A guerra dos mundos pode chegar no herdeiro daquela casinha da Lapa

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Por Douglas Barreto da Mata

Quem observar atentamente os resultados das eleições, em todos os níveis, dentro e fora do país, desde o início dos anos 2000, perceberá que o eixo do debate político mudou drasticamente.  Isso é óbvio, dirão vocês. Eu sei, mas alguém já disse que o óbvio precisa ser dito e repetido várias vezes. As reduções das gestões de políticas econômicas aos dogmas de mercado, e seus rigores fiscais impuseram uma aproximação radical de campos até então opostos.

De forma simplista, sobrou pouca diferença, por exemplo, entre Haddad e Paulo Guedes, Lula ou Bolsonaro, quando se observa as gestões fiscais e orçamentárias de ambos.  Seja na Noruega ou na Argentina, a agenda de mercado pressiona as conquistas sociais. O terrorismo econômico, da “gastança do governo”, imobiliza-o no atendimento aos mais pobres! É uma estratégia de duas cabeças: a interdição do debate econômico (onde só há uma tese certa, a do mercado), e desestabilizar pelo conflito “cultural”.

De forma simplista, seja quem for o candidato da direita e da esquerda, não importará muito se foram criados empregos, a taxa de juros, o PIB, etc. 

No âmbito estadual também não importará muito a saúde financeira do Estado, os índices de IDEB, se há filas de espera para atendimentos na saúde, se o transporte público faliu, ou outros indicadores.  Os eixos centrais são aqueles que alimentam essa “guerra de mundos”, como segurança, religião, gênero, e toda a pauta identitária, conjugado com as limitações permanentes de investimento social. Quer dizer, os temas econômicos e de gestão administrativa não são cruciais pelos seus aspectos reais, mas pela capacidade de cada oponente distorcer a realidade a seu favor, seja realçando suas qualidades, seja destacando os defeitos do outro. Prova?  Apesar de Trump ter deixado a economia dos EUA como uma bomba relógio para seu sucessor, o fato é que ele pinçou a alta dos preços, e transformou um dos aspectos da economia em sua pièce de résistance.

Ao mesmo tempo, ainda que o Brasil ostente crescimento positivo de PIB inesperado, com desemprego em patamar baixíssimo, apesar da taxa de juros mais alta do planeta, estabelecida pela sabotagem do Banco Central, o leve aumento inflacionário resultou em um ataque especulativo colossal, seguido de uma chantagem cruel da mídia para que sejam feitos cortes nos gastos sociais.

Não tenho como conspirar e dizer que mídia e mercado andam juntos, mas parece estranha a coincidência que todos sigam na mesma direção, sempre, subtraindo deste governo a base necessária para que mantenha uma agenda de direitos sociais e seu capital político para as eleições que se aproximam.

Voltando para o nosso Estado e para nossa região, dentro desse cenário descrito, nas eleições estaduais me parece que o papel de “herói” das esquerdas e do centro já foi escalado para Eduardo Paes. Ele é prefeito “playboy” boa praça, que circula nas altas rodas, pela sua origem privilegiada, mas sabe “entrar e sair” das “quebradas”, que samba com chapéu de Zé Pilintra, ecoando ‘miscigenação” e seu “sincretismo”, “um democrata racial e cultural”, para emprestar a lógica de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O papel dos “anti heróis” vai ficar para o outro lado.

Sim, a direita vai se reunir em torno do governador e do amplo leque de alianças de sua base. Vão ter que encarar a poderosa Rede Globo, cria do Estado, e que tem na pauta identitária uma de suas preferências (hipócritas, por certo), e não escondem seu zelo com o “mocinho Paes”. Por isso, o que Paes mais deseja é um plebiscito com um “vilão” característico, um candidato truculento ou com histórico truculento, mau encarado, fundamentalista religioso, do tipo KKK carioca…um híbrido de Malafaia com Tenório Cavalcante. 

A direita fluminense parece não ter percebido a jogada de Paes, que esfrega as mãos, aguardando um antagonista desse tipo.  Esse é o prato que Paes espera que lhe seja servido, para que ele possa desempenhar o papel de centrista ilustrado, amigo de Macron, um prefeito internacional, sintonizado com a imagem de um Rio cosmopolita. Paes tem tentado evitar que uma candidatura com as mesmas características dele, mas de sinal trocado, ou seja, deliberadamente conservadora, porém suave e ponderada, simpática mesmo, lhe enfrente.

Embora a pré candidatura anunciada seja a de Washington Reis, e só os tolos acreditam que o presidente da ALERJ tenha desistido da ideia de ser ele mesmo o candidato, o fato é que o ex-prefeito de Duque de Caxias está impedido juridicamente, e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) se encaixe mais no papel de “vilão” que de “mocinho”. Na verdade, o candidato dos sonhos de Paes, observando essa lógica acima, seria o presidente da Alerj. 

No Estado do Rio há poucos com esse perfil de direita mais ameno e com potencial capital eleitoral significativo. Eu arriscaria dizer que o prefeito Wladimir Garotinho é um dos que pode colocar água no chopp de Paes. É de direita assumido, mas transita com facilidade na esquerda.  Como filho de governadores não se pode dizer pobre ou de origem humilde, mas traz na carreira a referência da trajetória dos pais junto ao eleitorado popular. Soube se diferenciar de seus pais, sem ignorar seu legado.  É religioso, mas sai do culto ao pagode sem perder a linha, nem parecer falso. Tem ótima entrada no público feminino pobre, principalmente das mães solo, e é atração entre crianças. 

O perfil conciliador e bonachão de Wladimir, e sua habilidade nas redes sociais se compara à de Paes, soando às vezes parece mais sincero, dada a história da família Garotinho, como já mencionado.  Ao contrário de Paes, tido e havido como um animal político de Zona Sul, até que, recentemente, conseguiu ultrapassar o túnel, mas não sem muito esforço e ruído, como o que aconteceu, recentemente, com a base evangélica. Outros atributos são a enorme capilaridade possível a Wladimir pelo Estado todo, ao contrário de Paes, que no máximo chega a Niterói, e com muito esforço, em boa parte, é verdade, pela parceria com Rodrigo Neves.

De todo modo, como diziam os romanos, alea jacta est. Que comecem os “jogos vorazes”.

Natália Soares se firma como principal liderança da esquerda em Campos dos Goytacazes

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Não vou me ater a uma análise global das eleições municipais que acabam de selar a reeleição de Wladimir Garotinho e da formação, em tese, de uma sólida bancada governista na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes.  O meu propósito aqui é enfatizar algo que as análises rasteiras que ando lendo sobre os resultados eleitorais estão tratando de esconder.

Falo da impressionante votação obtida pela Professora Natália Soares (PSOL) que obteve impressionantes 3.583 votos com uma campanha propositiva, bem humorada, barata, e que foi capaz de angariar votos por diferentes partes do município.   Uma votação histórica, mas que não logrou obter o objetivo de colocar a Natália em uma das cadeiras da próxima legislatura.

Apesar do aparente fracasso, uma coisa é certa: se a esquerda campista precisava de uma liderança para avançar suas pautas, ela agora já existe e está sedimentada eleitoralmente. 

Mas como superar o bloqueio histórico que impede a esquerda campista de vencer, não apenas no número de votos, mas também consolidação de um campo político que faça avançar as demandas em prol dos segmentos mais pobres da população?  

Eu diria que existem vários passos básicos, mas o principal é de que se reconheça que Natália Soares sintetiza as expectativas e esperanças por mudança, começando pelo próprio PSOL cujo diretório municipal parece ainda não entender a força eleitoral que possui em seus quadros.  O segundo é que os partidos que se dizem de esquerda na cidade deixem de ser partidos eleitorais que só se mexem a cada dois anos, enquanto as diferentes matizes da direita fazem um trabalho diuturno para manter o status quo vigente totalmente intacto e impermeável a qualquer compromisso com a democratização do orçamento municipal.

Além disso, eu diria que é preciso que a própria Natália rejeite os caminhos tortuosos que figuras como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, cada um em seu estilo, adotaram para se tornarem elegíveis e palatáveis para as classes dominantes.  Mas se ela mantiver a firmeza de compromisso e avançar na sua compreensão sobre sua própria estatura política, é possível que estejamos vendo o nascimento de uma liderança com raízes efetivamente populares e sem qualquer cabresto em relação às dinastias familiares que controlam a vida política em Campos dos Goytacazes desde sempre.

Como a Natália é uma pessoa leve e descontraída, eu aproveito para repetir a ele uma frase saída do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry: Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé  ou em bom português ”tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E o que ela cativou não é pouco: esperança por dias melhores.   

Papai Noel, Coelho da Páscoa e a esquerda no poder: Mitos e ideologias a serviço da totalidade capitalista

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Por Douglas Barreto da Mata

Escrevo este texto como resposta a um ótimo texto do amigo Marcos Pedlowski [Aqui!].  Como eu disse a ele, em particular, é um ótimo texto para propagar esperança, comovente mesmo.  Mas é só isso.  O que não é pouco, porque no mundo atual, precisamos de alento e de palavras de incentivo.

Eu, como realista que sou, me reservo o direito a ter reservas sobre as “vitórias” das “esquerdas” francesas e inglesas.  Coloco assim entre aspas, como faria com a “esquerda” brasileira, comumente identificada pela legenda PT.  Há muito tempo deixaram de sê-lo, e hoje eu carrego sérias dúvidas se algum dia foram (de esquerda).

Antes de tudo e mais nada, não existe esquerda, na correta acepção do termo, sem que seja anticapitalista.  Ser anticapitalista não significa ser um louco que desafia a realidade, avançando fora de contexto e desvinculado de senso pragmático.  Nada disso.

Essa foi uma construção ideológica generalizante criada pela direita, para impedir e censurar qualquer chance de debate anticapitalista, e que, infelizmente, a “esquerda domesticada” assimilou e passou a usar como uma espécie de legitimação para sua falta de coragem de construir cenários alternativos, ou melhor dizendo, elaborar uma teoria necessária a uma ação política disruptiva.

A morte da luta anticapitalista não se dá pelas derrotas eleitorais ou pelos revezes das lutas dos movimentos sociais, incompreendidos pela maioria da população anestesiada pelos símbolos ideológicos da direita. Não.

A derrota se dá antes, na interdição dessa luta política, e se encontra incrustada no medo que a “esquerda oficial” tem de propor a discussão política sobre temas caros ao capitalismo, e agora, ao rentismo pós capitalista.

Por isso, a “vitória” inglesa é de Pirro, a francesa idem, e a de Lula…bem, a de Lula dá até vontade de chorar.

Antes mesmo de vencer os conservadores, o atual Primeiro Ministro Inglês já avisou: “nada de tributar os mais ricos”.

Na França, a conjuntura e a tradição intelectual da “esquerda” impõem um pouco mais de atrevimento, e o líder da coalizão vencedora, Mélenchon, já avisou que a conta deve sobrar para os mais ricos.

No entanto, esse movimento vai depender do acordo com o centro (direita), representado no derrotado Macron, que pode-se dizer, não saiu tão derrotado como se imaginava.  Sim, a esquerda abriu mão de várias candidaturas para conseguir êxito nas disputas de segundo turno, porque as eleições francesas parlamentares são majoritárias (como no nosso caso, para prefeito, governador, senador e presidente), e em dois turnos.

A aliança de “esquerda” sacrificou-se para garantir que Le Pen não levasse a maioria, mas não foi o que aconteceu com o time de Macron, que não fez o mesmo movimento da “esquerda”, e assim preservou um tamanho capaz de influenciar, e muito, o novo governo que se inaugura.  Ou seja, a direita francesa bateu a carteira da “esquerda”, mais uma vez.  Mais ou menos como por aqui.

Depois de promoverem a desestabilização do governo Dilma, executarem um golpe criminoso, com a ajuda do Departamento de Estado dos EUA, sequestrado e mantido no cárcere o ex- presidente Lula, e colocado no Planalto, Jair Bolsonaro, a direita brasileira apavorada com o descontrole do movimento político que criou, chama de novo a “esquerda” para limpar a bagunça.

Desde que essa “faxina” se dê exatamente no figurino determinado pelos ricos.  Governar sim, exercer o poder? Nunca. Assim, as “esquerdas” mundiais se “comportam” direitinho, esperando Papai Noel ou o Coelho da Páscoa.

Será que vão ganhar algo?

Eleições francesas: esquerda volver!

eleições francesas

Muitos franceses (e não franceses, admitamos) estão hoje coçando a cabeça para entender como a extrema-direita não tomou o parlamento por assalto como previsto após o primeiro turno das eleições que ocorreu há uma semana.  Ao contrário, o vencedor acabou sendo um bloco de partidos de esquerda, a Nova Frente Popular (NFP), que obteve a maioria dos assentos, criando uma situação inusitada para o presidente Emmanuel Macron que agora terá de governar em uma posição de minoria parlamentar.

Claramente as eleições francesas terão eco muito além da França, na medida em que não apenas a extrema-direita foi impedida de ter maioria parlamentar, mas como também agora Macron terá de ajustar a uma situação em que seu projeto neoliberal vai ser executado em condições ainda mais precárias, o que, certamente, será muito mais favorável para a classe trabalhadora francesa. 

Essa derrota da extrema-direita e dos operadores neoliberais franceses se soma à acachapante derrota dos conservadores ingleses que foram esmagados pelo Partido Trabalhista, inaugurando um ciclo em que também no Reino Unido o novo governo terá de, pelo menos, diminuir o ritmo da erosão dos direitos sociais e trabalhistas.

Reaction to the second round results of the 2024 snap legislative elections

Por outro lado, a derrota da extrema-direita também na América Latina, pois o que ficou evidente é que em se oferecendo uma alternativa minimamente viável, os trabalhadores  não irão dar votos para aqueles que sob o discurso anti-sistema querem mesmo é aprofundar o ataque aos direitos sociais, como é o caso da Argentina neste momento.  É importante que a viabilidade eleitoral da NFP se deu não fazendo concessões programáticas para extrema-direita, mas sim oferecendo um programa que acenou no sentido oposto, especialmente no tocante à manutenção de direitos para os trabalhadores franceses.

A vitória da NFP também deverá representar um embaraço para quem se dizendo de esquerda continua apostando no receituário neoliberal sob a desculpa de garantir a governabilidade, como é o caso do PT no Brasil.   A verdade é que só se derrotará a extrema-direita com programas que sinalizem uma agenda que indique compromissos com a classe trabalhadora e a juventude. Continuar apontando as receitas do Consenso de Washington como se fosse a única alternativa para enfrentar a extrema-direita é, contraditoriamente, a via mais rápida para garantir que a esquerda fique mais parecida com a extrema-direita no que efetivamente conta.

Por isso tudo, o que as eleições francesas nos mostram é que a saída não é fazer concessões à direita, mas sim construir programas que sejam compreendidos pelos trabalhadores como alternativas reais para enfrentar a perda de direitos sociais e da capacidade de compra dos salários. 

O populismo é contraditório

O cientista político Kolja Möller foi entrevistado sobre o uso e a desvantagem da vontade popular para a política de esquerda – e sobre o populismo como estratégia de comunicação e categoria analítica

populismoQuem brinca com fogo: o populismo como mobilização de massa. Foto: imago images /Eva Bee

Entrevista por Patrick Lempges para o “Neues Deutschland”

Você escreveu um livro sobre a história do populismo com o título de “Levante popular e vergonha”. Como você começou a lutar contra o populismo?

Por duas razões: a primeira é que há alguns anos vimos que as formas populistas de política desempenham um papel importante e que mais e mais movimentos surgem com muito sucesso com a pretensão de representar a vontade do povo contra as elites “lá em cima.” Portanto, faz sentido lidar cientificamente com o populismo e sua história. A segunda razão é que os movimentos e partidos políticos têm que lidar com a questão de quem são as pessoas e a que base social elas se referem. Portanto, é uma questão de prática política, como se age em um sistema político em que os interesses gerais do povo estão sempre em jogo.

Todo mundo está falando sobre populismo, mas o que exatamente é populismo?

Proponho entender o populismo como uma forma de política que pretende mobilizar o povo contra as elites. A maioria das sociedades tem uma constituição e sua legitimidade deriva da soberania popular. Existem procedimentos políticos baseados nisso, como legislação e mudança de governo e oposição. O populismo funciona aqui como uma opção de comunicação que traz de volta a dimensão da soberania popular e dá a tudo isso um toque anti-estabelecimento: nós, o povo, contra “aqueles lá em cima”.

Os movimentos populistas colocam a questão do poder apresentando-se como um contra-poder, mas agindo dentro dos procedimentos normais do sistema político. Isso os distingue dos movimentos sociais que não atuam na área imediata da legislação e da distribuição de cargos, e também os distingue da política de oposição normal, que diz: “Ok, nós só queremos leis ou conteúdos políticos diferentes.”

Então o populismo é mais uma forma de agir e se comunicar e não uma ideologia em si?

O populismo não é uma teoria coerente de ideias, mas uma opção comunicativa que pode então ser enriquecida por diferentes ideologias. Existem formas conservadoras, social democratas e liberais. Também faz parte do caráter do populismo que muitas vezes combina peças fixas de diferentes ideologias, a fim de criar um forte vínculo com as massas. O populismo está se contradizendo.

Quais são as diferenças entre esses diferentes populismos?

O populismo social democrata atrai um povo inclusivo do povo e das classes governadas. A variedade neoliberal do populismo geralmente apela ao comportamento competitivo e à iniciativa dos cidadãos privados. Ao fazer isso, as pessoas são divididas em uma massa de indivíduos que competem entre si. Uma espécie de gente do mercado, pode-se dizer. E, claro, também existe a variante certa. Esta se caracteriza pela assunção de uma identidade nacional sempre presente e sólida, culturalmente homogênea. Esse populismo não é inclusivo, mas exclusivo, e dirige-se não apenas contra “aqueles que estão lá em cima”, mas também contra outros grupos sociais subjugados.

Há também uma espécie de “teoria da conspiração em pinça” nesse ambiente, segundo a qual a identidade popular é minada por uma aliança entre o topo e o fundo. O anti-semitismo é um exemplo disso, embora particularmente pronunciado e coerente. Outro exemplo foi visto durante a “crise dos refugiados”. Então se espalhou a suposição de que havia algum tipo de aliança entre Merkel e os refugiados, que então queriam provocar uma “repopulação” no sentido de uma troca populacional. O populismo de direita foi capaz de se apresentar como resistente ao topo – personificado no caso por Merkel – enquanto a exclusão factual muitas vezes atingiu as pessoas na base – nos abrigos para refugiados.

Em seu livro, você descreve essa suposição básica de direitos como um erro de identidade. Qual é o erro do populismo de esquerda?

O populismo de esquerda não significa que os esquerdistas ruminem sobre os padrões de interpretação populistas de direita. Em vez disso, o populismo de esquerda é caracterizado por seu próprio caráter e, portanto, também por seus próprios problemas. A esquerda sempre oscilou para frente e para trás: por um lado, como qualquer movimento político, muitas vezes agiu populista e, por outro lado, sempre criticou o populismo. Porque, segundo a crítica, o populismo não reflete adequadamente as contradições que existem na sociedade. No entanto, é preciso entender que o populismo desempenha um papel na política e às vezes é inevitável. Torna-se um problema quando congela para uma divulgação mundial abrangente.

Pensar que só a vontade junto com a mobilização das massas é sempre a chave geral para mudar o mundo é um erro voluntarista. É claro que as lutas políticas e a mobilização desempenham um papel importante, mas há toda uma série de outros fatores que moldam o desenvolvimento social: inovações econômicas, mudanças na economia, controle tecnocrático, administração, pesquisa científica e assim por diante. Se você quer fazer uma política inteligente, precisa tentar entender como funciona e lidar com isso. Em muitas situações, mobilizar a vontade do povo simplesmente não ajuda.

Você também escreve sobre “evolução social” a esse respeito. Isso me fez pensar na discussão entre Karl Kautsky e Lenin. De um lado, os reformistas com a ideia de mudança lenta e constante por meio da participação e, de outro, a grande reviravolta voluntarista.

Foi uma discussão muito interessante na social democracia europeia da época. Mas estou mais inclinado a enfatizar as semelhanças entre Kautsky, Lenin, Luxemburgo e até Bernstein. No final, eles chegaram a respostas diferentes, mas tiveram um ponto de partida comum: você observa como a sociedade se desenvolve, onde há contradições, onde elas surgem e a partir daí você considera como as mudanças podem ser alcançadas. A evolução social contém a possibilidade de mudança gradual, mas também de mudanças e rupturas revolucionárias.

Já falamos da identidade e do erro voluntarista. Mas você também escreve sobre erro autoritário. O que é isso?

Há uma tendência recorrente para que ocorram distúrbios e movimentos autoritários possam dominá-los. Chamo isso de virar a insurreição, porque não se trata mais de dissolver concentrações de poder, mas de intensificá-las. Você também pode ver isso no mundo de hoje com populismo de direita. Por um lado, eles se apresentam como um pensamento lateral de oposição popular ao establishment e, por outro lado, querem mais autoridade do Estado, desprezam grupos com baixo status social e aceitam doações de empresários ricos. Um aumento disso seria o bonapartismo, em que uma ditadura baseada na vontade do povo se apresenta como o poder da ordem.

Como você deve reagir aos movimentos populistas?

Acho que antes de tudo é importante reconhecer que o populismo faz parte da política. Você tem que lutar contra as questões que o populismo levanta – ou seja, a distinção entre acima e abaixo, a crítica ao poder e os momentos de descontentamento e protesto na sociedade – e tentar ocupá-los ofensivamente. Não estou convencido de que o anti-populismo categórico seja sustentável.

Falamos sobre os perigos e erros do populismo, mas como o populismo pode beneficiar a esquerda?

O populismo examina de perto a relação entre poder e contrapoder e, é claro, também quem governa. Hoje surge a questão de como a crítica ao poder pode estar ligada a uma redefinição da convivência social voltada para o futuro. Existem exemplos históricos disso: Nos anos 1930, Franklin D. Roosevelt seguiu uma política muito popular nos Estados Unidos com seu “New Deal”. Iniciou mudanças, mas também visava redistribuir o poder na sociedade e era dirigido contra setores do establishment, particularmente os setores financeiro e bancário. Agora é um Novo Acordo Verde que irá conter a mudança climática, e precisamos de um governo que possa fazer essa mudança acontecer. O que pode ser aprendido com a história do populismo é que não se pode escolher as condições de enquadramento. Você tem que se envolver com eles.

Um livro aparecerá no outono no qual você compilou textos canônicos sobre populismo. Você pode dizer algo sobre a escolha?

Especialmente na Alemanha, o populismo é um campo de batalha política. O leitor agora quer destacar que também é um conceito científico de reflexão. O volume começa com textos das décadas de 1920 e 1930, pois as principais características da democracia parlamentar datam desse período. O foco, entretanto, são as contribuições da pesquisa sobre populismo nas ciências políticas e sociais desde os anos 1960 e 1970. Há também textos das décadas de 1980 e 1990, quando a análise do populismo de direita determinou as pesquisas, e textos da atualidade que tratam da questão da crise da democracia liberal.

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Esta entrevista foi escrita inicialmente em alemão e publicada pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A esquerda que abriu mão da crítica

A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites. A alternativa é uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito e condescendência arrogante travestida de bom-mocismo.

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Por Luis Felipe Miguel*

Este texto nasce em reação a duas polêmicas que surgiram nas esquerdas nas últimas semanas – ou, antes, que ressurgiram, pois são cíclicas. Uma é sobre o chamado “lugar de fala”. A outra, sobre como caracterizar o comportamento de pessoas que apoiam ativamente líderes e políticas que, na prática, as condenam à morte; em particular, ao veto ao substantivo “burrice”, tão chocante. Embora tenham sido debates separados, eu os aproximo aqui porque julgo que remetem a um denominador comum: a sobrevalorização da experiência crua dos agentes sociais, expressão do anti-intelectualismo hoje dominante, e a consequente inibição de qualquer engajamento crítico com a autoexpressão dos próprios agentes.

A cada vez que ressurge, o debate mostra permanecer exatamente no mesmo lugar em que estava antes. Essa ausência de acúmulo na discussão, tão exasperante, é uma característica das mídias sociais, que recompensam predominantemente a lacração que, para ser lacradora, tem que permanecer insensível às nuanças do real. É consequência também do anti-intelectualismo que rotula como “acadêmico”, portanto irrelevante, qualquer contribuição que vá além da experiência imediata. E, por fim, espelha o paradoxo de que quem critica, relativiza ou complexifica a noção de lugar de fala não tem, por definição, lugar de fala para tocar no assunto, logo deve ser ignorado.

É preciso, em primeiro lugar, enfatizar a importância que a noção de lugar de fala e outras assemelhadas tiveram e têm no combate a certo idealismo racionalista, que sonha com uma Razão descarnada que interpreta o mundo permanecendo fora dela. Toda fala é socialmente situada e isso é relevante para a compreensão de seu sentido. O reconhecimento de que diferentes falantes vão ver o mundo a partir de diferentes posições sociais, porém, aponta para a necessidade de pluralização do debate, não para alternância de silenciamentos ou construção de guetos.

Isso porque o lugar da fala não implica qualquer privilégio epistêmico (isto é, a ideia de que o dominado, só por ser dominado, já entende a dominação melhor do que qualquer outro). A expressão dos dominados é importante porque traduz – em parte e com ruídos, como qualquer expressão – sua experiência, mas convém lembrar que essa experiência também é conformada pela dominação. A experiência bruta, assim, tem que ser ressignificada por meio de processos que, à falta de palavra melhor, podem ser chamados de “conscientização”. Era o papel dos grupos de mulheres do movimento feminista dos anos 1960 e 1970, que foram cruciais para a difusão dessa discussão – espaços que permitissem às mulheres construir uma compreensão de suas próprias vidas a contrapelo das representações patriarcais que as estruturam.

Se tais espaços são necessários, eles não levam, de maneira nenhuma, à imposição de vetos à participação no debate público. Levam, isso sim, à exigência por ampliação da pluralidade de perspectivas que têm lugar neles.

Da mesma forma como o lugar de fala X não dá a quem o ocupa um privilégio epistêmico, ocupar o lugar não-X não torna a fala, só por causa disso, irrelevante ou nociva. É um local externo e continuará a sê-lo, não importa de quanta empatia se revista – e ter consciência dessa exterioridade importa para compreendê-lo. Mas pode contribuir. Ou não. Só deixando que se manifeste no debate que isso pode ser aquilatado. Lembrando, também, que o não-compartilhamento de características pessoais, de experiências de vida, até mesmo de crenças e de valores, em suma, tudo o que indica a exterioridade em relação a uma determinada posição social, não implica necessariamente preconceito. A equivalência automática entre exterioridade e preconceito, que está implícita em algumas manifestações (e até explícita em outras), é uma simplificação abusiva que serve apenas ao propósito de silenciar o debate.

Falei acima em perspectivas. Na verdade, em vez de “lugar de fala”, prefiro operar com a categoria “perspectivas sociais”. Embora eu mesmo tenha feito crítica a alguns de seus usos1, ela tem a vantagem de marcar desde o início o caráter social das posições de elocução e, portanto, o caráter socialmente produzido das diversas experiências, sem o apelo a noções essencializantes ou místicas, como “ancestralidade”, que se tornaram tão correntes em alguns discursos.

O uso limitante do “lugar de fala” está vinculado à degradação das reivindicações emancipatórias de grupos subalternos (voltadas contra padrões sociais de dominação e de violência) em reclamos identitários. A identidade deixa de ser um instrumento para a construção de um sujeito político coletivo para aparecer como um fim em si mesma.

De fato, não há luta política que não seja, em alguma medida, identitária. Não desejo retomar a distinção algo mecânica entre classe em si e classe para si, que o próprio Marx faz na Miséria da filosofia e em outros escritos, mas o fato é que a constituição da classe operária como sujeito político depende da construção de uma identidade política comum. Se esse passo é indispensável para a ação política de qualquer grupo, é mais ainda para os dominados, cujas vivências são desvalorizadas e que encontram objetivamente, na estrutura social, estímulos para uma identificação com os dominadores.

Mas há ao menos duas diferenças, ambas com enormes consequências, entre a identidade da classe trabalhadora e a de outros grupos dominados. Em primeiro lugar, a classe trabalhadora se define por um atributo comum da humanidade, o trabalho, isto é, a capacidade de transformação do mundo material. Os outros grupos dominados apresentam a exigência de serem incluídos em pé de igualdade na humanidade comum, mas não têm como atributo peculiar aquilo que, como atributo geral, define a humanidade enquanto tal.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora tem por projeto, ao menos na visão de Marx, a extinção de sua própria peculiaridade, com a emergência de uma sociedade sem classes. Isso também não está ao alcance dos outros grupos subalternos. Havia uma ambição de apagamento da relevância social da identidade, no feminismo que antecipava uma sociedade gender-free ou no antirracismo voltado a uma sociedade color blind. Mas era, sempre, a superação da valoração hierárquica da diferença, não da diferença em si mesma. Hoje, a virada para uma política da diferença, em que ela é valorizada em si mesma, torna esta distinção ainda mais marcante.

Com isso, é perdido o acesso a uma visão alternativa, que lê as identidades também como prisões a serem superadas, e à utopia de uma sociedade pós-identitária, em que características biológicas, como sexo ou cor da pele, serão plenamente irrelevantes para determinar comportamentos ou posições, e atributos sociais, como gênero ou raça, deixarão até mesmo de existir, dissolvendo-se na diversidade inclassificável de uma humanidade livre. É possível discutir o quanto essa leitura é desejável ou factível, mas é difícil negar que ela é, ao menos, digna de discussão.

As duas diferenças indicam que a classe trabalhadora tem uma porta aberta para a conexão com a universalidade que falta a outros movimentos de caráter emancipatório. Uma situação que se agrava com a reivindicação cada vez mais particularista, presente nas compreensões correntes, nas disputas políticas, de “lugares de fala” privilegiados e mesmo monopolísticos.

A discussão é complexa e tem múltiplas facetas, mas é difícil recusar pelo menos uma conclusão: a pluralização das agendas emancipatórias da esquerda é rica e necessária, mas a deriva identitária, aliada à utilização lacradora de uma noção reducionista de lugar de fala, funciona como um cavalo de Troia. Inibe a construção de um projeto comum de sociedade, até mesmo de alianças pontuais, e redireciona boa parte das energias políticas para as batalhas fáceis contra quem, errando ou não, deseja estar a seu lado – aqueles que, como bem lembrou Wilson Gomes, são os únicos vulneráveis a essa estratégia.

A discussão sobre o esclarecimento dos apoiadores de Bolsonaro tomou feições diferentes, mas tinha em comum a ideia de que alguém que não participa de uma determinada realidade deve ser impedido de expressar qualquer apreciação sobre ela. Às vezes, ela deslizava para a exaltação romântica do “povo” como depositário de todas as qualidades; com mais frequência, para a denúncia dos “acadêmicos” que, desconhecedores do mundo real e como sempre arrogantes, exigiam uma clarividência inalcançável para os mais pobres. Muitas vezes, era feita uma confusão entre a necessidade de entender as escolhas feitas, necessidade real e mesmo urgente, e a obrigação de aceitá-las como esclarecidas ou razoáveis.

Entender a produção de leituras da realidade tão desinformadas e cognitivamente deficientes, que levam a escolhas políticas objetivamente desastrosas, é importante exatamente porque elas não são uma condição natural, nem sequer o fruto automático de determinada situação. Vivemos um momento em que o trabalho ideológico da direita assume características especiais, com um esforço concentrado de disseminação da ignorância, de negação da possibilidade de aprendizado e, também, de reforço dos valores mais egoístas e mesquinhos. É preconceituoso, porém, julgar que pessoas em situação de privação são matéria passiva a ser moldada por essa ofensiva – até mesmo porque muitas delas mostram capacidade de resistência. A questão que se impõe é saber por que tantos à esquerda se mostraram tão desleixados, durante tanto tempo, na tarefa imprescindível de promover a educação política – que, convém lembrar, não é “doutrinação”. É desfazer o trabalho da ideologia e contribuir para que os despossuídos se construam como pessoas capazes de pensamento autônomo.

Em seu livro de memórias, falando de seus vizinhos no Bronx, no entreguerras, Vivian Gornick escreve: “As pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido como pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista”2. Acho melhor pensar que essa é uma possibilidade a ser construída do que permanecer no refúgio fácil da condescendência, que julga que “não tem como” ser diferente e, por isso, absolve a priori a tudo e todos.

Se for para entender como se constrói essa recusa, que nega a debilidade cognitiva de compreensões da realidade tão objetivamente insatisfatórias, é possível vê-la partindo de duas visões alternativas. Uma é a adesão ao credo liberal-utilitarista de que “cada um é o melhor juiz de seus próprios interesses”. Ele interdita qualquer escrutínio dos discursos alheios, nega validade à questão da formação social das preferências e anula a existência de todos os mecanismos ideológicos. A esquerda se aproximou dessa posição a partir da crítica – necessária – ao subtexto autoritário muitas vezes presente no uso da noção de “falsa consciência”, que introduz a ideia de que haveria uma consciência “verdadeira”, acessível ao intelectual ou ao líder partidário, donos de instrumentos para avaliar o grau de correção da consciência das “massas” e despreza a compreensão que elas mesmas produzem a partir de suas experiências.

Mas, se não é possível afirmar que há uma consciência verdadeira predeterminada, que os “reais interesses” dos indivíduos e dos grupos estão definidos de antemão, sem passar pelos agentes, tampouco é possível apenas aceitar a consciência que emerge da vivência no mundo social. Isso significa abandonar o entendimento que as ideias das classes dominantes têm maior capacidade de serem universalizadas e a crítica aos padrões de manipulação aos quais estamos submetidos. Nossa tarefa – espinhosa, admito – é, como escreveu Žižek, permanecer numa “posição impossível”, que reconhece que não há “nenhuma linha demarcatória clara que separe a ideologia e a realidade”, mas que, ainda assim, sustenta a tensão entre ideológico e real “que mantém viva a crítica da ideologia”3.

A outra alternativa é uma condescendência arrogante, travestida de bom-mocismo, que julga que, prisioneiras de suas próprias condições, aquelas pessoas estão condenadas a abraçar determinados comportamentos. É uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito. O caminho que aponta é a filantropia ou o paternalismo. Para quem julga que “a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra dos próprios trabalhadores”, não é uma posição aceitável. A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites.


NOTAS
1 Ver o capítulo “Perspectivas sociais e dominação simbólica”, em meu livro Democracia e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
2 Vivian Gornick, Afetos ferozes. Trad. de Heloisa Jahn. São Paulo: Todavia, 2019, p. 69.
3 Slavoj Žižek, “O espectro da ideologia”, em Slavoj Žižek (org.), Um mapa da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 22.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

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Este texto foi inicialmente publicado no Blog da Boitempo [Aqui!].

Esquerda e direita, uma dicotomia que perdeu o sentido?

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Venho acompanhando declarações de uma série de jovens parlamentares que estão repetindo o mantra de que a dicotomia “esquerda/direita” não só não faz mais sentido, como cria, segundo a deputada Tábata Amaral (PDT/SP), “ameaças à democracia”  e também “rouba tempo precioso de discussões que realmente importam”.

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“Essa coisa de esquerda e direita faz muito mal para o Brasil não só porque ameaça a democracia, mas porque rouba tempo precioso de discussões que realmente importam”, disse a deputada federal Tábata Amaral em evento sobre os primeiros 100 dias do governo Bolsonaro.

A esses jovens parlamentares e seus mentores políticos eu tendo a responder que não há nada que ameaça mais a democracia do que o atual estágio do Capitalismo que se caracteriza por um processo de financeirização extrema que gera um mundo marcado por outra dicotomia que vem a ser aquela entre “ultrarricos” e “megapobres”.  

Isso não quer dizer que seja desnecessária examinar com mais rigor o que está sendo definido como “direita” e como “esquerda”, pois a falta de clareza sobre o significado dos mesmos acaba contribuindo para que todos os gatos pareçam pardos, o que efetivamente não é o caso.

Aliás, quem se insurge contra essa suposta superação conceitual de esquerda e direita deveria ser mais preciso no que teria causado isso, e de quais seriam as “tais discussões que realmente importam”. 

Entretanto, se examinarmos as plataformas políticas dos pós “esquerda versus direita”, veremos que na maioria dos casos o “pedigree” das mesmas dificilmente é de viés esquerdista e, quando muito, se pode rotular como um liberalismo de esquerda, o qual nada mais é do que aquela velha tentativa de se dourar a pílula amarga da redução de direitos sociais e a imposição de formas ainda mais agudas de exploração  dos trabalhadores.

Para os que estão inquietos com a aparente falta de agudeza dos partidos que se apresentam como “esquerda”, não custa nada lembrar que esse é um reflexo da hegemonia de postulações de que a chegada do ex-presidente Lula ao poder significava a criação de uma espécie de Capitalismo sem luta de classes no Brasil.  É disso que partidos, sindicatos e movimentos sociais ainda estão tendo dificuldade de se libertar programaticamente, o que vem sendo uma barreira objetiva para a necessária reorganização das lutas sociais dentro de uma perspectiva de claro enfrentamento com as políticas ultraneoliberais que estão sendo impostas pelo governo Bolsonaro/Guedes.

E que ninguém se iluda com os discursos rasos de que não há mais sentido de se falar em esquerda e direita, pois o mundo que nos cerca mostra que nunca foi tão atual escolher um dos lados da moeda.  É que tudo indica que os enfrentamentos que estão se avolumando em todas as partes do mundo chegarão no Brasil com toda força e exuberância.   A ver!

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Lênin junto com Leon Trotsky em meio a trabalhadores simpáticos à Revolução Russa: um tempo em que não se perdia tempo em discutir se esquerda e direita são conceitos válidos para entender a realidade.

E antes que eu me esqueça, ontem se completaram os 149 anos do nascimento do revolucionário russo Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo Lenin, e que ofereceu ensinamentos essenciais para o que seria um partido de esquerda e de suas tarefas para defender os interesses da classe trabalhadora.  Refletindo sobre o que escreveu e praticou Lenin,  talvez nunca tão estado necessitados de um partido com conteúdo programático e capacidade de ação de massas. Assim me parece que em vez de se cair em discussões estéreis, o essencial para os incomodados com a atual conjuntura é pelo menos aprender o que vem a ser esquerda e direita e, depois é claro, passar para a ação política.  

 

O paradoxo brasileiro: esquerda é quem quer eleições diretas

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Sob todos os ângulos que se possa olhar a atual crise política e econômica que coloca o Brasil à beira do caos, uma solução seria substituir um presidente “de facto” sobre o qual pesam grossas acusações de corrupção.  Mas paradoxalmente, a esquerda é quem assumiu a bandeira de eleições diretas para presidente. Enquanto isso, as forças de centro (seja isso lá o que for) e de direita tratam de buscar formas de manter Michel Temer ou algum outro presidente biônico para continuaro  processo de contra-reformas anti-populares que estão aplicando à revelia da vontade da maioria do povo brasileiro.

Esse aparente paradoxo serve para revelar o atraso democrático que caracteriza não apenas o Estado brasileiro, mas principalmente as elite econômicas que o controlam com mão de ferro. Um anônimo usuário da internet notou corretamente que os mesmos empresários que querem tirar direitos sociais, impedir que os trabalhadores possam sequer almoçar dignamente e, muito menos, se aposentar são os mesmos que jogam bilhões de reais nas mãos de políticos e partidos com o objetivo de corrompê-los e obter regalias.

Agora, há que se ressaltar o papel trágico que está sendo cumprido pela mídia corporativa cujo afã de proteger o presidente “de facto” Michel Temer só não é maior que sua disposição de esconder as demandas populares em prol de eleições presidenciais.  Isso ficou claro ontem quando uma grande multidão se reuniu na cidade do Rio de Janeiro para demandar eleições presidenciais. É que a grosso modo, essa manifestação só não ficou invisível porque as transmissões online trataram de mostrar seu tamanho e energia produzida. É como se ao esconder o fato, a mídia corporativa conseguirá deter o avanço da plataforma que a mesma expressa. Isso já aconteceu durante a campanha para as diretas na década de 1980, e é lamentável notar que três décadas depois, os barões da mídia não aprenderam a lição.

Por isso, essa paradoxal situação de termos, novamente, a esquerda propondo que se cumpra uma condição básica de qualquer democracia que se pretenda moderna, qual seja, a presença de um presidente eleito pelo voto da maioria dos eleitores de uma dada Nação.  

Finalmente, curioso notar que numa manifestação que supostamente reuniu mais de 100 mil pessoas, Copacabana não foi palco de nenhum ato de vandalismo ou violência. Bastou o Batalhão de Choque da PMERJ não estar lá para que tudo transcorresse de forma pacífica do início ao fim.  Por que será?

As tentações nazi-fascistas por detrás da luta contra a corrupção

O combate à corrupção (seletiva eu diria) levou ontem milhares de brasileiros às ruas de cidades e capitais atendendo à convocações de grupamentos de inspiração neoliberal e/ou fascista. As pessoas atraídas para essas manifestações carregavam feições normalmente claras na pele e aparência de que, em sua maioria, provinham das classes médias e altas da sociedade brasileira.

O uso da luta contra a corrupção como instrumento de galvanização desse tipo de segmento social está longe de ser novo, basta ver o cartaz que segue abaixo do Partido Nazista Alemão que a usava em sua propaganda eleitoral.

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Mas afinal qual é o papel cumprido pela corrupção numa sociedade capitalista e é possível erradicá-la? Se olharmos os elementos práticos das diferentes formas de corrupção, este é um mecanismo eficiente de transferência de recursos públicos para o controle privado, seja por indíviduos ou empresas.  E esse mecanismo tem sido utilizado em diferentes formas e níveis desde os primórdios do Capitalismo. Então, erradicar suas diferentes manifestações é uma decisão das elites e não dos trabalhadores que são suas principais vítimas. 

Este fato gera uma contradição interna para os membros das elites, ou de setores satélites das elites, que dizem querer o fim da corrupção. É que primeiro depende deles mesmo encerrar a corrupção, em que pese o fato de que estão sempre entre os que mais ganham com sua continuidade.

Por isso é que a luta contra a corrupção é uma tigre de papel, especialmente em países de economia dependente como o Brasil. É que é aqui, pela natureza da forma particular de consolidação do capitalismo, que a corrupção é mais necessária para a expansão do sistema,  e essa necessidade ultrapassa qualquer elemento de moralidade ou ética. Apenas é uma necessidade que deve ser realizada para garantir a hegemonia das relações capitalistas de produção e ponto final.

A verdade é que a bandeira da luta contra a corrupção é essencialmente pequeno-burguesa e, por isso, a esquerda tende a secundarizá-la em nome de bandeiras mais voltadas para fazer avançar direitos sociais e o combate às distintas formas de opressão de classe.  

Se me perguntarem se é um erro deixar a luta contra a corrupção nas mãos de quem mais lucra com isso, eu diria que é mais perigoso embarcar de cabeça na defesa de uma bandeira que dificilmente será tirada das mãos dos setores mais reacionários das classes médias e altas.  E isso vale para o Brasil neste momento, onde os ataques aos direitos sociais e dos trabalhadores recebem a total aprovação de quem vai às ruas supostamente contra a corrupção. 

Além disso, me parece óbvio que cedo ou tarde teremos confrontos diretos entre os setores médios e altos que só se mobilizam contra a corrupção e segmentos de esquerda e democráticos que entendem o risco real que vivemos hoje que é o de nos transformarmos em sua sub-colonia das economias centrais.

Isto não significa dizer que devamos ser  condescendentes com a corrupção dentro de partidos, sindicatos e movimentos sociais da esquerda.  E o fato é simples: quando a corrupção se dá na direita, a mesma é tolerada, enquanto que quando ocorre na esquerda ela se transforma num elemento de escolha dos setores mais retrógrados de qualquer sociedade para retirar direitos e reprimir os mais pobres.

Esquerda, ma non troppo

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Agora que vemos o desgaste inevitável na imagem do Partido dos Trabalhadores (PT) como um legítimo representante de um pensamento de esquerda para o Brasil, há um processo concomitante de caça a partidos que ameaçam crescer no vácuo deixado pela derrocada da agremição liderada pelo ex-presidente Lula.

Como é de se esperar a ira é dirigida principalmente contra o Partido Socialismo e Liberdade (PSol), mas eventualmente sobra para o ressurgente Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Pior destino ainda sofre o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (Pstu) que defende que não houve golpe de estado, mas golpe de ex-aliados do PT. Ao Pstu sobram as mais graves designações por sua posição de ultraesquerda.

As alegações que eu vejo aparecendo mais comumente é que ao criticar o PT e o partido satélite que lhe restou dos tempos de domínio absoluto, o pragmático Partido Comunista do Brasil (PC do B) é que equivalente a uma traição na luta contra o golpe de estado via parlamento que foi operado contra a presidente Dilma Rousseff.

Primeiro é importante dizer que a bancada do Psol com apenas 6 militantes foi mais atuante do que a do PT na luta pela manutenção do mandato legítimo de Dilma Rousseff. Sempre notei a desproporção da energia gasta pela bancada do PT em relação à do Psol que parecia ser sempre dez vezes maiores do que era. Segundo, que o Psol e o PCB não estão defendendo nada muito diferente do que defenderam ao longo dos últimos anos, quando criticavam as políticas de cunho neoliberal implantadas por Lula e Dilma.

Para mim, não há como cobrar total alinhamento e ausência de crítica aos candidatos do PT e do PC do B em nome da luta contra o golpe. É que, para começo de conversa, os golpistas eram até recentemente membros da suposta base aliada do governo Dilma. Segundo, é que ao longo dos anos, quem abandonou o campo das alianças de esquerda em nome de um governabilidade que se mostrou fajuta foram o PT e o PC do B.

Ainda que eu considere as posições do Psol como sendo marcadas por uma crença excessiva na capacidade de resolver os problemas nacionais via o parlamento, não há como negar que o partido se manteve coerente a partir de uma posição de defesa dos interesses da maioria da população pobre. Além disso, ao se aliar ao PCB na cidade do Rio de Janeiro, o Psol expressou um avanço no sentido da formação de alianças eleitorais que vão além dos interesses momentâneos e fisiológicos que partidos como o PT e o PC do B continuam adotando. Tanto isso é verdade que o PT está aliado aos chamados partidos golpistas em mais de 1.000 municípios nas atuais eleições.

Finalmente, como eleições são apenas uma espécie de momento “the flash” na luta de classes, a minha expectativa é que estejamos vivenciando um processo de reagrupamento da esquerda no Brasil.  Mas não aquela esquerda “ma non troppo” que só esquerda no momento de pedir votos. É que dessa esquerda, não há mais muito o que esperar.