Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana

Por Deisy Ventura, professora títular da Faculdade de Saúde Pública da USP,  para o “Jornal da USP”

Impulsionada em escala global por grandes corporações estrangeiras, a vertiginosa generalização do emprego de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no cotidiano acadêmico traz importantes desafios éticos, em particular para a ética em pesquisa. Antes de abordar alguns deles, lembro que atualmente “80% das universidades brasileiras dependem de Google ou Microsoft”, como indica o Caderno Vozes da Ciência, recentemente publicado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Resultante de um ciclo de debates do qual tive a honra de participar, este valioso documento formula 117 propostas para “o Brasil que queremos”, entre elas as que buscam assegurar a soberania digital e tecnológica brasileira.

O primeiro desafio que enfrentamos é resgatar a história da ciência. A atribuição às máquinas de tarefas outrora exclusivamente humanas inscreve-se em um longo debate sobre as relações entre ética, técnica e produção científica. Numerosos autores demonstraram como as tecnologias, impulsionadas por imperativos econômicos, avançaram de forma alheia, senão antagônica, à reflexão e ao pensamento crítico, deixando a ética isolada em algum rincão das ciências ditas sociais e humanas. Podemos escolher os anos 1970 para resgatar Hans Jonas, filósofo alemão que em diversas obras apontou a responsabilidade dos cientistas pelos efeitos devastadores do “progresso”, e o quanto a “novidade” (“o epíteto laudatório novo”) pode funcionar como salvo-conduto para agir sem precaução nem dever de prestar contas. Porém, muito antes de Jonas e outros tantos pensadores ocidentais, os povos originários já nos alertavam para a possível confusão entre avanço tecnológico e progresso humano; a repartição brutalmente assimétrica dos benefícios e danos oriundos da técnica; e o modo pelo qual, nas palavras de Ailton Krenak, estamos vendendo o amanhã – aliás, a um preço módico.

O segundo desafio é reconhecer que a IA não avança em ambiente “neutro”. A extração de grandes volumes de dados sem prévio consentimento esclarecido e sem contrapartida à altura; a presença de vieses em ferramentas aparentemente anódinas; e a subtração a modalidades de controle legal e social, do ponto de vista das big techs, constituem funcionalidades dessas tecnologias, e não disfunções. Todos sabemos que tais atributos servem não apenas aos vultosos lucros que envolvem a chamada “economia de dados”, mas também aos ecossistemas de desinformação dotados de financiamento bilionário e objetivos político-ideológicos ostensivos, que vêm desempenhando papel importante na crescente ascensão global das extremas direitas. Exceto pela escala e pela velocidade, tampouco estamos diante de uma novidade. O mesmo homem pode aceitar boquiaberto os mais fantasiosos relatos e rejeitar com desprezo as verdades mais solidamente estabelecidas, escreveu Marc Bloch em suas Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra (1921). Soldado durante a Primeira Guerra e fuzilado pela Gestapo durante a Segunda, Bloch foi recentemente homenageado com a entrada simbólica no Panteão francês. Fascinado pela credulidade humana, concluiu que o sucesso de uma notícia falsa nasce de representações coletivas pré-existentes, como medos, ódios e preconceitos. Assim, o processo pelo qual mentiras deslavadas tornam-se grandes lendas não se explica pela ignorância, e sim pela existência de um ambiente favorável a elas. Lamento constatar que hoje, em matéria de plágio, fabricação ou falsificação de dados, considerados as más práticas científicas mais graves, enfrentamos um verdadeiro boom de empreendedorismo.

Isto nos leva a um terceiro desafio: discernir o modus operandi das big techs e de seus aliados, que compreende tanto a coerção como a propaganda. Começando pela imposição, muitos motores de busca, softwares e aplicativos que utilizamos cotidianamente não oferecem a opção de recusa à IA. Sendo condição de acesso aos conteúdos que de fato buscamos, ignorá-la exige um gesto contraintuitivo. Mesmo quando a desativação é possível, nem sempre temos o letramento necessário para fazê-la. Por outro lado, ao lidar com outros serviços públicos ou privados que impõem diferentes modalidades de IA, não raro sofremos um atendimento ansiogênico, redutor das demandas do cidadão ou consumidor a alternativas enviesadas, por vezes tornando impossível uma efetiva interação. Ademais, a persistente exclusão digital de diversos grupos é demonstrada em inúmeras pesquisas.

Sobre a propaganda, limito-me a abordar quatro de suas muitas dimensões. A primeira é o determinismo que apregoa a inexorabilidade da disseminação da IAGen: estaríamos diante de uma ruptura antropológica maior, de caráter irreversível. Todavia, colegas como Anne Alombert, filósofa e professora da Universidade de Paris 8, questionam a natureza desta ruptura, eis que a IA dá continuidade à externalização de funções humanas. Enquanto por meio dos algoritmos de recomendação externalizamos nossa capacidade de decidir o que ver, o que consumir, quem seguir etc., por meio da IAGen transferimos a sistemas probabilísticos a nossa capacidade de expressão. Modelos se expressam em nosso lugar por meio de categorias que não provêm de nossas trajetórias, sempre únicas, mas sim de cálculos sobre volumes de dados, orientados por critérios opacos e de rastreabilidade limitada ou inexistente. No artigo Curar a estupidez artificial, Alombert aponta os efeitos nefastos da generalização do uso subalterno da IAGen, entre eles a dependência cognitiva dos indivíduos: quanto menos exercemos a capacidade de triar e organizar as informações, a memória, a criatividade ou a busca de sentido, menos estamos treinados para pensar de forma autônoma. Além disso, o espaço simbólico é uniformizado pela “média”, paulatinamente eliminando singularidades, inclusive idiomáticas. Ao “fotocopiar indefinidamente a fotocópia”, favorece a esterilização cultural.

Na mesma direção, a cientista política de origem tunisiana Asma Mhalla, professora da Politécnica de Paris, autora do livro Cyberpunk: o novo sistema totalitário, se diz impressionada não com a suposta ruptura, e sim com o rolo compressor imposto pelas infraestruturas digitais, concentradas em um punhado de atores poderosos. A propalada irreversibilidade está sendo imposta na prática, por meio de imponentes pressões econômicas e políticas. Logo, a questão não é a máquina, e sim quem a governa ou desgoverna. A tecnologia deveria ser usada como um instrumento do bem comum, e não como ferramenta de dominação e exploração. Especialmente no meio universitário, creio que o argumento da suposta inexorabilidade serve para nos desalojar de nossa condição de sujeitos responsáveis, elemento central da ética, e obnubilar nossa capacidade de agir. Ambas precisam ser recuperadas não para que recusemos a tecnologia, e sim para que decidamos conscientemente quando, como e com que finalidade a utilizaremos, sempre avaliando com transparência e rigor os efeitos de seu uso.

Uma segunda dimensão da propaganda é a desqualificação sistemática de quem questiona o uso da IA, apontado como anacrônico, vetusto, reacionário ou tecnofóbico, responsáveis pelo “atraso” de nosso mergulho no admirável mundo novo da IA. A desqualificação contrasta, porém, com a seriedade e a competência de colegas como os do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que demonstram a queda de desempenho nos níveis neural, linguístico e comportamental de pessoas que utilizam o ChatGPT em certas condições. Também é o caso dos profissionais que vêm comprovando nosso grau de dependência das infraestruturas tecnológicas externas, como pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) que criaram um índice de soberania digital. Enquanto China, França, Rússia e Estados Unidos ocupam os primeiros lugares do ranking, grande parte de África, América Latina e Sudeste Asiático depende de um restrito clube de corporações estrangeiras, reproduzindo, sob o manto do “novo”, a velha clivagem Norte/Sul, levando a literatura acadêmica a falar de colonialismo de dados ou digital.

Uma terceira dimensão que atinge particularmente nossas agendas e métodos de pesquisa é a intensa propaganda sobre os benefícios da IAGen, que contribuiria para aumentar e acelerar a produtividade, em especial para lidar com grandes volumes de dados. Essas ferramentas se tornariam imprescindíveis para uma produção científica atualizada e de qualidade, e deveriam ser utilizadas também na avaliação da produção acadêmica. Aqui reconhecemos a disputa permanente pela definição do que é ciência e o legado colonial de importação de padrões de excelência.

Entre os incontáveis riscos da “excelência artificial”, sublinho que, no atual contexto de superficialidade e desatenção coletivas, decorrentes justamente do estágio de automação que alcançamos, é evidente a tolerância a sínteses incorretas ou enviesadas, a mediocridade e o reducionismo de textos, os erros crassos ou sutis de tradução, os mal-entendidos e as imprecisões técnicas. Quando apontados, rapidamente se opera a transferência de responsabilidades do sistema ao indivíduo: perguntas ou prompts é que teriam sido mal formulados; seria preciso “ensinar” ou “treinar” corretamente a IA; a falha seria da revisão etc. Diga-se de passagem, essas ferramentas, na verdade, não aprendem nem conversam, tampouco são inteligentes, razão pela qual Alombert prefere chamá-las de autômatos computacionais interativos, recusando metáforas antropomórficas que servem a naturalizá-las.

Neste ponto, urge recordar que o papel da universidade brasileira não é formar revisores de textos gerados por algoritmos, tampouco reproduzir de forma acrítica interesses de corporações estrangeiras ao facultar-lhes o acesso a lucrativos ou estratégicos acervos de dados arduamente construídos, inclusive com recursos públicos.

A quarta dimensão da propaganda alardeia que a regulação do uso da IAGen seria suficiente para evitar riscos e derivas. Ela enseja também um grande desafio, entre os tantos que o espaço de um artigo não permite abordar. Note-se que diversos defensores da suficiência regulatória são contratados por empresas de tecnologia ou conduzem pesquisas financiadas por elas, mas nem sempre declaram conflitos de interesse. Também é importante registrar que, apesar desta propaganda, na prática, as big techs investem agressivamente contra qualquer regulação, e igualmente contra juízes, tribunais e governos capazes de aplicá-la. Em qualquer caso, trata-se de uma ética a posteriori, ou seja, de princípios propostos após a comercialização massiva de ferramentas, muitos deles sendo violados de forma corriqueira até mesmo por quem os propõe.

Neste cenário, será decisivo o papel das Comissões de Ética em Pesquisa (CEPs), que precisam ter voz ativa nos processos regulatórios, não apenas pela função que desempenham, mas sobretudo pelas décadas de experiência que acumulam. No mês passado, tive a oportunidade de participar de um evento que abordou tais desafios regulatórios, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, que reuniu as CEPs da USP, na atenta presença da Pró-Reitora, professora Maria Helena Palucci Marziale, com curadoria da professora Ana Paula Magalhães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

No referido evento, compartilhei uma mesa com a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho, da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica (Instituto de Estudos Avançados da USP), cujos estudos sobre o uso da IAGen nas escolas eu já admirava. Ela destacou os limites de iniciativas como a Portaria CNPq n. 2.664, de 6 de março de 2026, que apesar de representarem um avanço, não dão conta de problemas éticos importantes como o risco de dependência na formulação de problemas de pesquisa; o condicionamento epistêmico pelas limitações da ferramenta em uso; a análise de dados feita por meio de sistemas opacos, não rastreáveis e de reprodutibilidade incontrolada, podendo comprometer a validade dos achados, entre muitos outros. O depoimento de pesquisadores que usam a IAGen com a devida precaução é também importante, e por certo trará à luz novas dificuldades.

Desculpando-me de antemão pela analogia, o encorajamento acrítico do uso da IAGen no meio universitário faz lembrar a propaganda das Bets, ao pedir que pesquisadores “joguem com responsabilidade” na ausência de regras e controle adequados. As derrotas em cascata que se anunciam vão da dependência cognitiva individual à dependência tecnológica nacional. Mas há também o pêndulo percebido por Marc Bloch, a oscilar entre a credulidade inocente e a desconfiança generalizada. Mesmo letrados, podemos hesitar em nossa percepção do que é real ou artificial. Cresce o risco de perda da confiança na ciência, que induz a cidadania a renunciar ao usufruto de seus resultados. Por tudo isto, nossos desafios devem ser enfrentados com urgência, não apenas por especialistas em IA, mas por todos os pesquisadores, pelo Estado e pela sociedade brasileira.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados noJornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Fonte: Jornal da USP

Marketing acadêmico: IV Encontro Brasileiro sobre Integridade na Pesquisa, Ciência e Ética nas Publicações

LOGO BRISPE

Atualmente, o Brasil vem enfrentando obstáculos políticos e econômicos que têm colocado desafios adicionais para os seus sistemas de educação, ciência e tecnologia. O financiamento da pesquisa e desenvolvimento está entre esses desafios. No entanto, apesar desse contexto, algumas prioridades que continuam a orientar os esforços científicos do Brasil e de sua política científica incluem a promoção de uma cultura de ética e integridade na pesquisa em universidades e centros de pesquisa do país. O Encontro Brasileiro sobre Integridade na Pesquisa, Ética na Ciência e em Publicações (BRISPE) tem estimulado as instituições brasileiras nesse sentido, desde 2010 (http://www.iibrispe.coppe.ufrj.br/index.php/i-brispe).

Com o aumento do engajamento de orientadores, editores e gestores no Brasil, o BRISPE (www.iibrispe.coppe.ufrj.br) vem fomentando essa cultura de ética e integridade na pesquisa no país e (http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/ 16/09 / Compromisso-Ação /) está agora em sua quarta edição. O IV BRISPE será realizado nos dias 17-18 de novembro de 2016, na Universidade Federal de Goiás (UFG) e tem como objetivo fortalecer o papel que o Brasil tem desempenhado nos cenários local e também mundial em discussões sobre a conduta responsável na pesquisa. Essas discussões têm sido cada vez mais associadas com questões sobre ciência & sociedade, confiança pública nos resultados de pesquisa, debates sobre a confiabilidade do registro da pesquisa e sobre mudanças graduais nos sistemas de comunicação e de recompensa da ciência.

A organização do IV BRISPE, portanto, convida pesquisadores, estudantes universitários, especialmente alunos da pós-graduação, editores, financiadores, gestores, educadores e, de forma mais ampla, todos os interessados na atividade científica, a participar do evento. O tema desta quarta edição, a ser realizado na Universidade Federal de Goiás (UFG), é “Integridade Científica: O Papel dos Orientadores, Editores e Financiadores”.

Saiba mais e inscreva-se: brispe2016.org

FONTE: http://brispe2016.org/

Ética na pesquisa e seus 7 pecados capitais

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Em agosto de 2015, a jornalista Giuliana Miranda escreveu um artigo para a Folha de São Paulo onde foi abordado o fato de que os problemas éticos afetando o comportamento de pesquisadores não estão restritos ao Brasil (Aqui!).  Até ai não há grande novidade, pois os problemas gerados pelo paradigma do “publicar ou perecer” já produziram situações vexaminosas para pesquisadores vinculados a algumas das tradicionais instituições acadêmicas do planeta.

Mas  a matéria de Giuliana Miranda foi bastante enriquecida pela adição de um infográfico que mostrou quais seriam, digamos, os 7 pecados capitais que hoje assombram a comunidade científica e cujos efeitos não se resumem apenas ao mundo das revistas de acesso aberto, sejam elas produtoras conscientes de “trash science” ou não.

Abaixo coloco os “7 pecados” da ciência e as principais características de cada um deles:

Plágiopecado 1

Clube da coautoria pecado 3

Roubo de ideiapecado 4

Criatividade pecado 5

Máfia da citação pecado 6

Autoplágio pecado 7

Produção Salamepecado 2

O mais pernicioso da manifestação destes “pecados” é que raramente os mesmos vem acompanhados, já que o pesquisador que se habilita a realizar um deles vai acabar tentado a realizar os demais, já que atualmente a definição de mérito, e consequentemente premiação, está diretamente atrelada ao número de artigos publicados e não á efetiva contribuição ao avanço do conhecimento científico um determinado indivíduo está prestando com suas pesquisas.

Mário Magalhães e sua habilidade de resistir aos “brinquedos” de Eike Batista

O jornalista Mário Magalhães, autor do best seller “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo” é um amigo de longa data. Sempre que posso encontrá-lo, trocamos longos papos sobre a vida, nossas trajetórias profissionais,  e outros “causos” que eventualmente tenham ocorrido desde o nosso último encontro.  A narrativa que ele compartilha em seu blog, e que posto abaixo, eu já havia ouvido pessoalmente pouco depois dos fatos acontecerem. 

E, olhando em retrospectiva o gesto do Mário de recusar um mimo oferecido por Eike Batista num momento em que se encontrava exercendo sua profissão, vejo como a força de caráter e a ética apurada sempre são companheiras daqueles que decidem ver e entender o mundo de forma autônoma e crítica. Por essa compreensão é que eu vejo que eu sou muito sortudo nos amigos que amealhei ao longo da vida. É que eles podem não formar uma multidão, mas sempre me deixam muito orgulhoso de poder chamá-los de amigos.

Dá para resistir aos ‘brinquedos’ de Eike Batista? Eu resisti…

Por Mário Magalhães

É, quem sabe, pode ser, corro o risco de ceder ao cabotinismo, mas as fotografias do juiz federal Flávio Roberto de Souza ao volante do Porsche Cayenne do empresário Eike Batista me trouxeram novamente à lembrança um episódio que contei de passagem aqui no blog, no post Retrato de Eike no auge: o dia, ou melhor, a noite, em que eu resisti a um brinquedo do ex-marido da Luma tão sedutor quanto os seus carrões.

(Claro que o digno magistrado só estava zelando pelo bem público, ao contrário do que pensam cabeças maliciosas e espalham línguas maledicentes…)

Pela altura de setembro, outubro de 2009, eu jantava com Eike e dois colaboradores dele no restaurante Mr. Lam, de propriedade do então postulante a terráqueo mais rico e ainda hoje a melhor cozinha asiática do Rio.

O dono apontou para o mezanino da casa à beira da lagoa Rodrigo de Freitas, onde ficava um adega metálica assim descrita no site do Mr. Lam:

“A adega Veuve Clicquot Vertical Limit da Porsche Design Studio é a única em restaurantes no mundo. Um objeto de arte nascido da tradição francesa em vinhos e a audácia inovadora de uma das líderes em design. Feita em aço escovado, mede 2,10m de altura por 60 cm de largura e possui doze prateleiras iluminadas individualmente. As portas e os ângulos são soldados à mão e é totalmente à prova de som e vibração. A temperatura é mantida constantemente a 12º, exatamente igual às adegas da Veuve Clicquot, em Reims, França”.

Isto é, outra obra-prima da Porsche, como confirma a imagem lá do alto.

Em 2007, foram produzidas, informou o fabricante, 15 unidades.

Com uma dúzia de garrafas magnum, as grandonas, em cada adega.

Só com champagne vintage, de safras supimpas, desde a década de 1950.

Adoro espumantes, tenho-os como bebida para cima, ao contrário de outras, derrubadoras e depressivas.

Não sou nenhum connaisseur de champagne-champagne, aqueles produzidos em determinado solo francês.

Mas já provei o suficiente para apreciar as viuvinhas brut, ou Veuve Clicquot, mais secas que, por exemplo, o champagne Cristal frutado que novos-ricos bebiam no Brasil do alvorecer da década de 1990, para imitar o presidente Collor.

E não é que o Eike Batista propôs que compartilhássemos uma garrafa?

Tudo porque, depois de ele falar sobre a adega, indaguei que conquista o faria abrir uma magnum.

No lançamento, em 2007, cobravam nos Estados Unidos 70 mil dólares por unidade da superadega Porsche com o líquido precioso incluído.

Não dava para aceitar o convite gentil do Mr. X.

Porque eu estava escrevendo um perfil dele para a “Folha”.

Evidentemente, baita desgraça, configuraria conflito de interesses.

Se tacasse o pau, poderiam dizer que era para mostrar independência, apesar do jabá.

Caso a reportagem soasse simpática, talvez insinuassem que eu me vendera por uns goles da safra 1955.

Questão de ética jornalística, em suma.

No final, fiquei sem passear de Porsche, ou seja, sem beber o champagne guardado noutra máquina Porsche.

Dá para resistir?

Dá, mantendo afiado o simancol, também conhecido como escrúpulos.

Por causa do passeio do juiz com o carrão, voltei a me perguntar: como deve ser uma viuvinha tão antiga?

Será que o velho espumante ainda borbulha?

Ironia: naquela noite de anos atrás, Eike Batista contou que não gosta muito de bebida alcoólica.

FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2015/02/26/da-para-resistir-aos-brinquedos-de-eike-batista-eu-resisti/