O clima não espera: Rio Grande do Sul terá de esperar até 2031 pela proteção contra as cheias

Grandes obras de proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre deverão ficar prontas apenas sete anos depois da catástrofe de 2024, enquanto eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes

Uma reportagem publicada pelo Matinal traz uma informação que deveria provocar preocupação muito além do Rio Grande do Sul: as principais obras destinadas a reforçar a proteção contra cheias na Região Metropolitana de Porto Alegre deverão estar concluídas apenas em 2031. O governo gaúcho argumenta que não existe atraso e que cinco anos constituem um prazo razoável para obras dessa magnitude. Do ponto de vista dos procedimentos convencionais da administração pública e da engenharia, isso pode até parecer razoável. O problema é que a crise climática não obedece ao cronograma das licitações e das obras.

A contradição fica ainda mais evidente porque estudos realizados por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS indicam que as mudanças climáticas deverão reduzir significativamente o intervalo entre grandes cheias. Eventos que historicamente seriam considerados excepcionais poderão se tornar muito mais frequentes. Isso significa que o período entre agora e 2031 não pode ser tratado simplesmente como uma etapa de espera até que diques, comportas e sistemas de bombeamento estejam finalmente concluídos.

Há ainda um aspecto particularmente incômodo nessa história. Segundo a Matinal, cerca de R$ 6,5 bilhões disponibilizados pelo governo federal para essas obras ainda não haviam sido utilizados pelo governo estadual. Portanto, o problema não parece estar apenas na disponibilidade de dinheiro, mas também na capacidade do poder público de transformar recursos financeiros em redução efetiva e rápida da vulnerabilidade da população.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma mudança radical na maneira como o poder público compreende a adaptação climática. Não basta reconstruir diques ou instalar novas bombas. É necessário combinar grandes obras com manutenção permanente da infraestrutura existente, fortalecimento dos órgãos técnicos, monitoramento hidrometeorológico, sistemas de alerta, planos de contingência, controle rigoroso da ocupação de áreas inundáveis e recuperação de áreas naturais capazes de amortecer as cheias.

É justamente aí que aparece outra contradição preocupante. Enquanto bilhões são anunciados para proteger áreas urbanas contra futuras inundações, continuam existindo pressões para ampliar a ocupação de áreas vulneráveis e de espaços naturais que poderiam funcionar como zonas de amortecimento das águas. Construir diques enquanto se continua produzindo vulnerabilidade territorial é uma maneira bastante cara de correr atrás do próprio prejuízo.

Ninguém deveria ignorar que grandes obras de engenharia exigem projetos, licenciamento, licitações e tempo de execução. Mas reconhecer isso não responde à pergunta essencial: o que protegerá a população entre agora e 2031? A adaptação climática precisa ocorrer simultaneamente no curto, médio e longo prazo. Grandes obras podem levar cinco anos, mas manutenção, fiscalização, sistemas de alerta, planejamento territorial e preparação da Defesa Civil não podem esperar cinco anos.

Depois de uma catástrofe como a de maio de 2024, que matou 185 pessoas e atingiu praticamente todo o território gaúcho, tratar 2031 simplesmente como um prazo normal significa continuar raciocinando com a temporalidade administrativa do século XX diante de um clima que já mudou no século XXI.

A questão, portanto, não é saber se cinco anos representam um prazo tecnicamente aceitável para construir grandes sistemas de proteção. A questão é saber quantos eventos extremos poderão ocorrer enquanto essas obras não ficam prontas.

E há uma certeza que deveria orientar toda a política de adaptação climática brasileira daqui para frente: a próxima chuva extrema não vai consultar o cronograma das obras antes de cair.

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