A esquerda depois de Lula: ou construímos alternativas agora ou chegaremos atrasados ao futuro

ortalecer os partidos da esquerda autônoma não é apenas uma questão eleitoral em 2026, mas uma necessidade estratégica para formar novas lideranças, ampliar a disputa programática e preparar as forças que enfrentarão os embates sociais, políticos e ambientais de um Brasil que não poderá permanecer indefinidamente organizado em torno de Lula

As eleições presidenciais de 2026 estão ocorrendo com uma pluralidade política que aparece muito menos no debate público do que deveria. Além das duas candidaturas que concentram a maior parte da cobertura — Lula e Flávio Bolsonaro —, existem partidos de esquerda que disputam as eleições fora do arco político organizado em torno do PT. PCB, PCO, PSTU e UP apresentam candidaturas presidenciais próprias, além de candidatos aos demais cargos, e colocam em circulação programas e interpretações sobre o Brasil que mereceriam ser conhecidos e debatidos.

O problema não está apenas no tamanho eleitoral dessas candidaturas. Está no fato de que, quando elas praticamente desaparecem da cobertura jornalística e do debate político cotidiano, desaparecem também determinadas questões que dificilmente ocuparão posição central numa disputa reduzida a Lula versus Flávio Bolsonaro. O resultado é uma eleição apresentada como escolha quase binária, embora o primeiro turno exista justamente para permitir uma expressão mais ampla das diferenças existentes na sociedade.

O primeiro turno não deve ser transformado antecipadamente em segundo turno

Nas últimas semanas tenho acompanhado apelos para que eleitores identificados com a esquerda concentrem seus votos em Lula já no primeiro turno, sob o argumento de que seria necessário encerrar imediatamente a disputa e impedir qualquer possibilidade de vitória da extrema-direita.

Compreendo perfeitamente a preocupação que sustenta esse argumento. Entretanto, não considero que ela elimine uma questão política anterior: se todas as eleições forem tratadas desde o primeiro turno como uma escolha defensiva entre o PT e a direita, quando haverá espaço para construir alternativas de esquerda ao próprio PT?

Nesse aspecto, considero pertinente a reflexão feita pelo ex-vereador Renato Cinco em suas redes sociais. A existência de dois turnos permite que o primeiro seja também um momento de apresentação de programas, afirmação de diferenças e construção de forças políticas. Transformá-lo antecipadamente em segundo turno significa reduzir justamente o espaço institucional no qual alternativas minoritárias podem apresentar suas propostas à sociedade.

O problema não é apenas eleitoral

Há uma questão ainda mais profunda. PCB, PCO, PSTU e UP não precisam apenas de votos. Precisam conquistar maior presença social, capacidade organizativa, inserção sindical e popular, produção intelectual, comunicação própria e formação de novas lideranças.

Uma esquerda que somente aparece durante as eleições continuará condenada à marginalidade. Mas uma esquerda que transforma a eleição em instrumento para ampliar sua organização pode acumular forças mesmo quando seus resultados eleitorais imediatos forem modestos.

Esse ponto me parece especialmente importante porque parte significativa da esquerda brasileira passou décadas gravitando em torno do PT e, sobretudo, em torno da liderança de Lula. Essa centralidade possui razões históricas evidentes: Lula é uma das mais importantes lideranças políticas surgidas no Brasil contemporâneo. Mas justamente por isso a dependência prolongada de uma única liderança produz um problema que a esquerda brasileira terá inevitavelmente de enfrentar.

O Brasil precisa pensar a esquerda depois de Lula

Lula tem 80 anos e, independentemente do resultado de 2026, a esquerda brasileira precisa discutir seriamente sua renovação geracional e programática. O problema não é desejar ou antecipar sua saída da política, mas reconhecer algo elementar: nenhuma força política pode organizar seu futuro indefinidamente em torno de uma única liderança.

Dentro do PT e dos partidos que compõem seu campo de alianças, a enorme centralidade política e eleitoral de Lula dificulta o aparecimento de lideranças com autonomia comparável. Isso cria uma contradição: quanto mais indispensável Lula se torna para manter esse campo político unido e eleitoralmente competitivo, mais difícil parece preparar uma estrutura política capaz de funcionar sem ele.

Por isso, fortalecer partidos de esquerda que existem fora dessa órbita não significa necessariamente enfraquecer a resistência à extrema-direita. Pode significar justamente ampliar o número de organizações, lideranças e projetos políticos capazes de enfrentá-la no futuro.

Uma esquerda autônoma também amplia os limites do debate

Há ainda outra razão para defender a presença dessas forças. Uma esquerda politicamente relevante fora do PT pode deslocar o próprio centro do debate nacional.

Questões como redução da jornada de trabalho, direitos previdenciários, tributação das grandes fortunas, reestatização de setores estratégicos, enfrentamento da financeirização, reforma agrária, proteção dos povos tradicionais, crise climática, poder das corporações e limites impostos pelo capital financeiro às políticas públicas ganham outra dimensão quando existem organizações capazes de defendê-las sem depender das necessidades de composição de um governo.

A Previdência é um exemplo particularmente importante. Existem atualmente propostas sendo discutidas por economistas que envolvem mudanças profundas no sistema, incluindo aumento da idade mínima e alterações nas formas de financiamento. A equipe econômica da campanha de Lula afirma que uma nova reforma não está atualmente em discussão, embora não descarte um debate futuro; do lado de Flávio Bolsonaro, integrantes da campanha já defenderam revisitar a Previdência, ainda que o candidato posteriormente tenha declarado que não pretende promover nova reforma. O episódio mostra precisamente por que é importante que existam forças políticas capazes de colocar os interesses dos trabalhadores no centro dessa discussão antes — e não depois — de eventuais mudanças.

Votar também significa construir

É por isso que não considero contraditório alguém rejeitar uma eventual volta do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, decidir votar no primeiro turno em uma candidatura situada à esquerda do PT.

O voto no primeiro turno pode cumprir também uma função de construção política. Pode fortalecer partidos, ampliar sua visibilidade, ajudar a eleger parlamentares, formar novas lideranças e demonstrar que existe uma parcela da sociedade que deseja políticas que ultrapassem os limites atualmente estabelecidos pelo campo político dominante.

No segundo turno, caso ele ocorra, haverá outra conjuntura e outra decisão a ser tomada. Mas antecipar essa decisão para o primeiro turno significa abrir mão de uma das poucas oportunidades institucionais existentes para medir, apresentar e fortalecer alternativas políticas.

A questão fundamental, portanto, ultrapassa 2026. A emergência climática, a precarização do trabalho, a concentração de riqueza, a financeirização da economia e o avanço internacional da extrema-direita não oferecem à esquerda brasileira o luxo de esperar indefinidamente pelo aparecimento espontâneo de uma liderança pós-Lula.

Novas lideranças não surgem por decreto nem aparecem quando a antiga liderança deixa o palco. Elas são produzidas por organizações políticas, lutas sociais, formação de quadros, presença territorial e disputa de ideias.

Se a esquerda brasileira quiser continuar existindo como força transformadora depois de Lula, precisa começar a construir esse futuro enquanto Lula ainda está presente. E isso passa necessariamente pelo fortalecimento de organizações de esquerda capazes de caminhar com as próprias pernas, formular seus próprios programas e disputar a sociedade sem permanecer permanentemente subordinadas à órbita política do PT.

Quando Folha e Estadão fazem a mesma pergunta: o que Flávio Bolsonaro precisa explicar aos brasileiros

Em poucos dias, dois dos principais jornais brasileiros colocam sob escrutínio não apenas as relações do candidato com Daniel Vorcaro, mas sua experiência administrativa e sua relação com o legado político de Jair Bolsonaro

Há uma coincidência editorial que merece atenção neste momento da campanha presidencial. Depois de O Estado de S. Paulo publicar, no último sábado (12), o editorial “Flávio é um candidato sob suspeita”, agora é a Folha de S.Paulo que dedica seu principal espaço de opinião a examinar a candidatura de Flávio Bolsonaro. O título escolhido — “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista” — mostra que a Folha decidiu ampliar o foco para além do caso Banco Master.

O Estadão havia colocado no centro de sua crítica as relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e as suspeitas envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, destinado a contar a trajetória de Jair Bolsonaro. Como escrevi aqui no Blog, o significado daquele editorial estava também em quem fazia a crítica: um jornal cuja história editorial está longe de qualquer identificação com a esquerda brasileira.

A Folha acrescenta agora outra dimensão e seu editorial questiona a experiência administrativa de Flávio, recorda episódios controversos de sua trajetória política e, principalmente, pergunta até que ponto sua tentativa recente de apresentar uma candidatura mais moderada representa efetivamente uma ruptura com elementos do projeto político do pai. A questão ganha importância porque Flávio promete indultar Jair Bolsonaro e continua reivindicando explicitamente sua herança política.

Existe ainda um ponto em que os dois editoriais se encontram: Daniel Vorcaro. O banqueiro que apareceu inicialmente como problema do sistema financeiro tornou-se personagem transversal da crise política brasileira. No caso de Flávio Bolsonaro, vieram a público conversas sobre a busca de recursos para Dark Horse. Como sempre é necessário registrar, relações políticas ou empresariais e investigações não equivalem a condenações criminais. Mas, numa campanha presidencial, elas constituem fatos legítimos para o escrutínio público.

Talvez seja justamente aí que a convergência entre Folha e Estadão adquira maior significado. O debate sobre Flávio Bolsonaro começa a ultrapassar a pergunta sobre aquilo que ele propõe fazer caso seja eleito. Passa também pela trajetória que apresenta ao eleitorado, pelas relações políticas que construiu e pelo grau de continuidade ou ruptura que representa em relação ao governo e ao movimento político liderados por seu pai.

Em uma eleição polarizada, esse escrutínio deveria valer para todos os candidatos. Programas, trajetórias, relações econômicas e compromissos institucionais precisam ser examinados com o mesmo rigor. No caso de Flávio Bolsonaro, dois dos maiores jornais brasileiros decidiram, quase simultaneamente, que existem perguntas relevantes esperando respostas. E, numa disputa pela Presidência da República, responder a essas perguntas faz parte do próprio processo democrático. Resta saber se Flávio Bolsonaro terá disposição ou capacidade para respondê-las.  Até aqui parece que ele prefere encenar cenas de dança para ver se faz o Brasil dançar.

Flávio Bolsonaro e Luis Inácio: duas faces da mesma moeda fiscal

Enquanto as campanhas disputam o campeonato de arremesso de lama, ambas escondem do eleitor o arrocho preparado para começar em 2027

A estas alturas do campeonato, parece estar ficando claro que o torneio de arremesso de lama entre as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio  beneficia ambos, ainda que abra algum espaço para um crescimento não pactuado dos votos em Augusto Cury.

Além desse ganho comum, a fixação nos supostos poderes demoníacos das duas candidaturas majoritárias serve apenas para esconder que, na pauta comportamental, uma delas é essencialmente a versão piorada da outra. O que permanece obscurecido em meio à trama das acusações recíprocas de corrupção é que ambas carregam programas de arrocho fiscal prontos para entrar em vigor já no primeiro dia de 2027. Sob o ruído cuidadosamente alimentado da polarização, Flávio Bolsonaro e Luis Inácio aparecem, assim, como faces distintas de uma mesma moeda fiscal.

O desconhecimento dessa convergência pela maioria dos eleitores acaba contribuindo para o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Além de enfrentar o desgaste inerente a quem governa, o governo de Luis Inácio vem tornando cada vez mais difícil que milhões de brasileiros consigam se proteger debaixo do cobertor, já curto, dos programas sociais que deveriam minimizar seu sofrimento. Essa é uma das principais razões para a aproximação de Flávio Bolsonaro. Embora os planos do primogênito de Jair Bolsonaro apontem para encurtar ainda mais esse cobertor, a maioria vive as urgências do presente e dispõe de poucos elementos para avaliar um futuro que se anuncia cinzento, seja qual for o candidato escolhido.

Por isso, a tentativa de Luis Inácio de chegar a um quarto mandato somente se tornará viável se ele disser com clareza o que pretende fazer, objetivamente, para melhorar a vida daqueles que mais vêm perdendo sob sua batuta. Não bastará afirmar que Flávio Bolsonaro representa algo pior, sobretudo quando o presente oferecido pelo governo Lula já se mostra ruim para quem vive do próprio trabalho e não participa das festinhas animadas do andar de cima. É justamente aí que a porca torce o rabo: quando chega a hora de abandonar o campeonato de lama e apresentar uma alternativa concreta ao arrocho fiscal, as diferenças entre as duas principais candidaturas começam a parecer bem menores do que seus marqueteiros gostariam que o eleitor percebesse.

Da motosserra para a urna: candidatos multados pelo Ibama acumulam R$ 15,7 milhões em infrações ambientais

Levantamento da Agência Tatu mostra que infrações contra a flora concentram 94% do valor das multas aplicadas aos candidatos identificados

Um levantamento da Agência Tatu feito em parceria com o Intercept Brasil, e que foi realizado a partir do cruzamento dos autos de infração do Ibama com o cadastro de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, traz uma informação que deveria merecer atenção dos eleitores: 49 candidatos, distribuídos por 15 partidos, acumulam 78 autos de infração ambiental válidos, que somam R$ 15,7 milhões em multas.

Há uma ressalva indispensável. Como destaca a própria Agência Tatu, um auto de infração é uma autuação administrativa e não equivale necessariamente a uma condenação definitiva, pois pode haver recursos em andamento. Além disso, três autos cancelados ou substituídos foram excluídos dos totais apresentados.

Feita essa ressalva, os números são eloquentes. Das sete categorias identificadas, as infrações contra a flora representam 53 dos 78 autos e concentram R$ 14,7 milhões, nada menos que 94% do valor total das multas.

A dimensão territorial também impressiona. Dos 78 autos válidos, 54 informam a área diretamente atingida. Somados, eles chegam a 4.445 hectares, dos quais 2.557 hectares estão na Amazônia e 1.278 no Cerrado. Em um único auto, a área atingida alcança 652,7 hectares.

A distribuição partidária mostra concentração, mas também revela que o problema atravessa diferentes legendas. O PL lidera, com 22 autos e R$ 6,2 milhões em multas atribuídas aos candidatos identificados, seguido pelo Podemos, com R$ 2,6 milhões, Republicanos, com R$ 1,7 milhão, MDB, com R$ 1,5 milhão, e PSDB, com R$ 1,1 milhão. No conjunto, entretanto, aparecem candidatos de 15 partidos, incluindo siglas da direita, do centro e da esquerda.

O maior valor individual está associado a Ulisses Vieira dos Santos, candidato do PL a deputado estadual no Maranhão, com R$ 3,265 milhões em multa e um auto envolvendo 652,7 hectares em Buriticupu. Em seguida aparece Daniel Barbosa Santos, candidato do Podemos ao governo do Pará, com R$ 1,4 milhão e uma ocorrência envolvendo 279,8 hectares em Tomé-Açu.

Mas o aspecto mais relevante do levantamento não está apenas nos valores ou no número de hectares atingidos. Está no fato de que pessoas que foram objeto da fiscalização ambiental agora disputam cargos que lhes poderão dar poder para interferir nas próprias políticas de proteção ambiental.

Deputados e senadores votam regras sobre licenciamento ambiental, Código Florestal, mineração, regularização fundiária e agrotóxicos, além dos orçamentos destinados ao Ibama e a outros órgãos de fiscalização. Governadores e deputados estaduais também possuem influência direta sobre políticas ambientais e estruturas estaduais de licenciamento e fiscalização.

A pergunta que os dados da Agência Tatu colocam diante do eleitor é, portanto, bastante simples: como candidatos que já entraram em conflito administrativo com a legislação ambiental se comportarão quando tiverem poder para modificar as regras e as instituições encarregadas de fazê-la cumprir?

Isso não significa transformar autuação administrativa em condenação antecipada, mas reconhecer que o histórico ambiental de quem disputa uma eleição é informação de evidente interesse público. Se o eleitor tem direito de conhecer patrimônio, profissão e antecedentes de um candidato, deveria igualmente conhecer sua relação com a legislação ambiental.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância do levantamento da Agência Tatu. Em um país no qual Amazônia e Cerrado continuam submetidos à enorme pressão econômica pela apropriação de terras e recursos naturais, a disputa eleitoral também define quem terá poder para escrever as regras que determinam o futuro das florestas brasileiras.

Nesse sentido, a passagem da motosserra para a urna pode ser muito mais curta do que imaginamos.

Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

Fuga com renúncia? Saída de Cláudio Castro pode não resolver seu drama legal

Às vésperas de possível cassação, saída do governador levanta suspeitas de manobra política e reacende debate sobre legitimidade democrática no estado

A renúncia de Cláudio Castro (PL) ao governo do Rio de Janeiro não é apenas mais um capítulo da política fluminense — é um retrato explícito de como o poder se reorganiza quando confrontado pela Justiça. Anunciada na véspera da retomada de seu julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a saída soa menos como decisão estratégica de carreira e mais como um movimento defensivo diante de um cenário adverso. Com dois votos já favoráveis à cassação e à inelegibilidade, a permanência no cargo se tornava um risco alto demais.

A pergunta que paira é inevitável: Castro saiu porque quis — ou porque não tinha mais escolha?

Uma jogada para controlar o dano

Ao deixar o cargo antes de uma eventual condenação, Castro evita o pior cenário político: a convocação de eleições diretas. Em vez disso, transfere a decisão para a Assembleia Legislativa, onde o jogo é outro — menos transparente, mais negociado, mais previsível para quem ainda tem influência.

Não se trata apenas de sair. Trata-se de escolher o terreno onde a disputa continua.

Democracia indireta ou arranjo de bastidor?

Com a renúncia, o estado entra em uma situação de dupla vacância e será governado provisoriamente até que deputados escolham, de forma indireta, o próximo governador. A tendência de voto secreto, respaldada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), reforça a sensação de distanciamento entre decisão política e controle público. Para a população, resta assistir. Para os parlamentares, negociar.

Em momentos como este, a fronteira entre institucionalidade e conveniência política se torna perigosamente tênue.

O peso das acusações não desaparece

O processo no TSE segue seu curso. As investigações envolvendo a Fundação Ceperj e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro apontam para o uso da máquina pública com fins eleitorais — uma das acusações mais graves no campo democrático. A renúncia não apaga essas suspeitas. No máximo, muda o tabuleiro onde elas serão julgadas.

E há um detalhe crucial: mesmo fora do cargo, Cláudio Castro ainda pode ser declarado inelegível. Ou seja, seu plano de disputar o Senado pode ser interrompido antes mesmo de ganhar as ruas.

Entre o discurso e os fatos

Em sua despedida, Castro falou em legado, realizações e gratidão. É o discurso esperado. Mas o contexto impõe outra leitura: a de um governo que termina não por conclusão natural, mas por pressão institucional.

Na política, o momento da saída costuma dizer mais do que o próprio discurso.

O que está em jogo agora

A crise aberta pela renúncia deixa marcas profundas e levanta questões difíceis de ignorar:

  • Quem realmente decide os rumos do estado em momentos críticos?
  • Até que ponto mecanismos legais podem ser usados como instrumentos políticos?
  • E o mais importante: qual o impacto disso tudo na já fragilizada confiança da população fluminense nos seus governantes e representantes no parlamento?

A saída de Cláudio Castro não encerra uma crise — ela apenas muda sua forma.  E talvez a torne ainda mais visível.

 

Eduardo Paes e o risco de virar um novo Celso Russomanno

Por Douglas Barreto da Mata

Para quem não sabe, o jornalista Celso Russomanno passou à história política paulista como eterno cavalo paraguaio.  Militante da causa da defesa do consumidor, com uma ampla exposição diária denunciando e “fiscalizando” abusos contra clientes insatisfeitos com bens e serviços, Russomanno era sempre “pule de 10” nas eleições nas quais concorreu.  Não ganhou nenhuma. Há várias explicações, eu resolvi escolher uma. O excesso de especialidades, ou em outras palavras, ele sempre ficou restrito a uma pauta.  Claro que esse não é o caso de Eduardo Paes, apesar dele ter se “cacifado” como novo Russomanno carioca após a surra épica que levou de Wilson Witzel. Eduardo Paes tem uma pauta mais ampla, e experiência de prefeito consagrada. É aí que a porca torce o rabo.  O eleitor fluminense, pelo menos os 80% que não escolheram seu candidato a governador em 2026, enxerga Paes como “prefeito do Rio”, e não como alguém capaz de pilotar o caos do Estado inteiro.

Ao mesmo tempo, esse “excesso de identificação” com o Rio lhe dá um aspecto, que nunca foi negado por ele, muito pelo contrário, de “carioca malandro”, de “empada do Belmonte”.  Quem não frequenta a orla da zona sul terá dificuldade em decifrar a comparação com a iguaria de um bar bem específico da cidade carioca. É disso que se trata. Eduardo Paes é uma “empada do Belmonte”, um mestre de cerimônia da balada da Farme de Amoedo, um item de “consumo” da pedra da zona sul. Por isso depende de uma capilaridade que não tem, e que a julgar pelos seus movimentos recentes, não conseguirá.

A chegada de Washington Reis, um combatente que parece ter desistido, sob a suposta soma do eleitorado de Caxias e dos evangélicos, pode trazer resultado inverso.  Ninguém diz, mas o eleitor carioca, até aqui o mais fiel e expoente de Paes, detesta tudo que vem de Caxias e arredores, bem calmo rejeita São Gonçalo e adjacências.  O carioca odeia mais a Baixada e a zona metropolitana que o interior, apesar de guardar preconceito contra tudo que não esteja no “suvaco do Cristo”. Aí mora o problema de quem construiu uma aliança imaginando que Caxias seria uma “aquisição matemática”.

Política e eleição são símbolos, mensagens, mais que números. No lado dos evangélicos, ainda que Silas Malafaia e todos os “cardeais” protestantes embarquem na campanha de Paes, o que no caso de Malafaia já foi descartado, é preciso entender que Paes representa tudo que o evangélico não gosta: A mistura religiosa, o “humor jocoso”, do tipo da alegoria da família enlatada, do chapéu Panamá (Zé Pilintra), e etc. Eduardo Paes não tem como renunciar a esse perfil, e quando tenta perde dos dois lados, parecendo falso tanto ao seu eleitor fiel, que se afasta quanto ao eleitor evangélico, que não se aproximará. Nas redes sociais, a reação de um nicho de público às tratativas recentes de Paes com os Reis revelou o quão “setorizado” ele se tornou, sendo certo que suas características mais fortes são:  Um malandro carioca lulista.

Essa face não permite um ajuste tão conservador, como o cantinho que montou em seu palanque para Flávio Bolsonaro e Washington Reis.  Por certo, na maioria das vezes, ganha quem amplia mais. No entanto, só alguns têm a capacidade de fazer isso sem parecer que “acende uma vela para Deus e outra para o cão”.

O colapso climático e o fortalecimento da ordem agroquímica-mineral apontam para um 2026 desafiador

Foto: Licia Rubstein

Por Marcos Pedlowski para “Nova Democracia”

Os últimos meses têm sido marcados por uma sucessão de eventos meteorológicos extremos em diferentes partes do planeta. No Brasil, o tornado que destruiu grande parte da cidade de Rio Bonito do Iguaçu no Paraná se transformou em um símbolo eloquente da materialização dos cenários mais críticos anunciados pela ciência climática. Estamos, gostemos ou não, diante da confirmação empírica das piores projeções. O que chama atenção, entretanto, não é apenas a gravidade dos acontecimentos, mas o fato de que essa evidência crescente não tem sido acompanhada por decisões políticas à altura do desafio. Ao contrário, seguimos sem qualquer estratégia consistente de adaptação, mesmo diante da aceleração inequívoca das temperaturas globais e da frequência acelerada de eventos meteorológicos extremos..

Entretanto, a indisposição de governos e corporações capitalistas em promover o faseamento dos combustíveis fósseis não pode ser atribuída à ignorância ou à incerteza científica. Como já apontava o geógrafo francês Yves Lacoste, o conhecimento aprofundado da realidade está concentrado nos grandes Estados e nos centros de poder que efetivamente tomam decisões estratégicas. Assim, o que se observa, portanto, não é um erro de avaliação, mas escolhas deliberadas. As decisões que aceleram o colapso climático, frequentemente apresentadas como irracionais ou contraditórias, obedecem a uma lógica fria e instrumental: preservar a ordem capitalista existente, ainda que isso implique o sacrifício de bilhões de pessoas e a deterioração irreversível das bases ecológicas da vida.

Além disso, é preciso rejeitar a narrativa enganosa de que o colapso climático afetará a todos de maneira equivalente. Ele será profundamente desigual, tanto do ponto de vista geográfico quanto social. As regiões tropicais experimentarão impactos mais severos, e as populações pobres arcarão com os custos mais elevados de um planeta mais quente e mais seco. Essa assimetria ajuda a explicar por que os países centrais do capitalismo combinam políticas cada vez mais rígidas de fechamento de fronteiras com a intensificação da pilhagem de recursos naturais nos países periféricos. Trata-se da atualização da velha ordem colonial sob novas condições climáticas, destinada a preservar a troca desigual. Diante desse cenário, qualquer discurso sobre solidariedade internacional soa vazio quando confrontado com as práticas concretas que estruturam o sistema de trocas globais, incluindo formas explícitas de espoliação.

No entanto, essa ausência de solidariedade não se limita às relações entre Estados nacionais. No Brasil, os acontecimentos de 2025 evidenciam que as diferentes frações da burguesia nacional também optaram por acelerar mecanismos de exploração que aprofundam o colapso climático. Essa escolha se expressa de maneira cristalina nas decisões recentes do Congresso Nacional na área ambiental. A aprovação do chamado PL da Devastação representa um marco nesse processo, ao institucionalizar a destruição ambiental e reforçar a condição neocolonial do país. Quando articulada à tese do Marco Temporal, igualmente aprovada, revela-se um compromisso inequívoco com os interesses do latifúndio agroexportador, para o qual a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental não constitui problema, mas estratégia.

Essa lógica foi reforçada pela decisão majoritária do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter as isenções fiscais e tributárias bilionárias concedidas aos fabricantes de agrotóxicos. A ratificação de benefícios imorais para os fabricantes de agrotóxicos proibidos nos países que sediam as empresas fabricantes, em razão de sua elevada toxicidade, ultrapassa em muito uma controvérsia fiscal. Ao preservar esses incentivos, o STF legitima a consolidação do Brasil como área de sacrifício ambiental e sanitário, aprofundando sua inserção subordinada na economia global.  Esta é uma escolha política, ainda que travestida de decisão técnica ou jurídica.

Ao mesmo tempo, enquanto a ciência alerta para as múltiplas interações entre os padrões de produção capitalista e a crise climática, o governo federal insiste em aprofundar relações comerciais de caráter neocolonial com a União Europeia. O acordo Mercosul–UE é exemplar nesse sentido, ao projetar consequências sociais e ambientais dramáticas, entre elas o aumento do fluxo Norte–Sul de agrotóxicos altamente perigosos. Além dos impactos diretos sobre a saúde humana e os ecossistemas, esses produtos contribuem para a ampliação das emissões de gases de efeito estufa, agravando exatamente a crise que as forças do negacionismo sutil dizem querer mitigar.

Diante desse conjunto de elementos, é forçoso concluir que a disputa eleitoral de 2026 que ocorrerá no Brasil tende a se configurar como um simulacro. As forças que controlam o sistema político-partidário brasileiro compartilham, em linhas gerais, o compromisso com a ordem agroquímica-mineral que define a inserção do país na economia mundial. A crise climática, nesse contexto, não aparece como um desvio inesperado, mas como o resultado lógico de escolhas políticas, econômicas e institucionais reiteradas ao longo do tempo. Não se trata de falta de informação ou de alternativas técnicas, mas de uma aposta consciente na intensificação da exploração ambiental e social. 

Romper esse ciclo de destruição programada e nos preparar para o necessário processo de adaptação exigirá mais do que ajustes marginais ou pactos eleitorais: requer o enfrentamento direto dos fundamentos do modelo vigente e da lógica de poder que o sustenta — algo que só forças dispostas a efetivamente romper com o status quo capitalista poderão realizar.


Fonte: Nova Democracia

E Oscar vai para… Wladimir Garotinho

Por Douglas Barreto da Mata

A “atuação” recente do prefeito de Campos dos Goytacazes o coloca como futuro candidato ao prêmio da academia.  Podemos escolher, melhor roteiro, melhor direção e sim, melhor ator.  Poderíamos dizer que o roteiro escrito está (ou não) próximo a uma reviravolta, ou “plot twist”, como denominam os mais modernos. 

Um dos grandes problemas da crítica de cinema e da crônica política, mais ou menos especializadas, é tentar adivinhar ou descrever o que o roteirista ou o diretor pretendiam com sua obra.  Quase sempre as tentativas são em vão, e às vezes, os diretores e escritores zombam dessa pretensão dos críticos, assim como os líderes políticos ludibriam os cronistas. É o que faz Wladimir Garotinho.

O roteiro ele escreveu e ele mesmo dirige sua atuação.  Há muito ele sabia que o mero anúncio de seu desejo de concorrer a outro cargo em 2026 desencadearia “uma corrida do ouro” ou sendo mais dramático, uma excitação dos tubarões com os quais nada desde 2021. Os predadores sentem de longe o cheiro de sangue na água, isto é, um governo cujo líder diz que sairá, com data definida, tende ao enfraquecimento.

É a síndrome do cafezinho frio, quando a bebida servida no gabinete do chefe do executivo chega fria. O que ninguém conseguiu entender que toda essa narrativa pode ser uma distração ou pior, uma isca para testar lealdades. É um enredo conhecido, mas que sempre atrai os incautos e os ambiciosos em excesso. Não à toa, talvez observando o prefeito campista, o governador Cláudio Castro fez um movimento semelhante, e disse que vai não vai e pode acabar “fondo”.

Seja lá como for, aqui na planície goytacá, Wladimir Garotinho vai conduzindo seu “filme” como lhe convém, confundindo aliados, irritando adversários.  O prefeito diz com gestos exagerados, como um Almodóvar, e se comunica por metáforas, como um cinema novo de Glauber Rocha, e muita gente não entende que é ele quem define o final, feliz para uns, infeliz para outros.

Wladimir já deu título a saga: Eu ainda estou aqui.

As reinações de Eduardo Paes e a pajelança com Silas Malafaia: tudo está em ordem, apesar de parecer fora da ordem

Eduardo Paes e Silas MalafaiaEduardo Paes e Silas Malafaia | Reproduções

Por Douglas Barreto da Mata

Um político do calibre de Eduardo Paes, prefeito da capital do estado do Rio de Janeiro, não pode ser acusado nem de descuido, nem de ingenuidade ou burrice.  Ele sabe que política é cálculo, mas esse cálculo não é matemático, portanto, os resultados nem sempre correspondem ao desejo de quem arrisca. Apesar de ser um político de espectro conservador, desde o seu surgimento, como cria de César Maia, até os dias atuais, onde pratica o bê-á-bá da gestão neoliberalíssima do estado, com privilégios aos ricos, e deveres aos pobres, o fato é que a aproximação com Lula permitiu ao prefeito dar um verniz mais progressista a sua carioquice.

Olhando bem de perto, Eduardo Paes foi bem sagaz em aproveitar esse paradoxo carioca, ou seja, um povo simpático no bar e na praia (ou em outras esferas públicas), mas com inclinações fascistas no aspecto político. Claro que isso é uma generalização, até porque não dispomos de espaço para analisar cada manifestação política do carioca por segmento, mas em resumo o Rio é de direita, desde a Zona Oeste, passando pelo Centro, Zona Norte e Zona Sul.

Então por que Eduardo Paes resolveu apostar em um gesto de carinho com o Pastor Malafaia, logo agora que ele está nas cordas?  Antes de tudo e mais nada, não vai aqui nenhuma crítica contra as preferências religiosas do Pastor, e a forma dele exercer seu ministério, nada disso.  A Igreja Católica esconde até hoje os casos de pedofilia praticado pelos seus clérigos dentro de igrejas, e das suas instituições de abrigo de crianças, e ninguém fala nada.

A história de poder papal, desde a criação desse cargo é povoada de orgias, mortes, guerras e conspirações.  Está a família Bórgia para quem quiser conferir.  As Cruzadas da Igreja Católica fazem Netanyahu parecer Ghandi.  Então, não trato essa questão com preconceito. 

Olha, eu acho que há várias questões inseridas nesse cenário. A primeira, a existência de uma relação pessoal entre Paes e Malafaia.  Ou seja, sim, ele está demonstrando lealdade em um momento difícil, e isso em política tem valor enorme.  Porém, esse gesto não é o principal motivador.  As outras circunstâncias têm a ver com Paes, mas com o seu padrinho, Lula.

Lula é o único brasileiro, e talvez um dos poucos líderes ocidentais que se especializou em candidaturas presidenciais. Foram várias, 1989, 1994, 1998, e as bem sucedidas, 2002, 2006 e 2022.  É favorito em 2026. Sempre teve mais de 30% do eleitorado. Em 2018, preso, colocou um ilustre desconhecido no segundo turno, e ele estava preso e incomunicável! Então, Lula conhece o caminho, e sabe que necessita de uma reaproximação com os evangélicos mais radicais, e colocou Paes em campo para fazer o trabalho.

Quando mandou os 12 deputados do PT darem seus votos na PEC da Blindagem, para desespero de toda a esquerda e de boa parte do eleitorado, Lula estava acenando para o setor mais difícil do centrão, como se fizesse um gesto de distensão, e imagina que pode controlar o resultado no Senado, onde já colocou 850 milhões em emendas sob controle de David Alcolumbre, presidente da casa.

Na outra ponta, Flávio Dino aperta o cerco contra as emendas, e dá a Lula um poder de negociação ainda maior, o bom e velho, cria dificuldade e vende facilidade. É uma tacada incerta?  Sim é, mas para quem, como Lula, que estava no limbo até bem pouco tempo, sem perspectiva de elaborar uma estratégia de campanha, neste fim de governo, poderíamos dizer que ele ganhou vários bilhetes premiados, desde a lambança de Eduardo Bolsonaro para salvar o pai, o apoio de Trump a essa demanda, passando por aquela passeata com a bandeira dos EUA em plena Avenida Paulista.

Mas e Paes, o que ele ganha com isso tudo? Muita coisa.  Eduardo Paes, no Rio, pode trazer para si um campo da direita que está solto, ainda mais quando o Pastor Malafaia deixou claro que não vai com Rodrigo Bacellar, caso Washington Reis não esteja na disputa, por impedimento ou por vontade dele mesmo. Com isso, ele cumpre o papel que Lula lhe designou, mas avança para uma parte do eleitorado que não lhe é muito simpático, já que o prefeito carioca gosta de se identificar com essa versão de religiosidade plural que boa parte do público evangélico odeia.

Nessa altura do campeonato, quando há anos que todos só falam da sucessão estadual, e sendo Paes o nome mais exposto nesse tempo, 70% dos eleitores não sabem em quem votar, o que acende a luz amarela no staff do alcaide carioca.  Já há nomes tocando os 10%, e pelo menos um já ultrapassou, acho que foi o Reis. Eduardo Paes segue sem uma base no interior, e bloqueado na Baixada Fluminense, isto é, os seus 50% de preferência aparecem onde ele já sabe que seria favorito, na capital. Paes não tem paz.