Ao tratar o aquecimento global como resultado de supostos ciclos naturais, candidato ignora uma das conclusões mais sólidas da ciência contemporânea
A resposta dada por Flávio Bolsonaro na sua entrevista ao Jornal Nacional sobre o aquecimento global merece atenção não apenas porque revela o que o candidato pensa sobre a crise climática, mas principalmente porque mostra como uma velha estratégia do negacionismo climático continua sendo utilizada no debate político brasileiro. Questionado diretamente sobre o tema, Flávio afirmou que existem eventos climáticos extremos e que há épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, acrescentando que não acredita que o aquecimento global tenha relação direta apenas com a influência humana. O problema é que, apresentada dessa maneira, a afirmação mistura uma verdade elementar com uma conclusão cientificamente equivocada.
É evidente que o clima da Terra possui variabilidade natural e que ao longo da história do planeta ocorreram períodos mais quentes e mais frios. A ciência climática nunca negou isso. Existem oscilações relacionadas à atividade solar, erupções vulcânicas, circulação oceânica e atmosférica e, em escalas muito mais longas, alterações orbitais. O que Flávio Bolsonaro deixa de explicar é justamente o ponto decisivo: esses mecanismos naturais não explicam o rápido aquecimento observado desde a Revolução Industrial, especialmente aquele ocorrido nas últimas décadas.
Sobre isso, o IPCC utiliza uma linguagem incomumente categórica para documentos científicos: é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os continentes. A melhor estimativa do aquecimento provocado pelas atividades humanas entre 1850–1900 e 2010–2019 é de aproximadamente 1,07 °C, enquanto a contribuição estimada dos fatores naturais, como variações solares e vulcanismo, ficou próxima de ±0,1 °C. Em outras palavras, reconhecer que existem ciclos naturais não constitui argumento contra a origem antropogênica do aquecimento atual. Os cientistas conhecem esses ciclos, medem seus efeitos e justamente por isso conseguem demonstrar que eles são insuficientes para explicar o que está acontecendo.
Há ainda outro problema na resposta do candidato. Flávio Bolsonaro reconhece a existência de eventos extremos — calor, chuva e seca —, mas procura separá-los do processo de aquecimento global. Essa separação também não encontra respaldo na literatura científica. O IPCC conclui que a mudança climática provocada pelas atividades humanas já está afetando eventos meteorológicos e climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas na maior parte das áreas continentais desde a década de 1950, enquanto há evidências crescentes da influência humana sobre chuvas extremas e determinados tipos de seca. Isso não significa, evidentemente, que cada enchente, seca ou onda de calor tenha como causa exclusiva o aquecimento global, mas significa que estamos alterando as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos acontecem, modificando sua probabilidade e, em muitos casos, sua intensidade.
Esse detalhe é particularmente importante quando quem oferece esse tipo de resposta pretende ocupar a Presidência da República de um país como o Brasil. Estamos falando de uma nação altamente vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, ao mesmo tempo em que possui cidades pouco preparadas para enfrentar esses fenômenos. Um presidente que parte de um diagnóstico errado sobre as causas da crise climática dificilmente terá condições de formular políticas adequadas de mitigação e adaptação.
Por isso, a resposta de Flávio Bolsonaro não deveria ser tratada simplesmente como uma opinião pessoal sobre um assunto em que cientistas ainda estariam divididos. Essa divisão praticamente não existe sobre a questão fundamental. Podemos e devemos discutir quais políticas adotar, quem deve pagar pela transição energética, como proteger populações vulneráveis, qual deve ser o papel dos combustíveis fósseis e como compatibilizar desenvolvimento econômico e redução das emissões. Mas continuar discutindo em 2026 se a humanidade é ou não responsável pelo atual aquecimento global equivale a deslocar o debate político para uma questão que a ciência já respondeu.
E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante da declaração. Diante de uma crise que exigirá do próximo governo brasileiro investimentos pesados em adaptação climática, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, proteção das florestas e transformação da matriz energética, um candidato à Presidência da República oferece como diagnóstico a velha explicação de que o clima sempre mudou. Sim, sempre mudou. A diferença é que agora sabemos muito bem por que ele está mudando tão rapidamente — e também sabemos quem está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera.
Para quem quiser entender melhor sobre o assunto que o candidato Flávio Bolsonaro preferiu negar de forma tosca, sugiro assistir a live que foi realizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física com os pesquisadores Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Roberto Verdum e que está disponível no canal do Youtube do GENAT/UFPB (Aqui!)
