Nunes Marques censura canal pró-Lula, e bolsonaristas esquecem a liberdade de expressão

Editorial da Folha de S.Paulo denuncia censura pró-Flávio e expõe os riscos da interferência judicial e das big techs na disputa presidencial

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, manteve a derrubada de um canal de WhatsApp associado à mobilização eleitoral em favor de Lula, que reunia milhões de participantes. A decisão, justificada por alegações de irregularidades na divulgação de pesquisas e conteúdos eleitorais, foi duramente criticada em editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio”. Para o jornal, a Justiça Eleitoral está extrapolando suas atribuições e assumindo um perigoso papel de tutora da informação política.  É evidente que a Justiça Eleitoral deve combater fraudes e ilícitos eleitorais. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre responsabilizar autores de infrações comprovadas e eliminar um canal inteiro de comunicação em plena campanha presidencial. Nesse segundo caso, a intervenção pode comprometer a igualdade de condições entre os candidatos, especialmente quando atinge instrumentos de mobilização com milhões de participantes.

A situação se torna ainda mais preocupante quando associada à atuação das grandes plataformas digitais. Tenho relatado no Blog do Pedlowski os problemas que enfrentei com a Meta, incluindo o bloqueio temporário de minha conta no Instagram após uma onda de ataques contra uma publicação crítica às propostas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. Também recebi relatos de restrições ao compartilhamento de conteúdos políticos pelo WhatsApp. Embora esses episódios não comprovem uma operação coordenada, levantam dúvidas legítimas sobre a transparência e a aplicação uniforme das regras dessas empresas.

O que estamos presenciando é uma combinação potencialmente perigosa: de um lado, decisões judiciais que restringem canais de mobilização eleitoral; de outro, corporações privadas que controlam, por mecanismos pouco transparentes, a circulação de informações políticas. Não é necessário demonstrar uma conspiração entre magistrados e big techs para reconhecer que os efeitos dessas intervenções podem convergir e favorecer determinados interesses eleitorais.

Também chama atenção a aparente tranquilidade de setores da extrema-direita que denunciam uma suposta ditadura judicial sempre que suas próprias redes são atingidas, mas parecem perfeitamente confortáveis quando restrições semelhantes prejudicam seus adversários. Afinal, a liberdade de expressão não pode ser um direito absoluto para os aliados e dispensável para os adversários.

O editorial da Folha merece destaque justamente por colocar em discussão um princípio democrático fundamental: a Justiça Eleitoral deve garantir a legalidade do processo eleitoral, não substituir a capacidade dos cidadãos de avaliar criticamente as informações que recebem. Em um país onde a comunicação já é fortemente concentrada nas mãos de grandes grupos econômicos, acrescentar uma tutela judicial excessiva sobre a informação amplia os riscos de manipulação da disputa política.

A pergunta que fica é inevitável: se a extrema-direita considera censura qualquer restrição à sua comunicação política, por que o mesmo princípio não deveria valer quando o prejudicado é Lula?  Uma democracia não pode conviver com uma liberdade de expressão de mão única. Muito menos quando o acesso dos eleitores à informação passa a depender, simultaneamente, de decisões judiciais e dos algoritmos de empresas privadas. Caso contrário, continuaremos realizando eleições formalmente livres, mas sob condições de circulação da informação cada vez menos democráticas.

“Fake news” virou senha para calar os outros? A estranha democracia dos bloqueios digitais

Enquanto perfis praticamente vazios atacam publicações críticas a Flávio Bolsonaro, a Justiça Eleitoral suspende um canal de mobilização de milhões de apoiadores de Lula. Afinal, quem está tentando controlar a circulação das mensagens políticas?

Nos últimos dias, minha conta oficial no Instagram passou a receber dezenas de comentários hostis depois da publicação de um card sobre propostas associadas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O que mais me chamou a atenção é que muitos desses ataques partem de perfis com zero ou pouquíssimas postagens, repetindo praticamente a mesma acusação: a de que estou divulgando fake news. A situação ficou ainda mais preocupante quando um desses perfis anunciou que iria bloquear minha conta. A ameaça merece atenção, especialmente porque meu perfil já ficou recentemente inacessível por uma medida de segurança aplicada pela Meta, após outra onda de ataques de natureza política.

É necessário, entretanto, distinguir a crítica política legítima das tentativas de intimidação digital. Qualquer pessoa tem o direito de discordar de minhas publicações, questionar seu conteúdo e até denunciá-las quando identificar possíveis violações das regras da plataforma. Entretanto, quando dezenas de perfis, muitos deles sem qualquer postagem, repetem acusações praticamente idênticas e um deles anuncia que irá bloquear minha conta, surgem indícios que merecem investigação. Isso não comprova uma operação coordenada, mas levanta a possibilidade de que o objetivo de alguns participantes não seja debater o conteúdo, e sim constranger seu autor ou tentar restringir sua presença na rede. A diferença é decisiva: contestar uma ideia é exercer a liberdade de expressão; tentar silenciar quem a apresenta, por meio de intimidação ou denúncias fraudulentas, é atentar contra essa mesma liberdade.

Esse cenário ganha contornos ainda mais preocupantes com a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de suspender o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones e que reunia aproximadamente 3,3 milhões de participantes. A decisão, tomada a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro sob alegações de disseminação de informações falsas, levanta questões sobre a proporcionalidade das restrições à mobilização política digital. Evidentemente, informações comprovadamente falsas devem ser combatidas, mas isso não elimina a necessidade de transparência, critérios consistentes e respeito à liberdade de expressão. 

O que me parece especialmente preocupante é a possibilidade de que o combate às fake news esteja sendo instrumentalizado para restringir a circulação de mensagens políticas adversárias. De um lado, uma decisão judicial suspende um canal de mobilização com milhões de participantes; de outro, perfis praticamente anônimos atacam publicações críticas e anunciam bloqueios de contas. Não há provas de conexão entre os episódios, nem se pode equiparar automaticamente uma decisão judicial a eventuais denúncias abusivas nas plataformas. Mas ambos justificam uma reflexão sobre quem controla os espaços de expressão política e como esse controle é exercido.

Afinal, não seria essa a verdadeira ação combinada que deveríamos estar discutindo? A transformação das acusações de fake news, dos mecanismos de denúncia e das decisões de moderação em possíveis instrumentos de intimidação e restrição do debate público? A democracia não pode depender da boa vontade das big techs, tampouco admitir que o combate à desinformação seja utilizado seletivamente para silenciar críticas. Se a liberdade de expressão só vale para quem concorda conosco, então já não estamos falando de liberdade, mas de uma disputa pela hegemonia do direito de falar.

Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.

ADUENF indica voto em Lula: defender a universidade pública exige uma escolha

Decisão aprovada em assembleia parte da defesa dos direitos sociais, da educação pública e da soberania nacional — compromissos que, neste segundo turno, levam ao voto em Lula

A assembleia docente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF), realizada em 8 de outubro, aprovou, por maioria, o posicionamento público da entidade em apoio a Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Conforme o informe divulgado pela associação, a decisão está vinculada à defesa da educação pública, à oposição às privatizações e aos cortes orçamentários, ao enfrentamento da extrema direita e à proteção dos direitos sociais dos trabalhadores. Também integra esse posicionamento a defesa das reservas de terras raras e da soberania nacional. Trata-se, portanto, de uma escolha alicerçada em compromissos programáticos que dizem respeito às condições de existência da universidade pública e ao projeto de sociedade que se pretende defender.

Esse ponto é central porque uma entidade sindical não pode tratar a disputa presidencial como se as alternativas fossem indiferentes aos interesses da categoria e da classe trabalhadora. Quem assume a defesa da educação pública, do financiamento das universidades, dos serviços públicos e dos direitos sociais precisa extrair desses compromissos suas consequências políticas. Dentro desse conjunto de critérios e diante das alternativas colocadas neste segundo turno, a única indicação de voto coerente seria em Lula. Uma posição de neutralidade deixaria sem consequência eleitoral justamente os princípios que orientam a atuação da entidade, como se fosse possível defender a universidade e ignorar as ameaças políticas à sua manutenção.

Isso não significa conceder um cheque em branco a Lula, muito menos suspender as críticas às políticas de seu governo. Apoiar sua candidatura a partir de uma perspectiva programática implica preservar a autonomia sindical e continuar cobrando financiamento adequado para a educação, valorização dos servidores, proteção dos direitos trabalhistas e medidas efetivas em defesa da soberania nacional. O voto não encerra essas disputas, nem substitui a mobilização. Ao contrário, precisa estar associado à disposição de enfrentar qualquer governo quando suas decisões contrariem os interesses dos trabalhadores. A coerência está em combinar a escolha eleitoral com a independência necessária para cobrar o cumprimento dos compromissos que a justificam.

No caso da UENF, essa compreensão ganha uma dimensão concreta. O informe da assembleia registra preocupação com ameaças ao financiamento das universidades, possíveis cortes orçamentários e falta de diálogo com o Governo do Estado, além da necessidade de intensificar a mobilização pela aprovação do PCV. Estas  são questões que demonstram como as escolhas políticas chegam ao cotidiano da universidade, às condições de trabalho e à capacidade de atender à sociedade. A decisão da ADUENF reconhece essa ligação e assume uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: se o programa defendido é o da educação pública, dos direitos sociais e da soberania nacional, o voto precisa acompanhar essa defesa. Neste segundo turno, isso significa indicar o voto em Lula e manter a organização da categoria para as lutas que continuarão depois das urnas.

Os estudantes vão às ruas, enquanto os professores se recolhem aos laboratórios

A mobilização estudantil contra Flávio Bolsonaro expõe uma perigosa acomodação entre professores universitários que parecem acreditar que poderão sobreviver impunemente a mais quatro anos de ataques à universidade pública

A primeira semana do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras vem revelando um fenômeno político difícil de ignorar: a saída de multidões de estudantes de escolas e universidades públicas às ruas em defesa da candidatura de Lula. Essa mobilização vem se disseminando pelo território nacional, alcançando inclusive cidades que se transformaram em verdadeiros bastiões eleitorais da extrema-direita. Certamente, não tardarão a aparecer comentaristas da mídia corporativa e professores universitários dispostos a oferecer explicações para esse fenômeno, que aparentemente não foi antecipado nem pela campanha de Flávio Bolsonaro, tampouco pela de Lula. O fato é que, independentemente das interpretações que venham a surgir, estamos diante de uma manifestação de protagonismo político estudantil que parece ter surpreendido tanto os estrategistas eleitorais quanto aqueles que se acostumaram a enxergar a juventude como uma geração politicamente apática e submetida à influência das redes sociais.

Ao mesmo tempo, pelo menos a partir do meu ponto de observação, que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa onda de mobilização ainda não parece ter alcançado os professores universitários com a mesma intensidade. Essa disparidade produz uma ironia particularmente interessante: talvez os professores não sejam, afinal, os grandes doutrinadores ideológicos que a extrema-direita insiste em denunciar. Ao contrário, tudo indica que poderão acabar sendo empurrados para as ruas pelo ímpeto político demonstrado pelos próprios estudantes, subvertendo completamente a suposta relação entre doutrinadores e doutrinados. Nesse caso, os estudantes não estariam seguindo orientações políticas de seus professores, mas oferecendo a eles uma verdadeira aula prática de participação política.

Entretanto, a questão que me parece mais importante neste momento é compreender as razões dessa disparidade de mobilização no interior das universidades. Acredito que ela possa resultar de diferentes fatores, mas considero que um dos principais seja a percepção desigual dos riscos representados por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Os estudantes parecem já ter compreendido que estarão entre os principais perdedores de um governo comandado pela extrema-direita, especialmente diante das perspectivas de aprofundamento dos cortes orçamentários, da precarização das universidades públicas e da redução das oportunidades de formação e inserção profissional. Já uma parcela dos professores talvez esteja fazendo um cálculo diferente, baseado na percepção de que, afinal, atravessamos os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro e aparentemente sobrevivemos para contar a história. Essa experiência anterior poderia estar alimentando uma perigosa sensação de que, mesmo diante de um novo governo da família Bolsonaro, seria possível continuar trabalhando, pesquisando e ensinando como se estivéssemos diante de mais uma alternância convencional de poder.

Se essa hipótese estiver correta, considero que estamos diante de um cálculo político profundamente equivocado. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderá representar uma versão ainda mais agressiva e organizada do projeto político colocado em prática por seu pai. Para compreender os riscos dessa possibilidade, basta observar o que vem acontecendo nos Estados Unidos sob o segundo mandato de Donald Trump, cuja administração tem aprofundado ataques aos já limitados direitos sociais existentes naquele país e promovido uma verdadeira perseguição aos imigrantes, inclusive aqueles que se encontram em situação migratória regular. As operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) têm suscitado graves questionamentos sobre abusos de autoridade e desrespeito às garantias previstas na legislação estadunidense. A experiência norte-americana deveria servir de advertência para aqueles que imaginam que o retorno de forças políticas autoritárias ao governo significa simplesmente a repetição de experiências anteriores. Em determinadas circunstâncias, o segundo mandato pode ser justamente aquele em que os mecanismos de contenção institucional se mostram mais fragilizados e os ataques aos direitos sociais se tornam mais profundos.

No caso brasileiro, há ainda um elemento que deveria preocupar especialmente os professores universitários: a possibilidade de que um novo governo da família Bolsonaro disponha de condições políticas mais favoráveis para aprofundar o desmonte das universidades públicas, comprometendo não apenas seu financiamento, mas também sua autonomia institucional e sua capacidade de produzir conhecimento científico. Não se trata apenas de imaginar novos contingenciamentos orçamentários, mas de reconhecer que a combinação entre austeridade fiscal, hostilidade à ciência e desprezo pela educação pública pode produzir consequências muito mais duradouras do que aquelas experimentadas entre 2019 e 2022. Afinal, laboratórios de pesquisa não funcionam apenas com a dedicação individual de seus coordenadores, mas dependem de financiamento público, infraestrutura, bolsas de estudo, equipes técnicas e da formação contínua de novos pesquisadores. Quando esses elementos são comprometidos, não é apenas a produção científica que sofre: é a própria capacidade das universidades de cumprir suas funções sociais que passa a estar ameaçada.

Diante disso, minha expectativa é que a continuidade e o eventual crescimento das mobilizações estudantis contribuam para despertar aqueles professores que, embora reconheçam que a eleição de Lula representa um cenário muito menos danoso para a universidade pública brasileira, ainda não perceberam a necessidade de transformar essa preferência eleitoral em participação política efetiva. Não se trata de abandonar as atividades acadêmicas ou de subordinar a universidade a interesses partidários, mas de compreender que a defesa das condições institucionais necessárias ao ensino, à pesquisa e à extensão também exige posicionamento público diante de ameaças concretas. Afinal, a neutralidade aparente pode se transformar em uma forma bastante conveniente de acomodação política, especialmente quando se imagina que os efeitos de determinadas escolhas eleitorais recairão sempre sobre os outros.

Por isso, espero que os estudantes continuem oferecendo essa demonstração de protagonismo político e que sua disposição de ocupar as ruas acabe contagiando também os professores universitários. Caso contrário, muitos daqueles que hoje preferem permanecer confortavelmente recolhidos em seus laboratórios, acreditando que poderão atravessar mais quatro anos de bolsonarismo sem maiores consequências, poderão despertar para uma realidade bastante desagradável: a de descobrir que seus laboratórios foram inviabilizados, seus projetos interrompidos e suas condições de trabalho profundamente deterioradas. E talvez descubram, tarde demais, que a defesa da universidade pública não poderia ter sido deixada exclusivamente nas mãos dos estudantes.

Afinal, de pouco adiantará preservar uma suposta neutralidade política se, ao final dos próximos quatro anos, já não houver condições materiais para continuar fazendo ciência, ensinando e formando novos pesquisadores. Nesse cenário, a grande ironia será perceber que os estudantes compreenderam antes de muitos de seus professores algo bastante elementar: não há futuro para a universidade pública quando aqueles que dependem dela se recusam a defendê-la.

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.

A vida é bela, apesar da farsa eleitoral e da tempestade

Enquanto a chuva inclemente se abate sobre Campos dos Goytacazes, sob o impulso de um Super El Niño, milhões de brasileiros se preparam para ir às urnas amanhã escolher o próximo presidente, os governadores, os senadores e os deputados federais e estaduais. Chegamos ao fim de uma campanha eleitoral particularmente medíocre, na qual a maioria dos candidatos não se deu ao trabalho de apresentar propostas concretas para os problemas que se acumulam diante de nós — problemas agravados não apenas pela crise climática, mas também pelos efeitos especialmente nefastos que ela impõe aos segmentos mais pobres de um país marcado por brutais desigualdades de renda e de condições de vida.

O debate que deveria ter existido foi substituído pela imposição de uma retórica que parte de visões de mundo reais, mas acaba por apresentá-las como simulacros do que de fato são. De um lado, fomos confrontados com os perigos de uma suposta ditadura comunista, dominada por tribunais corruptos; de outro, recebemos uma receita que combina o risco de ver o Brasil transformado em uma ditadura neofascista com a denúncia de que o país estaria submetido à vontade imperial do grande império do mal que nos vigia desde o Norte.

A verdade é que essas narrativas que se complementam servem, sobretudo, para ocultar que os dois lados compartilham a determinação de manter a ordem neoliberal que literalmente nos sufoca e nos deixa sem perspectivas de superação. Não quero dizer com isso que não vivamos sob o risco grave de uma intervenção política ou até militar — risco que decorre, em grande parte, do fato de a ordem capitalista estar submetida a uma pressão quase terminal. Esse risco existe. O problema é que, neste momento, os dois lados acenam para um tigre de papel: as aventuras desastradas na Ucrânia e no Irã tornam uma intervenção no Brasil mais provável a partir de forças internas do que de uma ação externa.

A quem me lê, parece necessário reconhecer que, independentemente de quem vença as eleições — seja o neoliberalismo tosco ou o sutil —, temos diante de nós uma tarefa histórica monumental: construir alternativas políticas e partidárias capazes de enfrentar o que o nosso tempo histórico nos impõe. Por mais que se diga que a extrema-direita avança em todo o planeta, essa é apenas uma meia-verdade, pois também temos visto o outro extremo avançar e conquistar importantes vitórias eleitorais. Mais importante ainda, o espectro da esquerda tem sido capaz de impulsionar grandes mobilizações contra as manifestações mais impiedosas da ordem neoliberal, como ocorre neste momento na Espanha, em protesto contra os despejos de idosos.

Há um detalhe importante: quando se acena apenas para o avanço eleitoral da extrema-direita, o que se pretende impedir é uma resposta à altura do outro extremo, pois o que importa é salvar o status quo reinante. O problema é que esse status quo não pode ser salvo, e a tentativa de preservá-lo apenas nos empurra para mais perto da barbárie completa, como um dia profetizou Rosa Luxemburgo.

Dito isso, considero correto desejar que as pessoas compareçam às urnas e derrotem eleitoralmente a extrema-direita. As tarefas políticas que estão postas, porém, não serão resolvidas apenas por meio das eleições. A plataforma política do futuro imediato precisa incluir a derrota das políticas neoliberais e um compromisso claro com a adaptação climática, centrada nas necessidades da classe trabalhadora e da juventude. E, se a chuva continuar caindo no ritmo atual, especialmente na Região Sul, o El Niño poderá se tornar um fator eleitoral que os institutos de pesquisa não previram, apesar dos alertas contínuos da comunidade científica sobre a intensidade e as consequências do fenômeno, inclusive durante o período eleitoral brasileiro. Ainda assim, é preciso preservar a esperança, como escreveu Leon Trotsky em seu testamento: “A vida é bela. Que as futuras gerações a livrem de todo mal e opressão, e possam desfrutá-la em toda sua plenitude.”

A esquerda depois de Lula: ou construímos alternativas agora ou chegaremos atrasados ao futuro

ortalecer os partidos da esquerda autônoma não é apenas uma questão eleitoral em 2026, mas uma necessidade estratégica para formar novas lideranças, ampliar a disputa programática e preparar as forças que enfrentarão os embates sociais, políticos e ambientais de um Brasil que não poderá permanecer indefinidamente organizado em torno de Lula

As eleições presidenciais de 2026 estão ocorrendo com uma pluralidade política que aparece muito menos no debate público do que deveria. Além das duas candidaturas que concentram a maior parte da cobertura — Lula e Flávio Bolsonaro —, existem partidos de esquerda que disputam as eleições fora do arco político organizado em torno do PT. PCB, PCO, PSTU e UP apresentam candidaturas presidenciais próprias, além de candidatos aos demais cargos, e colocam em circulação programas e interpretações sobre o Brasil que mereceriam ser conhecidos e debatidos.

O problema não está apenas no tamanho eleitoral dessas candidaturas. Está no fato de que, quando elas praticamente desaparecem da cobertura jornalística e do debate político cotidiano, desaparecem também determinadas questões que dificilmente ocuparão posição central numa disputa reduzida a Lula versus Flávio Bolsonaro. O resultado é uma eleição apresentada como escolha quase binária, embora o primeiro turno exista justamente para permitir uma expressão mais ampla das diferenças existentes na sociedade.

O primeiro turno não deve ser transformado antecipadamente em segundo turno

Nas últimas semanas tenho acompanhado apelos para que eleitores identificados com a esquerda concentrem seus votos em Lula já no primeiro turno, sob o argumento de que seria necessário encerrar imediatamente a disputa e impedir qualquer possibilidade de vitória da extrema-direita.

Compreendo perfeitamente a preocupação que sustenta esse argumento. Entretanto, não considero que ela elimine uma questão política anterior: se todas as eleições forem tratadas desde o primeiro turno como uma escolha defensiva entre o PT e a direita, quando haverá espaço para construir alternativas de esquerda ao próprio PT?

Nesse aspecto, considero pertinente a reflexão feita pelo ex-vereador Renato Cinco em suas redes sociais. A existência de dois turnos permite que o primeiro seja também um momento de apresentação de programas, afirmação de diferenças e construção de forças políticas. Transformá-lo antecipadamente em segundo turno significa reduzir justamente o espaço institucional no qual alternativas minoritárias podem apresentar suas propostas à sociedade.

O problema não é apenas eleitoral

Há uma questão ainda mais profunda. PCB, PCO, PSTU e UP não precisam apenas de votos. Precisam conquistar maior presença social, capacidade organizativa, inserção sindical e popular, produção intelectual, comunicação própria e formação de novas lideranças.

Uma esquerda que somente aparece durante as eleições continuará condenada à marginalidade. Mas uma esquerda que transforma a eleição em instrumento para ampliar sua organização pode acumular forças mesmo quando seus resultados eleitorais imediatos forem modestos.

Esse ponto me parece especialmente importante porque parte significativa da esquerda brasileira passou décadas gravitando em torno do PT e, sobretudo, em torno da liderança de Lula. Essa centralidade possui razões históricas evidentes: Lula é uma das mais importantes lideranças políticas surgidas no Brasil contemporâneo. Mas justamente por isso a dependência prolongada de uma única liderança produz um problema que a esquerda brasileira terá inevitavelmente de enfrentar.

O Brasil precisa pensar a esquerda depois de Lula

Lula tem 80 anos e, independentemente do resultado de 2026, a esquerda brasileira precisa discutir seriamente sua renovação geracional e programática. O problema não é desejar ou antecipar sua saída da política, mas reconhecer algo elementar: nenhuma força política pode organizar seu futuro indefinidamente em torno de uma única liderança.

Dentro do PT e dos partidos que compõem seu campo de alianças, a enorme centralidade política e eleitoral de Lula dificulta o aparecimento de lideranças com autonomia comparável. Isso cria uma contradição: quanto mais indispensável Lula se torna para manter esse campo político unido e eleitoralmente competitivo, mais difícil parece preparar uma estrutura política capaz de funcionar sem ele.

Por isso, fortalecer partidos de esquerda que existem fora dessa órbita não significa necessariamente enfraquecer a resistência à extrema-direita. Pode significar justamente ampliar o número de organizações, lideranças e projetos políticos capazes de enfrentá-la no futuro.

Uma esquerda autônoma também amplia os limites do debate

Há ainda outra razão para defender a presença dessas forças. Uma esquerda politicamente relevante fora do PT pode deslocar o próprio centro do debate nacional.

Questões como redução da jornada de trabalho, direitos previdenciários, tributação das grandes fortunas, reestatização de setores estratégicos, enfrentamento da financeirização, reforma agrária, proteção dos povos tradicionais, crise climática, poder das corporações e limites impostos pelo capital financeiro às políticas públicas ganham outra dimensão quando existem organizações capazes de defendê-las sem depender das necessidades de composição de um governo.

A Previdência é um exemplo particularmente importante. Existem atualmente propostas sendo discutidas por economistas que envolvem mudanças profundas no sistema, incluindo aumento da idade mínima e alterações nas formas de financiamento. A equipe econômica da campanha de Lula afirma que uma nova reforma não está atualmente em discussão, embora não descarte um debate futuro; do lado de Flávio Bolsonaro, integrantes da campanha já defenderam revisitar a Previdência, ainda que o candidato posteriormente tenha declarado que não pretende promover nova reforma. O episódio mostra precisamente por que é importante que existam forças políticas capazes de colocar os interesses dos trabalhadores no centro dessa discussão antes — e não depois — de eventuais mudanças.

Votar também significa construir

É por isso que não considero contraditório alguém rejeitar uma eventual volta do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, decidir votar no primeiro turno em uma candidatura situada à esquerda do PT.

O voto no primeiro turno pode cumprir também uma função de construção política. Pode fortalecer partidos, ampliar sua visibilidade, ajudar a eleger parlamentares, formar novas lideranças e demonstrar que existe uma parcela da sociedade que deseja políticas que ultrapassem os limites atualmente estabelecidos pelo campo político dominante.

No segundo turno, caso ele ocorra, haverá outra conjuntura e outra decisão a ser tomada. Mas antecipar essa decisão para o primeiro turno significa abrir mão de uma das poucas oportunidades institucionais existentes para medir, apresentar e fortalecer alternativas políticas.

A questão fundamental, portanto, ultrapassa 2026. A emergência climática, a precarização do trabalho, a concentração de riqueza, a financeirização da economia e o avanço internacional da extrema-direita não oferecem à esquerda brasileira o luxo de esperar indefinidamente pelo aparecimento espontâneo de uma liderança pós-Lula.

Novas lideranças não surgem por decreto nem aparecem quando a antiga liderança deixa o palco. Elas são produzidas por organizações políticas, lutas sociais, formação de quadros, presença territorial e disputa de ideias.

Se a esquerda brasileira quiser continuar existindo como força transformadora depois de Lula, precisa começar a construir esse futuro enquanto Lula ainda está presente. E isso passa necessariamente pelo fortalecimento de organizações de esquerda capazes de caminhar com as próprias pernas, formular seus próprios programas e disputar a sociedade sem permanecer permanentemente subordinadas à órbita política do PT.

Quando Folha e Estadão fazem a mesma pergunta: o que Flávio Bolsonaro precisa explicar aos brasileiros

Em poucos dias, dois dos principais jornais brasileiros colocam sob escrutínio não apenas as relações do candidato com Daniel Vorcaro, mas sua experiência administrativa e sua relação com o legado político de Jair Bolsonaro

Há uma coincidência editorial que merece atenção neste momento da campanha presidencial. Depois de O Estado de S. Paulo publicar, no último sábado (12), o editorial “Flávio é um candidato sob suspeita”, agora é a Folha de S.Paulo que dedica seu principal espaço de opinião a examinar a candidatura de Flávio Bolsonaro. O título escolhido — “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista” — mostra que a Folha decidiu ampliar o foco para além do caso Banco Master.

O Estadão havia colocado no centro de sua crítica as relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e as suspeitas envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, destinado a contar a trajetória de Jair Bolsonaro. Como escrevi aqui no Blog, o significado daquele editorial estava também em quem fazia a crítica: um jornal cuja história editorial está longe de qualquer identificação com a esquerda brasileira.

A Folha acrescenta agora outra dimensão e seu editorial questiona a experiência administrativa de Flávio, recorda episódios controversos de sua trajetória política e, principalmente, pergunta até que ponto sua tentativa recente de apresentar uma candidatura mais moderada representa efetivamente uma ruptura com elementos do projeto político do pai. A questão ganha importância porque Flávio promete indultar Jair Bolsonaro e continua reivindicando explicitamente sua herança política.

Existe ainda um ponto em que os dois editoriais se encontram: Daniel Vorcaro. O banqueiro que apareceu inicialmente como problema do sistema financeiro tornou-se personagem transversal da crise política brasileira. No caso de Flávio Bolsonaro, vieram a público conversas sobre a busca de recursos para Dark Horse. Como sempre é necessário registrar, relações políticas ou empresariais e investigações não equivalem a condenações criminais. Mas, numa campanha presidencial, elas constituem fatos legítimos para o escrutínio público.

Talvez seja justamente aí que a convergência entre Folha e Estadão adquira maior significado. O debate sobre Flávio Bolsonaro começa a ultrapassar a pergunta sobre aquilo que ele propõe fazer caso seja eleito. Passa também pela trajetória que apresenta ao eleitorado, pelas relações políticas que construiu e pelo grau de continuidade ou ruptura que representa em relação ao governo e ao movimento político liderados por seu pai.

Em uma eleição polarizada, esse escrutínio deveria valer para todos os candidatos. Programas, trajetórias, relações econômicas e compromissos institucionais precisam ser examinados com o mesmo rigor. No caso de Flávio Bolsonaro, dois dos maiores jornais brasileiros decidiram, quase simultaneamente, que existem perguntas relevantes esperando respostas. E, numa disputa pela Presidência da República, responder a essas perguntas faz parte do próprio processo democrático. Resta saber se Flávio Bolsonaro terá disposição ou capacidade para respondê-las.  Até aqui parece que ele prefere encenar cenas de dança para ver se faz o Brasil dançar.

Flávio Bolsonaro e Luis Inácio: duas faces da mesma moeda fiscal

Enquanto as campanhas disputam o campeonato de arremesso de lama, ambas escondem do eleitor o arrocho preparado para começar em 2027

A estas alturas do campeonato, parece estar ficando claro que o torneio de arremesso de lama entre as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio  beneficia ambos, ainda que abra algum espaço para um crescimento não pactuado dos votos em Augusto Cury.

Além desse ganho comum, a fixação nos supostos poderes demoníacos das duas candidaturas majoritárias serve apenas para esconder que, na pauta comportamental, uma delas é essencialmente a versão piorada da outra. O que permanece obscurecido em meio à trama das acusações recíprocas de corrupção é que ambas carregam programas de arrocho fiscal prontos para entrar em vigor já no primeiro dia de 2027. Sob o ruído cuidadosamente alimentado da polarização, Flávio Bolsonaro e Luis Inácio aparecem, assim, como faces distintas de uma mesma moeda fiscal.

O desconhecimento dessa convergência pela maioria dos eleitores acaba contribuindo para o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Além de enfrentar o desgaste inerente a quem governa, o governo de Luis Inácio vem tornando cada vez mais difícil que milhões de brasileiros consigam se proteger debaixo do cobertor, já curto, dos programas sociais que deveriam minimizar seu sofrimento. Essa é uma das principais razões para a aproximação de Flávio Bolsonaro. Embora os planos do primogênito de Jair Bolsonaro apontem para encurtar ainda mais esse cobertor, a maioria vive as urgências do presente e dispõe de poucos elementos para avaliar um futuro que se anuncia cinzento, seja qual for o candidato escolhido.

Por isso, a tentativa de Luis Inácio de chegar a um quarto mandato somente se tornará viável se ele disser com clareza o que pretende fazer, objetivamente, para melhorar a vida daqueles que mais vêm perdendo sob sua batuta. Não bastará afirmar que Flávio Bolsonaro representa algo pior, sobretudo quando o presente oferecido pelo governo Lula já se mostra ruim para quem vive do próprio trabalho e não participa das festinhas animadas do andar de cima. É justamente aí que a porca torce o rabo: quando chega a hora de abandonar o campeonato de lama e apresentar uma alternativa concreta ao arrocho fiscal, as diferenças entre as duas principais candidaturas começam a parecer bem menores do que seus marqueteiros gostariam que o eleitor percebesse.