Seguindo exemplo de Bolsonaro, Ricardo Salles cancela “roadshow” pela Europa

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Fugir do confronto está se tornando uma marca do governo de Salles e Bolsonaro.

Uma característica que parece marcar o governo Bolsonaro é de que se fala grosso para baixo e se foge de enfrentamentos ao menor sinal de controvérsia (tão bem lembrado pelo deputado Zeca Dirceu na contraposição entre Tigrão e Tchutchuca durante debate com o ministro Paulo Guedes).  É que depois do presidente Jair Bolsonaro cancelar sua presença em um evento em que receberia o prêmio de “Personalidade do ano” da Câmara de Comércio Brasileira Americana em Nova York, agora é a vez do antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de cancelar uma viagem que faria por quatro países europeus (Alemanha, França, Inglaterra e Noruega).

Segundo informações fornecidas pela agência FOLHAPRESS, o cancelamento da viagem  se deve à repercussão negativa de uma carta assinada por 602 cientistas europeus e publicada na revista Science no último dia 26,  na qual o signatário demandam da União Europeia o condicionamento de negócios com o Brasil a compromissos com a redução do desmatamento e dos conflitos com povos indígenas no nosso país.

Esse padrão de fuga de situações controversas chega a impressionar pela rapidez com que o presidente Bolsonaro e seus ministros estão sendo constrangidos por uma ampla gama de atores, incluindo, no caso de Ricardo Salles, respeitados membros da comunidade científica internacional.

Mas fugir ao menor sinal de resistência aos planos de desmantelamento de estruturas de proteção ambiental somente deverá ampliar as dificuldades de Ricardo Salles de se apresentar como um interlocutor crível para os principais parceiros comerciais brasileiros, os quais não necessariamente concordam com a opção que está sendo feito pelo avanço do desmatamento na Amazônia, por exemplo.

Como já venho afirmando desde o início de 2019, cedo ou tarde  (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil vai receber uma série de punições não apenas por causa da ampliação do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, mas também pela uso abusivo de agrotóxicos altamente tóxicos nas nossas principais monoculturas de exportação e pela ameaça de genocídio contra os povos indígenas.  

Essa possibilidade aumenta exponencialmente por estar ficando rapidamente evidente que Ricardo Salles não apenas é despreparado e incompetente para o cargo de ministro do Meio Ambiente do país com as maiores áreas de floresta tropical da Terra, mas por procurar esconder sua incompetência por meio de táticas autoritárias, em especial contra os servidores do IBAMA e do ICMBio.

Assim, com o cancelamento de um roadshow onde certamente seria instado a oferecer respostas objetivas aos problemas que estão sendo causados pela postura antiecológica do governo Bolsonaro, além de salvar alguns tostões para os cofres federais, Ricardo Salles se poupará de alguns vexames inevitáveis. Resta saber até quando Ricardo Salles poderá ficar protegido dentro do território nacional, já que as cobranças certamente aumentarão, especialmente a partir da carta dos 602 pesquisadores que a Science publicou e ele inicialmente desdenhou.

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa

A vida silvestre e a saúde humana estão ameaçadas, dizem os cientistas, enquanto a Syngenta aceita “uma demanda inegável” da sociedade por mudanças

Jorge Casado recolhe uma amostra de água de um riacho. Foto: Jonathan Findalen / Greenpeace

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa, segundo um estudo. Os cientistas dizem que a contaminação é perigosa para a vida selvagem e pode aumentar o desenvolvimento de micróbios resistentes a drogas.

Mais de 100 agrotóxicos e 21 medicamentos foram detectados nas 29  vias aquáticas analisadas em 10 países europeus, incluindo o Reino Unido. Um quarto dos produtos químicos identificados são proibidos, enquanto metade dos corpos aquáticos analisados tinham pelo menos um pesticida acima dos níveis permitidos.

Os pesquisadores disseram que o alto número de agrotóxicos e drogas encontrados significa que misturas complexas estavam presentes no ambiente, com impactos ainda desconhecidos.  Agrotóxicos são reconhecidos como um fator na queda livre de populações de muitos insetos e das aves que dependem deles para a alimentação. O fato dos inseticidas estariam poluindo os rios ingleses já sido determinado em 2017.

“A importância do nosso novo trabalho é demonstrar a prevalência de substâncias químicas biologicamente ativas em cursos de água em toda a Europa”, disse Paul Johnston, nos laboratórios de pesquisa do Greenpeace na Universidade de Exeter. “Existe o potencial para efeitos ecossistêmicos.”

A pesquisa, publicada na revista Science of the Total Environment, encontrou herbicidas, fungicidas e inseticidas, assim como antimicrobianos usados na pecuária. O risco para as pessoas de resistência aos medicamentos antimicrobianos é bem conhecido, mas Johnston destacou a resistência aos fungicidas também. “Existem algumas infecções fúngicas muito desagradáveis que estão aumentando bastante em hospitais”, disse ele.

Uma das maiores fabricantes de pesticidas do mundo, a Syngenta, anunciou uma “grande mudança na estratégia global” na segunda-feira, para levar em conta as preocupações da sociedade e reduzir os resíduos no meio ambiente.

“Há uma demanda inegável para uma mudança em nossa indústria”, disse Alexandra Brand, diretora de sustentabilidade da Syngenta. “Vamos colocar nossa inovação mais fortemente a serviço das fazendas tornarem-se resilientes às mudanças climáticas e melhor adaptadas às exigências dos consumidores, incluindo a redução das emissões de carbono e a reversão da erosão do solo e do declínio da biodiversidade”.

Outra grande fabricante de pesticidas, a Bayer, disse na segunda-feira que tornava públicos todos os 107 estudos submetidos aos reguladores europeus sobre a segurança de seu controverso herbicida glifosato.

A transparência é um catalisador para a confiança, portanto, mais transparência é uma coisa boa para consumidores, políticos e empresas”, disse Liam Condon, presidente da Bayer Crop Science. Em março, um júri federal dos EUA descobriu que o herbicida, conhecido como Roundup, era um fator substancial para causar o câncer de um homem na Califórnia.

As técnicas de teste usadas na nova pesquisa permitiram detectar apenas um subconjunto de agrotóxicos. Dois  agrotóxicos muito comuns – glifosato e clorotalonil – não foram incluídos no estudo, o que significa que os resultados representam um nível mínimo de contaminação. A pesquisa concentrou-se em riachos, já que estes abrigam uma grande proporção de vida selvagem aquática.

A detecção de diversos agrotóxicos que já foram proibidos  há bastante tempo não foi necessariamente devido ao uso ilegal continuado, disseram os cientistas, mas pode ser o resultado da lixiviação de produtos químicos persistentes que permaneceram nos solos. O estudo foi realizado antes que os inseticidas mais utilizados fossem banidos pela União Europeia para todos os usos ao ar livre.

A Irish Water disse na segunda-feira que os níveis de permitidos de agrotóxicos da UE estavam sendo violados no abastecimento público de água em toda a Irlanda. Na Suíça, outro novo estudo descobriu que os solos em 93% das fazendas orgânicas estavam contaminados com inseticidas, assim como 80% das áreas que os agricultores reservaram para a vida selvagem.

Uma pesquisa revelou em 2013 que os inseticidas foram devastadoras sobre libélulas, caracóis e outras espécies que vivem em corpos aquáticos na Holanda. A poluição era tão severa em lugares que a água da vala em si poderia ter sido usada como agrotóxico. Um estudo realizado na França em 2017 descobriu que praticamente todas as fazendas poderiam reduzir o uso de pesticidas enquanto produziam a mesma quantidade de comida.

Johnston disse: “Os agricultores não querem poluir os rios, e as companhias de água não querem remover toda essa poluição, por isso temos que trabalhar para reduzir a dependência de agrotóxicos e medicamentos veterinários por meio de uma agricultura mais sustentável. Este não é um caso de nós contra agricultores ou empresas de água. ”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]