Desmatamento na Amazônia, Emmanuel Macron, e o boicote às commodities agrícolas brasileiras

“Depender da soja brasileira é endossar desmatamento na Amazônia”, diz Macron

Presidente francês volta a criticar o desflorestamento no Brasil e diz que Europa deve investir mais no cultivo local de soja para ser “coerente” com suas ambições ecológicas.

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Macron é uma das vozes mais críticas à política ambiental do governo Bolsonaro

O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a criticar o desmatamento na Amazônia nesta terça-feira (12/01), afirmando que a Europa precisa investir mais no cultivo de soja em seu território, senão estará “endossando” o desflorestamento em terras brasileiras.

“Continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”, escreveu Macron em postagem no Twitter. “Somos coerentes com as nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa!”, completou.

O texto acompanha um vídeo de 30 segundos, em que o presidente francês destaca que, “quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes” com as ambições ecológicas europeias.

“Nós precisamos da soja brasileira para viver? Então nós vamos produzir soja europeia ou equivalente”, acrescenta ele no vídeo, após uma visita a agricultores orgânicos na cidade de Tilly nesta terça-feira.

A publicação vem um dia depois da One Planet Summit, uma cúpula liderada por Macron com a participação de chefes de Estado, empresários e representantes de organizações não governamentais, dedicada à preservação da biodiversidade.

Críticas à política ambiental

O aumento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros nos últimos dois anos gerou uma onda de indignação internacional, com Macron sendo uma das vozes mais críticas à política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.

Os líderes francês e brasileiro chegaram a trocar farpas públicas. Em 2019, Macron disse que as queimadas no Brasil – cujas imagens correram o mundo e aumentaram a pressão sobre o governo brasileiro – eram uma “crise global” e precisavam ser discutidas “com urgência” pelo G7.

À época, a posição de Macron irritou Bolsonaro, que reagiu afirmando que a postura do francês evocava “mentalidade colonialista descabida no século 21”. Membros do governo Bolsonaro e filhos do presidente chegaram a xingar Macron nas redes sociais, e o próprio presidente fez um insulto machista à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

A situação do meio ambiente no Brasil levou inclusive alguns países europeus a ameaçarem não ratificar o acordo de livre-comércio assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que ainda precisa ser confirmado pelos parlamentos de ambas as partes.

Em agosto de 2020, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, se uniu a Macron como voz crítica ao acordo. Por meio de seu porta-voz, ela disse ter “sérias dúvidas” sobre a implementação do pacto comercial devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

Segundo o porta-voz, Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na região. “Nesse sentido, surgem sérias dúvidas sobre se, no momento, uma implementação do acordo pode ser garantida dentro do espírito pretendido. Vemos isso com ceticismo”, alertou.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia cresceu 85%, atingindo 9.165 quilômetros quadrados, o maior nível registrado no bioma desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Europa importadora de soja

A Europa é uma grande importadora de soja da América Latina, principalmente do Brasil. O cultivo e a importação de soja para ser usada, por exemplo, como ração para pecuária e biocombustível têm sido fortemente criticados por impulsionar o desflorestamento.

Um relatório apresentado na semana passada em Berlim, intitulado Fleischatlas 2021 (“Atlas da carne 2021”), apontou que 50% dos produtos agrícolas enviados do Brasil à União Europeia, especialmente soja, carne bovina e café, são produto do desmatamento.

Já entre os países europeus, a França é o maior produtor de soja. Em 2020, o governo francês anunciou um plano para aumentar a produção local do grão, visando reduzir a dependência das importações, uma vez que o país continua comprando soja de outros países, sobretudo do Brasil – o que já gerou protestos de organizações ambientalistas como o Greenpeace.

Varejistas franceses também anunciaram que, a partir de 2021, não mais comprariam soja brasileira que tivesse sido cultivada em áreas desmatadas.

EK/dpa/lusa/ots

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Este artigo foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

A perda da credibilidade do governo brasileiro frente aos dilemas internacionais e na degradação ambiental das florestas

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Por Junio Cesar dos Santos Carmo e  Gabriel Henrique Alves*

Com o pós Guerra Fria e a entrada no século XXI novas demandas tomaram espaço na agenda internacional, perdendo o caráter estrito voltado para segurança e armamento como definição de poder. Com o adjunto do acordo de Paris (2015), do Protocolo de Kyoto (1997), da Agenda 2030 e outras convenções que permeiam a temática da preservação ambiental, quanto a redução da emissão de gases, desenvolvimento sustentável, energias renováveis e etc; a pauta sobre meio ambiente tem adquirido relevante proporção nos debates internacionais. Entre 2019 e 2020, ocorreu um crescimento considerável nos incidentes que envolvem desastres ambientais, sobretudo no que tange às queimadas e a emissão de CO₂. Nesse sentido, o Brasil obteve palco em inúmeros canais de telecomunicações internacionais, vis a vis, a degradação ambiental na Amazônia e no momento atual com os incêndios no Pantanal. Tais notícias trouxeram novamente a discussão sobre a irresponsabilidade dos Estados latino-americanos na proteção do meio ambiente e a necessidade de um estatuto internacional para a “preservação da Amazônia”. A constituição do sistema anárquico internacional tem um impacto direto nas relações entre os países, nas quais em sua maioria (se não na sua totalidade) são moldadas por interesses ou aspirações que mantenham/aumentem o status quo desses atores no paronama global.

Entretanto, na habilidade de causar dano, estimar capacidades e o comportamento entre os Estados, os jogos de interesses se mostram claros na entrevista que o Presidente da França, Emmanuel Macron participou no dia 26 de agosto de 2019 ao abordar sobre as queimadas na Amazônia, uma vez que afirmou que “a nossa casa está queimando”. Nesta mesma linha de raciocínio sobre, o Presidente francês pontuou acerca da irresponsabilidade do Governo de Jair Bolsonaro ao ressurgir com o tema da “internacionalização da Amazônia”, uma vez que as medidas de contenção aos incêndios que vem devastando a região são ínfimas.

As aspirações de Macron são muito claras ao considerar às pressões populares quanto à sua inexequibilidade às propostas de governo nos resguardos de preservação ambiental. No entanto, o Presidente se contrapôs ao consentir uma redução de 50% sobre os impostos da licença para caça na França (algo praticado por cerca de 1,2 milhões de franceses). Outro aspecto estratégico se exemplificou no argumento de ser necessário a criação de um Estatuto Internacional para Amazônia; indicação que teve apoio de grande parte dos líderes da União Europeia e pelo próprio G-7, o que levou a interromper o acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a UE, tido como pretexto as queimadas e a urgência por uma tomada de decisão eficiente pelo Governo brasileiro (Gazeta do Povo, 2019). Esta interrupção permite que França tenha mais tempo para reorganizar sua situação frente ao acordo, visto que 1,7% do PIB é voltado para o setor agrícola e o sistema tarifário disposto na proposta teria impacto direto sobre a economia francesa tanto na importação quanto exportação (Aicep Portugal Global, 2018, p 5), assim como uma forma que Macron encontrou para melhorar sua imagem na mídia em relação às pautas ambientais. Portanto, mais uma vez o sul-global sofre com interferência por países com maior poder econômico e influência no sistema internacional.

O Presidente Donald Trump iniciou a saída dos EUA do acordo de Paris, quanto a redução da emissão de gases, sendo que o país que detém de 4% da poluição mundial e um dos líderes que apoiam fervorosamente a produção e consumo de combustíveis fósseis (The Guardian, 2020). Este advento, por maior que tenha tido certa repercussão internacional, os constrangimentos sob os norte-americanos não foram os mesmos quanto à questão da Amazônia. Ademais, a Austrália enfrentou uma das piores queimadas nos últimos anos, com mais de 10 milhões de hectares queimados e 28 mortos, devido ao evento chamado Dipolo do Oceano Índico que provocou uma seca intensa, pouca chuva e temperaturas perto dos 45oC (BBC, 2020). Mesmo que as queimadas tenham justificativas de cunho climático (“natural”) – o que o mesmo não ocorre na Amazônia por ser uma região muito úmida e sofrer com uma agressiva exploração ambiental – não existiu uma repercussão internacional que culpasse o Governo ou que evidenciasse uma necessidade de interferência igual na América Latina, sobretudo, porque interferir nas políticas australianas, estado-unidense bem como o status da Amazônia, intitularia-se como uma violação ao princípio de soberania previsto no artigo 3º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) dos países que ali estão estabelecidos.

Não obstante, ao fazer uma análise sobre imagem do Brasil no exterior, especialmente em relação ao Governo Bolsonaro, os noticiários intitulam o Presidente como um “líder vingativo” e que apresenta uma postura “irresponsável e perigosa”, um caráter que influi diretamente sob as pressões e os constrangimentos internacionais sofridos (BBC, 2020). Pontuações que atribuem fuga de investidores do país, perda de credibilidade internacional e a ameaça a própria diplomacia brasileira, principalmente em relação ao MERCOSUL com o re-alinhamento das política externa brasileira com a dos Estados Unidos.

Todavia, as ações negligentes e pouco efetivas para conter as queimadas e a degradação ambiental da Floresta Amazônica e na região Pantanal são um reflexo não só governamental, mas dos impactos industriais e dos fazendeiros, como gerados pela agricultura, pecuária e mineração. “A área desmatada no ano passado na maior floresta tropical do mundo – 60% da qual está no Brasil – foi estimada em 10 mil quilômetros quadrados, correspondente aproximadamente ao tamanho do Líbano” (DW, 2020). Na Amazônia, cerca de 80% do desmatamento é resultado de ações da pecuária, sendo que em uma escala nacional, a região norte abarcou 52,5% dos focos de queimadas de 2019, logo em seguida o cerrado com 30,1% e a Mata Atlântica 10,9%. As queimadas no Brasil cresceram cerca de 82% em relação a 2018 com mais de 71 mil focos, sendo o maior número registrado nos últimos 7 anos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Num panorama mundial, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 40% da população mundial sofrerá com a falta de água e até 2050 esse número subirá para 2/3. 

Nesta lógica, as alterações climáticas e o próprio aquecimento global são resultado direto do consumo desenfreado do ser humano, da produção em larga escala pelas indústrias, pela falta de responsabilidade dos líderes mundiais bem como a uma de consciência moral, que fomentará consequências exorbitantes no futuro com aumento das temperaturas, do nível do mar, perda de biomas e extinção de espécies e uma ação mais violenta da natureza como resposta. O cenário brasileiro vem sendo uma avalanche, com perda de fiabilidade, protagonismo nas Nações Unidas e principalmente no MERCOSUL. Atualmente, o Pantanal é a nova vítima, e de acordo com o New York Times os incêndios por fazendeiros acarretaram perda de 10% da áreas úmidas do país, sendo que as queimadas na maior planície alagada do planeta, resultaram em mais de 7 mil milhas, ou seja, 11 mil km de áreas degradadas de acordo com o estudo feito pela NASA (The New York Times, 2020, tradução pelo autor). Nesse sentido, não apenas o Brasil, mas a sociedade internacional como um todo precisa de fato tomar medidas que recuem esse processo destrutivo e que saiam apenas das negociações e ratificações de convenções e tratados para o plano prático e real, sem fazer um análise segregacionista e muito menos colonial, visto que a longo prazo os resultados podem ser irreversíveis.

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Junio Cesar dos Santos Carmo – Graduado em Geografia com Ênfase em Geoprocessamento pela Pontifícia Universidade Católica – MG, Engenharia de Agrimensura e Cartografia pela Faculdade de Engenharia de Minas Gerais, MBA em Gestão de Pessoas pela Faculdade Pitágoras, Mestrando em Engenharia de Processos e Sistemas pelo IETEC. Hoje é Coordenador de regularização fundiária do GVM Advogados.

Gabriel Henrique Alves – Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa no Instituto de Ciências Sociais e Políticas

A vitoriosa onda verde/vermelha na França sinaliza problemas graves para o governo Bolsonaro e para o Brasil

eleições francesesA unidade de ecologistas com a esquerda resultou em vitórias surpreendentes nas eleições municipais francesas

As eleições municipais recém ocorridas ficarão marcadas por vitórias acachapantes de candidaturas de ambientalistas em cidades importantes, mas também porque parte dessas vitórias resultou de uma aliança com partidos e personagens que estão alinhados com a esquerda, inclusive aquelas da chamada “esquerda radical”, no que pode ser considerada uma onda verde e vermelha. Dentre os principais derrotados está o partido do presidente Emmanuel, o “La Republique en Marche“, e o de Marianne Le Pen, o partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional.

A derrota com grande magnitude já forçou Emmanuel Macron a sair a público para declarar a adoção de políticas com claro viés pró-ambiente. Além disso, Macron já anunciou publicamente (ver vídeo abaixo) que analisa a possibilidade de retirar a França de tratados multilaterais que não respeitem o Acordo de Paris (2015), pois, segundo o presidente francês, “chegou a hora de fazer, de agir.  É o tempo de ações concretas. Eu já estava comprometido com isso, mantenho minha palavra“.

E adivinhem qual será um dos primeiros alvos contra o qual Macron pretende? Certamente o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), acordo que ele já se manifestou contrário no passado, mas que deverá agir de forma redobrada para atender a sinalização vinda das eleições municipais franceses.

Mas, convenhamos, com a proximidade dos grandes incêndios que irão ocorrer nos próximos dois meses na Amazônia brasileira, Macron terá a desculpa concreta para dobrar a primeira-ministra Angela Merkel que é a fiadora de fato do acordo da UE com o Mercosul. 

Apesar da inviabilização do acordo Mercosul-UE não ser um contratempo apenas para o Brasil, mas para todos os membros do bloco sul americano, certamente é o nosso país que está posto em pior condição neste momento por dois motivos aparentemente não relacionados. Primeiro é o papel evidente do governo Bolsonaro no avanço desenfreado da pandemia da COVID-19. Segundo, é a responsabilidade pela expansão acelerada do processo de desmatamento em regiões da Amazônia que até recentemente estavam fora do chamado “arco de desmatamento”.

E não adiantará tentar jogar a culpa em quem expõe o papel negligente que o governo Bolsonaro vem cumprindo nessas duas esferas por uma suposta piora na imagem internacional do Brasil.  É que o mundo, especialmente a Europa, sabe muito bem o que está acontecendo no nosso país neste momento, não apenas em termos da real situação da pandemia da COVID-19 e da aceleração do desmatamento na Amazônia, mas também sobre quem engendrou e, provalvemente, criou a sinergia entre esses dois processos.

Finalmente, que fique bem claro a lição vinda do eleitorado francês: em um mundo marcado por uma pandemia letal e o avanço da crise climática, a escolha está sendo por quem defende combinar a defesa dos direitos sociais com a do meio ambiente.

Amazônia em chamas: pirosoberania para devastar é o lema do governo Bolsonaro

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As ações do governo Bolsonaro confirmam que estamos diante de um executivo federal que está fortemente determinado a colocar o Brasil em um curso de irreversível recolonização, sendo os EUA o candidato favorito a ser a nossa nova metrópole tuteladora.  Só assim para se entender a recusa em aceitar cerca de R$ 90 millhões oferecidos pelo G-7 para auxiliar no combate aos incêndios devastadores que estão hoje ameaçando áreas inteiras da Amazônia inteira.

O interessante é que o mesmo governo que trabalha para nos transformar em uma espécie de neocolônia estadunidense age para fazer parecer que a recusa do auxílio financeiro (pequeno e claramente insuficiente, diga-se de passagem) seria uma espécie de ato em defesa da soberania nacional que estaria ameaçada pelo presidente da França, Emmanuel Macron. 

Nessa versão rocambolesca daquilo que eu já rotulei de “pirosoberania”, tivemos de ouvir o porta-voz da presidência da república, o general da reserva Otávio Santana do Rêgo Barros, que afirmou que sobre a Amazôniafalam os brasileiros e as Forças Armadas”.   A afirmação do general porta-voz seria reconfortante se o exército brasileiro não estivesse ponderando liberar 25.000 recrutas por falta de recursos financeiros.

Mais expressiva dessa versão de defesa da soberania em relação às manifestações de Emmanuel Macron são os insistentes discursos do presidente Jair Bolsonaro no sentido de abrir a Amazônia para ser explorada diretamente pelos EUAAparentemente a intromissão na soberania só aparece mesmo quando a discussão gira em torno da proteção do meio ambiente e dos povos indígenas. 

O problema para Jair Bolsonaro é que nem nos EUA a devastação da Amazônia tem apoio completo, com setores importantes se mobilizando neste momento para denunciar a devastação causada na região por uma combinação de omissão estatal que propiciou a ação livre de madeireiros, garimpeiros e grileiros.  Pior ainda será a situação se o presidente Donald Trump for apeado do poder nas eleições presidenciais que ocorrerão em 2020 e for substituído por um democrata que se alinhe mais com a visão que emanada da maioria dos líderes do G-7.

Por isso, todos os arroubos discursivos que estão sendo cometidos por Jair Bolsonaro e seus ministros contra as posições enunciadas por Emmanuel Macron podem até ser apresentados como defesa da soberania nacional, mas não resolvem a questão essencial que é o fato de que o controle sobre a Amazônia, caso a devastação em curso continue sendo tolerada, passará  inevitavelmente por um debate sobre os mecanismos de controle internacional.

Mas antes disso é possível que assistamos ao recrudescimento dos pedidos de boicote às commodities brasileiras vindas das áreas desmatadas na Amazônia.  Quando isso acontecer, e vai acontecer, vamos ver como ficarão os membros do governo Bolsonaro que hoje posam de valentes e recusam a ajuda externa para combater a devastação que suas políticas anti-ambientais trataram de acelerar.

Finalmente, quero notar aqui o massacre sofrido pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no programa Roda Viva que ocorreu no dia de ontem (26/08). A clara incapacidade de Salles em responder a questões básicas levantadas pela competente bancada de jornalistas e a insistência de se comportar como um “Rolando Lero” são a melhor expressão da eficiência das políticas anti-ambientais existentes no Brasil. Mas, mesmo assim, não deixa de ser lamentável notar a que ponto chegamos graças à presença de um personagem como esse à frente de uma área tão estratégica para o destino do Brasil.

Imprensa francesa destaca sexismo de Bolsonaro e farpas de Weintraub contra Macron

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A troca de críticas e ofensas entre Jair Bolsonaro e o presidente da França, Emmanuel Macron, motivadas pelos incêndios na Amazônia, respingou também na primeira-dama francesa, Brigitte Macron, de 66 anos.Sergio LIMA / AFP

A imprensa francesa nesta segunda-feira (26) destaca sexismo de Bolsonaro contra a primeira-dama francesa e insultos do ministro da Educação Abraham Weintraub, que chamou Emmanuel Macron de “calhorda” e “cretino” no final de semana.

Pelo Twitter, Weintraub chamou Emmanuel Macron de “calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês”, a respeito da ameaça de que a França não ratificaria o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia caso o Brasil não agisse contra os incêndios na Amazônia.

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“Ferro no cretino do Macrón [sic]”, tuitou ainda Weintraub. Questionada a respeito dessas declarações nesta segunda-feira (26), a ministra da Justiça francesa, Nicole Belloubet, disse em entrevista a um canal francesa que não comentaria “esse tipo de baixaria”.

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“A sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI”, alfinetou Jair Bolsonaro na sexta-feira (23).

Macron também acusou Bolsonaro de ter ‘mentido’ sobre o clima no G20 de Osaka, atiçando os comentários do lado brasileiro.

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Jair Bolsonaro endossou um comentário de um internauta no Facebook, que zombava da mulher de Macron 

O jornal Le Parisien desta segunda-feira acusa o presidente brasileiro de sexismo, por ter comentado um post de um internauta com fotos das duas primeiras-damas e dizendo que o francês estava “com inveja”. Bolsonaro respondeu ao simpatizante: “não humilha o cara. KKKKK”.

A imprensa francesa também cita o apelido que o guru Olavo de Carvalho criou para se referir ao presidente francês: “macrocon”, um jogo de palavras unindo “Macron” e “con”, xingamento de baixo calão na língua francesa. Os jornais franceses também falam de Eduardo Bolsonaro, que na sexta-feira retuitou um vídeo dos coletes amarelos, chamando Macron de “idiota”.

 

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Jair Bolsonaro e sua estranha pirosoberania

bolso piroJair Bolsonaro inova e cria a “pirosoberania”. O problema será convencer os parceiros comerciais a aceitarem tanta inovação.

O presidente Jair Bolsonaro usou hoje sua página oficial na rede social Twitter para rebater uma manifestação do seu congênere francês Emmanuel Macron que está querendo uma reunião do G-7 nas próximas 48 horas para discutir medidas para combater os devastadores incêndios que estão ocorrendo na Amazônia brasileira.

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Segundo Jair Bolsonaro, o presidente francês estaria possuindo de uma mentalidade “colonialista” ao querer discutir medidas para impedir que o holocausto amazônico continue (ver imagem abaixo).

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Jair Bolsonaro foi seguido nesse discurso pseudamente pró-soberania por vários de seus ministros, incluindo o negacionista das mudanças climáticas, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Segundo Araújo, o Brasil está sofrendo “uma campanha embalada por falsidades ambientais” por ter supostamente acordado do sono de algumas décadas.

As falas combinadas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Ernesto Araújo representam para mim uma inovação na argumentação em prol de devastar impunemente a Amazônia para ali implantar o reinado de uma modalidade da “economia de fronteira” apoiado em um conceito curioso que parecer ser o da “pirosoberania” (liberdade para tocar fogo). 

O problema é que a aplicação desta pirosoberania já está colocando em xeque a capacidade do agronegócio brasileiro continuar acessando mercados importantes como o da União Europeia.  E aí caímos em uma situação curiosa, pois em tese a liberdade geral, ampla e irrestrita  que Bolsonaro e Araújo parecem querer ter em transformar as florestas amazônicas em cinzas com o apoio da pirosoberania esbarra na óbvia dificuldade de que importantes parceiros comerciais do Brasil não vai aceitar isso calados. 

Um complicador que existe para o governo Bolsonaro é que a inclinação de existir um alinhamento total ao presidente Donald Trump esbarra no fato de que Brasil e EUA competem pela hegemonizar determinados mercados com as mesmas commodities. Este fato limita objetivamente a aplicação da pirosoberania. 

A verdade é que Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo podem até espernear contra as manifestações de Emmanuel Macron contra a devastação da Amazônia, mas não tem como ignorar que os franceses têm nas mãos a possibilidade, por exemplo, de impedir a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. E isto efetivamente ocorrer,  é bem provável que os barões do agronegócio brasileiro comecem a repensar a sustentação que dão a Jair Bolsonaro no congresso nacional, apenas para começo de conversa.

Estou cada vez mais curioso para saber quando o ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai iniciar o prometido tour por capitais europeus para tentar mostrar que a coisa não está tão feia no Brasil. É que se ele demorar muito a ir, vai correr o risco de ser convidado a não fazer isso até que alguma medida comece a ser tomada para apagar os milhares de pontos de incêndio que está acesos na Amazônia brasileira. O presidente da Bolivia, Evo Morales, já deu mostras de ser mais atento aos humores dos seus parceiros comerciais europeus, pois contratou um avião supertanque para apagar os focos de incêndio que estão consumindo cerca de 500 mil hectares do lado boliviano da Amazônia.

Finalmente, há que se ver até onde Jair Bolsonaro irá levar a aplicação da sua pirosoberania. Se demorar a mudar de posição, é bem provável que se confirmem os piores medos de líderes do latifúndio agro-exportador como Blairo Maggi que já disse que agronegócio brasileiro será levado à estaca zero por causa do discurso anti-ambiental do governo Bolsonaro.

Mais de 30 mil na França, “coletes amarelos” sobem o tom em Paris

 

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“Coletes amarelos” ajudam manifestante machucado por caminhão-tanque durante protestos no Arco do Triunfo em Paris, em 12 de janeiro de 2019.REUTERS/Christian Hartmann

Por  RFI

Se no resto da França os protestos dos “coletes amarelos” foram relativamente tranquilos neste sábado (12), em Paris alguns manifestantes ameaçaram confrontos com as forças de segurança. 32 mil “coletes amarelos” participaram de protestos em todo o país, sendo 8 mil apenas na capital francesa. 82 pessoas foram colocadas em prisão preventiva pela polícia e cerca de 102 foram detidas no local dos protestos, segundo o Ministério do Interior da França.

A polícia usou gás lacrimogêneo e caminhões-tanque com jatos de água para conter a multidão. As forças de segurança começaram a se dispersar a partir de 17h30 (hora local, 14h30 em Brasília) na Place de l’Étoile, palco principal de violências nas últimas semanas, no centro de Paris. Os confrontos eclodiram neste sábado (12) no meio da tarde entre os manifestantes dos “coletes amarelos” e forças de segurança em Paris e no interior da França, depois de manifestações calmas na parte da manhã, confirmando os temores do Ministério do Interior de uma violência renovada.

Na capital francesa, vários grupos se reuniram diretamente na avenida des Champs-Elysées, sem participar do protesto oficialmente organizado a partir do meio-dia entre a Bastilha e a Place de l’Etoile. A tensão aumentou por volta das 14h30, horário francês, na avenida mais famosa do mundo, com o lançamento de gás lacrimogêneo e de jatos de água de caminhões-tanque pelas forças de segurança, que tentavam bloquear o acesso à praça de Concorde.

“Braçadeiras brancas”

Uma novidade deste “Nono Ato” dos “coletes amarelos” deste sábado foi a presença de manifestantes com braçadeiras brancas, uma espécie de tentativa de organização dos protestos, com o objetivo de garantir a segurança da manifestação, e de evitar confrontos e violências policiais. Eles são cerca de 40 voluntários e costumam caminhar à frente da multidão.

Perto do Boulevard Haussmann e das famosas Galerias Lafayette, eles fizeram um cordão para bloquear a passagem de manifestantes que queriam atacar a polícia estacionada em uma rua adjacente, e também dispensaram aqueles que queriam atacar as vitrines das lojas. Alguns dos coletes amarelos que vestiam as braçadeiras brancas foram atacados por manifestantes, que diziam que eles eram “escravos de Macron”, uma referência ao presidente francês.

Responsáveis pela segurança, os manifestantes com as braçadeiras brancas, no entanto, não saíram do lugar, apesar dos ataques. Nesta época da tradicional grande liquidação de inverno em Paris, quando as grandes marcas fazem descontos de até 80%, alguns gilets jaunes ironizaram ameçando “fazer a festa” nas principais vitrines de Paris.

Rejeição à imprensa

Sinal da rejeição dos manifestantes à imprensa, que tem sido um dos alvos preferidos dos protestos, os “coletes amarelos” bloquearam neste sábado (12) a circulação de um jornal local do norte do país.

Os manifestantes barraram o depósito do diário La Voix du Nord, em Anzin, e impediram que 20 mil exemplares do dia fossem distribuídos. Cerca de 30 “coletes amarelos” ameaçaram incendiar o caminhão que havia recuperado os exemplares na gráfica e faria a entrega do jornal, conforme o diretor da publicação, Gabriel d’Harcourt. A publicação anunciou que entraria com queixa contra os manifestantes. Em dezembro, 180 mil exemplares do jornal Ouest-France foram bloqueados pelos manifestantes, em uma ação semelhante.

Na última segunda-feira (7), jornalistas da emissora BFMTV fizeram uma “greve de cobertura” da manifestação para protestar contra os ataques que os jornalistas têm recebido durante os atos dos “coletes amarelos”. A imprensa é acusada de imparcialidade, em um movimento que aposta nas redes sociais para ganhar adeptos.

Nesse contexto, as páginas dos “coletes amarelos” são inundadas de vídeos ao vivo durante os protestos – muitos manifestantes alegam que essa é a única maneira de transmitir informações verídicas sobre as manifestações. A circulação de fake news nas redes sociais do movimento também é comum.

FONTE: RFI [Aqui!]