Qual unidade e de que esquerda se fala?

unidade

Sou do tempo em que findo o regime ditatorial, os partidos e organizações da esquerda revolucionária brasileira procuraram caminhos institucionais para levantar suas bandeiras e continuar a luta por outras vias que não as das armas. A principal experiência desse processo foi o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) que, em sua gênese, abraçou matizes diferentes do pensamento da esquerda que sobreviveu ao massacre imposto pelo regime militar.

Mas lentamente a burocracia interna do PT conseguiu se livrar paulatina e meticulosamente das correntes que representavam obstáculos a uma adptação completa ao sistema partidário burguês e, por consequência, à realização de alianças com setores políticos que haviam colaborado com o regime militar.  

Não preciso nem ir longe para dizer que esta guinada para as alianças com a direita desembocou no golpe de estado parlamentar de 31 de março de 2016. Mas ao longo dos últimos 13 anos (engraçado como este número acompanha o partido  de Lula e José Dirceu!), o que a direção majoritária do PT fez foi impor a esquerda brasileira a um exílio siberiano em troca da viabilização de um governo de conciliação de classes. E, mais, qualquer crítica às alianças com Paulo Maluf, Renan Calheiros, José Sarney et caterva era tratada como coisa de esquerdistas infantis que não entendiam a necessidade de se aliar para governar, fosse ccm quem fosse.

Agora que estamos defrontados com um programa de desmanche de direitos sociais e de entrega completa do patrimônio público à sanha das potências centrais, eis que ouço chamados à unidade da esquerda para combater os inimigos da classe trabalhadora.  O problema que este chamado, ainda que correto em tese, não vem acompanhado de qualquer auto-crítica ou indicação de que o PT vai abandonar as políticas de cunho neoliberal que aplicou no Brasil, ainda que numa fórmula mais light do que a que o presidente de facto pretende aplicar.

Desta forma, considero compreensível que os partidos de esquerda que estão saindo do inverno siberiano enxerguem com alguma suspeita tais chamados à unidade. É que unidade sem auto-crítica é o caminho preferencial para que a história se repita. Aliás, como já disse Karl Marx  no ezoito Brumário de Louis Bonaparte, publicado inicialmente 1852, a ” história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”. E, convenhamos, de tragédias e de farsas já estamos todos fartos.

Debates online do CEE da Fiocruz abordará os ciclos da esquerda e da direita na América Latina

debates online

A América Latina e seus caminhos, após o giro à esquerda empreendido no começo dos anos 2000, estará em foco no próximo debate online da série Futuros do Brasil, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Em torno do tema Futuros da América Latina: os ciclos da esquerda e da direita, estarão reunidos os professores Carlos Eduardo Martins, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Ifics/UFRJ) e José Maurício Domingues, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp/Uerj), pesquisador associado do CEE-Fiocruz. O debate, realizado em parceria com o Centro de Relações Internacionais da Fiocruz (Cris/Fiocruz), será no dia 21/6/2016, das 14h às 16h. Para participar, basta conectar-se por computador, tablet ou celular, ao blog do CEE-Fiocruz (cee.fiocruz).  

Investimento em políticas sociais e busca de novas relações internacionais marcaram o cenário do continente a partir dos primeiros anos deste século. É possível, no entanto, que esse ciclo tenha se concluído, com a vitória de Mauricio Macri, na Argentina, o afastamento, mesmo não definitivo, de Dilma Rousseff, as dificuldades de Rafael Correa, no Equador, e a crise aguda do chavismo na Venezuela – ainda que o Movimiento al Socialismo (MAS) e seu líder, Evo Morales, na Bolívia, Michelle Bachelet e sua coalizão de centro-esquerda, no Chile, e Tabaré Vázquez e a Frente Ampla, no Uruguai, mantenham-se no poder.

Ao mesmo tempo, o fim negociado da longa guerrilha colombiana, com o acordo de paz entre o governo do país e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após mais de 50 anos de combates, desenha outras possibilidades. E, ainda, no México, segue o domínio da centro-direita, mas mantém-se forte a opção eleitoral de centro-esquerda.

Pode-se falar em um giro à direita ou trata-se de um momento de recuo temporário das esquerdas latino-americanas? Ou, ainda, de situação mais complexa, trazida pelo fortalecimento da democracia na região? Essas e outras questões orientarão o debate.

Qualquer pessoa pode participar, assistindo em tempo real e enviando perguntas aos palestrantes.

Conecte-se e participe!

Debates Online CEE-Fiocruz – Futuros do Brasil
América Latina: os ciclos à direita e à esquerda
Data: 21 de julho de 2016
Horário: 14h às 16h
Transmissão pelo blog do CEE-Fiocruz: cee.fiocruz.br
Informações
21 3882-9133
cee@fiocruz.br

FONTE: http://cee.fiocruz.br/?q=node/194

Esquerda do PT pede para Dilma desistir de Kátia Abreu. E se ela insistir, vão fazer o que?

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Sai do PT em 1998 quando assisti à sua irreversível guinada à direita que ficou célebre por uma entrevista de José Genoíno à Revista Exame onde anunciava o abandono da luta pelo socialismo enquanto bandeira estratégica do partido. Desde então assisto até com alguma incredulidade a insistência dos chamados esquerdistas do PT.  

É forçoso reconhecer que a esquerda é cada vez mais diminuta dentro dos órgãos dirigentes do PT, e hoje não é nem sombra do que foi em termos de representação. Além disso, muitos dos que se dizem de esquerda estão também adaptados aos usos e costumes que imperam na direita petista.

Agora com o convite feito por Dilma Rousseff para que a senadora/latifundiária Kátia Abreu assuma o poderoso ministério da Agricultura, a chamada “esquerda petista” veio a público pedir para que a presidente desista do convite.

Como Dilma não é de voltar atrás em suas decisões, fico pensando no que farão os esquerdistas do PT para mostrar o seu desprazer. Arrisco que farão pouco ou quase nada, tal qual a sua força objetiva do neoPT nos dias de hoje.  E depois que engolirem a pílula amarga chamada Kátia Abreu, a esquerda do PT vai continuar seu papel de ser a retaguarda de um governo neoliberal. A ver!

Mário Magalhães e a direção que Dilma Rousseff vai tomar: direita ou esquerda?

Dilma venceu com discurso à esquerda; virada à direita seria estelionato

Por Mário Magalhães

 

Três milhões, quatrocentos e cinquenta e oito mil, oitocentos e noventa e um.

Repetindo: 3.458.891.

Essa foi a diferença entre os sufrágios conferidos no domingo à candidata Dilma Rousseff, reeleita para a Presidência da República, e ao seu contendor, Aécio Neves.

Não se trata de mero registro protocolar e atrasado, mas de contraste necessário ao noticiário do dia. O tom empregado por numerosos observadores sugere que a concorrente petista foi derrotada pelo senador tucano.

Não apenas não foi, como sua conquista possui abissal envergadura histórica.

É incrível que Dilma tenha vencido, tamanha a adversidade do cenário que enfrentou: economia capengando, roubalheira na Petrobras, bombardeamento midiático de última hora.

Ela só ganhou devido ao progresso que os anos Lula-Dilma significaram para dezenas de milhões de brasileiros, que agora têm muito pouco, mas antes nada tinham.

Seu triunfo oconteceu numa das eleições mais politizadas da história do Brasil. Desde 1989 não havia tanta clareza entre os eleitores sobre o caráter político dos postulantes ao Planalto, independentemente da autenticidade ou hipocrisia da pregação de cada um.

Na noite do sábado, jantei na churrascaria-botequim que constitui o epicentro do Baixo Gávea, tradicional reduto boêmio da zona sul do Rio, região carioca mais abonada, onde Dilma só bateria Aécio na zona eleitoral das favelas da Rocinha e do Vidigal.

As mesas do estabelecimento estavam tomadas por comensais que identificavam suas inclinações com adesivos de Aécio. Não todas as mesas, mas quase.

Já os garçons, eu vim a saber, estavam com Dilma.

Quem era servido e quem servia, todo mundo com voto consciente, puxando a brasa para o seu lado.

Dilma só deslanchou na campanha, ainda no primeiro turno, ao pincelar sua campanha com tons vermelhos. Primeiro, confrontando Marina Silva. Mais tarde, Aécio.

Sem a inflexão da campanha a bombordo, a timoneira teria naufragado.

Mal anunciado o resultado do pleito épico, pipocaram indicações para o futuro Ministério.

O presidente do Bradesco seria nome cotado para suceder Guido Mantega.

Um banqueiro, ou executivo de confiança dos banqueiros, na Fazenda? Depois da demonização de Marina por ter uma herdeira do Itaú entre os conselheiros mais influentes?

Outro ministeriável, palavra esteticamente medonha como presidenciável, é Sérgio Cabral.

O ex-governador foi o vilão supremo das Jornadas de Junho de 2013, que mobilizaram mais gente no Rio do que em qualquer outro Estado. A única palavra de ordem que unificava os manifestantes era “Ei, Cabral, vai tomar…”. Que não venham dizer que o vascaíno fez o sucessor, com a vitória do botafoguense Luiz Fernando Pezão, por isso sua impopularidade ficou no passado. O sapato 48 só sobrepujou Marcello Crivella porque escondeu o antecessor.

Sérgio Cabral ministro equivaleria a cuspir na cara da geração de junho de 2013.

Governo novo, ideias novas, o inspirado slogan de Dilma, não resulta em Cabral ministro, certo? Pelo menos não foi o que deram a entender.

Há quem considere que o recado das urnas, mais precisamente a menor diferença numa eleição presidencial no país, seria a prioridade de diálogo com o mercado, sobretudo o financeiro.

Pois me parece que a mensagem é outra: os movimentos sociais, maltratados por Dilma, é que deveriam receber preferencialmente novo tratamento (sem prejuízo do diálogo com o empresariado). Sem eles, a antiga brizolista agora estaria preparando a mudança para Porto Alegre.

Ontem, no “Jornal Nacional”,  assisti a Dilma falar muito em conversa com os empresários, mas calar sobre os movimentos sociais.

Não sei o que a presidente planeja, mas entendi o pronunciamento dos brasileiros. O PT só levou a eleição ao se comprometer com um governo voltado para quem mais precisa.

Aproximar-se de segmentos que rejeitaram Dilma não implica tripudiar sobre aqueles que a sufragaram.

Se a marquetagem mais à esquerda da campanha se transformar num segundo mandato mais à direita, haverá estelionato eleitoral.

Como nos ensinaram os sábios portugueses, o prometido é devido.

FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2014/10/28/dilma-venceu-com-discurso-a-esquerda-virada-a-direita-seria-estelionato/