Desmatamento reduz 74% das chuvas e aumenta em 16% a temperatura na Amazônia em época de seca

Pesquisa liderada por cientistas da USP quantifica, pela primeira vez, impactos da perda da floresta e das mudanças climáticas globais no bioma 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO) e de metano (CH) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH.


Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.


Fonte: Agência Fapesp

Amazônia colombiana perde US$ 400 milhões devido ao desmatamento todos os anos

desmatamento da Amazônia colombiana

Esta é a conclusão do estudo “O valor econômico da perda anual de florestas na Amazônia colombiana”, que será publicado na edição de outubro da revista Ecosystem Services e desenvolvido por pesquisadores do Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (SINCHI).

O objetivo da pesquisa era estabelecer o custo social da perda florestal quantificando os fatores associados à degradação de seis serviços ecossistêmicos principais: armazenamento de carbono, vida selvagem para consumo, lenha, produtos florestais não madeireiros (PFNMs), recursos pesqueiros e conhecimento indígena tradicional de plantas para uso medicinal.

“O estudo buscou fornecer uma base sólida e espacialmente explícita para a tomada de decisões visando deter o desmatamento e salvaguardar os benefícios multifuncionais da Amazônia”, disse Mauro Reyes, coautor do estudo, ao SciDev.Net .

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Andrés Vargas, Diretor do Departamento de Economia da Universidad del Norte, Barranquilla, Colômbia

De acordo com a pesquisa, o serviço mais valioso em termos monetários é o armazenamento de carbono (81% do valor total perdido), com uma variação de aproximadamente US$ 1.220 a 2.650 por hectare (ha).

Outros serviços apresentaram valores menores, mas cruciais, por hectare para as comunidades: lenha (US$ 179–269/ha); PFNMs (US$ 19,5–89,2/ha); conhecimento medicinal (US$ 14,76–77,47/ha); pesca (US$ 10,60–23,40/ha); e caça (US$ 4,3–7,9/ha).

Para chegar a esses dados, os autores empregaram uma metodologia em fases sob a estrutura do Valor Econômico Total (VET), que incluiu a definição dos serviços ecossistêmicos a serem estudados e a coleta de dados , como redes de parcelas para carbono, lenha e PFNMs, etc., bem como o monitoramento da comunidade na bacia do rio Vaupés, desembarques pesqueiros e consumo de peixes para a pesca, além da consulta a bancos de dados etnobotânicos e censos nacionais para conhecimento medicinal.

Os cientistas integraram dados espaciais e ecológicos e os avaliaram economicamente, aplicando métodos de avaliação direta, como precificação de mercado e custos evitados. No caso do conhecimento medicinal, por exemplo, calcularam os custos de saúde evitados pelo uso da medicina tradicional em vez da medicina institucional.

Eles também realizaram análises probabilísticas, com 10.000 simulações, para quantificar a incerteza e obter uma faixa provável de perdas econômicas.

“Uma das descobertas mais impressionantes é a enorme disparidade entre o valor do carbono e o dos serviços locais de subsistência (caça, pesca, lenha, etc.). Enquanto o carbono vale mais de US$ 1.200/ha, a caça, essencial para a segurança alimentar e cultural das comunidades indígenas, é avaliada em menos de US$ 8/ha”, afirma Reyes.

“Isso é impressionante porque ilustra perfeitamente uma limitação fundamental da valoração econômica: os preços do mercado global (carbono) capturam valores que são altos no mercado internacional, mas podem subestimar enormemente a importância crítica dos serviços que sustentam a vida e a cultura em nível local”, reconhece o cientista.

“Outra descoberta que me chamou a atenção foi a possibilidade de monetizar o serviço sociocultural do conhecimento tradicional indígena sobre plantas medicinais, que dá valor tangível ao intangível e consegue quantificar economicamente um serviço aparentemente abstrato, como a sabedoria ancestral, transformando-o em uma métrica concreta que pode ser entendida na linguagem das políticas públicas e da economia”, acrescenta.

Contatado pelo SciDev.Net , Andrés Vargas, diretor do Departamento de Economia da Universidade do Norte em Barranquilla, Colômbia, disse que o estudo é relevante, “porque contribui para o conhecimento sobre a importância da Amazônia colombiana”.

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Na mesma linha, Reyes afirma que os resultados são relevantes porque transcendem a esfera acadêmica e se tornam uma ferramenta prática e poderosa para a gestão ambiental e a tomada de decisões . “Sua relevância”, afirma, “é demonstrada pela geração de uma base quantitativa para políticas públicas e pela evidenciação do alto custo do desmatamento”.

Em sua opinião, a pesquisa também ajuda a tornar visíveis valores ocultos ao trazer para o radar econômico serviços que muitas vezes são ignorados por não terem um mercado formal, como o conhecimento medicinal indígena ou o fornecimento de lenha, “revelando sua contribuição crucial para o bem-estar social e as finanças públicas por meio de custos evitados”.

Sobre se essa metodologia pode ser aplicada a outras florestas e ecossistemas, Reyes responde afirmativamente, mas com nuances:

Para outras florestas, por exemplo, as andinas, boreais e tropicais secas, o princípio é o mesmo: identificar os principais serviços ecossistêmicos, medir seu fluxo por unidade de área (ha) e atribuir um valor usando preços de mercado ou custos evitados. O que mudaria seriam as espécies avaliadas, os dados de biomassa, os produtos não madeireiros relevantes e o contexto cultural local.

“Para outros ecossistemas, a lógica permanece a mesma, mas os serviços e métodos de medição biofísica seriam completamente diferentes. Em um recife de coral, por exemplo, turismo, pesca e proteção contra tempestades, entre outros, seriam valorizados”, ressalta Reyes.


Fonte: SciDev

Calor causado por desmatamento matou meio milhão de pessoas nos últimos 20 anos, revela estudo

Aumentos localizados de temperatura causados ​​pelo desmatamento causam 28.330 mortes relacionadas ao calor por ano, descobrem pesquisadores

Desmatamento na Amazônia

O desmatamento é responsável por mais de um terço do aquecimento global sentido pela população que vive nas regiões afetadas. Fotografia: luoman/Getty 

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

O desmatamento matou mais de meio milhão de pessoas nos trópicos nas últimas duas décadas como resultado de doenças relacionadas ao calor, segundo um estudo .

O desmatamento está aumentando a temperatura nas florestas tropicais da Amazônia, do Congo e do sudeste da Ásia porque reduz a sombra, diminui as chuvas e aumenta o risco de incêndio, descobriram os autores do artigo.

O desmatamento é responsável por mais de um terço do aquecimento experimentado pelas pessoas que vivem nas regiões afetadas, o que se soma aos efeitos da perturbação climática global.

Cerca de 345 milhões de pessoas nos trópicos sofreram com esse aquecimento localizado causado pelo desmatamento entre 2001 e 2020. Para 2,6 milhões delas, o aquecimento adicional acrescentou 3°C à sua exposição ao calor.

Em muitos casos, isso foi mortal. Os pesquisadores estimaram que o aquecimento global devido ao desmatamento foi responsável por 28.330 mortes anuais nesse período de 20 anos. Mais da metade ocorreu no sudeste da Ásia, devido às populações maiores em áreas vulneráveis ​​ao calor. Cerca de um terço ocorreu na África tropical e o restante na América Central e do Sul.

O estudo foi publicado na quarta-feira na revista Nature Climate Change . Pesquisadores no Brasil, Gana e Reino Unido compararam as taxas de mortalidade não acidentais e as temperaturas em áreas afetadas pelo desmatamento de terras tropicais.

Estudos anteriores mostraram como o corte e a queima de árvores causam aquecimento localizado a longo prazo, mas o novo artigo é o primeiro a calcular o número de mortes resultante.

O professor Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, disse que a mensagem era que “o desmatamento mata”. Ele esperava que muitas pessoas ficassem chocadas com as descobertas, pois os perigos locais do desmatamento muitas vezes se perdem no debate climático global e na expansão das fronteiras agrícolas focada no mercado.

Como exemplo, ele citou a região brasileira do Mato Grosso, onde houve desmatamento massivo para abrir espaço para vastas plantações de soja. Agricultores dessa região agora pressionam pelo fim da moratória da soja na Amazônia para que possam desmatar mais terras.

Spracklen disse que manter a cobertura vegetal intacta salvaria vidas e aumentaria a produção agrícola. “Se o Mato Grosso conseguir manter suas florestas em pé, a população local sofrerá menos estresse por calor”, disse ele. “Não se trata apenas do Ocidente defendendo a proteção das florestas em prol do clima global. As florestas beneficiam diretamente as comunidades locais. Elas regulam a temperatura, trazem chuvas e sustentam a agricultura da qual as pessoas dependem. Essas florestas não estão ociosas – elas estão trabalhando muito duro e fazendo algo realmente importante para nós.”


Fonte: The Guardian

Butantan: Nova proposta permite derrubada de Mata Atlântica e instalações industriais em toda a área

O governador de SP Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, que desdenharam da vacina, agora saem em defesa para aprovar projeto mal explicado e afinado com seus interesses políticos

Protesto contra desmatamento: “Vacina, sim. Mas com sustentabilidade” – Foto: Daniel Garcia/Adusp

Por Cida de Oliveira*

O trator da devastação da floresta urbana no Instituto Butantan ganhou mais potência nesta semana. Na segunda (11), ambientalistas, moradores, vereadores da oposição e servidores foram surpreendidos com a publicação de uma nova proposta do prefeito de São Paulo, o bolsonarista Ricardo Nunes (MDB). Na minuta de substitutivo ao Projeto de Lei (PL) 691/2025, de sua autoria, ele autoriza instalações industriais em toda a área do Instituto Butantan, localizado no bairro de mesmo na zona oeste da capital paulista, ao lado da Cidade Universitária (USP).

Conforme o vereador Nabil Bonduk (PT), integrante da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara, o texto é “inaceitável”. E piora o projeto original, aprovado em primeira votação em junho. Isso porque:

  • Libera loteamento de todo o terreno do instituto Butantan;
  • Permite o corte de toda a vegetação, já que a prefeitura não considera a Mata Atlântica em estado médio ou avançado de regeneração existe na área;
  • Legaliza os prédios problemáticos já em funcionamento, que estão incomodando a população devido ao barulho, e permite que sejam ampliados;
  • O substitutivo difere completamente de mapa já apresentado, que limitava desmatamento às áreas onde já estão os prédios; agora libera cortes em todo terreno do instituto;
  • Permite atividades industriais de alto potencial para incomodar os moradores do entorno;
  • Autoriza ruídos até 65 decibéis, índice para área industrial; e
  • Libera até eventos no local.

“É importante o Instituto ampliar a produção de vacinas, mas isso precisa estar compatibilizado com a proteção ambiental e sem prejudicar a vizinhança”, disse Bonduki. O vereador, que dialogou com todas as partes envolvidas, elaborou um substitutivo que possibilitava a ampliação fabril, mas restrita à área do atual complexo industrial, e com prédios mais altos. Isso para não devastar o bosque que inclui exemplares da Mata Atlântica. Obteve apoio das bancadas do PT, PSB e Rede, mas não foi acolhido pela Câmara. Segundo o mandato, ainda há diálogo em busca de um substitutivo capaz de garantir a proteção ambiental e da vizinhança.

Vacina sim, mas com sustentabilidade

Na avaliação do Movimento SOS Instituto Butantan, o projeto e a minuta de substitutivo são uma tentativa clara de viabilizar o plano diretor do Instituto Butantan, carregado de ilegalidades de natureza ambiental, urbanística, social e sanitária. Em nota de repúdio, o grupo apontou “a falta de lealdade e de transparência” do diretor do instituto, o médico Esper Kallás. Em audiência pública no último dia 5, ele disse que o plano previa o corte de aproximadamente 6.600 árvores, o que foi reduzido para 1.550 exóticas e 150 nativas. E na véspera, em entrevistas à grande mídia, ele havia assumido compromisso de preservação do restante da área do Instituto.

“Nos bastidores, pelo visto, já se preparava um outro substitutivo para viabilizar a execução completa do Plano Diretor original e muito mais. A notícia em audiência pública e que ganhou manchetes, então, não era verdadeira? Seria só uma estratégia para captar a simpatia do espectador e da mídia?”, questiona o movimento na nota. Ο SOS Instituto Butantan voltou a defender que a construção de fábricas para a produção de vacinas contra a dengue, gripe aviária e vírus sincicial seja realocada para uma outra área, em outro ponto, devido aos riscos que representa. “E eventual atraso na produção de vacinas, se há ou se haverá, não pode ser imputado à sociedade civil, mas será resultado da falta da Fundação e do Instituto Butantan, que há anos resistem em adotar procedimentos legais obrigatórios que já lhes teriam rendido condições de ter alcançado seu objetivo institucional”, disse o movimento, que reitera a defesa da vacina e da sua produção, mas em local adequado.

Se não fossem sórdidos, os pontos do projeto de licença para o crime ambiental ainda estão em desacordo com o seu próprio relatório de sustentabilidade, referente a 2023. Segundo a publicação oficial, “a flora e a fauna do Instituto Butantan são predominantemente típicas da Mata Atlântica, destacando-se tanto as árvores centenárias que compõem o ambiente arbóreo, como o cedro-rosa e o jatobá, quanto a diversidade de mamíferos, aves e répteis que habitam suas dependências”. E que o parque do instituto “se destaca por agir sobre o microclima local e a possibilidade de lazer e contato com a natureza”.

Além disso, ainda segundo o documento, a vegetação conta com espécies de árvores nativas e exóticas, com valor histórico significativo e de importância “para a manutenção das demais espécies, além de contribuir para um ambiente mais saudável e para o bem-estar da comunidade nas proximidades”. Mais: tem papel fundamental “na manutenção de processos ecológicos essenciais e no abrigo de populações remanescentes de animais e plantas nativas”, servindo de abrigo e fonte de recursos para a fauna local e descanso e alimentação para espécies migratórias.

Segundo o relatório, há no local espécies arbóreas típicas, como cedro-rosa, jatobá, angico-branco, paineira, figueira-branca, com mais de 100 anos e significativo valor histórico e ambiental, “tanto para o Instituto quanto para a Mata Atlântica Paulistana”. Quanto à fauna local, abriga mamíferos como o gambá-de-orelha- -preta, preá, sagui, tatu-galinha e esquilo, entre outros, com funções essenciais ao habitat. Há ainda mais de 60 espécies de aves, como a rolinha, asa-branca, beija-flor-tesoura, tucano-de-bico-verde, pica-pau-de-cabeça-amarela, carcará, periquito-verde, joão-de-barro, bem-te-vi e sabiá-laranjeira, entre outros. E também espécies de répteis e anfíbios.

Reunião da tropa de choque

Combinada com a apresentação da proposta nefasta, na mesma segunda-feira o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) reuniu no Palácio dos Bandeirantes o prefeito Nunes e seus vereadores aliados. Muito provavelmente para pressionar a aprovação dos planos governamentais para o Butantan “em nome da vacina”, já que a pressão popular ganha força. E também porque o PL do prefeito passou em votação no primeiro turno com 33 votos favoráveis, seis contrários e oito abstenções. Embora sejam necessários 28 votos, a votação foi considerada apertada.

Um dos vereadores presentes, Danilo do Posto de Saúde (Podemos) festejou a reunião. Em seu post em uma rede social, destacou a participação em encontro para discutir “importante projeto de ampliação da produção de vacinas do Instituto Butantan que devemos votar na Câmara nos próximos dias”. O tom eufemista do parlamentar que sempre votou a favor dos interesses da gestão e contra o dos trabalhadores da sua categoria, aliás, foi ofuscado por um leitor. Em seu comentário, lembrou o posicionamento antivacina de Tarcísio e Nunes. “Eu hein, vão pensando que esqueci em quem esses dois apoiam. Quem era contra vacina e oferecia cloroquina enquanto 700,000 morriam. Contra fatos não existem argumentos.”

 Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes chamaram vereadores para reunião no Palácio dos Bandeirantes, como Danilo do Posto de Saúde (Podemos) para tratar da aprovação da ampliação do Butantan

Em outubro de 2024, durante campanha que o elegeu prefeito, Nunes reafirmou ser contra o passaporte de vacina da covid-19, uma exigência criada pela prefeitura no início de 2022 em eventos realizados na capital. “Imagina você ter que ter um documento para ir a uma missa, ir a um culto, ir a um restaurante. Acho que isso não tem sentido”, disse. Dias antes, afirmou ser contra a obrigatoriedade da vacina em participação no podcast do também bolsonarista Paulo Figueiredo. O empresário ligado à extrema direita é o mesmo parceiro de Eduardo Bolsonaro em suas incursões contra o Brasil junto a autoridades dos Estados Unidos. “Tenho muita tranquilidade, depois de toda experiência, e tenho humildade para te falar que hoje sou contra a questão da obrigatoriedade [da vacina]”.

Embora tenha classificado recentemente como erro o discurso contra vacinas do então presidente Jair Bolsonaro (PL), o governador Tarcísio, bolsonarista, chegou a dizer em entrevistas ser contra a obrigatoriedade. “Acreditamos na vacina, vamos ter uma política de estímulo à vacinação, de conscientização de pais e mães. Mas entendo que a vacina não deve ser obrigatória. Devemos despertar a consciência”, Tal posicionamento, que desestimula pais a levarem seus filhos aos postos de vacinação, está entre as causas da perigosa redução da cobertura vacinal no Brasil.  Coerentemente, o governador vetou, em setembro de 2023, um projeto de lei para ampliação da prevenção do HPV, levando para as escolas a vacinação de crianças e adolescentes contra o vírus. O projeto havia sido apresentado pelas deputadas Marina Helou (Rede), Edna Macedo (Republicanos), Delegada Graciela (PL) e Patrícia Gama (PSDB). Ao vetar, Tarcísio alegou que já havia em execução políticas nesse sentido.

Ex-negacionistas antivacina

De uns tempos para cá, porém, os gestores dão sinais de que mudaram de opinião. E até apresentam e defendem a aprovação de mudanças na lei, que permitem até devastação ambiental, em nome da ampliação da produção de vacinas. Mas chama a atenção que esse discurso em favor do Instituto e sua importância para a saúde, não inclua ações para reverter o desmonte do instituto em curso há tempos, nem para recuperar os salários dos seus pesquisadores, defasado há pelo menos uma década em relação ao de outros órgãos, como a Fiocruz.

Novamente na mira de privatização na gestão João Doria, o centenário centro de pesquisa saiu ileso devido à pandemia. O então governador percebeu que importar uma vacina contra a covid-19, envasando e distribuindo com o selo Butantan, vinculado ao estado de São Paulo, traria mais dividendos políticos do que privatizar.

O fantasma da privatização voltou com o governador bolsonarista, que entregou a Sabesp e tem outros processos avançando. Curiosamente, em abril do ano passado seu governo colocou o Butantan em uma lista de 200 bens públicos a serem vendidos em um site para anunciar imóveis à venda, criado em 2016 com a aprovação da lei que permite a venda de bens públicos. O caso foi denunciado pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado (APqC), que representa pesquisadores do Butantan e outros órgãos. E acabou retirado do ar após a repercussão negativa. O governo Tarcísio alegou que houve um erro técnico, que publicou informações descontextualizadas. A APqC não caiu na conversa e acredita que o que ocorreu, na verdade, foi a realização de uma pesquisa de mercado por parte do governo de SP.

Privatização velada

Seja como for, há entre os pesquisadores antigos do Butantan a avaliação de que o instituto já vive um processo velado de privatização desde a criação da Fundação Butantan, em 1989. De direito privado, a fundação criada para gerir o instituto do ponto de vista financeiro e administrativo tem atualmente cerca de 3.500 empregados. Já o instituto, com perto de 400 servidores, convém à fundação por seu caráter público. Com o passar do tempo, a fundação não investiu no instituto. E apenas em si mesma.

A fundação, aliás, vive no radar de órgãos de fiscalização, como o Ministério Público, que já recomendou a preservação das árvores. E também o Ministério Público de Contas do estado. O procurador José Mendes Neto, que já reprovou contas da Fundação Butantan e por isso passou a estudar a relação Fundação-Instituto. Em audiência pública na Assembleia Legislativa (Alesp) em novembro passado, destacou absurdos, como salários acima do teto do funcionalismo na fundação. E a impossibilidade de estabelecer onde termina o público e começa o privado nessa relação.

Segundo ele, o desequilíbrio no número de funcionários e o faturamento com venda de vacinas e outros imunobiológicos, deixam claro a inconstitucionalidade da relação. Em 2015, o instituto tinha 688 servidores e 847 vagas a serem preenchidas por concurso, o que há muito não realiza. Já a fundação tinha naquele ano 1.298 empregados atuando no instituto. “A fundação virou um braço para atuar onde deveria ter funcionários públicos concursados”, disse.

Em 2018, eram 1.531 celetistas na fundação. Em 2022, no período pós-covid, eram 3.352 empregados no complexo Butantan. “O instituto tinha 415 estatutários. Hoje menos de 400 servidores, muitos em vias de se aposentar”.

Fundação inconstitucional

Quanto ao faturamento, em 2015 a fundação teve um bruto de R$ 1,259 bi. E em 2018, R$ 1,796 bi. Na ocasião ele não tinha dados sobre 2021, auge da remuneração com a venda da vacina contra a covid. Mas estimou que, em 2022, esteve em torno de R$ 3,337 bi.  “Como um órgão público, que não tem personalidade jurídica, o instituto é uma UGE (Unidade Gestora Executora) da Secretaria Estadual de Saúde de SP, junto com a Fundação Butantan, que é uma associação sem fins lucrativos, pode ter um faturamento de bilhões com a venda de vacinas e biofármacos, concorrendo com empresas imensas do ramo farmacêutico?”, questionou.

E emendou: “Afirmo: essa relação é inconstitucional. Porque quando o estado intervém na economia, explorando atividade econômica e a produção de vacinas, concorrendo com o setor privado, ele só pode fazer de duas formas, conforme o artigo 173 da Constituição federal. Ou por sociedade de economia mista ou empresa pública. Não existe na Constituição a ideia de que um órgão público misturado a uma associação privada sem fins lucrativos tenha atividade empresarial tão grande e tão lucrativa”, disse. 

Essa corrida para a derrubada de exemplares de Mata Atlântica, protegidas e tombadas, em nome da alegada ampliação fabril do Butantan, permite muitas indagações. Entre elas, a possibilidade de esse projeto sair do papel com a mesma rapidez com que querem passar seu trator. Em razão da burocracia e da falta de recursos, a Fiocruz enfrenta dificuldades para avançar em seu Complexo Industrial de Biotecnologia (Cibs). Segundo Acordão do TCU, as obras iniciadas em 2009 foram paralisadas logo que começaram, em um distrito industrial no distante bairro de Santa Cruz, no Rio, que lembra um pasto. Há apenas alicerces para os 46 prédios projetados para fabricar imunizantes. Ainda não há previsão de retomada das obras.

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*Cida de Oliveira é jornalista

Boiada: Projeto de expansão do complexo Butantan avança sobre floresta tombada

Sem licenciamento ambiental nem transparência, projeto com aval da prefeitura paulistana já cortou quase 600 árvores, a maioria nativas

Prédio símbolo do Butantan em meio à floresta urbana protegida, porém sob ataque. Foto: Acervo Butantan

Por Cida de Oliveira 

O incremento da produção nacional de vacinas, com a fabricação propriamente dita, que vai além do envase e distribuição de formulações importadas, tem o apoio de todas as pessoas preocupadas com a saúde pública e a soberania brasileira no setor. No entanto, a direção do Complexo Butantan tem se agarrado a esse argumento para justificar seu projeto de ampliação à custa da derrubada de 6.629 árvores da floresta urbana na qual o instituto está inserido há 120 anos. Bem como da construção de novas fábricas, algumas já em curso, em áreas devastadas com o corte de quase 700 árvores, a maioria nativas, sem o devido licenciamento ambiental. Se fosse pouco, moradores de bairros densamente povoados no entorno enfrentam a possibilidade de alto risco biológico, inclusive a comunidade universitária da vizinha USP. Estão no horizonte também prejuízos socioambientais à cidade de São Paulo como um todo, com impacto não calculado.

“É preciso subir obra para produzir vacinas, para ampliar a capacidade de produção e atender necessidades”, defende o médico infectologista Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan. O especialista indicado para o cargo pelo governador de São Paulo, o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), voltou a repetir a cantilena em uma audiência pública nesta terça (5), na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Após uma introdução enaltecendo a trajetória do instituto e sua importância para a saúde da população e o SUS, Kallás minimizou os efeitos nocivos do processo em curso. E chegou a afirmar que, antes dele ser alçado ao comando do instituto, o projeto era cortar mais de 10 mil árvores. A mudança, segundo ele, foi devido a uma revisão do plano diretor.

Segundo seus auxiliares, o que há na instituição é um “projeto de restauração ecológica” em consonância com o marco legal da Mata Atlântica, que prevê o plantio de aproximadamente 9 mil árvores nativas. O objetivo seria compensar o corte previsto com uma certa vantagem ambiental, segundo eles. Isso porque, entre as árvores na mira da motosserra, estão muitas exóticas, que representariam “riscos ecológicos e provocariam degradação do solo”, entre outros problemas. “O Butantan quer devolver vegetação nativa”, afirmaram.

Proteção ao patrimônio ambiental

Os argumentos do gestor do Butantan e seus auxiliares, entretanto, não convencem representantes da sociedade civil reunidos no movimento SOS Butantan. “A redução do número, do volume de corte de árvores, [não tem impacto] no tempo de crescimento de outras. E por mais que sejam árvores exóticas, não deixa de ser um prejuízo. Em tempos de crise climática que nós vivemos isso é um problema; não é uma coisa qualquer cortar árvores na cidade de São Paulo”, refutou o ativista Ernesto Maeda.

Do mesmo grupo, Andrea Caetano destacou que a mata ameaçada do Butantan está imune de corte. “É área de preservação, protegida por lei e deve ser preservada. Somos contra o desmatamento de qualquer árvore que seja”, afirmou.

De fato, o Instituto Butantan teve seu patrimônio arquitetônico e paisagístico tombado em 1981 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). E, em 1981, pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Entre um tombamento e outro, o então governador paulista Orestes Quércia (1938-2010) assinou o Decreto n° 30.443, de 20 de setembro de 1989, que considera as árvores do Butantan, nativas ou não, patrimônio ambiental e por isso imunes de corte. Quercia levou em conta, entre outras coisas, o dever do poder público de preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida, incluindo a proteção da fauna e da flora. E vedou práticas que põem em risco a função ecológica e que provoquem a extinção de espécies. Em suma, o decreto visa contribuir com a preservação dos exemplares arbóreos urbanos, especialmente aqueles situados em áreas de grande densidade populacional a exemplo da capital paulista.

Falta de participação da sociedade

Apesar disso, o Complexo Butantan – formado pelo instituto centenário, responsável pela pesquisa científica que respalda a produção, e a Fundação Butantan, ente privado criado para gerir o instituto administrativa e financeiramente – segue seu projeto. Sem ouvir a população, atua junto à esfera pública para incluir mudanças de seu interesse na legislação. E também para obter autorizações em conselhos de preservação do patrimônio.

Sem nenhuma audiência pública, a Câmara aprovou no último dia 25 de junho, em primeiro turno, o PL 691/2025, de autoria do Executivo municipal. Foi apertado, com 33 votos favoráveis, seis contrários e oito abstenções. Falta passar em segunda votação, ainda sem data.

Em seu texto, o prefeito Nunes estabelece uma Zona de Ocupação Especial (ZOE) em que insere a área do Instituto Butantan. A iniciativa, se aprovada em segundo turno, permitirá edificações com até 48 metros de gabarito. Ou seja, com a mesma altura de 16 andares, bem no meio da cobertura vegetal tombada. A legislação atual permite no máximo 18 metros, equivalente a 6 andares.

O prefeito atende assim a pedido da direção do Butantan, que quer adequar a legislação municipal aos seus interesses. “As alterações promovidas [conforme o projeto apresentado] derivam de pedido formal apresentado pelo Instituto Butantan, para melhor compatibilização do Plano de Intervenção Urbana do Arco Pinheiros (PIU-ACP) com suas atividades, que são essenciais para o desenvolvimento e para a saúde em âmbito nacional”, argumenta.

Trata-se de instalações para a produção de vacinas, como da Dengue, Chikungunya e HPV, além de soros e medicamentos monoclonais. Segundo Nunes, há recursos do Ministério da Saúde, BNDES, Governo do Estado de São Paulo e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, totalizando investimento de aproximadamente R$ 1,2 bilhões.

Vista grossa a irregularidades

Ainda para justificar seu projeto, Nunes destaca que o mesmo plano diretor que prevê a ampliação do parque produtivo e a devastação florestal foi aprovado pelo Conpresp e o Condephaat. No entanto o plano, chamado oficialmente de Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI), não estava assim nos conformes. O Conpresp aprovou sua revisão em 2024, após dois anos da apresentação.

O órgão fez vista grossa a aspectos graves apontados em análise técnica do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo: redução da cobertura vegetal e da área permeável, da geração de processo erosivo, alteração no escoamento das águas pluviais, perda de habitats da fauna e mudanças microclimáticas. O mesmo para os impactos causados pela ampliação da atividade industrial. É o caso da poluição sonora e atmosférica, aumento do consumo de água e da produção de efluentes líquidos e resíduos sólidos.

E aprovou o plano do Butantan reduzindo levemente a altura do gabarito máximo para novas obras. Em vez dos 60 metros pleiteados pelo complexo, baixou para 48 metros, ainda assim mais alto que os 28 metros autorizados para a Zona de Ocupação Especial (ZOE) na qual atualmente estão inseridos o Instituto Butantan e a Cidade Universitária da USP. Essa zona, aliás, é desmembrada no projeto de Nunes em análise na Câmara dos Vereadores.

Imagem aérea dá uma ideia da cobertura florestal tombada, porém seriamente ameaçada de destruição

Conflito de interesse e improbidade

Já no Condephaat a aprovação do PDDI do Butantan resultou de uma relação que revela sinais aparentes de promiscuidade. Em 2018 a direção contratou o escritório privado de Carlos Augusto Mattei Faggin para elaborar o plano, pagando mais de R$ 1 milhão. Só que havia conflito de interesses, já que Faggin era o presidente do órgão de defesa da preservação desde 2017.

Além disso, o autor do plano tem biografia manchada por condenação por improbidade administrativa. Em novembro de 2024 a Justiça o condenou novamente após cancelamento de decisão anterior. Trata-se da emissão, em 2010, de um parecer técnico em que Faggin se manifestou contrário ao tombamento de um casarão em Guarulhos, importante para a preservação da história da imigração italiana no município. Para ele, que já atuava no Condephaat, o imóvel não tinha relevância suficiente. Acabou demolido para dar lugar a vagas de estacionamento de um shopping.

Segundo Faggin informou por escrito aos conselheiros do Condephaat, sua consultoria ao Instituto Butantan envolveu três contratos. O primeiro entre 2018 e 2019, o segundo em 2021 e o terceiro entre maio de 2022 e fevereiro de 2023. Segundo ele, o trabalho de elaboração do PDDI se estendeu por doze anos até ser aprovado no órgão. Mas que não houve, no período, sua participação nas discussões, deliberações e nas votações da matéria.

Ruptura ecológica

Arquiteta e ativista, a vereadora paulistana Renata Falzoni (PSB) tem muitas críticas e argumentos contra o projeto de expansaão. Deixando claro que o que está em discussão não é a importância da vacina ou do Butantan, e sim o uso do solo, cobrou o debate na Câmara sobre preservação ambiental e aprovação de projeto que prevê a supressão de 6.629 árvores. “A gente tem de começar a discutir aqui esse marco legal que permite esse tipo de coisa. Como pode permitir a extinção de uma floresta urbana? Fala-se que vai ter compensação. Quando? Onde? Como saber que depois de 20 anos essas novas árvores vão contribuir para o ambiente da cidade da mesma forma que as atuais [na mira da derrubada]?”, questiona.

A parlamentar lembra ainda que o PL do prefeito Nunes, sob encomenda do Butantan, embute uma “ruptura ecológica e urbanista”. “Isso tem de ser levado em consideração porque compromete a continuidade de ecossistemas vinculados à floresta urbana. A gente vai ter fragmentação dos corredores ecológicos, com impacto na fauna silvestre urbana que usa esses corredores para se deslocar”.

Outro alerta é que a construção de prédios mais altos prevista no projeto, cujas sombras serão projetadas sobre a cobertura vegetal, terá efeito nefasto sobre essa floresta. E questiona: “Será que não tem mesmo alternativa? Não é possível ocupar galpões vazios localizados em outras regiões mais distantes da cidade?”. Ela lembra que a Fiocruz, em seu processo de expansão, transferiu-se para bairros distantes do Rio de Janeiro, como Santa Cruz, por atender demandas pensadas e estruturadas de forma ecológica. A gente não pode mais suprimir árvore alguma”.

A vereadora Luana Alves (Psol) cobra do Instituto Butantan seu compromisso com a preservação ambiental enquanto instituição pública. E se queixa da falta de justificativa plausível e detalhada da alegada inviabilidade de construção de fábricas em uma grande área do instituto no município de Araçariguama, na região de Sorocaba, entre as rodovias Castelo Branco e Raposo Tavares.

Alternativas locacionais e outros mistérios

Segundo ela, seu mandato vai pedir oficialmente ao Butantan que apresente a discriminação de dados e valores que demonstrem essa inviabilidade. “Será que o custo será mesmo maior do que ter fábricas em área densamente povoada, com impactos ambientais? Precisamos avaliar”, pondera.

A apresentação de alternativas locacionais ao projeto foi questionada também pelo vereador Nabil Bonduki (PT). Urbanista, o parlamentar cobrou informações sobre possíveis negociações conduzidas pelo Estado em busca de outras áreas. E também em relação à possibilidade de uso do patrimônio federal na região do Jaguaré. 

Em 2022, o Movimento Defenda São Paulo ingressou com representação no Ministério Público estadual para investigar o plano diretor. A princípio acolhida, a demanda por investigação não prosperou. Para o movimento SOS Butantan, muitas questões relativas a indícios de vícios ou irregularidades envolvendo o plano de ampliação seguem sem resposta, apesar dos esforços para obtenção de esclarecimentos. Confira algumas delas:

Como é possível defender a implantação de uma indústria de vacinas, do porte proposto pelo PDDI, com classificação de nível de risco biológico 3 em escala de 0 a 4, em área densamente povoada como é o bairro do Butantã?

Onde estão os relatórios básicos (EIA/RIMA), alvarás e certidões exigidos pela legislação municipal?

Onde e quando o Instituto Butantan protocolou o EIA/RIMA para a expansão pretendida, já que os indícios regulatórios apontam fortemente para essa exigência, em razão do porte industrial e da complexidade do PDDI?

Como a Cetesb pôde licenciar o projeto sem a apresentação do EIA/RIMA?

Por que as alternativas locacionais, previstas em lei, não foram apresentadas aos órgãos competentes?

Por que a obrigatoriedade de audiências públicas durante o licenciamento foi descumprida?

Por que a blindagem do processo de análise do PDDI pelo MP? O prazo de quatro meses aventado pela Fundação Butantan para solucionar o problema da poluição sonora ininterrupta, que inferniza os moradores da região, configura “caráter de urgência”?

Como se deu a mudança brusca de pareceres do MP, de favorável à demanda da Rede Butantã, com sólido parecer dado em 2022, para “denúncia inconsistente”?


Cida de Oliveira é jornalista

Fiscalização do Ibama mira desmatamento e ramais ilegais na BR-319 em meio à expectativa por repavimentação

Por Observatório BR-319 

A BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou a ser foco de ações de fiscalização ambiental neste mês de julho. Servidores da Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, intensificaram operações no sul da estrada, especialmente na região da Vila de Realidade, no município de Humaitá (AM), diante do avanço do desmatamento e da abertura ilegal de ramais.

Durante a operação, foram apreendidos um trator usado para abertura de caminhos clandestinos e geradores de energia, além da lavratura de oito autos de infração. A atuação do Ibama também flagrou extração ilegal de madeira, o que, segundo o superintendente Joel Araújo, é o prenúncio de desmatamento em larga escala. “Antes de derrubar, os madeireiros retiram a madeira de maior valor comercial. E há dezenas de serrarias que se abastecem da floresta no entorno da BR-319, agravando o cenário”, alertou.

Segundo Araújo, a intensificação da fiscalização se dá em resposta à perspectiva de repavimentação do trecho do meio da rodovia, o que pode estimular novas invasões e grilagem. “Já atuamos há mais de dez anos na BR, mas agora, com a possibilidade de asfaltamento, é uma nova realidade. A estrada se tornou um vetor ainda mais crítico de pressão sobre a floresta”, disse.

A preocupação não é nova. Em 2023, uma nota técnica do Observatório BR-319 já havia apontado que a malha de ramais em quatro municípios da região — Canutama, Humaitá, Manicoré e Tapauá — era quase seis vezes maior que a extensão da própria BR-319. O documento associou essa expansão a práticas ilegais como grilagem, degradação e desmatamento.

Ramais sem autorização acendem alerta

O crescimento de acessos clandestinos também motivou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) a solicitar ao Ibama medidas urgentes. Em ofício encaminhado em junho, o Dnit informou ter identificado 26 ramais abertos de forma irregular entre os quilômetros 250 e 820 da BR-319, ressaltando o risco à segurança da via e à integridade da infraestrutura rodoviária.

Apesar do alerta, o Ibama-AM informou a dificuldade de agir sem informações mais precisas, como as coordenadas geográficas dos pontos denunciados. O órgão solicitou ao Dnit dados mais específicos para planejar novas etapas da fiscalização.

Plano BR-319: promessas e desconfianças

O site da Folha noticiou neste mês de julho um acordo entre os Ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente e Mudança do Clima em vista de viabilizar as obras na BR-319. Para a secretaria executiva do Observatório BR-319, embora o Plano BR-319 prometa medidas socioambientais rigorosas para evitar o histórico de destruição associado a grandes obras na Amazônia, seria mais prudente que o anúncio viesse acompanhado de ações imediatas, especialmente com a proximidade do verão amazônico, período crítico para o desmatamento e invasões. Em especial devido a maior condição de trafegabilidade na estrada e, assim, de acesso a áreas preservadas.

O Plano BR-319 prevê a contratação de uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) para mapear preocupações socioambientais, com foco em controle do desmatamento, fortalecimento de comunidades locais e regularização fundiária. Uma consultoria independente será responsável por organizar medidas de proteção em uma faixa de 50 quilômetros de cada lado da rodovia, considerada “zona crítica de impacto”, com ações de monitoramento, fiscalização e combate ao desmatamento.

Além disso, o plano contemplaria a proteção de terras indígenas e unidades de conservação, bem como o incentivo a cadeias produtivas locais e práticas agroflorestais, visando um desenvolvimento econômico sustentável. A Infra S.A., ligada ao Ministério dos Transportes, será responsável pela contratação da consultoria, que terá oito meses para elaborar a AAE.

Apesar do otimismo que o anúncio de um plano robusto pode gerar, o Observatório BR-319 tem alertado para os riscos inerentes a qualquer pronunciamento sobre a BR-319. O coletivo ressalta que o simples anúncio de medidas na rodovia costuma levar a um aumento imediato nas expectativas de valorização de terras, impulsionando o desmatamento ilegal, invasões e grilagem, antes mesmo que as ações de proteção sejam efetivamente implementadas.

A preocupação é amplificada pelo momento atual: estamos entrando no verão amazônico, período de menor pluviosidade e, consequentemente, de maior facilidade para práticas ilegais como queimadas e derrubada de floresta. Dados anteriores corroboram essa apreensão. Em 2022, ações de pavimentação do trecho do meio, mesmo sem licenciamento definitivo, coincidiram com um pico alarmante de desmatamento de 2.240 km² na região, representando 18% de toda a perda florestal na Amazônia Legal naquele ano. Embora tenha havido uma queda relativa em 2023, os números permanecem preocupantes.

A decisão recente da Justiça Federal, que restabeleceu a liminar suspendendo a licença prévia para o asfaltamento da BR-319, e que, no bojo do anúncio feito pelos ministérios, foi novamente posta em vigor, reforça a necessidade de cautela. O recurso do Observatório do Clima apontou “inconsistências legais, técnicas e ambientais” no processo de licenciamento, destacando que a concessão da licença prévia já havia desencadeado uma escalada de 122% no desmatamento no entorno da rodovia.

É importante ressaltar que a BR-319 atravessa um mosaico socioambiental complexo, com 19% de terras indígenas, 32,8% de unidades de conservação, assentamentos e áreas com questões fundiárias pendentes. A coordenação entre os ministérios é um passo positivo, mas a efetividade do plano dependerá da sua ágil implementação e da capacidade de coibir as atividades ilegais que historicamente acompanham o anúncio de obras na Amazônia.

E para além dos anúncios sobre o Plano BR-319 e suas consequências imediatas, outro ponto de preocupação foi a aprovação do Projeto de Lei 2.159/2021, o PL da devastação, que ressignificará e fragilizará os processos de licenciamento ambiental, afetando diretamente o processo atual da BR-319, assim como o direito das populações indígenas e tradicionais.  

Assim, o desafio dos ministérios será demonstrar que este acordo gerará a materialidade da governança no território, ainda que sob a nuvem ameaçadora desta nova regulamentação da nova lei geral de licenciamento.

Entre anúncios e retrocessos

O avanço do Plano BR-319 também coincide com a aprovação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 2.159/2021, apelidado por ambientalistas de “PL da Devastação”. A nova lei muda as regras do licenciamento ambiental no país, enfraquecendo exigências e ameaçando direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.


Fonte: Observatório BR-319

Dados de desmatamento branqueados: relatos de redução da perda de floresta tropical no Brasil são enganosos

.A degradação florestal explodiu na Amazônia em 2024 

Serraria clandestina na região de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 6 de fevereiro

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

A história de sucesso “Menos Desmatamento no Brasil!” recebeu ampla cobertura da mídia em maio passado, inclusive na Alemanha. Tanto o governo brasileiro quanto a Mapbiomas, rede de pesquisa que monitora os ecossistemas do país, confirmaram uma queda significativa no desmatamento na Amazônia no ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 30,6% menos floresta tropical foi destruída em 2024 do que em 2023, enquanto a Mapbiomas calculou uma redução de 16,8% em seu relatório anual de desmatamento (RAD). No entanto, dados sobre perda florestal do renomado World Resources Institute (WRI), também publicados em maio, indicam exatamente o oposto: a floresta amazônica brasileira registrou sua maior perda florestal em 2024 desde o recorde de 2016. Cerca de 110% a mais de desmatamento do que em 2023. A região amazônica perdeu 2,82 milhões de hectares de floresta tropical primária no ano passado, em comparação com “apenas” 1,14 milhão de hectares perdidos em 2023, de acordo com o WRI.

O INPE, por outro lado, estima 628.800 hectares de destruição da floresta tropical em 2024, em comparação com 906.400 hectares no ano anterior. Os menores números de desmatamento foram calculados pelo Mapbiomas, uma rede não governamental de universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Segundo o relatório, a área desmatada na Amazônia caiu de 454.230 hectares em 2023 para 377.708 hectares no ano passado.

Então, quem está certo? Os números do WRI são do Laboratório Global de Análise e Descoberta de Terras da Universidade de Maryland (UMD). Tanto o INPE quanto o Mapbiomas, assim como a UMD, coletaram os dados de desmatamento usando imagens de satélite, mas com diferentes métodos de análise e limitações do sistema.

A base de dados varia

O INPE avalia os dados usando seu sistema de monitoramento florestal Prodes. Este sistema registra cortes rasos maiores que 6,25 hectares. Os pesquisadores da UMD, por outro lado, consideram o desmatamento tão pequeno quanto 0,09 hectares e também registram perdas devido ao fogo , que o Prodes não inclui. No ano passado, de acordo com o WRI, 60% da destruição florestal foi causada pelo fogo. Devido a uma seca intensa e prolongada na Amazônia, os incêndios, que geralmente são iniciados por humanos, destruíram mais área florestal do que em outros anos. E quando mais área queima, menos floresta tem que ser desmatada com motosserras para expandir pastagens de gado ou campos de soja.

Outra diferença importante é o período de avaliação. Enquanto o Prodes considera os doze meses entre agosto e julho, os dados da UMD referem-se ao ano civil, ou seja, de janeiro a dezembro de 2024.

Por fim, o Mapbiomas combina dados de desmatamento de sistemas independentes de monitoramento, como o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento) do Instituto Amazonas para a Humanidade e o Meio Ambiente (Imazon), com dados de sistemas do INPE, como o Prodes, e se concentra exclusivamente no corte raso e na remoção completa da vegetação natural. O Mapbiomas não inclui perdas devido a incêndios florestais ou exploração madeireira seletiva em suas estatísticas de desmatamento, razão pela qual os números são significativamente menores. “Como o Mapbiomas não contabiliza a crescente perda florestal devido a incêndios no Brasil, uma proporção crescente da mudança florestal geral não é adequadamente representada”, resume a plataforma online do WRI, Global Forest Watch (GFW).

Os danos florestais são maiores

Para avaliar se a proteção florestal na região amazônica está de fato melhorando ou piorando, precisamos de dados sobre degradação florestal, além de estatísticas de desmatamento. Florestas danificadas, por exemplo, devido à exploração madeireira seletiva e estradas florestais, têm uma cobertura vegetal mais rala, são mais suscetíveis à seca e pegam fogo com mais facilidade. Por outro lado, iniciar incêndios em florestas tropicais intactas e úmidas não é uma tarefa fácil.

De acordo com o instituto de pesquisa Imazon em Belém do Pará, houve um aumento explosivo na degradação florestal na região amazônica em 2024. Segundo o relatório, 3,64 milhões de hectares de floresta tropical foram degradados, cerca de seis vezes mais do que em 2023. De acordo com o Imazon, os danos florestais registrados no ano passado pelo sistema de monitoramento do SAD foram os maiores desde que o instituto começou a monitorar florestas em 2009, superando em muito o recorde anterior estabelecido em 2017, quando 1,15 milhão de hectares de floresta amazônica foram degradados.

Segundo o Imazon, o aumento da degradação florestal na região amazônica está diretamente ligado ao aumento dos incêndios florestais no ano passado. A seca e a exploração madeireira também contribuíram para esse processo de degradação.


Fonte: JungeWelt

Retirada de gado ilegal na Amazônia gera protestos e divide moradores na Reserva Chico Mendes

A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso sustentável da floresta na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservar a extração da borracha e a colheita da castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária. (Vídeo AP: Mario Lobão, Produção: Tatiana Pollastri) 

Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press

BRASÍLIA, Brasil (AP) — A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso florestal sustentável na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservar a extração de borracha e a colheita de castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária.

A operação de remoção começou na semana passada em uma das unidades de conservação mais renomadas da Amazônia, a Reserva Extrativista Chico Mendes , nomeada em homenagem ao famoso seringueiro e ambientalista morto em 1988. Agentes federais, em colaboração com policiais e militares, apreenderam cerca de 400 cabeças de gado de dois fazendeiros que descumpriram ordens judiciais de despejo. As operações devem continuar nas próximas semanas.

Mas dezenas de moradores da reserva protestaram contra a ação, buscando criar um bloqueio na cidade de Xapuri para impedir a retirada do gado. O primeiro caminhão, com 20 cabeças de gado, teve que tomar uma rota alternativa para evitar o confronto.

O protesto, que contou com o apoio de políticos locais, teve um simbolismo poderoso, já que Xapuri é a cidade onde Mendes foi morto a tiros. Também representou um contraste com a década de 1980, quando seringueiros lutaram contra pecuaristas.

Uma seringueira é preparada para a retirada da borracha na Reserva Extrativista Chico Mendes, estado do Acre, Brasil, em 6 de dezembro de 2022. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Uma seringueira é preparada para a retirada da borracha na Reserva Extrativista Chico Mendes, estado do Acre, Brasil, em 6 de dezembro de 2022. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

A remoção do gado ocorreu em resposta a um aumento de 56% no desmatamento durante os primeiros cinco meses de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado. A área desmatada é quase cinco vezes maior que o Central Park, em Nova York. A reserva abriga cerca de 140.000 cabeças de gado.

“O monitoramento identificou que o crime ambiental decorre principalmente da pecuária de grande porte, o que é ilegal por violar as regras da unidade de conservação”, afirmou em nota o órgão federal Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.

A Reserva Chico Mendes é uma das diversas reservas extrativistas da Amazônia onde comunidades florestais podem praticar atividades extrativas de baixo impacto, com proteção contra incorporadores. As regras limitam o desmatamento à pecuária e agricultura de pequena escala, e a venda de terras é proibida. Ainda assim, a Reserva Chico Mendes é a unidade de conservação federal mais desmatada do Brasil.

‘Trabalhando para encontrar uma solução’

Os problemas atuais se agravaram durante o mandato de quatro anos do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, que durou até 2022, quando o desmatamento na reserva explodiu. Bolsonaro desvalorizou a proteção ambiental e disse que a Amazônia tinha áreas protegidas demais. Alguns moradores de Chico Mendes começaram a vender suas terras ilegalmente para fazendeiros, que esperavam que elas fossem eventualmente legalizadas.

A forte reação à operação levou à criação de um grupo de WhatsApp com cerca de 1.000 membros, no qual alguns fizeram ameaças a Raimundo Mendes de Barros, primo e herdeiro político de Chico Mendes, que se opõe à expansão da pecuária. Mas organizações históricas aplaudiram as remoções de gado, incluindo o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, que emitiu uma nota de apoio à operação.

Cleisson Monteiro, presidente da Associação de Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, apoiou os protestos contra a retirada do gado. Ele afirmou que, embora o desmatamento deva ser combatido, os agentes federais provocaram revolta e medo entre as famílias que não cumprem todas as normas da reserva.

A área onde as invasões começaram, conhecida como Seringal Nova Esperança, “não tem mais um perfil seringueiro”, disse Monteiro. “Os moradores têm um modo de vida diferente. São agricultores que se dedicam à agricultura familiar em pequena escala, com alguma criação de gado para corte e leite.”

Monteiro afirmou que cerca de 140 famílias vivem em Nova Esperança, incluindo a sua, todas com diferentes graus de descumprimento das regras da reserva. Ele afirmou que, embora apenas dois indivíduos tenham sido alvos, há a preocupação de que a operação possa afetar outras famílias.

“O ICMBio não deveria ter agido neste momento, porque estamos trabalhando para encontrar uma solução”, disse ele.

‘A floresta não pode competir’

A reserva abriga cerca de 4.000 famílias. Cerca de 900 produzem borracha para a Veja, empresa francesa de calçados. O projeto tem se mostrado bem-sucedido, mas a demanda não é alta o suficiente para absorver todo o potencial de produção da reserva.

Jeffrey Hoelle, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, que estuda a área há duas décadas, disse que a criação de gado tem sido mais lucrativa para os moradores do que os meios tradicionais de extração de borracha e nozes da floresta.

“Vinte anos atrás, os seringueiros estavam apenas começando a adotar o gado. E, nas últimas duas décadas, ele se tornou cada vez mais popular”, disse Hoelle. “Com o tempo, tornou-se mais aceitável. Mas, essencialmente, a floresta não consegue competir em termos de valor econômico com o gado. O alcance que a borracha e a castanha-do-pará podem prover para as pessoas é realmente limitado em comparação com o gado, para o qual, infelizmente, é preciso derrubar a floresta e plantar pasto.”


Fonte: Associated Press

A BR-319 ameaça a Amazônia em nome do ‘progresso’ e da política

Incêndios e desmatamento na floresta amazônica. Crédito da foto: ID 306384983 © Yuliia Kaveshnikova | Dreamstime.com

Por Monica Piccinini para “Medium” 

Em 15 de julho, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciaram e assinaram formalmente um acordo delineando planos para reconstruir a polêmica rodovia BR-319.

À primeira vista, parece uma estratégia calculada com promessas de avaliações ambientais e estruturas de governança, mas por trás da retórica política existe uma verdade sombria e irreversível: a BR-319 pode ser o golpe final que levará a Amazônia à beira do colapso.

O caminho da destruição

A BR-319 é um trecho rodoviário de 885 km que corta uma das últimas áreas intocadas da floresta amazônica. Ligando Manaus a Porto Velho, ela atravessa floresta tropical intocada, terras indígenas e biodiversidade vital.

Originalmente construída durante a ditadura militar brasileira na década de 1970, foi abandonada em 1988 por ser econômica e ambientalmente inviável. Mas, como um fantasma do passado, a BR-319 continua retornando, desta vez com implicações muito mais perigosas.

Os governos tentam revitalizar a rodovia há décadas. No entanto, todos os estudos ambientais confiáveis confirmam que a pavimentação da BR-319 abriria uma caixa de Pandora de estradas ilegais, desmatamento, degradação, grilagem de terras e ocupação violenta.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), destacou as consequências alarmantes das atuais políticas ambientais brasileiras e a falta de salvaguardas eficazes. Ele enfatizou as implicações globais dessas decisões e seu impacto na região amazônica:

O país ignora sistematicamente os alertas da comunidade científica, apesar das evidências claras publicadas em periódicos importantes como Science, Nature e The Lancet. Esta é uma decisão deliberada que ameaça todas as nações do mundo.

Nesse contexto, o Brasil fica sem nenhuma salvaguarda ambiental eficaz, e a rodovia BR-319 se tornou uma rota para expansão do desmatamento, grilagem de terras, pecuária ilegal, crime organizado e extração de petróleo na Amazônia.

Governança: Uma ilusão perigosa

O governo afirma que estabelecerá um modelo de governança para monitorar a região. No entanto, até mesmo a Polícia Militar do Brasil declarou que qualquer cenário de governança é inalcançável e irrealista. Dado o terreno vasto e desafiador, nenhum órgão de fiscalização tem os recursos, o alcance ou a capacidade de conter o caos que a BR-319 desencadearia.

Hoje, mais de 6.000 km de estradas vicinais ilegais já cruzam a região, formando um padrão devastador em espinha de peixe que garante acesso sem precedentes a garimpeiros, madeireiros, grileiros e ao crime organizado. A BR-319 não seria apenas uma estrada, mas se tornaria uma artéria de destruição, alimentando uma vasta e descontrolada máquina de desmatamento.

Uma sentença de morte para a floresta tropical

A BR-319 conectaria a Amazônia Central à região da AMACRO, um foco de desmatamento que leva o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Sua reconstrução teria consequências catastróficas, destruindo a biodiversidade e abrindo caminho para a exploração de um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

Intensificaria as mudanças climáticas ao liberar enormes quantidades de carbono armazenado. Alimentaria a mineração e a exploração madeireira ilegais, minando o Estado de Direito. Invadiria territórios indígenas, violaria seus direitos e colocaria suas vidas em risco. E criaria um terreno fértil para o florescimento do crime organizado.

Os danos não se limitariam à floresta. Os “rios voadores”, enormes correntes de ar que transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, seriam interrompidos. Esses rios voadores são essenciais para os padrões de chuva. Sem eles, grandes cidades e regiões agrícolas sofrerão secas devastadoras.

Mais de 70% das chuvas que abastecem o sistema hídrico da Cantareira , em São Paulo , provêm da Amazônia. Se a BR-319 avançar, a segurança hídrica da maior cidade do Brasil poderá estar em risco, com consequências diretas para a agricultura e o potencial colapso de todos os setores econômicos do país.

O custo humano: Doença e deslocamento

As consequências da BR-319 também seriam medidas em vidas humanas. Ao destruir ecossistemas florestais e avançar ainda mais em habitats de vida selvagem, este projeto cria condições perfeitas para o surgimento de novas doenças zoonóticas , aumentando o risco de outra pandemia global . Os casos de malária na região já aumentaram 400%.

A disseminação da febre de Oropouche , transmitida pelo pequeno mosquito Culicoides paraense , conhecido localmente como maruim, tem sido outro sinal alarmante. Entre 2022 e 2024, foram registrados mais de 6.000 casos de febre de Oropouche . Esses surtos, originados na região da AMACRO, já se espalharam pelo Brasil, para o estado do Espírito Santo, outros países da América do Sul e Caribe.

De acordo com o governo do Reino Unido , vários casos de Oropouche associados a viagens foram relatados nos EUA, Europa e Reino Unido.

Ferrante alerta sobre os graves riscos de biossegurança associados à destruição ambiental contínua na Amazônia:

O desmatamento e a degradação ambiental já estão invadindo áreas sensíveis que protegem reservatórios zoonóticos únicos. A linhagem do vírus Oropouche, que agora chega à Europa, é originária dessa região. No entanto, o governo brasileiro está abrindo uma verdadeira caixa de Pandora com novos vírus, bactérias e outros patógenos. As consequências para a biossegurança global serão catastróficas.

Se a BR-319 for adiante, a crise sanitária se agravará. A Amazônia se tornará um ambiente propício para futuras pandemias, e o Brasil arcará com o custo de uma catástrofe evitável.

Quem realmente se beneficia?

Os benefícios da BR-319 não serão repassados aos povos indígenas , cujas terras e vidas ela ameaça. Há 69 terras indígenas e 18.000 povos indígenas ao longo do traçado da rodovia. Nenhum deles foi devidamente consultado, apesar das proteções da Convenção 169 da OIT e da legislação brasileira.

Em vez disso, os principais beneficiários serão gigantes do petróleo e gás como Petrobras e Rosneft (russa), empresas de mineração como a Potássio do Brasil (canadense) e conglomerados do agronegócio como a JBS.

As operações de mineração legal e ilegal se expandirão. A pecuária, que já é responsável por pelo menos 88% do desmatamento na Amazônia, será turbinada. O resultado será mais florestas desmatadas, mais carbono na atmosfera e mais violência no local.

A rodovia também fortalecerá o controle do crime organizado. A grilagem de terras e o desmatamento ilegal já estão intimamente ligados às redes criminosas da região. A BR-319 criaria um corredor de exploração e conflito.

A miragem da bioeconomia

Alguns argumentam que a BR-319 é essencial para o desenvolvimento da chamada “bioeconomia” brasileira. Segundo o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável ( WBCSD ), a bioeconomia deverá gerar mais de US$ 7,7 trilhões globalmente até 2030. Esse conceito, no entanto, permanece mal definido e profundamente controverso.

Com a COP 30 se aproximando, o Brasil está impulsionando essa narrativa com força. Mas o que está sendo vendido como uma alternativa sustentável pode ser apenas uma nova forma de extração.

Sob a égide da bioeconomia, os projetos incluem créditos de carbono, biocombustíveis, produtos florestais madeireiros e não madeireiros, pesca, biotecnologia, turismo e até plataformas virtuais.

Foi proposto um projeto de lei para criar uma zona de livre comércio (ZLC) de bioeconomia em Belém, cidade-sede da COP30. O projeto oferece incentivos fiscais, desregulamentação e privilégios comerciais. Os beneficiários, mais uma vez, serão as corporações e as elites.

Longe de ser uma solução, a bioeconomia corre o risco de se tornar mais um veículo para a destruição da Amazônia por meio do greenwashing.

Devastação por lei

Por trás de toda essa devastação está a legislação criada para desmantelar as proteções ambientais do Brasil. O Projeto de Lei 2159/21, conhecido como “Projeto de Lei da Devastação”, permite que empresas autolicenciem seus projetos sem qualquer avaliação de impacto ambiental. Basta um simples formulário online.

Apoiado pelo poderoso bloco ruralista, grandes proprietários de terras e interesses do agronegócio, este projeto de lei abre caminho para a expansão desregulamentada em petróleo e gás, mineração, agronegócio e infraestrutura, incluindo a BR-319.

Em 17 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei da Devastação , que agora aguarda a sanção do presidente Lula. Isso representa um golpe significativo nos esforços do Brasil em prol da justiça ambiental e dos compromissos climáticos.

Outra lei, a 14.701/2023 (anteriormente PL490), conhecida como “marco temporal”, redefine os direitos territoriais indígenas. Ela estabelece que as comunidades indígenas só podem reivindicar terras se já as possuíssem em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira.

Ferrante disse:

O Brasil vive a maior vulnerabilidade ambiental de sua história. Essa decisão se alinha à aprovação do Projeto de Lei 2159/2021, que elimina o licenciamento ambiental para esse tipo de empreendimento, e ao avanço da chamada “tese do marco temporal”, que invalida o reconhecimento de terras indígenas demarcadas após 1988.

Essa lógica cruel ignora séculos de deslocamento e abre caminho para despejos violentos, concedendo à polícia militar a autoridade para remover povos indígenas de suas próprias terras ancestrais.

Que futuro escolhemos?

A BR-319 é mais do que uma rodovia; é o símbolo de uma escolha perigosa. Ela nos obriga a decidir entre dois futuros: um em que protegemos a Amazônia, respeitamos os direitos indígenas e traçamos um caminho sustentável; e outro em que sacrificamos tudo em prol de lucros de curto prazo, ganhos políticos e ganância corporativa.

O governo brasileiro precisa tomar uma decisão técnica de fato, baseada na ciência, não na política, porque, uma vez pavimentada a BR-319, não haverá mais volta. Se perdermos a Amazônia, perderemos o clima, perderemos a biodiversidade e perderemos nosso futuro coletivo.

Devemos nos perguntar: a destruição do planeta vale mais alguns quilômetros de estrada? É esse o legado que queremos deixar para as próximas gerações?


Fonte: Medium

PL da Devastação: entrevista no SBT News sobre a aprovação do fim do licenciamento ambiental no Brasil

Na tarde desta 5a. feira (17/7) concedi uma entrevista no programa Poder Expresso do SBT News de Brasília sobre os impactos mais graves que decorrerão da aprovação do PL da Devastação na madrugada de hoje pela Câmara de Deputados (ver vídeo abaixo).

Além de reforçar os problemas mais óbvios que decorrerão da implementação da nova legislação sobre a proteção do ambiente no Brasil, reforcei a necessidade de que o presidente Lula vete integralmente o PL da Devastação.  Também abordei a importância da mobilização popular para fazer com que o presidente Lula faça o que tem de ser feito que vetar integralmente essa legislação esdrúxula.