Estudo mostra que descumprimento da proteção da reserva legal no Cerrado está concentrado nos latifúndios

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A devastação do Cerrado pela expansão da monocultura da soja é um dos principais agravadoras da crise hídrica no Brasil

Uma das chamadas “mentiras favoritas” que figuras ligadas ao governo Bolsonaro (por exemplo o agrônomo Evaristo Miranda e a ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/MS)) gostam de propalar é que há um grande compromisso por parte dos grandes proprietários rurais com o desenvolvimento sustentável da agricultura de exportação do Brasil. 

Pois bem, um estudo realizado por pesquisadores do Serviço Florestal Brasileiro e da Universidade de Brasília e que acaba de ser publicado pela revista “Caminhos da Geografia” sob o título “Regularidade Ambiental das Áreas de Reserva Legal do Cerrado Brasileiro” mostra que a banda não toca como propalam os aliados do latifúndio agro-exportador. 

É que a partir de um exaustivo levantamento de dados dados do Cadastro Ambiental Rural, obtidos diretamente no banco de dados do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SICAR),  que compreendiam as informações públicas dos cadastros de imóveis rurais registrados no sistema em 31 de dezembro de 2019 acerca da situação dos imóveis rurais sobre situação do cadastro, perímetro do imóvel rural, área do imóvel rural e área de Reserva Legal em quaisquer de suas modalidades (“proposta”, “averbada” e “aprovada e não averbada”). 

Os resultados encontrados pelo estudo apontam que o “balanço entre o déficit e o superávit de Reserva Legal dentre os imóveis que delimitaram Reserva Legal no CAR resulta em um déficit de 2.562.332,44ha, demonstrando que o mecanismo de compensação de Reserva Legal é insuficiente para solucionar todo o déficit identificado”. E mais explicitamente que o principais causadores deste déficit são as grandes propriedades rurais que, apesar de serem em menor percentual, controlam mais de metade da terra (ver figura abaixo).

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Bioma Cerrado(Brasil): Distribuição do número de imóveis (a) que cumpriram o percentual mínimo de RL, bem como a área da RL correspondente (b), entre as pequenas, médias e grandes propriedades e posses rurais, 2020

Um dado que elucida os limites da falácia governamental de que a legislação existente já garante o funcionamento de uma agricultura “sustentável” é o que aponta para a existência de  déficit de 2.562.332,44ha nas áreas delimitadas com reserva legal, fato esse que demonstra que esse mecanismo de compensação é insuficiente para solucionar todo o déficit identificado. Em outras palavras, de sustentável essa agricultura baseada na devastação do bioma do Cerrado que estamos vendo não tem nada.

Janeiro com desmatamento recorde mostra que Jair Bolsonaro continua passando sua boiada sobre a Amazônia

Dados do Deter/Inpe apontam recorde de desmatamento na Amazônia, ao mesmo tempo em que o clima extremo afeta milhares de brasileiros.

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 Área queimada no Parque Nacional do Juruena e na Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados (sobreposição entre UC e TI), em Apiacás, Mato Grosso. © Victor Moriyama / Greenpeace

Manaus, 11 de fevereiro de 2022 – Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, reafirmam que o desmatamento na maior floresta tropical do planeta está fora de controle. Entre os dias 1 e 31 de janeiro, os alertas apontam para um total de 430 km² desmatados. Isso representa um aumento de mais de 418% em relação à janeiro de 2021, ainda que este ano tenha chovido mais na região. Foi também a maior área com alertas para o mês desde 2016, quando foram iniciadas as medições do Deter-B. Os alertas de desmatamento se concentram principalmente nos estados de Mato Grosso, Rondônia e Pará.

“Os estímulos para o desmatamento têm sido tão evidentes que mesmo em janeiro, quando o desmatamento costuma ser mais baixo por conta do período chuvoso na região amazônica, a destruição disparou. De fato, esse é um momento de ouro para quem desmata e/ou rouba terras públicas, já que existe uma falta proposital de fiscalização ambiental e expectativa de alteração na legislação para regularizar a invasão de terras públicas”, afirma a porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti.

Segundo análise do Greenpeace Brasil, 22,5% da área com alertas de desmatamento entre 1 e 21 de janeiro deste ano se concentrou nas florestas públicas não destinadas, alvo frequente de grilagem de terras. Ao mesmo tempo, o Senado discute duas propostas preocupantes (PL2﹒633/20 e PL 510/21) que visam regularizar a grilagem de terras.

O desmatamento no Brasil é prejudicial ao clima e à economia brasileira. “Quanto mais desmatamento, maior é a contribuição do país com a ocorrência de extremos climáticos, a exemplo das fortes chuvas que afetam drasticamente as vidas de milhares de brasileiros. Além disso, o descaso do governo com as florestas e com o clima, estampados nos dados de janeiro, vão na contramão de sinalizações que mercados consumidores e entidades internacionais têm dado, exigindo cada vez mais o controle do desmatamento”, complementa Mazzetti.

A exemplo disso, a União Europeia tem discutido uma legislação que proíbe a importação de produtos oriundos de áreas desmatadas, ao passo que a falta de medidas para conter o desmatamento pode ser utilizada para barrar a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) .

Moratória da soja: brecha continua permitindo desmatamento em fazendas de soja na Amazônia brasileira

Dados de satélite mostram floresta tropical desmatada para gado e milho em fazendas que cultivam soja, minando as alegações de que a cultura está livre de desmatamento

desmatamentoDesmatamento em Nova Xavantina, Mato Grosso, Brasil. O desmatamento na Amazônia atingiu uma alta de 15 anos no ano passado. Fotografia: Amanda Perobelli/Reuters

Por Lucy Jordan, Alice Ross, Elisângela Mendonça, Andrew Wasley e Liam Slattery para o “The Guardian”

Mais de 1.000 quilômetros quadrados de floresta amazônica foram derrubados para expandir fazendas de soja no estado brasileiro de Mato Grosso em um período de 10 anos, apesar de um acordo para protegê-lo, de acordo com uma nova investigação.

Em 2006, foi introduzida a histórica moratória da soja na Amazônia , proibindo a venda de soja cultivada em terras desmatadas após 2008. De 2004 a 2012, o desmatamento na Amazônia caiu 84% .

Mas nos últimos anos o desmatamento subiu vertiginosamente , atingindo uma alta de 15 anos no ano passado – encorajado, dizem os ativistas, pela retórica e políticas anticonservacionistas do presidente Jair Bolsonaro .

Com a moratória se aplicando apenas à soja, os agricultores puderam vender a safra livre de desmatamento, enquanto ainda limpavam a terra para gado, milho ou outras commodities.

Para mapear o desmatamento, pesquisadores da ONG brasileira Instituto Centro de Vida, juntamente com o Unearthed do Greenpeace e o Bureau of Investigative Journalism, analisaram dados de satélite de terras onde a soja estava sendo cultivada no estado de Mato Grosso, que se estende pela parte sul do Amazonas. O estado produz mais soja do que qualquer outro lugar no Brasil.

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Eles descobriram que, embora os estudos mostrem que a moratória impediu com sucesso a conversão direta da floresta tropical em campos de soja, o desmatamento continuou. Os agricultores estavam limpando a terra para cultivar outras commodities além da soja, com 450 quilômetros quadrados de floresta tropical – equivalente em tamanho à Grande Manchester – derrubados no Mato Grosso entre 2009 e 2019, de acordo com a pesquisa.

Holly Gibbs, professora de geografia e estudos ambientais da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, disse: “Ao mesmo tempo em que os produtores de soja cumprem a moratória, eles continuam desmatando ilegalmente para outros fins”.

As revelações minam as alegações dos supermercados de que a soja não está mais ligada à perda da floresta amazônica.

A soja é uma commodity chave usada por produtores de leite, gado, porcos e aves na Europa e no resto do mundo para alimentar seu gado.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), principal associação de comerciantes de soja no Brasil, disse que a moratória resultou em reduções significativas do desmatamento em municípios produtores de soja.

“Se a soja for plantada em polígonos [uma área entre um conjunto especificado de coordenadas] com desmatamento após 2008, toda a fazenda é considerada não compatível com a moratória da soja”, disse a Abiove em comunicado.

Análises anteriores sugeriram que mais de 1 milhão de toneladas de soja usadas por pecuaristas do Reino Unido para produzir frango e outros alimentos em 2019 podem estar ligadas ao desmatamento.

Gibbs disse que a pressão dos compradores de soja na Europa e nos EUA é necessária para parar o desmatamento. “A legislação na UE, no Reino Unido e nos EUA aumenta as apostas desse desmatamento em andamento nas propriedades de soja. A indústria da soja poderia considerar ampliar a moratória da soja na Amazônia para fechar a porta a todo o desmatamento relacionado à soja.”

O professor Raoni Rajão, especialista em agricultura da Universidade Federal de Minas Gerais, disse que as regulamentações atuais são insuficientes. “Apenas as áreas específicas onde a soja é cultivada são monitoradas, não toda a propriedade. Os agricultores já perceberam essa brecha.”

O Retail Soy Group, que representa os principais varejistas, incluindo Sainsbury’s, Tesco, Lidl e Waitrose, reconheceu que há limitações na moratória e disse que as novas alegações “destacam ainda mais a necessidade de fortalecer as proteções legais desses ecossistemas vitais”. Inscreva-se na atualização mensal de Animals Farmed para obter um resumo das maiores histórias de agricultura e alimentação em todo o mundo e acompanhar nossas investigações. Você pode nos enviar suas histórias e pensamentos em animalsfarmed@theguardian.com

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Entrevista no programa “Faixa Livre”: questão ambiental não é moda, é sobrevivência da espécie

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Hoje tive a oportunidade de conversar com o economista Paulo Passarinho no espaço radiofônico conhecido como “Faixa Livre. A nossa conversa girou em torno de questões fundamentais como a devastação dos biomas florestais brasileiros e o uso indiscriminado de agrotóxicos para gerar a produção de commodities agrícolas.

Quem desejar ouvir o conteúdo dessa entrevista, basta clicar abaixo:

Desmatamento na Amazônia brasileira bate novo recorde em janeiro

fogo ilegalIncêndio ilegal na floresta amazônica, no estado de Mato Grosso, em 11 de agosto de 2020 afp_tickers

(AFP) O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde para janeiro já nas três primeiras semanas do ano, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira (2), um sinal alarmante da destruição da maior floresta tropical do mundo.

Cerca de 360 km² de floresta foram destruidos entre 1º e 21 de janeiro, de acordo com dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Embora o registro pare em 21 de janeiro, a área desmatada até esse dia já é maior do que qualquer janeiro completo desde 2015, quando o Inpe lançou o programa de monitoramento periódico Deter. 

O desmatamento da Amazônia em janeiro do ano passado foi de 83 km², quatro vezes menos do que o registrado nas três primeiras semanas de 2022.  Especialistas ambientais disseram que os dados podem indicar um risco elevado de que 2022 se torne outro ano devastador para a Amazônia do Brasil, onde o desmatamento aumentou desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019.

“Um número tão alto em janeiro, que é o pico da estação chuvosa, certamente chama atenção e nos deixa extremamente preocupados”, disse à AFP Claudio Angelo, da ONG Observatório do Clima. 

Em novembro, o Inpe anunciou que o desmatamento da Amazônia brasileira havia se estendido a 13.235 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021, um número inédito em 15 anos.

Foi o terceiro aumento anual consecutivo desde a chegada ao poder de Bolsonaro, que é alvo de críticas internacionais por ter enfraquecido as políticas de proteção à floresta e por ter promovido a mineração e a exploração agrícola em áreas protegidas.

“Precisamos aguardar os próximos meses, mas o sinal não é nada bom”, acrescentou Angelo.

O Observatório do Clima revelou na terça-feira que o Ibama gastou apenas 41% de seu orçamento em 2021.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo SWI swissinfo.ch [Aqui!].

Comunidades do rio Manicoré cobram medidas de proteção ambiental na região

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 Foto: Orlando K. Junior

As populações de comunidades situadas na região do rio Manicoré, no interior do Amazonas, relatam que vêm sofrendo com invasões e desmatamento ilegal na região, e buscam apoio do Governo Estadual e de órgãos públicos para a criação de mecanismos de proteção do território. O tema é um dos destaques da edição 27 do Informativo Observatório BR-319 (OBR-319).

O informativo é uma publicação mensal, produzida pelas organizações membro do OBR-319, que apresenta informações sobre acontecimentos importantes da área de influência da rodovia. O material pode ser acessado no site www.observatoriobr319.org.br.

A publicação deste mês apresenta o resultado da reunião realizada em dezembro de 2021 entre lideranças comunitárias do rio Manicoré, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-AM) e a Procuradoria Geral do Estado do Amazonas (PGE-AM) e Procuradoria da República no Amazonas (MPF), articulada pela Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta). Na ocasião, os moradores reivindicaram medidas de combate a atividades predatórias que têm ameaçado o modo de vida das comunidades e a retomada do processo de criação de uma Unidade de Conservação (UC) no local. Como medida emergencial, os órgãos propuseram a uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, instrumento que regulariza a ocupação de áreas públicas e serve de alternativa para a implantação de projetos habitacionais.

“Esta luta não é apenas pela criação de uma UC, mas também pela dignidade da cidadania das populações tradicionais, que há gerações estão no território do rio Manicoré”, disse a presidente da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (Caarim) e moradora da comunidade Mocambo, Maria Cleia Delgado.

A secretária executiva do OBR-319, Fernanda Meirelles, faz um alerta de que a situação em Manicoré pode se agravar com a repavimentação da BR-319, permitindo maior acesso à área. “Sabemos que o acesso ao território é favorecido pelo KM 180 da Rodovia Transamazônica e isso poderá piorar com as obras na BR-319. Por isso, queremos que antes da execução de grandes obras de infraestrutura na região, sejam criadas salvaguardas que assegurem a governança e a proteção de territórios tradicionais e indígenas”, explica Fernanda Meirelles.

Mais sobre o Informativo

O material traz também informações sobre a força-tarefa entre órgãos federais e estaduais para a fiscalização de ramais localizados entre a BR-319. Inicialmente, as ações terão foco em áreas que apresentam números preocupantes, como a rodovia planejada AM-366 e do ramal Belo Monte. A informação foi apresentada na segunda reunião sobre governança ambiental no entorno da rodovia. Outro assunto abordado nesta edição foi a realização de oficinas de comunicação na comunidade Boa Esperança, situada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Amapá. 

O informativo traz, também, dados atualizados do monitoramento da COVID-19 na região de influência da rodovia, que tiveram registros de casos da variante Ômicron em Porto Velho, Manaus, Autazes e Lábrea. Outros dados de monitoramento são do desmatamento na região da BR-319, que apresentou queda de 29% em dezembro de 2021, quando comparado com o mesmo período em 2020, assim como os focos de calor, que apresentaram queda de 82% em comparação a 2020. O fim do ano passado, em dezembro, trouxe também um dado relevante: nenhum dos 13 municípios monitorados apresentou aumento nos focos de calor em comparação ao mesmo mês no ano anterior.

 Sobre o OBR-319

O Observatório BR-319 é formado pela Casa do Rio, Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Vitória Amazônica (FVA), Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Transparência Internacional Brasil, WCS-Brasil e WWF-Brasil.

Pesquisadores do INPA demandam que países europeus e China boicotem soja e carne para combater o desmatamento da Amazônia

Em artigo, os pesquisadores denunciam a nova alta de desmatamento na Amazônia e pressionam os países a pararem de comprar soja e carne bovina brasileira

oeco deforestationPesquisadores denunciam expansão da fronteira do desmatamento na Amazônia. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Por Duda Menegassi para

Em texto publicado na revista científica internacional Nature na última semana, dois cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) denunciam a alta do desmatamento no Brasil e pressionam para que países europeus e China boicotem as importações de soja e carne bovina do país.

Em um dos trechos do texto, assinado por Lucas Ferrante e Philip Fearnside, ambos do INPA, os pesquisadores insistem que “os países que importam grandes quantidades de soja e carne bovina do Brasil a tomarem medidas para deter essa destruição. Cerca de 9,5% da soja exportada do Brasil e 5,3% de sua carne bovina vão para países europeus, com outros 79% e 52%, respectivamente, indo para a China. Os importadores devem mudar para outros exportadores até que o Brasil elimine o desmatamento causado pela exportação”.

“Há anos, os pecuaristas do estado de Mato Grosso vendem suas pastagens por preços altos para produtores de soja e compram terras baratas mais ao norte para desmatar para a produção de carne bovina”, explicam. 

Um dos autores do texto, o pesquisador Lucas Ferrante, explica a ((o))eco que o desmatamento na Amazônia traz ainda consequências econômicas para o país, como a escassez hídrica, que afeta diretamente tanto a agricultura quanto o bolso dos brasileiros. “Além disso, esse novo ciclo do desmatamento impulsionado tanto pela soja quanto pela pecuária, vem tirando a carne da mesa do trabalhador brasileiro, porque hoje a exportação da carne está atrelada ao preço do dólar. Isso faz com que seja mais vantajoso pros desmatadores, que lucram em dólar, e também para esses pecuaristas que invadem essas terras”, analisa o cientista do INPA.

O artigo destaca ainda a expansão da fronteira do desmatamento para o oeste do estado do Amazonas, seguindo a rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. “O desmatamento no Brasil hoje está ameaçando o último grande bloco de floresta amazônica intacta”, alertam.

Além disso, o aumento do desmatamento vai contra o compromisso do Brasil de mitigar as emissões de carbono, acrescentam os pesquisadores.

Ano de 2021 teve alta de 29% no desmatamento

A Amazônia viveu em 2021 o seu pior ano em uma década, com 10.362 km² de floresta destruída entre janeiro e dezembro – o equivalente a quase sete vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os dados foram divulgados pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), e revelaram um aumento de 29% na taxa de desmatamento em comparação ao ano anterior – que já havia batido recorde com 8.096 km² de floresta perdidos. 

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site OECO [Aqui!].

Storebrand pressiona Archer Daniels e Bunge para que atuem para diminuir o risco de desmatamento no Brasil

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Um gestor de ativos nórdico de US$ 120 bilhões criticou dois grandes comerciantes agrícolas dos EUA por agirem muito devagar para remover o risco de desmatamento de suas cadeias de suprimentos, à medida que os investidores reprimem cada vez mais a destruição da floresta. meio ambiente no Brasil.

A Storebrand colocou a Archer Daniels Midland, com sede em Illinois, e a Bunge, com sede em Missouri, em sua “lista de observação”, o que poderia levar a um desinvestimento.

“Do nosso ponto de vista, o progresso é muito lento e também achamos que as ambições são muito baixas”, disse Jan Erik Saugestad, diretor administrativo da Storebrand. As discussões entre a Storebrand e as empresas já duram vários anos e ele disse que a gestora de ativos pretende “levar o diálogo para o próximo nível”.

Na recente cúpula climática das Nações Unidas em Glasgow, mais de 100 líderes nacionais se comprometeram a interromper o desmatamento até 2030, e 30 instituições financeiras, incluindo a Storebrand, comprometeram-se a eliminar a prática prejudicial de seus portfólios. até 2025. No entanto, signatários, incluindo Brasil, Rússia e Indonésia, não indicaram como será implementado ou monitorado, e os ativistas ambientais permanecem céticos.

ADM e Bunge estão entre os maiores comerciantes do mundo que transportam soja brasileira para todo o mundo. O aumento da produção dessa commodity, amplamente utilizada na alimentação do gado, tem sido uma das principais causas do desmatamento da floresta amazônica e da destruição do cerrado.

A escala de produção de soja em áreas desmatadas e os padrões variados para o que é considerado uma atividade aceitável dificultam para as empresas lidar com sua presença nas cadeias de suprimentos.

A Bunge e a ADM apertaram suas políticas de desmatamento no ano passado em resposta a pedidos de acionistas. A Storebrand, juntamente com a gestora de fundos americana Green Century, apresentou uma proposta na reunião anual da Bunge pedindo que ela endurecesse suas políticas, que foi apoiada por 98% dos acionistas. A Bunge disse que está comprometida em não ter soja de terras desmatadas ilegalmente.

Mas a Storebrand quer que as  empresas vão mais longe. “Gostaríamos de ver mais rastreabilidade e transparência no rastreamento de sua cadeia de suprimentos por meio de seus produtos”, disse Saugestad.

O grupo, que tem participação de 0,2% na Bunge e 0,07% na ADM, também quer que eles se comprometam a não adquirir terras desmatadas após 1º de janeiro de 2020, seja legalmente. ou ilegalmente.

A ADM disse que ficou surpresa com a decisão e “esperava nosso envolvimento com a Storebrand”, acrescentando que suas cadeias de fornecimento diretas e indiretas de soja na América do Sul seriam 100% rastreáveis ​​até o final do ano. . Ele também prometeu não desmatar até 2030.

A Bunge reiterou seu compromisso de tornar suas cadeias produtivas diretas e indiretas livres de desmatamento até 2025 e disse que os agricultores, que abrem mão do direito de produzir na terra que possuem, devem ser indenizados.

Embora os investidores estejam intensificando os esforços para acabar com o desmatamento, poucos ainda agiram diante das ameaças de desinvestimento. A Nordea retirou a JBS, maior processadora de carnes do mundo, de seu portfólio em 2020, enquanto o Norges Bank, que administra o fundo de pensão estatal da Noruega, colocou o condicionador de carnes Marfrig em sua lista de observação.

A Storebrand já tem várias empresas de óleo de palma em sua lista de exclusão, incluindo a Cargill, a maior trader agrícola do mundo, que comercializa a commodity.

A legislação proposta na Europa e no Reino Unido para remover produtos ligados ao desmatamento das cadeias de suprimentos também provavelmente aumentará a pressão sobre os comerciantes que atuam como intermediários. O Brasil chamou o plano da UE de “protecionismo comercial”.

No final do ano passado, a França destacou o papel da Bunge e da Cargill como os principais importadores de soja brasileira de áreas com risco de desmatamento.

A destruição da Amazônia brasileira aumentou sob o presidente Jair Bolsonaro, a quem ambientalistas do governo acusam de não reprimir atividades como mineração de ouro selvagem e extração ilegal de madeira. Mais de 13.200 km2 de floresta tropical foram arrasados ​​nos 12 meses entre agosto de 2020 e julho passado, a maior taxa de desmatamento desde 2006, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado no site “Webringnet” [Aqui!].

Como a pecuária está destruindo a Amazônia? Uma reportagem especial da Bloomberg Green mostra

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Por Jessica Brice, com análise de dados e gráficos de Andre Tartar e Mira Rojanasakul,  Fotografia e vídeo de Jonne Roriz

Este artigo foi produzido com o apoio da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center

São Félix do Xingu é um Velho Oeste moderno invadido da selva amazônica brasileira por pessoas com pouco a perder. O gado supera as pessoas em quase 20 para 1 e, depois do anoitecer, as estradas de terra cheias de crateras se enchem de grandes plataformas que transportam os troncos gigantescos de árvores roubadas. É um lugar que os forasteiros não têm muitos motivos para visitar, onde os motociclistas não usam capacete porque as pessoas querem saber quem está indo e vindo. Quase todo mundo conhece todo mundo, especialmente Stanisley Ferreira Sandes.

Quatro meses por ano, Ferreira Sandes, 47, cruza os quase 85.000 quilômetros quadrados de São Félix em um Chevrolet quatro por quatro com um chapéu de cowboy no painel e um revólver sob o banco. Ele está em busca de 5.000 cabeças de gado para alimentar um oleoduto que bombeia carne bovina através de matadouros de propriedade da gigante brasileira de frigoríficos JBS SA e outros, depois para mercados de Miami a Hong Kong. Quanto mais rápido ele atingir sua marca, mais cedo ele vai para casa. Mas a concorrência é acirrada, o andamento lento. Ele visita três fazendas por dia – quatro, se ele se apressar – pegando 23 vacas aqui, 68 ali. Para compradores como Ferreira Sandes, não há lugar melhor do que São Félix do Xingu. Com 2,4 milhões de cabeças, abriga o maior rebanho do Brasil. “Se o que você procura é gado”, diz ele, “você não precisa ir a nenhum outro lugar”.

Mas o município que é tão grande quanto a Irlanda também reivindica um título mais notório. É a capital mundial do desmatamento. Entender como a indústria de carne bovina do Brasil e a destruição da floresta tropical estão inextricavelmente interligadas revela uma verdade que a JBS não reconhece: como o maior produtor de carne bovina da região, sua cadeia de suprimentos também está entre os maiores impulsionadores do desmatamento da Amazônia que o mundo já conheceu. Embora se venda como amiga do meio ambiente, a JBS abocanhou mais gado vindo da Amazônia do que qualquer outro frigorífico em um setor que é o principal culpado pelo fim da floresta tropical. Isso ajudou a levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão em que não é mais capaz de limpar o ar da Terra, porque grandes áreas agora emitem mais carbono do que absorvem. No final do ano passado,  na cúpula climática da COP26  em Glasgow, governos e instituições financeiras – incluindo investidores da JBS – assumiram ambiciosos compromissos verdes para alterar drasticamente seus modelos de negócios para salvar o meio ambiente. Com o desmatamento da Amazônia em alta em 15 anos, a JBS é um estudo de caso que ilustra o quão difícil é cumprir tais promessas.

Há mais de uma década, a JBS se compromete a livrar sua cadeia de suprimentos de animais nascidos ou criados em terras desmatadas. A Bloomberg analisou cerca de 1 milhão de registros de entrega que a JBS postou acidentalmente online para mostrar até que ponto sua pegada chegou à Amazônia nesse período. Uma viagem de 10 dias ao coração do país pecuário do Brasil mostrou com toda a facilidade e abertura as vacas das cadeias de abastecimento de terras desmatadas ilegalmente. A JBS diz que estabelece os mais altos padrões para seus fornecedores, mas está usando uma versão greenwashed da origem de um animal e trabalhando dentro de um sistema legal tão cheio de brechas que promotores, ambientalistas e até mesmo fazendeiros consideram isso uma farsa.

Solicitada a responder a este artigo, a JBS disse que “não tolera desmatamento ilegal”. A empresa sediada em São Paulo acrescentou que “mantém, há mais de 10 anos, um sistema de monitoramento geoespacial que utiliza imagens de satélite para monitorar seus fornecedores em todos os biomas” no Brasil.

Em um acordo de 2009 com promotores federais, a JBS e outros frigoríficos concordaram em não comprar animais de terras recém-desmatadas. Embora a JBS tenha intensificado seu monitoramento, também expandiu agressivamente na Amazônia e ainda não sabe de onde vem seu gado.

Para determinar o tamanho da pegada da JBS, a Bloomberg analisou as coordenadas de cerca de 1 milhão de embarques de gado. Desde então, a JBS restringiu a maioria dos dados, que abrangem cerca de 18 milhões de vacas enviadas para abatedouros nos estados de Rondônia, Pará, Acre, Mato Grosso e Tocantins entre 2009 e 2021. A Bloomberg comparou os dados com mais de 50.000 registros de terras e cerca de 520.000 alertas de desmatamento.

A base de fornecedores diretos da JBS na Amazônia dobrou para 16.900 em 2020, de cerca de 7.700 em 2009. Cumulativamente, ela comprou gado de cerca de 60.500 pecuaristas no período.

O número de abatedouros da JBS operando na Amazônia subiu para 21 agora, de 10 em 2009. A JBS diz que “não criou novos abatedouros”, em vez disso expandindo por meio de aquisições e trazendo padrões mais altos.

Os fornecedores da JBS estão entrincheirados em uma parte da Amazônia que foi fortemente arrasada para acomodar um rebanho crescente . Alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, mostram 8,2 milhões de hectares de corte raso desde 2009.

Os moradores de São Félix do Xingu marcam a passagem do tempo da mesma forma que os moradores da cidade – por tudo que mudou. Mas, em vez de falar sobre o que subiu – um prédio alto ou um shopping center – é o que foi derrubado. Algumas décadas atrás, era tudo floresta tropical; agora, a maior parte do que você vê dirigindo é pastagem. Quase nenhum gado pastava na terra; hoje, mais de um milhão de hectares de mata de São Félix foram substituídos pelos animais. Naquela época, o mundo não sabia da ligação catastrófica entre carne bovina e desmatamento. E então um promotor novato relutante chamado Daniel Azeredo desembarcou no estado do Pará, onde fica São Félix.

Vista aérea de um trecho de floresta seca e desmatada, escassamente pontilhada por algumas árvores.Terreno desmatado na estrada para São Félix do Xingu

O cargo estava longe de ser a primeira escolha de Azeredo, mas nenhum de seus colegas mais antigos do Ministério Público Federal queria. Em uma nação devastada pela violência e corrupção, o estado do Pará é particularmente sem lei. “Coloque desta forma”, diz o advogado de 40 anos, “quando cheguei em 2007, havia cerca de 30.000 a 40.000 incêndios individuais queimando em toda a Amazônia a cada ano, e os reguladores e a polícia não tinham ideia de quem era o responsável. ”

Assim que sujou as botas, viu que aquilo era obra da pecuária. Mais de 70% das terras desmatadas na Amazônia se transformam em pastagens, o primeiro passo de uma cadeia produtiva que está entre as mais complexas do mundo.

Em uma extremidade da cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira estão 2,5 milhões de pecuaristas, muitos em cantos distantes da Amazônia, sem escritórios governamentais, escolas ou mesmo telefones. Do outro estão compradores corporativos em 80 países, incluindo redes de fast-food, supermercados e fabricantes de sapatos e bolsas de couro. “No meio, estão os matadouros”, diz Azeredo. “Então eu pensei: ‘Bem, é isso. É disso que temos que ir atrás.’”

Em junho de 2009, ele fez. Uma investigação de dois anos culminou com promotores federais sinalizando matadouros comprando gado de terras desmatadas ilegalmente. O Greenpeace pegou o trabalho de Azeredo e publicou um relatório histórico que mudou a compreensão do mundo sobre o desmatamento. O grupo ativista criticou marcas globais por comprarem carne bovina e couro de um trio dos piores criminosos da Amazônia: JBS, Marfrig Global Foods SA e Bertin. Clientes corporativos ameaçaram boicotar se não limpassem suas cadeias de suprimentos, e a equipe de Azeredo elaborou um acordo e um cronograma para fazê-lo.

Sem nenhuma lei nos livros do Brasil que proíba especificamente a compra de bens de terras desmatadas, o acordo com os promotores estabelece as únicas diretrizes que os frigoríficos seguem na Amazônia – mas são voluntárias e, pela própria conta de Azeredo, muito fracas. A crescente pressão de investidores e clientes levou os grandes exportadores a assinarem o contrato, mas vários outros simplesmente recusaram e compraram abertamente seus animais de onde quisessem.

A JBS foi uma das primeiras a assinar, em julho de 2009. Mas também se expandiu agressivamente na Amazônia nos anos seguintes. Ela comprou rivais, incluindo a Bertin, para se tornar a maior produtora de couro do mundo, e atraiu o escrutínio de promotores e ambientalistas.

A empresa se sentiu injustamente apontada. Quatro executivos seniores da gigante da carne bovina disseram em entrevistas no ano passado, concedidas sob condição de anonimato, que o gado lavado e arrastado entre terras desmatadas e fazendas “limpas” é um problema de todo o setor. Dado que muitos frigoríficos não assinaram o acordo dos promotores, os padrões da JBS são muito mais altos do que muitos, dizem eles. A JBS diz que verifica dezenas de milhares de fazendas diariamente e bloqueou mais de 14.000 fazendas fornecedoras por não cumprirem suas políticas.

“Fazemos isso há mais de 10 anos”, disse Wesley Batista Filho, chefe de operações de carne bovina na América do Sul, em entrevista coletiva por vídeo no final de 2020 sobre o monitoramento da empresa. “Cem por cento dos nossos fornecedores do bioma cumprem esses critérios, ou seja, desmatamento zero”, disse Batista, 30 anos, neto do fundador.

A JBS fez tais declarações repetidamente, mas elas vêm com uma ressalva. A cadeia de suprimentos é dividida em dois grupos: fornecedores diretos e indiretos, e a JBS verifica apenas a legalidade dos primeiros, sem saber quase nada sobre os segundos, violando seus acordos. É como dizer que o dinheiro lavado está limpo porque o banco que fiscaliza a conta corrente não cometeu o crime. As instituições financeiras não são deixadas de lado tão facilmente; Os frigoríficos da Amazônia são.

Mesmo alguns dos maiores investidores da JBS parecem não perceber a distinção. “Não entendemos a polêmica”, disse João Carlos Mansur, diretor geral da REAG Investimentos, que é o quarto maior investidor da empresa, com participação de R$ 5,66 bilhões. “Eles já têm toda a sua cadeia produtiva mapeada, desde a origem do bezerro até o abate.”

Mas o gado no Brasil se move em média duas ou três vezes e até seis antes de ser abatido, de acordo com o Laboratório de Uso da Terra e Meio Ambiente Gibbs da Universidade de Wisconsin em Madison. A JBS monitora sistematicamente apenas o último rancho ou confinamento na vida de uma vaca.

Ferreira Sandes, o comprador de gado, começa sua manhã em São Félix do Xingu com um sanduíche de presunto e queijo grelhado e um telefone cheio de mensagens. Os fazendeiros locais lhe enviaram uma dúzia de vídeos de vacas em oferta. Ele observa os animais trotando pela tela, anota os lotes que lhe interessam, depois voa pela cidade até uma pequena fazenda no final de uma estrada de terra.

Em um pequeno lote cercado, 20 bovinos aguardam. São o que é conhecido em português como “gados magros”, vacas magras, com as costelas visíveis através da carne tão solta que balança quando andam. Ferreira Sandes fechou ontem o negócio com o grupo por cerca de 70 mil reais. Tudo o que resta agora é marcá-los. Grunhindo guturalmente — “Oooooy! Hooz-ah! Vaaaai!” — um corretor de gado conduz as vacas em fila única através de um curral estreito. Ferreira Sandes enfia um ferro em brasa incandescente pelas ripas de madeira. Uma fração de segundo no quarto traseiro, uma baforada de fumaça e uma letra T enegrecida para transporte está queimada acima da perna esquerda do animal, ao lado de meia dúzia de outras marcas. Cada um representa um passo diferente em sua jornada até agora.

Um homem com um chapéu de cowboy marca um gado entre as ripas de uma cerca.  Onde a marca toca a pele não está à vista, mas a fumaça sobe do couro do gado.Ferreira Sandes marca uma vaca antes do transporte

As vacas estão em sua casa atual há apenas alguns dias. O dono da fazenda, um homem ambulante que diz se chamar Tonico Nogueira, ganha a vida vendendo gado para outros. “Todos os dias, há vacas indo e vindo”, diz ele. “Eles chegam, ficam um ou dois dias e depois partem novamente em um caminhão.” Estações de passagem e intermediários como Nogueira são pontos-chave de discórdia para ambientalistas e pesquisadores que dizem ser o cerne da farsa que garante o fornecimento constante de animais de terras desmatadas. Para provar isso, grupos ativistas como o Greenpeace e pesquisadores de Wisconsin à Bélgica examinam centenas de milhares dos chamados GTAs – documentos de sanitização animal que autorizam o transporte de gado – para montar a jornada de uma vaca tão claramente quanto está marcada em sua pele.

O governo brasileiro mantém os documentos ocultos, citando preocupações com a privacidade. Alguns grupos ativistas acumularam bancos de dados por meio de web scrapes que estão em execução há anos usando uma técnica conhecida como força bruta para adivinhar aleatoriamente identificadores alfanuméricos com muitos caracteres. Armados com os bancos de dados, os ativistas às vezes podem conectar os pontos de uma fazenda desmatada onde um animal nasce ao matadouro onde morre.

Ferreira Sandes não pergunta onde esteve o gado antes de comprá-lo e diz que a papelada está sempre em ordem. Tudo o que ele precisa é de um GTA que liste o pequeno terreno de Nogueira como origem e a Fazenda Lageado, a fazenda 10 horas a sudeste para a qual Ferreira Sandes trabalha, como destino. Em um ou dois anos, uma vez que as vacas tenham ganho metade do peso corporal novamente e sua pele tenha ficado tensa sobre o excesso de carne e gordura, outro GTA será emitido para que possam ser enviados para o abate, e uma nova fazenda de origem documentada. Quando Batista Filho disse que 100% dos fornecedores da JBS estão livres de desmatamento, ele estava falando apenas dessa versão editada de sua viagem.

“Chamamos a nossa atenção que a JBS está usando (sua auditoria anual) como prova de que suas práticas totais de abastecimento de gado são livres de desmatamento”, diz DNV GL, ex-auditor da cadeia de suprimentos da JBS, em carta de julho de 2020 à JBS. “Dado que não houve rastreamento de fornecedores indiretos, a JBS não pode utilizar o laudo de avaliação como comprovação de boas práticas em toda a sua cadeia de suprimentos.”

A empresa disse que deixa claro em suas comunicações aos investidores e em declarações públicas que não está falando sobre toda a cadeia de suprimentos. “A JBS reconhece que as verificações da cadeia de suprimentos ainda não incluem fornecedores indiretos”, disse à Bloomberg. Na mesma coletiva de imprensa em que Batista Filho falou, ‘fornecedores de fornecedores’ são mencionados em várias ocasiões, disse a empresa.

Vista aérea de algumas dezenas de gado em um curral, sendo conduzido por três homens a cavalo.Vista aérea enquanto o gado é trotado para venda

Uma balsa laranja e marrom carrega três caminhões cheios de gado e levanta lodo no rio verde-esmeralda.Uma balsa transporta gado através de um rio

No estacionamento de Nogueira, a marcação termina em meia hora e Ferreira Sandes está de volta em seu caminhão, atravessando um rio imenso de balsa, dirigindo tão rápido por estradas de terra que a poeira vermelha torna impossível ver muito à frente. Quando seu dia terminar, 12 horas depois, ele terá visitado três outras fazendas, nenhuma das quais está de acordo com as regras e regulamentos do Brasil, de acordo com entrevistas e uma verificação cruzada das coordenadas GPS das propriedades e registros públicos. Um proprietário foi embargado pelo regulador ambiental do Brasil; o segundo foi sinalizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por desmatamento. Seu gerente falou livremente sobre mover o gado para um terreno ao lado para fazer uma venda. A proprietária do último rancho, uma matriarca independente chamada Divina, médicos abertamente os registros de vacinação com a ajuda de um funcionário do governo local e um balconista de uma loja de suprimentos para animais antes que ela possa emitir seu GTA.

Acordos paralelos, soluções alternativas, trapaças – é assim que sempre foi no país do gado, diz Divina. “Não temos governo, educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” 

É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento.

Se alguma das vacas que Ferreira Sandes compra vai ou não parar nos frigoríficos da JBS é impossível saber. A fazenda Lageado, assim como milhares de outros fornecedores diretos do ecossistema da empresa, é um caldeirão. Um estudo de 2020 publicado na revista Science descobriu que essa mistura significa que mais da metade de todas as exportações de carne bovina da região para a União Europeia podem ser contaminadas pelo desmatamento.

As leis e regulamentações anti-desmatamento no Brasil são cheias de nuances, e a JBS é uma empresa que vive nas letras miúdas. Os proprietários de fazendas na Amazônia estão legalmente autorizados a desmatar uma parte de suas propriedades, e aqueles que vão longe demais no corte de árvores antigas podem reiniciar as vendas de gado apelando ou prometendo replantar. Por décadas, o governo também fez vista grossa quando as terras da Amazônia são invadidas e arrasadas, estabelecendo mecanismos para que os posseiros possam vender gado legalmente e também perdoando os grileiros, concedendo-lhes títulos de propriedade. “Os grandes frigoríficos estão sempre reclamando de ter que liderar essas iniciativas, quando na verdade o governo deveria liderar”, disse Azeredo, procurador federal. Ele disse que a marcação do gado ao nascer seria a coisa mais próxima de uma bala de prata e não custaria muito, mas tanto as empresas quanto o governo resistiram a esse plano. “Adoraria forçar”, disse Azeredo, “mas, como não há lei, não posso”.

A JBS disse que segue escrupulosamente as regras para fornecedores diretos e é rápida em argumentar que muitas das reivindicações de manchetes contra ela não são realmente ilegais. Mas quando todos os casos podem ser tão facilmente defendidos pela lei brasileira, surge a questão mais ampla se um frigorífico do tamanho da JBS, operando em uma região tão sem lei quanto o Norte do Brasil, pode alegar de boa fé que sua cadeia de suprimentos está perto de ser livre do desmatamento.

Vemund Olsen, analista sênior de sustentabilidade da Storebrand Asset Management, que tem mais de US$ 100 bilhões sob gestão e detinha ações da JBS até que a empresa se envolveu em um escândalo de corrupção em 2018, disse que não. “Todo ano, saem relatórios que documentam gado de áreas desmatadas entrando na cadeia de suprimentos da JBS”, disse ele. “Eles não deveriam precisar da mídia ou das ONGs para fazer esse trabalho para eles.”

Clientes e investidores  estão cada vez mais sinalizando que não estão confortáveis ​​com a pegada amazônica dos maiores frigoríficos do Brasil, mesmo que esteja dentro da lei. Em dezembro, as redes de varejo europeias Sainsbury’s e Carrefour disseram que restringiriam as compras de carne bovina do Brasil por causa de ligações ao desmatamento.

No final de 2020, a JBS novamente prometeu rastrear toda a cadeia de fornecedores indiretos, desta vez usando um aplicativo construído na tecnologia blockchain para registrar os documentos de transporte do GTA. Analistas financeiros e alguns investidores elogiaram a medida. “Quando eles elegem algo como prioridade máxima, eles entregam”, disse Pedro Leduc, chefe de pesquisa da BLP Asset, na época. Mas para observadores de longa data da Amazônia, como Azeredo e ambientalistas, parecia muito com as promessas que a gigante da carne bovina fez uma década antes.

Em uma tarde abafada no início de outubro, alguns dos maiores pecuaristas do estado do Pará se reúnem em um parque de exposições para uma feira de quatro dias de painéis industriais, música e um leilão de gado. Em um pequeno estande entre vendedores de equipamentos agrícolas, Lorena Geyer, analista de sustentabilidade da JBS, prepara uma apresentação sobre as iniciativas de monitoramento da JBS. Geyer, 27, dirige um JBS Green Office. Como os auditores da empresa, ela nunca fez a viagem para o frigorífico através do campo de gado para conversar com os fazendeiros em suas fazendas. Nem os outros nove analistas do Green Office da JBS na Amazônia, que estão espalhados por uma região maior que a Europa continental. Em vez disso, eles se sentam ao lado de compradores de gado em uma mesa dentro de um abatedouro da JBS. 

Toda vez que um fazendeiro entra em um matadouro para vender gado, Os compradores da JBS verificam suas propriedades em relação aos registros de desmatamento emitidos por órgãos governamentais. Quando um fazendeiro não faz o corte, Geyer intervém para ajudá-los a descobrir como sair das listas negras do governo para que possam começar a vender legalmente. “A abordagem da JBS é incluir fornecedores e não excluí-los”, diz ela, pecuarista do parque de exposições, acrescentando que a JBS pode dar suporte para que a documentação esteja em ordem. “Também é do nosso interesse tê-lo em nossa cadeia de suprimentos – precisamos dessa matéria-prima.”

A legalização de fornecedores ajudando-os a arquivar a documentação é o cerne da estratégia da JBS para limpar sua cadeia de suprimentos. Isso não é o mesmo que eliminar o desmatamento. “Consumidores e governos se unindo não querem ilegalidade zero – eles querem desmatamento zero”, disse Holly Gibbs, que dirige o laboratório de uso da terra na Universidade de Wisconsin. “Há uma grande diferença.”

Editor: Ethan Bronner,  Com a ajuda de: Brittany Harris e Jin Wu
Metodologia

A partir de 2020, a divisão de carne bovina Friboi da JBS passou a permitir que os clientes rastreiem a carne por meio de um site de “Garantia de Origem” . A carne comprada em supermercados inclui no rótulo uma data de abate e um identificador de matadouro conhecido como SIF, que o consumidor pode acessar no site para ver o nome e a localização da fazenda de origem do corte de carne.

Para investigar a cadeia de suprimentos da JBS, a Bloomberg compilou uma lista de abatedouros regionais identificados nos relatórios anuais da JBS de 2009 a 2021. Isso abrange o período em que o compromisso anti-desmatamento da JBS entrou em vigor.

Os números do SIF para esses matadouros foram obtidos de fontes públicas. A Bloomberg usou esses números para verificar no site do Friboi quaisquer dados disponíveis sobre carne bovina de 1º de agosto de 2009 a 30 de setembro de 2021. Isso resultou em cerca de 1 milhão de registros de embarque, cada um representando uma entrega de gado de uma fazenda brasileira para frigorífico operado pela JBS.

A Bloomberg identificou 35 abatedouros, alguns dos quais a JBS possuía, mas foram fechados, e outros desde então. As instalações estavam concentradas em cinco estados amazônicos: Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Os frigoríficos adquiriram carne bovina de fazendas desses estados, bem como dos estados vizinhos do Amazonas, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

Os registros de entrega que a Bloomberg analisou incluíam a data de embarque, número do lote, coordenadas de coleta, nome da fazenda, nome do produtor e um número de identificação fiscal do produtor conhecido como CPF para pessoas físicas ou CNPJ para pessoas jurídicas. A JBS reconheceu que partes das informações foram publicadas online de forma não intencional. Após saber que os dados eram públicos, a JBS o restringiu no final do ano passado. A Bloomberg reteve uma cópia de todos os logs originais analisados.

Como parte de seus acordos anti-desmatamento com o Ministério Público Federal, os frigoríficos são obrigados a consultar mapas de propriedades encontrados em cartórios conhecidos como CARs, que significa Cadastro Ambiental Rural, ou Cadastro Ambiental Rural. No entanto, o acesso público aos documentos do CAR não é uniforme em todas as regiões, com informações detalhadas sobre os proprietários restritos por muitos estados. Ambientalistas e pesquisadores também alegam que os CARs são fáceis de manipular para excluir o desmatamento porque os limites das propriedades são autodeclarados e não estão sujeitos à confirmação do governo.

Para obter uma imagem mais precisa, a Bloomberg executou os números de identificação fiscal nos registros de entrega da JBS disponíveis por meio de um banco de dados nacional de terras conhecido como Sigef . Quase um terço dos 56.000 fornecedores da JBS conhecidos pela Bloomberg foram encontrados no banco de dados do Sigef, retornando arquivos de mapeamento geoespacial conhecidos como shapefiles em mais de 50.000 lotes, cobrindo mais de 80.000 milhas quadradas. Para as fazendas visitadas pessoalmente, foram consultados os CARs e o banco de dados do Sigef para obter os limites das propriedades. Embora longe de um quadro completo, a análise fornece uma noção mais precisa da escala das fazendas na cadeia de fornecimento direto da JBS, bem como uma indicação de outras propriedades pertencentes a esses fornecedores.

Para entender melhor a relação da empresa com o desmatamento nos últimos 13 anos, a Bloomberg comparou a rede acima de fornecedores diretos da JBS com cerca de 500.000 alertas de desmatamento  chamados Prodes, que foram emitidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, entre 2009 e 2020 . Também foram comparados com cerca de 25.000 embargos emitidos pelo órgão regulador ambiental do país, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, conhecido como Ibama, entre 2010 e 2019. Estes últimos foram obtidos por meio de um pedido de liberdade de informação.

De acordo com o INPE, cada alerta do Prodes se refere ao período de 12 meses até 31 de julho do ano listado, com resultados preliminares – cobrindo pelo menos 90% do desmatamento observado – divulgados até dezembro do mesmo ano.

A Bloomberg estimou o número total de gado assumindo que cada lote representa uma carga média de 18 vacas. Essa é uma suposição padrão de pesquisadores que analisam os documentos de transporte de gado, conhecidos como GTAs, há uma década, incluindo o Gibbs Lab da Universidade de Wisconsin. A Bloomberg pediu à JBS que confirmasse essa suposição, e a empresa se recusou a comentar.

color compass

Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pela Bloomberg Green [Aqui! ]. A reportagem em inglês traz gráficos e animações que não puderam ser incluídas nesta postagem.

Ecocídio no Cerrado: inundações severas no Brasil como resultado do agronegócio

cerrado okozid

Por Norbert Suchanek, Rio de Janeiro, para o JungeWelt

Semanas de chuva contínua e três rompimentos de barragens inundaram grande parte do centro e leste do Brasil e já causaram pelo menos 45 mortes. Mais de 133 mil pessoas perderam suas casas nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia, Pará, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A Bahia é o estado mais atingido, com pelo menos 24 vítimas mortais das enchentes, cerca de 100.000 pessoas forçadas a abandonar suas casas.

A mídia corporativa e os políticos dos estados afetados culpam as chuvas excepcionalmente fortes por esta época do ano e pelas mudanças climáticas globais. Mas isso é apenas meia verdade. O desastre da inundação também é caseiro.

De fato, o desmatamento contínuo das savanas do cerrado do planalto central brasileiro e das altas planícies do Nordeste, e sua conversão em monoculturas em grande escala, particularmente nas plantações de soja, perturbaram gravemente o equilíbrio hídrico da região.

No Brasil, o Cerrado é conhecido como o “Berço das águas”, pois o bioma abastece oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil e grandes rios como o Xingu, o Rio Tocantins e o Rio São Francisco. Mas mais de 50% dos originalmente cerca de dois milhões de quilômetros quadrados do Cerrado já foram desmatados. Somente entre agosto de 2020 e julho de 2021, outros 8.531 quilômetros quadrados foram sacrificados para agronegócios, segundo os últimos números do instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento florestal via satélite. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental  (IPAM) analisaram o  desmatamento na região da frente agrícola do Matopiba que é formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. De acordo com estatísticas agrícolas oficiais, a área de soja no Matopiba se multiplicou de cerca de 600.000 hectares em 1995 para cerca de 8 milhões de hectares hoje. E esses são os estados que foram mais atingidos pelas recentes enchentes.

O ecossistema do Cerrado, extremamente rico em espécies, é composto em grande parte por plantas com um sistema radicular complexo e profundo que se estende até 20 metros de profundidade. Eles são adaptados à alternância extrema de chuvas fortes na estação chuvosa e períodos prolongados de seca. Apenas um terço das árvores e arbustos são visíveis na superfície. Dois terços dessas plantas são subterrâneas e podem, assim, reter grandes quantidades de água da chuva e equilibrar o balanço hídrico. Não é o caso das monoculturas que estão se espalhando na região, como a soja ou o milho com suas raízes superficiais. Sua capacidade de armazenamento de água é significativamente menor.

Quando chove, a maior parte da água, enriquecida com solo superficial e  agrotóxicos, vai direto para os rios. Um estudo publicado em 2014 pela Universidade de São Paulo mostrou um aumento de cinco vezes no escoamento superficial devido a monoculturas ou pastagens de gado na região do Cerrado. Nas fases sem cobertura do solo, ou seja, após a colheita e até a semeadura, o escoamento superficial chega a ser até 20 vezes maior do que em áreas de cerrado não desmatadas. O aumento das inundações e assoreamento dos reservatórios são as consequências “naturais”. Acrescente-se a isso a crescente impermeabilização do solo devido à construção de estradas em andamento para o transporte da safra de soja aos portos de exportação e às cidades que se tornam cancerígenas devido ao êxodo rural – e a catástrofe é perfeita.

inundaçãoPessoas em uma rua inundada no sudeste do Brasil, Foto: dpa/Eugênio Sávio

“Se somarmos os efeitos das mudanças climáticas globais ao avanço do cultivo da soja em áreas de alto valor ecológico, vemos que as situações catastróficas na Bahia, Tocantins e Piauí não são nada naturais”, comenta o geógrafo  Marcos Pędłowski, do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense em seu blog: “O que estamos presenciando hoje é uma combinação particularmente drástica de eventos climáticos extremos e a consolidação de um modelo agrícola predatório que empurra os mais pobres para áreas periféricas onde normalmente não há infraestrutura urbana”.

Pędłowski acrescenta que “curiosamente, a cobertura das corporações midiáticas brasileiras sobre os tsunamis nas cidades direta ou indiretamente afetadas pela safra de soja no Matopiba oculta essas conexões e apenas oferece aos leitores ou telespectadores uma narrativa de catástrofe em que apenas o tema das mudanças climáticas é discutido, e isso apenas vagamente mencionado.”

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].