Se é ruim para o setor privado, é excelente para a educação brasileira

O que está em jogo não é a defesa de educação acessível, mas sim a manutenção de um modelo de negócios 

Por Thiago Esteves para o “Le Monde Diplomatique” 

Nas últimas semanas, temos acompanhado uma verdadeira campanha tanto na mídia tradicional quanto na imprensa alternativa, incluindo alguns veículos progressistas, contra uma proposta recente do Ministério da Educação, que sequer foi formalmente apresentada, para regulamentar minimamente a modalidade de educação superior a distância no Brasil. 

A proposta do Ministério da Educação para regulamentar a educação a distância representa um avanço necessário e urgente para garantir a qualidade do ensino superior ofertado, principalmente pelas instituições privadas de ensino, que hoje concentram 95,9% das matrículas nessa modalidade. Ao propor medidas como a limitação do número de alunos por turma nas aulas síncronas (aulas que ocorrem em tempo real, mas com professores e estudantes em locais diferentes), a obrigatoriedade das avaliações presenciais e a implementação de atividades presenciais e semipresenciais, o governo federal sinaliza que não é mais admissível tratar a educação a distância como um atalho para diplomas baratos e formação deficiente — que vendem, parcelado, a ilusão, principalmente para a classe trabalhadora, de empregos mais qualificados e com maiores salários, o que dificilmente acontecerá com a conclusão desses cursos. 

Para entender a forte reação do setor privado contra qualquer tipo de regulação do ensino a distância, é preciso estar atento a alguns números desse setor. Segundo levantamentos realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação, e disponibilizados no Censo da Educação Superior de 2023, neste ano ingressaram no ensino superior no Brasil 4.993.992 estudantes. Desses, 4.424.903 — ou 88,6% — matricularam-se na rede privada, e 569.089 — ou 11,4% — ingressaram em instituições públicas de ensino. 

Crédito: Agência Senado/Flickr

Das 4.424.903 novas matrículas na rede privada, 3.226.891 — ou 73% — foram na modalidade de educação a distância, enquanto 1.198.012 — ou 27% — foram em cursos presenciais. Já ao analisarmos os dados referentes às novas matrículas nas instituições públicas de ensino superior, observamos um cenário diametralmente oposto ao da rede privada: 481.578 — ou 85% — dos novos estudantes optaram por cursos presenciais, enquanto 87.511 — ou 15% — matricularam-se em cursos a distância. 

Considerando o total das 4.993.992 novas matrículas no ensino superior em 2023, 3.314.402 — ou 66,4% — foram realizadas na educação a distância, e 1.679.590 — ou 33,6% — em cursos presenciais. 

Um dado em particular, publicado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), chama a atenção e ajuda a entender a motivação por trás da tentativa de impedir o Ministério da Educação de regular os cursos superiores a distância: a receita de R$ 41,98 bilhões obtida pelas instituições privadas em 2023. No entanto, em vez de celebrarem os lucros obtidos com a exploração da educação privada no país, os mantenedores das instituições de ensino superior chamaram atenção para a queda de 36,6% nas matrículas, o que, segundo eles, estaria “apertando as margens de lucratividade”. 

Esses números nos permitem entender por que é praticamente impossível andar por uma cidade brasileira sem nos depararmos com propagandas de cursos de ensino superior a distância ou com um dos cerca de 50 mil polos instalados nos mais inusitados espaços, como lojas comerciais de tamanho diminuto, lojas de conveniência em postos de combustíveis, garagens ou até dividindo espaço com outras atividades comerciais, como, por exemplo, escritórios de contabilidade, advocacia, estúdios de pilates ou lojas de roupas. 

Também é possível compreender a mobilização por meio de artigos, colunas, manifestos e discursos em “defesa do acesso ao ensino superior”, quando a real preocupação das grandes corporações educacionais é a ameaça à rentabilidade de um modelo de negócio baseado na precarização do trabalho docente e na oferta de educação de baixíssima qualidade. 

A verdade é que a explosão da educação a distância no Brasil, a partir da flexibilização das regras de regulação em 2017, permitiu a multiplicação de cursos online ofertados principalmente por instituições privadas de ensino superior, com pouquíssima exigência pedagógica, mínima interação docente e uso excessivo de conteúdos prontos e automatizados. 

Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os cursos presenciais obtêm, em média, os melhores resultados nas avaliações do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). De acordo com os resultados mais recentes, referentes ao ano de 2022; 28,5% dos cursos presenciais alcançaram os conceitos mais altos (22,4% obtiveram conceito 4 e 6,1% conceito 5). Já entre os cursos ofertados na modalidade a distância, apenas 16,6% atingiram esses mesmos níveis de excelência (14,2% com conceito 4 e 2,4% com conceito 5). 

Esses dados demonstram que, apesar do discurso de democratização do acesso, a educação a distância praticada majoritariamente por instituições privadas de ensino superior tem, na média, oferecido uma formação de qualidade significativamente inferior àquela oferecida pelos cursos presenciais. 

A regulação que ainda está em fase de gestação pelo Ministério da Educação já enfrenta justamente esse quadro. E a reação dos empresários do setor e dos seus sócios espalhados em diferentes áreas, que afirmam que as novas normas “quebram os pilares da educação a distância”, como capilaridade e preço acessível, revela a confusão proposital entre inclusão educacional e precarização, tanto do trabalho docente, como do ensino ofertado. O que está em jogo não é a defesa de educação acessível, mas sim a manutenção de um modelo de negócios baseado em turmas enormes, professores mal remunerados, tutores subcontratados, pouca ou nenhuma aula ao vivo e provas feitas remotamente, sem fiscalização adequada. 

 Thiago de Jesus Esteves é Presidente da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (Abecs), professor Titular de Sociologia do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e do Mestrado Profissional em Sociologia (ProfSocio) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 


Fonte: Le Monde Diplomatique

Fogo no Museu, bilhões para as universidades privadas

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Já foi informado por diversas fontes da mídia corporativa que o BNDES estaria pronto para desembolsar R$ 21 milhões num empréstimo que teria sido usado para realizar uma ampla reforma nas estruturas do Museu Nacional. O empréstimo agora deverá ser inviabilizado pelo simples fato de que o prédio e 90% da sua coleção foram perdidos para o incêndio devastador que ali ocorreu.

Entretanto, esse dinheiro não deverá  ficar muito tempo parado dentro do BNDES.  É que no dia de hoje, o jornal Valor Econômico informou, em matéria assinada pela jornalista Beth Koike, que o BNDES e o Ministério da Educação negociam a criação de uma linha de crédito, de R$ 2 bilhões, para ajudar faculdades particulares a financiar as mensalidades de seus estudantes [1].

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Na prática o dinheiro (público) do BNDES seria entregue para que os estudantes das instituições privadas de ensino se endividem para que não fiquem inadimplentes em suas mensalidades. A coisa é tão estapafúrdia que as instituições que utilizarem essa linha estarão supostamente impedidas de “ganhar dinheiro”. Ora, o pagamento de mensalidades serve para que elas façam o que?

Há que lembrar que com esse valor seria possível reformar várias vezes as estruturas de todos os museus federais existentes no Brasil, e impedir que novas catástrofes como a do Museu Nacional aconteça. Mas a verdade é que, como ocorre com todos os governos neoliberais, os únicos que são beneficiados com empréstimos generosos são aquelas que já estão ganhando o máximo que podem da precarização da coisa pública.

Por isso, os ataques que estão sendo realizados contra a reitoria da UFRJ e a diretoria do Museu Nacional não passam de exercícios de puro cinismo, vindos daqueles que se beneficiam privadamente da destruição daquilo que é público no Brasil.


[1] https://www.valor.com.br/empresas/5799801/bndes-negocia-liberar-r-2-bi-para-faculdades

Matéria da Exame mostra que governos do PT investiram mais de R$ 30 bilhões nas particulares, enquanto deixaram as IES públicas à mingua

A matéria abaixo é da insuspeita revista “Exame”, e mostra que os governos da coalizão PT/PMDB colocaram mais de R$ 30 bilhões nos cofres das instituições privadas de ensino superior. Enquanto isso, as instituições federais de ensino foram mantidas à míngua, e tendo que se submeter a exigências absurdas para receberem recursos que as mantivessem funcionando. Não é à toa que a maioria dos hospitais universitários mantidos por universidades federais encontram-se em condição de mais completa petição de miséria, e sob ameaça constante de privatização. 

Mas mais grave do que a mamata fornecida por Lula e Dilma aos tubarões do ensino é a revelação de que a educação no Brasil está hoje completamente submetida aos interesses dos agentes financeiros que operam dentro das bolsas de valores. Além disso, a matéria mostra que a simples intenção de estabelecer regras mínimas de qualidade para a concessão de subsídios federais para essas fábricas de diplomas já implicou em depreciação de suas ações no mercado de ações.  

Essa situação mostra que o sistema de ensino superior no Brasil hoje corre o risco de uma ruptura sistêmica caso o Estado brasileiro pare de conceder seus generosos subsídios para as instituições particulares, visto que a sua supremacia no número de vagas ofertadas. 

Por essas e outras é que deveríamos estar batalhando para que essa fortuna investida em instituições de baixa qualidade seja revertida para as IES federais e estaduais. É que nã o faz o menor sentido o Estado brasileiro secar as torneiras de instituições públicas, enquanto irriga os cofres de empresas particulares que não demonstram qualquer interesse em contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

Redes privadas de ensino ganharam fortunas com o governo

Sala de aula da Kroton

Aula da Kroton: a rede estuda financiar por conta própria os reprovados no Enem

Lucas AmorimLucas Amorim, de Revista EXAME
São Paulo – O Brasil pode não ser o país da educação, mas virou o país das empresas de educação. Nos últimos cinco anos, com crise ou sem crise, os grupos de ensino superior privados tiveram um crescimento espetacular. Em 2010, as três empresas de ensino superior listadas em bolsa valiam 7 bilhões de reais. Hoje, elas são quatro — e valem 35 bilhões de reais.

A Kroton, destaque da turma, tornou-se a maior empresa de educação do mundo. Esse fenômeno foi impulsionado por três fatores. As empresas levaram para o setor carcomido um estilo de gestão moderno. Também perceberam um avanço social inédito, que permitiu a milhares de estudantes pagar uma faculdade.

Mas nenhum desses fatores foi tão decisivo quanto o terceiro — uma baita ajuda do governo federal. Em 2010, o Ministério da Educação (MEC) decidiu turbinar o Fies, programa de financiamento para estudantes do ensino superior.

De lá para cá, o governo já gastou mais de 30 bilhões de reais para pagar as mensalidades de 1,5 milhão de estudantes — dinheiro que foi, inteirinho, para o caixa das faculdades privadas brasileiras. Com a perspectiva de que um programa tão popular fosse mantido para sempre, as empresas partiram para aquisições, cresceram como nunca — e se tornaram as maiores estrelas da bolsa brasileira. Até que o governo mudou de ideia. 

Nos dias 29 e 30 de dezembro, o MEC anunciou duas portarias que mudaram o jogo para redes com mais de 20 000 estudantes. A primeira passou a exigir uma pontuação mínima no Enem, o exame de avaliação do ensino médio, para que os estudantes recebam o financiamento público.

Até então, qualquer aluno, independentemente de seu desempenho no exame, poderia receber o Fies. Agora o governo exige o mínimo de 450 pontos em 1 000 possíveis. O aluno também não pode zerar a redação. A segunda mudança é na forma com que o governo paga as instituições.

Os pagamentos, que eram mensais, passarão a ser feitos a cada 45 dias. Um curso de graduação com quatro anos de duração, portanto, será pago às escolas em seis. Foi o suficiente para a lua de mel dos investidores com as empresas terminar.

Algumas redes, como a pernambucana Ser Educacional, já perderam mais de 40% de seu valor. Acostumados a dar boas notícias ao mercado, executivos do setor passaram as últimas semanas em incontáveis reuniões com investidores e com o governo.

A primeira e mais urgente demanda dos executivos é para que o governo volte atrás na forma como vai pagar as escolas. Com menos parcelas anuais, as empresas vão precisar de mais dinheiro em caixa para suas despesas do dia a dia. O problema, afirmam as escolas, é que as mudanças vão afetar não só os novos contratos mas também os financiamentos já firmados nos últimos anos.

A Federação Nacional das Escolas Particulares entrou na Justiça com um pedido de mudança nas regras. A Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior (Abraes), que reúne seis das maiores redes do país, tem uma série de reuniões agendadas em Brasília para tentar convencer o governo a voltar atrás. “Alterar regras de contratos é ilegal. Mostramos isso ao MEC. Esperamos bom senso”, diz um executivo do setor.

Em paralelo, as escolas se organizam para se adaptar à mudança, que, na visão de todos, é de fato definitiva — a exigência de, no mínimo, 450 pontos. De acordo com a consultoria Hoper, especializada em educação, em 2012 26% dos estudantes ficaram abaixo dessa pontuação. A situação é pior no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, onde mais de 30% dos alunos ficaram abaixo da nova nota mínima.

O problema é que, de lá para cá, a média geral no exame piorou — caiu de 500 para 470 pontos. Como resultado, segundo a Abraes, neste ano 49,9% dos estudantes não poderiam receber o financiamento do governo sob as novas regras. A mudança só será implementada no próximo Enem, mas as perspectivas para as escolas são dramáticas.

As mais afetadas, na visão de analistas, são as redes com mais unidades nas regiões de pior desempenho no Enem, como a pernambucana Ser, ou redes com pouca penetração de ensino a distância — modalidade ainda não contemplada com o Fies.

No caso da Kroton e da Estácio, em que mais de 30% dos alunos estão inscritos em cursos a distância, as mudanças diminuiriam em menos de 10% a base de alunos potenciais. São também essas escolas, na visão de analistas, que mais podem se beneficiar da mudança, roubando alunos ou até comprando redes que passarem a enfrentar dificuldades.

Novas exigências

Para não perder os alunos reprovados no Fies, as escolas vão precisar investir. Uma opção analisada pela Kroton é financiar por conta própria os estudantes e, durante um ano, oferecer aulas de reforço para que no ano seguinte eles voltem a fazer o Enem. Outra ação em estudo por alguns grupos é aumentar o número de promoções na mensalidade para atrair os sem-Fies.

O que as últimas mudanças deixaram claro é que o governo não parece mais disposto a aumentar a base de universitários a qualquer custo. Até 2014, a única exigência era que, para receber aluno do Fies, os cursos tivessem uma nota mínima de 3 num ranking que vai até 5. Agora, além da exigência de uma pontuação mínima para os alunos, o novo ministro da Educação, Cid Gomes, avisou que outras mudanças poderão vir.

Ele disse, por exemplo, que pode aumentar a exigência de nota mínima para os cursos. Com a atual nota de corte, 13 900 cursos podem receber alunos pagos pelo governo. Mas o número cairia para 5 200 se a nota mínima aumentasse para 4. “Apoiamos qualquer medida que ajude a melhorar a qualidade”, diz Elizabeth Guedes, diretora da Abraes.

“Mas só cobrar não basta. É preciso melhorar o ensino médio para que os estudantes cheguem mais preparados à universidade.” Em meio ao debate, até o fechamento desta edição, as quatro maiores redes de ensino superior já tinham perdido 12 bilhões de reais de valor de mercado em 2015.

FONTE: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1082/noticias/redes-privadas-de-ensino-ganharam-fortunas-com-governo