A esquerda que abriu mão da crítica

A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites. A alternativa é uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito e condescendência arrogante travestida de bom-mocismo.

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Por Luis Felipe Miguel*

Este texto nasce em reação a duas polêmicas que surgiram nas esquerdas nas últimas semanas – ou, antes, que ressurgiram, pois são cíclicas. Uma é sobre o chamado “lugar de fala”. A outra, sobre como caracterizar o comportamento de pessoas que apoiam ativamente líderes e políticas que, na prática, as condenam à morte; em particular, ao veto ao substantivo “burrice”, tão chocante. Embora tenham sido debates separados, eu os aproximo aqui porque julgo que remetem a um denominador comum: a sobrevalorização da experiência crua dos agentes sociais, expressão do anti-intelectualismo hoje dominante, e a consequente inibição de qualquer engajamento crítico com a autoexpressão dos próprios agentes.

A cada vez que ressurge, o debate mostra permanecer exatamente no mesmo lugar em que estava antes. Essa ausência de acúmulo na discussão, tão exasperante, é uma característica das mídias sociais, que recompensam predominantemente a lacração que, para ser lacradora, tem que permanecer insensível às nuanças do real. É consequência também do anti-intelectualismo que rotula como “acadêmico”, portanto irrelevante, qualquer contribuição que vá além da experiência imediata. E, por fim, espelha o paradoxo de que quem critica, relativiza ou complexifica a noção de lugar de fala não tem, por definição, lugar de fala para tocar no assunto, logo deve ser ignorado.

É preciso, em primeiro lugar, enfatizar a importância que a noção de lugar de fala e outras assemelhadas tiveram e têm no combate a certo idealismo racionalista, que sonha com uma Razão descarnada que interpreta o mundo permanecendo fora dela. Toda fala é socialmente situada e isso é relevante para a compreensão de seu sentido. O reconhecimento de que diferentes falantes vão ver o mundo a partir de diferentes posições sociais, porém, aponta para a necessidade de pluralização do debate, não para alternância de silenciamentos ou construção de guetos.

Isso porque o lugar da fala não implica qualquer privilégio epistêmico (isto é, a ideia de que o dominado, só por ser dominado, já entende a dominação melhor do que qualquer outro). A expressão dos dominados é importante porque traduz – em parte e com ruídos, como qualquer expressão – sua experiência, mas convém lembrar que essa experiência também é conformada pela dominação. A experiência bruta, assim, tem que ser ressignificada por meio de processos que, à falta de palavra melhor, podem ser chamados de “conscientização”. Era o papel dos grupos de mulheres do movimento feminista dos anos 1960 e 1970, que foram cruciais para a difusão dessa discussão – espaços que permitissem às mulheres construir uma compreensão de suas próprias vidas a contrapelo das representações patriarcais que as estruturam.

Se tais espaços são necessários, eles não levam, de maneira nenhuma, à imposição de vetos à participação no debate público. Levam, isso sim, à exigência por ampliação da pluralidade de perspectivas que têm lugar neles.

Da mesma forma como o lugar de fala X não dá a quem o ocupa um privilégio epistêmico, ocupar o lugar não-X não torna a fala, só por causa disso, irrelevante ou nociva. É um local externo e continuará a sê-lo, não importa de quanta empatia se revista – e ter consciência dessa exterioridade importa para compreendê-lo. Mas pode contribuir. Ou não. Só deixando que se manifeste no debate que isso pode ser aquilatado. Lembrando, também, que o não-compartilhamento de características pessoais, de experiências de vida, até mesmo de crenças e de valores, em suma, tudo o que indica a exterioridade em relação a uma determinada posição social, não implica necessariamente preconceito. A equivalência automática entre exterioridade e preconceito, que está implícita em algumas manifestações (e até explícita em outras), é uma simplificação abusiva que serve apenas ao propósito de silenciar o debate.

Falei acima em perspectivas. Na verdade, em vez de “lugar de fala”, prefiro operar com a categoria “perspectivas sociais”. Embora eu mesmo tenha feito crítica a alguns de seus usos1, ela tem a vantagem de marcar desde o início o caráter social das posições de elocução e, portanto, o caráter socialmente produzido das diversas experiências, sem o apelo a noções essencializantes ou místicas, como “ancestralidade”, que se tornaram tão correntes em alguns discursos.

O uso limitante do “lugar de fala” está vinculado à degradação das reivindicações emancipatórias de grupos subalternos (voltadas contra padrões sociais de dominação e de violência) em reclamos identitários. A identidade deixa de ser um instrumento para a construção de um sujeito político coletivo para aparecer como um fim em si mesma.

De fato, não há luta política que não seja, em alguma medida, identitária. Não desejo retomar a distinção algo mecânica entre classe em si e classe para si, que o próprio Marx faz na Miséria da filosofia e em outros escritos, mas o fato é que a constituição da classe operária como sujeito político depende da construção de uma identidade política comum. Se esse passo é indispensável para a ação política de qualquer grupo, é mais ainda para os dominados, cujas vivências são desvalorizadas e que encontram objetivamente, na estrutura social, estímulos para uma identificação com os dominadores.

Mas há ao menos duas diferenças, ambas com enormes consequências, entre a identidade da classe trabalhadora e a de outros grupos dominados. Em primeiro lugar, a classe trabalhadora se define por um atributo comum da humanidade, o trabalho, isto é, a capacidade de transformação do mundo material. Os outros grupos dominados apresentam a exigência de serem incluídos em pé de igualdade na humanidade comum, mas não têm como atributo peculiar aquilo que, como atributo geral, define a humanidade enquanto tal.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora tem por projeto, ao menos na visão de Marx, a extinção de sua própria peculiaridade, com a emergência de uma sociedade sem classes. Isso também não está ao alcance dos outros grupos subalternos. Havia uma ambição de apagamento da relevância social da identidade, no feminismo que antecipava uma sociedade gender-free ou no antirracismo voltado a uma sociedade color blind. Mas era, sempre, a superação da valoração hierárquica da diferença, não da diferença em si mesma. Hoje, a virada para uma política da diferença, em que ela é valorizada em si mesma, torna esta distinção ainda mais marcante.

Com isso, é perdido o acesso a uma visão alternativa, que lê as identidades também como prisões a serem superadas, e à utopia de uma sociedade pós-identitária, em que características biológicas, como sexo ou cor da pele, serão plenamente irrelevantes para determinar comportamentos ou posições, e atributos sociais, como gênero ou raça, deixarão até mesmo de existir, dissolvendo-se na diversidade inclassificável de uma humanidade livre. É possível discutir o quanto essa leitura é desejável ou factível, mas é difícil negar que ela é, ao menos, digna de discussão.

As duas diferenças indicam que a classe trabalhadora tem uma porta aberta para a conexão com a universalidade que falta a outros movimentos de caráter emancipatório. Uma situação que se agrava com a reivindicação cada vez mais particularista, presente nas compreensões correntes, nas disputas políticas, de “lugares de fala” privilegiados e mesmo monopolísticos.

A discussão é complexa e tem múltiplas facetas, mas é difícil recusar pelo menos uma conclusão: a pluralização das agendas emancipatórias da esquerda é rica e necessária, mas a deriva identitária, aliada à utilização lacradora de uma noção reducionista de lugar de fala, funciona como um cavalo de Troia. Inibe a construção de um projeto comum de sociedade, até mesmo de alianças pontuais, e redireciona boa parte das energias políticas para as batalhas fáceis contra quem, errando ou não, deseja estar a seu lado – aqueles que, como bem lembrou Wilson Gomes, são os únicos vulneráveis a essa estratégia.

A discussão sobre o esclarecimento dos apoiadores de Bolsonaro tomou feições diferentes, mas tinha em comum a ideia de que alguém que não participa de uma determinada realidade deve ser impedido de expressar qualquer apreciação sobre ela. Às vezes, ela deslizava para a exaltação romântica do “povo” como depositário de todas as qualidades; com mais frequência, para a denúncia dos “acadêmicos” que, desconhecedores do mundo real e como sempre arrogantes, exigiam uma clarividência inalcançável para os mais pobres. Muitas vezes, era feita uma confusão entre a necessidade de entender as escolhas feitas, necessidade real e mesmo urgente, e a obrigação de aceitá-las como esclarecidas ou razoáveis.

Entender a produção de leituras da realidade tão desinformadas e cognitivamente deficientes, que levam a escolhas políticas objetivamente desastrosas, é importante exatamente porque elas não são uma condição natural, nem sequer o fruto automático de determinada situação. Vivemos um momento em que o trabalho ideológico da direita assume características especiais, com um esforço concentrado de disseminação da ignorância, de negação da possibilidade de aprendizado e, também, de reforço dos valores mais egoístas e mesquinhos. É preconceituoso, porém, julgar que pessoas em situação de privação são matéria passiva a ser moldada por essa ofensiva – até mesmo porque muitas delas mostram capacidade de resistência. A questão que se impõe é saber por que tantos à esquerda se mostraram tão desleixados, durante tanto tempo, na tarefa imprescindível de promover a educação política – que, convém lembrar, não é “doutrinação”. É desfazer o trabalho da ideologia e contribuir para que os despossuídos se construam como pessoas capazes de pensamento autônomo.

Em seu livro de memórias, falando de seus vizinhos no Bronx, no entreguerras, Vivian Gornick escreve: “As pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido como pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista”2. Acho melhor pensar que essa é uma possibilidade a ser construída do que permanecer no refúgio fácil da condescendência, que julga que “não tem como” ser diferente e, por isso, absolve a priori a tudo e todos.

Se for para entender como se constrói essa recusa, que nega a debilidade cognitiva de compreensões da realidade tão objetivamente insatisfatórias, é possível vê-la partindo de duas visões alternativas. Uma é a adesão ao credo liberal-utilitarista de que “cada um é o melhor juiz de seus próprios interesses”. Ele interdita qualquer escrutínio dos discursos alheios, nega validade à questão da formação social das preferências e anula a existência de todos os mecanismos ideológicos. A esquerda se aproximou dessa posição a partir da crítica – necessária – ao subtexto autoritário muitas vezes presente no uso da noção de “falsa consciência”, que introduz a ideia de que haveria uma consciência “verdadeira”, acessível ao intelectual ou ao líder partidário, donos de instrumentos para avaliar o grau de correção da consciência das “massas” e despreza a compreensão que elas mesmas produzem a partir de suas experiências.

Mas, se não é possível afirmar que há uma consciência verdadeira predeterminada, que os “reais interesses” dos indivíduos e dos grupos estão definidos de antemão, sem passar pelos agentes, tampouco é possível apenas aceitar a consciência que emerge da vivência no mundo social. Isso significa abandonar o entendimento que as ideias das classes dominantes têm maior capacidade de serem universalizadas e a crítica aos padrões de manipulação aos quais estamos submetidos. Nossa tarefa – espinhosa, admito – é, como escreveu Žižek, permanecer numa “posição impossível”, que reconhece que não há “nenhuma linha demarcatória clara que separe a ideologia e a realidade”, mas que, ainda assim, sustenta a tensão entre ideológico e real “que mantém viva a crítica da ideologia”3.

A outra alternativa é uma condescendência arrogante, travestida de bom-mocismo, que julga que, prisioneiras de suas próprias condições, aquelas pessoas estão condenadas a abraçar determinados comportamentos. É uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito. O caminho que aponta é a filantropia ou o paternalismo. Para quem julga que “a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra dos próprios trabalhadores”, não é uma posição aceitável. A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites.


NOTAS
1 Ver o capítulo “Perspectivas sociais e dominação simbólica”, em meu livro Democracia e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
2 Vivian Gornick, Afetos ferozes. Trad. de Heloisa Jahn. São Paulo: Todavia, 2019, p. 69.
3 Slavoj Žižek, “O espectro da ideologia”, em Slavoj Žižek (org.), Um mapa da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 22.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

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Este texto foi inicialmente publicado no Blog da Boitempo [Aqui!].

Esquerda e direita, uma dicotomia que perdeu o sentido?

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Venho acompanhando declarações de uma série de jovens parlamentares que estão repetindo o mantra de que a dicotomia “esquerda/direita” não só não faz mais sentido, como cria, segundo a deputada Tábata Amaral (PDT/SP), “ameaças à democracia”  e também “rouba tempo precioso de discussões que realmente importam”.

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“Essa coisa de esquerda e direita faz muito mal para o Brasil não só porque ameaça a democracia, mas porque rouba tempo precioso de discussões que realmente importam”, disse a deputada federal Tábata Amaral em evento sobre os primeiros 100 dias do governo Bolsonaro.

A esses jovens parlamentares e seus mentores políticos eu tendo a responder que não há nada que ameaça mais a democracia do que o atual estágio do Capitalismo que se caracteriza por um processo de financeirização extrema que gera um mundo marcado por outra dicotomia que vem a ser aquela entre “ultrarricos” e “megapobres”.  

Isso não quer dizer que seja desnecessária examinar com mais rigor o que está sendo definido como “direita” e como “esquerda”, pois a falta de clareza sobre o significado dos mesmos acaba contribuindo para que todos os gatos pareçam pardos, o que efetivamente não é o caso.

Aliás, quem se insurge contra essa suposta superação conceitual de esquerda e direita deveria ser mais preciso no que teria causado isso, e de quais seriam as “tais discussões que realmente importam”. 

Entretanto, se examinarmos as plataformas políticas dos pós “esquerda versus direita”, veremos que na maioria dos casos o “pedigree” das mesmas dificilmente é de viés esquerdista e, quando muito, se pode rotular como um liberalismo de esquerda, o qual nada mais é do que aquela velha tentativa de se dourar a pílula amarga da redução de direitos sociais e a imposição de formas ainda mais agudas de exploração  dos trabalhadores.

Para os que estão inquietos com a aparente falta de agudeza dos partidos que se apresentam como “esquerda”, não custa nada lembrar que esse é um reflexo da hegemonia de postulações de que a chegada do ex-presidente Lula ao poder significava a criação de uma espécie de Capitalismo sem luta de classes no Brasil.  É disso que partidos, sindicatos e movimentos sociais ainda estão tendo dificuldade de se libertar programaticamente, o que vem sendo uma barreira objetiva para a necessária reorganização das lutas sociais dentro de uma perspectiva de claro enfrentamento com as políticas ultraneoliberais que estão sendo impostas pelo governo Bolsonaro/Guedes.

E que ninguém se iluda com os discursos rasos de que não há mais sentido de se falar em esquerda e direita, pois o mundo que nos cerca mostra que nunca foi tão atual escolher um dos lados da moeda.  É que tudo indica que os enfrentamentos que estão se avolumando em todas as partes do mundo chegarão no Brasil com toda força e exuberância.   A ver!

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Lênin junto com Leon Trotsky em meio a trabalhadores simpáticos à Revolução Russa: um tempo em que não se perdia tempo em discutir se esquerda e direita são conceitos válidos para entender a realidade.

E antes que eu me esqueça, ontem se completaram os 149 anos do nascimento do revolucionário russo Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo Lenin, e que ofereceu ensinamentos essenciais para o que seria um partido de esquerda e de suas tarefas para defender os interesses da classe trabalhadora.  Refletindo sobre o que escreveu e praticou Lenin,  talvez nunca tão estado necessitados de um partido com conteúdo programático e capacidade de ação de massas. Assim me parece que em vez de se cair em discussões estéreis, o essencial para os incomodados com a atual conjuntura é pelo menos aprender o que vem a ser esquerda e direita e, depois é claro, passar para a ação política.  

 

O paradoxo brasileiro: esquerda é quem quer eleições diretas

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Sob todos os ângulos que se possa olhar a atual crise política e econômica que coloca o Brasil à beira do caos, uma solução seria substituir um presidente “de facto” sobre o qual pesam grossas acusações de corrupção.  Mas paradoxalmente, a esquerda é quem assumiu a bandeira de eleições diretas para presidente. Enquanto isso, as forças de centro (seja isso lá o que for) e de direita tratam de buscar formas de manter Michel Temer ou algum outro presidente biônico para continuaro  processo de contra-reformas anti-populares que estão aplicando à revelia da vontade da maioria do povo brasileiro.

Esse aparente paradoxo serve para revelar o atraso democrático que caracteriza não apenas o Estado brasileiro, mas principalmente as elite econômicas que o controlam com mão de ferro. Um anônimo usuário da internet notou corretamente que os mesmos empresários que querem tirar direitos sociais, impedir que os trabalhadores possam sequer almoçar dignamente e, muito menos, se aposentar são os mesmos que jogam bilhões de reais nas mãos de políticos e partidos com o objetivo de corrompê-los e obter regalias.

Agora, há que se ressaltar o papel trágico que está sendo cumprido pela mídia corporativa cujo afã de proteger o presidente “de facto” Michel Temer só não é maior que sua disposição de esconder as demandas populares em prol de eleições presidenciais.  Isso ficou claro ontem quando uma grande multidão se reuniu na cidade do Rio de Janeiro para demandar eleições presidenciais. É que a grosso modo, essa manifestação só não ficou invisível porque as transmissões online trataram de mostrar seu tamanho e energia produzida. É como se ao esconder o fato, a mídia corporativa conseguirá deter o avanço da plataforma que a mesma expressa. Isso já aconteceu durante a campanha para as diretas na década de 1980, e é lamentável notar que três décadas depois, os barões da mídia não aprenderam a lição.

Por isso, essa paradoxal situação de termos, novamente, a esquerda propondo que se cumpra uma condição básica de qualquer democracia que se pretenda moderna, qual seja, a presença de um presidente eleito pelo voto da maioria dos eleitores de uma dada Nação.  

Finalmente, curioso notar que numa manifestação que supostamente reuniu mais de 100 mil pessoas, Copacabana não foi palco de nenhum ato de vandalismo ou violência. Bastou o Batalhão de Choque da PMERJ não estar lá para que tudo transcorresse de forma pacífica do início ao fim.  Por que será?

As tentações nazi-fascistas por detrás da luta contra a corrupção

O combate à corrupção (seletiva eu diria) levou ontem milhares de brasileiros às ruas de cidades e capitais atendendo à convocações de grupamentos de inspiração neoliberal e/ou fascista. As pessoas atraídas para essas manifestações carregavam feições normalmente claras na pele e aparência de que, em sua maioria, provinham das classes médias e altas da sociedade brasileira.

O uso da luta contra a corrupção como instrumento de galvanização desse tipo de segmento social está longe de ser novo, basta ver o cartaz que segue abaixo do Partido Nazista Alemão que a usava em sua propaganda eleitoral.

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Mas afinal qual é o papel cumprido pela corrupção numa sociedade capitalista e é possível erradicá-la? Se olharmos os elementos práticos das diferentes formas de corrupção, este é um mecanismo eficiente de transferência de recursos públicos para o controle privado, seja por indíviduos ou empresas.  E esse mecanismo tem sido utilizado em diferentes formas e níveis desde os primórdios do Capitalismo. Então, erradicar suas diferentes manifestações é uma decisão das elites e não dos trabalhadores que são suas principais vítimas. 

Este fato gera uma contradição interna para os membros das elites, ou de setores satélites das elites, que dizem querer o fim da corrupção. É que primeiro depende deles mesmo encerrar a corrupção, em que pese o fato de que estão sempre entre os que mais ganham com sua continuidade.

Por isso é que a luta contra a corrupção é uma tigre de papel, especialmente em países de economia dependente como o Brasil. É que é aqui, pela natureza da forma particular de consolidação do capitalismo, que a corrupção é mais necessária para a expansão do sistema,  e essa necessidade ultrapassa qualquer elemento de moralidade ou ética. Apenas é uma necessidade que deve ser realizada para garantir a hegemonia das relações capitalistas de produção e ponto final.

A verdade é que a bandeira da luta contra a corrupção é essencialmente pequeno-burguesa e, por isso, a esquerda tende a secundarizá-la em nome de bandeiras mais voltadas para fazer avançar direitos sociais e o combate às distintas formas de opressão de classe.  

Se me perguntarem se é um erro deixar a luta contra a corrupção nas mãos de quem mais lucra com isso, eu diria que é mais perigoso embarcar de cabeça na defesa de uma bandeira que dificilmente será tirada das mãos dos setores mais reacionários das classes médias e altas.  E isso vale para o Brasil neste momento, onde os ataques aos direitos sociais e dos trabalhadores recebem a total aprovação de quem vai às ruas supostamente contra a corrupção. 

Além disso, me parece óbvio que cedo ou tarde teremos confrontos diretos entre os setores médios e altos que só se mobilizam contra a corrupção e segmentos de esquerda e democráticos que entendem o risco real que vivemos hoje que é o de nos transformarmos em sua sub-colonia das economias centrais.

Isto não significa dizer que devamos ser  condescendentes com a corrupção dentro de partidos, sindicatos e movimentos sociais da esquerda.  E o fato é simples: quando a corrupção se dá na direita, a mesma é tolerada, enquanto que quando ocorre na esquerda ela se transforma num elemento de escolha dos setores mais retrógrados de qualquer sociedade para retirar direitos e reprimir os mais pobres.

Esquerda, ma non troppo

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Agora que vemos o desgaste inevitável na imagem do Partido dos Trabalhadores (PT) como um legítimo representante de um pensamento de esquerda para o Brasil, há um processo concomitante de caça a partidos que ameaçam crescer no vácuo deixado pela derrocada da agremição liderada pelo ex-presidente Lula.

Como é de se esperar a ira é dirigida principalmente contra o Partido Socialismo e Liberdade (PSol), mas eventualmente sobra para o ressurgente Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Pior destino ainda sofre o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (Pstu) que defende que não houve golpe de estado, mas golpe de ex-aliados do PT. Ao Pstu sobram as mais graves designações por sua posição de ultraesquerda.

As alegações que eu vejo aparecendo mais comumente é que ao criticar o PT e o partido satélite que lhe restou dos tempos de domínio absoluto, o pragmático Partido Comunista do Brasil (PC do B) é que equivalente a uma traição na luta contra o golpe de estado via parlamento que foi operado contra a presidente Dilma Rousseff.

Primeiro é importante dizer que a bancada do Psol com apenas 6 militantes foi mais atuante do que a do PT na luta pela manutenção do mandato legítimo de Dilma Rousseff. Sempre notei a desproporção da energia gasta pela bancada do PT em relação à do Psol que parecia ser sempre dez vezes maiores do que era. Segundo, que o Psol e o PCB não estão defendendo nada muito diferente do que defenderam ao longo dos últimos anos, quando criticavam as políticas de cunho neoliberal implantadas por Lula e Dilma.

Para mim, não há como cobrar total alinhamento e ausência de crítica aos candidatos do PT e do PC do B em nome da luta contra o golpe. É que, para começo de conversa, os golpistas eram até recentemente membros da suposta base aliada do governo Dilma. Segundo, é que ao longo dos anos, quem abandonou o campo das alianças de esquerda em nome de um governabilidade que se mostrou fajuta foram o PT e o PC do B.

Ainda que eu considere as posições do Psol como sendo marcadas por uma crença excessiva na capacidade de resolver os problemas nacionais via o parlamento, não há como negar que o partido se manteve coerente a partir de uma posição de defesa dos interesses da maioria da população pobre. Além disso, ao se aliar ao PCB na cidade do Rio de Janeiro, o Psol expressou um avanço no sentido da formação de alianças eleitorais que vão além dos interesses momentâneos e fisiológicos que partidos como o PT e o PC do B continuam adotando. Tanto isso é verdade que o PT está aliado aos chamados partidos golpistas em mais de 1.000 municípios nas atuais eleições.

Finalmente, como eleições são apenas uma espécie de momento “the flash” na luta de classes, a minha expectativa é que estejamos vivenciando um processo de reagrupamento da esquerda no Brasil.  Mas não aquela esquerda “ma non troppo” que só esquerda no momento de pedir votos. É que dessa esquerda, não há mais muito o que esperar.

 

Qual unidade e de que esquerda se fala?

unidade

Sou do tempo em que findo o regime ditatorial, os partidos e organizações da esquerda revolucionária brasileira procuraram caminhos institucionais para levantar suas bandeiras e continuar a luta por outras vias que não as das armas. A principal experiência desse processo foi o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) que, em sua gênese, abraçou matizes diferentes do pensamento da esquerda que sobreviveu ao massacre imposto pelo regime militar.

Mas lentamente a burocracia interna do PT conseguiu se livrar paulatina e meticulosamente das correntes que representavam obstáculos a uma adptação completa ao sistema partidário burguês e, por consequência, à realização de alianças com setores políticos que haviam colaborado com o regime militar.  

Não preciso nem ir longe para dizer que esta guinada para as alianças com a direita desembocou no golpe de estado parlamentar de 31 de março de 2016. Mas ao longo dos últimos 13 anos (engraçado como este número acompanha o partido  de Lula e José Dirceu!), o que a direção majoritária do PT fez foi impor a esquerda brasileira a um exílio siberiano em troca da viabilização de um governo de conciliação de classes. E, mais, qualquer crítica às alianças com Paulo Maluf, Renan Calheiros, José Sarney et caterva era tratada como coisa de esquerdistas infantis que não entendiam a necessidade de se aliar para governar, fosse ccm quem fosse.

Agora que estamos defrontados com um programa de desmanche de direitos sociais e de entrega completa do patrimônio público à sanha das potências centrais, eis que ouço chamados à unidade da esquerda para combater os inimigos da classe trabalhadora.  O problema que este chamado, ainda que correto em tese, não vem acompanhado de qualquer auto-crítica ou indicação de que o PT vai abandonar as políticas de cunho neoliberal que aplicou no Brasil, ainda que numa fórmula mais light do que a que o presidente de facto pretende aplicar.

Desta forma, considero compreensível que os partidos de esquerda que estão saindo do inverno siberiano enxerguem com alguma suspeita tais chamados à unidade. É que unidade sem auto-crítica é o caminho preferencial para que a história se repita. Aliás, como já disse Karl Marx  no ezoito Brumário de Louis Bonaparte, publicado inicialmente 1852, a ” história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”. E, convenhamos, de tragédias e de farsas já estamos todos fartos.

Debates online do CEE da Fiocruz abordará os ciclos da esquerda e da direita na América Latina

debates online

A América Latina e seus caminhos, após o giro à esquerda empreendido no começo dos anos 2000, estará em foco no próximo debate online da série Futuros do Brasil, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Em torno do tema Futuros da América Latina: os ciclos da esquerda e da direita, estarão reunidos os professores Carlos Eduardo Martins, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Ifics/UFRJ) e José Maurício Domingues, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp/Uerj), pesquisador associado do CEE-Fiocruz. O debate, realizado em parceria com o Centro de Relações Internacionais da Fiocruz (Cris/Fiocruz), será no dia 21/6/2016, das 14h às 16h. Para participar, basta conectar-se por computador, tablet ou celular, ao blog do CEE-Fiocruz (cee.fiocruz).  

Investimento em políticas sociais e busca de novas relações internacionais marcaram o cenário do continente a partir dos primeiros anos deste século. É possível, no entanto, que esse ciclo tenha se concluído, com a vitória de Mauricio Macri, na Argentina, o afastamento, mesmo não definitivo, de Dilma Rousseff, as dificuldades de Rafael Correa, no Equador, e a crise aguda do chavismo na Venezuela – ainda que o Movimiento al Socialismo (MAS) e seu líder, Evo Morales, na Bolívia, Michelle Bachelet e sua coalizão de centro-esquerda, no Chile, e Tabaré Vázquez e a Frente Ampla, no Uruguai, mantenham-se no poder.

Ao mesmo tempo, o fim negociado da longa guerrilha colombiana, com o acordo de paz entre o governo do país e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após mais de 50 anos de combates, desenha outras possibilidades. E, ainda, no México, segue o domínio da centro-direita, mas mantém-se forte a opção eleitoral de centro-esquerda.

Pode-se falar em um giro à direita ou trata-se de um momento de recuo temporário das esquerdas latino-americanas? Ou, ainda, de situação mais complexa, trazida pelo fortalecimento da democracia na região? Essas e outras questões orientarão o debate.

Qualquer pessoa pode participar, assistindo em tempo real e enviando perguntas aos palestrantes.

Conecte-se e participe!

Debates Online CEE-Fiocruz – Futuros do Brasil
América Latina: os ciclos à direita e à esquerda
Data: 21 de julho de 2016
Horário: 14h às 16h
Transmissão pelo blog do CEE-Fiocruz: cee.fiocruz.br
Informações
21 3882-9133
cee@fiocruz.br

FONTE: http://cee.fiocruz.br/?q=node/194

Esquerda do PT pede para Dilma desistir de Kátia Abreu. E se ela insistir, vão fazer o que?

http://3.bp.blogspot.com/-a1UNScDA7vk/ThJt_G1iXhI/AAAAAAAAC0w/uTDhaGaM-ws/s1600/129_328-alt-28-MHG-pais-katia-abreu.jpg

Sai do PT em 1998 quando assisti à sua irreversível guinada à direita que ficou célebre por uma entrevista de José Genoíno à Revista Exame onde anunciava o abandono da luta pelo socialismo enquanto bandeira estratégica do partido. Desde então assisto até com alguma incredulidade a insistência dos chamados esquerdistas do PT.  

É forçoso reconhecer que a esquerda é cada vez mais diminuta dentro dos órgãos dirigentes do PT, e hoje não é nem sombra do que foi em termos de representação. Além disso, muitos dos que se dizem de esquerda estão também adaptados aos usos e costumes que imperam na direita petista.

Agora com o convite feito por Dilma Rousseff para que a senadora/latifundiária Kátia Abreu assuma o poderoso ministério da Agricultura, a chamada “esquerda petista” veio a público pedir para que a presidente desista do convite.

Como Dilma não é de voltar atrás em suas decisões, fico pensando no que farão os esquerdistas do PT para mostrar o seu desprazer. Arrisco que farão pouco ou quase nada, tal qual a sua força objetiva do neoPT nos dias de hoje.  E depois que engolirem a pílula amarga chamada Kátia Abreu, a esquerda do PT vai continuar seu papel de ser a retaguarda de um governo neoliberal. A ver!

Mário Magalhães e a direção que Dilma Rousseff vai tomar: direita ou esquerda?

Dilma venceu com discurso à esquerda; virada à direita seria estelionato

Por Mário Magalhães

 

Três milhões, quatrocentos e cinquenta e oito mil, oitocentos e noventa e um.

Repetindo: 3.458.891.

Essa foi a diferença entre os sufrágios conferidos no domingo à candidata Dilma Rousseff, reeleita para a Presidência da República, e ao seu contendor, Aécio Neves.

Não se trata de mero registro protocolar e atrasado, mas de contraste necessário ao noticiário do dia. O tom empregado por numerosos observadores sugere que a concorrente petista foi derrotada pelo senador tucano.

Não apenas não foi, como sua conquista possui abissal envergadura histórica.

É incrível que Dilma tenha vencido, tamanha a adversidade do cenário que enfrentou: economia capengando, roubalheira na Petrobras, bombardeamento midiático de última hora.

Ela só ganhou devido ao progresso que os anos Lula-Dilma significaram para dezenas de milhões de brasileiros, que agora têm muito pouco, mas antes nada tinham.

Seu triunfo oconteceu numa das eleições mais politizadas da história do Brasil. Desde 1989 não havia tanta clareza entre os eleitores sobre o caráter político dos postulantes ao Planalto, independentemente da autenticidade ou hipocrisia da pregação de cada um.

Na noite do sábado, jantei na churrascaria-botequim que constitui o epicentro do Baixo Gávea, tradicional reduto boêmio da zona sul do Rio, região carioca mais abonada, onde Dilma só bateria Aécio na zona eleitoral das favelas da Rocinha e do Vidigal.

As mesas do estabelecimento estavam tomadas por comensais que identificavam suas inclinações com adesivos de Aécio. Não todas as mesas, mas quase.

Já os garçons, eu vim a saber, estavam com Dilma.

Quem era servido e quem servia, todo mundo com voto consciente, puxando a brasa para o seu lado.

Dilma só deslanchou na campanha, ainda no primeiro turno, ao pincelar sua campanha com tons vermelhos. Primeiro, confrontando Marina Silva. Mais tarde, Aécio.

Sem a inflexão da campanha a bombordo, a timoneira teria naufragado.

Mal anunciado o resultado do pleito épico, pipocaram indicações para o futuro Ministério.

O presidente do Bradesco seria nome cotado para suceder Guido Mantega.

Um banqueiro, ou executivo de confiança dos banqueiros, na Fazenda? Depois da demonização de Marina por ter uma herdeira do Itaú entre os conselheiros mais influentes?

Outro ministeriável, palavra esteticamente medonha como presidenciável, é Sérgio Cabral.

O ex-governador foi o vilão supremo das Jornadas de Junho de 2013, que mobilizaram mais gente no Rio do que em qualquer outro Estado. A única palavra de ordem que unificava os manifestantes era “Ei, Cabral, vai tomar…”. Que não venham dizer que o vascaíno fez o sucessor, com a vitória do botafoguense Luiz Fernando Pezão, por isso sua impopularidade ficou no passado. O sapato 48 só sobrepujou Marcello Crivella porque escondeu o antecessor.

Sérgio Cabral ministro equivaleria a cuspir na cara da geração de junho de 2013.

Governo novo, ideias novas, o inspirado slogan de Dilma, não resulta em Cabral ministro, certo? Pelo menos não foi o que deram a entender.

Há quem considere que o recado das urnas, mais precisamente a menor diferença numa eleição presidencial no país, seria a prioridade de diálogo com o mercado, sobretudo o financeiro.

Pois me parece que a mensagem é outra: os movimentos sociais, maltratados por Dilma, é que deveriam receber preferencialmente novo tratamento (sem prejuízo do diálogo com o empresariado). Sem eles, a antiga brizolista agora estaria preparando a mudança para Porto Alegre.

Ontem, no “Jornal Nacional”,  assisti a Dilma falar muito em conversa com os empresários, mas calar sobre os movimentos sociais.

Não sei o que a presidente planeja, mas entendi o pronunciamento dos brasileiros. O PT só levou a eleição ao se comprometer com um governo voltado para quem mais precisa.

Aproximar-se de segmentos que rejeitaram Dilma não implica tripudiar sobre aqueles que a sufragaram.

Se a marquetagem mais à esquerda da campanha se transformar num segundo mandato mais à direita, haverá estelionato eleitoral.

Como nos ensinaram os sábios portugueses, o prometido é devido.

FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2014/10/28/dilma-venceu-com-discurso-a-esquerda-virada-a-direita-seria-estelionato/