Science mostra que há mais degradação florestal do que desmatamento na Amazônia brasileira entre 1992 e 2014

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O artigo intitulado “Long-term forest degradation surpasses deforestation in the Brazilian Amazon” que foi publicado hoje na revista Science, e que tem como primeiro autor o professor Eraldo Matricardi do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, demonstra que o processo de degradação florestal na Amazônia brasileira afetou uma área maior do que o desmatamento no período de 1992 a 2014.

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O artigo mostra que a área da Amazônia brasileira afetada pela degradação florestal – onde a biomassa da floresta é perdida, mas não completamente convertida para outro uso – é maior do que a área afetada pelo desmatamento. De acordo com os resultados do estudo publicado hoje pela Science, entre 1992 e 2014, a área total de floresta degradada foi de 337.427 quilômetros quadrados, ante 308.311 quilômetros quadrados que foram  desmatados.

Estes resultados têm implicações para as emissões globais de gases de efeito estufa e perda de espécies, entre outros fatores. A degradação florestal é mais difícil de medir e monitorar do que o desmatamento, embora várias iniciativas ambientais internacionais, como a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apontem a restauração de florestas degradadas como um foco principal.

Atividades que causam degradação florestal, tais como queimadas, extração seletiva de madeira e fragmentação florestal podem ser difíceis de detectar sob um dossel florestal existente. A análise das imagens de satélite feitas pela equipe liderada por Eraldo Matricardi mostram casos onde a degradação persistiu e voltou a ocorrer ao longo do período de 25 anos. Esse é um resultado “bom e ruim”, pois apesar da floresta não ter sido completamente nesses locais, houve uma inevitável perda dos serviços ambientais (ver abaixo a progressão temporal dos diferentes tipos de degradação florestal na Amazônia brasileira ao longo do período estudado).

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Durante o período coberto pelo estudo, as políticas brasileiras contribuíram para a redução do desmatamento, processo que se caracteriza pela conversão das florestas é para um uso inteiramente novo,  tais como pastagem, observaram os pesquisadores. Mas, de 2006 a 2010, a taxa média anual de degradação florestal por extração e queima era quase igual às taxas de desmatamento, e em 2014 as taxas de degradação haviam excedido as taxas de desmatamento.

Uma consequência deste estudo será a necessidade de ser fazer uma mudança na narrativa na situação da cobertura florestal amazônica, especialmente no ponto em que se diz que ainda existem 80% de florestas intocadas na Amazônia brasileira. É que usando formas conservadoras de estimativas, este estudo chegou a um cálculo de que algo em torno de 10% da área da Amazônia brasileira possui a presença de alterações significativas causadas por diferentes formas de degradação florestal.

Quem desejar  acessar este artigo no site da Science, basta clicar [Aqui!].

A pressão internacional desaceleraria o desmatamento na Amazônia

Ao lado da pressão, devem-se buscar soluções de longo prazo que salvaguardem a biodiversidade da Amazônia e o futuro das pessoas que nela vivem de forma sustentável.

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Por Mikko Pyhälä,  Pertti Salolainen  e Ilari Sääksjärvi para o Helsingin Sanomat 

O editorial do Helsingin Sanomat intitulado “O impacto climático dos incêndios florestais na Amazônia” descreveu um desafio importante, mas irreal, sobre as implicações do acordo comercial UE-Amazônia Mercosul, afirmando que “a União Europeia pode influenciar os governos do Brasil e de outros países amazônicos com o acordo comercial do Mercosul do ano passado , que inclui obrigações em matéria de clima e ação ambiental”.

Em 28 de junho de 2019, a UE e o Mercosul publicaram um projeto negociado conjuntamente, que entrará em vigor assim que as alterações propostas pelas partes forem acordadas e o acordo finalizado tiver sido ratificado pelos parlamentos das partes.

O projeto ainda não rege a conduta das partes. A mídia noticiou que o Brasil está se comportando de forma que viola, em particular, o texto do anteprojeto sobre comércio e desenvolvimento sustentável. Pelo menos os chefes de Estado da Holanda, Áustria, França e Alemanha pediram que o projeto fosse alterado. Segundo eles, a política do presidente brasileiro Jair Bolsonaro não corresponde aos princípios já negociados.

O projeto não define claramente como as sanções podem ser impostas por quebra de contrato. As divergências precisam ser consultadas e painéis de especialistas estabelecidos, o que leva tempo e não necessariamente leva a resultados. Quando o acordo foi negociado, aparentemente não se podia imaginar o quão descaradamente um estado poderia violá-lo. Estudiosos brasileiros já falaram até em “homicídio do próprio país”.

Jair Bolsonaro tirou poderes e fundos de agências ambientais e indígenas. Ele encorajou os proprietários de terras a invadir áreas protegidas legais e limpar florestas em áreas indígenas onde os incêndios agora estão intensos. De acordo com o Greenpeace, os incêndios em áreas protegidas aumentaram em mais de 80% ao ano.

Bolsonaro proibiu agências governamentais de relatar incêndios florestais, e o Conselho Amazônico do país é formado apenas por soldados. O Observatório Terrestre da NASA da agência espacial dos EUA desenvolveu um rastreamento preciso dos incêndios por satélite e levantou preocupações em 20 de agosto de que a pior devastação ambiental do século 21 na Amazônia poderia ser iminente.

A Finlândia também deve exigir que o projeto seja alterado. O objetivo deve ser que a UE exija o congelamento dos benefícios comerciais em caso de violação grave do contrato. A UE também deve persuadir a China a exigir obrigações climáticas e ambientais do Brasil, já que os chineses compram a maior parte da produção agrícola do Brasil oriunda da destruição da floresta tropical.

A pressão internacional é uma forma de curto prazo de desacelerar o desmatamento. Paralelamente, devem ser buscadas soluções de longo prazo que salvaguardem a biodiversidade da Amazônia e o futuro de seus habitantes de forma sustentável.

* Mikko Pyhälä, é Embaixador emérito e escritor, Pertti Salolainen é ex-ministro de Comércio Exterior da Finlândia, além de fundador e presidente honorário do WWF Finlândia, e Ilari Sääksjärvi é professor de Pesquisa em Biodiversidade da Universidade de Turku, Finlândia.

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Este texto foi originalmente escrito em finlandês e publicado pelo jornal Helsingin Sanomat  [Aqui!].

A loteria do carbono: A cegueira da Europa para a pegada de carbono da carne brasileira

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O excesso de dependência da Europa na carne bovina do estado de Mato Grosso em particular, e a ausência de due diligence por parte dos produtores e comerciantes de carne, deixa a Europa não apenas cegamente cúmplice na crescente crise de desmatamento do Brasil, mas também exposta a níveis significativos de emissões embutidas nas importações.

Até 20,8 milhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) poderiam ter sido emitidos no Brasil para produzir carne bovina importada por apenas cinco países europeus em 2019, equivalente à pegada climática anual de 2,4 milhões de cidadãos da UE – o dobro da população de Bruxelas.

Estimativas ainda mais conservadoras sugerem que as emissões poderiam ter chegado a 2,6 a 4,9 milhões de toneladas de CO2e (tCO2e), equivalente à pegada anual de até 465.000 europeus.

As descobertas fazem parte de uma nova análise do Earthsight, A Loteria do Carbono: Estimativa das pegadas de carbono embutidas nas importações europeias de carne bovina brasileira , e destacam como os importadores devem tomar medidas concretas para obter carne bovina não ligada ao maior fator de contribuição na intensidade de carbono da produção de carne bovina – desmatamento.

Enquanto as emissões globais de GEE deverão cair este ano devido à desaceleração da atividade econômica após a pandemia de Covid-19, o Brasil deverá contradizer essa tendência e ver um aumento entre 10 e 20 por cento, principalmente por causa dos níveis crescentes de desmatamento.

O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado a cada ano desde 2017, e 30% em 2019. As desmatamentos nos primeiros seis meses de 2020 aumentaram 24% em comparação com o mesmo período de 2019, atingindo 2.544 km², a segunda maior quantidade em qualquer semestre desde 2010. 2020 viu o pior início da temporada de incêndios no Brasil em uma década , com as queimadas no bioma Amazônia correndo o risco de ultrapassar as de 2019, que aumentaram 85% em 2018.

O desmatamento responde por quase metade do total de emissões de GEE do Brasil, com a agricultura e pecuária, atividades intimamente ligadas à perda de floresta, respondendo por mais um quarto. Em 2018, a pecuária foi responsável por quase um quinto de todas as emissões no Brasil – se o desmatamento para a pecuária for levado em conta, essa participação sobe para 45 por cento.

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Calculando o carbono

Quantificar a verdadeira escala das emissões de carbono atreladas às importações europeias de carne bovina brasileira é um grande desafio. Há poucas evidências de que produtores ou importadores verifiquem consistentemente se a carne que comercializam vem de gado vinculado ao desmatamento ou de pastagens degradadas e de alta emissão, enquanto o envolvimento de fornecedores indiretos desconhecidos permanece irrestrito na indústria frigorífica brasileira.

No cálculo da faixa de emissões possíveis, a pesquisa ilustra a falta de transparência do setor e os riscos que os importadores correm ao comprar carne bovina do Mato Grosso e de outros estados com alto índice de desmatamento.

Embora o Trase , uma plataforma de transparência da cadeia de suprimentos, e estudos anteriores tenham estimado a pegada de carbono embutida nas importações de carne bovina brasileira da Europa, a análise da Earthsight fornece estimativas sobre o comércio mais recente usando métodos diferentes. As estimativas da Earthsight não se limitam às emissões do desmatamento, mas também incluem as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) de todo o ciclo de produção de carne bovina, incluindo mudança no uso da terra, insumos agrícolas, pecuária, rebanho e emissões de solo, abate e transporte até o ponto de exportação.

A análise se baseia em estudo recente do Instituto Escolhas, que calculou a pegada média de emissões da carne bovina produzida em cada estado brasileiro ao longo de uma década, inclusive para diferentes tipos de sistemas representativos de manejo de rebanho e qualidades de pastagens.

O Instituto Escolhas estimou que a pegada de carbono média nacional da produção de carne bovina, entre 2008 e 2017, variou de 25kg a 78kg CO2e (emissões de carbono equivalente) por quilo de carne bovina, dependendo do desmatamento. Em contraste, o CO2e médio por quilo de carne bovina produzida na UE foi estimado em cerca de 22 kg.

A análise da Earthsight empregou amplamente as estimativas estaduais do Instituto Escolhas em uma variedade de manejo de rebanho e tipos de pastagem, incluindo médias estaduais e pastagens degradadas e estáveis.

A combinação das estimativas de emissões médias estaduais produzidas pelo Instituto Escolhas com os dados das exportações brasileiras possibilitou o cálculo das pegadas de carbono embutidas nas remessas recebidas pelos países selecionados e suas empresas importadoras.

carne 3As importações europeias de carne bovina brasileira estão expostas ao enorme desmatamento e ao risco de emissões de carbono da pecuária. Crédito: Shutterstock

Os cinco maiores países importadores da Europa

Quase toda a carne bovina (96 por cento) enviada para a Europa veio de instalações em apenas cinco estados: Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso foi o maior fornecedor estadual para os cinco países, respondendo por 33% do total.

Os cinco principais países de destino da carne bovina desses cinco estados – Itália (29.650 toneladas), Reino Unido (28.030 toneladas), Holanda (22.084 toneladas), Espanha (9.466 toneladas) e Alemanha (8.060 toneladas) – não se classificam na mesma ordem ao avaliar as emissões de carbono que essas importações podem ter produzido.

As importações para a Itália tiveram a maior pegada de carbono incorporada média – sem ou com desmatamento – variando de 244.440 a 1,1 milhão de tCO2e ao usar estimativas de emissões médias baseadas no estado. A Itália foi seguida pela Holanda (162.407 a 633.124 tCO2e), Espanha (94.208 a 451.298 tCO2e), Alemanha (63.364 a 224.623 tCO2e) e o Reino Unido (50.031 a 152.294 tCO2e).

A estimativa mais alta combinada de 2,6 milhões de tCO2e é equivalente às emissões de carbono de 2018 de 298.148 europeus. As exportações de Mato Grosso, lar de áreas da Amazônia e do Cerrado e o estado mais desmatado que domina o comércio para a Europa, sozinhas respondem por 2,2 milhões de tCO2e, ou 85 por cento.

A pole position da Itália não se deve apenas a seus grandes volumes de importação, mas também – e principalmente – sua dependência da carne bovina de Mato Grosso, que tem estimativas de emissões médias consideravelmente mais altas por quilo de carne bovina do que os outros quatro estados fornecedores de importações europeias. Quase metade de todas as importações italianas (14.279 toneladas) vêm do estado.

Se toda a carne importada para a Europa fosse derivada exclusivamente de pastagens estáveis ​​(pastagens de baixa produtividade sem capacidade de remover carbono da atmosfera) em cada estado, a média superior de emissões embutidas totais (quando o desmatamento está envolvido) sobe para 4,9 milhões de tCO2e – quase o dobro ao aplicar as médias estaduais. Esta é a pegada climática de 465.000 europeus.

No entanto, se 35% da carne bovina dos frigoríficos mato-grossenses veio de gado criado em pastagens degradadas (pastagens de alta emissão devido à degradação do solo e que estão mais associadas a áreas recentemente desmatadas) e o restante de Mato Grosso e dos outros quatro estados foram estimados usando as médias estaduais, a pegada de carbono total embutida nas importações europeias de carne bovina brasileira pode chegar a 20,8 milhões de tCO2e. Isto é equivalente à pegada climática anual de 2,4 milhões de cidadãos da UE.

Esse aumento dramático ocorre porque um quilo de carne bovina produzida em Mato Grosso a partir de gado criado em pastagens degradadas associadas ao desmatamento gera a impressionante quantidade de 1.695 kg CO2e.

Os resultados mostram que o volume de comércio raramente determina as pegadas de carbono, mas que a origem do gado, as ligações com o desmatamento e os tipos de pastagem são os fatores mais importantes. Os importadores com menores volumes de comércio podem ter pegadas de carbono desproporcionalmente altas por causa de suas práticas de abastecimento.

Pegadas de carbono da empresa

Tal como acontece com a análise a nível de país, as emissões embutidas estimadas da Europa estão dramaticamente concentradas nas importações de relativamente poucas empresas.

Ao considerar as estimativas baseadas em médias estaduais, apenas duas empresas (Silca e JBS) respondem por quase um quarto das emissões estimadas, oito empresas são responsáveis ​​por mais da metade e 27 respondem por 80 por cento.

Algumas empresas europeias têm pegadas de carbono incorporadas mais altas do que alguns países destinatários.

Quando calculada usando as emissões médias superiores em nível estadual, a empresa italiana Silca tem uma pegada maior (375.000 tCO2e) do que a Alemanha (224.623 tCO2e) ou o Reino Unido (152.294 tCO2e). O grupo brasileiro JBS (221.538 tCO2e), o conglomerado alemão de alimentos Tonnies (199.411 tCO2e) e a empresa italiana Bervini Primo (181.660 tCO2e) também têm emissões embutidas mais altas do que o Reino Unido.

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Quando calculada com base em toda a carne importada proveniente de gado criado em pastagens estáveis ​​associadas ao desmatamento, a pegada de carbono estimada de empresas individuais aumenta consideravelmente. Com essa medida, as emissões de carbono embutido da JBS quase triplicam, colocando a empresa acima da Silca como a importadora com maior pegada embutida.

Da mesma forma, se as importações da JBS de Mato Grosso também fossem todas derivadas de pastagens degradadas ligadas ao desmatamento, suas importações para a Europa incorporariam emissões 22 vezes maiores (5 milhões de tCO2e) do que abaixo da média estadual superior nos cinco estados.

Alguns dos maiores importadores por peso estão fora do ranking das 10 pegadas de carbono médias. Os exemplos mais marcantes são a Marfrig (segundo maior importador por peso e entre os três maiores frigoríficos do Brasil), Princes (Reino Unido) e Bolton Group (Itália). Essas empresas, embora sejam grandes importadoras, podem ter uma classificação mais baixa em emissões de carbono incorporado porque quase toda a carne bovina é proveniente de frigoríficos de São Paulo e do Rio Grande do Sul.

Esses estados apresentam níveis significativamente mais baixos de desmatamento – e, portanto, menores emissões de carbono por perda florestal – em comparação com Mato Grosso e os estados do Cerrado de Goiás e Mato Grosso do Sul.

No entanto, é improvável que a carne embarcada dos estados do sul esteja livre de desmatamento, já que parte desse gado pode vir de estados do Cerrado ou bioma amazônico.

Além disso, Princes e Bolton são grandes compradores de carne enlatada e outros tipos de carne enlatada. As instalações de exportação no sul provavelmente fornecem parte da carne fresca que eles transformam nesses produtos altamente processados ​​de matadouros mais ao norte, que estão mais intimamente ligados a fazendas na Amazônia ou Cerrado.

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Além disso, embora as empresas que importam exclusiva ou predominantemente de São Paulo e do Rio Grande do Sul possam parecer expostas a emissões embutidas mais baixas, se as pastagens estáveis ​​ligadas ao desmatamento desempenharem um papel importante em suas cadeias de abastecimento, suas emissões podem aumentar dramaticamente. É exatamente isso que se observa com Marfrig, Princes e Bolton.

Gigantes do frigorífico brasileiro

A forte ligação entre o desmatamento e a quantidade de carbono embutido na produção de carne bovina é preocupante não só por causa de suas consequências ambientais, mas também por causa dos níveis de ilegalidade que provavelmente estão contaminando as cadeias de abastecimento de carne. Um relatório publicado no início deste ano pela MapBiomas mostrou que 99 por cento de todo o desmatamento ocorrido no Brasil em 2019 era ilegal.

As mesmas empresas brasileiras que abatem gado e exportam carne bovina também estão entre os maiores importadores da Europa. Isso poderia facilitar o cumprimento das leis de due diligence, uma vez que essas empresas já teriam dados relacionados, mas também poderia levantar questões sobre a confiabilidade de tais sistemas se as empresas fiscalizassem suas próprias práticas, especialmente considerando o histórico dessas empresas no Brasil.

JBS, Minerva e Marfrig , os três maiores exportadores e entre os principais importadores da Europa, há anos estão vinculados ao desmatamento ilegal na Amazônia e em outros lugares e são repetidamente criticados por não conseguirem monitorar seus fornecedores indiretos.

A Earthsight pediu às 10 empresas que importam os maiores volumes de carne bovina para a Europa, e a várias outras notáveis, que detalhem as descobertas do monitoramento das emissões de carbono que realizam. Apenas Marfrig respondeu. A empresa forneceu uma pegada de carbono estimada para sua carne bovina variando de 48 a 99kg CO2e / kg carne bovina. A aplicação dessas estimativas em relação às importações da Marfrig em 2019 (10.145 toneladas) revela uma gama de pegadas de carbono embutidas significativamente superior às estimativas calculadas para a empresa a partir dos valores do Instituto Escolhas.

A Marfrig disse que “busca estreitar a relação entre os produtores e a Marfrig, incentivando a adoção de boas práticas pecuárias, que contribuam para o desenvolvimento sustentável das fazendas e garantam uma produção mais segura e com menor impacto ambiental”. A empresa acrescentou que monitora a pegada de carbono de sua produção de carne bovina com base em métodos internacionalmente reconhecidos.

carne 6Abatedouro Mafrig em Mato Grosso, Brasil. Crédito: Alamy

A Europa vai agir?

Cerca de 25 por cento das  emissões de carbono embutidas nos produtos  consumidos na Europa são emitidas no exterior. À medida que a UE embarca em seu New Deal Verde e busca finalizar o acordo comercial Mercosul-UE que aumentará dramaticamente o comércio com o Brasil, garantir que as emissões associadas ao consumo europeu não sejam terceirizadas para outros países será crítico.

Até o momento, não há requisitos para que as empresas coloquem carne brasileira (ou qualquer produto agrícola de qualquer país) nos mercados europeus para realizar due diligence sobre o desmatamento ou impactos ambientais mais amplos desses produtos, muito menos para parar de fornecê-los onde os impactos e riscos envolvidos são compreendidos e considerados inaceitáveis.

Enquanto os compradores europeus não tiverem sistemas adequados de devida diligência, eles correm o risco de comprar de empresas ligadas ao desmatamento que geram enormes emissões climáticas.

A UE está emitindo sons positivos sobre a introdução de due diligence obrigatória para desvincular o desmatamento do consumo de commodities agrícolas e se afastar das  promessas corporativas voluntárias falhas  atualmente em jogo. 

Qualquer  lei deve ser robusta o suficiente  para garantir transparência e responsabilidade no setor.

O Reino Unido também anunciou recentemente sua intenção de aprovar leis exigindo que as empresas exerçam a devida diligência na pegada de desmatamento de produtos agrícolas usados ​​e comercializados no Reino Unido, incluindo carne bovina. No entanto, o modelo proposto parece lamentavelmente inadequado, pois se aplicaria apenas ao desmatamento ilegal, não se aplicaria a todas as empresas que importam commodities florestais de risco usadas no Reino Unido e enfraquece as iniciativas existentes e os compromissos governamentais já em vigor. 

Sistemas de rastreabilidade e dados relevantes sobre o uso da terra já existem no Brasil que poderiam fornecer uma due diligence abrangente, mas uma mistura de barreiras regulatórias e a falta de incentivos impediram que fossem usados ​​com efeito total para desvincular as cadeias de abastecimento de carne da destruição ambiental.

Nenhum sinal de mercado – seja dentro ou fora do Brasil – existe atualmente para incentivar a integração dos sistemas e capacidades de rastreabilidade existentes no Brasil. Até que isso aconteça, parece que a loteria do carbono e do desmatamento embutidos nas importações de carne bovina brasileira pela Europa persistirá.

Para ver os resultados completos da pesquisa, consulte o  relatório em PDF . 

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Earthsight [Aqui!].

O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

No Dia da Amazônia, Salles continua passando sua boiada

Hoje, 5 de agosto, é celebrado o Dia da Amazônia. O que deveria ser um dia de celebração da preservação da maior área de florestas tropicais do planeta, acaba servindo para marcar e denunciar a situação catastrófica que reina naquela região sob o comando de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão e Ricardo Salles.

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Falando em Salles, esse dia 05 de agosto certamente celebrado por ele como um dos dias da Amazônia em que conseguiu atravessar a sua boiada sobre o conjunto de leis que deveriam proteger os biomas amazônicos.

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Somente neste 05 de agosto ocorreram 2494 incêndios na Amazônia

Mas não há de ser nada, e a devida reação já está ocorrendo em todas as partes da Terr. E cedo ou tarde, os custos políticos e econômicos obrigarão a uma mudança radical na forma pela qual o Brasil está hoje destruindo seus biomas altamente diversos para o plantio de soja e a criação de gado.

Enquanto, celebremos toda a resistência que já ocorre dentro e fora do Brasil. É que dessa resistência virão dias da Amazônia que serão dignos de serem celebrados.

Novas queimadas na floresta detectadas antes do Dia da Amazônia alcançam número assustador

Números alarmantes de novas queimadas foram detectadas na Amazônia brasileira, aponta a Anistia Internacional. As autoridades públicas seguem omissas na proteção da terra e dos direitos humanos dos povos da floresta amazônica.

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Antes do Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, cerca de 63 mil focos de incêndios foram identificados este ano, até 31 de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Exército brasileiro está posicionado na Amazônia, desde maio, ostensivamente para combater o desmatamento e os incêndios ilegais.

A Anistia Internacional também destacou que o desmatamento aumentou em 43,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, comparado com o mesmo período de 2018 a 2019, destruindo um total de 9.205 km² de floresta. A destruição recente pode, na realidade, ser muito maior, depois que os dados forem corrigidos para levar em conta um erro de satélite que afetou a captura de alguns focos de incêndio desde 16 de agosto.

“Com os incêndios novamente se multiplicando rapidamente nesta estação de queimadas, está mais do que claro que as forças armadas brasileiras não possuem a experiência ou habilidade técnica necessária para barrar a ação daqueles que ateiam fogo na floresta e promovem invasões ilegais de terras protegidas”, disse Richard Pearshouse, diretor de Meio Ambiente e Crises da Anistia Internacional.

Richard continua: “O envio de forças do Exército encobre a estratégia do governo brasileiro de intencionalmente enfraquecer a capacidade operacional de seus próprios órgãos ambientais, com a finalidade de abrir a Amazônia para a exploração comercial”.

“O governo deveria devolver o controle da fiscalização ambiental e implementação das leis ambientais às autoridades civis apropriadas. A única maneira de proteger a maior floresta tropical do mundo é o governo demonstrar apoio político inequívoco à proteção ambiental civil na Amazônia, começando por restabelecer as verbas e outros recursos e apoiar as agências governamentais para que implementem a legislação ambiental”, explica ele. 

Ao todo 74% dos focos de incêndios detectados pelo INPE foram registrados depois do governo brasileiro ter proibido queimadas, em meados de julho de 2020. Os incêndios muitas vezes são iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que desmatam áreas de floresta e invadem as terras para convertê-las, posteriormente, em pastagem. Essa atividade ilegal sustenta a multibilionária indústria pecuarista brasileira.

Imagens de satélite captadas nos últimos dois meses também revelaram a existência de novos incêndios nas três áreas protegidas que a Anistia Internacional visitou recentemente no Estado de Rondônia: o território indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

Fazendas de gado ilegais alimentam a destruição da Amazônia

A pecuária bovina é o principal fator causador das invasões e ocupações ilegais de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, alimentando o desmatamento e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais dessas áreas.

A região amazônica é palco do maior crescimento da lucrativa indústria pecuarista no Brasil. Desde 1988, o número de gado criado na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de animais em 2018, ou seja, 40% do rebanho nacional total. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em territórios indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se pastagem de gado – uma área cinco vezes maior que a superfície de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em detalhes em um relatório publicado , em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, os territórios indígenas da Amazônia brasileira perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período correspondente de um ano antes.

Gado criado ilegalmente em áreas protegidas é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS

Em investigação recente , a Anistia Internacional constatou que gado criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi identificado na cadeia de fornecimento da JBS, a maior empresa de processamento de carnes.

A Anistia Internacional não encontrou evidências que indicassem envolvimento direto da JBS com violações dos direitos humanos, mas a organização está pedindo à JBS que implemente um sistema de fiscalização efetivo, incluindo de seus fornecedores indiretos, até o final de 2020, para assegurar que nenhum bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingresse em sua cadeia de fornecimento.

A Anistia Internacional lançou uma petição online, “Diga não ao gado criado ilegalmente na Amazônia”, que pode ser assinada aqui.

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 7 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. A organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos no Brasil e no mundo. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, teve sua sede inaugurada no Brasil em 2012.

Relatório mostra que tolerância ao desmatamento e  COVID-19 apresentam riscos fundamentais para os negócios da JBS

A empresa brasileira JBS SA é a maior processadora de carnes do mundo por vendas. A empresa opera cinco unidades de negócios principais: JBS Brasil, Seara, JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride. Este artigo avalia a exposição ao desmatamento e os riscos físicos e de transição das operações da JBS no Brasil. A CRR localizou e monitorou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos da JBS em seis estados da Amazônia. Além disso, o CRR calcula a receita e o impacto do EBITDA do desmatamento, da demanda chinesa e do COVID-19 em três cenários prospectivos.

Baixe o PDF aqui: JBS: Desmatamento Extraordinário na Cadeia de Suprimentos, COVID-19 Pose Fundamental Business Risks

CRR realizará um webinar sobre este relatório em 11 de setembro

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Principais conclusões:

  • A JBS tem uma presença crescente no mercado chinês. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20. A empresa se beneficiou da crescente dependência chinesa das importações de carne depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país.
  • Desde 2016, a JBS expressa a intenção de listar seus ativos internacionais nos Estados Unidos. A listagem nos Estados Unidos consistiria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou sua intenção de vender metade de suas ações.
  • As operações de carne bovina da JBS no Brasil têm uma exposição exagerada ao risco de desmatamento. A JBS opera 20 frigoríficos na Amazônia Legal. O monitoramento da conformidade do fornecedor pela empresa é limitado ao seu fornecimento direto. Seus riscos indiretos da cadeia de suprimentos permanecem inalterados.
  • Desde 2008, foram desmatados 20.296 ha na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhões de ha em sua cadeia de suprimentos indireta.
  • Tanto o desmatamento quanto o COVID-19 podem impactar as receitas da empresa, a estrutura de custos e o valor dos ativos. Os riscos de negócios incluem o fechamento de fábricas COVID-19; ação do acionista; restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; o crescente cansaço do consumidor chinês por carne importada; e disponibilidade de substituições baseadas em plantas.
  • Em um cenário de “alto impacto”, o EBITDA da JBS poderia ser impactado negativamente em 26% ou US $ 1,3 bilhão, levando ao aumento dos custos de financiamento. O custo de capital da JBS pode aumentar, já que quase um terço de seu financiamento é feito por meio de investidores e bancos europeus que estão adotando políticas ESG mais rígidas.

JBS depende cada vez mais das receitas dos EUA e dos mercados de exportação da China

Maior processadora de carnes do mundo com sede no Brasil, mas com atuação global

A JBS SA é uma empresa brasileira que atua principalmente no processamento de carnes. As atividades da JBS se concentram na produção de uma variedade de produtos bovinos, suínos e de aves. Seus produtos são distribuídos sob diversas marcas, como Friboi, Swift, Bertin, Pilgrim’s, entre outras. A empresa também opera negócios relacionados, como couro, biodiesel, higiene pessoal e limpeza, gestão de resíduos sólidos e embalagens metálicas. A JBS atua em 15 países diferentes.

A JBS é a maior processadora de carnes do mundo em vendas. Possui 400 unidades produtivas, instalações e escritórios, dos quais 230 são destinados à produção de produtos bovinos, suínos, ovinos e avícolas. A empresa está listada na bolsa de valores de São Paulo desde 2007 e recebeu apoio financeiro significativo do banco de desenvolvimento brasileiro BNDES. Com esse financiamento público, a JBS fez diversas aquisições nacionais e internacionais. A família fundadora Batista mantém uma participação de 39,8 por cento.

A empresa opera cinco unidades de negócios principais:

  • A JBS Brasil compreende a produção brasileira de carne bovina e couro da empresa. A JBS administra 37 frigoríficos em todo o Brasil e 24 instalações de produção de couro de todo o mundo. Além disso, possui 18 centros de distribuição e cinco confinamentos para gado de corte. A JBS Brasil gerou receita de R $ 16,9 bilhões (US $ 3,1 bilhões) no 1S20, (14,0% da receita consolidada ajustada para eliminações entre empresas), um aumento de 21,1% em relação ao 1S19. A participação nas receitas do mercado de exportação aumentou de 40% no 1T20 para  51% no 2T20.
  • A Seara é a unidade produtora e exportadora de frangos e suínos da empresa . A unidade produz carnes para o mercado interno brasileiro e exporta para mais de 100 países. Ele tem 30 unidades de processamento de aves, oito unidades de processamento de suínos, 20 instalações de alimentos preparados, e 18 centros de distribuição localizados em todo o Brasil. A Seara foi responsável por 1% da receita da JBS no 1S20, da qual 54,7% veio do mercado externo no 2T20.
  • JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride controlam as operações da empresa na América do Norte, Europa e Austrália. Entre outras instalações, essas três unidades de negócios operam 18 abatedouros de bovinos, cinco abatedouros de suínos e 36 unidades de avicultura. A JBS USA foi responsável por 1% da receita no 1S20.

A JBS tem uma presença cada vez maior no mercado chinês, maior destino das exportações da empresa. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20 . A empresa se beneficiou nos últimos anos da crescente dependência da China nas importações de carne, depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país. Em janeiro de 2020, a JBS assinou um memorando de entendimento com o WH Group, um grande frigorífico com sede em Hong Kong, para fornecer até R $ 3 bilhões (reportados como US $ 717 milhões na época) em produtos bovinos, de aves e suínos para os chineses mercado anualmente. Esta parceria ocorreu após um acordo em novembro de 2018 com a Alibaba no valor de US $ 1,5 bilhão.

Listagem nos EUA, desinvestimento do BNDES não antes de 2021

O IPO foi adiado em 2017 devido a investigações visando proprietários

Desde 2016, a JBS tem manifestado repetidamente sua intenção de reestruturar seus negócios com uma listagem de seus ativos internacionais nos Estados Unidos. O principal fator por trás desses planos de reestruturação é o descasamento entre a estrutura de capital da empresa e sua estrutura operacional. Uma listagem nos Estados Unidos desbloquearia o valor para o acionista de um modelo de negócios que depende principalmente de transações em dólares americanos, mas que reporta suas finanças em reais. Sinais de que a empresa estava progredindo com essa listagem ressurgiram em novembro de 2019.

A listagem nos Estados Unidos resultaria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. As operações no Brasil continuariam sob a JBS SA, a entidade atualmente listada na bolsa de valores de São Paulo. Considerando que a empresa estava pronta para seguir em frente em março de 2020, os impactos do surto de COVID-19 desviaram o foco da empresa da listagem. Em agosto de 2020, o CEO Gilberto Tomazoni indicou que a empresa retomou os planos de listagem, mas isso “ não pode acontecer este ano

Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou em novembro de 2019 sua intenção de vender metade de suas ações da JBS. A BNDESPar, braço de investimento de capital do banco de desenvolvimento do Brasil BNDES, detém uma participação de 21,3 por cento na JBS. A JBS responde por 20%  da carteira do BDNESPar. O BNDES contratou diversos bancos de investimento e planejou um roadshow para vender sua participação após a divulgação dos resultados da JBS do 4T19. A venda seria feita em uma única parcela e estava prevista para junho de 2020, mas a pandemia do COVID-19 interrompeu esse processo. Em julho de 2020, relatórios disse que a BNDESPar começaria com outros desinvestimentos primeiro, e que vendas mais complexas, como sua participação na JBS, ocorreriam em uma data posterior não revelada.

Como resultado dos repetidos atrasos em sua reestruturação corporativa, a JBS permanece em um estado contínuo de incerteza. Os planos para a listagem nos EUA foram repetidamente desviados devido a investigações criminais em 2017 e surtos de pandemia em suas instalações em 2020.

JBS tem uma exposição exagerada ao desmatamento em sua cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira

As operações de gado da JBS no Brasil há muito tempo estão associadas ao desmatamento na Amazônia. Após intensas campanhas da sociedade civil, a JBS foi um dos maiores produtores de carne bovina do Brasil a firmar Acordos multilaterais de Pecuária com organizações da sociedade civil em 2009 para aumentar a sustentabilidade do setor. A empresa também assinou Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos com o Ministério Público Federal. A JBS tem uma meta de desmatamento zero e se compromete publicamente a abster-se de obter matérias-primas de fazendas que sejam:

  • envolvido com o desmatamento no bioma Amazônia após 2009;
  • enfrentando embargos ambientais;
  • vinculado a qualquer tipo de trabalho forçado;
  • localizadas em terras indígenas ou em áreas de preservação ambiental.

A JBS também está envolvida em várias iniciativas com várias partes interessadas, incluindo a Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura, a Tropical Forest Alliance (TFA) e o Protocolo da Cadeia de Suprimentos.

A JBS rastreia a conformidade do fornecedor por meio de um sistema de monitoramento socioambiental que usa imagens de satélite e georreferenciamento de dados para analisar 50.000 fornecedores de gado na Amazônia diariamente. Por meio desse sistema, a empresa monitora uma área de 45 milhões de hectares (ha). A empresa irá bloquear fornecedores que não estejam em conformidade com as políticas da JBS em compras futuras. A JBS indicou ao CRR que mais de 9.000 fazendas foram bloqueadas até o momento. Os auditores independentes encontraram uma taxa de conformidade de 99,9% com essas políticas.

O sistema de monitoramento da JBS é limitado aos seus fornecedores diretos de gado , e a empresa ainda não possui sistemas para monitorar sistematicamente seus fornecedores indiretos . A empresa declarou publicamente que “a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento de carne bovina é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa”. A empresa informou ao CRR que está em discussões ativas com o Ministério da Agricultura do Brasil para explorar a possibilidade de criar os chamados “GTAs Verdes” – registros de transporte de animais que incluiriam informações sobre embargos ambientais e de trabalho escravo. Essas discussões estão em andamento desde pelo menos 2013, e os relatórios de auditoria independente de 2019 descreveram esses esforços como “ ainda não bem-sucedidos. ” Além disso, a JBS está testando tecnologias de blockchain e índices teóricos de produtividade como medidas para lidar com a exposição indireta da cadeia de suprimentos. O índice teórico de produtividade visa abordar o risco de “lavagem de gado”, avaliando o tamanho de uma propriedade e a quantidade de gado que ela fornece.

Apesar de suas medidas, a JBS continua ligada ao desmatamento ilegal em sua cadeia de abastecimento, e uma proporção não especificada da pegada de desmatamento da cadeia de abastecimento da JBS pode estar violando o Código Florestal do Brasil . Vários meios de comunicação descobriram que a JBS comprou gado de fazendas desmatadas ilegalmente em Rondônia e no Pará . De acordo com um relatório de março de 2020 do Guardian , a JBS indiretamente era proveniente de uma fazenda em Rondônia cujo proprietário estava implicado no assassinato de nove pessoas em Mato Grosso. A JBS nega que exista vínculo entre a empresa e o proprietário da fazenda. Conforme informado em julho de 2020, em Mato Grosso, a JBS transportou vacas de fazendas embargadas para fazendas “limpas” que atendam aos protocolos de abastecimento da JBS. Em 2017, a JBS foi multada em R $ 24 milhões (US $ 4,3 milhões) por comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente no Pará. A JBS indicou à CRR que apelou da multa.

A JBS opera um total de 37 frigoríficos de gado no Brasil, dos quais 20 estão localizados na Amazônia Legal. Um estudo anterior que avaliou os riscos de desmatamento dos frigoríficos com base em zonas de compra projetadas concluiu que a JBS tinha a maior exposição de todos os frigoríficos ativos na Amazônia. Com base em suas localizações, oito frigoríficos da JBS tinham riscos de desmatamento projetados de 600.000 ha cada.

Figura 1 : Localização dos Frigoríficos JBS Bovinos no Brasil

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base no Ministério da Agricultura e JBS .

75.000 ha de desmatamento detectados na amostra da cadeia de suprimentos direta e indireta da JBS 

Com base nos dados de transporte de animais e cadastro rural, o CRR localizou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos (ver Figura 2) para a JBS nos estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará e Tocantins (ver Anexo para Metodologia CRR). Essas fazendas enviaram um ou mais lotes de gado diretamente para um matadouro da JBS ou para outra fazenda que posteriormente vendeu gado para a JBS. Com base nos 90.000 fornecedores informados pela JBS, o conjunto de dados do CRR constitui aproximadamente 1,1 por cento da cadeia de fornecimento direto da JBS em todo o Brasil. A amostra representa cerca de 10 por cento da cadeia de abastecimento direto nos seis estados mencionados acima.

Figura 2: Amostra de 983 fornecedores JBS diretos e 1.874 fornecedores JBS indiretos

Fonte: Chain Reaction Research, com base em dados do Ministério da AgriculturaJBS e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

O conjunto de dados fornece uma amostra granular da origem do gado abatido nas instalações da JBS e permite uma avaliação direcionada dos riscos de desmatamento nas cadeias de suprimento direta e indireta. A Figura 4 ilustra as localizações confirmadas dos fornecedores diretos e indiretos das instalações da JBS nos municípios de Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT). Essas propriedades estão dentro da zona de compra potencial do mesmo matadouro identificado em estudos anteriores .

Figura 3: Localização da amostra dos fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base em Ministério da Agricultura , JBS , Imazon e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

Figura 4: Desmatamento em amostra de fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Desde 2008, foram detectados desmatamentos confirmados de 20.296 ha nas 983 propriedades identificadas na cadeia de abastecimento direta da JBS . Essa mudança no uso da terra representa 0,85% da área acumulada das fazendas identificadas, com um desmatamento médio de 20,65 ha por fazenda. Aproximadamente 70 por cento (14.655 ha) dos desmatamentos detectados ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. Os sistemas de monitoramento da cadeia de suprimento direto da JBS são menos desenvolvidos no bioma Cerrado do que na Amazônia, pois os dados de satélite do desmatamento do Cerrado não são integrados aos sistemas internos da JBS.

Os números absolutos e relativos de desmatamento confirmam que a exposição da JBS é maior em sua cadeia de suprimentos indireta do que em sua cadeia de suprimentos direta. A CRR identificou 50.852 ha de desmatamento nas 1.874 fazendas identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS após a data de corte de 2008 do Código Florestal do Brasil. Isso representa 1,44% da área acumulada dessas propriedades, com uma média de 27,13 ha por fazenda. Apesar dos esforços da empresa para resolver o problema, o desmatamento na cadeia de fornecimento indireto ainda está fora do escopo de sua política de desmatamento zero. Assim, a exposição ao risco de desmatamento associado permanece totalmente não mitigada. A falta de mitigação permite a chamada “ lavagem de gado,” Por meio do qual o gado é transferido de fazendas não conformes para fazendas conformes para que os agricultores mantenham o acesso ao mercado para os matadouros.

Figura 5: Exemplo de fazenda em Novo São Joaquim, Mato Grosso com desmatamento de 371 ha (à esquerda) que fornecia gado a um fornecedor direto da JBS em Tesouro, Mato Grosso com desmatamento mínimo (à direita)

A exposição adicional ao desmatamento pode estar presente em fazendas adjacentes aos fornecedores diretos identificados. A titulação de terras e as autodeclarações fraudulentas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) podem resultar na fragmentação das fazendas em entidades administrativas separadas pertencentes às mesmas empresas ou indivíduos. Em vários exemplos conhecidos, o desmatamento ocorreu em uma parte da fazenda enquanto o gado era fornecido por outra parte que foi registrada separadamente. Na realidade, essas peças pertencem a uma única fazenda com um único proprietário. Essa exposição não é capturada nos números apresentados neste relatório, mas pode constituir um risco adicional de desmatamento não mitigado. A JBS indicou ao CRR que a responsabilidade pela apuração dos dados do CAR é dos órgãos oficiais competentes.

Figura 6: Exemplo de desmatamento em fazenda em Nova Canaã do Norte, Mato Grosso adjacente a fornecedor direto da JBS. Ambas as propriedades estão registradas sob o mesmo proprietário

Pegada de desmatamento estimada de 1,7 milhão de ha até o momento, com 64 milhões de ha de floresta em risco 

A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS desde 2008 pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhão de ha em sua cadeia de suprimentos indireta. Esses números são extrapolações do desmatamento médio por fazenda para o número total de fazendas para as quais existem registros da cadeia de abastecimento (ver Figura 7) e incluem apenas os estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, e Tocantins. Entre outros, os dados excluem dados dos estados amazônicos de Rondônia (quatro frigoríficos da JBS) e Acre (um frigorífico da JBS).

2,1 milhões de ha de vegetação nativa permanecem nas 1.874 propriedades identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Extrapolando esse número, o CRR projeta impressionantes 64 milhões de hectares de florestas remanescentes na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Isso é quase o equivalente à ilha do Sri Lanka ou ao estado americano da Virgínia Ocidental. A mencionada ausência de medidas mitigadoras pode colocar em risco essas florestas nos próximos anos.

Figura 7: Estimativas de exposição da JBS ao risco de desmatamento nas cadeias produtivas diretas e indiretas em GO, MG, MS, MT, PA e TO

* As propriedades foram identificadas nos registros do GTA 2019. As propriedades foram localizadas por meio de comparação com os dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI) ** Desmatamento calculado com base em dados anuais do PRODES confirmados desde 2008 *** Vegetação remanescente calculada com base nos dados do INPE e FREL. **** Calculado com base nas médias dos imóveis localizados multiplicados pelo número total de imóveis identificados. Vegetação remanescente calculada apenas para a cadeia de abastecimento indireta devido à falta de medidas de mitigação. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

COVID-19, desmatamento representam ameaças fundamentais ao modelo de negócios da JBS SA

A análise de cenário mostra como os riscos físicos e de transição podem afetar as receitas e o valor dos ativos

Além da longa exposição ao desmatamento, a JBS foi fortemente afetada pelo surto de COVID-19 deste ano, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Nos EUA, surtos em suas fábricas no Colorado , Utah , Michigan , Wisconsin , Texas , Nebraska , Minnesota e Pensilvânia afetaram milhares de trabalhadores. Em resposta, a JBS comprometeu US $ 120 milhões para fundos destinados a combater a pandemia e implementou uma série de medidas preventivas de segurança.

Em 24 de abril de 2020, um surto de COVID-19 em uma avícola da JBS no estado brasileiro do Rio Grande do Sul marcou o primeiro surto em grande escala em uma frigorífica brasileira. Este caso marcou o início de um surto mais amplo em frigoríficos nos estados do sul do Brasil, onde a maioria das instalações de produção de aves e suínos do país. No final de junho, 32 fábricas operadas por várias empresas no estado do Rio Grande do Sul apresentavam trabalhadores infectados com COVID-19. De acordo com promotores do trabalho estaduais, os trabalhadores da carne representam mais de 25% dos 19.710 casos confirmados de infecção no estado. Pelo menos cinco carniceiros gaúchos e 12 familiares ou amigos morreram em decorrência da doença. Testes positivos também foram relatados para trabalhadores das instalações da JBS em Goiás e oito fábricas da JBS em Mato Grosso .

Tanto a crescente preocupação com o desmatamento na Amazônia quanto as respostas globais ao COVID-19 podem ter impactos de longo prazo nos negócios da JBS e apresentar uma gama de riscos comerciais diferentes. Apesar do forte desempenho financeiro da JBS nos últimos trimestres , esses riscos podem impactar negativamente o modelo de negócios da empresa. Esta seção analisa vários cenários para cada um dos riscos identificados, em linha com as metodologias desenvolvidas no contexto da Força-Tarefa para Divulgações Relacionadas ao Clima (TCFD).

1.     Risco Físico: Fechamento de planta por causa de surtos de COVID-19

Após a detecção dos surtos de COVID-19, a JBS fechou temporariamente várias de suas fábricas de carnes nos Estados Unidos e no Brasil, voluntariamente ou por ordem judicial. Conforme relatado em artigos da mídia, fechamentos incluídos;

A maioria desses fechamentos foi temporária e a produção reiniciada em questão de semanas. Em alguns casos, os fechamentos resultaram em interrupções significativas na cadeia de abastecimento , com animais de fazenda mortos nas fazendas fornecedoras, mas não processados ​​em produtos de carne. Na outra ponta da cadeia, os fechamentos deixaram as prateleiras de carnes vazias nas lojas. No Rio Grande do Sul, um porta-voz da associação dos produtores de carne indicou que as paralisações ainda não afetaram os números da produção. No entanto, na época deste relatório, o Brasil tinha o segundo país com mais casos de COVID-19 em todo o mundo e continuava com taxas diárias elevadas de novas infecções. Os frigoríficos continuam a ser os hotspots da COVID-19 e é provável que mais encerramentos se sigam, apesar das medidas de prevenção e controlo tomadas. Além de fechamentos de fábricas, greves, protestos de trabalhadores e falta de pessoal como resultado de surtos de COVID-19, também podem afetar a produtividade.

A JBS não divulgou os impactos cumulativos dos fechamentos em seus números de produção. Com base nas capacidades médias diárias de processamento relatadas no Brasil e nos Estados Unidos, os impactos da paralisação das nove fábricas acima mencionadas são estimados em 10.439 cabeças de gado (13,9% da capacidade instalada), 691.000 frangos (16,1% da capacidade instalada) e 18.520 suínos (4,9% da capacidade instalada) por dia. Os fechamentos afetaram cerca de 4% de todas as instalações de processamento de carnes da JBS.

Figura 8: Cálculos para os impactos do tempo de inatividade diário estimado devido ao fechamento da planta COVID-19

* Calculado com base na capacidade agregada diária informada, dividida pelo número de usinas por país (JBS Formulário de Referência , p.164-166).

O fechamento temporário de fábricas pode impactar tanto as receitas da JBS quanto seus ativos biológicos e intangíveis. Cada dia de fechamento de fábrica tem um impacto linear negativo nas vendas e no lucro bruto. Fechamentos intermitentes repetidos podem ter os maiores impactos sobre os ativos biológicos da JBS (2019: R $ 5 bilhões / US $ 1,25 bilhão), enquanto os testes anuais de redução ao valor recuperável podem afetar o ágio das subsidiárias (2019: R $ 24,5 bilhões / US $ 6,1 bilhões) no saldo da JBS Folha. A Figura 8 mostra os impactos projetados sobre as receitas e ativos em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve sem novos fechamentos de fábricas; um cenário de médio impacto com fechamentos de plantas intermitentes durante 2H20; e um cenário de alto impacto com o fechamento total da fábrica pelos próximos 12 meses.

Figura 9: Impactos financeiros estimados de fechamentos de fábricas relacionadas a COVID-19 em três cenários prospectivos

* As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e nenhum fechamento adicional no futuro. ** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos intermitentes durante 2H20. Os cálculos são baseados em fechamentos de uma semana a cada mês por um período de seis meses. *** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos permanentes por um período de 12 meses. **** Cálculos com base nos impactos assumidos de eventos de 15% nas receitas e nos valores dos ativos. ***** Os cálculos do EBITDA não incluem baixas de ativos. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

2.     Risco de reputação: aumento das preocupações dos investidores e ação dos acionistas

As instituições financeiras internacionais estão cada vez mais cautelosas com os investimentos brasileiros, em particular no setor de frigoríficos. Em junho de 2020, um grupo de 30 investidores institucionais da Europa e Ásia apelou ao governo brasileiro para conter a destruição ambiental. Em uma carta pública, esses investidores sinalizaram sua intenção de se desfazer de ativos brasileiros – tanto corporativos quanto soberanos – e destacaram sua preocupação com a indústria de frigoríficos do Brasil e seu papel no desmatamento. Os investidores signatários representaram US $ 3,7 trilhões de ativos sob gestão. Pelo menos um investidor, Nordea Asset Management, seguiu adiante e anunciou que excluiu a JBS de todos os ativos que vende. Em agosto de 2020, foi relatado que o HSBC “soou alarmes” sobre seu investimento na JBS devido à inação do desmatamento. Essas ações seguem uma série de ações e engajamento dos acionistas com a JBS nos últimos anos:

  • Em março de 2020, 95 acionistas atuais e anteriores iniciaram arbitragem judicial, buscando R $ 1,4 bilhão (US $ 280 milhões) em compensação por danos causados ​​por práticas ilegais da JBS. As alegações dos acionistas são baseadas em declarações falsas e enganosas feitas pela JBS e seus diretores executivos desde seu IPO em 2007.
  • O Conselho de Ética dos Fundos de Pensão do Governo Nacional Sueco relatou seu envolvimento com a JBS em seu relatório anual de 2019: “ A Amazônia está mais uma vez em foco com o aumento de incêndios florestais ilegais durante o outono de 2019. O Conselho de Ética fortaleceu seu foco na produção de soja e pecuária com o objetivo de garantir que empresas como JBS, Bunge e Archer Daniel Midlands comprem seus produtos de partes legalmente desmatadas da Amazônia ”.
  • Em julho de 2018, o Norges Bank colocou oficialmente a JBS em sua lista de exclusão , seguindo uma recomendação do seu Conselho de Ética . Na época, a Norges possuía US $ 143 milhões em ações da JBS e citou “corrupção bruta” como critério de exclusão. A JBS mantém essa lista em março de 2020.
  • Em abril de 2018, a gestora de recursos holandesa APG votou contra a reeleição de três diretores da JBS. A APG está entre os dez maiores acionistas da JBS.

À medida que os investidores se cansam do clima político e econômico do Brasil e das preocupações com o aumento do desmatamento, a JBS SA pode ver uma saída de investidores atuais e reduzir significativamente o interesse de investidores em potencial. A redução do apetite do investidor também pode complicar significativamente o processo de venda de ações do BNDES. A maior parte da ação dos investidores provém atualmente de instituições financeiras europeias, que constituíram a maioria dos signatários da carta de junho de 2020 e assumiram a liderança em processos de envolvimento anteriores. Atualmente, 32% do financiamento total da JBS vem de investidores europeus.

Desinvestimentos, exclusões, recusa em conceder empréstimos e outras ações de instituições financeiras afetariam a estrutura de custos da JBS e, portanto, seu lucro líquido. Em particular, o custo da dívida pode aumentar se os bancos se recusarem a conceder empréstimos e a empresa for forçada a buscar novos financiadores em circunstâncias difíceis. A Figura 9 projeta os impactos financeiros das ações das instituições financeiras em três cenários: um cenário de baixo impacto com desinvestimento dos signatários da carta de junho de 2020; um cenário de médio impacto com desinvestimento dos signatários e de suas matrizes; e um cenário de alto impacto em que metade de todas as instituições financeiras europeias se retiram.

Figura 10: Impactos financeiros estimados da ação dos financiadores relacionados ao desmatamento em três cenários prospectivos

* As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro.    ** As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro e suas empresas controladoras. *** As premissas incluem desinvestimento e recusa em conceder empréstimos de metade de todos os atuais investidores europeus. **** Calculado com base em um aumento de 25 pontos base nas despesas de juros no cenário de impacto médio e um aumento de 50 pontos base no cenário de alto impacto. ***** Calculado como porcentagem em relação ao EBITDA 2019. Fonte: Chain Reaction Research

3.     Risco de mercado: Restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento

A COVID-19 pode resultar em restrições aos mercados de exportação de produtos cárneos da JBS produzidos em fábricas com surtos de vírus. Em junho de 2020, a China anunciou que aumentou suas inspeções de produtos de carne importados depois que uma segunda onda de infecções por COVID-19 começou devido a um surto em um mercado atacadista em Pequim. A alfândega chinesa não aceita mais licenças de importação de 15 frigoríficos . As quatro fábricas suspensas no Brasil incluem uma avícola da JBS. Este movimento ocorreu após uma suspensão anterior das importações de carne bovina da Austrália, possivelmente em retribuição às críticas da Austrália sobre a forma como a China lidou com o surto de COVID-19. As quatro frigoríficas australianas sujeitas a esta suspensão incluem duas fábricas de propriedade da JBS. A abordagem chinesa mais restritiva aos produtos de carne importados pode afetar particularmente as exportações brasileiras da JBS SA para a China, que tem sido um mercado de notável crescimento para a empresa nos últimos anos.

As preocupações com incêndios florestais e desmatamento também podem resultar em novas exclusões das cadeias de fornecimento corporativas por não conformidade com as políticas de compra responsável. Após os incêndios florestais de 2019 na Amazônia, as marcas globais de moda H&M e VF Corporation suspenderam todo o uso de couro originário do Brasil devido ao papel da indústria de gado nos incêndios. Em maio de 2020, um grupo de mais de 40 supermercados britânicos alertou o governo brasileiro que pode boicotar os produtos brasileiros se a legislação que permite um desmatamento mais rápido na Amazônia for aprovada. Em agosto de 2020, uma campanha do Greenpeace no Reino Unido exigiu ao varejista Tesco que corte todos os laços com a JBS. Com maiores taxas de desmatamento nos primeiros meses de 2020 e indicações de outra intensa temporada de incêndios, mais boicotes, exclusões e suspensões podem ocorrer.

Outras restrições às exportações para a China e a perda de clientes corporativos impactariam as receitas e as margens EBITDA da JBS. A China tem se tornado um mercado de vendas cada vez mais importante e a JBS investe em parcerias para vendas diretas ao consumidor. Clientes corporativos com compromissos de desmatamento zero provavelmente estão presentes em seus canais de vendas de couro e carne bovina. A Figura 10 mostra os impactos financeiros sob três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve, sem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de abastecimento; um cenário de médio impacto com um número limitado de futuras restrições à exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; e um cenário de alto impacto em que o acesso aos mercados chinês e europeu é significativamente restringido.

Figura 11: Impactos financeiros estimados do desmatamento e restrições de exportação relacionadas ao COVID-19 e exclusões da cadeia de abastecimento em três cenários prospectivos

* As suposições não incluem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de suprimentos além das já relatadas. ** As premissas incluem sete fábricas adicionais com futuras restrições de exportação para a China e futuras exclusões da cadeia de suprimentos representando o equivalente a 25% das vendas da UE. *** As premissas incluem acesso futuro totalmente restrito aos mercados chinês e europeu **** Cálculos baseados no número total de frigoríficos (230), vendas reportadas na China (US $ 2.803 milhões) e vendas reportadas na Europa (US $ 780 milhões). ***** Cálculos baseados nos impactos da receita e margens EBITDA da JBS Brasil (5,4%) e Seara (11,1%). As premissas subjacentes incluem uma participação de 75% das instalações brasileiras nos números totais de exportação da JBS. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

4.     Risco de reputação e tecnologia: cansaço crescente do consumidor chinês por produtos de carne importados e ameaças de substituição por proteínas vegetais

Além das restrições da alfândega chinesa, as tendências nas preferências do consumidor chinês também podem impactar negativamente o potencial de exportação de carnes da JBS. Tanto o surto de peste suína africana quanto o surto de COVID-19 levantaram questões entre os consumidores chineses sobre a segurança e a sustentabilidade das proteínas animais. As empresas de pesquisa de mercado projetam que o interesse por proteínas vegetais e carne cultivada em laboratório crescerá entre os consumidores na China nos próximos dez anos. Como as proteínas vegetais não são novidade para os consumidores chineses, a aceitação do mercado de produtos de carne alternativos é provável se os consumidores forem educados sobre os benefícios nutricionais, de saúde e segurança.

Fórum Econômico Mundial também observa que a demanda por proteína vegetal está aumentando na Ásia como resultado das suspeitas dos consumidores sobre possíveis ligações entre a carne animal e o COVID-19. Essa mudança na demanda é mais notável em Hong Kong e na China continental. O surto do vírus acelerou uma tendência contínua que já chamou a atenção dos rivais da JBS baseados em vegetais, Beyond Meat e Impossible Foods. Ambas as empresas internacionais e locais estão produzindo carnes alternativas usadas em bolinhos, macarrão, arroz e produtos de fast-food.

As proteínas de origem vegetal estão se tornando rapidamente um produto substituto viável e econômico das proteínas animais em meio a um rápido declínio nos custos de produção. Em maio de 2020, o CEO da Beyond Meat indicou que a empresa está pronta para competir diretamente com a carne bovina de verdade em termos de preço nos supermercados. O aumento nos preços da carne bovina causado pela COVID-19 desencadeou interrupções na cadeia de suprimentos diminuiu a diferença nos preços relativos. As margens brutas do Beyond Burger fornecem espaço para a empresa reduzir os preços de varejo a fim de capturar participação de mercado de produtos de carne reais. Em março de 2020, a Impossible Foods fez um movimento semelhante ao cortar os preços de seus produtos veganos em 15% . Tanto a Beyond Meat quanto a Impossible Foods entraram no mercado chinês.

As alternativas de carne vegetal podem reduzir a participação da JBS no mercado de carne chinês e suas receitas. Com as recentes parcerias da JBS com o WH Group e o Alibaba, as vendas diretas aos consumidores chineses se tornaram uma fonte de receita importante e crescente que pode estar em risco com esse desenvolvimento. A Figura 11 ilustra os impactos financeiros da perda de participação no mercado para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve em que a JBS perde 5 por cento de sua participação no mercado chinês para alternativas baseadas em plantas; um cenário de impacto médio em que perde 25% de sua participação no mercado chinês; e um cenário de alto impacto com uma perda de participação de mercado de 50%. A empresa pode ser capaz de mitigar esses riscos por meio de maiores investimentos em alternativas baseadas em plantas que a empresa já introduziu em vários mercados.

Figura 12: Impactos financeiros estimados da perda de participação no mercado chinês para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos

* As premissas incluem perda de participação de mercado para os concorrentes e não levam em consideração novas linhas de produtos de base vegetal que a JBS pode introduzir. ** Com base na receita líquida na China de US $ 3.737 milhões em 2019. *** Com base na margem EBITDA de 9,6% em 2019. **** Com base no ágio da JBS multiplicado pela participação chinesa nas vendas de 2019 e multiplicado pela resp. 5%, 25% e 50%.  Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Resumo dos quatro impactos financeiros e os três cenários

A soma dos quatro impactos, após a dedução da contagem dupla, pode impactar as receitas em 22 por cento e o EBITDA em 26 por cento no cenário de “alto impacto”. A dupla contagem refere-se à redução da receita chinesa que é calculada duas vezes no impacto do risco de mercado e no impacto da tecnologia.

Figura 13: Resumo de quatro impactos financeiros em três cenários

Fonte: Chain Reaction Research

EBITDA 2T20 acima do esperado devido ao desequilíbrio entre demanda e oferta

Os resultados do 2T20 surpreenderam os analistas principalmente por causa das margens relativamente altas nas operações de carne bovina nos Estados Unidos e no Brasil, mas o trimestre foi claramente um outlier.Na unidade da JBS Brasil (principalmente carne bovina), os animais “processados” caíram 15%, mas as exportações para a China aumentaram 53% em dólares. A margem EBITDA aumentou de 4,7 por cento no 2T19 para 12,4 por cento no 2T20. A JBS USA Beef (incluindo Austrália e Canadá) teve uma queda de 18% no volume devido ao fechamento de capacidade relacionado ao COVID-19. Porém, em meio a preços mais altos, à medida que a demanda continuava forte, a margem EBITDA cresceu de 8,9% no 2T19 para 20,4% no 2T20. Para o conjunto da empresa, a margem EBITDA do 2T20 foi de 15,5 por cento versus 6,9 por cento no 1T20 e 10,0 por cento no 2T19. A Figura 13 mostra que o 2T20 é um outlier, pois a margem EBITDA se desenvolve em uma faixa de 6,5-9,6 por cento em uma base anual entre 2015 e 2019.

chr 4Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020

O financiamento de US $ 10 bilhões pode estar em conflito com as políticas florestais

A JBS depende fortemente do financiamento da dívida e a dívida líquida / EBITDA se deterioraria significativamente em um cenário de alto impacto. Como os bancos e detentores de títulos têm o maior impacto no custo de capital de uma empresa, o alto nível de endividamento da JBS pode se tornar uma questão ESG importante para os financiadores que contratam a empresa. Cada vez mais, os principais bancos estão emitindo empréstimos vinculados a metas ESG. No final do 2T20, A dívida da JBS consistia em 66,5% de títulos e 33,5% de empréstimos bancários. Quase 94% da dívida é denominada em dólares americanos e 6,1% em reais. No final do 2T20, a dívida líquida era de US $ 10,0 bilhões, o que é superior à estimativa do consenso da Bloomberg de US $ 9,1 bilhões para o final de 2020. Embora a dívida líquida / EBITDA tenha melhorado recentemente, o cenário de alto impacto seria pro forma de US $ 1,3 bilhão dos US $ 4.962 milhões (2019) e levar a uma dívida líquida / EBITDA de 3,2X.

chr 3

Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020; F = previsão baseada em consenso.

Dos 20 maiores financiadores, metade deles – com US $ 10 bilhões em exposição ao JBS – tem políticas de desmatamento ou políticas que estão gradualmente se adaptando ao desmatamento zero. A Figura 15 resume os 20 maiores financiadores (excluindo as participações familiares) da JBS e suas afiliadas, incluindo JBS USA e Pilgrim’s Pride. No total, esses financiadores forneceram US $ 24,4 bilhões em serviços financeiros à JBS e suas afiliadas: US $ 13,5 bilhões em empréstimos, US $ 1,3 bilhão em títulos e US $ 3,3 bilhões em participações. E por meio de serviços de subscrição, a JBS recebeu US $ 6,3 bilhões.

Em 2019, o JPMorgan Chase (exposição de US $ 1,6 bilhão), empresa do grupo JPMorgan Asset Management, divulgou seu primeiro relatório climático baseado nas recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). As políticas do JPMorgan Chase cobrem todas as atividades do grupo . O grupo também é signatário ou membro de muitas outras iniciativas, incluindo o Fórum de Bens de Consumo (CGF), que luta pelo desmatamento zero. O Rabobank (exposição de US $ 1,5 bilhão) é um membro ativo da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), com assento no conselho executivo. O Rabobank também é membro do CGF. Crédito Suiço (exposição de US $ 1,2 bilhão) vê a proteção da biodiversidade como parte integrante de seus compromissos de sustentabilidade. Suas políticas estão alinhadas com o RSPO e o Forest Stewardship Council (FSC), mas o banco não menciona explicitamente metas de desmatamento zero. O Santander participa da RTRS e, por meio da Banking Environment Initiative (BEI), do Soft Commodity Compact. Barclays é signatária da Declaração de Nova York sobre Florestas (NYDF) das Nações Unidas, que visa reduzir a perda de floresta natural pela metade até 2020 e encerrá-la até 2030, e adotou o Compacto de Commodities Soft da Banking Environment Initiative. A iniciativa, de acordo com o Barclays, compromete o banco com o desmatamento zero na área florestal, papel e celulose e óleo de palma. O Deutsche Bank também assinou o NYDF.

Alguns outros financiadores estão tomando medidas para desenvolver uma política de desmatamento. O Bank of America e o Bancorp afirmam que não farão contatos comerciais com empresas ativas na extração ilegal de madeira ou fogo descontrolado. Há, no entanto, um grande grupo dos 20 maiores financiadores que não possuem políticas florestais. O BNDES e outros bancos brasileiros não têm compromissos concretos de desmatamento zero. O Royal Bank of Canada não tem políticas de desmatamento, semelhantes ao BMO Financial Group (exposição de US $ 1,4 bilhão). Farm Credit Services (exposição de US $ 1,3 bilhão) não tem política ambiental relevante, enquanto BlackRock e Fidelity não têm políticas florestais.

chr 2

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020

Anexo 1: Notas metodológicas para análise de desmatamento 

O perfil dessa empresa inclui uma análise do desmatamento das cadeias de suprimentos diretas e indiretas da JBS. Este anexo descreve as notas metodológicas da abordagem utilizada. Ele descreve o seguinte: 

  • As principais fontes de dados utilizadas
  • Uma descrição do processamento de dados e desenvolvimento de banco de dados
  • Uma descrição da análise de dados e verificações de qualidade
  • As limitações da metodologia

1. Fontes de dados

As principais fontes de dados incluem:

  • Autorizações de transporte de animais (GTAs). Essas licenças são documentos sanitários obrigatórios exigidos no transporte de gado entre duas propriedades. A CRR utilizou os registros do GTA 2019 dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Tocantins para identificar os nomes das fazendas que abastecem direta e indiretamente a JBS.
  • Cadastros rurais e registros de propriedades. O CRR usou os cadastros e registros imobiliários do SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária) e SNCI obtidos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrícola (INCRA).
  • Dados anuais de desmatamento confirmados. O CRR usou os dados anuais oficiais do Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia (PRODES) do governo brasileiro como base para os cálculos do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
  • Dados de vegetação remanescentes. O CRR usou mapas da agência espacial brasileira INPE (para a Amazônia) e os dados do FREL do Ministério do Meio Ambiente (para o Cerrado) para avaliar a vegetação nativa remanescente.

2. Processamento de dados e construção de banco de dados

Três etapas a seguir foram realizadas para construir o banco de dados para este relatório:

  • Limpe e prepare as informações do GTA. Usando o R Studio, um script foi escrito para limpar o texto em nosso conjunto de dados GTA e nos registros de terras SIGEF e SNCI para garantir o maior sucesso possível de correspondência de string. Exemplos dessa limpeza incluem a conversão de caracteres do português para o inglês (ã para a), padronizando o espaçamento entre palavras e padronizando o nome das empresas (ex: JBS exportaçãoto JBS).
  • Identificar fornecedores diretos e indiretos da JBS.Um script foi escrito para pesquisar o conjunto de dados GTA e extrair todas as entradas que tinham um matadouro JBS como destino final. A filtragem foi aplicada para “abate” (abate) e “bovinos” (gado), para limitar os dados à cadeia produtiva da carne bovina da JBS e para garantir que o frigorífico fosse o destino final. Para identificar fornecedores indiretos, a CRR repetiu esse processo com os fornecedores diretos da JBS como destino cadastrado do transporte de gado. Para evitar falsos positivos, incluímos apenas registros em que o nome do proprietário, o nome da fazenda e o município correspondiam. Aplicamos os filtros de engorda (engorda) ou reprodução (reprodução) como finalidade de transporte. Por meio dessa metodologia, foram identificadas 9.730 fazendas de abastecimento direto e 56.421 fazendas de abastecimento indireto à JBS. Cada um desses fornecedores forneceu um ou mais lotes de gado.
  • Localize fornecedores geograficamente . Usando o R studio, a correspondência de strings foi realizada para combinar o conjunto de dados “fornecedor identificado pela JBS” com o cadastro e registros de propriedade do SIGEF e SNCI para os seis estados no escopo desta análise. Para evitar falsos positivos, os registros só foram incluídos se uma correspondência foi encontrada entre os conjuntos de dados em; a) o nome do proprietário; b) o nome da fazenda; ec) o município da fazenda. Se duas ou menos dessas métricas corresponderem, os fornecedores serão excluídos de análises posteriores. Por meio deste método, foram localizadas um total de 983 fazendas de abastecimento direto e 1.874 fazendas de abastecimento indireto. Dois shapefiles com dados georreferenciados foram criados no QGIS (“JBS localizadas em fazendas de fornecimento direto” e “JBS localizadas em fazendas de fornecimento indireto”).

3. Análise de dados e verificações de qualidade

Os shapefiles “JBS localizada em fazendas fornecedoras diretas” e “JBS localizada em fazendas fornecedoras indiretas” foram posteriormente utilizados como mapa base para a análise do desmatamento e vegetação remanescente, através das seguintes etapas:

Sobreposição de dados de desmatamento do PRODES.  O CRR utilizou alertas confirmados de desmatamento do PRODES do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para os anos de 2008-2019. A CRR escolheu 2008 como ano limite por estar em linha com o Código Florestal Brasileiro. Os dados de desmatamento foram cruzados com os dois shapefiles para calcular o desmatamento em cada propriedade localizada, resultando em um total de 20.296 ha para as 983 fazendas de abastecimento direto e 50.852 ha para as 1.874 fazendas de abastecimento indireto.

Sobrepor os dados de vegetação remanescentes.  O CRR usou dados históricos de desmatamento do INPE para a Amazônia desde 1988, e o mapa de base de vegetação nativa FREL de 2000 para o Cerrado. A CRR calculou a área total de terras para as fazendas de abastecimento indireto e diminuiu todas as mudanças na vegetação nativa desde o início desses cronogramas. No entanto, a CRR não realizou esse cálculo para a cadeia de suprimentos direta, partindo do pressuposto de que os próprios sistemas de monitoramento da JBS mitigariam o risco de futura supressão de vegetação nativa nessas propriedades. Os cálculos resultaram em uma projeção de 2,1 milhões de ha de floresta e outros tipos de vegetação nativa remanescentes nas fazendas de abastecimento indireto localizadas.

Projeções da pegada do desmatamento na cadeia de suprimentos direta e indireta. A fim de extrapolar os achados de nossa amostra, o CRR calculou médias para o desmatamento por propriedade. Para as fazendas de abastecimento direto localizadas, a CRR calculou uma média de 20,65 ha por propriedade (20.296 ha de desmatamento dividido por 983 propriedades localizadas). A CRR multiplicou essa média pelo total de 9.730 fazendas de abastecimento direto identificadas para chegar à projeção estimada de 200.000 ha de desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS desde 2008. Esse cálculo foi repetido para as fazendas de abastecimento indireto, resultando em um desmatamento médio maior por fazenda de 27,14 ha por propriedade. A estimativa extrapolada para as 56.421 fazendas de abastecimento indireto identificadas resultou em um número de 1,5 milhão de ha desmatados desde 2008.

Verificações de qualidade. O CRR conduziu uma série de verificações de qualidade durante várias fases da análise de dados. Esses incluem:

  • Confirmação de que os frigoríficos listados como destino nos registros do GTA ainda são de propriedade da JBS por meio da comparação do registro com a lista de ativos constante do documento de referência societário da JBS  .
  • Retirar os registros duplicados de imóveis localizados que possuem registros SIGEF e SNCI para evitar dupla contagem.
  • Cruzando alertas de desmatamento com limites de propriedades para excluir áreas desmatadas que ultrapassam os limites das fazendas.
  • Realizar, em cada etapa da análise, verificações de qualidade das amostras para garantir o funcionamento adequado dos scripts aplicados.
  • Cálculo do desmatamento médio por fazenda para ambas as propriedades com e sem desmatamento para balancear as estimativas projetadas para a exposição total ao risco de desmatamento da JBS e levar em conta a realidade de que nem todas as fazendas fornecedoras apresentam desmatamento.
  • Usando a equação de Cochrane para escolher um tamanho de amostra para uma grande população (Equação 1), para garantir a representatividade de nossa amostra. Com essa fórmula, pode-se determinar que o uso de dados de 384 fazendas seria suficiente para uma amostra representativa. Usamos 983 fazendas, o que é aproximadamente 10 por cento das 9.730 fazendas de fornecimento direto identificadas nos GTAs.

Equação 1: Equação de Cochrane: 

n0

é o tamanho da amostra necessário, Z é o valor z (encontrado em uma tabela z), p é a estimativa de quantas fazendas têm desmatamento (0,5 assume variabilidade máxima; que metade das fazendas contém desmatamento e a outra não), e é o nível desejado de precisão (neste caso 95%) eq é 1-p. 

n0 = Z2pqe2

n0 = (1,96) 2 (0,5) (0,5) 0,052

n0 = 384,16 fazendas

  1. Limitações metodológicas

 

Os dados e métodos analíticos do CRR apresentam uma série de limitações que merecem cautela na interpretação dos resultados apresentados. Eles incluem:

  • Estimativas e projeções conservadoras. Fizemos uma série de escolhas que resultaram em estimativas mais cautelosas e subnotificação potencial dos totais. Esses incluem:
    • Não atribuindo desmatamento adjacente, mas fora dos limites da fazenda. Em vários casos, os alertas de desmatamento transgridem os limites das fazendas. A CRR excluiu todo o desmatamento que ocorreu fora dos limites das fazendas de nossos cálculos, apesar da probabilidade de que sejam parte de um único evento de desmatamento. Consulte a Figura 1a abaixo para obter um exemplo.
    • Projeções baseadas em registros GTA 2019. O CRR projeta a pegada total do desmatamento no número de propriedades incluídas em nossos registros de GTA de 2019. Com isso, exclui fornecedores da JBS que não forneciam para a empresa em 2019, mas sim em outros anos. Também exclui quaisquer fornecedores com registros GTA defeituosos, fraudulentos ou ausentes.
    • Os dados não abrangem os estados amazônicos de Rondônia e Acre. O conjunto de dados GTA não incluiu dados para esses dois estados da Amazônia. São estados com desmatamento significativo nos últimos anos e onde a JBS está presente. As cadeias de suprimento direta e indireta de seus dois frigoríficos em Rondônia e um frigorífico no Acre não estão incluídas em nossos cálculos.
    • A análise não cobre a cadeia de suprimentos de terceiro nível e além. A análise é baseada em fornecedores identificados no primeiro e segundo níveis da cadeia de suprimentos da JBS. Exclui quaisquer fazendas que possam ser posteriormente removidas do matadouro. O gado normalmente muda de propriedade em propriedade várias vezes durante sua vida e quaisquer riscos de desmatamento nessas camadas também são totalmente não mitigados.
  • Sem distinção entre desmatamento legal e ilegal. Esta análise não faz distinção entre desmatamento legal e ilegal e não faz nenhuma reclamação de práticas ilegais por parte da JBS ou de qualquer um de seus fornecedores, exceto se referindo a relatórios de terceiros. Em particular no bioma Cerrado, a maior parte do desmatamento está dentro do escopo do Código Florestal Brasileiro.

chr 1

Obs: O desmatamento é indicado em vermelho e uma fazenda de abastecimento direto da JBS em amarelo. Os eventos de desmatamento na parte inferior da fazenda são todos parte de um evento, embora apenas parte dele contará como desmatamento desta fazenda

fecho

Este relatório foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!   ].

Amazônia ‘condenada à destruição’ com a proliferação de incêndios

 O fogo e o desmatamento marcam a reserva florestal nacional do Iriri, perto de Novo Progresso, na Amazônia brasileira. ‘Essa história de que a Amazônia está pegando fogo é uma mentira’, disse o presidente Jair Bolsonaro. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

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A vasta floresta tropical está experimentando uma repetição das chamas devastadoras do ano passado e os críticos dizem que Bolsonaro tem a responsabilidade final

Por Lucas Landau em Novo Progresso e Tom Phillips para o The Guardian

Jair Bolsonaro sorri de um outdoor de propaganda na entrada desse posto avançado da Amazônia, dando as boas-vindas aos viajantes em sua “rota para o desenvolvimento”.

Mas 20 meses após a presidência de Bolsonaro – e um ano após a eclosão devastadora de incêndios na Amazônia causou indignação global – os incêndios estão de volta, e muitos temem que o líder do Brasil esteja conduzindo seu país para a ruína ambiental.

novo progressoA entrada de Novo Progresso. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

Durante um voo de monitoramento de duas horas pelos céus ao redor de Novo Progresso, o Guardião viu colunas gigantes de fumaça branca e cinza subindo das florestas supostamente protegidas abaixo.

Em outros lugares, minas de ouro ilegais podiam ser vistas dentro do território indígena Baú – uma tapeçaria caótica de poças lamacentas e acampamentos improvisados ​​onde antes existia uma floresta intocada. Áreas recentemente desmatadas de árvores caídas e carbonizadas eram visíveis dentro da reserva florestal de Iriri.

“A Amazônia está condenada à destruição”, desesperou-se um ex-alto funcionário do enfraquecido órgão ambiental brasileiro , o Ibama, acusando o populista de extrema direita de supervisionar uma “demolição” por atacado dos esforços de proteção.

“Sob este governo não haverá combate [à destruição da floresta]”, disse o ex-funcionário. “O futuro parece sombrio.”

Em 2020 já ocorreu o mesmo número de queimadas ocorridas em 2019

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Sob pressão de investidores estrangeiros, governos e líderes empresariais brasileiros para evitar uma repetição do escândalo do ano passado – quando celebridades e líderes mundiais como Leonardo DiCaprio e Emmanuel Macron condenaram o tratamento que Bolsonaro deu à Amazônia – o governo brasileiro partiu para a ofensiva.

“Essa história de que a Amazônia está pegando fogo é uma mentira”, Bolsonaro insistiu no início deste mês, apesar das evidências crescentes em contrário.

Em maio, milhares de soldados foram enviados à Amazônia como parte de uma missão militar supostamente projetada para reduzir o crime ambiental – mas que alguns afirmam estar piorando as coisas .

Em julho, com o aumento da pressão de investidores internacionais , o Brasil anunciou a proibição de queimar por quatro meses, com o objetivo de tranquilizar o mundo de que algo estava sendo feito.

Mas imagens de satélite recolhidas pela própria agência espacial brasileira, Inpe, sugerem que esses esforços estão aquém. Em agosto, foram detectados mais de 7.600 incêndios no Amazonas – um dos nove estados que compõem a Amazônia brasileira – o maior número desde 1998 e quase 1.000 a mais que no ano passado. Na terça-feira, o Inpe anunciou que em toda a região amazônica foram detectados mais de 29.307 incêndios em agosto – o segundo maior número em uma década e apenas um pouco menos que o número do ano passado de 30.900.

guardian 4Uma área de garimpo ilegal chamada Coringa, localizada na terra indígena Baú, Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

O Greenpeace calculou que, apesar da mobilização militar e da proibição das queimadas, houve apenas uma redução de 8% nos incêndios entre meados de julho e meados de agosto, em comparação com o ano passado.

“Estamos vendo a tragédia do ano passado se repetir”, disse Rômulo Batista, ativista do Greenpeace em Manaus, capital do Amazonas.

Durante um recente vôo de vigilância sobre quatro estados da Amazônia – Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Pará – Batista também testemunhou cenas chocantes de devastação.

“Vimos pastagens que estavam queimando, áreas desmatadas que estavam queimando, áreas de floresta que estavam queimando. E era óbvio que lá embaixo na floresta abaixo de nós ninguém estava ficando em casa [por causa do coronavírus] ”, disse ele.

“Todos – madeireiros ilegais, grileiros, mineiros ilegais – estão todos trabalhando e, ainda mais do que o normal, seguros de que as inspeções do governo foram reduzidas por causa da pandemia .”

Um monitor da ONG indígena Instituto Kabu, que organizou o voo monomotor do Guardian sobre o estado do Pará, disse: “Houve um aumento flagrante da mineração ilegal e da extração de madeira nos últimos dois anos. A falta de fiscalização do Ibama e da Polícia Federal nessa região acabou incentivando crimes ambientais em terras indígenas ”.

Bep Protti Mekrãgnoti Re, um cacique do povo indígena Kayapó, disse que suas comunidades estão pagando um alto preço pela postura anti-ambiental do governo.

guardian 5Protesto de indígenas Kayapó  que bloqueou a rodovia BR-163 próximo a Novo Progresso, no Pará, no dia 17 de agosto. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

“O que o desenvolvimento de Bolsonaro significa é a destruição dentro de nossa reserva”, disse Bep Protti, que recentemente liderou um bloqueio de uma semana da rodovia Amazônica cortando Novo Progresso para exigir proteção.

Ele pediu uma ação urgente para monitorar e proteger as florestas da região e a vida selvagem em seu interior: “É com a floresta e os rios que eu me alimento”.

O cacique disse que dois modelos de desenvolvimento se enfrentam atualmente na Amazônia: “o desenvolvimento da destruição” e o “desenvolvimento sustentável da construção e do conhecimento”.

Os ambientalistas têm certeza de qual modelo Bolsonaro – que assumiu o cargo em janeiro de 2019 prometendo abrir a Amazônia e suas reservas indígenas ao desenvolvimento – está buscando.

“Este é sem dúvida o pior momento em mais de 30 anos que vivemos no Brasil. E infelizmente era totalmente esperado porque o presidente foi eleito graças à sua retórica anti-ambiental – e agora ele está cumprindo essas promessas ”, disse Carlos Rittl, um ambientalista brasileiro que trabalha no Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha.

“O sentimento é de desolação”, disse Rittl, acrescentando: “2020 vai ser um ano terrível”.

guardian 6 Incêndio em fazenda na região de Novo Progresso, no Pará, no dia 25 de agosto. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

Batista comparou a abordagem de Bolsonaro aos incêndios florestais ao seu manejo negador do coronavírus , que já matou mais de 120.000 brasileiros. O populista de extrema direita esperava negar as imagens de satélite e a ciência e projetar “um ar de normalidade” para o mundo “assim como fez com a COVID-19”. “Infelizmente, isso simplesmente não é verdade.”

O ex-funcionário do Ibama foi igualmente pessimista, alegando que suas operações estavam “completamente paralisadas” e as políticas ambientais do Brasil em frangalhos. A organização, sofrendo com anos de cortes, tinha apenas seis helicópteros para policiar os 2,1 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, com planos de tirar mais dois deles fora de serviço. “Se você me perguntar, para combater o desmatamento precisaríamos de pelo menos 12.”

Na semana passada, o ministro do meio ambiente do Brasil anunciou que todas as operações anti-desmatamento deveriam ser interrompidas, embora isso tenha sido revertido após um protesto.

Rittl chamou os últimos incêndios – que devem continuar até outubro – de “uma tragédia prevista” e a consequência de “um governo absolutamente sem compromisso com o meio ambiente”.

“Sob Bolsonaro, o Brasil está se tornando talvez o maior inimigo global do meio ambiente. É tão triste ver ”, disse ele. “Um pequeno número de pessoas enriquece muito com isso – e todos nós perdemos.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Artigo científico mostra que extração de madeira em florestas ocorre como fenômeno desagregado do desmatamento

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Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Ciência Florestal, que é publicada pela Universidade Federal de Santa Maria, aborda a questão da  extração seletiva de madeiras no estado do Mato Grosso. Nesse estudo, no qual tive a oportunidade de colaborar, é discutida a dinâmica espaço-temporal da extração seletiva de madeiras no estado de Mato Grosso com base em um série temporal  de dados de florestas exploradas seletivamente entre 1992 e 2016, usando dados de sensoriamento remoto.

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Os dados apresentados no artigo foram gerados a partir da interpretação visual e a classificação semiautomática de imagens Landsat que foram utilizadas para detectar a alteração de florestas pelas atividades de extração seletiva de madeiras.

Com base nos resultados obtidos,  foi estimado que 41.926 km2 de florestas nativas foram exploradas ao menos uma vez em Mato Grosso entre 1992 e 2016, com uma área média anual de 1.747 km2 (ver figura abaixo).

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As florestas exploradas seletivamente e detectadas com distúrbios persistentes ou recorrentes foram mais frequentes nos anos mais recentes do período analisado.  Uma constatação importante do estudo foi que a maioria das florestas exploradas seletivamente na área e no período de estudo não foram desmatadas até 2016.  Este fato indica que a extração seletiva de madeiras consiste em um fenômeno desagregado do desmatamento no estado de Mato Grosso (ver figura abaixo).

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Este estudo mostra que a exploração madeireira impacta uma grande extensão de florestas nativas anualmente no estado de Mato Grosso e, por isso, precisa ser devidamente considerada e monitorada pelos órgãos ambientais devido aos seus potenciais impactos nas florestas.

Quem desejar baixar este artigo na íntegra, basta clicar [Aqui!].

A floresta tropical do Brasil está queimando como não fazia há muito tempo: 7766 íncêndios só no estado do Amazonas

O governo Bolsonaro anunciou que trabalharia para proteger a floresta tropical. Mas, aparentemente, isso foi apenas conversa fiada. Dados de satélite mostram que o número de incêndios na Amazônia continua aumentando.

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Fogo na região amazônica no município de Novo Progresso, estado brasileiro do Pará. Foto: Andre Penner / dpa

O estado brasileiro do Amazonas tem quase metade do tamanho da Alemanha. Nele encontra-se grande parte da floresta tropical da região, a vasta área é monitorada do espaço há anos. Dados confiáveis ​​sobre o estado dos pulmões verdes do planeta são importantes. Agências espaciais como a NASA ficam de olho na área, mas o inventário do espaço é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E , finalmente, os relatórios dos especialistas não foram nada encorajadores : já havia relatórios dramáticos em junho e julho sobre o alto número de incêndios na região.

Também neste mês, os dados de satélite comprovam uma tragédia: as imagens do Inpe mostram nada menos que 7.766 incêndios no estado do Amazonas entre 1º e 30 de agosto. Este é o valor mais alto para este mês desde o início da pesquisa em 1998.

A estação seca nesta região vai de julho a novembro. Agosto é geralmente considerado um dos meses mais secos. No entanto, a floresta amazônica não pega fogo sozinha. De acordo com especialistas, a maioria dos incêndios é iniciada para fornecer terras para agricultura e pecuária.

Muitas queimadas ocorrem ao longo das estradas da área. Os produtos feitos com o auxílio das áreas desmatadas são exportados para diversos países, inclusive para a Europa. Assim, um estudo recentemente mostrou que nas exportações brasileiras de carne bovina cerca de 17 por cento para alimentar os animais relacionados à soja da ex-floresta tropical e savana se originam em áreas desmatadas ilegalmente.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Die Spiegel [Aqui!].