Em editorial, jornal finlandês diz que a UE deve se abster de comprar carne produzida na Amazônia

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Editorial do Maaseudun Tulevaisuus

A Comissão Europeia se encontra em uma posição precária ao tentar implementar um acordo de livre comércio com o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Embora esse acordo do Mercosul seja negociado há vinte anos, a sua implementação agora é mais questionável do que nunca.

Em particular, a indiferença do atual governo brasileiro às mudanças climáticas é impressionante. O país permitiu que a floresta amazônica fosse eliminada para atender as necessidades da pecuária, apesar dos fortes protestos no resto do mundo.

Se a União Europeia (UE) abrir mais oportunidades para aumentar as importações de carne da América do Sul, a geração de energia insustentável para o clima do Mercosul apenas aumentaria. As consequências para a floresta amazônica, crítica para o clima, seriam catastróficas.

Embora os proponentes do acordo tenham pensado que o livre comércio fortalecerá o compromisso do Mercosul com a certificação e o Acordo do Clima de Paris, é difícil ver tal desenvolvimento como realista.

Muitos países da UE viram a produção agrícola irresponsável apenas acelerar na América do Sul. Ao mesmo tempo, os benefícios econômicos do livre comércio para os países da UE estão se tornando cada vez mais questionáveis.

O acordo foi interpretado no sentido de perseguir os interesses da indústria automotiva global, bem como a produção agrícola em larga escala da América do Sul e grandes gigantes alimentícios. À medida que a mudança climática avança e as ações dos países do Mercosul sobem ao escrutínio internacional, os benefícios de longo prazo do acordo serão inúteis para todos os envolvidos.

Markus Kröger, professor assistente de Pesquisa de Desenvolvimento Global da Universidade de Helsinque, também considera o crescimento das importações de etanol de milho e ração de soja para o mercado da UE como muito prejudicial.

Desmatamento, redução do sequestro de carbono, danos ao solo e conflitos com povos indígenas e pequenos proprietários são, segundo Kröger, resultado da produção de etanol e soja.

Kröger também chama a atenção para o quão permissivo o Brasil é quanto ao uso de diversos agrotóxicos. No ano passado, quase 500 novos agrotóxicos foram aprovados no país, muitos deles proibidos na União Europeia.

As interpretações do pesquisador da Universidade de Helsinki são cada vez mais conhecidas dos consumidores europeus e também dos produtores agrícolas. Dado que a própria União Europeia impõe condições estritas às emissões ambientais da sua própria agricultura será completamente incompreensível permitir a entrada de produtos do Mercosul no mercado europeu.

Pelo contrário, a UE deve usar a sua política comercial para promover uma agricultura ética e sustentável no mercado mundial.

Principalmente do ponto de vista da cadeia alimentar responsável finlandesa, o acordo do Mercosul significaria permitir uma grave ruptura do mercado.

Se a UE não apoiar inequivocamente sua própria produção resiliente ao clima contra importações antiéticas, falar do Acordo Verde como base para uma nova política fundiária e florestal cairá no descrédito.

A pandemia internacional causada pela COVID-19 mais uma vez nos lembra os riscos da resistência aos antibióticos. O mundo é forçado a acordar para a quantidade de antibióticos usados ​​na produção de carne.

Se os medicamentos perderem sua eficácia, a crise global de saúde que se avizinha será ainda pior. É difícil ver com o Acordo do Mercosul reduziria o uso de antibióticos na produção em larga escala na América do Sul. O efeito oposto é mais provável.

O Mercosul também deve receber muito mais atenção no debate político finlandês. Embora o assunto pareça distante, seus efeitos também seriam sentidos no dia a dia dos finlandeses.

O governo finlandês e os deputados europeus têm uma responsabilidade significativa nesta matéria.

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Este editorial foi escrito originalmente em finlandês e publicado pelo jornal Maaseudun Tulevaisuus [Aqui!].

Dados científicos sugerem que a Europa está perdendo florestas em ritmo alarmante por causa da extração de madeira

O aumento da extração de madeira pode afetar a capacidade das florestas da Europa de combater a crise climática devido à redução da capacidade de absorção de carbono

florestas europeiasUma floresta sueca ao pôr do sol. A perda de biomassa florestal é mais acentuada na Suécia, responsável por 29% do aumento na colheita.  Foto: Alamy

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Dados científicos de um artigo recém publicado sugerem que a Europa perdeu uma área significativa de florestas devido ao aumento da extração de madeira nos últimos anos, reduzindo a capacidade de absorção de carbono do continente, e possivelmente indicando problemas mais amplos com as tentativas da União Europeia (UE) de combater a crise climática.

Muitas das florestas da UE – que representam cerca de 38% da sua superfície terrestre – são manejadas para a produção de madeira e, portanto, são colhidas regularmente. Mas a perda de biomassa aumentou 69% no período de 2016 a 2018, em comparação com o período de 2011 a 2015, segundo dados de satélite. A área de floresta colhida aumentou 49% na mesma comparação, publicada na revista Nature Research .

Isso indica que muito mais colheitas ocorreram em um curto período, mesmo considerando os ciclos naturais e o impacto de eventos como incêndios florestais e nevascas fortes. Pode-se esperar que a área colhida varie menos de cerca de 10% devido a ciclos de cultivo e plantio e efeitos similares, segundo Guido Ceccherini, do Centro Comum de Pesquisa da UE, autor principal do estudo.

Portanto, é provável que outros fatores estejam em jogo, e isso pode incluir aumento da demanda por madeira como combustível e mercados maiores para madeira e outros produtos de madeira. Os dados de satélite podem, portanto, ser um indicador precoce de demandas insustentáveis ​​colocadas nas florestas da UE.

A perda de biomassa florestal é mais pronunciada na Suécia, responsável por 29% do aumento da colheita, e na Finlândia, por cerca de 22%. Polônia, Espanha, Letônia, Portugal e Estônia foram muito menos afetados, pois juntos representaram cerca de 30% do aumento nos 26 países estudados.

Ceccherini disse ao The Guardian que é improvável que o aumento observado na colheita e a perda de biomassa resultem em um declínio na área da UE que é florestada em geral, pois a maioria das florestas colhidas seria regenerada . Mas isso prejudicaria a capacidade de absorção de carbono das florestas da UE no curto prazo, disse ele.

“As florestas continuam a ser um sumidouro de carbono , mas menos do que antes”, disse Ceccherini. “Mesmo que parte do carbono da biomassa colhida seja usada em produtos de madeira de longa duração, possivelmente substituindo materiais com maior consumo de energia, como aço ou cimento, a maioria retornará à atmosfera como CO2 em um curto período de tempo [desde] meses a alguns anos. Até que o estoque de carbono nas áreas colhidas retorne aos níveis anteriores, o que leva várias décadas, dependendo do tipo de floresta, um aumento na colheita é, portanto, equivalente a um aumento nas emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. ”

As florestas compensam cerca de 10% das emissões de gases de efeito estufa da UE. Como é provável que as áreas colhidas sejam replantadas, o novo crescimento continuará absorvendo dióxido de carbono da atmosfera, de modo que o balanço de carbono da Europa poderá não ser muito afetado a longo prazo.

No entanto, os pesquisadores disseram que era importante descobrir por que a colheita aumentou tão repentinamente, caso isso indique problemas subjacentes mais amplos na maneira como as florestas da Europa estão sendo gerenciadas. Este estudo não pode estabelecer definitivamente as causas dos aumentos na colheita, por isso são necessárias mais pesquisas.

O aumento da demanda por madeira e produtos de madeira, como celulose e papel, e mais queima de biomassa por combustível podem estar por trás do rápido aumento da colheita observado nos países nórdicos. Nesse caso, de acordo com os pesquisadores, é importante saber para que quaisquer impactos adversos possam ser contidos rapidamente.

O professor Thomas Crowther, fundador do Crowther Lab, que não participou da pesquisa, disse: “É preocupante ver que a crescente demanda por produtos florestais pode estar reduzindo o carbono armazenado na biomassa viva das florestas européias. É possivelmente mais preocupante que a remoção de florestas também possa ameaçar o armazenamento de carbono abaixo do solo. Essas florestas de alta latitude suportam alguns dos maiores estoques de carbono do solo do mundo. Se o desmatamento ameaçar a integridade dos estoques de carbono no solo de alta latitude, os impactos climáticos poderão ser mais fortes do que o esperado anteriormente. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo The Guardian [Aqui!].

Europa aperta o cerco contra produtos brasileiros

Grupos varejistas, ativistas e até a UE vêm defendendo a retirada de itens do Brasil das prateleiras em resposta à política ambiental do governo Bolsonaro. Há 14 anos, boicote semelhante desencadeou a moratória da soja.

desmata 1Área devastada na Amazônia: grupos que pedem boicotes tem que aprovação do “PL da grilagem” acelere desmatamento

Diante de medidas recentes do governo do presidente Jair Bolsonaro, organizações não governamentais e redes varejistas europeias vêm endurecendo o discurso a favor do boicote a produtos agroalimentares brasileiros. De um mês para cá, movimentos do tipo têm ocorrido na Alemanha e no Reino Unido. No ano passado, houve boicote também na Suécia. Fora da Europa, uma organização nos Estados Unidos pede medidas semelhantes.

Nesta sexta-feira (19/06), a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), anunciou querer uma estratégia mais incisiva para evitar que produtos oriundos de áreas de desmatamento na Amazônia cheguem a prateleiras dos supermercados de países do bloco.

Veja o Especial da DW Brasil sobre a Amazônia

A situação preocupa o governo brasileiro. Em junho do ano passado, no contexto da comoção internacional decorrente das queimadas na Amazônia, o Itamaraty enviou circular às embaixadas solicitando informações a respeito de eventuais boicotes sendo observados em outros países.

Pouco antes, em 27 de maio de 2019, a Embaixada do Brasil em Estocolmo, na Suécia, havia reportado ao governo Bolsonaro que a rede de supermercados Paradiset tinha decidido retirar os produtos de origem brasileira de suas prateleiras em decorrência da aprovação, nos cinco primeiros meses da gestão Jair Bolsonaro, de 169 novos pesticidas pelo Ministério da Agricultura – um recorde desde 2005.

Neste ano, entre 20 e 25 de maio, o tema voltou à tona nos telegramas de embaixadas brasileiras. Mensagens emitidas pelos postos de Roma, na Itália, e Londres, na Inglaterra, observaram o surgimento de novos movimentos de boicote a produtos nacionais. Uma dessas cartas afirmava que o veto a produtos brasileiros por redes britânicas de supermercados – e filiais de empresas alemãs no Reino Unido – estava condicionado à aprovação do Projeto de Lei 2633 (antiga Medida Provisória 910), o chamado “PL da grilagem”, que prevê regularização fundiária de terras ocupadas da União.

Outro telegrama citava um estudo realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que prevê que a medida, se aprovada, aceleraria o desmatamento de 11 mil a 16 mil quilômetros quadrados da Floresta Amazônica. A mesma carta informava que as redes inglesas de supermercados podem se sentir compelidas a aderir a um boicote, se o Brasil aprovar uma legislação que propicie o aumento do desmatamento.

Os documentos enviados ao Itamaraty citavam uma carta, publicada em 19 de maio e assinada por 47 empresas, grupos e associações empresariais com operações do Reino Unido – entre os signatários, companhias como Burger King e Tesco. Direcionada aos deputados e senadores brasileiros, o texto citava os incêndios florestais recordes do ano passado e informava estarem os empresários “profundamente preocupados” com o “PL da grilagem”.

A carta encerrava com uma ameaça velada de boicote. “Queremos continuar a buscar e investir no Brasil […] Instamos o governo brasileiro a reconsiderar sua posição e esperamos continuar trabalhando com parceiros no Brasil para demonstrar que o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental podem caminhar juntos.” Conforme telegrama enviado ao Itamaraty, os signatários da carta representam 96,8% dos varejistas britânicos.

Em 9 de junho, o cenário ganhou novo episódio. A ONG alemã Campact lançou uma petição online pedindo que redes de supermercados boicotem produtos brasileiros se o “PL da grilagem” for aprovado. Conforme afirmou à DW Brasil a ativista Svenja Koch, da organização, até a manhã desta sexta-feira, 360 mil assinaturas foram coletadas para a petição.

“Duas redes de supermercados alemãs já assinaram: Aldi Süd e Rewe”, relata. “Pedimos que as diretorias das grandes redes de supermercados alemãs sigam o exemplo de muitos varejistas do Reino Unido e assinem uma carta aberta ameaçando boicotar produtos do Brasil se o PL for em frente.”

Ela vislumbra que as cinco grandes redes de supermercados da Alemanha participem, o que significaria 70% do mercado. “Eles são poderosos, e a decisão deles influencia o comércio internacional”, comenta.

Rejeição por parte de consumidores

Mikael Linder, especialista em marketing agroalimentar e desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, afirma que tem se deparado com uma rejeição, tanto entre consumidores italianos como franceses, a produtos de origem brasileira.

“São pessoas que afirmam não desejar comprar, por exemplo, carne bovina brasileira, justificando que com isso estariam fomentando a destruição da Amazônia e outros prejuízos ao meio ambiente”, afirma ele, à DW Brasil.

Segundo informações obtidas por ele, vários supermercados europeus, atentos a esse fenômeno, estão reduzindo o espaço nas gôndolas para mercadorias brasileiras. “A médio prazo, isso pode afetar muito as vendas. A imagem do produto brasileiro está prejudicada”, diz o pesquisador.

Após questionamento da DW Brasil sobre o impacto que tais movimentos podem representar para o comércio agroalimentar brasileiro, João Adrien, assessor para assuntos socioambientais do Ministério da Agricultura, afirmou que boicotes do tipo “somente prejudicam os produtores rurais que produzem com sustentabilidade e acessam o mercado internacional.”

“Afinal de contas, o desmatamento na região ocorre principalmente de atividades ilegais e não pela agricultura brasileira”, afirma, apontando que a deflorestação decorre de “problemas de regularização fundiária e ordenamento territorial”. “Tais embargos somente prejudicam a renda do produtor rural e a capacidade de investir em tecnologias ainda mais sustentáveis”, diz.

Em evento do Ministério ocorrido nesta quarta-feira, Bolsonaro afirmou que, apesar do aumento do desmatamento na Amazônia, o país é um sucesso em termos de preservação. “Nós somos um exemplo na questão ambiental. Nos criticam lá fora de forma cruel e de forma não verdadeira”, afirmou.

Para o pesquisador Tiago Reis, que estuda ações de combate ao desmatamento e de uso do solo na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, os movimentos contra produtos brasileiros refletem a consciência do consumidor e vêm na esteira de outros ocorridos anteriormente.

“Veja por exemplo os movimentos de boicote a empresas que testavam produtos em animais, os boicotes a marcas famosas de chocolate por estarem ligadas à destruição de habitats de orangotangos para produção de óleo de palma, empresas de café que usavam trabalho escravo, entre outros”, enumera ele, à DW Brasil.

No ano passado, Reis foi um dos idealizadores de uma carta aberta publicada na revista Science propondo que a importação pela União Europeia de produtos possivelmente ligados a desmatamento no Brasil fosse usada como alavanca para negociar medidas “de proteção aos direitos humanos, participação de povos indígenas nas negociações e a implementação de instrumentos de verificação do desmatamento”.

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o “PL da grilagem” é alvo de criticas porque pode permitir a regularização de áreas ocupadas ilegalmente pertencentes à União. No mês passado, a revista Nature Sustainability publicou um estudo – um dos autores é Tiago Reis – demonstrando que a regularização fundiária descolada de medidas e políticas socioambientais pode promover um aumento do desmatamento. “Em pequenas e médias invasões, porque permite a integração delas a mercados formais”, explica Reis. “Em grandes invasões, porque oferece um incentivo e uma recompensa à grilagem.”

Moratória da soja

Um exemplo histórico de movimento de boicote que funcionou foi o ocorrido na década de 2000 – e que acabou resultando na criação da chamada moratória da soja, pacto instituído em 2006. Pelo acordo, firmado entre governos, agroindústria e organização de defesa ambiental, ninguém compraria soja produzida em região de desmatamento da Amazônia. Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018 mostram que deu resultados: a média anual de desmatamento nos 89 municípios que integram o grupo caiu 85% depois de firmado compromisso.

“A moratória da soja previne que a floresta amazônica seja desmatada diretamente para soja. Não resolve todo o problema porque a floresta continua sendo desmatada para outros usos, e também porque nem todas as empresas de soja são signatárias do acordo, portanto, há ainda mercado para soja com desmatamento e formas indiretas de contornar a verificação”, avalia Reis. “Mas com certeza a moratória oferece um exemplo e um sinal que desestimulou muito o desmatamento para soja.”

Para atrair a pressão popular, o Greenpeace liderou um movimento, entre 2004 e 2006, para que os consumidores boicotassem a rede de fast food McDonald’s. “Eles diziam, basicamente, que ‘se você come no McDonald’s, você come a Amazônia'”, lembra Reis. “Foi um sucesso, e a empresa cobrou ação imediata de seus fornecedores, que responderam.”

Além da Europa, também há movimentos populares nos Estados Unidos. Criado em 2018, o Boycott Brazil afirma que “está focado em todos os produtos brasileiros não certificados como sustentáveis”, principalmente “a carne bovina, pois as pastagens são responsáveis por dois terços do desmatamento atual”.

Conforme relatou uma das ativistas do movimento à DW Brasil, as críticas são as políticas dos governos de Bolsonaro e de Donald Trump. Presente nas redes sociais, o grupo pretende lançar um site até o fim do ano para intensificar suas ações.

“Estamos educando os consumidores sobre quais produtos comprar, em vez de tentar um boicote a certos varejistas, o que provavelmente não seria bem-sucedido”, explica ela, que pede para não ser identificada por temer retaliações.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Por causa da Amazônia, de Portugal à Suécia cresce a pressão pelo boicote à carne brasileira

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Dois jornais europeus (um de Portugal e outro da Suécia) publicaram de ontem para hoje matérias que colocam claramente em xeque as exportações da carne bovina produzida pelo Brasil por causa do atual ciclo de desmatamento e fogo que está ocorrendo na Amazônia brasileira.

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No caso português, a matéria assinada pela jornalista Margarida Cardoso informa que um número crescente de açougues e restaurantes portugueses estão trocando a carne brasileira por aquelas produzidas no Uruguai e na Argentina. A razão para isto é simples: os portugueses estão questionando cada vez mais a procedência da carne que irão consumir. 

Essa propensão dos portugueses a não querer consumir carne oriunda de desmatamentos realizados na Amazônia brasileira também está aparecendo em outros países da Europa, incluindo a Suécia que foi palco da primeira convocação de boicote aos produtos agrícolas brasileiros por meio de uma convocação realizada pelo CEO da rede de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg (ver vídeo abaixo dirigido aos brasileiros).

Um elemento novo que está surgindo nos países europeus é que a população parece não estar disposta a esperar pela ação de seus governos para impor de forma difusa um boicote popular aos produtos brasileiros. Esse boicote de natureza popular será mais difícil de ser combatido pelos próprios governantes europeus que não têm demonstrado muita disposição para enfrentar as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, a começar por Angela Merkel que continua defendendo o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, apesar do que está acontecendo na Amazônia.

Diante do quadro que está se formando na Europa, fico curioso sobre como se comportarão os barões do agronegócio exportador diante dos danos evidentes que as políticas anti-ambientais implantadas pelo governo Bolsonaro estão tendo sobre seus lucros.

Seguindo exemplo de Bolsonaro, Ricardo Salles cancela “roadshow” pela Europa

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Fugir do confronto está se tornando uma marca do governo de Salles e Bolsonaro.

Uma característica que parece marcar o governo Bolsonaro é de que se fala grosso para baixo e se foge de enfrentamentos ao menor sinal de controvérsia (tão bem lembrado pelo deputado Zeca Dirceu na contraposição entre Tigrão e Tchutchuca durante debate com o ministro Paulo Guedes).  É que depois do presidente Jair Bolsonaro cancelar sua presença em um evento em que receberia o prêmio de “Personalidade do ano” da Câmara de Comércio Brasileira Americana em Nova York, agora é a vez do antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de cancelar uma viagem que faria por quatro países europeus (Alemanha, França, Inglaterra e Noruega).

Segundo informações fornecidas pela agência FOLHAPRESS, o cancelamento da viagem  se deve à repercussão negativa de uma carta assinada por 602 cientistas europeus e publicada na revista Science no último dia 26,  na qual o signatário demandam da União Europeia o condicionamento de negócios com o Brasil a compromissos com a redução do desmatamento e dos conflitos com povos indígenas no nosso país.

Esse padrão de fuga de situações controversas chega a impressionar pela rapidez com que o presidente Bolsonaro e seus ministros estão sendo constrangidos por uma ampla gama de atores, incluindo, no caso de Ricardo Salles, respeitados membros da comunidade científica internacional.

Mas fugir ao menor sinal de resistência aos planos de desmantelamento de estruturas de proteção ambiental somente deverá ampliar as dificuldades de Ricardo Salles de se apresentar como um interlocutor crível para os principais parceiros comerciais brasileiros, os quais não necessariamente concordam com a opção que está sendo feito pelo avanço do desmatamento na Amazônia, por exemplo.

Como já venho afirmando desde o início de 2019, cedo ou tarde  (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil vai receber uma série de punições não apenas por causa da ampliação do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, mas também pela uso abusivo de agrotóxicos altamente tóxicos nas nossas principais monoculturas de exportação e pela ameaça de genocídio contra os povos indígenas.  

Essa possibilidade aumenta exponencialmente por estar ficando rapidamente evidente que Ricardo Salles não apenas é despreparado e incompetente para o cargo de ministro do Meio Ambiente do país com as maiores áreas de floresta tropical da Terra, mas por procurar esconder sua incompetência por meio de táticas autoritárias, em especial contra os servidores do IBAMA e do ICMBio.

Assim, com o cancelamento de um roadshow onde certamente seria instado a oferecer respostas objetivas aos problemas que estão sendo causados pela postura antiecológica do governo Bolsonaro, além de salvar alguns tostões para os cofres federais, Ricardo Salles se poupará de alguns vexames inevitáveis. Resta saber até quando Ricardo Salles poderá ficar protegido dentro do território nacional, já que as cobranças certamente aumentarão, especialmente a partir da carta dos 602 pesquisadores que a Science publicou e ele inicialmente desdenhou.

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa

A vida silvestre e a saúde humana estão ameaçadas, dizem os cientistas, enquanto a Syngenta aceita “uma demanda inegável” da sociedade por mudanças

Jorge Casado recolhe uma amostra de água de um riacho. Foto: Jonathan Findalen / Greenpeace

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa, segundo um estudo. Os cientistas dizem que a contaminação é perigosa para a vida selvagem e pode aumentar o desenvolvimento de micróbios resistentes a drogas.

Mais de 100 agrotóxicos e 21 medicamentos foram detectados nas 29  vias aquáticas analisadas em 10 países europeus, incluindo o Reino Unido. Um quarto dos produtos químicos identificados são proibidos, enquanto metade dos corpos aquáticos analisados tinham pelo menos um pesticida acima dos níveis permitidos.

Os pesquisadores disseram que o alto número de agrotóxicos e drogas encontrados significa que misturas complexas estavam presentes no ambiente, com impactos ainda desconhecidos.  Agrotóxicos são reconhecidos como um fator na queda livre de populações de muitos insetos e das aves que dependem deles para a alimentação. O fato dos inseticidas estariam poluindo os rios ingleses já sido determinado em 2017.

“A importância do nosso novo trabalho é demonstrar a prevalência de substâncias químicas biologicamente ativas em cursos de água em toda a Europa”, disse Paul Johnston, nos laboratórios de pesquisa do Greenpeace na Universidade de Exeter. “Existe o potencial para efeitos ecossistêmicos.”

A pesquisa, publicada na revista Science of the Total Environment, encontrou herbicidas, fungicidas e inseticidas, assim como antimicrobianos usados na pecuária. O risco para as pessoas de resistência aos medicamentos antimicrobianos é bem conhecido, mas Johnston destacou a resistência aos fungicidas também. “Existem algumas infecções fúngicas muito desagradáveis que estão aumentando bastante em hospitais”, disse ele.

Uma das maiores fabricantes de pesticidas do mundo, a Syngenta, anunciou uma “grande mudança na estratégia global” na segunda-feira, para levar em conta as preocupações da sociedade e reduzir os resíduos no meio ambiente.

“Há uma demanda inegável para uma mudança em nossa indústria”, disse Alexandra Brand, diretora de sustentabilidade da Syngenta. “Vamos colocar nossa inovação mais fortemente a serviço das fazendas tornarem-se resilientes às mudanças climáticas e melhor adaptadas às exigências dos consumidores, incluindo a redução das emissões de carbono e a reversão da erosão do solo e do declínio da biodiversidade”.

Outra grande fabricante de pesticidas, a Bayer, disse na segunda-feira que tornava públicos todos os 107 estudos submetidos aos reguladores europeus sobre a segurança de seu controverso herbicida glifosato.

A transparência é um catalisador para a confiança, portanto, mais transparência é uma coisa boa para consumidores, políticos e empresas”, disse Liam Condon, presidente da Bayer Crop Science. Em março, um júri federal dos EUA descobriu que o herbicida, conhecido como Roundup, era um fator substancial para causar o câncer de um homem na Califórnia.

As técnicas de teste usadas na nova pesquisa permitiram detectar apenas um subconjunto de agrotóxicos. Dois  agrotóxicos muito comuns – glifosato e clorotalonil – não foram incluídos no estudo, o que significa que os resultados representam um nível mínimo de contaminação. A pesquisa concentrou-se em riachos, já que estes abrigam uma grande proporção de vida selvagem aquática.

A detecção de diversos agrotóxicos que já foram proibidos  há bastante tempo não foi necessariamente devido ao uso ilegal continuado, disseram os cientistas, mas pode ser o resultado da lixiviação de produtos químicos persistentes que permaneceram nos solos. O estudo foi realizado antes que os inseticidas mais utilizados fossem banidos pela União Europeia para todos os usos ao ar livre.

A Irish Water disse na segunda-feira que os níveis de permitidos de agrotóxicos da UE estavam sendo violados no abastecimento público de água em toda a Irlanda. Na Suíça, outro novo estudo descobriu que os solos em 93% das fazendas orgânicas estavam contaminados com inseticidas, assim como 80% das áreas que os agricultores reservaram para a vida selvagem.

Uma pesquisa revelou em 2013 que os inseticidas foram devastadoras sobre libélulas, caracóis e outras espécies que vivem em corpos aquáticos na Holanda. A poluição era tão severa em lugares que a água da vala em si poderia ter sido usada como agrotóxico. Um estudo realizado na França em 2017 descobriu que praticamente todas as fazendas poderiam reduzir o uso de pesticidas enquanto produziam a mesma quantidade de comida.

Johnston disse: “Os agricultores não querem poluir os rios, e as companhias de água não querem remover toda essa poluição, por isso temos que trabalhar para reduzir a dependência de agrotóxicos e medicamentos veterinários por meio de uma agricultura mais sustentável. Este não é um caso de nós contra agricultores ou empresas de água. ”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]