91% das florestas do mundo, comprometeram-se a travar e reverter a perda florestal e a degradação dos solos até 2030. Mas os compromissos precisam urgentemente de ser traduzidos em ações. A última Avaliação da Declaração Florestal mostra que não estamos no caminho certo para travar o desmatamento e a degradação florestal até 2030.

Globalmente, quase todo o desmatamento tropical está direta ou indiretamente ligado à expansão agrícola . Pesquisas anteriores estimam que o comércio e o consumo internacionais de produtos agrícolas e florestais são responsáveis ​​por aproximadamente um quarto da perda florestal nas áreas tropicais e por cerca de um terço das emissões de carbono relacionadas com a desflorestação tropical . As emissões resultam quando florestas ricas em carbono, savanas arborizadas, turfeiras e outros ecossistemas naturais são desmatados para a criação de gado e o cultivo de culturas e madeira.

A Trase quantificou as emissões provenientes do desmatamento e da degradação das turfeiras ligadas às cinco commodities agrícolas comercializadas globalmente com maior impacto nas florestas produzidas em seis países principais: carne bovina do Brasil; soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia; cacau da Costa do Marfim; e óleo de palma e polpa de madeira da Indonésia.

Commodities e países produtores em análise - carne bovina do Brasil, soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, celulose da Indonésia, cacau da Costa do Marfim

No geral, os resultados mostram que a desflorestação associada à expansão da produção destes produtos gera emissões equivalentes a 444 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões provenientes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 701 milhões de toneladas – mais do que as emissões anuais totais da Alemanha , o décimo maior emissor do mundo em 2020.

Limitando isto à percentagem de produtos exportados, a conversão de terras gera emissões equivalentes a 120 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões resultantes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 282 milhões de toneladas – o equivalente às emissões anuais totais de Espanha, o 29.º maior emissor do mundo em 2020.

A ação dos mercados consumidores é urgentemente necessária

A China é o país consumidor associado, de longe, à maior quantidade de desmatamento e de emissões relacionadas com a turfa, equivalente a 99,4 milhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões anuais totais da Roménia. As principais fontes de exposição da China são as importações de pasta de madeira (48,5 milhões de toneladas), carne bovina (27,4 milhões de toneladas), óleo de palma (20,5 milhões de toneladas) e soja (3 milhões de toneladas).

As importações dos países do Médio Oriente e Norte de África (MENA) estão associadas a emissões equivalentes a 25,3 milhões de toneladas de CO2 por ano – uma pegada de carbono maior do que a da Croácia. Isto deve-se principalmente à carne bovina (14,3 milhões de toneladas), ao óleo de palma (9,2 milhões de toneladas), à pasta de madeira (1,3 milhões de toneladas) e ao cacau (0,1 milhões de toneladas). As emissões associadas às importações da Índia são semelhantes em 24,8 milhões de toneladas de CO2 por ano, das quais o óleo de palma indonésio representa 90%.

As importações da UE estão associadas ao desmatamento e às emissões relacionadas com a turfa, equivalentes a 24,2 milhões de toneladas de CO2. As principais fontes de exposição são o óleo de palma indonésio (16 milhões de toneladas), o cacau da Costa do Marfim (5,2 milhões de toneladas), a carne bovina brasileira (1,6 milhões de toneladas) e a soja (1,5 milhões de toneladas).

Exposição às emissões de carbono associadas às importações de commodities por mercado regional

Os países precisam urgentemente de tomar medidas em relação às emissões de gases com efeito de estufa associadas ao desmatamento e à degradação das turfeiras, impulsionadas pela sua crescente procura de produtos de base, especialmente a China. Os países poderiam contribuir significativamente para a redução das emissões globais, agindo nas suas cadeias de abastecimento em concertação com os esforços dos países produtores.

Rumo à colaboração internacional nas cadeias de abastecimento

Se for implementada de forma eficaz, a legislação que exige a devida diligência nas importações de mercadorias e nas suas ligações com o desmatamento, como o novo regulamento da UE sobre desflorestação , poderá ser um grande passo na direção certa. É provável que impulsione avanços nos sistemas de rastreabilidade, identificação e comunicação em muitos sectores produtores de mercadorias. Isto pode oferecer uma experiência útil para outros países importadores no desenvolvimento dos seus próprios quadros políticos.

No entanto, a dimensão limitada do mercado da UE deixa claro que são necessárias medidas num conjunto muito mais vasto de mercados importadores. Sinais recentes sugerem um interesse crescente por parte de alguns intervenientes chineses em abordar a questão do desmatamento importado. Em Novembro, a comercializadora estatal COFCO assinou um pedido de compra de soja do Brasil no valor de 30 milhões de dólares , que incorporou pela primeira vez uma cláusula de “livre de desmatamento e conversão”. São necessários quadros políticos mais claros para transformar tais iniciativas em ações sistemáticas.

Uma vez que os mercados importadores partilham uma exposição significativa aos mesmos produtos, países produtores e empresas comerciais, o campo está maduro para colaboração. Os governos podem convocar a cooperação nacional e internacional entre empresas importadoras para estabelecer estruturas partilhadas para um abastecimento livre de desmatamento. Os mercados importadores também podem agir em conjunto para fornecer financiamento e apoio técnico aos países produtores. Juntos, podem ajudar os países produtores a reforçar a implementação dos seus quadros de utilização dos solos, proporcionando incentivos adequados às partes interessadas e melhor monitorizando a proteção das florestas.

Para obter mais informações, visite o COP28 Hub da Global Canopy e o guia SEI para a COP 28


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Trase [Aqui!].

COP28 será mais um evento para o Brasil passar vergonha

Lula deve levar à COP28 proposta para "proteger floresta em pé"

Com Lula e Marina Silva, o Brasil se prepara para cumprir mais um papelão na COP28

Começa amanhã em Dubai, Emirados Árabes Unidos, a 28a. edição da Conferência das Partes (COP). Essa edição já começa com area de que irá dar tudo errado já que o presidente-executivo da empresa petrolífera estatal dos EAU, Sultan Al Jaber, como presidente das negociações. É como colocar o açougueiro para cuidar de um curral cheio de bois prontos para o abate. Simplesmente não tem como dar certo.

Mas e o Brasil? Será que fará um papel menos bizarro do que fez nas edições em que Jair Bolsonaro comandava o executivo federal? Será que agora com Lula e Marina Silva, o nosso país vai fazer um papel mais alinhado com o que se espera de um estado-nacional que detém a maior floresta tropical do planeta?

Os últimos pronunciamentos de Marina Silva indicam que não. Primeiro a ministra do Meio Ambiente tem insistido na alegação pouco crível de que o desmatamento de nossas florestas entrou em um patamar, digamos, mais controlado.  O problema é que o desmatamento pode ter até diminuído, mas continua muito alto na Amazônia. No bioma Cerrado, a coisa não tem nem como disfarçar, pois os números indicam um forte viés de alta.

Além disso, como venho insistindo aqui, o problema da Amazônia não é só desmatamento, pois o processo de degradação florestal via extração predatória de madeira e incêndios florestais vem emitindo a mesma quantidade de CO2. Com isso, a insistência em se falar apenas de desmatamento serve apenas para mascarar o tamanho gigantesco do problema representado pelo tamanho da destruição em curso na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

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Marina Silva aponta para o desmatamento enquanto esconde a degradação florestal

Agrotóxicos como contribuintes do aquecimento global e das mudanças climáticas

Outro elemento para aumentar o descrédito nas negociações da COP28 é a aprovação no dia de ontem do Pacote do Veneno. É que, apesar de pouco comentado, o aumento excessivo no uso de agrotóxicos também contribue para as mudanças climáticas.  O fato é qu os agrotóxicos também podem liberar emissões dos efeitos do efeito estufa (GEE) após a sua aplicação.

Pesquisas científicas já demonstraram que os agrotóxicos podem aumentar significativamente a produção de óxido nitroso nos solos. Além disso, muitos agrotóxicos levam à produção de ozônio troposférico, um gás com efeito de estufa prejudicial tanto para os seres humanos como para as plantas.

A falta de atenção para com a contribuição dos agrotóxicos se deve, entre outras coisas, ao fato de que existe um foco maior nas emissões urbano-industriais, mas certamente o peso dos agrotóxicos nas emissões de GEE ainda será futuramente colocado no seu devido lugar, e o Brasil com responsável por 25% do uso total dos agrotóxicos no planeta vai acabar ficando no centro do debate.

Curiosamente, nunca ouvi nada de substancial de Marina Silva sobre a relação entre agrotóxicos com o desmatamento e o aquecimento global.  Aliás, enquato no cargo de ministra do Meio Ambiente, a postura de Marina Silva tem sido de uma ausência óbvia no debate sobre a aprovação do PL do Veneno que passou ontem em brancas nuvens pelo Senado Federal.

Então é forçoso apontar para aqueles que apontavam ou esperavam que a participação brasileira na COP28 fosse qualitativamente diferente do que foi entre as COP 24 e 27, melhor repensar.  Poderemos não fazer o mesmo papelão, mas estaremos quase lá.

MAPA com indicações de cargos ditadas pela Frente Parlamentar da Agricultura segue sendo um ministério bolsonarista

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Graças à intervenção poderosa da FPA, o MAPA continua sendo bolsonarista no governo Lula

Muita gente me pergunta como é possível que o governo Lula continue aplicando a mesma política de aprovação de agrotóxicos desenvolvida pela equipe de Jair Bolsonaro.  A resposta mais simples é que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem no seu comando o senador ruralista Carlos Fávaro (PSD/MT) que possui vínculos com Aprosoja que foi um dos principais sustentáculos do governo Bolsonaro nas entidades de classe dos ruralistas.

Entretanto, o buraco parece ser mais embaixo já que obtive informações que cargos importantes no MAPA são de indicação direta da chamada Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) que teria conseguido, entre outros coisas, promover ao cargo de Secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, o diretor da área responsável pela coordenação da área de avaliação de agrotóxicos do MAPA. Com isso, não é nenhuma surpresa que tenhamos tido a promulgação das portarias 02 e 03 que flexibilizaram ainda mais o processo de liberação de agrotóxicos no Brasil. 

Na prática, o que alguns observadores de indicações políticas feitas no governo Lula, mas especial no MAPA, é que quadros indicados pelo Bolsonarismo não apenas foram mantidos, mas, também, promovidos dentro da equipe ministerial do presidente Lula.

Alguns poderão dizer que esse tipo de procedimento é um dos custos da governabilidade, na medida em que a FPA saiu fortalecida nas eleições realizadas em 2022, não restando assim outra alternativa senão entregar a ela o controle da indicações de cargos importantes.

Particularmente não compro a tese da necessidade de se garantir a governabilidade. É que nos mandatos anteriores,  Lula já estabeleceu vínculos claros com o chamado agronegócio, ainda que isso jamais tenha lhe garantido alguma garantia de gratidão política. Tanto isso é verdade que o agronegócio foi um dos garantidores o gole parlamentar que tirou a presidente Dilma Rousseff da presidência da república.

Lamentavelmente tudo indica que essa hegemonia da FPA no MAPA vai resultar em ainda mais desmatamento na Amzônia e no Cerrado, e liberações de agrotóxicos altamente perigosos.  Para faze fremte a essa situação só resta apostar na ação organizada dos movimentos socais, comunidade científica e da população.  Do contrário, a boiada irá continuar passando.

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

pantanal em chamas

Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Pesquisadores verificam maior recorrência de eventos climáticos extremos no Acre a partir de 2010

acre floodingFoto: Gleison Miranda/ Agência de Notícias do Acre 

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O ano de 2010 pode ter sido um ponto de virada para a ocorrência de eventos climáticos extremos no estado do Acre, no Norte do Brasil. É o que aponta artigo publicado nesta terça (21) na revista “Perspectives in Ecology and Conservation”. O estudo, uma parceria entre a Universidade Federal do Acre (UFAC), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o centro de pesquisas americano Woodwell Climate, sugere que o estado pode ser uma das regiões brasileiras mais afetadas pelos eventos climáticos extremos.

A fim de quantificar a frequência de inundações, secas, crises hídricas e incêndios florestais no estado do Acre, além de identificar suas causas e impactos, os pesquisadores examinaram uma série de estudos publicados entre 1987 e 2023, bem como decretos estaduais e municipais relacionados a alertas climáticos e ambientais emitidos no mesmo período. Os dados mostram que a região enfrentou 254 eventos climáticos extremos nos últimos 36 anos e que, desde 2010, há uma tendência constante de aumento na frequência e na intensidade dessas ocorrências.

“A partir de 2010, vemos uma quebra, uma ruptura do padrão que se mostrava até então”, destaca Sonaira Silva, pesquisadora da UFAC e autora do estudo. Até 2004, os registros indicavam a ocorrência de, em média, um evento extremo por ano nas cidades acreanas. No entanto, desde então e, principalmente, após 2010, dois ou mais eventos têm sido registrados com frequência no mesmo ano em um mesmo município. “Esse é o padrão que está se mostrando para o futuro; o ambiente não está conseguindo se regenerar depois de cada evento e, a cada ano, está mais frágil”, explica a autora.

Segundo o artigo, 60% das ocorrências enfrentadas pelos cidadãos acreanos no período analisado foram caracterizadas como incêndios florestais ou queimadas em áreas desmatadas, enquanto 33% foram inundações e 6% crises hídricas. “Geralmente as pessoas mais afetadas são aquelas que estão em áreas de risco, pessoas mais pobres e com menos estrutura”, destaca Silva. As perdas econômicas em larga escala também são alarmantes: registros do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Brasil mostram que, entre 2000 e 2015, de todos os 27 estados brasileiros, o Acre teve o maior custo financeiro por evento: o prejuízo estimado é de mais de 15 milhões de reais a cada crise.

A equipe também identificou tendências e semelhanças nas áreas mais atingidas pelos eventos. A capital Rio Branco e o município de Cruzeiro do Sul, duas das áreas mais populosas do estado, são os principais locais afetados. “As regiões que têm menos floresta são aquelas em que os eventos climáticos mais ocorrem, mas o prejuízo está por todos os lados”, diz Silva.

Para a pesquisadora, as alternativas para mitigar a situação são recompor a vegetação nativa, adaptar as cidades para modelos mais sustentáveis e inteligentes, criar políticas e cumprir legislações ambientais. “Ao que tudo indica, os eventos extremos vão continuar não só ocorrendo, mas aumentando. Pretendemos continuar olhando isso muito de perto para tentar ajudar na tomada de decisões que podem mudar esse cenário”, conclui a autora.

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].

Lula e Marina Silva arremetem contra a regra anti-desmatamento da União Europeia e esquecem da irmã siamesa, a degradação florestal

marina lula

Para garantir assinatura do acordo do Mercosul com a União Europeia, Lula e Marina Silva atacam lei anti-desmatamento dos europeus, e correm do debate sobre o papel da degradação florestla na destruição da Amazônia e do Cerrado

Os últimos dias estão sendo marcados pelo aparecimento de renovadas reclamações do presidente Lula e, pasmem, da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, contra a lei anti-desmatamento da União Europeia com a qual os dois não concordam, sob o argumento que se trata de uma forma de protecionismo disfarçado sob a capa de preocupação com a situação das florestas tropicais.

No caso de Marina Silva, em uma matéria publicada hoje pelo jornal “Valor Econômico”, a ministra do Meio Ambiente que a questão do desmatamento não seria mais um problema real, mas apenas uma desculpa dos europeus, porque os níveis estão em queda ao longo de 2023, esquecendo que essa queda nos recoloca, quando muito, nos níveis de 2019 que já eram bem acima do que foi experimentado entre 2009 e 2018 (ver imagem abaixo).

Prodes e PrevisIA - Desmatamento na Amazônia em 2023 pode passar dos 11 mil km² se seguir o ritmo atual, estima PrevisIA

Fonte: Imazon

No caso do presidente Lula, a reclamação é em relação ao fato de que a partir da adoção de sua nova lei anti-desmatamento, a União Europeia vetará a importação de alimentos de áreas desmatadas a partir de dezembro de 2020.  Curiosamente, no caso brasileiro, o que permitiu valores recordes de desmatamento em todos os nossos biomas foi a postura para lá de leniente de Jair Bolsonaro em relação à devastação das florestas amazônicas. Mas nem esse fato parece aplacar as reclamações de Lula, o que reflete uma postura de concordância prática com o desmatamento na Amazônia.  Se o compromisso de desmatamento zero até 2030 fosse sério, ao contrário de reclamar, Lula estaria usando a nova lei europeia como argumento para diminuir de forma mais célere o processo de desmatamento que, ao contrário do que diz Marina Silva, continua alto na Amazônia e, ainda mais alta, no Cerrado.

Lula e Marina fogem de um debate urgente: a questão da degradação florestal

Ao centrar as reclamações contra a postura dos europeus na questão da lei anti-desmatamento, tanto o presidente Lula como a sua ministra do Meio Ambiente estão empurrando o assunto espinhoso da degradação florestal para debaixo do tapete.

Como já demonstrado em um artigo do qual sou co-autor e foi publicado pela revista Science em 2020, as florestas amazônicas vivem hoje sob o tacão de duas graves ameaças que são o desmatamento e a degradação florestal, sendo que a segunda está se ocorrendo em um ritmo mais forte e no interior de áreas que ainda estão distantes da franja de desmatamento. O impacto da degradação florestal medida pelas áreas impactadas pela extração seletiva de madeira e pelas queimadas é tão grande que as estimativas que oferecemos davam conta que as emissões de CO2 a partir dos dois processos são basicamente as mesmas.

São mostrados quatro tipos de floresta degradada: derrubada, queimada de sub-bosque, bordas e fragmentos florestais isolados. O tipo quantitativamente mais abundante em cada célula da grelha de 200 km 2 é o factor dominante a nível local. A cor representa o tipo mais dominante, enquanto o gradiente tonal indica o quão dominante ele é em comparação com outros tipos, como uma porcentagem de todos os tipos presentes. Se todos os quatro tipos existissem em magnitude aproximadamente igual, o tom estaria próximo de 25%, enquanto o tom da cor seria mais escuro e próximo de 100% se houvesse apenas um tipo presente. ( A ) O estatuto global dos tipos dominantes cumulativamente ao longo de todo o período de tempo, de 1992 a 2014. ( B ) O tipo dominante no início do período de análise, observado em 1992. ( C ) O tipo dominante no final do período de análise. período de análise, observado em 2014.

A questão é que desde 2020 vem surgindo um grande corpo de literatura científica centrado nos estudos sobre degradação florestal que não apenas confirmam o que dissemos no artigo da Science, mas que adicionam ainda mais informações sobre os impactos da degradação florestal que não pode mais ser tratado com um problema maior ameaçando a existência das florestas tropicais.

Assim, ao insistir em não incluir o problema da degradação florestal nas políticas de proteção da Amazônia, o que Lula e Marina Silva fazem é prestar um grande desserviço aos interesses estratégicos do Brasil que depende dos serviços ecossistêmicos que são fornecidos pelas suas florestas.

O pior é que ouvindo pesquisadores que estão ou estiveram na Amazônia recentemente, ouvi relatos de coisas inéditas como a presença de incêndios florestais em pleno mês de novembro, o que representa uma confirmação de que a degradação florestal está se alastrando e tornando as florestas mais suscetíveis a incêndios.

As consequências do acordo Mercosul-UE serão agravados se a lei anti-desmatamento for ignorada pelas partes (e não esqueçamos dos agrotóxicos altamente perigosos)

Eu tenho uma forte desconfiança que a Comissão Europeia irá rasgar com prazer a lei anti-desmatamento para viabilizar o acordo do tratado com o Mercosul. Acontece que os europeus estão em um momento grave que resulta da sua adesão completa e acabada às posições estadunidenses na questão dos conflitos da Ucrânia e da Palestina. Esta adesão serviu para agravar uma crise econômica que já estava em andamento por causa da pandemia da COVID-19. 

Agora a conclusão do acordo com o Mercosul aparece como uma espécie de tábua de salvação, principalmente porque a balança comercial penderá para o lado dos europeus que vão nos empurrar bens de capital e insumos agrícolas em troca da aquisição de commodities agrícolas baratas. Assim, deixar que ocorra mais desmatamento não será certamente um problema.

Mas não esqueçamos que os europeus também convivem com a necessidade de competir com a indústria de agrotóxicos da China e da Índia que hoje estão em posição forte, especialmente no que se refere ao mercado brasileiro.  Diante disso, os europeus também querem que seus agrotóxicos possam entrar aqui em condição de competitividade, em que pese o fato de que muitos dos produtos que as empresas europeias fabricam estão banidos para consumo no Velho Continente.

Nenhuma das preocupações que apontei acima parecem tirar o sono de Lula e Marina Silva, e suspeito que isto ocorra por causa da dependência política e econômica que o atual governo optou por ter em relação ao latifúndio agro-exportador (também conhecido como agronegócio).

Finalmente, razões para se preocupar com essa pressa de assinar o acordo Mercosul-EU não faltam. Mas no tocante ao debate sobre as florestas tropicais, especialmente na Amazônia, será preciso continuar cobrando a adoção de metas e ações claras para conter o processo de degradação florestal.  É que se continuarmos apenas com polítcas anti-desmatamento, o máximo que se conseguirá é minimizar os efeitos de um dos pés da destruição.

Grande seguradora suíça tem contratos com fazendas responsáveis por desmatamento, violência armada e trabalho escravo no Brasil

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Por Public Eye

O grupo segurador suíço celebrou contratos com fazendas brasileiras que contribuíram para o desmatamento ou estão sob investigação por violência armada e trabalho escravo. É o que mostra uma pesquisa da Repórter Brasil, viabilizada pelo Prêmio Public Eye Investigation. De acordo com o relatório, a Swiss Re venda seguro para fazendas no Brasil cujas terras equivalem aproximadamente à área de Grisões, o maior cantão da Suíça.

Escassez de água na Amazônia, temperaturas recordes nas principais cidades e enchentes com dezenas de mortes no sul do país: o Brasil sofre cada vez mais com fenômenos climáticos extremos . São a principal razão para o aumento acentuado dos seguros agrícolas e pecuários subsidiados pelo Estado . Ao mesmo tempo, porém , a indústria agrícola no Brasil é a que mais contribui para a crise climática global e , portanto , para condições climáticas extremas – devido às suas emissões diretas , mas também através do desmatamento e da assim causada expansão de terras agrícolas. Neste contexto , é escandaloso que a Swiss Re tenha vendido pelo menos 19 apólices entre 2016 e 2022 para grandes explorações agrícolas que as autoridades provaram serem desmatadas ilegalmente . Dado que o cultivo de culturas agrícolas e a pecuária são proibidos nessas áreas restritas , estas apólices de seguro apoiavam de fato atividades ilegais .  

Isso foi revelado pela organização investigativa Repórter Brasil com dados disponíveis publicamente e pesquisas in loco . Esta reportagem foi financiada pelo Prêmio de Investigação apresentado pela Public Eye pela terceira vez . De acordo com estes dados, a Swiss Re, que em muitos países não é apenas uma empresa de resseguros, ficou em quarto lugar no ano passado em contratos agrícolas celebrados no âmbito de um programa de subsídios estatais . A área total segurada pela subsidiária brasileira do grupo sediado em Zurique no âmbito deste programa cobre 659 mil hectares, o que equivale aproximadamente ao cantão dos Grisões. Isto inclui , por exemplo , a fazenda Manto Verde, de 2.400 hectares , para cujo cultivo de soja a Swiss Re contratou impressionantes 17 apólices de seguro desde 2016. Isto independentemente do fato da Manto Verde ter sido declarada uma área restrita pelas autoridades devido a desmatamento ilegal .  

A Repórter Brasil também documentou vários casos em que a Swiss Re celebrou contratos de seguro com fazendas que cultivam ilegalmente áreas indígenas protegidas e às vezes até recorrem à violência armada. Um desses clientes era réu em um caso de  homicídio quando fez três apólices de seguro e outro está sob investigação por trabalho escravo em sua fazenda de café . Quando confrontada com estes factos , a Swiss Re, que opera em 25 países, limita-se a afirmar que “nos esforçamos para identificar riscos de sustentabilidade em todos os nossos negócios”. De acordo com o relatório de sustentabilidade do ano passado , o Grupo pretende neutralizar as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Ao mesmo tempo, porém , está a ignorar qualquer responsabilidade política climática nos seus negócios no Brasil, cujas emissões brutas provenientesde desmatamento em 2021 excederam as emissões totais. de um país como o Japão, segundo o Observatório do Clima . 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!]. 

Impacto climático na Amazônia afeta o sul da América do Sul

clima-Amazonia-996x567O aquecimento global e o desmatamento poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores ou aéreos”. Crédito da imagem: Fábio Mitsuka Paschoal/Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed

Por Nicolás Bustamante Hernández para o SciDev 

O transporte de umidade da floresta amazônica para o sul da América do Sul está sendo seriamente afetado pelo aquecimento global e pelo desmatamento, o que pode gerar um desequilíbrio no clima desta região, que pode até piorar num cenário em que a temperatura do planeta diminuirá e subir acima de 2°C, como previsto para o final deste século.

Isto fica claro num estudo publicado recentemente na revista Science of the Total Environment . O objetivo do grupo de especialistas internacionais que escreveu o artigo foi analisar como o aquecimento global, num cenário de 2°C acima do período pré-industrial, somado ao desmatamento da Amazônia, poderia alterar o clima nas bacias hidrográficas não só desta vital floresta para o planeta, mas de outros ecossistemas relacionados, como no caso da Bacia do Prata (sul do Brasil, Uruguai e leste da Argentina).

Especificamente, os autores avaliaram como ambos os efeitos poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores”.

Esse conceito refere-se às enormes colunas de água que correm sobre o continente sul-americano, transportam umidade e energia e contribuem para precipitações abundantes durante o verão austral (entre dezembro e fevereiro), como explica Murilo Ruv Lemes, membro do INPE e

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global (…) No cenário de aquecimento global, os efeitos sobre a fisiologia florestal podem ser mais fortes do que o desmatamento.”

Murilo Ruv Lemes, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

Para realizar a análise, os pesquisadores realizaram modelagem climática desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global, que diminuiu em direção ao sudeste brasileiro e aumentou em direção ao sul da Bacia do Prata. No cenário de aquecimento global, os efeitos na fisiologia florestal podem ser mais fortes que o desmatamento”, acrescentou Ruv Lemes.

“Ou seja, uma alta concentração de CO 2 induz à diminuição da condutância estomática, mecanismo positivo para as taxas de evapotranspiração (processo de reciclagem da água na atmosfera), resultando em um ciclo hidrológico mais fraco”, acrescenta Ruv Lemes.

Segundo o cientista, a relação desses fenômenos com a Bacia do Prata reside no fato de esta depender da umidade transportada da floresta amazônica durante seu período chuvoso por meio de mecanismos aéreos fluviais (rios aéreos ou voadores).

“Basicamente, a umidade que evapora do Oceano Atlântico entra no continente sul-americano pelo norte, chegando à floresta amazônica. A floresta desempenha um papel importante em trazer mais água para a atmosfera através da evapotranspiração. Por fim, por meio de um Jato de Baixo Nível, corrente de vento e topografia elevada (Cordilheira dos Andes), esse transporte é redirecionado para o centro-sul da América do Sul, alimentando seu período chuvoso”, afirma Ruv Lemes.

Para o cientista, “as descobertas são necessárias para orientar as partes interessadas e os tomadores de decisão política a melhorar as suas práticas e planejar um futuro resiliente contra as alterações climáticas, que afetam milhões de pessoas por ano, principalmente as mais vulneráveis”.

Por sua vez, Benjamín Quesada, diretor do programa de Ciências do Sistema Terrestre da Universidad del Rosario (Bogotá, Colômbia), destaca que este estudo mostra como o desmatamento em um lugar pode ter efeitos em outro, até centenas ou milhares de quilômetros de distância.

“Essa é uma área para a qual a ciência está caminhando e teríamos que unir forças para documentar muito mais esse fenômeno. Estudos anteriores já mostraram que se ocorrer desmatamento no Brasil, o ciclo hidrológico da Colômbia ou do Chile,  é afetado, mostrando que a Amazônia deve ser protegida, pois o que acontece nela pode ter efeitos em escala global”, afirma Quesada.

“Precisamos de desmatamento zero daqui para frente”, afirma Ruv Lemes.

“Além disso, uma transição energética completa ou um novo estado de matriz energética sustentável deve ser implementado o mais rápido possível. O estado climático e a saúde da Terra são críticos e dependem de uma mudança completa no comportamento humano neste momento. A conhecida estrutura econômica não resolverá esse problema”, afirma o especialista.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e foi publicado [Aqui!].

Inpe: ondas de calor aumentaram quase oito vezes em 30 anos no Brasil

Pesquisa do Inpe mostra que, entre 1961 e 1990, houve estabilidade no país. Mas, de 1991 para 2020, o avanço anual foi expressivo. Distrito Federal bateu, pelo segundo dia consecutivo, o recorde de temperatura

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Ondas de calor – (crédito: Freepik)

Por Fábio Grecchi para o Correio Braziliense

Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) avaliou os dados das mudanças climáticas no Brasil, em 60 anos. A constatação é que o número de dias com ondas de calor, nas últimas três décadas, aumentou de sete para 52, a cada ano. Os dados, coletados a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), abrangem todo o território brasileiro.

De acordo com a pesquisa, o aumento dos valores nas ondas de calor foi gradual e perceptível. Entre 1961 e 1990, a média se manteve em sete dias. Mas, nos últimos 30 anos, houve uma variação preocupante. De 1991 a 2000, os dias muito quentes passaram a ser 20. No período 2001-2010, verificou-se outro salto expressivo — chegou a 40 dias. Na última década (2011-2020) alcançou 52.

O aumento da temperatura entre 1991 e 2000 não passava de 1,5°C. Porém, no período de 2011 a 2020, a variação chegou a 3°C, principalmente na Região Nordeste.

A junção de eventos estudados pelo Inpe, somada à mudança climática, intensificou os processos extremos vividos no país. A seca na Amazônia, o grande volume de chuvas no Sul e a onda de calor intenso são algumas das consequências percebidas pela população em função das variações climatológicas.

O Inpe classifica como “onda de calor” o registro de seis dias seguidos com temperaturas acima do valor considerado máximo para o período estudado. O levantamento serve para detectar tendências de precipitação pluviométrica, temperatura máxima, dias consecutivos secos, além de subsidiar discussões para a atualização do Plano de Adaptação Climática

Contraste

Os dados coletados apontam, ainda, um aprofundamento do contraste climático entre regiões brasileiras no período de 2011 a 2020. De um lado, houve a queda na média de precipitações chuvosas, com variação entre -10% e -40%, no Nordeste, no Sudeste e na região central. De outro, no Sul, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul se observou um aumento entre 10% e 30%.

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afp anomalia(foto: afp )

Isso significa que as chuvas extremas no Sul do país não são um fenômeno recente. A precipitação máxima em cinco dias, entre 1961 e 1990, era de 140mm. Passou para 160mm, de 2011 a 2020.

Tais alterações climáticas mostram, ainda, que o Índice de Dias Consecutivos Secos potencializa os resultados preocupantes da pesquisa. Entre 1961 e 1990, os valores médios eram de 80 a 85 dias, mas, de 2011 a 2020, subiram para 100 nas regiões Norte e Nordeste, e no centro do país.

O Distrito Federal bateu, ontem, pelo segundo dia seguido, o recorde anual de temperatura. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a estação de Águas Emendadas registrou 37,3°C por volta das 16h. Esse também é o maior registro térmico da história para o mês de novembro, segundo o Inmet. Especialista do instituto, Andrea Ramos afirma que, a partir de amanhã, o DF deve ficar com o tempo mais fechado.

Segundo Lincoln Alves, coordenador dos estudos no Inpe, a maior frequência de eventos climáticos extremos e intensos denuncia que o Brasil já sente, mais claramente, os efeitos da crise ambiental mundial.

“O mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, entidade ligada às Nações Unidas) destacou que as alterações estão impactando diversas regiões do mundo, de maneiras distintas. E se agravarão nas próximas décadas, conforme o aquecimento global avança”, adverte.

Nova mortandade de botos

Pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, encontraram mais 70 carcaças de botos e tucuxis no lago Coari, no município de mesmo nome, a 363km de Manaus. A nova mortandade se soma a outras 154 carcaças de botos e tucuxis encontradas em Tefé (AM), em meio à seca histórica que atinge a Amazônia.

Líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, a oceanógrafa Miriam Marmontel afirmou que não é possível determinar as causas das novas mortes. Mas a suspeita é que seja um desdobramento do mesmo evento registrado em Tefé, devido às altas temperaturas registradas na água. Apesar disso, ela ressalta haver diferenças entre as duas ocorrências.

“Vários animais morreram, mas em Coari são poucos por dia. Nunca houve o boom de Tefé (19 mortes e depois 70). Nos dois locais, são botos e tucuxis, mas em Coari são tucuxis, ao contrário de Tefé, onde a maior mortandade ocorreu com botos”, explicou. (Colaboraram Arthur de Souza e Mariana Dantas, estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi)


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Correio Braziliense” [Aqui!].