Estudo com cerca de 25 mil estudantes chineses mostra que o uso inadequado da IA pode melhorar tarefas imediatas, mas reduzir aprendizagem, desempenho em provas e autonomia intelectual
A reportagem de Rafael Cariello, publicada pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (10/8), apresenta resultados de uma pesquisa envolvendo cerca de 25 mil estudantes chineses que merece atenção de professores, estudantes e instituições de ensino. Segundo o estudo, alunos que passaram a utilizar inteligência artificial generativa para realizar determinadas atividades escolares chegaram a obter resultados aproximadamente 20% melhores nas tarefas feitas com auxílio da ferramenta. O problema apareceu depois: quando tiveram de realizar provas sem a IA, seu desempenho caiu em comparação com estudantes que não haviam utilizado a ferramenta da mesma maneira.
Esse resultado contém uma aparente contradição que, na realidade, ajuda a compreender um dos principais dilemas educacionais produzidos pela rápida disseminação da inteligência artificial. A IA pode aumentar a eficiência na execução de uma tarefa sem necessariamente produzir aprendizagem equivalente. Em outras palavras, fazer melhor uma atividade com auxílio tecnológico não significa necessariamente aprender mais.
Os gráficos apresentados pela Folha tornam essa contradição particularmente clara. Enquanto a adoção da IA cresce rapidamente entre os estudantes, aqueles que passaram a utilizá-la tiveram desempenho superior nas tarefas realizadas em casa, chegando a 118,59 pontos, contra 100,26 do grupo de controle. Ao mesmo tempo, o tempo necessário para completar as atividades caiu de aproximadamente 64 para 45 minutos. Até aqui, poderíamos concluir que estamos diante de uma extraordinária ferramenta de aumento da produtividade escolar.
Entretanto, o quadro muda quando se observa aquilo que talvez seja pedagogicamente mais importante: o que permaneceu com o estudante depois que a ferramenta deixou de estar disponível. Nas provas mensais, realizadas sem auxílio da IA, o grupo que havia utilizado inteligência artificial caiu para 81,65 pontos, enquanto o grupo de controle permaneceu próximo de 101 pontos. Temos, portanto, um fenômeno inquietante: a ferramenta permite fazer mais rapidamente e aparentemente melhor, mas pode deixar menos conhecimento incorporado pelo estudante.
Isso ocorre porque aprender não é simplesmente produzir uma resposta correta. O aprendizado envolve formular perguntas, cometer erros, testar hipóteses, enfrentar dificuldades, reorganizar argumentos e estabelecer relações entre informações diferentes. É justamente nesse processo — frequentemente lento e até frustrante — que parte importante da aprendizagem acontece. Se uma ferramenta elimina sistematicamente essa etapa e entrega respostas suficientemente boas antes que o estudante tenha realizado o esforço cognitivo necessário, ela pode transformar-se numa espécie de terceirização do pensamento.
Há, contudo, um aspecto essencial da própria reportagem que impede conclusões simplistas. Os pesquisadores destacam que os efeitos negativos dependem da maneira como a inteligência artificial é utilizada. O texto informa que ferramentas configuradas para atuar pedagogicamente — oferecendo pistas, orientando etapas e estimulando o estudante a chegar às respostas — apresentam resultados diferentes daquelas que simplesmente entregam soluções prontas. Essa distinção deveria ocupar o centro da discussão sobre IA nas universidades e escolas.
Por isso, proibir genericamente ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude ou outras plataformas de inteligência artificial provavelmente seria tão pouco inteligente quanto permitir seu uso indiscriminado. O desafio pedagógico consiste em estabelecer uma fronteira entre IA como instrumento de aprendizagem e IA como substituta do esforço intelectual. No primeiro caso, ela pode ajudar a organizar argumentos, identificar lacunas, comparar interpretações, revisar textos, explicar conceitos difíceis e até estimular novas perguntas. No segundo, transforma o estudante em mero operador de comandos, capaz de apresentar um produto sofisticado sem necessariamente dominar o conhecimento que supostamente permitiu produzi-lo.
Essa questão torna-se ainda mais importante no ensino superior. Uma universidade não deveria formar apenas indivíduos capazes de entregar produtos rapidamente. Sua função envolve desenvolver autonomia intelectual, capacidade crítica, domínio conceitual e competência para formular problemas. Se um estudante consegue produzir um excelente ensaio utilizando IA, mas é incapaz de explicar oralmente os argumentos presentes naquele mesmo texto, há evidentemente alguma coisa errada no processo formativo.
O estudo apresentado pela Folha de São Paulo também oferece um alerta aos professores. A disseminação da inteligência artificial provavelmente exigirá mudanças nas próprias formas de avaliação. Trabalhos feitos integralmente fora da sala de aula poderão dizer cada vez menos sobre aquilo que um estudante efetivamente sabe. Isso poderá aumentar a importância de avaliações presenciais, discussões orais, exercícios de interpretação, defesa de argumentos e atividades nas quais seja possível acompanhar o processo de construção do conhecimento, e não apenas receber seu produto final.
Há ainda uma dimensão que merece atenção especial. A inteligência artificial está introduzindo na educação a mesma promessa de produtividade que já domina boa parte do mundo do trabalho: fazer mais coisas em menos tempo. Mas educação não é uma linha de montagem. Nem toda lentidão é ineficiência. Ler um texto difícil duas vezes, escrever um parágrafo ruim e depois reescrevê-lo, procurar uma informação, descobrir que uma hipótese estava errada e reconstruir um argumento são atividades aparentemente pouco eficientes. Entretanto, são justamente essas operações que ajudam a formar capacidade analítica.
Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo não seja demonstrar que a inteligência artificial “prejudica o aprendizado”, como inevitavelmente sugere uma leitura rápida da manchete. O resultado é mais sofisticado e, por isso mesmo, mais importante: quando utilizada para eliminar o esforço cognitivo necessário à aprendizagem, a IA pode produzir estudantes mais eficientes na realização imediata das tarefas e, paradoxalmente, menos preparados para realizá-las sozinhos posteriormente.
A questão que escolas e universidades precisam enfrentar, portanto, não é simplesmente decidir entre permitir ou proibir a inteligência artificial. Precisamos decidir que tipo de relação queremos estabelecer entre inteligência humana e inteligência artificial dentro do processo educacional. Se a IA servir para ampliar curiosidade, capacidade crítica e autonomia, poderá tornar-se uma ferramenta extraordinária. Se servir principalmente para evitar leitura, reflexão, escrita e resolução autônoma de problemas, estaremos apenas utilizando uma tecnologia sofisticadíssima para produzir uma velha deficiência educacional: pessoas capazes de apresentar respostas sem compreender suficientemente as perguntas.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior alerta trazido pelo estudo: uma tecnologia educacional começa a representar um problema quando deixa de ajudar o estudante a pensar e supostamente passa a pensar em seu lugar.
