Os quatro erros pedagógicos do ensino remoto

Vendido como a “educação do futuro”, emprega modelo do século XIX, baseado no despejo frenético de conteúdo. Uma tragédia em tempos de concentração reduzida e traumas familiares. Como usar ferramentas virtuais para romper atraso?

pandemic learning

Por Rudá Ricci, no Jornalistas Livres

Rice sustentava que a educação deveria ter o foco na formação para a indústria. Daí, as disciplinas mais importantes seriam aquelas vinculadas à produção industrial: matemática, física, química, biologia e comportamento. A leitura (para o operário ler instruções) completava esta normativa. O educador taylorista, então, dividiu o número de aulas que considerava necessária para o desenvolvimento, em quatro anos do ensino “primário” pelo tempo de aula naquele momento e chegou aos 40 minutos. O módulo-aula, então, não tem relação alguma com qualquer aspecto pedagógico.

Se tivesse alguma relação com a estrutura mental, o módulo aula teria 20 minutos, tempo máximo de concentração de crianças e adolescentes no mundo atual. Para Larry Rosen, professor da Universidade Estadual da Califórnia, a capacidade média de concentração é de apenas cinco minutos. A estranha transposição do módulo-aula para as modalidades de ensino remoto parece um atalho completamente desqualificado. A concentração em tempos de pandemia diminuiu ainda mais. Incluindo os adultos, pais ou responsáveis pelos nossos alunos. Uma pesquisa recente envolvendo 33 mil jovens de 15 a 29 anos do Brasil revela a angústia e pedido de socorro às escolas. Voltarei a esta pesquisa mais adiante, mas vale destacar o percentual elevado de alunos decepcionados com suas escolas por não lhes dar segurança emocional.

Ora, o primeiro erro pedagógico grosseiro que estamos cometendo é transpor – ou adequar sem acuidade técnica alguma – o módulo-aula que empregamos desde o século XIX.

Qual seria o tempo de programação de aulas durante a pandemia: cinco dias úteis. Esta deveria ser a medida. Estou sugerindo que cada plano de aula deveria se apoiar na pedagogia de projetos em que os alunos seriam instigados a planejar seu tempo de pesquisa para elucidar um problema ou situação-problema (como se pensou o ENEM originalmente).

O acompanhamento poderia ocorrer por “dicas” fornecidas por programas de rádio (todos têm acesso ao rádio e esta é a experiência mais exitosa de ensino remoto atual, praticado por Alagoas). O diálogo de professores com alunos se daria por mecanismos próximos ao portfólio. Convênios das secretarias de Educação com os Correios ou, nas áreas rurais, com cooperativas que possuem “linhas” de coleta de produtos agrícolas garantiriam o fluxo. Na segunda, professores despachariam cadernos com o projeto da semana e, na sexta, os cadernos retornariam para análise e correção.

Passemos para o que considero ser o segundo erro grosseiro do ensino remoto: desconsiderar a interatividade típica das novas tecnologias de comunicação. A grande maioria das redes de ensino transformaram as plataformas em informação dada, sem interatividade entre alunos. Se há algo significativo no uso das novas tecnologias pelas crianças e adolescentes é a interatividade. Basta acompanhar a troca de mensagens pelo YouTube, Instagram ou as plataformas mais velozes. Eles formam opinião pela interação, pela troca de impressões.

O que estamos fazendo é transformar as plataformas em “folder eletrônico” em que a relação é verticalizada: o comando pedagógico com o objeto passivo do recebimento. Se alguém lembrar da “educação bancária”, matou a charada.

O módulo-aula e o pobre uso das plataformas empregadas para o ensino remoto são irmãos siameses: fazem uma mera transposição das aulas presenciais para o ensino remoto. Coisa de preguiçoso, sejamos honestos.  Chegamos no terceiro erro pedagógico: o foco no resultado (do IDEB e ENEM), negando o desequilíbrio emocional dos alunos.

A pesquisa com jovens que citei logo no início deste fio indica que 30% dos 33 mil jovens pesquisados não sabem se voltarão às aulas no futuro. Parte desses 30% afirmam que esperavam maior apoio emocional nesse momento em que suas famílias perdem renda, morrem parentes por COVID-19 e o futuro ficou nebuloso. O que fazem as escolas? Despejam atividades sem parar, numa sequência desumana. Erramos por ansiedade pedagógica. Esquecemos de entender, antes, as condições concretas de estudo de nossos alunos. Saltamos do mundo real para a construção idealizada de uma aula normal em meio ao caos.

O foco deveria ser a criação de “Rodas de Conversa” entre alunos, espaços em que poderiam relatar suas dúvidas e angústias para reconstruir a crença no coletivo, na escola e na sociedade. A questão central é: estudar para quê? Esta é a chave da comunicação e da pedagogia.

Chegamos no quarto erro pedagógico: acreditar que há uma enorme distância entre educação e desenvolvimento social. Esta crença surge dos modelitos administrativistas e gerenciais da cultura anglo-saxônica que copiamos nas últimas décadas e que o CONSED adora. Focamos nas avaliações externas, nos números, nas tabelas que devem ser preenchidas e nos esquecemos que educação é relação humana. Não há aluno que se concentre se está adoecendo ou se tem familiar sem perspectiva.

Posso relatar casos que vivenciei nesses anos de caminhada na educação brasileira. Vou citar um caso como ilustração. Uma menina furtava lápis e outros objetos dos seus coleguinhas de sala. Um técnico formado para visitar famílias – o articulador comunitário – foi à sua casa. Ao chegar à residência da família da aluna, foi atendido pela avó, que se desesperou quando soube do comportamento da neta. Chamou a neta e ouviu da criança que ela furtava para ser presa e, assim, ficar com a mãe que cumpria pena por ser “mula” do tráfico de drogas. O impacto dessa informação levou a mãe a ter sua sentença reformada. Voltou para casa com tornozeleira eletrônica. Em três meses, a aluna voltava ao seu padrão de comportamento. Não há como existir educação sem equilíbrio familiar.

Nessa ansiedade da “sociedade do desempenho”, o Brasil se esqueceu da função da educação e da pedagogia. A formação de nossos alunos não se dá somente pela escola. A formação formal concorre – ou se associa – com a formação familiar, principalmente em período pandêmico. É comum gestores educacionais distinguirem a estratégia educacional do que consideram “assistencialismo” (na verdade, política de desenvolvimento social). Equívoco grosseiro de quem estacionou no Século XX. Todos os estudos internacionais indicam exatamente o contrário.

Temos, portanto, um desafio educacional gigantesco. Precisamos ouvir mais e estudar mais ao invés de criar atalhos pedagógicos que estão dando com os burros n’água. Muitos pais ou responsáveis trabalham fora. Com quem deixar seus filhos? Muitos pais trabalham em home-office: como dividir tarefas profissionais com familiares se os dois espaços se confundem? É grande parte dos pais que afirmam que os conflitos familiares aumentaram neste período.

Ao mesmo tempo, não há como as aulas presenciais retornarem neste momento em que batemos recordes diários de mortes por COVI-19 em nosso país. A Fiocruz sugere que somente quando chegarmos a um infectado novo por dia a cada 100 mil habitantes poderemos ter aulas presenciais.

fecho

Este texto foi originalmente publicado no “Outras Palavras”  [Aqui!].

No ensino superior, a grande disparidade dos cursos à distância durante a pandemia

  Para alguns alunos, as aulas online assumem a forma de arquivos PDF ou apresentações de slides, enquanto outros professores têm a opção de criar formatos interativos ou gravar suas aulas com equipamentos de qualidade

online

Por Alice Raybaud para o Le Monde

Cinco objetos não identificados acabaram de aparecer na Terra. Eles são enviados por vida extraterrestre? Qual propósito ? Nesse dia, é esse o cenário em que se imergem 25 alunos do segundo ano da licença de física da Universidade de Paris-Saclay. Cabe a eles entrar em contato com cada habitante do globo que encontrou um desses objetos imaginários e ajudá-los a decifrar a mensagem que ele carrega. Para isso, devem ser ensinados, remotamente, a construir um microscópio com um smartphone ou a medir a ressonância acústica com papel higiênico.

Devido à pandemia (esta muito real), o curso ocorre online e os “habitantes” e especialistas, encarnados pelos seus dois professores, são contactados por vídeo. A ficção então passa a criar “um alento em sua vida de aluno remoto” , explica o professor Julien Bobroff. “Um trabalho de grupo participativo algo excêntrico, que os tira da solidão, mas mantém as mesmas questões educacionais e científicas” , acrescenta o físico, que já experimentava, antes da crise, esse tipo de formato presencial.

Grande heterogeneidade

Interatividade, lúdico, criatividade … Todos os alunos estão longe de ter acesso a esse tipo de curso, desde a mudança para a educação a distância. Passado o espanto inicial do primeiro confinamento, a organização dos cursos online permaneceu muito díspare segundo as instituições, setores e professores – uma grande heterogeneidade que, graças à crise, evidencia as desigualdades estruturais da região.

Além disso, se alguns jovens que entrevistamos se congratulam por terem um bom suporte por meio de seus cursos online, outros dizem que estão se afogando em horas de monólogos frios afixados em apresentações de slides. Alguns alunos chegam a dizer que são “abandonados” pelos professores.

“Alguns professores nem dão aulas de vídeo e apenas nos enviam PDFs. Posso ter a mesma coisa pesquisando na Wikipedia ”, aponta um estudante de história de 20 anos em Lyon-III, que observa que a “ exclusão digital ” “ também ” afeta os professores.  Natcha, no terceiro ano de licenciatura em Ciências Políticas em Lyon-III só recebe áudios gravados em algumas disciplinas, e em outras apenas PDFs.

fecho

Este é um estrato de um artigo escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal “Le Monde” [Aqui! ].

Diretoria da ADUENF lança nota sobre assédio moral durante a pandemia

aduenf 1A considerar o aumento das horas trabalhadas pelos docentes durante a pandemia, o excesso de reuniões virtuais, o autofinanciamento dos docentes em relação ao uso de equipamentos e recursos, a degradação das relações pessoais, o comprometimento da saúde mental da comunidade acadêmica e a diminuição do número de pessoas para realização de tarefas cotidianas, a Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ADUENF) emite nota sobre as condições de trabalho na instituição.

A implementação do ensino remoto tem suscitado questionamentos e angústias nos servidores públicos federais, estaduais e municipais com especial foco na categoria docente. Isto porque as formas de adaptação dos modelos foram em muitas instituições feitas de forma intempestiva com resultados diversos e que devem ser avaliados.

Desde o ano de 2020, os docentes na UENF dedicaram horas extras à construção de atividades possíveis ao conjunto dos alunos. Devemos saudar esta iniciativa e reafirmar a autonomia dos colegiados na regulação e implementação das atividades remotas. São nestas instâncias de deliberação que garantimos constitucionalmente a democracia interna das Universidades brasileiras.

As Universidades públicas gozam de autonomia, garantida pela Constituição Federal e frequentemente reafirmada pelo Supremo Tribunal Federal, de forma que foi normatizado o direito dos docentes realizarem a opção ou não pela participação nas atividades remotas. A opção, por sua vez, se encontra no campo da liberdade individual dos docentes e qualquer forma de coação implica no vício da vontade e pode configurar assédio moral. Sendo esta adesão FACULTATIVA, uma vez que o caráter de vigência deste modelo de ensino é TRANSITÓRIO, “os docentes não poderão ser compelidos a aderi-lo sob pena de violação das diretrizes constantes nas discussões colegiadas e ofensa à liberdade de cátedra do docente que atua com o amplo respaldo da instituição a que se vincula”.

É esperado que a instituição de ensino seja capaz de garantir a integridade de seus docentes atuando como fiscalizadora em casos de reconhecido assédio moral. O docente não pode ser afetado negativamente além dos efeitos da pandemia no exercício de suas funções como professor, pesquisador e extensionista.

Estas medidas de proteção da categoria são fundamentais na boa fé objetiva que deve vigorar nas relações de trabalho entre Administração e docentes. O descumprimento das mesmas, justificaria a adoção de medidas judiciais em prol dos docentes.

Sabemos que o assédio moral é tema consolidado e durante o trabalho remoto as denúncias têm crescido no Brasil. Isto porque a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de descanso encontra-se suspensa, com professores trabalhando até 15 ou 18 horas por dia para seguir produzindo (as formas de produtivismo acadêmicas não estão suspensas), cumprir a carga horária da sala de aula e ainda das reuniões de caráter administrativo.

Arcando com os custos deste trabalho, muitos ainda enfrentam a violação de seus direitos de imagem e recebem (de forma nem sempre aceitável) mensagens fora de seu horário de trabalho. Estas relações, quando postas de forma assimétrica e dependendo de seu conteúdo, constituem formas adoecedoras e comprometem a qualidade de vida dos professores e professoras. No caso das professoras, ainda devemos observar as formas de divisão desigual do trabalho que acabam por produzir uma sobrecarga cotidiana.

Por último, devemos lembrar que ao arcar com estes custos o servidor público faz uma enorme economia para o Estado. A insalubridade não está assegurada para todos os servidores na UENF. Aqueles que não tiverem recursos para realização destas atividades, devem ter seu direito garantido. A necessidade do isolamento social também deve ser respeitada, não sendo o espaço físico da Universidade, uma solução aos custos do docente.

Qualquer conduta abusiva, intencional, frequente, que ocorra dentro ou fora do ambiente de trabalho, será considerada assédio.

Nossa Associação está atenta, comprometida com o acolhimento dos casos e prestando assessoria jurídica aos docentes que procurarem proteção de seus direitos para melhor exercício de suas funções.

DIRETORIA ADUENF-SESDUENF

Gestão Avançar na Luta!  2019/2021

Uerj institui auxílio para financiar inclusão digital e aquisição de material didático dos estudantes de graduação. E a Uenf?

uenf estuAo contrário dos seus colegas da Uerj, os estudantes da Uenf ainda não tem garantia de que receberão auxílio financeiro para se adaptar ao ensino remoto

A Reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) deu um passo importante para possibilitar um mínimo de inclusão digital a todos os seus estudantes com a promulgação a criação de um auxílio emergencial R$ 600,00 a ser pago em cota única (ver imagens abaixo).

aux pag 1aux pag 2

O curioso é que, até onde eu saiba, na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), cuja reitoria embarcou em um esforço para o oferecimento de aulas remotas, tal auxílio ainda não foi oficializada. E isto em que pese o fato do corpo discente da Uenf ser formado por estudantes que, em grande parte, são originários das estamentos mais pobres da população brasileira.

Não custa lembrar que o atual reitor da Uenf, Raul Palacio, foi eleito com apoio do movimento estudantil, que viu nele um garantidor de seus interesses.  Vamos ver até quando os estudantes de graduação da instituição criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola vão ter de esperar por este tipo de auxílio. 

Manifesto de seções sindicais do Andes – Regional/RJ contra a implementação autoritária e forçada de ensino remoto

Card-manifesto_ANDES-ADUENF-1-1080x675

Nós, de Seções Sindicais do ANDES-SN do Estado do Rio de Janeiro, expressamos publicamente nosso repúdio à ação das administrações de instituições federais e estaduais de ensino do estado, em conjunto com a associação “Redetec” e a empresa pública “MultiRio” (ligada à Prefeitura do Rio de Janeiro), de promover um curso de capacitação em ensino remoto para docentes com o seguinte mote: “conheça o programa de capacitação que visa apoiar o Ensino Remoto Emergencial a ser implementado na fase de isolamento social imposto pela COVID-19”.

1. Refutamos a ideia de que a universidade “não está fazendo nada”: é uma visão equivocada e simplista que desconsidera que o trabalho acadêmico-docente compreende o tripé ensino, pesquisa e extensão. No período de isolamento social, estamos realizando, além de tarefas administrativas, as relativas à divulgação científica, desenvolvendo orientações, submetendo projetos, estudando, publicando, fazendo e avaliando relatórios, além de uma série de atividades acadêmicas e extra-acadêmicas;

2. As aulas estão suspensas devido à pandemia, e as universidades seguem os protocolos da OMS e sanitários, medidas necessárias para evitar o contágio e o colapso nos serviços de saúde. Trata-se de um motivo de força maior e seguiremos sem atividades presenciais até que haja condições adequadas de retorno às salas de aula. Não aceitaremos quaisquer medidas que ponham em risco a integridade de nossos(as) trabalhadores(as) e de toda a comunidade acadêmica;

3. Diante das medidas de isolamento social, é preciso que as atividades remotas sejam debatidas e construídas por toda a comunidade acadêmica, com a participação de todos os setores da universidade, respeitando e fortalecendo o sentido da autonomia universitária;

4. Defendemos a autonomia universitária e repudiamos toda e qualquer iniciativa proveniente de instituições exteriores à universidade, sejam elas públicas ou privadas. As universidades dispõem de quadros próprios qualificados para informar o debate sobre ensino remoto e uma comunidade acadêmica capaz de identificar, propor e construir soluções que venham ao encontro de seus interesses;

5. Consideramos inválida qualquer iniciativa de implementação de aulas remotas não pactuadas nos conselhos universitários e instâncias deliberativas das Universidades, IF e CEFET, sem a participação da coletividade dos docentes, discentes e servidores técnicos. Decisões tomadas sem transparência ou respaldo das respectivas comunidades acadêmicas são autocráticas e contrárias ao espírito democrático e inclusivo que deve reger a vida universitária;

6. Quaisquer tentativas de implementar ensino ou aulas remotas desrespeitando as instâncias democráticas das Instituições de Ensino são ilegítimas, autoritárias e serão consideradas por nossas entidades um constrangimento e interpretadas como assédio moral. Tomaremos todas as medidas cabíveis para que os direitos de nossas categorias sejam respeitados.

Assinam esse manifesto:

  • Adcefet
  • Adesfaetec
  • Adopead
  • Aduenf
  • Aduff
  • Adunirio
  • Asduerj