Estudo parte de interações oceano-atmosfera para nova compreensão sobre chuvas no Sul do Brasil

Ao mapear padrões de chuva e relacioná-los às dinâmicas do oceano, pesquisa questiona padrões climáticos estabelecidos e oferece subsídios ao enfrentamento de eventos extremos no clima subtropical brasileiro

CHUVAS SULEm grande parte do Paraná e de Santa Catarina, o período de maior pluviosidade ocorre de dezembro a março. Foto: Daniel Castellano/SMCS/Divulgação

Por Jéssica Tokarski para o Ciência UFPR 

Em um estudo sobre a complexidade climática da região Sul do Brasil, uma tese desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGeo) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) revelou padrões de precipitação variáveis ao longo do ano na área investigada, apontando influências que vão além do tradicional fenômeno El Niño. 

Os resultados demonstram que, embora o clima dessa região apresente uma distribuição regular de precipitações ao longo do ano, há variações significativas entre as estações e as áreas, o que desafia as percepções já estabelecidas.

Além de confirmar o papel central do El Niño Oscilação Sul na modulação das chuvas, a pesquisa mostra que seus efeitos variam conforme diferentes áreas do Oceano Pacífico se aquecem ou se resfriam, estabelecendo novas perspectivas para entender as interações entre oceano e atmosfera no país. 

Defendida por Gabriela Goudard, a tese recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2024.

Segundo a autora, a compreensão dos regimes de pluviosidade e de seus mecanismos geradores é fundamental para o monitoramento e a modelagem climática, bem como para minimizar potenciais impactos relacionados ao clima e às mudanças climáticas.

“O entendimento da pluviosidade possibilita ter uma melhor previsibilidade para fenômenos como secas prolongadas ou eventos extremos de precipitação, potenciais desencadeadores de desastres no Sul do Brasil”, diz à Ciência UFPR. 

A influência do oceano no clima regional 

Gabriela explica que, como os oceanos recobrem grande parte do planeta Terra, muitos processos que acontecem no clima podem ser explicados, direta ou indiretamente, pela interação que ocorre entre eles e a atmosfera.

“Algumas dessas interações se propagam pelo planeta, para regiões distantes do local onde surgem e, nesses casos, são denominadas teleconexões. Por meio delas, é possível compreender como um determinado fenômeno que ocorre em uma porção do planeta afeta o clima em locais distantes de sua origem. A temperatura da superfície do mar funciona como uma espécie de ‘gatilho’ nessas interações que acontecem entre o oceano e a atmosfera”. 

Apesar de o El Niño-Oscilação Sul (ENOS) ser o principal modulador da pluviosidade — ou seja, da quantidade de chuva que cai em uma determinada região durante um período de tempo específico — no clima subtropical brasileiro, o estudo evidenciou relações com outros índices dos oceanos Pacífico, Atlântico, Antártico e Índico no recorte espacial da pesquisa, que abrange o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, a maior parte do Paraná e o sudeste de São Paulo. 

Para o orientador da tese e professor do Departamento de Geografia da UFPR, Francisco de Assis Mendonça, essas interações podem ser observadas pela sociedade para a prevenção de eventos climáticos extremos, sendo uma forma de evitar perdas de vidas e danos exagerados.

“O trabalho permite que, ao conhecer a situação climatológica atual, seja possível realizar análises de cenários presentes e futuros visando minimizar os impactos sobre as atividades humanas”. 

El Niño afeta diretamente o clima subtropical brasileiro 

O fenômeno climático El Niño-Oscilação do Sul (ENOS) é marcado pela alteração da temperatura do mar no oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste e é composto por duas fases opostas: o El Niño e a La Niña. Enquanto o primeiro evento se refere à fase quente do fenômeno neste oceano, o segundo está atrelado à fase fria dessa região. 

“De modo geral, em anos de El Niño, as precipitações são mais expressivas no clima subtropical em relação às médias do clima, produzindo anomalias positivas de chuvas (chuvas acima da média). Em contrapartida, em períodos de La Niña, as precipitações tendem a estar abaixo da média, produzindo anomalias negativas de precipitação no sul do Brasil. Dessa forma, em anos de El Niño, casos de inundações podem ser mais frequentes, ao passo que em contextos de La Niña, as secas e estiagens ganham mais destaque”, detalha Gabriela. 

O estudo identificou que, enquanto o El Niño Leste apresenta as características clássicas desses eventos no Sul do Brasil, como aumentos de precipitação em todas as estações do ano, os El Niños Centrais promovem variações nesses padrões previamente conhecidos e amplamente estudados, com a predominância de anomalias pluviais negativas, sobretudo no outono do ano seguinte ao início do evento.  

“Assim no contexto dos El Niños Centrais, condições de seca e estiagem se destacam no clima subtropical, refletindo um padrão oposto ao dos El Niños Leste. Portanto, o conhecimento destas dinâmicas possibilita ações de planejamento e gestão de riscos mais efetivas”, assinala a pesquisadora. 

Já no caso das La Niñas, a pesquisa não observou mudanças de padrões, constatando o predomínio de chuvas abaixo da média na área de estudo independente da tipologia dos fenômenos. Contudo, foram observadas variações na intensidade das anomalias pluviais negativas no clima subtropical, sendo estas mais intensas no verão para as La Niñas Leste, na primavera para La Niñas Mix e no outono para La Niñas Centrais.  

“Este fato também requer monitoramento, uma vez que a depender da tipologia da La Niña, as condições de estiagens e secas podem ser bem mais intensas no Sul do Brasil, possibilitando assim, medidas de planejamento mais efetivas em relação a essas dinâmicas”, relata Gabriela. 

De acordo com Mendonça, a pesquisa contribui diretamente para a política de planejamento climático e para gestão de recursos hídricos, pois permite compreender melhor a dinâmica da influência dos oceanos e dos eventos climáticos com probabilidade maior ou menor de chuva nesses estados brasileiros. 

Chuvas no Sul do Brasil não são homogêneas 

A divisão do clima subtropical em nove regiões homogêneas realizada para a pesquisa permitiu verificar a existência de diferentes regimes de pluviosidade. Segundo a autora, na maior parte do Paraná e de Santa Catarina, o período de maior pluviosidade ocorre nos trimestres dezembro-janeiro-fevereiro e janeiro-fevereiro-março. 

 “O regime trimodal, com máximos de precipitações na primavera, verão e outono é verificado no noroeste do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Em geral, a porção norte e leste do clima subtropical apresenta a precipitação mais marcada no verão, ao passo que no Rio Grande do Sul, a distribuição é mais regular ao longo do ano”, descreve a pesquisadora. 

As análises possibilitaram o questionamento e a desconstrução da noção de homogeneidade pluvial no clima subtropical que é perpetuada na literatura clássica da climatologia e corroboraram com abordagens adotadas na meteorologia. 

A descoberta tem relevância para políticas públicas, principalmente as que tratam da produção agrícola na região Sul.

“Os planejamentos agrícolas, urbanos e industriais da região sempre consideraram a pluviosidade local como um todo, de forma igual e uniforme. Mas a tese mostra que a quantidade de chuva ocorre de forma variada no tempo e no espaço”, enfatiza Mendonça. 

Com o avanço da discussão sobre mudanças climáticas, dada a intensificação de fenômenos extremos que têm impactado a agricultura, a indústria, o meio urbano, a ecologia e até a saúde humana, os dados apontados no estudo revelam-se fundamentais para trabalhos relacionados à previsibilidade de condições climáticas e, consequentemente, à distribuição ou à escassez e excesso de água no sistema natural.   

Ter esse tipo de informação com antecedência permite influenciar as ações de previsão, bem como as ações de enfrentamento antecipadas aos desastres climáticos, auxiliando a sociedade a minimizar os impactos da seca, de inundações e dos demais eventos climáticos na região subtropical do Brasil”, finaliza o professor e pesquisador. 

➕ Leia detalhes na tese ” Interações Oceano-atmosfera e Efeitos na Variabilidade Pluvial do Clima Subtropical Brasileiro“, defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFPR


Esta reportagem faz parte de uma série baseada nas teses de doutorado defendidas na Universidade Federal do Paraná que foram destacadas no Prêmio Capes de Tese 2024. Acompanhe neste link


Fonte: Ciência UFPR

El Niño apontado como provável culpado pelas temperaturas recordes de 2023

Pesquisa sugere que oscilações no Oceano Pacífico podem ser responsáveis ​​pelo salto repentino e desconcertante da temperatura do planeta

el nino scienceUm pôr do sol no Oceano Pacífico em 2023, quando um calor recorde atingiu o planeta. LUIS SINCO/ LOS ANGELES TIMES VIA GETTY IMAGES

Por Paul Voosen para a “Science”

No ano passado, os alarmes dispararam na ciência climática: a temperatura média global do ano passado foi tão alta, subindo quase 0,3 °C acima do ano anterior para estabelecer um novo recorde, que o aquecimento global causado pelo homem e as oscilações climáticas naturais de curto prazo aparentemente não conseguiram explicar isso . Alguns, como o famoso cientista climático James Hansen, sugeriram que a Terra está entrando em uma nova fase sinistra de aquecimento acelerado, impulsionada por um rápido declínio na poluição do ar que escurece a luz solar. Outros, como Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, disseram que o aumento pode representar uma “lacuna de conhecimento”, algum novo feedback climático que pode inclinar o planeta para um futuro ainda mais quente do que os modelos preveem.

Agora, uma nova série de estudos sugere que a maior parte do salto de 2023 pode ser explicada por um fator climático familiar: as águas mutáveis ​​do Oceano Pacífico tropical. A combinação de um La Niña de 3 anos de duração, que suprimiu as temperaturas globais de 2020 a 2022, seguido por um forte El Niño, pode ser responsável pelo salto inesperado de temperatura, sugere o trabalho. “A Terra pode fazer isso”, diz Shiv Priyam Raghuraman, um cientista climático da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, que liderou um estudo.

Durante La Niña, fortes ventos alísios empurram água quente da superfície para o oeste ao longo do equador em direção à Indonésia e puxam uma fonte de água fria e profunda no Pacífico oriental que ajuda a resfriar o planeta. Durante El Niño, os ventos entram em colapso, permitindo que a água quente escorra para o leste e desligue o ar condicionado do oceano.

No ano passado, análises sugeriram que a combinação do aquecimento global e do El Niño ficou muito aquém de explicar o calor de 2023, levando a preocupações de que algo mais poderia estar em jogo. Mas Raghuraman e seus coautores não estavam convencidos de que esses estudos capturaram todo o potencial do El Niño. De fato, olhando para trás, eles descobriram que 1977 foi muito parecido com 2023, quando as temperaturas aumentaram em mais de 0,25 °C depois que um La Niña de vários anos se transformou em um El Niño.

Mas isso é apenas 2 anos dos 70 e poucos para os quais existem registros de El Niño. Para gerar estatísticas melhores, Raghuraman e seus coautores compilaram todos os modelos climáticos que puderam encontrar que simulavam o planeta em um estado estável, sem perturbação da humanidade, totalizando 58.021 anos de simulações. Então eles procuraram ver com que frequência picos de temperatura maiores que 0,25 °C ocorriam.

O estudo deles, publicado hoje na Atmospheric Chemistry and Physics , mostrou que tais picos eram raros, acontecendo apenas 1,6% do tempo, quase sempre durante um El Niño. Mas quando um longo La Niña preparou o cenário, a probabilidade de um pico saltou para 10,3%. E durante esses anos modelo, o padrão geográfico de aquecimento frequentemente correspondia ao que ocorreu no ano passado, como um grande aumento no Oceano Atlântico tropical. Os modelos mostram que grandes saltos do El Niño são raros, mas possíveis, diz Raghuraman. “Não estamos perdendo nada.”

O resultado está alinhado com outro estudo, publicado em agosto na Communications Earth & Environment , que comparou as temperaturas da superfície do mar em 2023 e no passado recente. Se o aquecimento global estivesse acelerando, essa tendência também seria vista nos oceanos. E embora os oceanos estivessem anormalmente quentes em 2023, eles estavam apenas um pouco mais quentes do que durante um El Niño em 2015 e 2016, diz a coautora do estudo Marianne Tronstad Lund, diretora de pesquisa do Centro Internacional de Pesquisa Climática e Ambiental da Noruega. “Não encontramos sinais de nenhuma aceleração rápida”, diz ela.

Execuções recentes de um experimento de “marcapasso climático” na Scripps Institution of Oceanography também implicam o El Niño como o principal culpado pelo calor extra do globo. Resultados não publicados do experimento, que alimenta temperaturas reais do Pacífico em um modelo climático, recriaram padrões de temperatura semelhantes aos observados no ano passado, diz o cientista climático da Scripps Shang-Ping Xie, com algumas exceções sobre o Atlântico Norte.

Enquanto isso, vários estudos descobriram que o ar mais limpo e claro devido à queda da poluição da China e aos combustíveis marinhos com menos enxofre fizeram apenas uma pequena contribuição para as temperaturas do ano passado. Um estudo, submetido à Atmospheric Chemistry and Physics , descobriu que o declínio da poluição poderia aumentar as temperaturas globais em 0,03 °C nos próximos 20 anos, com o efeito mais forte não ocorrendo até o final desta década. Não é nada, diz o coautor do estudo Duncan Watson-Parris, um físico atmosférico da Scripps, mas muito pouco para explicar o ano passado. Tomados em conjunto, diz Mika Rantanen, um cientista climático do Instituto Meteorológico Finlandês, os resultados são “um bom lembrete de que foi de fato o El Niño que foi o principal ator”.

No entanto, o momento do calor de 2023 continua estranho, diz Schmidt. Ele veio mais rápido e mais forte do que em anos normais de El Niño, e durou muito mais tempo, mesmo com a Terra se inclinando novamente para uma La Niña. Talvez o maior curinga seja a quantidade crescente de luz solar que os satélites detectaram atingindo a superfície do planeta na última década. A queda da poluição só pode explicar parte do aumento; o resto pode ser devido à redução da nebulosidade ou à mudança na refletividade da superfície. O quanto a luz solar extra pode ter aquecido o planeta em 2023 não está claro.

Os novos estudos não são a palavra final sobre o problema, diz Schmidt. Mesmo com o Pacífico oriental esfriando novamente, o debate dentro da ciência climática continua a ferver.


Fonte: Science

Temperaturas na Antártica sobem 10°C acima da média em onda de calor

As temperaturas relatadas no continente no meio do inverno chegam a 28 °C acima das expectativas em alguns dias de julho

degelo polo sulCientistas do clima dizem que os recentes aumentos de temperatura na Antártica confirmam o que os modelos preveem. Fotografia: Anadolu/Getty Images

Por Damien Gayle e Dharna Noor para o “The Guardian”

As temperaturas do solo em grandes áreas das camadas de gelo da Antártica subiram em média 10 °C acima do normal no mês passado, no que foi descrito como uma onda de calor quase recorde.

Enquanto as temperaturas permanecem abaixo de zero na massa terrestre polar, que fica envolta em escuridão nesta época do ano, nas profundezas do inverno do hemisfério sul, as temperaturas atingiram 28°C acima do esperado em alguns dias.

O globo vivenciou 12 meses de calor recorde, com temperaturas excedendo consistentemente o aumento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, que tem sido apontado como o limite para evitar o pior do colapso climático.

Michael Dukes, diretor de previsão do MetDesk, disse que, embora as altas temperaturas diárias individuais tenham sido surpreendentes, muito mais significativo foi o aumento médio ao longo do mês.

Os modelos dos cientistas do clima há muito preveem que os efeitos mais significativos das mudanças climáticas antropogênicas ocorreriam nas regiões polares, “e este é um ótimo exemplo disso”, disse ele.

“Normalmente, você não pode olhar apenas para um mês para uma tendência climática, mas está bem alinhado com o que os modelos preveem”, Dukes acrescentou. “Na Antártica, geralmente, esse tipo de aquecimento no inverno e continuando nos meses de verão pode levar ao colapso das camadas de gelo.”

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártida em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10 °C acima da média climática de 1991-2020

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártica em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10C acima da média climática de 1991-2020. Fotografia: metdesk

“A Antártica como um todo aqueceu junto com o mundo nos últimos 50 anos, e para esse assunto 150 anos, então qualquer onda de calor está começando dessa linha de base elevada”, ele disse. “Mas é seguro dizer que a maioria do pico no último mês foi impulsionada pela onda de calor.”

A onda de calor é a segunda a atingir a região nos últimos dois anos, com a última, em março de 2022, levando a um pico de 39 °C e causando o colapso de uma parte da camada de gelo do tamanho de Roma.

O aumento das temperaturas na Antártica em julho ocorreu após um El Niño particularmente forte, o fenômeno climático que leva ao aquecimento em todo o mundo, e provavelmente também foi um efeito retardado disso, em combinação com o aumento geral nas temperaturas causado pelo colapso climático, disse Dukes.

Cientistas disseram que a causa próxima da onda de calor foi um vórtice polar enfraquecido, uma faixa de ar frio e baixa pressão que gira na estratosfera ao redor de cada polo. A interferência de ondas atmosféricas enfraqueceu o vórtice e levou ao aumento das temperaturas em altitudes elevadas este ano, disse Amy Butler, cientista atmosférica da National Oceanic and Atmospheric Administration, ao Washington Post .

Jamin Greenbaum, geofísico da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que estava “certamente preocupado com o que o futuro reserva para esta região nos próximos anos”.

“A maioria das minhas expedições de campo foram para a Antártica Oriental, onde vi um derretimento crescente ao longo dos anos”, ele disse. “Embora eu esteja, é claro, alarmado ao ver esses relatos do vórtice polar enfraquecido causando a tremenda onda de calor lá, também não estou surpreso, considerando que isso é, infelizmente, um resultado esperado da mudança climática.”

Jonathan Overpeck, um cientista climático da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, disse no X que a onda de calor foi um “sinal revelador de que as mudanças climáticas estão realmente começando a transformar o planeta”.

Edward Blanchard, um cientista atmosférico da Universidade de Washington, disse ao Post que foi um evento quase recorde. “É provável que ter menos gelo marinho e um Oceano Antártico mais quente ao redor do continente antártico ‘carregue os dados’ para um clima de inverno mais quente sobre a Antártica”, disse Blanchard.

“Desta perspectiva, pode ser um pouco ‘menos surpreendente’ ver grandes ondas de calor na Antártida este ano, em comparação com um ano ‘normal’ com condições médias de gelo marinho.”

Jonathan Wille, pesquisador que estuda ciências climáticas na ETH Zürich, uma universidade pública de pesquisa em Zurique, Suíça, disse que a onda de calor foi atribuída a um “evento de aquecimento estratosférico do sul” com duração de semanas na região.

“Eles são realmente raros na Antártica, então não estava muito claro como isso afetaria as condições de superfície no continente”, ele disse. “Tem sido interessante ver quão disseminados os efeitos têm sido.”

Embora ele tenha dito que “parece haver ondas de calor cada vez mais frequentes no continente”, ele disse que ainda não estava claro o quanto a crise climática foi um fator na criação deste evento em particular.

“Teremos que esperar pelos estudos de atribuição para descobrir”, ele disse. “É um cenário de ‘esperar para ver.” 


Fonte: The Guardian

O impacto monumental das chuvas no Rio Grande do Sul explicita a crise climática

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A mídia corporativa brasileira está literalmente ocultando as dimensões diluvianas do que está acontecendo no extremo sul do Brasil após um período inclemente de fortes chuvas. Inexistem matérias mostrando a escala dos transbordamentos de bacias hidrográficas inteiras após semanas de chuvas torrenciais.  A inexistência de matérias mais completas e com a devida documentação fotográfica serve provavelmente para manter a maioria dos brasileiros ignorante em relação ao tamanho do problema que se abateu sobre os estados do sul, especialmente sobre a região central do Rio de Grande do Sul.

Agora, graças ao meu colega professor de Filosofia na Universidade Estadual do Norte Fluminense, o gaúcho César Meurer, posso mostrar algumas imagens de um sobrevoo que ele realizou na região central do Rio Grande do Sul na confluência dos rios Taquari e Jacui (ver imagens abaixo)

O que transparece nessas imagens é algo completamente oposto ao que está sendo vivenciado na bacia Amazônia que vive a maior seca de mais de 100 anos. O problema é que este padrão de seca extrema para uns e inundações diluvianas para outros está sendo previsto pelos estudiosos do clima pelo menos há 30 anos, e deverá ser agravado pelo contínuo aquecimento da atmosfera da Terrapela emissão dos gases estufa.

No caso do sul do Brasil,  a situação atual deverá ser agravada ainda mais porque o pico do atual ciclo do El Niño ainda não foi alcançado. Além disso, estudiosos do El Niño lembram que os piores impactos de cada ciclo deste fenômeno se dão basicamente 12 meses após o seu encerramento. Assim, se a coisa está ruim para quem vive próximo dos rios no Rio Grande do Sul, o problema poderá ser maior ainda no início de 2025.

Enquanto isso, nada de termos uma discussão mais séria sobre a adoção de uma política nacional de adaptação climática. Na verdade, o principal movimento no plano federal atualmente no plano federal é tentar aprovar um acordo comercial com a União Europeia que deverá acelerar ainda mais o processo de desmatamento dos biomas florestais brasileiros, incluindo o pouco que ainda resta da Mata Atlântica!

 

Minha entrevista no Faixa Livre sobre onda de calor no BR: “Vivemos tempestade perfeita”

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O geógrafo e professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski detalhou a onda de calor que atinge nosso país nos últimos dias como resultado de fatores ambientais em conjunto, como o fenômeno El Niño, o desmatamento dos nossos biomas e as mudanças climáticas, apontou que os impactos da crise terão repercussão geopolítica por não atingirem o planeta de forma homogênea e frisou a importância da construção de um plano econômico e tecnológico que se adapte às novas demandas do clima global.

Inpe: ondas de calor aumentaram quase oito vezes em 30 anos no Brasil

Pesquisa do Inpe mostra que, entre 1961 e 1990, houve estabilidade no país. Mas, de 1991 para 2020, o avanço anual foi expressivo. Distrito Federal bateu, pelo segundo dia consecutivo, o recorde de temperatura

termometro

Ondas de calor – (crédito: Freepik)

Por Fábio Grecchi para o Correio Braziliense

Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) avaliou os dados das mudanças climáticas no Brasil, em 60 anos. A constatação é que o número de dias com ondas de calor, nas últimas três décadas, aumentou de sete para 52, a cada ano. Os dados, coletados a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), abrangem todo o território brasileiro.

De acordo com a pesquisa, o aumento dos valores nas ondas de calor foi gradual e perceptível. Entre 1961 e 1990, a média se manteve em sete dias. Mas, nos últimos 30 anos, houve uma variação preocupante. De 1991 a 2000, os dias muito quentes passaram a ser 20. No período 2001-2010, verificou-se outro salto expressivo — chegou a 40 dias. Na última década (2011-2020) alcançou 52.

O aumento da temperatura entre 1991 e 2000 não passava de 1,5°C. Porém, no período de 2011 a 2020, a variação chegou a 3°C, principalmente na Região Nordeste.

A junção de eventos estudados pelo Inpe, somada à mudança climática, intensificou os processos extremos vividos no país. A seca na Amazônia, o grande volume de chuvas no Sul e a onda de calor intenso são algumas das consequências percebidas pela população em função das variações climatológicas.

O Inpe classifica como “onda de calor” o registro de seis dias seguidos com temperaturas acima do valor considerado máximo para o período estudado. O levantamento serve para detectar tendências de precipitação pluviométrica, temperatura máxima, dias consecutivos secos, além de subsidiar discussões para a atualização do Plano de Adaptação Climática

Contraste

Os dados coletados apontam, ainda, um aprofundamento do contraste climático entre regiões brasileiras no período de 2011 a 2020. De um lado, houve a queda na média de precipitações chuvosas, com variação entre -10% e -40%, no Nordeste, no Sudeste e na região central. De outro, no Sul, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul se observou um aumento entre 10% e 30%.

afp anomalia
afp anomalia(foto: afp )

Isso significa que as chuvas extremas no Sul do país não são um fenômeno recente. A precipitação máxima em cinco dias, entre 1961 e 1990, era de 140mm. Passou para 160mm, de 2011 a 2020.

Tais alterações climáticas mostram, ainda, que o Índice de Dias Consecutivos Secos potencializa os resultados preocupantes da pesquisa. Entre 1961 e 1990, os valores médios eram de 80 a 85 dias, mas, de 2011 a 2020, subiram para 100 nas regiões Norte e Nordeste, e no centro do país.

O Distrito Federal bateu, ontem, pelo segundo dia seguido, o recorde anual de temperatura. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a estação de Águas Emendadas registrou 37,3°C por volta das 16h. Esse também é o maior registro térmico da história para o mês de novembro, segundo o Inmet. Especialista do instituto, Andrea Ramos afirma que, a partir de amanhã, o DF deve ficar com o tempo mais fechado.

Segundo Lincoln Alves, coordenador dos estudos no Inpe, a maior frequência de eventos climáticos extremos e intensos denuncia que o Brasil já sente, mais claramente, os efeitos da crise ambiental mundial.

“O mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, entidade ligada às Nações Unidas) destacou que as alterações estão impactando diversas regiões do mundo, de maneiras distintas. E se agravarão nas próximas décadas, conforme o aquecimento global avança”, adverte.

Nova mortandade de botos

Pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, encontraram mais 70 carcaças de botos e tucuxis no lago Coari, no município de mesmo nome, a 363km de Manaus. A nova mortandade se soma a outras 154 carcaças de botos e tucuxis encontradas em Tefé (AM), em meio à seca histórica que atinge a Amazônia.

Líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, a oceanógrafa Miriam Marmontel afirmou que não é possível determinar as causas das novas mortes. Mas a suspeita é que seja um desdobramento do mesmo evento registrado em Tefé, devido às altas temperaturas registradas na água. Apesar disso, ela ressalta haver diferenças entre as duas ocorrências.

“Vários animais morreram, mas em Coari são poucos por dia. Nunca houve o boom de Tefé (19 mortes e depois 70). Nos dois locais, são botos e tucuxis, mas em Coari são tucuxis, ao contrário de Tefé, onde a maior mortandade ocorreu com botos”, explicou. (Colaboraram Arthur de Souza e Mariana Dantas, estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi)


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Correio Braziliense” [Aqui!].

Academia Brasileira de Ciências promove mesa sobre El Niño e Crise Climática

crise hidrica

No dia 16 de novembro, às 10, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), será realizada a mesa-redonda “Crise climática e desastres como consequência do El Niño 2023-2024: impactos observados e esperados no Brasil. A atividade terá participantes presencialmente no auditório e transmissão pelo YouTube da ABC.

O evento é promovido pela ABC, pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas Fase 2 (INCT MC2).

Na mesa-redonda serão discutidos diferentes aspectos do El Niño 2023-2024, sendo destacadas semelhanças e diferenças em relação a outros eventos do El Niño, bem como os impactos já observados em 2023 e aqueles esperados para o verão e outono de 2024. O foco da atividade está nas possíveis consequências das anomalias climáticas resultantes do El Niño 2023-2024 em temas como desastres (secas, risco de incêndios, inundações e deslizamentos de terras provocados por extremos de chuva), segurança hídrica, alimentar e energética, infraestrutura, entre outros. Também serão considerados possíveis cenários do El Niño como resultado das mudanças climáticas e ações que possam levar a medidas de adaptação para enfrentamento da crise climática. 

Inscrições gratuitas pelo link.

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‘Tudo está seco’: Amazônia luta contra a seca em meio ao desmatamento

A esta altura, os rios já deverim estar cheios. Mas a pecuária em grande escala, a crise climática e eventos climáticos como o El Niño significam que o Brasil está perto do ponto sem retorno

gado

A indústria de carne bovina do Brasil tem uma pegada de carbono maior do que todo o Japão. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

fluxos, poeira e fumaça. Foi isso que me cumprimentou ao voltar para casa em Altamira, depois de várias semanas na estrada. Uma estação de seca invulgarmente violenta teve um impacto terrível na paisagem amazónica, que já está devastada por fazendas de gado. Juntos, ameaçam a integridade da maior floresta tropical do mundo.

Em breve abordarei a ciência por trás dessa declaração horrível. Mas primeiro, deixe-me descrever o que está acontecendo no terreno, dentro e ao redor da minha casa em Altamira, no estado do Pará, norte do Brasil .

Tudo está ressecado. A vegetação estala sob os pés. Em comparação com a estação chuvosa, a floresta encolheu visivelmente a vários metros da beira da estrada. As árvores mais resistentes estão aguentando, mas nas margens, as palmeiras mais fracas começaram a murchar e a ficar marrons.

Várias áreas do meu bairro estão carbonizadas devido aos incêndios recentes. Os grileiros criminosos estão aproveitando as condições de seca. Todas as manhãs, quando acordo, o ar tem gosto de fumaça. Uma mortalha desfoca o horizonte. Os painéis solares não conseguem funcionar normalmente porque a luz solar não consegue penetrar na neblina.

Fumaça no ar em Altamira, Brasil

Os painéis solares não podem funcionar adequadamente porque a luz solar não consegue romper a fumaça. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

E há também as vacas, pobres criaturas, que vagam por pastagens marrons e doentias em busca das últimas folhas ou pedaços de grama que não tenham sido cobertos de poeira. Embora sejam vítimas inocentes, a sua presença contribuiu para este cenário sombrio. Outubro, novembro e dezembro são geralmente um período de transição. Por esta altura, a estação seca normalmente teria atingido o seu pico e os rios e aquíferos começariam a reabastecer-se. Mas as chuvas se recusam a vir. E a cada dia que passa, a sensação de mau presságio fica mais forte.

O rio Xingu, para onde levamos nossos cães todas as manhãs, fica 4 metros abaixo de seu pico e o pequeno afluente, onde costumo passear de canoa, encolheu para um riacho que chega até os tornozelos. Em casa, as torneiras da cozinha e do banheiro secam algumas horas a cada dois ou três dias. Vespas que normalmente zumbem ao redor da fruteira agora se reúnem perto dos canos, buscando gotas de água antes do néctar. Os sapos procuram refúgio nas tigelas de água dos nossos cães.

Em menor grau, todas essas coisas acontecem em cada estação seca, mas este não é um ano normal, como confirmei com alguns dos principais cientistas do Brasil. Marcelo Seluchi, chefe de modelagem e operações do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, disse-me que esta já é uma das piores secas da história da Amazônia, uma área do tamanho da Europa.

Muitos rios da região, incluindo o poderoso Rio Negro, disse ele, caíram para níveis nunca vistos desde que as medições começaram, há mais de um século. Eu mesmo vi essa visão chocante algumas semanas atrás.

As temperaturas em muitas áreas atingiram níveis recordes e a seca está longe de terminar. Seluchi disse que as últimas previsões sugerem que as chuvas não retornarão à maior parte da Amazônia até o final deste mês.

Numa recente reunião de crise organizada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento e pelo chefe de gabinete do presidente Luis Inácio Lula da Silva , especialistas alertaram para as ameaças às barragens hidroeléctricas e ao transporte fluvial de produtos essenciais, como alimentos, combustíveis e medicamentos.Os meteorologistas explicaram que a seca amazônica deste ano é anormalmente severa devido ao efeito El Niño , ao aquecimento do Oceano Atlântico e à crise climática.

Esta explicação é precisa, mas limitada, faltando muitas das principais causas deste problema e as soluções mais viáveis. A mais importante delas, comprovada por estudos recentes , é que uma floresta saudável não só gera suas próprias chuvas , mas também atua como um poderoso refrigerador regional . Se limparmos a vegetação, como muitos agricultores continuam a fazer – embora a um ritmo muito mais lento do que fizeram sob o governo do antigo presidente de direita Jair Bolsonaro – então a região tornar-se-á mais quente e seca devido aos efeitos locais e às perturbações climáticas globais.

É aqui que meus vizinhos bovinos entram em cena. A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento da Amazônia. Nada mais chega perto. Os grileiros usam vacas como exércitos de ocupação para reforçar as suas reivindicações sobre florestas roubadas e desmatadas. Este tornou-se um dos crimes climáticos mais hediondos do mundo. Um novo relatório surpreendente do Observatório do Clima observa que a indústria de carne bovina do Brasil tem agora uma pegada de carbono maior do que a do Japão. Pense nisso por um momento. Este país tem 220 milhões de vacas, 43% das quais estão na Amazônia. As suas emissões de aquecimento global – provenientes dos seus arrotos e peidos, mas principalmente através das ligações dos seus proprietários ao desmatamento florestal e aos incêndios – são agora maiores do que todos os carros, fábricas, aparelhos de ar condicionado, aparelhos eléctricos e outras formas de consumo de carbono de 125 milhões de japoneses. vivendo em uma das economias mais industrializadas do planeta. Quando abatido, o gado rende bilhões de dólares para conglomerados alimentares globais . Através das vacas, estas empresas intensificam a crise climática e, assim, provavelmente ajudam a tornar os El Niños mais prováveis .

Terra seca em Altamira, Brasil

A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento na Amazônia. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Carlos Nobre, um dos climatologistas mais influentes do Brasil, confirmou-me que o desmatamento das explorações pecuárias está a contribuir – juntamente com as principais causas do El Niño e do aquecimento do Atlântico – para a devastadora estação seca deste ano. O perigo, alertou ele, é que tais eventos climáticos extremos, dentro de duas décadas, levem a Amazônia a um ponto crítico, após o qual a região secará e será incapaz de manter-se como uma floresta tropical. Na parte sul do sudeste da Amazônia, disse ele, a floresta está muito próxima daquele ponto sem volta. A estação seca é quatro a cinco semanas mais longa do que em 1979, a mortalidade das árvores está a aumentar e a floresta emite mais carbono do que absorve.

Numa nota mais esperançosa, ele diz que o desmatamento desacelerou rapidamente na maioria dos países amazônicos este ano. Só isso não será suficiente para evitar chegar a esse momento crítico. Os governos regionais também precisarão da ajuda das nações ricas – que são historicamente em grande parte responsáveis ​​pela crise climática – para reduzir os incêndios e a degradação florestal e para embarcar em programas de reflorestação em grande escala. Na Cop28 em Dubai no final deste mês, Nobre ajudará a lançar um desses projetos, denominado Arco da Restauração.

Parece muito atrasado. A Amazônia não pode sobreviver a menos que as vacas sejam substituídas por árvores, a poeira pelas plantas e a fumaça pela chuva.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Previsão climática alerta sobre agravamento da seca no Nordeste

Segundo institutos de pesquisa do MCTI, influência do fenômeno El Niño e aquecimento do Atlântico Tropical Norte manterão chuvas abaixo da média na região até janeiro de 2024

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Foto: Agência Brasil

A seca que atinge os municípios da área norte do Nordeste deve se agravar até janeiro de 2024. A previsão é do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), que monitora a estiagem na região. O painel de monitoramento do El Niño, publicado mensalmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em conjunto com outras instituições, e o prognóstico de precipitação para os próximos três meses indicam chuvas abaixo da média para a área. As duas unidades são vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A situação é desencadeada pela combinação de fenômenos que estão influenciando a região desde junho. O fenômeno El Niño costuma provocar chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste, e precipitações acima da média na região Sul. No entanto, cada episódio do fenômeno é único, visto que o impacto depende da localização e intensidade da anomalia de temperatura das águas no Pacífico.

Neste ano, as maiores anomalias de temperatura estão posicionadas mais próximas da costa leste do Oceano Pacífico, entre o Equador e o Peru, e isso pode causar impactos diferentes a depender da combinação com a situação do Atlântico Tropical Norte. Segundo o painel de monitoramento, o fenômeno El Niño deverá atingir o pico de intensidade entre os meses de dezembro de 2023 e janeiro de 2024. Em termos de temperatura, a perspectiva é de que o fenômeno mantenha a classificação como forte. Porém, no Atlântico, a anomalia de temperatura da parte Tropical Norte causa um efeito muito negativo nas precipitações do norte do Nordeste.

Nos últimos três meses, as chuvas foram escassas e irregulares no Nordeste, ampliando a área de déficit pluviométrico. A previsão para o trimestre indica que a falta de chuva deverá continuar até janeiro. Segundo o Inpe, os fenômenos continuarão a atuar no primeiro semestre de 2024, o que pode contribuir para manter as chuvas abaixo da média durante a estação chuvosa do norte do Nordeste, que ocorre principalmente entre os meses de fevereiro e maio.

“A preocupação é de que se não chover na estação chuvosa, as chuvas só deverão ocorrer na próxima estação, que começa a partir de novembro”, afirma o coordenador-Geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi.

Para caracterizar a condição de seca, os especialistas do Cemaden consideram um índice integrado, que combina informações sobre o índice de precipitação padronizado, a umidade do solo e a saúde da vegetação. As altas temperaturas e a baixa umidade registradas na região, que são captadas pelos índices, estão contribuindo para a degradação da vegetação e o aumento da evapotranspiração.

De acordo com dados do Cemaden, atualmente, a região apresenta pouco mais de 100 municípios em condição de seca severa, o que, em consequência, afeta cerca de 30% das áreas agrícolas e de pastagens. Em algumas regiões, como no extremo oeste da Bahia, a área impactada já chega a 80%. Por ora, os reservatórios da região ainda apresentam níveis regulares, decorrentes das chuvas do ano anterior, em que predominou o fenômeno La Niña, e estão absorvendo os impactos. Contudo, a situação caminha para se tornar mais severa nos próximos meses. “A tendência sistemática é de piora gradativa”, avalia Seluchi.

A região Nordeste tem 1.793 municípios e população de cerca de 57 milhões de pessoas, praticamente quatro vezes mais que o número de municípios da região Norte, que sofre, neste momento, com uma seca severa na bacia amazônica. Além do contingente populacional que pode ser impactado, a possibilidade de redução da produção agrícola, predominantemente de subsistência, e os impactos sobre a qualidade da água para consumo humano e animal indicam um cenário de preocupação. A região é caracterizada predominantemente por minifúndios e pequenos produtores.

Emergência climática: ação global está “fora do rumo”, diz chefe da ONU

Ondas de calor mortais, inundações e aumento da fome são uma ameaça muito maior ao mundo do que o coronavírus, dizem os cientistas

5182Bombeiros e pessoal de resgate movem seu caminhão enquanto um incêndio mata perto de uma estrada principal e casas nos arredores da cidade de Bilpin, em Sydney, na Austrália, em dezembro de 2019. Fotografia: David Gray / Getty Images

Damian Carrington, editor para Meio Ambiente do “The Guardian

O mundo está “muito errado” no trato da emergência climática, e o tempo está se esgotando rapidamente, afirmou o secretário-geral da ONU.

António Guterres soou o alarme no lançamento da avaliação da ONU sobre o clima global em 2019. O relatório conclui que foi um ano recorde para o calor, e houve aumento da fome, deslocamento e perda de vidas devido a temperaturas e inundações extremas ao redor. o mundo.

Os cientistas disseram que a ameaça era maior que a do coronavírus, e os líderes mundiais não devem ser desviados da ação climática.

A avaliação climática é liderada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU, com contribuições das agências da ONU para meio ambiente, alimentação, saúde, desastres, migração e refugiados, além de centros científicos.

Em 2019, os oceanos estiveram mais quentes em relação a todos os anos registrados anteriormente, com pelo menos 84% dos mares experimentando uma ou mais ondas de calor marinhas. As temperaturas da superfície do ar em todo o mundo foram as mais quentes já registradas, depois que um evento natural do El Niño aumentou os números em 2016.

O relatório diz que os resultados do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras indicam que 2018-19 foi o 32º ano consecutivo em que mais gelo foi perdido do que ganho. O derretimento do gelo terrestre combinado com a expansão térmica da água elevou o nível do mar à marca mais alta desde o início dos registros.

O declínio a longo prazo do gelo do Ártico também continuou em 2019, com a extensão média de setembro – geralmente a mais baixa do ano – a terceira pior já registrada.

“A mudança climática é o principal desafio do nosso tempo. Atualmente, estamos fora do caminho para cumprir as metas de 1,5 ° C ou 2 ° C que o acordo de Paris exige ”, disse Guterres. O ano de 2019 terminou com uma temperatura média global de 1,1 ° C acima dos níveis pré-industriais. “O tempo está se esgotando rapidamente para evitar os piores impactos da perturbação climática e proteger nossas sociedades”.

Ele acrescentou: “Precisamos de mais ambição em [cortes nas emissões], adaptação e financiamento a tempo da conferência climática Cop26, em Glasgow, Reino Unido, em novembro. Essa é a única maneira de garantir um futuro mais seguro, mais próspero e sustentável para todas as pessoas em um planeta saudável. ”

O professor Brian Hoskins, do Imperial College London, disse: “O relatório é um catálogo de condições meteorológicas em 2019 tornado mais extremo pela mudança climática e pela miséria humana que a acompanha. Isso indica uma ameaça maior para nossa espécie do que qualquer vírus conhecido – não devemos nos desviar da urgência de combatê-lo, reduzindo nossas emissões de gases de efeito estufa a zero o mais rápido possível. ”

A OMM disse que seu relatório fornece informações oficiais aos formuladores de políticas sobre a necessidade de ação climática e mostra os impactos do clima extremo.

Uma onda de calor na Europa tornou-se cinco vezes mais provável pelo aquecimento global, e o verão abrasador levou a 20.000 internações de emergência e 1.462 mortes prematuras somente na França. A Índia e o Japão também aumentaram e a Austrália começou e terminou o ano com forte calor e teve o ano mais seco já registrado. A Austrália teve “uma temporada de incêndios excepcionalmente prolongada e severa”, observou a OMM.

Inundações e tempestades contribuíram mais para desalojar as pessoas de suas casas, particularmente o ciclone Idai em Moçambique e seus vizinhos, o ciclone Fani no sul da Ásia, o furacão Dorian no Caribe e as inundações no Irã, Filipinas e Etiópia. Estima-se que o número de deslocamentos internos de tais desastres esteja perto de 22 milhões de pessoas em 2019, ante 17 milhões em 2018.

Os EUA sofreram fortes chuvas, com o total de julho de 2018 a junho de 2019 sendo o mais alto já registrado. As perdas econômicas totais nos EUA no ano foram estimadas em US $ 20 bilhões, informou a OMM.

O clima imprevisível e o clima extremo foram um fator em 26 das 33 nações afetadas pela crise alimentar em 2019 e foram o principal fator em 12 dos países. “Após uma década de declínio constante, a fome está aumentando novamente – mais de 820 milhões sofreram com a fome em 2018, os últimos dados globais disponíveis”, diz o relatório.

A OMM disse que a precipitação invulgarmente pesada no final de 2019 também foi um fator no grave surto de gafanhoto nos desertos do Chifre da África, que é o pior em décadas e deve se espalhar até junho de 2020, em uma grave ameaça à segurança alimentar.

O professor Dave Reay, da Universidade de Edimburgo, disse: “Essa ladainha anual de impactos das mudanças climáticas e respostas globais inadequadas contribuem para uma leitura instigante. Em grande escala, é o efeito “multiplicador de ameaças” que é a mudança climática nos maiores desafios enfrentados pela humanidade e pelos ecossistemas do mundo no século XXI. “

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].