The Intercept Brasil desmente Paulo Guedes: são os ricos e não os pobres que mais desmatam a Amazônia

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Por Alceu Luís Castilho e  Leonardo Fuhrmann para o The Intercept Brasil

Em parceria com o 

O PIOR INIMIGO DO MEIO AMBIENTE É A POBREZA”, sentenciou o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante uma apresentação no Fórum Econômico Mundial em janeiro. “As pessoas destroem o ambiente porque precisam comer”, ele disse, em Davos, na Suíça. É mentira – e a gente pode provar com números. Durante meses, nos debruçamos sobre 284.235 multas por desmatamento nos últimos 25 anos. E descobrimos que os maiores destruidores do meio ambiente – principalmente da Amazônia – não são os pobres. São algumas das pessoas mais ricas e poderosas do Brasil.

Dados públicos do Ibama, o órgão do governo federal responsável pela preservação do meio ambiente, compilados e analisados pelo De Olho nos Ruralistas, mostram que os 25 maiores desmatadores da história recente do país são grandes empresas, estrangeiros, políticos, uma empresa ligada a um banqueiro, frequentadores de colunas sociais no Sudeste e três exploradores de trabalho escravo

Os 25 maiores desmatadores somaram mais de R$ 50 milhões em multas entre 1995 e 2019. No total, suas centenas de autuações chegam a R$ 3,58 bilhões, praticamente o orçamento do Ministério do Meio Ambiente inteiro para 2020. Corrigido, o valor chegaria a R$ 6,3 bilhões. Sozinhos, os campeões da destruição são responsáveis por quase 10% do total de multas aplicadas por devastação de flora desde 1995 – R$ 34,8 bilhões.

A imensa maioria deles jamais pagou suas multas e acumula outras dívidas com o poder público. Os valores, que são proporcionais à área desmatada, mostram que quem destrói a floresta não são as pessoas pobres, como defende Paulo Guedes, e que o desmatamento não é ‘cultural’, como diz Bolsonaro. A destruição é movida a dinheiro – muito dinheiro – e uma boa dose de impunidade.

DEVO, NÃO PAGO, VOLTO A DESMATAR

O levantamento, feito a partir das autuações por crimes contra a flora – há outros tipos de multas no Ibama –, abrange dois grandes grupos: as pessoas físicas e jurídicas que participaram de desmatamentos e aquelas que se beneficiaram diretamente de produto vindo de área desmatada, como na compra de madeira sem certificação de origem. A enorme base de dados foi analisada a partir dos infratores que tiveram multas acima de R$ 1 milhão. Somando os valores, chegamos aos maiores multados dos últimos 25 anos.

O valor base da multa na região da Amazônia Legal é de R$ 5 mil por hectare. As multas podem ser maiores quando há no lugar espécies raras ou ameaçadas de extinção ou no caso de áreas de reserva ou proteção permanente. Boa parte das multas recebidas pelos recordistas se encaixa nesses agravantes.

Na lista, chama a atenção a repetição de nomes. Dos 25 campeões de infrações por desmatamento do país, só um – Agropecuária Vitória Régia – recebeu uma única multa. Os outros 24 foram reincidentes. Uma das empresas que aparecem no ranking, a Cosipar, levou multas em nada menos do que 16 anos diferentes. O valor chega a R$ 156,9 milhões – destes, R$ 155 milhões ainda não foram pagos.

GRILEIROS, BILIONÁRIOS E CONDENADOS

inter1Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept Brasil

No ranking, o campeão das multas é o Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, órgão federal responsável pelo assentamento de camponeses. Mas isso não significa que os assentados tenham sido os responsáveis pelo desmatamento: muitos locais onde foram aplicadas as multas já não são, de fato, assentamentos. Eles são focos de grilagem de terras como São Félix do Xingu, no sul do Pará: das 15 multas milionárias recebidas pelo Incra em 2012, 12 foram aplicadas no município, capital da pecuária em terras do governo federal. Como a terra não tem um dono oficial, a culpa recai sobre o órgão federal que detém sua posse.

Em segundo lugar no ranking está a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, empresa dos fundos de investimentos geridos pelo banco Opportunity, de Daniel Dantas. A empresa, comandada pelo ex-cunhado de Dantas, Carlos Rodenburg, acumula multas de mais de R$ 325 milhões.

Em 2009, a AgroSB, como é conhecida, declarava ser dona de mais de 500 mil hectares de terra, onde eram criadas mais de 500 mil cabeças de gado. À justiça, a empresa disse que não cometia desmatamento, mas que adquiriu áreas já degradadas. O argumento foi rejeitado, e a empresa voltou a ser autuada, em valores milionários, em 2010, 2011 e 2017. Não foi o único problema: em 2012, pessoas em condições análogas à escravidão foram resgatadas na fazenda.

Atualmente, a agropecuária tem dez áreas embargadas pelo Ibama para recuperação da vegetação, em Santana do Araguaia, no Pará, e São Félix do Xingu. A maior delas tem mais de 2,3 mil hectares, um território do tamanho de metade da Floresta da Tijuca, na Amazônia. Em nota ao Intercept, a AgroSB atribui diversas multas à uma “perseguição direcionada à companhia” entre 2008 e 2010. Segundo a empresa, essas multas, em sua maioria, “vêm sendo cancelados pela Justiça e pelo órgão ambiental em razão da falta de fundamentos fáticos ou jurídicos”. Segundo AgroSB, o valor das multas canceladas chega a R$ 20 milhões.

Daniel Dantas também tem mais um nome ligado a ele na lista: o fazendeiro Tarley Helvecio Alves, que ocupa a 18ª posição. Alves foi administrador da fazenda Caracol, de propriedade de Verônica Dantas, irmã e sócia de Daniel no banco Opportunity. Com três áreas embargadas em Cumaru do Norte, também no Pará, as multas dele chegam a R$ 70 milhões.

Antonio José Junqueira Vilela Filho, o terceiro da lista, é conhecido no Intercept. Em 2017, contamos como o pecuarista e sua família, frequentadores de colunas sociais em São Paulo, foram denunciados pelo Ministério Público Federal por grilagem de terras e exploração de trabalho escravo na região de Altamira, no Pará.

ENTRE MULTAS E VOTOS

inter 2Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept Brasil

O ranking mostra que as multas não são suficientes para frear os crimes ambientais. Preso em 2014 pela Operação Castanheira, realizada pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, o fazendeiro Giovany Marcelino Pascoal foi condenado por desmatamento em 2018. Não adiantou: ele voltou a ser multado pelo Ibama em 2019. Pascoal, o segundo maior reincidente da lista, atua na região de Novo Progresso, onde foi organizado em agosto passado o Dia do Fogo, ação de desmatadores em defesa do governo Bolsonaro. Desde 2010, ele aparece oito vezes nas listas daqueles com multas anuais acima de R$ 1 milhão. Ao Intercept, Pascoal disse por telefone que está recorrendo e que algumas multas não são responsabilidade dele, mas não especificou quais.

Outro nome da lista é velho conhecido no rol dos reincidentes em desmatamento na Amazônia. O fazendeiro Laudelino Delio Fernandes Neto, dono da Agropecuária Vitória Régia (a nona no ranking), chegou a ser acusado de ter facilitado a fuga de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, apontado como mandante do assassinato da missionária católica Dorothy Stang em Anapu, no Pará, em 2005. Ele ainda foi denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios de mais de R$ 7 milhões da Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia.

Vice-prefeito de Anapu, eleito em 2008, e candidato a prefeito no município em 2012, Delio Fernandes declarou ao Tribunal Superior Eleitoral possuir R$ 10,2 milhões em bens, sendo R$ 9 milhões relativos a 9 mil hectares em Anapu e Senador José Porfírio. Seu irmão, Silvério Albano Fernandes, foi vice-prefeito de Altamira e teve seu nome especulado para assumir a chefia do Incra na região no governo Bolsonaro, para o qual fez campanha.

Delio Fernandes não é o único político da lista. Entre os 25 maiores desmatadores, há o ex-deputado federal Antonio Dourado Cavalcanti. Deputado entre as décadas de 1950 e 1970, ele era líder do grupo do qual fazia parte a Destilaria Gameleira, com sede em Mato Grosso. A usina condenada por manter mais de mil escravos – o maior resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão dos últimos anos – também está no ranking. Com R$ 69 milhões em multas, ela ocupa a 19ª posição.

Na lista de políticos, o ranking também tem José de Castro Aguiar Filho, atual prefeito de Flora Rica, no oeste paulista, pelo MDB. Suas multas milionárias em São José do Xingu, no Mato Grosso, não o impediram de ganhar as eleições na pequena cidade com quase 80% dos votos válidos.

SIDERÚRGICAS DESTROEM MAIS DO QUE MADEIREIRAS

inter 3Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept Brasil

Entre os 25 maiores destruidores, 13 são empresas. Onze delas têm capital aberto, listadas na Bovespa. Se engana quem pensa que madeireiras e carvoarias são as vilãs: as empresas que mais desmatam são, em sua maioria, ligadas à siderurgia e à agropecuária.

Siderúrgicas são listadas porque se beneficiam diretamente da retirada de madeira para o uso do carvão. Para elas, apesar das multas – que geralmente não são pagas –, sai mais barato comprar madeira oriunda de áreas protegidas do que respeitar os devidos ritos legais de proteção ambiental. A Siderúrgica Norte Brasil S/A e a Sidepar ocupam, respectivamente, a terceira e a quarta posições no ranking, e, juntas, acumulam mais de R$ 500 milhões em multas.

O setor agropecuário é representado não apenas pela pecuária, mas também por causa da produção de soja em larga escala. Também é comum que o mesmo empresário tenha uma madeireira e uma empresa de grãos, ou crie gado e, ao mesmo tempo, tenha uma companhia de outro setor – de bancos a empreiteiras.

Duas das empresas listadas têm capital internacional. Uma é a Ibérica, uma sociedade entre empresários bascos. A outra é a Gethal Amazonas Madeiras Compensadas, controlada pelo milionário sueco Johan Eliasch e que tem uma empresa uruguaia entre seus sócios.

A Gethal é a única do setor de madeiras na lista dos 25 – contrariando o senso comum sobre o desmatamento na Amazônia. Assim como só há uma do setor de carvão, matéria-prima das siderúrgicas, a Líder. A constante alteração de nomes e CNPJs das empresas dos dois setores, com sócios em comum, diminui a reincidência em multas ao longo dos anos.

MAIORES DESTRUIDORES, MAIORES CALOTEIROS

inter 4Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept Brasil

A atual legislação ambiental brasileira, que determina as multas, só foi consolidada no fim dos anos 1990. Na década anterior, só há dez autuações por crimes contra a flora nos registros do Ibama. E os valores eram irrisórios: em 1996, por exemplo, foram aplicadas 22 multas de R$ 0,01. O cenário começou a mudar em 1998, com a lei 9.605, de crimes ambientais, que estipulou regras e valores maiores em multas para destruidores da floresta.

Os números mostram que, ao longo das duas décadas de aplicação da lei, ela afetou principalmente grandes desmatadores. De um total de R$ 34 bilhões em multas por destruição de flora entre 1995 e 2000, R$ 25 bilhões (73,5%) foram aplicados a 4,6 mil pessoas físicas e jurídicas que, em pelo menos um ano do período analisado, tiveram infrações somadas acima de R$ 1 milhão.

As sanções, no entanto, não significam que a punição resolve o problema. O Intercept já mostrou que, do total de R$ 75 billhões em multas ambientais já aplicadas desde os anos 1980, só 3,3% foram efetivamente pagos (e o governo tem tomado medidas para receber ainda menos). O valor poderia sustentar o Ministério do Meio Ambiente inteiro por 21 anos.

Os pequenos infratores – que o governo insiste em culpar pela destruição do meio ambiente – são os que mais pagam multas. Já os maiores, responsáveis pela destruição das partes mais extensas da floresta, deixam os processos prescreverem e continuam desmatando.

O Intercept tentou entrar em contato com os 25 listados por meio do número de telefone listado na Receita Federal. Os dois números da Destilaria Gameleira não funcionam. A página cadastral da empresa de Jeovah Lago Silva, Minuano Sementes, não dispõe de meio de contato. Carlos Alberto Mafra Terra foi contatado por telefone e e-mail, sem sucesso. A Líder Ind e Com de Carvão Vegetal LTDA EPP foi contatada por meio de um e-mail no diretório da Receita Federal, mas a mensagem retornou. Paulo Diniz Cabral da Silva foi contatado por e-mail e WhatsApp, mas não houve resposta. Os telefones de José de Castro Aguiar Filho e Tarley Helvecio Alves, listados na Receita Federal, não funcionam.

Veja a lista completa dos 25 desmatadores mais multados entre 1995 e 2020:

desmatadores

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Esta reportagem foi inicialmente publicado pelo site “The Intercept Brasil” [Aqui! ].

Governo Bolsonaro finge mudança de curso na Amazônia para escapar de crescente isolamento global

bolsonaro amazoniaPressionado em várias frentes, o governo Bolsonaro finge, apenas finge, que vai mudar de curso na Amazônia

As notícias que estão vindo de fontes independentes em Davos dão conta do profundo isolamento em que o Brasil foi colocado pelas políticas “anti tudo o que está aí” do governo Bolsonaro. O resultado prático disso é que, apesar das tentativas da mídia corporativa de mais uma vez “passar o pano” para Jair Bolsonaro e seus ministros maluquinhos, a imagem do Brasil está mais queimada do que as floresta da Amazônia, e até os grandes fundos de investimento internacionais estão dizendo que não colocarão seu dinheiro especulativo no mercado brasileiro se não houver uma mudança urgente e profunda de curso. A coisa ficou ainda pior com  a publicação do relatório  da “Human Rights Watch”, respeitada organização não-governamental,  acerca dos resultados nefastos do desmanche promovido pelo governo Bolsonaro na governança ambiental na Amazônia.

Como mudar de curso não é o forte da turma comandada pelo presidente Jair Bolsonaro, a saída adotada até agora é fingir que se está mudando de curso para continuar a torrar as florestas amazônicas.  A principal prova disso é o anúncio da criação do “Conselho da Amazônia” e de uma “Força Nacional Ambiental” que, em tese, serviriam para aplacar a ira de celebridades internacionais, governos e investidores contra a postura anti-ambiental do governo brasileiro.

Essa sinalização certamente será recebida com suspeição por todos os que têm se manifestado contra a postura objetiva do governo Bolsonaro que, ao longo de 2019, permitiu uma escalada do desmatamento, invasão de terras indígenas, assassinatos de ativistas ambientais, e um aumento significativo no número de queimadas. É que, ao contrário do que imaginam o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas e terraplanistas, há uma pressão global para que sejam feitos avanços objetivos na contenção dos efeitos das mudanças climáticas, motivo pelo qual há uma considerável preocupação com o descontrole do processo de remoção de florestas tropicais, principalmente na Amazônia brasileira.

Para complicar ainda mais o enredo, o governo Bolsonaro conseguiu desarticular algo que sempre funcionou bem, a despeito do governo de plantão. Falo aqui da diplomacia brasileira que, até a chegada de Ernesto Araújo ao posto de ministro de Relações Exteriores, era tida como profissionalmente pragmática. Agora o que se vê é um ministro fortemente decidido a nos submeter aos interesses do governo dos EUA, e que vem assumidamente atuando para remover o pragmatismo da diplomacia brasileira para substituí-la por uma ação fortemente ideológica. 

O resultado disso tudo é que o descrédito em relação ao Brasil nunca foi tão alto, o que coloca em risco os interesses econômicos até do latifúndio agro-exportador cuja maioria de seus membros apoiou Jair Bolsonaro desde o seu início da sua corrida presidencial.  

Como não acredito em mudança real na forma de gerir a questão ambiental por parte de Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, não ficarei surpreso se o cenário de evasão de investidores se aprofundar, e boicotes de parceiros econômicos importantes se materializarem ao longo de 2020. Quem sabe aí os verdadeiros comandantes da economia e da política brasileira ajam para conter o estrago que já se desenha em um horizonte bastante próximo.

E antes que eu me esqueça: o relógio está correndo junto com as motosserras e correntões em diferentes partes da Amazônia brasileira. Se nada for feito para impedir o que já está acontecendo, 2020 será outro ano de números explosivos de desmatamento e queimadas. Aí, provavelmente, começaremos a ver as consequências da perda de paciência do resto do mundo com o governo Bolsonaro e sua atitude piromaníaca com as nossas florestas. Tic-tic-tac-tic-tac……

 

Voz da Alemanha divulga dados sobre perda massiva de florestas tropicais no Brasil

No ano passado, mais de 9.000 quilômetros quadrados de floresta foram desmatados na Amazônia. Isso é 85% a mais do que em 2018. Os números são do Instituto Internacional de Pesquisa Espacial do Brasil, reconhecido internacionalmente.

dw 1Construção de estradas na área de selva na Amazônia

Os dados foram coletados para o Instituto de Pesquisas Espaciais do INPE, utilizando o sistema DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), baseado em satélite, que monitora o desmatamento em tempo real. Com a ajuda de algoritmos, o programa DETER é capaz de detectar imediatamente alterações na cobertura florestal de mais de 25 hectares.

De acordo com os dados do DETER, 9.166 Km2 de floresta tropical foram desmatados na região amazônica em 2019. Uma área que corresponde aproximadamente ao tamanho da ilha mediterrânea de Chipre. Em 2018, 4.946 Km2 de floresta tropical foram perdidos devido ao desmatamento. Uma área maior que 2019 foi limpa pela última vez na bacia amazônica há mais de uma década, segundo o INPE.

De acordo com os números oficiais mais recentes, o número de incêndios na floresta também foi cerca de 30% maior que no ano anterior.

dw2Madeira é removida de floresta no estado  de Mato Grosso

Pesquisadores e ambientalistas culpam o presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, pela crescente perda da floresta amazônica. Bolsonaro é criticado por colocar maior uso da maior área de floresta tropical do mundo sobre a conservação da natureza. O chefe de Estado vê a floresta tropical principalmente como potencial econômico e deseja abrir mais áreas para agricultura, mineração e geração de energia. Bolsonaro, que assumiu o cargo em janeiro de 2019, está intimamente aliado ao lobby agrícola brasileiro e duvida da responsabilidade humana pelas mudanças climáticas.

A Human Rights Watch pediu a Bolsonaro que repensasse suas políticas ambientais. As florestas amazônicas desempenham um papel central na estabilização do clima global.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Deutsche Welle (Voz da Alemanha) [Aqui!]. 

 

Pesquisadores publicam carta na Nature alertando sobre o potencial devastador de biocombustíveis na Amazônia

Amazônia: plano de biocombustíveis impulsionará o desmatamento

cana paráPlantio de cana no Pará, em meio à floresta | Flavya Mutran | Agência Pará

Por Lucas Ferrante & Philip M. Fearnside

A comunidade científica, os formuladores de políticas do Brasil e o público precisam tomar medidas coordenadas contra os planos de ampliação da produção de biocombustíveis às custas da floresta amazônica. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro suspendeu a proibição do cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia por decreto em novembro de 2019 para ajudar a impulsionar a produção de biocombustíveis do país. Os planos para produzir mais óleo de palma para biocombustível no estado de Roraima seguem a inauguração de uma planta de processamento no país em abril passado. E no oeste do estado do Amazonas, novas estradas poderiam abrir áreas anteriormente inacessíveis para plantações de palmeiras e impulsionar outros ciclos devastadores de desmatamento.

Depois que o presidente assumiu o cargo em janeiro de 2019 (CA Nobre Nature 574, 455; 2019), um consórcio do governo anunciou investimentos de 4,4 bilhões de reais (US $ 1,1 bilhão) em seis estados da Amazônia – Amazonas, Acre, Amapá, Mato Grosso, Rondônia e Roraima – para instalação de usinas movidas a etanol de milho. O etanol de milho foi escolhido por causa da proibição da produção de cana-de-açúcar, introduzida para conter o desmatamento e a perda de serviços ecossistêmicos essenciais para a agricultura brasileira e para mitigar as mudanças climáticas globais (L. Ferrante e P.M.Fearnside Science 359, 1476; 2018).

A suspensão da proibição aumenta a pressão já enorme sobre a floresta tropical, da pecuária, produção de soja, represas hidrelétricas e mineração.

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Esta carta foi originalmente publicada em inglês pela revista Nature [Aqui!].

Nestlé suspende compra de soja oriunda de desmatamentos na Amazônia

cargillNestlé suspendeu a aquisição de soja vendida pela Cargill como demonstração de que está comprometida com o combate ao desmatamento na Amazônia

A soja brasileira começou o ano sob o aviso da Federação Russa de que suas compras seriam suspensas caso o latifúndio agro-exportador não diminuísse o nível de resíduos do agrotóxico glifosato. Agora, nos estertores de 2019, o “The Wall Street Journal” (TWSJ) informa através de um artigo assinado pelo jornalista Jacob Bunge que a Nestlé informou à Cargill, corporação que controla parte significativa das exportações brasileiras de soja, que irá suspender as aquisições da principal commodity agrícola brasileira de áreas desmatadas na Amazônia.

wsj nestle

O artigo do TWSJ lembra que outras corporações multinacionais estão colocando obstáculos na compra de outras commodities brasileiras por causa da origem da produção em áreas desmatadas na Amazônia. Um dos casos mais expressivos foi o da Hennes&Mauritz que suspendeu a compra de couro brasileiro em julho até que os exportadores brasileiros demonstrem que seus produtos não são oriundos de áreas desmatadas na Amazônia.

É interessante notar que a Nestlé está sendo agora obrigada a adquirir soja produzida pelos EUA para substituir a produção oriunda da Amazônia, em que pese os custos mais elevados da produção estadunidense. Este fato demonstra que mesmo grandes corporações que possuem alta capilaridade e clara dominância no comércio mundial de alimentos estão optando por se afastar da produção brasileira por causa das questões sócio-ambientais que estão associadas ao avanço da franja de desmatamento para o interior de áreas até agora intocadas da Amazônia brasileira.

A importância e o peso econômico da Nestlé deverá gerar uma pressão adicional não apenas sobre outros grandes compradores da soja brasileira, mas de fornecedores que também são altamente dominantes na circulação de commodities agrícolas como é o caso da própria Cargill que está sendo alvo da Nestlé neste momento.

É importante notar que essa decisão da Nestlé foi ignorada pela mídia corporativa brasileira que continua “passando o pano” para a destruição acelerada dos biomas amazônicos que está sendo promovida pelo governo Bolsonaro e pelos governos estaduais dos estados da região. Entretanto, os barões do agronegócio (que até assinam o TWSJ) sabem  que terão de agir para não sofrerem um grande boicote já em 2020. Nesse sentido, apesar de todos os problemas que cercam a Nestlé, há que se reconhecer a importância de sua decisão.  Que o exemplo frutifique rapidamente em 2020!

Amazônia em 2020: mais desmate e queimadas, e violência explícita contra os povos indígenas

xreserva-indigena.jpg.pagespeed.ic.azlgR7Cj65Unidades de conservação e terras indígenas foram transformadas em áreas preferenciais de novos desmatamentos na Amazônia em 2019.

Os tradicionais votos de final de ano nos quais depositamos nossas melhores esperanças para o ano novo certamente continuarão sendo oferecidos, e muitos dos que os oferecerem certamente o farão com sinceridade. Entretanto, se olharmos para as perspectivas em relação à Amazônia brasileira, mantidas as práticas de desmanche e sucateamento impostas pelo governo Bolsonaro, o próximo ano deverá ser palco de um forte agravamento em três áreas que se mantiverem em níveis críticos em 2019: desmatamento, queimadas e violência contra os povos indígenas.

Que ninguém se iluda com a manutenção formal do Brasil no chamado Acordo de Paris sobre o Clima, pois a quantidade de negacionistas climáticos ocupando cargos chaves no governo Bolsonaro aniquila qualquer expectativa de que tenhamos uma postura responsável frente aos problemas que já estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil por causa das mudanças ocorrendo no clima global.   O claro antagonismo do governo  Bolsonaro em relação à manutenção do estoque de florestas primárias, que é uma das condições fundamentais para que haja qualquer viabilidade no cumprimento dos objetivos firmados em Paris, implica em total descompromisso com a proteção e a conservação da Amazônia. 

Essa oposição explícita do governo Bolsonaro à proteção e conservação dos biomas amazônicos continuará incentivando os saqueadores ilegais dos recursos naturais ali existentes, bem como levará a que mais grileiros de terras se sintam autorizados a invadir unidades de conservação e terras indígenas.  De quebra, ainda serão executados mais projetos governamentais envolvendo a construção de estradas e hidrelétricas. Desse processo combinado de agentes ilegais e da ação do Estado decorrerão taxas ainda mais elevadas de desmatamento, com a provável inovação da interiorização do arco de desmatamento que até hoje ficou restrito à porção mais ocidental da bacia amazônica.  E como desmate e fogo caminham juntos, também deverá crescer o número e a intensidade dos focos de incêndio, visto que estão de volta os grandes desmatamentos que marcaram o início da década de 1970.

No meio de toda esse desmatamento e fumaça, outra variável que deverá crescer ainda mais será a violência contra os povos indígenas, processo que deverá tomar ares ainda mais explícitos de genocídio. A razão para isso não é apenas o racismo incrustado nas práticas cotidianas dos inimigos das florestas contra os povos originários do Brasil. A causa do genocídio é simples e direta: os povos indígenas são protetores milenares das nossas florestas e sua existência representa um obstáculo ao avanço da destruição pela qual os saqueadores e grileiros exercem suas formas cruas de apropriação das riquezas amazônicas.

garimpoGarimpos ilegais ameaçam os povos indígenas e os ecossistemas naturais na Amazônia

De forma direta, a batalha pela Amazônia vai ser uma espécie de síntese da guerra que vamos travar ao longo de 2020 para determinar em que tipo de país queremos viver. É que o projeto de exploração via “economia de fronteira” que está sendo escancarado na Amazônia é apenas um prenúncio do que as forças ultraneoliberais encastelados no governo Bolsonaro pretendem fazer com todo o Brasil. Por isso, não há como subestimar o tamanho da disputa que se desenrola neste momento na Amazônia, e que deverá se agravar de forma aguda no próximo ano.  Mais do que em qualquer momento de nossa história, o destino do Brasil estará umbilicalmente conectado ao que acontecer na Amazônia.

Felizmente, há muita gente dentro e fora do Brasil atenta aos planos de destruição que estão sendo engendrados para transformar a Amazônia em um mosaico que mistura monoculturas e pastagens.  Unir os esforços de toda essa gente será uma das principais e inadiáveis tarefas que os defensores da natureza e de uma nação democrática terão que resolver. 

Mariane Crespolini, a doce face do negacionismo climático dentro do governo Bolsonaro

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Mariane Crespolini  em evento promovido pela Scot Consultoria onde proferiu a palestra intitulada “De que adianta adubar, se eu não sei meu custos?”: Fonte CEPEA USP/ Facebook

O fato do governo Bolsonaro estar repleto de figuras que rejeitam o conhecimento científico que atesta de forma inescapável a ocorrência de um processo de mudanças climáticas causadas pela ação humana não chega a ser novidade.  Nesse time nada seleto de negacionistas climáticos estão inclusos o próprio presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e também o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. 

Mas foi em uma “live” feita por Jair Bolsonaro que o Brasil pode conhecer, digamos, uma face mais doce do negacionismo climático que grassa no atual governo na figura da diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação na Secretaria de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação (SDI) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a doutoranda da Universidade de São Paulo,  Mariane Crespolini dos Santos (ver vídeo abaixo).

Como se vê nesse trecho,  Mariane Crespolini dá uma espécie de “aulão privé do negacionismo climático” a Jair Bolsonaro, à sua chefe imediata, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e a outros presentes no “evento”.

Dentre os diversos absurdos proferidos por Mariane Crespolini neste curto vídeo é de que “muito pesquisador bom, de credibilidade, que mostra que mudança climática não existe“.  Esse tipo de afirmação poderia até passar batida se quem a proferisse não tivesse sido treinada em duas das melhores universidades do Brasil e da América Latina, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É que apesar dessas instituições certamente possuírem docentes que negam as obviedades em torno da ciência das mudanças climáticas, elas também hospedam pesquisas de peso e de grande influência nos debates em curso em torno dos problemas causados por esse processo, a começar pelo pesquisador e professor do Departamento de Física, Paulo Artaxo, que é membro e importante contribuinte dos documentos científicos produzidos pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).

Assim, ao reduzir uma discussão que será estratégica até para o setor do qual ela é claramente uma expert, o da pecuária bovina, Mariane Crespolini não apenas presta um desserviço ao governo do qual participa, mas aos interesses dos segmentos mais vinculados ao comércio global, da qual ela é aparentemente membro (ver abaixo vídeo de 2017 onde Crespolini fala sobre preços de bois em confinamento).

É que como mostrou matéria publicada hoje pelo “The Guardian”, a pressão política e econômico sobre os grandes frigoríficos para que se desvinculem de fornecedores vinculados ao desmatamento na Amazônia está aumentando fortemente a partir da União Europeia.  Como já está demonstrada estreita ligação entre desmatamento e emissões de CO2 que aceleram as mudanças climáticas, Mariane Crespolini pode até estar tocando música para os ouvidos de seus chefes no governo Bolsonaro, mas também está aumentando os riscos de que o Brasil e sua produção agropecuária sejam duramente punidos nos próximos anos pelo que está acontecendo na Amazônia em termos de desmatamento e violência contra os povos indígenas.

Por outro lado, o ataque de Mariane Crespolini à ciência das mudanças climáticas faz parte, como eu disse, de um movimento feito por pesquisadores brasileiros de baixa ou nenhuma credibilidade contra um sólido corpo de conhecimento científico.  O problema é que até este momento não tenho visto uma ação firme dos estudiosos das mudanças climáticas para isolar essas vozes, de modo a impedir que tenham qualquer influência na formulação das políticas do Estado brasileiro que afetam a conservação das nossas florestas e, por que não, a estabilidade do comércio de nossas commodities agrícolas. 

A minha expectativa é que a partir dos resultados desastrosos que a participação da delegação brasileira na COP25 e nas restrições que isto trará para a balança comercial brasileira, o governo Bolsonaro a falar com quem entende do assunto e não com quem adota uma postura ideológica que despreza o conhecimento científico, como parece ser o caso de Mariane Crespolini,  para mostrar serviço aos setores mais atrasados e retrógrados do agronegócio exportador.

New York Times faz matéria devastadora sobre avanço do desmatamento na Amazônia sob Bolsonaro

O vídeo abaixo abre uma extensa e devastadora reportagem publicada hoje pelo jornal estadunidense “The New York Times” com a assinatura do jornalista Matt Sandy e imagens do fotógrafo Victor Moriyama. O título da matéria é ” The Amazon is completely lawless: the rainforest after Bolsonaro´s first year” (ou em bom português “A Amazônia está completamente sem lei: a floresta tropical depois do primeiro ano de Bolsonaro”,  deixa bem explícita sobre a relação estabelecida pelos editores do maior jornal do mundo entre o caos ambiental instalado na Amazônia e o desmantelamento das estruturas de comando e controle e de governança ambiental que existiam na Amazônia antes de assunção do governo Bolsonaro.

Erro
Este vídeo não existe

Obviamente uma matéria tão rica em dados científicos e imagens sobre o explosivo avanço do desmatamento nos biomas amazônicas não poderia ter vindo em momento pior para o Brasil, pois certamente o conteúdo da reportagem está sendo cuidadosamente estudada pelos representantes de governos de todo o mundo que estão participando da COP25 em Madrid.

Além disso, a estratégia bolada pelo ministro do Meio Ambiente (ou seria anti-ministro), Ricardo Salles, para pressionar os governos dos países ricos a entregarem dinheiro para supostamente preservar a Amazônia que tinha pouca chance de prosperar, agora (desculpem-me o trocadilho) virou cinzas.  É que diante de dados tão detalhados que a reportagem assinada Matt Sandy oferece, o mau humor que já existia certamente vai ficar ainda mais azedo.

Entre outras coisas, a reportagem lembra que Jair Bolsonaro “prometeu abrir a floresta tropical para a indústria e reduzir suas proteções, e que seu governo cumpriu o prometido “cortando fundos e pessoal para enfraquecer a aplicação das leis ambientais“, e que “na ausência de agentes federais, ondas de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros entraram nas florestas amazônicas, encorajados por um presidente ansioso em atender as demandas globais (por commodities)“.

Um fato que foi incluído na reportagem e que deverá aumentar ainda mais os constrangimentos impostos a Ricardo Salles e a outros membros da delegação brasileira que está participando da COP25 foi a lembrança que ainda na semana passada, o  Jair Bolsonaro  acusou sem provas  o ator Leonardo DiCaprio de  “financiar incêndios na Amazônia” e que, durante meses,  o presidente brasileiro “desconsiderou as preocupações dos povos indígenas sobre o aumento de invasões de terras protegidas por madeireiros e mineiros, assim como grupos indígenas pediram ao governo proteção contra crescente violência“.

O vídeo abaixo contém um conjunto de imagens que foram utilizadas para ilustrar a reportagem de Matt Sandy. A visão dessas imagens tampouco vai aliviar a situação do Brasil não apenas durante a realização da COP25, mas dos diferentes encontros multilaterais que ainda vão acontecer em 2020, onde a ausência de leis na Amazônia brasileira será utilizada para constranger e isolar o nosso país, em um momento bastante delicado da economia global. 

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Em resposta previsível, Leonardo DiCaprio reforça compromisso com a Amazônia e ignora Bolsonaro

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Não durou muito o momento de glória infame que o presidente Jair Bolsonaro obteve às custas da notoriedade do ator Leonardo DiCaprio. É que Leonardo DiCaprio usou a sua página da rede social Instagram para dar a previsível resposta à acusação sem evidências de que ajudou a incendiar a Amazônia ao apoiar organizações não-governamentais que, curiosamente, são vistas como inimigas pelo “bolsonarismo” por defenderam a natureza (ver imagem abaixo).

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Sem sequer citar o nome de Jair Bolsonaro, Leonardo DiCaprio afirmou que “neste momento de crise para a Amazônia, apoio o povo do Brasil que trabalha para salvar seu patrimônio natural e cultural. Eles são um exemplo incrível, comovente e de grande humildade do compromisso e paixão necessários para salvar o meio ambiente. O futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de apoiar os grupos que os protegem. Embora dignos de apoio, não financiamos as organizações visadas. Continuo comprometido em apoiar as comunidades indígenas brasileiras, governos locais, cientistas, educadores e público em geral que estão trabalhando incansavelmente para garantir a Amazônia para o futuro de todos os brasileiros.

A mensagem de DiCaprio é clara: apoia os que lutam em prol da preservação natural e cultural da Amazônia, e os que fazem essa luta acontecer no chão. Além disso, DiCaprio também nomina com quem está comprometido: as comunidades indígenas brasileiras, governos locais, cientistas, educadores. Além disso, ele aponta para o fato que a proteção da Amazônia é essencial para garantir o futuro de todos os brasileiros.

Como já escrevi, essa tentativa do presidente Jair Bolsonaro de jogar nas costas de Leonardo DiCaprio a culpa de seu próprio êxito na aceleração da hecatombe ambiental em desenvolvimento na Amazônia vai trazer consequências desastrosas para a imagem internacional do Brasil. 

A questão é que se no Brasil as ideias ambientalmente regressivas de Jair Bolsonaro e seus ministros terraplanistas  e céticos das mudanças climáticas estão passando sem a devida checagem do sistema política e da maioria dos veículos da mídia corporativa, a coisa não é bem assim no exterior. Assim, atacar Leonardo DiCaprio pode até render alguns pontos entre a malta de apoiadores do presidente do Brasil, mas nada comparado à antipropaganda que isto representa em muitas partes do mundo.

Duas coisas certas para 2020: mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa do brasileiro

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Apesar de não ser astrólogo nem pai de santo, já me arrisco a fazer duas previsões para o ano de 2020: teremos mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa dos trabalhadores brasileiros.  Esse é um paradoxo que decorre da crescente dependência da economia brasileira da exportação de commodities agrícolas, a começar pelas carnes bovina e de frango.

O fato é que dentre os diversos fatores que impulsionam o avanço do desmatamento é ampliar a gigantesca área de pastagens na Amazônia, coisa que equivale atualmente a cinco vezes o território continental de Portugal. Como o latifúndio agro-exportador tem pouca ou nenhuma disposição de investir na manutenção de pastos, a derrubada de florestas é quase que uma decorrência inercial da dependência aumentada da participação da exportação de carnes.

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Entretanto, apesar de se esperar mais animais dentro de áreas maiores de pasto, isto não vai se traduzir em nenhum alívio para os brasileiros que desejarem comer carne, seja bovina ou de frango. É que, por um lado, o governo Bolsonaro vem desinvestindo na agricultura familiar cuja produção está mais voltada para o mercado nacional e, por outra, não está nada disposto a colocar salvaguardas para garantir o abastecimento do mercado interno.

É por isso que em 2020 mais florestas serão consumidas por queimadas monumentais, enquanto o brasileiro vai ter que se contentar com uma dieta mais vegetariana. E viva o neoliberalismo do trio Jair Bolsonaro/Paulo Guedes/ Tereza Cristina que dificilmente terão de viver as mesmas agruras que a maioria da população brasileira viverá.