No dia de ontem, o Blog do Pedlowski publicou uma lista compilada pela professora Sonia Corina Hess com centenas de agrotóxicos proibidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil. Eis que hoje, o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 50, de 17 de outubro de 2025 que traz a liberação de mais 33 agrotóxicos para comercialização no território brasileiro.
Para confirmar o que a professora Sonia Hess já havia observado em sua lista, esse novo ato adiciona diversas novas formulações contendo ingridientes ativos proibidos na União Europeia. Com isso, os que têm acompanhado desde 2019 as publicações do Obsevatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski poderão verificar quais agrotóxicos liberados hoje estão proibidos na União Europeia e quais são as principais consequências deletérias que eles trazem para diversos organismos vivos, incluindo seres humanos.
Posso adiantar que neste ato foram liberados agrotóxicos cujos ingridientes ativos que a literatura científica já apontou serem, entre outras coisas, neurotóxicos, desreguladores endócrinos, tóxicos para abelhas, causadores de danos ao sistema imunológico de recém nascidos, causadores de danos nos rins, genotóxicos, além de estarem associados danos metabólicos e serem indutores de diabetes.
A questão é que essa não é a primeira vez que o Blog do Pedlowski traz informações sobre a liberação de agrotóxicos proibidos na Europa, já que recentementeuma reportagem assinada pela jornalista Cida de Oliveirahavia mostrado a mesma situação em relação ao Ato Nº 46, de 29 de setembro de 2025. Estamos assim diante de uma prática regular de liberar no Brasil, os agrotóxicos que agricultores europeus não podem mais usar por causa da sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.
Esta situação é grave demais para ser ignorada, pois não podemos aceitar que o Brasil seja transformada na lixeira química das multinacionais europeias que continuam colocando os seus lucros acima da segurança dos trabalhadores rurais e de quem consome os alimentos contendo resíduos de seus agrotóxicos ultraperigosos.
Número de espécies de abelhas selvagens em risco de extinção na Europa duplica em 10 anos
Número de espécies de borboletas ameaçadas de extinção também está aumentando em meio à destruição de habitat e ao aquecimento global, segundo estudo
Abelhas europeias voam perto de uma colmeia selvagem em um carvalho em Monmouthshire, País de Gales. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy
Por Patrick Barkham para o “The Guardian”
O número de espécies de abelhas selvagens na Europa em risco de extinção mais que dobrou na última década, enquanto o número de espécies de borboletas ameaçadas de extinção quase dobrou.
O número de borboletas ameaçadas de extinção na Europa aumentou de 37 para 65 desde o último estudo, realizado há 14 anos. Uma espécie, aborboleta branca-grande-da-madeira ( Pieris wollastoni ), foi declarada extinta.
“ Além de sua beleza e significado cultural, polinizadores como abelhas e borboletas são vitais para nossa saúde, nossos sistemas alimentares e nossas economias – sustentando as frutas, vegetais e sementes que nos nutrem”, disse Grethel Aguilar, diretora-geral da UICN. “As últimas avaliações da Lista Vermelha Europeia revelam sérios desafios, com ameaças crescentes para borboletas e espécies cruciais de abelhas selvagens.”
As causas dos rápidos declínios recentes são a destruição ou os danos contínuos aos habitats causados pela intensificação da agricultura e pelo abandono de terras, pela drenagem de áreas úmidas, pelo pastoreio excessivo pelo gado e pelo uso de fertilizantes e agrotóxicos, incluindo neonicotinoides. A fragmentação de habitats favoráveis aos polinizadores aumenta consideravelmente o risco de extinções locais.
O aquecimento global também se revelou uma grande ameaça: 52% de todas as borboletas ameaçadas de extinção na Europa estão ameaçadas pela crise climática — aproximadamente o dobro de uma década atrás.
Até 90% das plantas com flores na Europa dependem da polinização animal, de acordo com o Dr. Denis Michez, coordenador principal da avaliação de abelhas selvagens. “Infelizmente, as populações de abelhas selvagens estão em declínio drástico e não podem ser facilmente substituídas por colônias manejadas”, disse ele. “Se as abelhas selvagens desaparecerem, muitas plantas selvagens também poderão estar em risco – das quais prados ricos em flores e belas espécies de orquídeas são apenas alguns exemplos.”
Quinze espécies de mamangabas, que desempenham um papel crucial na polinização de ervilhas, feijões, amendoins e trevos, e 14 espécies de abelhas-celofane, conhecidas por polinizar árvores como salgueiros e bordos vermelhos, estão agora classificadas como ameaçadas. Simpanurgus phyllopodus , uma abelha mineira exclusiva do continente e a única espécie deste gênero na Europa, está agora classificada como criticamente em perigo – a categoria científica mais próxima da extinção na natureza.
Borboletas encontradas apenas no topo das montanhas são particularmente vulneráveis ao aquecimento global, pois precisam se deslocar para áreas mais altas à medida que seus habitats se tornam mais quentes, mas acabam ficando sem espaço. No sul da Espanha, o tímalo-de-nevadae a borboleta azul-anômala-da-andaluzaestão entre os mais de 40% dos endemismos europeus (encontrados apenas na Europa) ameaçados de extinção.
Enquanto isso, no Círculo Polar Ártico, o aquecimento global está fazendo com que a linha das árvores se mova dezenas de metros para o norte a cada ano, com a vegetação rasteira invadindo pântanos e tundras. As condições mais quentes também impedem que as renas atravessem o gelo para pastar nas pastagens árticas e mantê-las abertas. Oito espécies de borboletas estão ameaçadas de extinção nesta região, incluindo a borboleta-de-freyja e a borboleta-anelada-do-ártico.
“ O maior habitat para todos esses polinizadores são as pastagens ricas em flores, que estão desaparecendo muito rapidamente em toda a Europa devido a todos esses fatores”, disse Martin Warren, um dos principais coordenadores da avaliação das borboletas. “O lado positivo é que muitas pessoas se importam agora e há muito mais conscientização. De acordo com alegislação de restauração da natureza da UE, todos os estados-membros precisam reverter o declínio dos polinizadores até 2030 e terão que começar a fazer algo. Há proprietários de terras interessados. Esperemos que eles consigam os incentivos que os ajudarão em seu caminho.”
De acordo com Warren, há “frutos fáceis” em termos de ação para os polinizadores que não reduzirão a produção de alimentos — e podem aumentá-la — como agricultores criando margens ricas em flores ao redor de seus campos.
Jessika Roswall, comissária da UE para o meio ambiente, resiliência hídrica e economia circular competitiva, descreveu o estado de conservação das abelhas selvagens, borboletas e outros polinizadores como “terrível”.
“ É necessária uma ação urgente e coletiva para enfrentar esta ameaça. Juntamente com os Estados-membros, a Comissão Europeia implementou um sistema de monitorização de polinizadores em toda a UE, com base no regulamento da UE para a restauração da natureza, que ajudará a acompanhar o nosso progresso. Agora, precisamos de nos concentrar na implementação e na cooperação com os Estados-membros para proteger os nossos polinizadores”, afirmou.
A publicação das avaliações sobre abelhas e borboletas ocorre após a primeira avaliação europeia sobre moscas-das-flores, outro grupo polinizador crucial. Publicada em 2022, a avaliação revelou que 37% de todas as espécies de moscas-das-flores na Europa estavam ameaçadas de extinção.
Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira estão associados a efeitos tóxicos, incluindo câncer e distúrbios hormonais
O número de agrotóxicos em cada casa variou de 25 a 121. Fotografia: Roland Barat/Alamy
Por Helena Horton para o “The Guardian”
Quase 200 agrotóxicos foram encontrados por um estudo que examina a poeira em casas por toda a Europa , enquanto os cientistas dizem que os reguladores precisam levar em conta os “coquetéis tóxicos” de produtos químicos ao proibir ou restringir o uso destes insumos agrícolas.
Cientistas afirmam que suas pesquisas corroboram a ideia de que os órgãos reguladores devem avaliar os riscos representados pelos agrotóxicos quando reagem com outros produtos químicos, bem como individualmente. Eles afirmam que isso deve se aplicar tanto às substâncias já em uso quanto às que ainda não foram aprovadas.
Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira foram associados a efeitos altamente tóxicos, incluindo câncer e distúrbios do sistema hormonal em humanos.
O número de agrotóxicos em cada casa variou entre 25 e 121, e os níveis desses produtos tendiam a ser maiores nas casas dos agricultores.
O professor Paul Scheepers, do Instituto Radboud de Ciências Biológicas e Ambientais, disse: “Temos muitos estudos epidemiológicos mostrando que doenças estão associadas a misturas de agrotóxicos”.
Ele disse que os agrotóxicos presentes na poeira chegaram às casas das pessoas por meio dos sapatos, além de cães e gatos. “Se não tirarmos os sapatos na porta de casa, absorvemos muita sujeira de fora. Animais de estimação também são uma fonte”, disse Scheepers.
Há muitos estudos que indicam que os animais coletam certas contaminações, incluindo agrotóxicos, de ambientes externos. Outro grupo são os produtos de consumo que trazemos para casa, quaisquer agrotóxicos que compramos em lojas por determinados motivos, e uma fonte importante são os tratamentos contra pulgas e carrapatos para animais de estimação.
Embora as concentrações de cada agrotóxico na poeira fossem pequenas, as misturas de dezenas de produtos químicos poderiam ter um impacto na saúde, além de aumentar a exposição aos que também eram frequentemente encontrados em concentrações mais altas em frutas, vegetais e flores.
O estudo descobriu que o DDT permaneceu no meio ambiente apesar do produto ter sido proibido em alguns países em 1972.
Scheepers disse que aqueles que autorizam o uso de produtos devem levar em conta a persistência ambiental e que, mesmo que produtos como Pfas fossem proibidos agora, eles provavelmente permaneceriam no meio ambiente.
Os PFAs são conhecidos como “produtos químicos eternos” porque não se decompõem no meio ambiente. OS PFAs são usados em uma ampla gama de produtos de consumo e processos industriais, e alguns têm sido associados a doenças graves em humanos e animais, incluindo câncer.
Scheepers disse: “Produtos como o DDT, que foram proibidos por muito tempo, são tão persistentes que se acumulam no meio ambiente, então estão constantemente circulando. Agora temos também o problema com o Pfas, que é exatamente uma repetição disso.
“Talvez os reguladores possam considerar a persistência dos produtos químicos – digamos que estabilidade química significa persistência no ambiente e também acumulação na cadeia alimentar; é provável que no futuro descubramos problemas semelhantes com outros produtos químicos persistentes.”
Os pesquisadores disseram que seu estudo revelou quais misturas de agrotóxicos foram encontradas no ambiente, para que os reguladores pudessem testá-las, bem como as combinações produzidas para uso comercial que eles já testaram.
A descoberta do DDT também significa que avaliações de risco de produtos mais novos podem precisar considerar interações com os mais antigos, eles disseram.
Os microplásticos invadiram os rios europeus, de acordo com 14 estudos publicados simultaneamente na revista Environmental Science and Pollution Research, divulgados neste domingo (6)
Por RFI
“A poluição está em todos os rios europeus” estudados, diz Jean-François Ghiglione, diretor de pesquisa do CNRS, o centro nacional francês de pesquisa científica, que coordenou os estudos feitos em 2019 em nove grandes rios europeus. A operação envolveu 40 químicos, biólogos e físicos de 19 laboratórios, além de estudantes de doutorado e pós-doutorandos, com o apoio da Tara Ocean Foundation.
Os cientistas percorreram noves rios em diferentes países, como Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Espanha. Entre eles, o Elba, Ebro, Loire, Ródano, Reno, Sena, Tâmisa e o Tibre, onde obtiveram e analisaram amostras em toda a extensão, da foz até o desemboque nas cidades.
“Osmicroplásticos são menores que um grão de arroz”, explica Alexandra Ter Halle, cientista do CNRS em Toulouse, no sul da França, que realizou as análises. As partículas do material, lembra, têm menos de 5 milímetros e as menores são invisíveis a olho nu.
Elas podem ser fibras têxteis sintéticas de lavagem, ou que “voam” dos pneus dos carros ou das tampas de uma garrafa, por exemplo, quando elas são abertas. Segundo os cientistas, a poluição observada equivale, em média, a “três microplásticos por metro cúbico de água” nos rios estudados.
O volume é preocupante, apesar de ser bem inferior aos 40 microplásticos por m³ detectados nos 10 rios mais poluídos do mundo: Rio Amarelo, Yangtzé, Mekong, Ganges, Nilo, Níger, Hindus, Amur, Pearl e Hai He. Eles irrigam os países que produzem mais plástico ou que processam mais resíduos.
Mas, levando em consideração os volumes vendidos, “em Valence e no Ródano, temos um fluxo de 1.000 metros cúbicos por segundo, o que significa que temos 3.000 partículas de plástico a cada segundo”, diz Jean-François Ghiglione. No Sena, em Paris, são 900 por segundo.
Os cientistas detectaram uma “novidade” que os “surpreendeu”, graças a um avanço nos métodos de análise desenvolvidos durante o estudo: “a massa de pequenos microplásticos, aqueles que não podemos ver a olho nu, é maior do que a daqueles que vemos”, observa Ghiglione.
No entanto, “grandes microplásticos flutuam e são retirados da superfície, enquanto os invisíveis se distribuem por todo o volume d’água e são ingeridos por muitos animais e organismos”.
“Poluição difusa”
Um dos estudos identificou uma bactéria virulenta em um microplástico no rio francês Loire, capaz de desencadear infecções em humanos.
Os cientistas também obtiveram outro resultado inesperado: um quarto dos microplásticos descobertos nos rios não são de resíduos, mas de plásticos primários industriais. Esses grânulos, também conhecidos como “lágrimas de sereia”, também são encontrados às vezes em praias infestadas após um acidente marítimo.
Este resultado, obtido na França, foi estabelecido graças a uma operação científica participativa que envolve 350 classes de escolas francesas. Todos os anos, 15 mil alunos coletam amostras nas margens dos rios.
Segundo os cientistas, era inútil estabelecer um ranking dos rios europeus mais poluídos: os números são geralmente “equivalentes” e os dados são insuficientes. O mesmo vale para o impacto das cidades. “O que vemos é poluição difusa e instalada” que “chega de todos os lugares” nos rios, diz o cientista.
“A coalizão científica internacional da qual fazemos parte (como parte das negociações internacionais da ONU sobre a redução da poluição plástica) está pedindo uma grande redução na produção do material, porque sabemos que a produção de plástico está completamente ligada à poluição”, conclui.
Europeus que doam roupas velhas acham que elas serão doadas aos necessitados — mas elas podem facilmente acabar em um lixão ilegal em um país estrangeiro
Por Andrei Ciurcanu, OCCRP/RISE Romênia
No sudoeste da Romênia, vacas pastando contemplam um campo. Deveria ser uma cena campestre idílica — mas, em vez de um mar de grama, o que está diante delas é um monte feio de camisas, sapatos, roupas íntimas e outros restos têxteis.
As roupas foram “jogadas aqui ao longo do tempo”, explica Vasile, um homem de 50 anos cuja família mora ao lado da enorme pilha de lixo, uma das muitas que assolam a região conhecida como Vale do Jiu.
Nas noites frias de inverno, ele e outros moradores da periferia da cidade empobrecida de Petrosani recorrem às roupas descartadas como uma fonte gratuita de combustível. Eles estão tão acostumados a queimar roupas velhas que têm um sistema de classificação para as mais desejáveis, com jeans azul no topo (eles queimam lentamente e com calor) e sapatos na parte inferior (eles emitem vapores terríveis).
“Aquela fumaça preta das chaminés é de roupas e sapatos”, Vasile disse a um repórter que o visitou em casa em um dia frio. “Eles não têm alternativa. Eles não têm dinheiro para comprar madeira.”
Um olhar mais atento à pilha de roupas, que também inclui jornais velhos, resíduos médicos e outros tipos de lixo, revela etiquetas escritas em uma língua estrangeira: alemão. Isso porque esse depósito ilegal é o ponto final de um comércio transfronteiriço de roupas de segunda mão com um segredo sujo.
Uma pilha de lixo nos arredores da cidade de Petroșani, na Romênia.Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
A indústria de roupas usadas da Europa se apresenta como uma solução ecologicamente correta para a era da fast fashion, na qual roupas baratas são produzidas, compradas e descartadas em uma taxa cada vez mais rápida. Em países europeus mais ricos, as lixeiras de coleta de roupas usadas nas ruas costumam ser cobertas com slogans de benfeitores como “Junte-se a nós, pelo bem do meio ambiente!” A implicação é que as roupas colocadas nessas lixeiras serão doadas para uma causa nobre.
Mas a realidade nem sempre é tão bonita — ou tão verde. Frequentemente, as roupas de mais alta qualidade coletadas nas caixas de doação são revendidas localmente, mas itens de qualidade inferior, incluindo uma quantidade significativa de peças sujas, rasgadas ou inutilizáveis, são exportadas para a Europa Oriental ou países em desenvolvimento na África.
As nações receptoras frequentemente acabam com grandes quantidades de roupas inutilizáveis que são, em última análise, despejadas ou queimadas. Apelidada de “colonialismo do desperdício”, essa transferência de resíduos têxteis de países ricos para países pobres — frequentemente sob o disfarce de filantropia — foi bem documentada em países comoGana , Quêniae Chile , que importam grandes volumes de roupas usadas da Europa.
Mas menos se sabe sobre o fluxo de tecidos usados dentro da própria União Europeia. Uma investigação do OCCRP e seu parceiro romeno RISE oferece insights sobre como o comércio bem-intencionado frequentemente sai pela culatra, com legislação desigual e supervisão fraca criando canais para grandes quantidades de resíduos têxteis fluírem sem serem rastreados através das fronteiras e, no caso da Romênia, acabarem em campos e rios.
Roupas velhas são às vezes jogadas no rio Jiu, no sul da Romênia. O Vale Jiu é um centro para empresas que importam roupas de segunda mão para a Romênia.Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
Mas 14 queixas judiciais obtidas pelo OCCRP e RISE alegaram que alguns importadores romenos estavam ignorando essas distinções. Essas queixas, que foram apresentadas por autoridades ambientais e de proteção ao consumidor nos últimos quatro anos, acusam 11 empresas romenas de importar ilegalmente resíduos têxteis não classificados e descartar grande parte deles de forma inadequada. (Todos esses casos ainda estão sendo investigados por promotores, e nenhuma acusação foi apresentada contra nenhuma das empresas, embora multas civis tenham sido emitidas em alguns casos.)
“Grandes quantidades de resíduos acabam sendo descartadas ilegalmente em aterros sanitários ou são simplesmente jogadas nos leitos dos rios”, diz uma reclamação. No empobrecido Vale Jiu, um centro para importadores de produtos de segunda mão, o rio principal está “praticamente sufocado com resíduos têxteis”
Os lixões são mais do que uma monstruosidade. A maioria das roupas produzidas hoje consiste em grande parte de materiais sintéticos, o que significa que os itens jogados são efetivamente uma forma de poluição plástica que pode contaminar o solo e os cursos d’água.
“A natureza sintética das roupas é realmente um problema porque não há caminho para que elas se degradem”, disse Madeleine Cobbing, pesquisadora da Campanha Overconsumption & Detox My Fashion do Greenpeace Alemanha, que é autora de um relatório sobre importações de roupas usadas na África Oriental. “Essas roupas lavadas nas margens do rio, todas elas estarão se quebrando em pedaços e formando fibras microplásticas. Elas estarão entrando na cadeia alimentar.”
Roupas de segunda mão da Europa sendo vendidas em um mercado em Nairóbi, Quênia. Crédito: Joerg Boethling/Alamy Foto de stock
“A última pessoa tem o problema”
À medida que os gigantes da fast-fashion produzem roupas cada vez mais baratas, mais e mais pessoas as compram — e as descartam. O consumo per capita de roupas na UE aumentou cerca de 20% entre 2003 e 2018. Em resposta, a UE tentou reduzir o desperdício de roupas incentivando a reutilização. Atualmente, uma média de 38% das roupas usadas na UE são coletadas para reutilização e reciclagem, mas a partir do ano que vem, todos os estados-membros serão obrigados a coletar tecidos usados separadamente de outros tipos de lixo, o que deve aumentar esse número significativamente.
Mas o destino do que é doado geralmente não é claro. De acordo com a Área Econômica Europeia, cerca de 10% das roupas doadas são revendidas localmente no mesmo país, enquanto outros 10% são vendidos para outros países da UE e o restante vai para o exterior, principalmente para a África e a Ásia.
A cada parada, a qualidade das roupas diminui.
“Cada um pega o que gosta e depois exporta para a próxima pessoa que pega o que gosta, e então a última pessoa fica com o problema”, explicou Ola Bąkowska, especialista em têxteis da Circle Economy, uma organização que produz relatórios sobre estratégias econômicas para reduzir o desperdício.
Muitos dos países bálticos e da Europa Oriental que importam roupas usadas de estados-membros ocidentais também são grandes exportadores, o que significa que, depois de separarem os melhores itens, o restante é enviado para compradores fora da UE. A Romênia, no entanto, é principalmente um cliente final na cadeia, importando dezenas de milhares de toneladas de roupas usadas anualmente e exportando apenas uma pequena fração.
De acordo com o banco de dados Comtrade da ONU, uma média de 58.000 toneladas de roupas usadas foram transportadas para a Romênia anualmente entre 2020 e 2023. O principal fornecedor durante esse período foi a Alemanha, que é um dos maiores exportadores mundiais de roupas usadas e foi responsável por cerca de 50 por cento das importações da Romênia nos últimos quatro anos
Embora não haja números precisos sobre quantas dessas remessas recebidas não atendem aos padrões romenos (que exigem que os têxteis recebidos sejam higienizados e separados para que não incluam itens não têxteis), dados e documentos obtidos pelo RISE mostram que a polícia de fronteira parou caminhões que transportavam o que era considerado lixo têxtil ilegal quase mensalmente entre 2021 e 2023, vindos principalmente de países da UE como Alemanha, Áustria e Holanda.
Provavelmente há muito mais caminhões transportando roupas sujas para a Romênia que nunca são parados, já que a Agência de Proteção Ambiental só funciona durante o dia, e os caminhões geralmente entram à noite. Para evitar a inspeção, alguns até carregam dois conjuntos de documentos para apresentar a diferentes órgãos de fiscalização romenos. Os inspetores ambientais, que só têm autoridade para inspecionar resíduos recebidos, podem receber documentos dizendo que o caminhão está transportando roupas de segunda mão. Mas quando a Autoridade de Proteção ao Consumidor, responsável por inspecionar roupas de segunda mão, vier, eles receberão documentos diferentes alegando que o caminhão está transportando resíduos.
Dos caminhões que foram parados com sucesso na fronteira, um foi encontrado carregando roupas que estavam “sujas, manchadas, com mofo”, diz um documento emitido pela Environmental Guard Agency. Outra remessa incluía itens não têxteis, como CDs, brinquedos infantis e sapatos sujos.
Itens apresentados como roupas de segunda mão descobertos pela Autoridade de Proteção ao Consumidor da Romênia durante uma batida em 2022 em uma remessa vinda da Hungria. Crédito: OCCRP
“Esses produtos de segunda mão são, na verdade, resíduos disfarçados”, disse o Comissário da Guarda Ambiental Nacional, Andrei Corlan, à RISE.
Há uma forte justificativa econômica para enviar remessas como essa para países mais pobres da UE, como a Romênia. Na Alemanha, o custo do descarte de resíduos varia de 200 a 300 euros por tonelada — cerca de 10 vezes mais alto do que o custo de fazê-lo na Romênia, de acordo com um relatório interno de 2022 do Ministério de Assuntos Internos da Romênia.
“Temos uma situação em que os geradores de resíduos do estrangeiro enviam resíduos para a Roménia para se livrarem do que não querem eliminar no seu território porque é mais caro fazê-lo lá do que na Roménia”, disse Corlan
No lado romeno, também há vantagens financeiras, ele disse. Comprar grandes remessas de têxteis “mistos” é muito barato, e uma pequena porcentagem desses têxteis pode ser recuperada e vendida em lojas de segunda mão.
Quando as empresas precisam lidar com roupas sujas demais para vender, ele disse, elas as descarregam nas comunidades mais pobres da Romênia, como aquela onde Vasile mora.
“Essa porção é carregada em sacos pretos que são vendidos a um preço baixo para várias comunidades pobres”, disse ele. “Essas comunidades também fazem uma seleção, depois da qual o restante dos produtos importados de pior qualidade acabam sendo jogados nos campos ou em cursos d’água.”
De um caixote de lixo alemão para um lixão romeno
Para entender como o comércio de roupas usadas pode dar errado, repórteres rastrearam uma cadeia de suprimentos de um exportador alemão até um importador romeno que inspetores ambientais acusaram de importar e descartar resíduos ilegalmente.
O exportador, uma empresa privada chamada Baliz Textilwerke que coleta roupas de milhares de lixeiras no oeste e sul da Alemanha, estabelece uma declaração de missão louvável em seu site. (A Baliz Textilewerke não respondeu a vários pedidos de comentários enviados pelo OCCRP e RISE.)
“Tornamos nossa tarefa reciclar roupas e calçados usáveis e, assim, fazer nossa contribuição para a proteção ambiental”, diz. “As montanhas de lixo estão aumentando constantemente.”
A empresa diz em seu site que separa as roupas de outros itens, como sapatos, brinquedos, cintos e bolsas, antes de enviar as remessas para países como Romênia, Polônia, Itália e Espanha.
Mas, de acordo com relatórios de inspeção e documentos de transporte, as exportações da Baliz Textilwerke para pelo menos quatro empresas romenas no Vale Jiu incluíam roupas usadas misturadas com outros itens, como “tapetes, colchas, travesseiros, artigos de couro usados ou muito usados e artigos domésticos” — que, segundo a lei romena, deveriam ser classificados como resíduos têxteis, uma vez que não eram separados. Nenhum desses importadores romenos para os quais a Baliz Textilwerke vendeu estava autorizado pelo registro de resíduos romeno a importar resíduos quando as investigações começaram.
Os inspetores também descreveram a abertura de vários fardos de roupas durante as batidas e a descoberta de produtos “em diferentes estágios de uso, com manchas, cabelos e alguns deles rompidos”, embora algumas das remessas da Baliz Textilwerke estivessem acompanhadas de certificados afirmando que haviam sido desinfetadas.
Quando contatada para comentar, uma das empresas listadas como responsáveis pela limpeza, uma empresa alemã chamada WISAG Gebäudereinigung Hessen Nord GmbH & Co. KG, disse à RISE que havia desinfetado apenas o exterior das caixas e sacolas contendo os tecidos – não as roupas propriamente ditas dentro delas. A empresa disse que nem sequer estava equipada para desinfetar ou higienizar tecidos, e nunca havia oferecido tal serviço.
Um dos principais clientes da Baliz Textilwerke na Romênia é a Emily SRL, sediada em Jiu Valley, que importa milhares de toneladas de tecidos anualmente da Baliz. A Emily administra lojas de roupas de segunda mão em cidades da Romênia, onde vende algumas das roupas que importa.
Uma loja de artigos de segunda mão Emily em Lupani, Romênia. Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
Mas nem todos os tecidos chegam a essas lojas. Os inspetores da Environmental Guard invadiram o depósito da empresa duas vezes em 2022 e novamente em 2023, com cada inspeção terminando com uma queixa legal apresentada aos promotores e multas de até US$ 50.000 por violar a legislação ambiental. Os promotores disseram à RISE que abriram dois processos contra Emily após receber as queixas, mas ainda estão investigando se a empresa cometeu um crime. (Nenhuma acusação foi emitida em nenhum dos casos.).
De acordo com as reclamações, depois de separar os itens vendáveis das importações da Baliz Textilwerke, a empresa ficou com grandes quantidades de tecidos e outros produtos inutilizáveis — mais de 100 toneladas em 2022, por exemplo — que não puderam ser vendidos em suas lojas de roupas.
A empresa não estava equipada para importar tais resíduos na época — isso exigiria estar registrada em uma plataforma administrada por autoridades ambientais e provar que tinha as instalações ou contratos para garantir que os resíduos seriam devidamente reciclados em vez de despejados.
Não só Emily não tinha tais instalações de reciclagem, os inspetores descobriram, mas apenas uma pequena parte dos resíduos que ela gerava era enviada para empresas de reciclagem. Em vez disso, a empresa estava armazenando seus resíduos em um depósito de dois andares e eventualmente “entregava” ou vendia as sacolas para “indivíduos não autorizados” por apenas 20 centavos de euro.
Os sacos seriam posteriormente “descartados ilegalmente em aterros sanitários por essas pessoas, ou simplesmente jogados no leito dos rios… ou na beira das estradas, onde o lixo é incendiado”, observam os arquivos.
Repórteres que visitaram um dos depósitos de Emily na cidade de Uricani encontraram um prédio de um andar lotado de sacolas e roupas. Lá dentro, as janelas estavam lacradas com plástico preto. Após solicitar uma entrevista com o dono da empresa, Ion Duman, os repórteres foram informados por um gerente local que “o chefe não está disponível”.
Um depósito da Emily SRL cheio de bolsas e roupas em Uricani, Romênia. Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
Embora Emily tenha se tornado uma importadora de resíduos registrada, uma operação realizada em 2024 pela Agência de Proteção ao Consumidor descobriu que os problemas continuam; sua capacidade de lavagem era muito menor do que o volume de roupas importadas, o que levou a multas que somavam cerca de US$ 6.000.
Um representante da Emily disse que a empresa recorreu da imposição dessas multas e não comentaria o caso até que uma decisão final fosse tomada.
“Todas as importações de têxteis usados vieram de empresas autorizadas da Alemanha”, disse a empresa. “O recebimento dos produtos foi feito na Romênia e, caso as importações contivessem outros produtos usados, estes eram devolvidos à Alemanha. Todas as importações da Alemanha eram acompanhadas de certificados. Antes de serem colocadas no mercado, a Emily Company classificava os produtos dependendo do status de qualidade.”
Pelo menos outras 10 empresas no país — metade delas no Vale Jiu, uma das regiões mais pobres da Romênia — enfrentam alegações semelhantes de importação ilegal de resíduos sob o disfarce de roupas de segunda mão. Três desses importadores também são acusados de enviar os itens inutilizáveis diretamente para depósitos de lixo municipais, o que é contra a lei.
Uma loja de artigos usados da Humana em Bucareste, Romênia. Crédito: Andrei Ciurcanu/OCCRP
A Humana, grande organização global sem fins lucrativos de produtos de segunda mão, também foi multada e investigada por trazer roupas sujas para a Romênia
Não são apenas as empresas locais romenas que os inspetores alegam que estão importando tecidos usados indevidamente — a Humana People to People, líder global no setor de roupas de segunda mão, também foi reprovada nas inspeções ambientais das roupas que trouxe para a Romênia.
Em fevereiro de 2022, autoridades romenas pararam um carregamento de 15 toneladas da Humana, uma organização sem fins lucrativos registrada na Suíça. De acordo com seu site, a ONG está presente em 46 países em cinco continentes e usa suas lojas de roupas vintage para financiar projetos de desenvolvimento na África, Ásia e América Central e do Sul.
O caminhão que entrou na Romênia estava acompanhado de certificados afirmando que as roupas tinham sido desinfetadas na Bulgária por uma empresa especializada em matar pulgas e baratas. Mas quando alguns dos fardos foram abertos, os agentes encontraram roupas que estavam “sujas, manchadas, mofadas, com fiapos, cabelos e goma de mascar nas solas dos sapatos”.
A remessa foi declarada como resíduo e bloqueada de entrar na Romênia, onde seria destinada ao depósito local da Humana.
Os promotores agora estão construindo um caso contra a Humana após uma batida em 2023 em seu principal depósito na Romênia, quando encontraram 290 toneladas de roupas de segunda mão, metade desse volume sendo tecidos rasgados e sujos e sem certificados adequados de limpeza e desinfecção. A Autoridade de Proteção ao Consumidor também aplicou multas civis contra a Humana nos últimos três anos consecutivos por violações de protocolos de triagem, limpeza e desinfecção de roupas. (A Humana está apelando das multas no tribunal.)
As “roupas eram lavadas apenas em papel”, disse o ex-presidente da Autoridade de Proteção ao Consumidor, Horia Constantinescu, que fazia parte da equipe envolvida na operação no depósito.
Em 2024, mais dois caminhões da Humana, da Áustria e da Eslovênia, foram devolvidos na fronteira romena por documentação incorreta ou inadequada das mercadorias em seu interior.
A Humana se recusou a comentar sobre casos específicos porque eles ainda estavam sob investigação, mas disse que cumpria todas as regulamentações relevantes sobre a importação de roupas de segunda mão para a Romênia. “Esperamos um resultado positivo da investigação”, disse um porta-voz.
Uma zona cinzenta jurídica
Como as definições legais e os requisitos de relatórios variam entre os estados-membros da UE, é difícil obter dados confiáveis sobre o comércio de roupas de segunda mão do bloco.
“Há uma enorme falta de conhecimento” sobre o setor, disse Lars Mortensen, especialista da Agência Europeia do Meio Ambiente que produziu vários relatórios sobre a indústria têxtil nos últimos anos.
“Quando analisamos, vimos que os valores eram realmente muito grandes e os fluxos comerciais eram muito mais complexos do que havíamos imaginado.”
Um fator que contribui para o tipo de despejo visto na Romênia e em outros lugares é a falta de uma definição clara de “resíduos têxteis” na legislação da UE, o que significa que o estágio em que as roupas usadas são consideradas resíduos difere entre os estados-membros. Também não há critérios comuns para quais etapas devem ser tomadas para que uma peça de roupa usada seja preparada para reutilização.
Na Alemanha, por exemplo, roupas doadas são consideradas lixo até que passem por triagem. Mas a limpeza — que é obrigatória na Romênia para que o item se torne roupa de segunda mão — não é necessária.
“Não há regras na Alemanha sobre lavar tecidos antes de serem exportados”, disse Viola Wohlgemuth, ex-ativista da Greenpeace especializada em resíduos têxteis, à RISE. “Somente contêineres de transporte são fumigados de acordo com as regras internacionais de transporte e regras portuárias, assim como todos os produtos de transporte. Mas isso não é específico para têxteis.”
Um prédio abandonado em Aninoasa, Romênia, anteriormente ocupado por uma empresa envolvida no comércio de tecidos usados, agora está cheio de milhares de sacolas contendo tecidos, além de itens como sapatos e livros. Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
Essa incompatibilidade é visível em algumas das exportações da Baliz Textilwerke para a Romênia, que os inspetores descobriram que estavam acompanhadas de dois conjuntos de documentos — um rotulando-as como resíduos têxteis e outro como roupas usadas.
O mesmo problema se aplica às exportações enviadas para fora da UE. De acordo com um relatório da EEA, uma grande quantidade das exportações da UE são rotuladas sob a ampla categoria de “têxteis usados”, que frequentemente inclui grandes quantidades de itens não classificados que são impróprios para reutilização.
A Comissão Europeia está trabalhando em uma nova estratégia que desenvolverá critérios específicos em nível da UE para distinguir entre resíduos e produtos têxteis de segunda mão.
Umaproposta de revisão da Diretiva-Quadro de Resíduostambém introduziria novas regras, como obrigações de triagem, para garantir que o que é enviado como têxteis usados seja de fato adequado para reutilização.
Essa rotulagem seria de particular ajuda no início do próximo ano, quando os membros da UE serão obrigados a coletar tecidos separadamente de outros resíduos — uma medida projetada para aumentar as taxas de coleta de roupas usadas, mas também verá uma diminuição geral na qualidade e uma necessidade de uma triagem mais rigorosa.
“Há um enorme desafio com a falta de capacidade de triagem e falta de capacidade de reciclagem. É isso que cria esses fluxos comerciais”, disse Mortensen.
Atualmente, o nível e a qualidade da classificação estão vinculados ao preço que o comprador está disposto a pagar, explicou Bąkowska, da Circle Economy.
“Se você é um cliente que paga melhor, você ganha mais coisas selecionadas. Mas se você é um cliente que paga médio, você ganha um pouco de tudo… um fardo vai ser melhor e um fardo vai ser pior.”
Por sua vez, a Romênia está elaborando uma legislação que visa controlar melhor o fluxo de produtos de segunda mão para o país e exigirá que os importadores tenham instalações como sistemas de lavagem industrial e devolvam quaisquer itens inutilizáveis ao fornecedor.
“Se a situação dos produtos de segunda mão for regulamentada e se o procedimento para emissão da autorização ambiental para o componente de resíduos for regulamentado, então, certamente, a Romênia será muito menos atrativa para o descarte ilegal de resíduos”, disse Corlan.
Enquanto isso, os romenos comuns estão pagando o preço, ele disse: “O orçamento público romeno arca com essa despesa de limpeza das áreas e armazenamento de resíduos em aterros sanitários”.
Roupas e outros itens abandonados em um bairro nos arredores de Petroșani, Romênia. Crédito: Alex Nicodim/OCCRP
Para moradores como Vasile, a perspectiva de reformas o deixa com sentimentos mistos. Ele diz que se ressente das empresas importadoras de têxteis do Vale Jiu pela bagunça que elas criam no vale, mas ele e outras centenas de famílias agora dependem do fato de que haverá um amplo suprimento de têxteis descartados para queimar todo inverno.
“Você acha que eu prefiro queimar sapatos em vez de madeira?” ele disse, “Eu não… Isso fede. Mas pelo menos temos meios de aquecer a casa.”
A verificação de fatos foi fornecida pelo OCCRP Fact-Checking Desk.
Primeiro olhar amplo sobre o estado de conservação dos animais que transportam sementes levanta alarmes
O tordo-ruivo, mostrado aqui comendo frutas de um azevinho europeu ( Ilex aquifolium ), está listado como “quase ameaçado”. GIANPIERO FERRARI/FLPA/MINDEN
Por Erik Stokstad para a “Science”
Quando os caçadores exterminaram a maioria das aves frugívoras na floresta tropical do Parque Nacional Lambir Hills, no oeste de Bornéu, na década de 1990, os céus ficaram mais opacos — e em poucos anos a floresta também. Sem pássaros para espalhar suas sementes, a diversidade de plantas produtoras de frutas diminuiu, iluminando aimportância crítica da dispersão de sementes para a saúde do ecossistema . O movimento de sementes pela paisagem nos intestinos dos animais é uma “cola que mantém as comunidades ecológicas unidas”, diz Jordi Bascompte, ecologista da Universidade de Zurique. Agora, os ecossistemas em climas temperados parecem estar se descolando também.
Hoje na Science , uma equipe relata quepelo menos um terço das espécies de plantas europeias podem estar em apurosporque a maioria dos animais que movem suas sementes estão ameaçados ou em declínio. O estudo é “brilhante e convincente”, mas também “alarmante”, diz Pedro Jordano, ecologista da Universidade de Sevilha. O declínio dos dispersores de sementes — não apenas pássaros, mas também mamíferos, répteis e formigas — pode comprometer a capacidade das plantas de expandir seu alcance para lidar com as mudanças climáticas ou se recuperar após incêndios florestais, ele acrescenta, especialmente na paisagem altamente fragmentada da Europa. “É uma análise fantástica”, diz Lynn Dicks, cientista conservacionista da Universidade de Cambridge. “Você só pensa: ‘Por que ninguém fez isso antes?'”
Descobrir quais animais dispersam quais sementes de plantas requer a análise de centenas, se não milhares, de interações entre espécies. Sara Mendes, uma estudante de doutorado no laboratório de Ruben Heleno, um ecologista comunitário da Universidade de Coimbra, assumiu a tarefa gigantesca. Ela vasculhou milhares de estudos em 26 idiomas que mencionavam termos como dispersão de sementes ou estavam focados em um dos mais de 900 animais europeus que provavelmente consomem sementes. “O projeto exigiu uma certa dose de loucura para ser realizado”, diz ela.
Mendes compilou uma lista de 592 espécies de plantas nativas que têm adaptações — principalmente frutas carnudas — para encorajar os animais a espalhar suas sementes, assim como 398 animais conhecidos por transportar essas sementes. Muitos dos dispersores comem as sementes de várias plantas, então ela acabou com um conjunto de dados que incluía mais de 5000 pares de plantas e seus dispersores animais.
O próximo passo foi analisar como as espécies estão se saindo. A equipe descobriu que em todas as principais áreas biogeográficas da Europa, do Mediterrâneo ao Ártico, mais de um terço das espécies animais dispersoras de sementes são classificadas como ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) ou estão diminuindo em número. Por exemplo, a toutinegra-de-jardim ( Sylvia borin ), uma ave migratória comum que espalha as sementes de cerca de 60 espécies de plantas, está diminuindo em toda a Europa. O mesmo é verdade para o tordo-ruivo ( Turdus iliacus ), algumas populações das quais migram milhares de quilômetros e podem mover sementes ao longo de parte de sua jornada. “Não devemos ter medo de usar a palavra crise”, diz Heleno, dado o número de espécies em risco.
O estudo não detalha como a crise está afetando os ecossistemas. Por um lado, as avaliações da IUCN ainda não foram conduzidas para 67% das espécies de plantas no conjunto de dados. Mas Mendes e Heleno descobriram que mais de 60% das plantas tinham cinco ou menos animais que comem e distribuem suas sementes, o que poderia torná-las particularmente suscetíveis ao declínio ou desaparecimento de qualquer um desses dispersores de sementes críticos.
E algumas plantas parecem estar em apuros. Os autores elaboraram uma lista de quase 80 interações de “preocupação muito alta”, nas quais tanto a planta quanto o animal estão ameaçados ou em declínio. A lista inclui a palmeira-leque europeia ( Chamaerops humilis ), uma árvore atarracada que pode levar décadas para se reproduzir. Em toda a sua extensão mediterrânea, a planta depende dos serviços de dispersão de 10 espécies, incluindo o coelho-europeu ( Oryctolagus cuniculus ), uma espécie listada pela IUCN como “ameaçada” na Espanha e em Portugal. Ao avaliar como ajudar espécies de plantas que estão em apuros, “precisamos ter certeza de que estamos cuidando dos dispersores que estão fazendo grande parte do trabalho”, diz Dicks.
Apesar do enorme conjunto de dados que Mendes conseguiu compilar, muito permanece desconhecido sobre a extensão do problema. É um mistério quais animais movem as sementes de algumas plantas raras, por exemplo — apesar de séculos de observações de história natural na Europa. Mesmo para espécies comuns e bem estudadas, nem sempre é aparente quais dispersores são mais importantes e se outras espécies podem assumir o controle se elas declinarem ou desaparecerem.
Relações semelhantes provavelmente estão se desfazendo em outros continentes também, incluindo a América do Norte. Mas o quadro lá é ainda menos claro, diz o ecologista Haldre Rogers do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia (Virginia Tech). “Nós realmente não temos ideia de quais plantas estão sem seus dispersores ou em risco disso.”
Num estudo pan-europeu, o Observatório do Consumidor Alimentar do EIT constatou uma crescente apreensão entre os consumidores relativamente às implicações para a saúde dos alimentos ultraprocessados
Apesar de a maioria dos consumidores europeus expressar preocupações sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde, a falta de sensibilização, compreensão e meios dificulta escolhas informadas e saudáveis, de acordo com o estudo apoiado pelo Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT)
Por Editor da fleischwirtschaft.com
O estudo revela uma lacuna significativa entre as preocupações dos consumidores europeus sobre os alimentos ultraprocessados e a sua capacidade de fazer escolhas informadas. O estudo, que abrange um inquérito a 10.000 consumidores de 17 países europeus, juntamente com um acompanhamento qualitativo, lança luz sobre os desafios que os indivíduos enfrentam ao navegar pelas complexidades dos alimentos processados.
De acordo com as conclusões, 65% dos consumidores europeus acreditam que os alimentos ultraprocessados representam riscos para a saúde, contribuindo inclusive para a obesidade, a diabetes e outros problemas relacionados com o estilo de vida. No entanto, apesar desta consciência, 56% dos consumidores admitem ainda escolher alimentos processados, indicando um paradoxo no comportamento do consumidor.
Uma das principais razões por trás desta contradição é a falta de compreensão dos níveis de processamento de alimentos. O estudo expõe que os consumidores muitas vezes subestimam ou superestimam o quanto seus alimentos são processados. Por exemplo, enquanto 61% identificam corretamente as bebidas energéticas como ultraprocessadas, apenas 34% e 22%, respetivamente, rotulam corretamente o queijo vegan e as barras de chocolate como tal.
Curiosamente, as alternativas à base de plantas enfrentam um escrutínio adicional, com 54% dos consumidores a evitá-las devido a preocupações com o ultraprocessamento. Isto é particularmente prevalente entre os consumidores de carne e laticínios, levantando questões sobre o impacto das preocupações com a saúde na adoção de dietas baseadas em vegetais.
Em resposta às conclusões, Klaus Grunert, professor da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e diretor do Observatório do Consumidor Alimentar do EIT, sublinha a necessidade de uma rotulagem, orientação e educação mais claras e apela a esforços contínuos para compreender e chegar a acordo sobre a forma como os alimentos são classificados, avaliados. e rotulado “para que nossos conselhos aos consumidores sejam informados pela ciência mais recente”.
O aspecto qualitativo do estudo sugere que conveniência, preço e sabor continuam sendo os principais impulsionadores do consumo de alimentos ultraprocessados. Apesar das preocupações, a maioria dos consumidores está relutante em reduzir a sua ingestão, na esperança de equilibrar os alimentos processados com alternativas menos processadas e caseiras. No entanto, os consumidores com menos recursos em termos de tempo e dinheiro têm menos poder nas suas escolhas alimentares e é pouco provável que dêem prioridade ao valor nutricional em detrimento da conveniência.
Sofia Kuhn, Diretora de Engajamento Público da EIT Food, reconhece o papel que os alimentos processados desempenham na dieta das pessoas: “Seja um molho de macarrão pré-embalado para uma refeição rápida em casa ou uma refeição fast-food fora com a família, ultra- os alimentos processados fazem parte do dia-a-dia das dietas dos consumidores em toda a Europa. No entanto, é evidente a partir destas descobertas que as pessoas têm preocupações reais sobre os aspectos de saúde e sustentabilidade destes alimentos.” Kuhn também destaca a responsabilidade do sector em criar um ambiente que promova decisões informadas.
O relatório conclui com recomendações para o setor alimentar melhorar a rotulagem, a educação e a orientação sobre alimentos ultraprocessados. Apela às instituições de saúde e aos cientistas para que definam os alimentos ultraprocessados de forma conclusiva e comuniquem eficazmente com os consumidores sobre o processamento dos alimentos e as possíveis implicações para a saúde.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Fleischwirtschaft.com [Aqui!].
Levantamento de pesquisadora mostra que quase metade dos agrotóxicos aprovados no governo são banidos na Europa
Por Júlia Rohden | Agência Pública/Repórter Brasil
A maior parte dos agrotóxicos liberados na gestão de Jair Bolsonaro são produzidos na China, quase metade tem ingredientes ativos proibidos na União Europeia e a maioria dos produtos são usados em plantações de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão.
São essas as conclusões de dados sistematizados pela pesquisadora Sônia Hess e divulgados pela Agência Pública e Repórter Brasil. O levantamento traça o perfil dos 1801 produtos registrados entre janeiro de 2019 e junho de 2022, reunidos a partir de publicações do Diário Oficial.
“Estamos trazendo para o nosso país o que os outros países consideram lixo”, critica Hess que possui três pós-doutorados em Química (pela Universidade Estadual de Campinas, pela Universitá Cattolica del Sacro Cuore de Roma e pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde foi professora até se aposentar recentemente). O levantamento realizado pela pesquisadora está sendo compilado para publicação em revistas acadêmicas e também irá compor um capítulo de livro.
Considerada uma das prioridades do Governo de Jair Bolsonaro, o Projeto de Lei 1459/2022, apelidado de PL do Veneno, está tramitando na Comissão de Agricultura do Senado e facilita ainda mais o registro de agrotóxicos no país. Uma das defesas de deputados governistas para aprovar o projeto na Câmara foi que a mudança na lei de agrotóxicos iria modernizar a agricultura.
Para Hess, a agilidade em novos registros não levaria à modernização dos produtos usados por agricultores, já que as recentes aprovações não são de ingredientes efetivamente novos. “Estão aprovando produtos velhos, banidos há muitos anos em outros países”, resume.
Produtos registrados recentemente são banidos na Europa há mais de uma década
A Ametrina, usada para cultivos de abacaxi, algodão, banana, café, cana-de-açúcar e milho, está banida na União Europeia há vinte anos. Contudo, no Brasil, durante o governo Bolsonaro foram registrados ao menos 27 produtos comerciais contendo a substância que já foi associada por cientistas ao surgimento de câncer de próstata e de ovários.
O herbicida hexazinona também foi banido em 2002 nos países europeus. No Brasil, conforme aponta o levantamento de Hess, é o ingrediente ativo de 30 produtos aprovados no governo Bolsonaro e é usado em plantações de cana-de-açúcar.
O glufosinato (sal de amônio)é o ingrediente ativo presente na maior quantidade de produtos registrados nos últimos anos. O herbicida é usado em diversas plantações como alface, dendê, maçã, soja, feijão e banana. Em 2009, foi proibido na União Europeia por estar associado à desregulação endócrina, alterações genéticas e danos ao fígado. Em 2019, o Brasil registrou 26 produtos com glufosinato (sal de amônio), em 2020 foram mais 21 aprovados e em 2021 foram 12, totalizando 59 produtos.
Outro produto banido da UE e presente nos novos registros brasileiros é a atrazina. O ingrediente ativo compõe 46 produtos registrados entre 2019 e 2021. Dados mais recentes do Ibama, apontam a atrazina como o quarto agrotóxico mais comercializado no país em 2020, com 27,2 mil toneladas vendidas. Banida da Europa desde 2004, no Brasil seu uso é permitido no cultivo de abacaxi, cana-de-açúcar, milho, milheto, pinus, seringueira, sisal, soja e sorgo.
Agrotóxicos aprovados vão para soja, milho, cana-de-açúcar e algodão
O Atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, publicado em 2017 pela pesquisadora da USP Larissa Bombardi, mostra que quatro plantações são o destino de 79% das vendas de agrotóxicos no país: 52% para a soja, 10% para o milho, 10% para a cana-de-açúcar e 7% para o algodão.
Os dados levantados por Sônia Hess também apontam concentração do uso de agrotóxicos nessas quatro culturas. ”Nós estamos enchendo o território brasileiro de veneno e 79% deste veneno vai para quatro culturas. Os produtos novos aprovados para uso no Brasil refletem isso”, avalia. Entre os principais impactos do uso de agrotóxicos nas lavouras, a pesquisadora menciona a contaminação da água, do solo e do ar. “Ninguém está a salvo. As pessoas pensam que é só no campo que a contaminação acontece, mas não é, a poluição se espalha”, argumenta Hess.
Dentre os 835 produtos químicos formulados aprovados entre janeiro de 2019 e junho de 2022, a maior parte (527 produtos) são para uso em plantações de soja, seguido pelo uso no algodão (386 produtos), no milho (382 produtos) e na cana-de-açúcar (302 produtos). O mesmo produto pode ser aplicado em diferentes culturas, como o AUG 106, uma marca comercial à base do inseticida imidacloprido, indicado para culturas de algodão, milho e soja que teve oregistro aprovado em junho deste ano.
Aprovações beneficiam empresas com sede na China
As informações reunidas por Hess mostram que a maioria dos pesticidas químicos aprovados no Brasil possuem fábricas na China. “Do total de agrotóxicos aprovados, 89% são químicos e, destes, 80% vem da China. A China manda o veneno para nós e compra a soja que foi produzida com esse veneno”, sintetiza a pesquisadora, que lembra que o país é o principal importador do grão brasileiro. A balança comercial do agronegócio, divulgado pelo Governo, aponta que em junho deste ano a China adquiriu 64,5% da quantidade total exportada de soja, foram 6,49 milhões de toneladas.
Já em relação aos agentes biológicos de controle de pragas, o Brasil lidera a fabricação, produzindo 94,8% em território nacional. Do total de 191 produtos aprovados com essas características, o país fabricou 181 deles. “O impacto é muito menor [se comparado aos produtos químicos], porque inclusive são direcionados para cada praga”, explica Sônia Hess.
Este texto foi originalmente publicado pelo site “Por trás do alimento” [Aqui!].
A recente decisão da Gazprom, estatal que é maior empresa de gás da Rússia e também do mundo, de suspender indefinidamente os seus suprimentos para a Europagerou um efeito dominó em termos de forte alta de preços e depreciação do Euro e da libra esterlina. Esse movimento, baseado na mais básica noção de uso de uma commodity com finalidades estratégicas, promete transformar o próximo inverno europeu em um pesadelo para os povos do continente, mas também para os governantes que optaram por transformar o conflito entre Rússia e Ucrânia em um proxy de uma futura 3a. guerra mundial.
As elites europeias, pressionadas pelo governo de Joe Biden, deveriam ter feito um mínimo de lição de casa, pois tanto Napoleão Bonaparte como Adolf Hitler viram suas aspirações imperiais atolarem no território gelado da Rússia. E tudo indica que dessa vez os russos vão passar um inverno em meio às baixas temperaturas nas ruas, mas com temperaturas mais elevadas dentro de casa, ao contrário dos europeus que estão neste momento quebrando a cabeça para ver como vão se virar sem o gás russo.
Mas antes que se culpe o governo de Vladimir Putin por agir dentro de uma lógica fria e calculista, há que se lembrar que a ideia de impor uma articulação entre os mercados consumidores europeus e a Rússia foi dos governos neoliberais que comandam com mão de ferro o Conselho Europeu. A questão é que quando impuseram atrasos pensados na adoção de energias alternativas ao gás russo, as elites europeias provavelmente desprezaram a ideia de que essa dependência poderia se voltar contra seus interesses na forma de uma arma de guerra.
Por outro lado, está ficando claro, e as manifestações populares já estão começando em diferentes países europeus, que não se pode declarar guerra contra um país que detém tamanho controle de uma commodity estratégica em um continente que, apesar e por causa das mudanças climáticas, pode ter invernos bem rigorosos.
Manifestação realizada em Praga no sábado (03/09), capital da República Tcheca, demanda neutralidade no conflito bélico na Ucrânia em troca de garantia de fornecimento de gás. Foto: Petr David Josek/AP
Como o gás fornecido pelos EUA é muito mais caro que o russo, a batata quente está cada vez mais nas mãos dos governantes que decidirar, na prática, declarar guerra à Rússia, ainda que usando a Ucrânia como anteparo.
Finalmente, não deixa de ser curioso que em pleno Século XXI, uma estação do ano possa estar se provando uma arma de guerra tão eficiente e devastadora, antes mesmo de ter sido acionada. Por isso mesmo, a lentidão que muitos analistas veem na ação das forças militares russas seja apenas um cálculo bem feito de que o principal reforço está pronto para entrar em ação de forma brutal em pouco mais de 3 meses e vai estar claramente presente no campo de batalha até março de 2023. E isso certamente irá testar a disposição dos europeusem permanecer em guerra com a Rússia.
Como pesquisador que atua em uma região com forte sazonalidade no aporte de chuvas, venho há muitos anos falando que um dos aspectos mais perigosos do modelo agrícola gerado pela Revolução Verde é o uso perdulário de recursos hídricos que vem levando a um crescente esgotamento das fontes facilmente acessíveis.
Mas impulsionados pelos conceitos da Revolução Verde, as grandes corporações que controlam a produção de alimentos no mundo têm usado esses parcos recursos hídricos como isso tudo não fosse chegar a um limite, esquecendo-se ainda que as modificações causadas pelo sistema econômico no clima global tornaria mais frequentes as oscilações entre “chuvas em excesso” com “nenhuma chuva”.
Entretanto, agora países como Inglaterra, França e Alemanha vivem uma seca histórica que coloca diretamente em xeque a lógica do desperdício hídrica para tocar um modelo agrícola que, ao final e ao cabo de, gera excedentes tão estupendos que em torno de 30% de todos os alimentos colhidos são simplesmente jogados no lixo todos os anos.
O ressurgimento das pedras da fome são um sinal sinistro do que está acontecendo
Em países como Alemanha e República Tcheca está ocorrendo o reaparecimento das chamadas “pedras da fome” que são uma espécie de testemunho histórico de outras secas históricas que resultaram em crises colossais na capacidade de se produzir alimentos, pois trazem inscrições que refletem os impactos da falta de água para consumo humano em dados períodos históricos.
Inscrição em uma “pedra da fome” diz que”se você me ver, chore”
O problema é que em nenhum tempo anterior o tamanho da população humana gerava tanta demanda seja pelo consumo de alimentos como pelo uso de recursos hídricos. Em outras palavras, algo que já está sendo visto como um péssimo sinal pode ser a sinalização de que tempos muitos difíceis estão começando para os europeus. É que além de haver pouca água, o continente europeu sofre outra consequência do modelo agrícola da Revolução Verde que é a contaminação de seus recursos hídricos por resíduos de fertilizantes e agrotóxicos.
Mas se engana que o ressecamento das fontes de água causado pela Revolução Verde é apenas um problema dos europeus. É que já existem evidências que o desmatamento explosivo na Amazônia (outro componente diretamente relacionado ao modelo perdulário em termos de usos de recursos naturais pela Revolução Verde) já está causando uma perda no montante de chuvas no Brasil,o que deverá também se refletir em diminuição da água disponível para os brasileiros.
A verdade é que o que está ocorrendo em diferentes partes da Terra em termos de diminuição dos recursos hídricos e de forte poluição das reservas remanescentes gera a necessidade de que o modelo perdulário da Revolução Verde seja substituído por um modelo que leve em consideração a necessidade de levar em conta os limites ecológicos dos sistemas naturais. Sem isso, as próximas décadas serão dramáticas, pois veremos sucessivas crises na disponibilidade de água que, por sua vez, causaram graves crises de oferta de alimentos.