Vida marinha está migrando dos trópicos devido às mudanças climáticas

Último levantamento de estoque pesqueiro no Brasil é de 2011Mark snorkelling Raja Ampat

Foto por Mark Costello

Um novo estudo mostra que a vida marinha vem mudando sua distribuição para longe das regiões tropicais em resposta direta às mudanças climáticas. Esta é a primeira vez que isso é observado em escala global e em relação a todas as espécies.

Como previsto em projeções sobre o aquecimento do clima, o número de espécies diminuiu no Equador e aumentou nas regiões subtropicais desde os anos 1950. Os resultados da pesquisa liderada pela Universidade de Auckland, na Austrália, mostram que todas as 48.661 espécies estão obedecendo esta tendência, mas que os animais que vivem em águas abertas (pelágicos), como peixes, moluscos e crustáceos, estão se movendo mais em direção ao Polo Norte do que os animais que habitam o fundo do mar (bentônicos). Segundo o estudo, a falta de uma mudança semelhante no hemisfério sul se deve ao fato de o aquecimento dos oceanos ser maior no hemisfério norte do que no sul.

Os trópicos sempre foram considerados estáveis e com uma temperatura ideal para a vida. O que a nova pesquisa sugere é que os trópicos estão se tornando instáveis e progressivamente quentes demais para muitas espécies.

Esta informação é crítica para o Brasil, que hoje desconhece a situação da vida marinha em sua costa, quase totalmente localizada em águas tropicais. O último Boletim Estatístico sobre o tema foi publicado há dez anos pelo então Ministério da Pesca e Aquicultura, hoje transformado em uma Secretaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Um levantamento publicado pela ONG Oceana em dezembro de 2020 mostra que não existem informações sobre a situação de 94% dos 118 estoques de espécies-alvo da frota brasileira. A organização também verificou que apenas 3% dos estoques pesqueiros do país possuem limites de captura estabelecidos, e somente 8,5% deles estão incluídos em Planos de Gestão.

Confirmando projeções

O estudo que mostra o afastamento da vida marinha das águas tropicais tem origem na pesquisa de doutorado da escritora Chhaya Chaudhary na Universidade de Auckland. As informações usadas foram obtidas a partir do Ocean Biodiversity Information System (OBIS), um banco de dados mundial de acesso livre liderado pelo professor Mark Costello, da mesma universidade e coautor da pesquisa. Essa mesma base de dados foi usada no esforço global para a criação do primeiro Censo da Vida Marinha, concretizado em 2010.

Costello é um dos principais autores do atual 6º Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No ano passado, o professor foi coautor de outro artigo mostrando que embora a biodiversidade marinha tenha atingido o auge no equador durante a última era glacial, há 20 mil anos, ela já havia se achatado antes do aquecimento global industrial. Naquele estudo, os cientistas utilizaram registros fósseis de plâncton marinho enterrado em sedimentos de mar profundo para acompanhar a mudança na biodiversidade ao longo de milhares de anos.

A nova pesquisa mostra que este achatamento não apenas continuou no século 20, como o número de espécies nas zonas equatoriais agora despenca.

“Nosso trabalho mostra que a mudança climática causada pelo homem já afetou a biodiversidade marinha em escala global em todos os tipos de espécies. A mudança climática está conosco agora, e seu ritmo está acelerando”, afirma Costello. “Podemos prever a mudança geral na diversidade de espécies, mas devido à complexidade das interações ecológicas, não está claro como a abundância das espécies e a pesca mudarão com a mudança climática.”

“A diminuição do número de espécies no equador não significa que a vida marinha está se extinguindo do planeta. Em vez disso, significa a extirpação, ou perda local dessas espécies”, explica David Schoeman, coautor da pesquisa e professor da University of the Sunshine Coast, em Queensland, Austrália.

“As espécies tropicais ‘desaparecidas’ provavelmente estão perseguindo seu habitat térmico em águas subtropicais quentes, exatamente como previmos em um documento publicado em 2016 e como demonstrado em registros fósseis de 140 mil anos atrás, quando as temperaturas globais eram tão quentes quanto são agora”, avalia o pesquisador.

Schoeman alerta que o planeta suportou nos últimos 50 anos apenas uma fração do aquecimento esperado até 2050. “O número decrescente de espécies nos trópicos pode se expandir para um número decrescente de espécies nos subtrópicos”.

Proibição de mineração em áreas próximas a mananciais venceu consulta popular em cidade do Equador

tariquilNa freguesia rural de Tarqui, Cuenca, as pessoas foram votar em massa. Foto: Lineida Castillo / EL COMERCIO

O sim triunfou na Consulta Popular realizada na cidade de Cuenca em meio às eleições presidenciais realizadas no dia de ontem, segundo dados preliminares do Conselho Nacional Eleitoral do Equador (CNE). A proibição de atividades de mineração em grande escala atingiu 80%.

A primeira questão era: Você concorda com a proibição da mineração de metal, em média e grande escala, na zona de recarga de água do rio Tarqui , conforme delimitação técnica feita pela Empresa Municipal Etapa EP? Sim ou Não.

As quatro questões restantes tinham o mesmo texto e apenas alteraram as zonas de recarga dos rios Yanuncay, Tomebamba, Machángara e Norcay.

Essa consulta popular foi promovida pelo Conselho Cantonal de Cuenca e aprovada pelo Tribunal Constitucional  em setembro de 2020.

Segundo o prefeito de Cuenca, Pedro Palacios , ainda há dados não oficiais porque o boletim de consulta é o último a ser apurado. Palacios disse que uma vez oficializados os dados, o Ministério do Ambiente deve validar o georreferenciamento destas cinco zonas de recarga de água, que a Empresa Municipal Etapa delimitou.

Posteriormente, o Conselho Cantonal deve incorporá-los ao Plano de Uso do Solo. Ou seja, ratificar as áreas onde a atividade de mineração não poderia ser realizada.

Ele prevê que o primeiro debate sobre o plano seja em abril ou maio e o segundo em junho ou julho. Por sua vez, o presidente da Câmara de Mineração de Azuay, Patricio Vargas , reconheceu a derrota. Disse que agora espera que as disposições do Tribunal Constitucional sejam cumpridas. Entre outras condições, garantiu, é que a consulta não tenha efeito retroativo, por isso não afetaria projetos como o Loma Larga.

Além disso, acrescentou Vargas, que o Órgão de Águas certifica a delimitação das zonas de recarga de água e que o Município atua no estrito âmbito de suas atribuições. “Você não pode reivindicar funções que não possui. Não pode decidir interromper as atividades de mineração, que já estavam operacionais ”.

O prefeito Palacios disse que seus assessores jurídicos ratificaram que não se trata de uma reversão de concessão e “na verdade há partes ou locais de concessões que estariam fora das zonas de recarga de água, portanto, se houver depósitos lá, eles poderiam explorá-los”.

Mas Palacios insistiu que a consulta é clara porque a proibição de exploração está estabelecida e, atualmente, nenhum projeto está nessa fase, mas em exploração. Segundo ele, o Loma Larga , por exemplo, como não está em operação, não pôde passar para essa fase nas áreas definidas pela consulta.

O prefeito de Cuenca disse que, em caso de dúvidas, o Tribunal Constitucional será consultado .

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Este texto foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal “El Comércio” [Aqui!].


O vírus da revolta se espalha na América do Sul: depois do Equador, o Chile

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Depois do equatoriano Lênin Moreno (esquerda), agora é o chileno Sebastian Pinera que enfrenta a ira popular por causa da aplicação de políticas ultraneoliberais, 

Depois da acachapante revolta popular que forçou o presidente Lênin Moreno a retroceder e revogar o seu pacote de medidas ultraneoliberais que aprofundariam as dificuldades dos trabalhadores e da juventude do Equador, agora é o Chile que está enfrentando uma forte mobilização social contra aumentos nas tarifas di metrô de Santiago.

Em um sinal explícito que reconheceu a força da revolta popular, o presidente Sebastian Piñera fez valer uma legislação herdada da ditadura militar de Augusto Pinochet para tentar sufocar a insurgência popular, decretando o chamado “estado de emergência”  para colocar as forças militares no centro da tentativa de controlar a revolta popular.

fogo onibusÔnibus incendiado por manifestantes em Santiago de Chile. A revolta iniciada pelo aumento das tarifas de metrô reproduz os acontecimentos recentes no Equador. 

Curioso notar que a empresa de eletricidade italiana Enel também foi alvo das manifestações e teve sua sede como palco de um grande incêndio em meio às fortes mobilizações que ocorriam nas ruas de Santiago.

Curiosamente a mídia corporativa brasileira está dando uma cobertura minúscula à revolta popular no Chile, reproduzindo um modelo de mutismo midiático que já foi aplicado na cobertura da insurreição ocorrida no Equador.

Se levarmos em consideração que muito pouco está sendo mostrado sobre as eleições que estão ocorrendo em diversos países sul americanos onde os partidos que defendem políticas ultraneoliberais estão correndo o risco de derrotas acachapantes, a começar pelo presidente argentino Maurício Macri. 

Em minba opinião, a combinação de insurreições popular e derrotas de candidaturas com vieses ultraneoliberais estão sendo está sendo ocultada porque são uma espécie de mau exemplo para os trabalhadores e para a juventude do Brasil. É que aqui, apesar de todos os retrocessos e derrotas impostas contra os direitos sociais e trabalhistas, ainda permanecemos em um absoluto estado de inércia política.  Assim, qualquer cobertura mais correta do que estão ocorrendo em nosso entorno deve estar sendo vista como indesejável aos donos dos meios de comunicação que estão entre os poucos vencedores das políticas antipopulares que estão sendo aplicadas pelo governo comandado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em outras palavras, estamos recebendo uma cobertura pífia por um aparente medo de que o vírus da revolta popular também se instale no Brasil, com os mesmos resultados que estão sendo vistos em toda a América Latina. O problema é saber se ocultar as fortes mobilizações contra as políticas ultraneoliberais será suficiente para impedir que a população brasileira saia da atual inércia para a ação política.

Finalmente, não deixa de ser curioso que o Chile que vem sem sendo apontado pelo presidente Jair Bolsonaro como um modelo de sucesso da direita latino americana esteja agora no olho do furacão político que engolfa a América do Sul neste momento. 

O Equador reage ao Capitalismo de Desastre

População enfrenta, nas ruas, o Estado de Emergência. O incrível caso do país que recorreu ao FMI sem precisar. O que ele revela sobre as duas direitas do século XXI, sua articulação em favor dos retrocessos e os caminhos para enfrentá-las

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Por Antonio Martins

O Equador está em chamas e agora qualquer prognóstico sobre o futuro imediato do país é incerto. Na quarta-feira (2/10), o governo anunciou abruptamente um conjunto de medidas impopulares, adotadas em sintonia com o FMI, e cujo item mais visível (mas não o mais importante) é o aumento de 123% nos preços dos combustíveis. A população, enfurecida, foi às ruas. Os transportes públicos pararam, por revolta tanto dos trabalhadores quanto dos empresários. A atividade nas escolas foi suspensa.

Ontem, sob intensa pressão, o presidente Lenin Moreno decretou Estado de Emergência. Mas a presença da polícia e do exército nas ruas não fez refluírem os manifestantes. À tarde, em Quito, eles rumaram para o Palácio Carondelet e enfrentaram as forças encarregadas de reprimi-los. O asfalto das ruas coalhou-se de pedras (veja no vídeo abaixo), usadas pela população (especialmente os muito jovens) para se defender da cavalaria e balas de borracha. Moreno deslocou-se a Guayaquil, no litoral, a pretexto de acalmar a maior cidade do país, onde houve saques. Mas, à noite, reconheceu que não fora capaz de chegar a um acordo com os transportadores. Classificou os que protestavam de “golpistas” e prometeu encarcerá-los. Mais ou menos à mesma hora, surgiram os primeiros sinais de que o movimento indígena, muito capilarizado, poderia somar-se à resistência. A dificuldade de prever os desdobramentos aumenta devido ao passado recente de instabilidade política no Equador. Entre 1997 e 2005, quatro presidentes foram depostos, após protestos populares desencadeados por medidas semelhantes às atuais. O país tranquilizou-se apenas em 2007, com Rafael Correa – que reverteu parte das políticas anteriores, foi reeleito com grande popularidade e governou por dez anos.

Por que seu sucessor arrisca-se tanto agora? Em inúmeros países, no passado recente, a adoção de medidas antipopulares tem sido apresentada como fatalidade – algo que os governantes veem-se constrangidos a fazer, na impossibilidade de manter a situação anterior. No Equador, sequer este argumento é possível. O acordo com o FMI, fechado em março e revisto em junho, não é o resgate doloroso em meio a uma crise. Expressa um acordo entre a elite equatoriana e a aristocracia financeira global para reverter, a seco, as conquistas sociais e a relativa independência econômica conquistadas no período de Correa. Demonstra que o discurso segundo o qual “não há alternativas” aos “ajustes” é apenas um artifício ideológico – pois pode ser dispensado, quando é preciso impor a disciplina sem disfarçá-la. E está sendo executado não por um troglodita, como Bolsonaro – mas por uma tecnocracia de punhos de renda. Nestes aspectos reside seu caráter espantoso e revelador.

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A decisão de submeter o Equador à ditadura dos mercados fica transparente quando se comparam dois momentos, Primeiro, junho de 2009. Num mundo em que a aristocracia financeira ainda se debatia com a grande crise financeira aberta no ano anterior, uma renegociação forçada da dívida de Quito foi vista como um sucesso. “Estratégia vitoriosa do Equador”, considerou um artigo da revista Economist, ao analisar o processo que Rafael Correa acabava de concluir, em tempo recorde.

Seis meses antes, após uma auditoria, ele considerara ilegítimos parte dos débitos externos do país. Mas por não ter forças para simplesmente repudiá-los, decidiu submetê-los a leilão. Os credores foram convidados a oferecer propostas para redução do que supostamente lhes era devido. Ao final do processo, 91% deles aceitaram descontar 65% de seus créditos – um claro sinal de que têm muita gordura a cortar. O Equador resgatou, por US$ 900 milhões, uma suposta dívida de US$ 2,9 bi. Pagou em dinheiro.

O corte da dívida e, em especial, do pagamento de juros, foi parte essencial da “Revolução Cidadã” de Correa. A redução do desembolso aos credores permitiu multiplicar o gasto social – que saltou de 560 milhões de dólares, em 2000, para US$ 4,3 bi, em 2011 – um crescimento de 410%. Todos os indicadores sociais e econômicos melhoraram. Entre 2007 e 2015, o PIB per capita avançou 35% – de US$ 4500 para US$ 6100. O desemprego encolheu de 10,6% para 4,1%. Em 1999, 80% dos equatorianos estavam abaixo da chamada “linha de pobreza”. Em 2012, este percentual caíra para 30%.

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O segundo momento é o que se segue à posse de Lenin Moreno, em maio de 2017. Vice de Rafael Correa em seus dois mandatos, mas personagem político discreto, ele elegeu-se impulsionado pela popularidade de seu antecessor. Mas, poucos meses depois de chegar ao Palácio Carondelet, executou uma guinada radical, cujas motivações exatas ainda resta investigar – mas cujo sentido é claro: obediência, em marcha batida, ao novo programa das elites globais.

Em janeiro de 2018, Moreno adere à perseguição a Julian Assange, exilado na embaixada equatoriana em Londres. O processo terminaria por entregar, às autoridades do Reino Unido e dos EUA, o dissidente político que revelou a vigilância global e os crimes de guerra praticados por Washington. No mesmo ano, tenta encarcerar Rafael Correa, seu antecessor e padrinho político – que se exila na Bélgica. Em março de 2019, retira o Equador da Unasul, embrião de possível unidade dos países sul americanos. Em outubro, anuncia que deixará a OPEP, união dos exportadores de petróleo. Todos os passos interessam aos Estados Unidos.

Mas de todas, a medida mais bizarra é provavelmente o acordo com o FMI. O empréstimo oferecido pelo Fundo é pífio – apenas 4,2 bilhões de dólares, Ainda mais estranho: o país não necessita de resgate algum, como demonstra o economista Andres Araus, do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, de Washington: o balanço de pagamentos é superavitário, a economia não está em crise, não há fuga de capitais; a dívida externa foi fortemente reduzida, na renegociação forçada de 2009; exportador de petróleo, o Equador não corre, sequer, o risco de ser ameaçado, numa eventual alta dos preços do combustível, vista por muitos economistas como provável, em futuro breve.

O compromisso expressa, muito mais, um conluio entre a elite equatoriana e a aristocracia financeira internacional. Cada uma delas terá seu quinhão, no botim produzido pelos retrocessos que virão. O povo equatoriano pagará a conta – e o aumento dos preços dos combustíveis, embora chamativo, é talvez a medida menos relevante.

No plano interno, haverá uma contrarreforma trabalhista, não submetida ao Congresso. Ela inclui permissão de jornadas de até 12 horas, sem pagamento de extras; extensão do período de “experiência” (no qual há menos direitos) de 3 meses para… 3 anos!; fim dos acréscimos salariais para contratações por tempo limitado; eliminação dos “fundos de contingência” (uma espécie de abono) e da participação dos trabalhadores no lucro das empresas; redução nos salários dos servidores públicos: demissão dos funcionários contratados temporariamente; elevação (de 12% para 16%) do imposto sobre consumo, semelhante ao ICMS brasileiro, com reflexos diretos sobre os preços de todos os produtos e serviços.

Às megacorporações globais, será permitido apoderar-se dos setores cruciais da economia, a preços aviltados. Haverá privatização geral, inclusive do maior banco do país e da operadora nacional de telecomunicações; venda das hidrelétricas ao setor privado; volta da “autonomia” do Banco Central; proibição de financiamentos de bancos equatorianos ao setor público, obrigado a recorrer a financiamentos externos.

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Um texto de Sérgio Halimi e Pierre Rimbert, publicado ontem por Outras Palavras, agrega mais uma peça ao quebra-cabeças que vai aos poucos desvendando o áspero cenário internacional surgido nesta década. A ascensão do protofascismo – os Trump, Bolsonaro, Salvini, Le Pen, Duterte, Orbán e tantos outros – não deve ser vista como resultado da maquinação de personagens como Steven Bannon. Tais tipos são oportunistas espertos, mas totalmente secundários. O grande fenômeno a observar é o imenso espaço político que se abriu, a partir da crise global de 2008. A aristocracia financeira e a quase totalidade dos governos responderam de maneira cínica. As maiorias empobreceram dramaticamente. As classes médias começaram a se desfazer, aceleradamente. Os serviços públicos foram sucateados. Enquanto isso, os Estados transferiram rios de dinheiro aos bancos.

O ressentimento era inevitável. Mas como a esquerda não apresentou alternativas, em quase parte alguma, este sentimento foi capturado por políticos que tiveram farto espaço para uma manobra grotesca. Eles atribuíram a desigualdade abissal que surgiu não ao domínio do capital financeiro, mas a uma suposta ditadura intelectual. Dos que tiveram a oportunidade de estudar. Dos que desejam olhar para o outro – o imigrante, o refugiado, o indígena. Dos que veem gênero e sexo além da genética. Dos que enxergam as religiões como construções simbólicas, não como portadoras de verdades divinas.

Esta “nova” ultradireita irrompeu tão inesperadamente, e provoca danos tão dramáticos, que muitas vezes somos tentados a vê-la como a causa dos grandes dramas contemporâneos. Na verdade, mostram Halimi e Rimbert, ela é sintoma. Prova eloquente é que tanto a “nova” corrente quanto os neoliberais são partidários de um único dogma econômico: a supremacia dos mercados sobre as sociedades – defendida indistintamente por Trump e Emmanuel Macron; Bolsonaro e Paulo Guedes; Steven Bannon e George Soros.

O desastre equatoriano parece demonstrar que não basta reagir aos Bolsonaros – a devastação virá igualmente pelas mãos de Christine Lagarde, a charmosa diretora-gerente do FMI. Falta um projeto de esquerda renovado, capaz de aparecer, às sociedades, como alternativa nítida. Por enquanto, ele existe apenas como pedras, atiradas contra a cavalaria, as balas e o Estado de Emergência de Lenin Moreno. É preciso dar-lhe a forma das ideias perigosas.

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Este artigo foi originalmente publicado no site “Outras Palavras” [Aqui!].

Equador chama para “consultas” seu embaixador em Israel. E o Brasil, vai fazer o que?

O governo equatoriano chamou de volta o seu embaixador em Israel como uma forma de protesto contra a guerra contra a Faixa de Gaza (Aqui!). Segundo o ministro de relações exteriores equatoriano, Ricardo Patiño, o seu governo decidiu chamar de volta o seu embaixador por causa “da violência desatada e as mortes produzidas na Faixa de Gaza.

Enquanto isso, o governo de Dilma Rousseff mantém-se basicamente numa condenação retórica dos atos cometidos pelo governo israelense sobre quase 2 milhões de palestinos, onde as baixas se concentram em idosos e crianças, mantendo-se na prática apático em relação à crise humanitária causada pelo governo de Benjamin Netanyahu.